MORTALITY FROM ACUTE MYOCARDIAL INFARCTION: IMPACT OF INFARCTION CARE NETWORKS IN BRAZIL
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511091223
Maria Beatriz Lima de Melo; Isabela Santos Milhomem; Isadora Mendes Fernandes; Rodrigo Fontes do Amaral Silveira; Maria Fernanda Ernesto Silva Quaresma; Felipe Jorge Siqueira; Joao Vitor Lima de Pinho Moreira dos Santos; Pedro Arthur Elias Machado; Ana Luiza Serpa Sparrenberger1; Luciano Janussi Vacanti2
RESUMO
As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo, e o infarto agudo do miocárdio (IAM) destaca-se pelo alto impacto e pelas desigualdades regionais no Brasil, onde atrasos no atendimento, maior mortalidade feminina e falhas no atendimento pré-hospitalar agravam o quadro. O fortalecimento das redes de atenção é essencial para reduzir os óbitos e promover equidade no cuidado cardiovascular.
A metodologia consistiu em uma revisão integrativa de literatura nas bases PubMed e BVS (2020–2025), utilizando os descritores ‘Infarto Agudo do Miocárdio’, ‘Redes de Atenção’ e ‘Brasil’. Das 223 publicações encontradas, 10 artigos preencheram os critérios de inclusão. Os estudos apontaram mortalidade hospitalar média de 9,6% por IAM com supra de ST, redução após implementação do SAMU, mortalidade de 5,6% em estratégias farmacoinvasivas e tendência de queda desigual entre as regiões brasileiras.
Os resultados mostraram mortalidade hospitalar média de 9,6% por IAM com supra de ST, redução após implementação do SAMU, maior atraso feminino na busca por atendimento e eficácia da estratégia fármaco invasiva, com mortalidade de 5,6% e boa acurácia dos escores TIMI e GRACE.
A discussão evidencia queda desigual da mortalidade no país, com piores índices no Norte e Nordeste e maior vulnerabilidade entre mulheres e indígenas, destacando a necessidade de linhas de cuidado integradas, telemedicina, trombólise pré-hospitalar e capacitação profissional.
Conclui-se que, embora haja tendência de redução das mortes por IAM, persistem barreiras estruturais e regionais, sendo fundamentais o fortalecimento das redes integradas, o investimento em educação e tecnologia e a equidade de acesso para reduzir a mortalidade e padronizar a qualidade da assistência no Brasil.
Palavras-chave: mortalidade, IAM, Redes de Atenção, Brasil.
INTRODUÇÃO
As doenças cardiovasculares representam a principal causa de morte em escala global, respondendo por cerca de 17,9 milhões de óbitos anuais, dos quais mais de 75% ocorrem em países de baixa e média renda. Dentre essas condições, o infarto agudo do miocárdio (IAM) se destaca como um dos maiores problemas de saúde pública, tanto pelo seu impacto direto na mortalidade quanto pelas sequelas funcionais e pelos altos custos ao sistema de saúde. No Brasil, estima-se que o IAM seja responsável por milhares de internações anuais, com custos bilionários ao Sistema Único de Saúde (SUS), ao mesmo tempo em que evidencia desigualdades regionais no acesso ao diagnóstico precoce, à reperfusão e à reabilitação.
Apesar dos avanços terapêuticos, como a intervenção coronária percutânea (ICP) primária e as estratégias fármaco-invasivas, a mortalidade intra-hospitalar por IAM permanece elevada no país, principalmente em regiões historicamente mais vulneráveis, como Norte e Nordeste. Estudos apontam que o tempo decorrido entre o início dos sintomas e o atendimento (“delay”) é determinante para o prognóstico, sendo que atrasos superiores a 12 horas reduzem drasticamente as chances de reperfusão eficaz e aumentam a letalidade. Esses atrasos estão relacionados a múltiplos fatores, como sexo, idade, distância até o hospital e desigualdade socioeconômica, que comprometem de forma decisiva a sobrevida.
