MOROSIDADE NA ADOÇÃO E SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES INSTITUCIONALIZADOS: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA.

PROCEDURAL DELAYS IN ADOPTION AND MENTAL HEALTH OF INSTITUTIONALIZED CHILDREN AND ADOLESCENTS: A SYSTEMATIC REVIEW.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202512170220


Mislane Santos Neri1; Karenn Isabelly Oliveira Gonçalves1; Vinicius dos Santos Vieira1; Ruan dos Santos Fernandes1; Érica Larissa De Oliveira Cardoso1; Laís Victória Gonçalves Deus1; Kleryston Davi Angelim Torres Magalhães1; Álane Pinho Jacobina Vieira Santos1; André Muritiba Araújo2; Tâmara Trindade De Carvalho Santos3


Resumo 

Objetivo: Analisar, por meio de uma revisão sistemática da literatura, os impactos da  morosidade processual e dos entraves administrativos na saúde mental e no desenvolvimento  emocional de crianças e adolescentes em acolhimento institucional. Metodologia: Realizou-se  uma busca nas bases de dados BVS, SciELO e LILACS, utilizando descritores padronizados  em Ciências da Saúde. Foram selecionados dez estudos publicados entre 2006 e 2025 que  abordavam a relação entre o tempo de espera pela adoção e os desfechos psicossociais.  Resultados: Os achados evidenciam que a institucionalização prolongada, agravada pelo  descompasso entre o perfil real das crianças (maiores e/ou com condições de saúde específicas)  e o perfil idealizado pelos pretendentes, constitui fator crítico de vulnerabilidade. Identificou-se associação direta entre o tempo de permanência institucional e o desenvolvimento de  transtornos mentais, como ansiedade e depressão, além de dificuldades na formação de vínculos  afetivos seguros e sentimentos de abandono. Conclusão: A espera prolongada pela efetivação  da adoção configura um ciclo de revitimização que compromete o desenvolvimento integral  dos acolhidos. Conclui-se que a celeridade processual, aliada a políticas de preparação parental  e suporte psicológico pós-adoção, é indispensável para mitigar riscos e promover a saúde  mental dessa população.

Palavras-chave: Adoção. Institucionalização. Saúde Mental. Desenvolvimento Infantil.  Burocracia. 

Abstract 

Objective: To analyze, through a systematic literature review, the impacts of procedural delays and  administrative obstacles on the mental health and emotional development of children and adolescents in  institutional care. Methodology: A search was conducted in the VHL (BVS), SciELO, and LILACS  databases using standardized Health Sciences descriptors. Ten studies published between 2006 and 2025  addressing the relationship between waiting time for adoption and psychosocial outcomes were selected.  Results: The findings evidence that prolonged institutionalization, aggravated by the mismatch between  the actual profile of children (older and/or with specific health conditions) and the idealized profile  sought by prospective parents, constitutes a critical vulnerability factor. A direct association was  identified between the length of institutional stay and the development of mental disorders, such as  anxiety and depression, as well as difficulties in forming secure emotional bonds and feelings of  abandonment. Conclusion: Prolonged waiting for adoption finalization constitutes a cycle of  revictimization that compromises the integral development of those in care. It is concluded that  procedural celerity, combined with parental preparation policies and post-adoption psychological  support, is essential to mitigate risks and promote the mental health of this population. 

Keywords: Adoption. Institutionalization. Mental Health. Child Development. Bureaucracy. 

1. INTRODUÇÃO  

A adoção é uma medida protetiva prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente  para garantir o direito fundamental à convivência familiar quando a permanência no núcleo  de origem se torna inviável. No entanto, o cenário brasileiro evidencia que essa garantia não  tem ocorrido com a celeridade esperada. Dados do Sistema Nacional de Adoção e  Acolhimento demonstram que aproximadamente 32 mil crianças e adolescentes permanecem  acolhidos em instituições, com tempo médio de permanência variando entre dois e três anos,  apesar de existir número maior de pretendentes habilitados à adoção do que de crianças  disponíveis (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2024). Esse panorama confirma que  a institucionalização, que deveria ser temporária e excepcional, tornou-se uma realidade  prolongada.  