Outro aspecto relevante diz respeito às diferenças de sexo nos desfechos do IAM. Evidências mostram que as mulheres, além de frequentemente apresentarem diagnóstico mais tardio, são mais idosas, têm maior prevalência de comorbidades e apresentam maior mortalidade intra-hospitalar quando comparadas aos homens, mesmo após ajustes estatísticos. Esse dado sugere não apenas diferenças biológicas e fisiopatológicas, mas também barreiras de acesso, vieses diagnósticos e lacunas na prevenção cardiovascular feminina.
A análise da mortalidade intra e extra-hospitalar reforça ainda mais a complexidade do problema. Enquanto a mortalidade intra-hospitalar apresenta discreta tendência de redução, os óbitos extra-hospitalares por IAM vêm aumentando, representando até 42% das mortes totais no Brasil. Esse dado revela falhas estruturais no atendimento pré-hospitalar, incluindo a demora no reconhecimento dos sintomas pela população, deficiências no acionamento rápido de serviços de emergência e fragilidades no transporte até centros de referência. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), implantado em 2004, mostrou impacto positivo na redução da mortalidade, mas sua cobertura e integração com a rede hospitalar ainda são limitadas em muitas regiões.
No Brasil, as desigualdades regionais e socioeconômicas moldam de forma decisiva os desfechos do IAM. Capitais com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apresentam menores taxas de mortalidade hospitalar, enquanto regiões mais pobres enfrentam maior dificuldade de acesso a terapias de reperfusão, refletindo o peso das condições estruturais e sociais no cuidado cardiovascular. Esse cenário reforça a urgência de políticas públicas que integrem prevenção, educação em saúde, fortalecimento da rede pré-hospitalar e expansão de linhas de cuidado organizadas para o IAM.
Diante desse panorama, torna-se evidente que o IAM é um problema complexo, influenciado por fatores biológicos, sociais, econômicos e estruturais do sistema de saúde. Compreender a morbimortalidade hospitalar, os determinantes do atraso no atendimento, as diferenças de sexo nos desfechos, as variações regionais e o impacto de serviços de urgência como o SAMU é fundamental para subsidiar intervenções mais eficazes.
Objetivo do estudo: analisar, a partir da revisão de literatura reunida no fichamento, os principais fatores associados à morbimortalidade do infarto agudo do miocárdio no Brasil, considerando desigualdades regionais, diferenças de sexo, impacto do atraso no atendimento e papel dos serviços de emergência, a fim de discutir estratégias para redução da mortalidade e fortalecimento das linhas de cuidado cardiovascular no país.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1. A carga global e regional do Infarto Agudo do Miocárdio
O infarto agudo do miocárdio (IAM) constitui uma das principais causas de morbimortalidade no mundo e a maior causa de morte cardiovascular em países de baixa e média renda.
Apesar do declínio expressivo das taxas de mortalidade em nações de alta renda, países da América Latina e Caribe continuam apresentando índices elevados e desiguais, refletindo desigualdades socioeconômicas e falhas no acesso à rede de urgência.
No Brasil, o IAM representa um desafio persistente para o Sistema Único de Saúde (SUS), com destaque para regiões historicamente vulneráveis, como o Nordeste, onde a mortalidade hospitalar permanece alta e fortemente associada ao atraso no atendimento (delay), distância até o hospital e desigualdade de recursos.
2. Fatores determinantes do prognóstico: tempo, acesso e desigualdade
Estudos nacionais e internacionais convergem ao demonstrar que o tempo até a reperfusão é o fator mais crítico no prognóstico do IAM, sobretudo nas formas com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST). O “delay” total é influenciado por variáveis clínicas e sociais, como sexo, distância geográfica e nível de escolaridade.
Mulheres, por exemplo, tendem a demorar mais a procurar atendimento, chegando ao hospital com maior tempo de isquemia e, consequentemente, piores desfechos clínicos — incluindo maior mortalidade intra-hospitalar e complicações cardiovasculares.
Além disso, a análise dos óbitos intra e extra-hospitalares nas capitais brasileiras (2007–2016) revelou uma tendência crescente dos óbitos extra-hospitalares, sobretudo em regiões com baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) e menor expectativa de anos de estudo.
Isso indica que as barreiras pré-hospitalares ainda representam um dos maiores gargalos do cuidado cardiovascular no país.
3. Estratégias de organização da linha de cuidado
A literatura reforça que a implantação de linhas de cuidado estruturadas é essencial para reduzir a mortalidade por IAM. Essas linhas integram o atendimento pré-hospitalar (SAMU), o tratamento hospitalar e o seguimento pós-alta.
O estudo de Oliveira et al. (2022) destacou que a implantação do SAMU no Grande ABC reduziu significativamente a mortalidade hospitalar por IAM, demonstrando o impacto positivo da atenção móvel de urgência no contexto do SUS. A análise qualitativa do estudo também evidenciou desafios logísticos, como escassez de leitos, necessidade de telemedicina e capacitação contínua de profissionais.
De forma complementar, a experiência de Belo Horizonte (2010–2020) comprovou que a estratégia fármaco-invasiva — trombólise inicial seguida de intervenção coronária percutânea (ICP) — é eficaz e viável em redes públicas, alcançando mortalidade semelhante à de países desenvolvidos.
Esses resultados sustentam a possibilidade de ampliar modelos sustentáveis de cuidado em STEMI no Brasil, mesmo em contextos de recursos limitados.
4. Avanços terapêuticos e o estado da arte internacional
No cenário internacional, o ensaio clínico STREAM-2 (2023) atualizou a evidência sobre a estratégia farmacoinvasiva com meia dose de tenecteplase (TNK), demonstrando eficácia e segurança comparáveis à ICP primária em pacientes idosos, especialmente quando há atraso logístico para o cateterismo.
De modo semelhante, o registro espanhol CODI-IAM (2010–2020) reforçou que o tipo de primeiro contato médico (ambulância, hospital comunitário ou com ICP) é determinante para a redução do tempo até a reperfusão e melhora da sobrevida em 1 ano.
Tais evidências internacionais fortalecem o conceito de redes integradas de cuidado cardiovascular, nas quais o atendimento pré-hospitalar rápido e protocolos regionais de triagem são pilares para resultados favoráveis.
5. Desigualdade e gênero na mortalidade cardiovascular
A literatura brasileira destaca diferenças marcantes entre homens e mulheres no contexto do IAM. As mulheres tendem a chegar mais tardiamente aos serviços, possuem maior prevalência de fatores de risco (como diabetes e hipertensão) e menor acesso a terapias de reperfusão, resultando em maior mortalidade intra-hospitalar.
Esses achados reforçam a necessidade de abordagens específicas de gênero e de educação em saúde populacional para reduzir o “delay” no atendimento e incentivar o reconhecimento precoce dos sintomas.
6. Síntese teórica e implicações para o SUS
A partir da análise das evidências revisadas, observa-se que o estado da arte sobre mortalidade por IAM no Brasil aponta para três eixos centrais:
1. Tempo é o determinante principal do prognóstico — o atraso no atendimento e na reperfusão é responsável pela maior parte das mortes evitáveis;
2. Desigualdade regional e socioeconômica — Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de mortalidade proporcional, reflexo de falhas estruturais e acesso desigual;
3. Efetividade das redes integradas de atenção — experiências locais e internacionais mostram que o fortalecimento do atendimento pré-hospitalar, integração hospitalar e estratégias farmacoinvasivas são determinantes para redução da mortalidade.
Esses achados sustentam a relevância de políticas públicas voltadas à implementação de linhas de cuidado cardiovascular no SUS, com foco na redução do tempo porta-agulha, ampliação da rede de reperfusão e incorporação de modelos farmacoinvasivos viáveis em regiões de recursos limitados.
ESTADO DA TÉCNICA
O estado da técnica no manejo do IAMCSST tem evoluído em direção à integração tecnológica e logística das redes de atenção. O uso de telemedicina pré-hospitalar, trombólise farmacoinvasiva de meia dose (STREAM-2) e monitoramento eletrônico de indicadores de tempo e desfechos (como no CODI-IAM) representam inovações tecnológicas que permitem reduzir o tempo até a reperfusão, melhorar a estratificação de risco e padronizar condutas. No Brasil, a consolidação de protocolos baseados em evidências internacionais e o uso de ferramentas digitais para regulação do fluxo do paciente são aspectos técnicos em expansão, compondo o novo paradigma de linha de cuidado cardiovascular inteligente e equitativa.