A institucionalização prolongada entendida como o período em que a criança  permanece em acolhimento por tempo superior ao previsto nas diretrizes de proteção afeta  diretamente dimensões como vínculo, pertencimento e saúde mental (BRASIL, 2019).  Pertencimento refere-se à sensação de fazer parte de uma família ou grupo, com segurança  emocional e reconhecimento; já saúde mental diz respeito ao equilíbrio entre aspectos  emocionais, psicológicos e sociais que permitem ao indivíduo lidar com desafios do cotidiano (UNICEF, 2023). Estudos nacionais mostram que a permanência prolongada em instituições reduz a qualidade das interações afetivas e aumenta a sensação de abandono (PENSO et al.,  2008). 

Bowlby descreve que a qualidade do apego influencia a capacidade de confiar e de  estabelecer relações seguras na vida adulta (BOWLBY, 1984). Erikson destaca que a ausência  de vínculos pode gerar sentimentos de dúvida, insegurança e estagnação emocional  (ERIKSON, 1998). Winnicott afirma que o desenvolvimento saudável depende de um  “ambiente suficientemente bom”, no qual a criança encontra estabilidade, previsibilidade e  cuidado contínuo (WINNICOTT, 1983). A rotatividade de cuidadores nas instituições pode  dificultar a formação desses vínculos essenciais.  

Há escassez de revisões sistemáticas que integrem os achados sobre os efeitos  emocionais da demora e da burocracia nos processos de adoção no Brasil, o que caracteriza  uma lacuna científica. Muitos estudos, embora robustos, discutem aspectos isolados como indicadores psicológicos (THIENGO et al., 2014) ou o tempo de permanência em instituições  (SIQUEIRA & DELL’AGLIO, 2006) sem integrar essas evidências de maneira comparativa  (MACHADO et al., 2020). Assim, uma revisão sistemática permite reunir o conhecimento  disponível e tornar visível o impacto emocional dessa espera prolongada sobre crianças e  adolescentes.  

Diante desse contexto, o objetivo deste estudo é compreender, a partir de uma revisão  sistemática da literatura, os impactos emocionais da demora e da burocracia no processo de  adoção de crianças e adolescentes institucionalizados, subsidiando políticas públicas e  práticas institucionais voltadas à proteção integral da infância. 

2. METODOLOGIA  

Este estudo consiste em uma revisão sistemática da literatura, cujo objetivo foi  analisar os efeitos emocionais e psicológicos da permanência prolongada de crianças e  adolescentes em instituições de acolhimento enquanto aguardam a inserção em uma família  substituta. O acolhimento institucional, de acordo com a legislação brasileira, deve possuir  caráter temporário e excepcional, sendo acionado apenas quando esgotadas outras alternativas  de proteção no núcleo familiar (BRASIL, 2019). A busca dos estudos foi realizada entre  setembro e outubro de 2025 nas bases Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific  Electronic Online (SciELO) e Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), bases recomendadas para pesquisas em saúde pública no contexto nacional. Para  a busca, utilizaram-se exclusivamente descritores em português, extraídos dos Descritores em  Ciências da Saúde (DeCS). Os termos empregados foram: (“Adoção” OR “Acolhimento  institucional”) AND (“Crianças” OR “Adolescentes”) AND (“Saúde mental” OR  “Desenvolvimento emocional”) AND (“Burocracia”). “Adoção”, “Criança  institucionalizada”, “Adolescente institucionalizado”, “Saúde mental”, “Desenvolvimento  emocional”, “Instituições de acolhimento” e “Burocracia”. Para otimizar a busca, os  descritores foram combinados com operadores booleanos AND e OR, conforme o seguinte  cruzamento: Foram incluídos estudos publicados nos idiomas português e inglês, que  abordassem crianças ou adolescentes acolhidos em instituições e que analisassem impactos  emocionais ou psicológicos relacionados ao tempo de permanência ou aos entraves  administrativos dos processos adotivos. Foram excluídos artigos que tratassem apenas de  legislação ou análise jurídica sem discussão psicossocial, relatos de experiência, resumos de  eventos e estudos com enfoque em adoção internacional.  

A seleção ocorreu em três etapas: leitura de títulos, triagem de resumos e leitura  integral dos textos. Todos os estudos selecionados foram analisados de forma independente  por três revisores, garantindo imparcialidade na seleção. Quando houve divergência entre  avaliadores, a inclusão foi decidida por consenso. O processo seguiu exatamente o fluxo da  figura 1. Os dados dos artigos elegíveis foram extraídos de forma padronizada, contemplando  informações sobre ano de publicação, tipo de estudo, participantes, características da  permanência no acolhimento e principais resultados referentes à saúde mental. Os efeitos  emocionais analisados foram interpretados à luz de referenciais teóricos clássicos do  desenvolvimento, que afirmam que a ausência de vínculos afetivos consistentes e a  permanência prolongada em contextos de cuidado institucional podem gerar impactos na  formação do apego, do autoconceito e da segurança emocional (BOWLBY, 1988; ZEANAH  et al., 2003; DOZIER et al., 2012).  