METODOLOGIA
Foi realizada uma Revisão de Literatura com o objetivo de analisar o impacto do cuidado prestado pelas Redes de Atenção à Saúde nos índices de mortalidade por Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) no Brasil. A busca foi conduzida nas bases de dados PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando os descritores “Infarto Agudo do Miocárdio”, “Redes de Atenção” e “Brasil”, combinados pelo operador booleano “AND”. O período de análise compreendeu publicações entre 2020 e 2025.
Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, revisões integrativas e estudos observacionais que abordassem a organização das redes de atenção e seus efeitos sobre a mortalidade por IAM em território brasileiro. Foram excluídos estudos que: não apresentavam dados relacionados à mortalidade; tratavam de populações fora do contexto brasileiro; estavam em idiomas diferentes do português e inglês.
A análise qualitativa dos artigos selecionados foi realizada por meio de leitura crítica e categorização temática dos achados, considerando aspectos como estrutura das redes de atenção, atendimento realizado nas unidades de saúde e taxas de mortalidade hospitalar e pós-alta. Os resultados foram sintetizados de forma descritiva e comparativa, evidenciando convergências e divergências entre os estudos.
RESULTADOS
A partir da leitura e análise crítica das publicações selecionadas, foi construída a tabela a seguir, a qual consta com os principais achados, nome dos autores e ano de publicação das referências selecionadas.
Tabela 1 – Principais achados
| Autores | Ano | Principais achados |
| BRANT L C C, PASSAGLIA L G. | 2022 | O trabalho discute os resultados de uma metanálise que avaliou a mortalidade hospitalar por IAM em países latino-americanos, entre 2000 e 2020, destacando as disparidades regionais e a necessidade de organizar sistemas de cuidado integrados. O Brasil apresentou taxa de mortalidade hospitalar média por IAM com superdesnivelamento do segmento ST (IAMCSST) de 9,6%, valor muito superior aos observados em países desenvolvidos, onde a letalidade pode ser inferior a 3%. A análise mostrou redução de mortalidade associada a maior taxa de reperfusão e avanços no tratamento. Dessa forma, os autores defendem a implementação ampla da linha de cuidado ao IAM, que inclui diagnóstico rápido, reperfusão precoce e integração entre os serviços de saúde e telemedicina. |
| CANCILLIER, et al. | 2022 | Esse estudo observacional, retrospectivo e descritivo teve como objetivo comparar o Patient Delay (intervalo de tempo entre o início dos sintomas e a chegada ao hospital) e o perfil de acometimento dos pacientes com IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST). Em relação ao tempo de demora na procura por atendimento médico, o gênero feminino mostrou maior demora do que o masculino, evento associado ao aparecimento de sintomas atípicos no IAM em mulheres, enquanto o sexo masculino tende a apresentar sintomas mais precoces e intensos. Além disso, a menor distância até o hospital (<10 km) esteve associada à chegada mais precoce. A artéria descendente anterior foi a mais acometida, e o tratamento percutâneo o mais realizado, enquanto a trombólise ocorreu em casos com menos de 2 horas de dor e o tratamento conservador (apenas farmacológico) nos atendimentos acima de 12 horas. |
| OLIVEIRA, SANTOS, NOVAES. | 2022 | Esse estudo, que utilizou métodos mistos em sua análise, analisou o desempenho do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) como fator para a melhora do prognóstico da mortalidade de IAM, na região do Grande ABC (SP). Em sua análise quantitativa, observou-se uma redução estatisticamente significativa na mortalidade hospitalar por IAM após a implementação do serviço: queda de 2,89 por 100 mil habitantes e tendência mensal de redução de 0,04%. Após comparação com uma região controle, foi confirmado o impacto positivo do SAMU, indicando que o atendimento pré-hospitalar contribui para o melhor prognóstico de pacientes com IAM. Já para a análise qualitativa, feita a partir de entrevistas com profissionais da área, o estudo mostrou que o serviço tem papel fundamental na resposta rápida em casos de emergência, mas que enfrenta desafios, como escassez de leitos hospitalares, necessidade de ampliação da telemedicina e capacitação contínua das equipes. |