Figura 1: Fluxograma do processo de escolha dos artigos

Fonte: Elaborado pelos autores, 2025.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO  

A análise bibliográfica final resultou na inclusão de dez estudos que atendem aos  critérios metodológicos, sendo estes a base para a discussão dos fatores que interferem na  adoção e na saúde mental das crianças acolhidas. Os dados extraídos desses artigos foram  organizados e categorizados conforme as dimensões de interesse deste trabalho: o perfil das  crianças, a morosidade processual e os impactos psicossociais. Para fins de contextualização  e rigor metodológico, o Quadro 1, a seguir, apresenta a ficha técnica detalhada dos artigos  elegíveis.  

Esse quadro sintetiza as principais características dos 10 estudos que compõem esta  revisão. Observa-se uma diversidade metodológica e temporal, com artigos publicados entre  2006 e 2025, conferindo contemporaneidade e abrangência ao tema. Os estudos são  classificados como Revisões Sistemáticas, Revisões de Literatura, Estudos de Caso e Artigos  Teóricos. Essa seleção multifacetada permitiu a abordagem de diferentes dimensões do  problema central: desde os impactos psicossociais diretos da institucionalização e da longa  espera (SIQUEIRA & DELL’AGLIO, 2006; OLIVEIRA & PRÓCHNO, 2010), até os fatores  sistêmicos mais recentes, como o percurso histórico da saúde mental (BRAGA & COUTO,  2019). Em conjunto, os estudos reforçam a conexão entre a morosidade processual e o  descompasso de perfis dos pretendentes (MACHADO et al., 2020; ANDRADE & FERREIRA, 2025) como os principais Fatores de Risco que comprometem a saúde mental  de crianças e adolescentes no sistema de acolhimento.  

Quadro 1: Características dos estudos incluídos na revisão sistemática 

Autores (Ano) Título do Artigo Tipo de Estudo (Natureza da (Pesquisa) Principais Achados  (Síntese) 
Andrade & Ferreira (2025) Burocracia e  institucionalização na  adoção: efeitos  no direito à convivência  familiar e na  celeridade processualRevisão  Bibliográfica/ Documental Foca na morosidade  processual e na burocracia  como fatores de  comprometimento do  bem-estar e da  vulnerabilidade
Blikstein & Reis  (2023) Acolhimento de  crianças e adolescentes  com deficiência em São  Paulo: um diagnóstico  do sistema de proteção Estudo de 
Caso/Diagnóstico 
Evidencia a precariedade  dos serviços e a 
institucionalização de  crianças com deficiência,  solicitando redes  substitutivas  
especializadas. 
Barros et al. (2021) Os Aspectos  Psicológicos da Criança e do  
Adolescente na Adoção Tardia 
Artigo de Revisão/Teórico Analisa os aspectos  psicológicos da adoção  tardia e reforça a  necessidade de preparo  parental e aceitação do  histórico da criança. 
Machado et al. (2020) As Adoções  Necessárias no  Contexto  Brasileiro:  Características,  Desafios e  Visibilidade Revisão de Literatura Demonstra o descompasso  entre o perfil desejado pelos  pretendentes e o perfil real  das crianças  
(Adoções Necessárias). 
Peixoto et al. (2019) Desafios e estratégias  na adoção de crianças  maiores e  adolescentes: uma  revisão sistemáticaRevisão  Sistemática Identifica maior índice de  “devoluções” em adoções  tardias e enfatiza o suporte  qualificado no pós adoção. 
Braga (2019) &  Couto.Políticas públicas na  atenção à saúde mental  de crianças e  
adolescentes:  percurso histórico e  caminhos de  participação
Revisão  Histórica/Política Crítica a inclusão tardia da  saúde mental infanto-juvenil  na agenda pública e  propõe a expansão da  RAPS e o protagonismo  dos jovens. 
Thiengo et al. (2014) Prevalência de  
transtornos mentais em  crianças  e adolescentes: uma  revisão  sistemática de  estudos globais 
Revisão 
Sistemática/Metanálise 
Mapeia a alta prevalência  de transtornos (Depressão,  Ansiedade, TDAH) na  infância e adolescência.
Oliveira & Próchn  (2010) A vinculação afetiva para crianças 
institucionalizadas  à espera de adoção 
Revisão de 
Literatura/Qualitativa 
Revela o intenso desejo  das crianças por um lar e o  vínculo paradoxal com a  instituição devido à longa  espera. 
Fonseca et al. (2009) Adoção de crianças  com necessidades  especiais: um novo  olhar sobre as  “adoções necessárias” Revisão de 
Literatura/Qualitativa 
Discute o preconceito  contra crianças com  necessidades especiais, o  que leva à baixa procura e  prolonga a espera. 
Siqueira &  Dell’Aglio (2006) O impacto da  institucionalização na  infância e  adolescência: uma Associa o tempo  prolongado de  institucionalização a  prejuízos no  desenvolvimento,  sociabilidade e dificuldade  na manutenção de  vínculos. 
Fonte: Elaborado pelos autores, 2025.