| NASCIMENTO, BRITO, LIMA. | 2020 | Esse estudo observacional de coorte retrospectivo teve como objetivo relacionar a mortalidade por lesão aguda renal (LRA) em pacientes internados por Insuficiência Cardíaca (IC) descompensada ou por IAM, em regiões de menor desenvolvimento socioeconômico. De 81 pacientes avaliados, 19,7% apresentaram IAM recente como causa de admissão hospitalar. Além disso, pacientes com IAM e LRA apresentaram maior mortalidade (32%) e pior evolução clínica, reforçando que LRA é um marcador de gravidade e um fator de risco independente para óbito em paciente com eventos isquêmicos agudos. Além disso, o estudo pontua que as condições socioeconômicas influenciam diretamente o desfecho clínico de pacientes com IAM e LRA, e destaca que fatores como nível de renda, acesso limitado a serviços de saúde especializados, carência de recursos de diagnóstico e atendimento tardio estão entre os principais determinantes que agravam o quadro clínico. |
| ABREU S L L, et al. | 2021 | Esse estudo ecológico teve como objetivo analisar os óbitos intra e extra-hospitalares por IAM em 27 capitais brasileiras entre 2007 e 2016. Constatou-se que 41,7% dos óbitos ocorreram fora do hospital, evidenciando que a mortalidade extra-hospitalar vem aumentando ao longo dos anos, enquanto a intra-hospitalar apresenta-se estável, com discreta tendência de redução. |
| TIMÓTEO AT. | 2021 | O artigo comenta estudo ecológico sobre a mortalidade por infarto agudo do miocárdio (IAM) no Brasil entre 2007–2016. Verificou discreta redução dos óbitos intra-hospitalares e aumento expressivo dos extra-hospitalares (42% do total). Homens, idosos e solteiros foram os mais afetados. As capitais com maior IDH apresentaram menor mortalidade hospitalar, mas persistem desigualdades regionais. O autor destaca a urgência em ampliar linhas de cuidado e fortalecer o atendimento pré-hospitalar para reduzir a mortalidade. |
| SILVA D, RODRIGUES R, SOUZA L. | 2021 | Estudo descritivo e retrospectivo que analisou a morbimortalidade hospitalar por IAM no Brasil entre 2011–2019. Observou aumento das internações e discreta queda da mortalidade hospitalar, embora ainda elevada, principalmente entre idosos. As Regiões Norte e Nordeste apresentaram maiores taxas de mortalidade proporcional, refletindo desigualdades de acesso. Os autores ressaltam a importância de políticas de prevenção e ampliação da rede de atendimento cardiológico. |
| MORAES, P. I. de M. et al. | 2023 | Foi realizada uma coorte prospectiva de 2.710 pacientes com IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST) tratados com estratégia fármaco-invasiva em rede pública de São Paulo (2010–2020). O tempo porta-agulha mediano foi de 70 minutos e a mortalidade hospitalar de 5,6%. Houve correlação entre tempos de reperfusão prolongados e piores desfechos, embora com taxas gerais favoráveis. Os escores TIMI (AUC 0,80) e GRACE (AUC 0,86) mostraram excelente acurácia prognóstica. O estudo evidencia a viabilidade e eficácia da estratégia fármaco-invasiva no SUS. |
DISCUSSÃO
A mortalidade por infarto agudo do miocárdio (IAM) no Brasil tem apresentado declínio nas últimas décadas, embora de forma marcadamente heterogênea entre regiões e grupos populacionais. Dados nacionais referentes ao período de 1996 e 2016 demonstraram redução global das taxas, porém o Nordeste manteve índices persistentemente elevados e, em determinados intervalos, verificou-se aumento da mortalidade entre mulheres, refletindo desigualdades no acesso ao diagnóstico e tratamento, além de fatores socioeconômicos e estruturais distintos entre as regiões do país.