Os resultados da revisão demonstram uma acentuada disparidade entre o perfil das  crianças disponíveis para adoção e as expectativas dos pretendentes habilitados. A maioria  dos postulantes almeja crianças pequenas, brancas e sem problemas de saúde, enquanto a  realidade das instituições é composta majoritariamente por crianças maiores de dois anos,  com irmãos, de cor parda/negra ou com necessidades especiais (MACHADO et al., 2020;  PEIXOTO et al., 2019). Essa discrepância impõe um estigma, transformando a maioria dos  acolhidos em sujeitos da ‘adoção necessária’ (FONSECA et al., 2009), um rótulo que,  paradoxalmente, as condena à longa espera (OLIVEIRA & PRÓCHNO, 2010). É  essencialmente a seletividade dos adultos que torna a criança ‘difícil’ de ser adotada, e não a  criança em si (BARROS et al., 2021). A ineficácia do sistema legal surge como um fator de  risco estrutural, atuando em conjunto com o descompasso de perfis para prorrogar a  institucionalização. Conforme detalhado no Quadro 2, que sintetiza os Fatores de Risco e  Proteção da população estudada, diversos estudos apontam que a burocracia excessiva e a  lentidão nos trâmites judiciais (ANDRADE & FERREIRA, 2025) impedem a concretização  do direito fundamental à convivência familiar. O efeito mais grave dessa morosidade é a  institucionalização prolongada (SIQUEIRA & DELL’AGLIO, 2006). O tempo estendido em  abrigos, caracterizado pela rotatividade de cuidadores e por ambientes padronizados, está  diretamente associado a prejuízos no desenvolvimento, dificuldades na sociabilidade e na  manutenção de vínculos afetivos na vida adulta (SIQUEIRA & DELL’AGLIO, 2006). Essa  fragilidade nos laços e o histórico de rupturas (BARROS et al., 2021) elevam o risco de a  criança manifestar transtornos mentais, como Depressão e Ansiedade (THIENGO et al., 2014), e, em casos de insucesso na colocação familiar, resultar na dolorosa ‘devolução’  (PEIXOTO et al., 2019).  

A complexidade da adoção brasileira exige intervenções em três níveis: legal/processual, parental e clínico. No âmbito legal, a prioridade deve ser a celeridade  processual e a implementação de redes substitutivas para grupos especiais, como as crianças  com deficiência (BLIKSTEIN & REIS, 2023). Em nível parental, a intervenção mais citada  é a preparação e conscientização dos pretendentes, visando desmistificar o perfil idealizado e  incentivar a aceitação das adoções necessárias (MACHADO et al., 2020; BARROS et al.,  2021). Finalmente, a dimensão clínica exige a garantia de suporte psicológico qualificado e  continuado no pós-adoção, atuando como um ‘porto seguro’ para os pais e para a criança na  elaboração do luto e do histórico de vida (PEIXOTO et al., 2019; FONSECA et al., 2009). A  principal lacuna identificada reside na pesquisa aprofundada sobre as adoções inter-raciais  (MACHADO et al., 2020) e na necessidade urgente de políticas públicas que deem  protagonismo e garantam o direito à participação das crianças e adolescentes com sofrimento  psíquico (BRAGA & COUTO, 2019).  