A predominância de internações e óbitos por IAM na região Sudeste pode ser explicada pela maior densidade populacional e melhor acesso aos serviços de saúde. Em contrapartida, as taxas mais elevadas de mortalidade no Nordeste refletem as dificuldades de infraestrutura, maior distância dos centros de referência e o predomínio de municípios de pequeno porte com recursos limitados. Destaca-se, também, desigualdades raciais, com maior mortalidade na população indígena, o que evidencia fragilidades persistentes no acesso e na atenção à saúde desses grupos. Tais achados reforçam a necessidade de políticas públicas mais abrangentes e efetivas, voltadas à prevenção, ao diagnóstico precoce e manejo oportuno do IAM, com ênfase nos grupos populacionais mais vulneráveis e nas regiões com maiores barreiras assistenciais.
Os resultados de estudos multicêntricos latino-americanos indicam que a mortalidade hospitalar por IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST) é de aproximadamente 9,9% na região da América Latina e Caribe, é de cerca de 9,6% no Brasil. Esses valores permanecem consideravelmente mais altos aos observados em países desenvolvidos, onde a mortalidade varia entre 2,5% e 3,5% nos casos tratados com angioplastia primária.
Essa discrepância é atribuída à menor taxa de reperfusão e à carência de redes de atenção devidamente estruturadas. A implementação de linhas de cuidado organizadas e interligadas, desde o atendimento pré-hospitalar até a reabilitação, tem sido defendida como estratégia fundamental para reduzir a mortalidade e promover a padronização da qualidade da assistencial.
No contexto brasileiro, o fortalecimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) tem se mostrado determinante na redução da mortalidade por IAM. Estudo conduzido na Região do Grande ABC evidenciou queda significativa nas taxas de óbito hospitalar por IAM após a implantação do SAMU, associada à maior eficiência da regulação e no encaminhamento dos pacientes. Contudo, persistem desafios operacionais e estruturais, como limitações de leitos, deficiência na capacitação das equipes e carência de telemedicina integrada, que ainda restringem o pleno potencial dessa rede.
As estratégias fármaco-invasivas têm se mostrado essenciais em locais onde a angioplastia primária não é acessível dentro da janela terapêutica. O ensaio STREAM-2 (Van de Werf et al., 2023) demonstrou que o uso de tenecteplase em meia dose, seguido de angiografia entre 6 e 24 horas após randomização, apresentou eficácia semelhante à angioplastia primária em pacientes idosos com IAMCSSTl.
O estudo, envolvendo 604 pacientes de 49 centros, evidenciou resolução do segmento ST ≥50% em 85,2% dos pacientes submetidos ao tratamento fármaco-invasiva e fluxo TIMI 3 em cerca de 87%, resultados equivalentes qos observados com intervenção coronária percutânea (ICP) primária. as taxas combinadas de mortalidade, choque, insuficiência cardíaca ou reinfarto em 30 dias foi semelhante entre os grupos (12,8% vs. 13,3%), embora tenha havido discreto aumento de hemorragia intracraniana (1,5%), associada, principalmente, à anticoagulação excessiva ou à hipertensão não controlada. Esses dados reforçam a segurança da fibrinólise em meia dose para idosos, desde que respeitadas as contraindicações e mantida a vigilância quanto a eventos hemorrágicos.
De forma complementar, a revisão publicada na Revista Española de Cardiología (2023) destacou que a combinação de fibrinólise precoce e subsequente intervenção coronariana percutânea realizada entre 3 e 24 horas reduz significativamente as taxas de mortalidade, reinfarto e insuficiência cardíaca em comparação à fibrinólise isolada, sobretudo em regiões com limitações estruturais e logísticas. O estudo enfatiza que a fibrinólise pré-hospitalar associada à ICP programada é altamente custo-efetiva em sistemas de saúde com baixa densidade de laboratórios de hemodinâmica e deve ser priorizada em estratégias nacionais de redes de infarto, especialmente no cenário brasileiro.
No contexto nacional, um registro prospectivo de 10 anos de uma rede fármaco-invasiva com 2.710 pacientes, evidenciou mortalidade intra-hospitalar de 5,6%, confirmando a eficácia do modelo quando há organização logística e protocolos assistenciais bem definidos. Além disso, estudos regionais no Rio Grande do Sul apontaram reperfusão em 81% dos casos e mortalidade hospitalar de 8,9%, resultados próximos aos de países de renda intermediária.
Ademais, a validação dos escores TIMI e GRACE nesse cenário confirma sua utilidade prognóstica em populações de países em desenvolvimento, como o Brasil, contribuindo para a estratificação de risco e à tomada de decisão clínica rápida. Esses resultados reforçam a relevância da consolidação de redes regionais de atendimento, ao mesmo tempo que apontam a necessidade urgente de melhorias logísticas e estruturais para reduzir atrasos e otimizar a assistência ao paciente.
Além disso, estudos populacionais realizados no Rio Grande do Sul mostraram reperfusão em cerca de 81% dos casos e mortalidade hospitalar de 8,9%, resultados comparáveis aos centros de países de renda intermediária, mas ainda distantes de benchmarks internacionais.
Análises do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS) entre 2012 e 2017 apontaram mais de 500 mil internações por IAM, com mortalidade hospitalar média de 11,56%, predominante no Nordeste (12,67%), entre mulheres e idosos e especialmente acima dos 80 anos. Esses achados refletem a necessidade de estratégias de rede que contemplem equidade de acesso e maior foco nos grupos mais vulneráveis. A distância geográfica é fator determinante: pacientes que vivem a mais de 30 km dos centros de referência apresentam maiores atrasos até o atendimento e menor probabilidade de reperfusão, sendo que mulheres apresentam de forma consistente intervalos superiores a 24 horas entre o início dos sintomas e a chegada ao hospital.
Outro ponto crítico identificado nas análises é o elevado percentual de óbitos extra-hospitalares, aproximadamente 42% dos casos de IAM ocorrendo fora do ambiente hospitalar nas capitais brasileiras. Tal achado ressalta a fragilidade do componente pré-hospitalar e a importância da educação da população quanto ao reconhecimento precoce dos sintomas, bem como do fortalecimento do SAMU, da telecardiologia e da implementação sistemáticas da trombólise pré-hospitalar.
No ambiente hospitalar, as redes atenção devem contemplar o manejo de comorbidades que aumentam a letalidade, como a lesão renal aguda associada à síndrome cardiorrenal tipo 1, que eleva o risco de mortalidade em até três vezes em pacientes com IAM recente. O monitoramento precoce da função renal e a individualização do manejo hemodinâmico são medidas essenciais dentro de uma linha de cuidado integrada.
CONCLUSÃO
Esta pesquisa analisa os principais determinantes da morbimortalidade por infarto agudo do miocárdio no Brasil e evidencia o caráter heterogêneo desse fenômeno. Os resultados indicam tendência de redução nas taxas de mortalidade, embora persistam importantes desigualdades regionais e de gênero, associadas a deficiências estruturais, atrasos no atendimento e variabilidade na organização das redes de atenção cardiovascular.
A consolidação de linhas de cuidado integradas configura estratégia para a redução de óbitos e a padronização da qualidade assistencial, com ênfase no fortalecimento do atendimento pré-hospitalar, na ampliação da telemedicina e na implementação precoce de estratégias fármaco invasivas e de reperfusão. Persistem, contudo, lacunas relacionadas à equidade de acesso, à qualificação profissional e à cobertura das redes de urgência e emergência.
A variabilidade metodológica entre os estudos, o predomínio de pesquisas observacionais e a escassez de análises regionais consistentes limitam a comparabilidade e a extrapolação dos resultados, representando limitações ao delineamento de revisão integrativa.
Diante disso, investigações futuras devem analisar a efetividade das políticas regionais de regulação assistencial e o impacto da incorporação de novas tecnologias sobre o tempo de reperfusão e os desfechos clínicos dos pacientes. Portanto, a redução da mortalidade por infarto depende de planejamento estratégico e compromisso político contínuo.
REFERÊNCIAS
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1Discente do Curso Superior de MEDICINA do Instituto UNIEUB Campus ASA NORTE e-mail: mariabeatrizldem@gmail.com
2Docente do Curso Superior de MEDICINA do Instituto UNICEUB Campus ASA NORTE. Doutor em CARDIOLOGIA (USP/SP). e-mail: lucvacanti@gmail.com