Quadro 2: População de interesse, fatores legais e fatores burocráticos na adoção

Autor  (Ano)TítuloPopulação  de Interesse Fatores de  Risco  Observados Desfechos  Mentais/  Emocionais Efeitos da  Demora/  BurocraciaRecomendações Principais
Andrade &  
Ferreira  
(2025) 
Burocracia e  institucionalização na  
adoção:  
efeitos no  
direito à  
convivência  familiar e na  celeridade  
processual 
Crianças e  adolescentes  acolhidos  institucionalizados em  processo de  adoção. Burocracia  excessiva,  
lentidão nos  trâmites  
judiciais,  
entraves  
legais e  morosidade  processual. 
Institucionalização 
prolongada  gera  
insegurança,  abandono e dificuldades de 
socialização. 
Morosidade  processual  Compromete o  bem-estar e  atrasa a inserção  em ambientes  familiares  estáveis. Aperfeiçoamento das  políticas e  mecanismos  legais.  Garantir  celeridade  processual.  
Adotar  
práticas mais  humanizadas. 
Blikstein  &  Reis  (2023)Acolhimento de  crianças e  adolescentes  com  deficiência  em São  Paulo: um  diagnóstico  do sistema  de proteção Crianças e  adolescentes  com  
deficiência  institucionalizados  . 
Ausência de  regulamentação;  precariedade de serviços;  trans  
institucionalização 
Violação de  direitos; longa permanência
institucional;  confinamento. 
Internações via  judicial e  ausência de  desinstitucionalização levam à  longa  
permanência. 
Implantação  de  redes  substitutivas;  ações  intersetoriais. 
Barros et al. 
(2021)
Os Aspectos  Psicológicos  da Criança e  do Adolescente  na  Adoção  Tardia Crianças  
maiores e  adolescentes  em adoção tardia e pais  adotivos
Histórico  de vida  prévio  violado;  Idade da criança  como  obstáculo  ;  Motivação  inadequada. Comportamentos  regressivos,  agressividade, insegurança  Positivo:  Adoção  recíproca  . O período de  acolhimento  aumenta o  sentimento de  abandono. . Preparação  adequada e  apoio técnico  e psicológico  essencial 
Machado et al. (2020)As Adoções  necessárias  no  Contexto  Brasileiro  Características Desafios e  Visibilidade.Adoções  
Necessárias  
(maiores  de 2  anos, com  
irmãos,  deficiência/doença crônica,  interraciais). 
Rigidez do  perfil  desejado  pelos  
pretendentes  (bebês,  brancos, saudáveis). 
Dificuldade  Na inserção  familiar;  
demora na  satisfação do  desejo de  
parentalidade. 
Demora no  processo de  adoção, causada  pela rigidez do  perfil dos  pretendentes. Maior  conscientização dos  pretendentes  maior  
visibilidade e  do tema.
Peixoto et al. 2009Desafios e  estratégias na adoção de  crianças  
maiores e  adolescentes : uma revisão  sistemática 
Crianças  
maiores e  
adolescentes  em adoção  
tardia e seus  pais. 
História  
prévia de  
violência;  uso de castigos;  desconhecimento sobre a  adoção  tardia. 
Insegurança  do dotando  
conflitos  que podem  levar à  “devolução”(duplo  
abandono). 
Associação entre  maior  
idade e maior  índice de  interrupções/devoluções. 
Acompanhamento  qualificado;  apoio  psicológico/médico. 
Thiengo et al. (2014)Prevalência  de transtornos mentais em  crianças e  adolescentes : uma revisão  sistemática  de estudos  globais Crianças e 
adolescentes  (população  geral) a nível  global. 
Fatores  Biológico  
s/Genéticos;  Fatores  
Psicossociais; Fatores  Ambientais. 
Alta  prevalência  de:  Depressão,  Ansiedade,  TDAH, Uso  de  
Substâncias  e  Transtorno  de  Conduta. 
Não se aplica (foco na prevalência  global). Desenvolvimento de 
programas de intervenção. 
Oliveira &  
Próch no  
(2010) 
A vinculação  afetiva para  crianças  institucionalizadas à  espera de  adoção Crianças  
institucionalizadas (6 a 9  anos) à  espera de  adoção
Característica “menos  
desejadas”  levam à  longa espera. 
Crianças se vinculam  positivamente à  
instituição; 
intenso  
desejo de ter um lar. 
Longa espera nas  instituições  
devido às 
características  menos desejadas. 
Foco na 
afetividade;  
políticas  
públicas de  apoio a famílias para prevenir a institucionalização  . 
Fonseca et al. (2009)Adoção de  crianças com  necessidades  especiais um  novo olhar  sobre as  “adoções  
necessárias” 
Pais adotivos  e crianças  
com  
necessidades  especiais
Preconceito  contra  
crianças com 
necessidades  
Para os pais:  Satisfação  e  relativização  da concepção de normalidade Demora se  manifesta na  baixa procura. Estimular  
adoções de  crianças com  necessidades  especiais  
necessidade  de  apoio social  aos pais
Siqueira &  Dell’ Aglio (2006) O impacto da  institucionalização na  infância e adolescência : uma revisão  de literatura Crianças e  
adolescentes  institucionalizados em 
instituições  
de  abrigo. 
Tempo de  institucionalização  prolongado; ambiente  padroniza  do;  rotatividade da equipe;  estigma  social. Prejuízos no  desenvolvimento; 
dificuldade  
na  sociabilidade  e 
manutenção  de vínculos. 
Tempo de  institucionalização prolongado é  um fator de risco para o  
desenvolvimento . 
Ações  direcionadas  às 
equipes;  
incentivar  
relações  
recíprocas e  com afeto. 
Fonte: Elaborado pelos autores, 2025

A análise dos fatores associados à saúde mental no contexto de adoção revela um ciclo  de vulnerabilidade. A despeito do amparo legal, a efetivação da convivência familiar é minada  por Fatores de Risco intrínsecos ao sistema, como a morosidade processual e o Histórico de  Vida Adverso das crianças (BARROS et al., S.D.). Em síntese, a saúde mental da criança no  acolhimento e adoção é um reflexo direto da eficácia sistêmica. Os Fatores de Risco estão  concentrados na falha estrutural (burocracia) e na falha relacional (trauma e seletividade). A  principal implicação para a prática é o foco na qualificação do humano – seja na Preparação  Parental, seja na garantia do Protagonismo da criança (BRAGA & COUTO, 2019) dentro do  sistema. Futuras pesquisas devem preencher as lacunas, investigando a fundo as adoções  inter-raciais e os resultados de longo prazo das intervenções de apoio pós adoção. No quadro  3 é apresentado fatores associados à saúde mental.  

Quadro 3: Fatores associados à saúde mental

CategoriaFator EspecíficoDescrição do impacto  na saúde MentalArtigos de Suporte (Autor, Ano)
I. FATORES DE  RISCO  
(CAUSADORES  DE  
SOFRIMENTO) 
Institucionalização  
Prolongada 
Tempo estendido em  abrigos
(Fator Cronológico) 
Leva a prejuízos no  desenvolvimento,  
dificuldade na  sociabilidade, dificuldade na  manutenção de  vínculos afetivos e risco de “identidade  delinquente”. 
Andrade & Ferreira (2025);  Oliveira & Próchno  (2010); Siqueira &  Dell’Aglio (2006). 
Histórico de Vida  Adverso Negligência, abuso,  violência, e abandono  pela família biológica. Gera insegurança,  receio de novo  abandono,  
agressividade, oposição a regras e  comportamentos  
regressivos  (automedicação do  trauma). 
Peixoto et al. (2019); Barros et al. (S.D.) 
Descompasso de Perfis Rigidez do perfil  desejado pelo  pretendente (preferência  por bebês e ausência de  necessidades especiais). Causa a longa espera e o  sentimento de  “não ser desejado”  perpetuando o ciclo de  institucionalização. Machado et al (2020);  Oliveira &  Próchno (2010)
Fatores Processuais Burocracia excessiva,  lentidão judicial e  ausência de  regulamentação para  grupos especiais. Compromete o bem  estar, atrasa a inserção  familiar e mantém a  criança em  vulnerabilidade. Andrade & Ferreira  (2025); Blikstein & Reis  (2023) 
Fracasso da Adoção “Devolução”  (Ruptura/Interrupção do  Estágio de Convivência). Causa duplo  abandono,  
intensificando o trauma  e a insegurança. 
Peixoto et al.  (2019) 
Rotina  Institucional Ambiente padronizado,  rotatividade de  cuidadores, estigma  social e falta de  protagonismo. Dificulta a formação de  laços e reforça o  sofrimento psíquico. Siqueira &  Dell’Aglio (2006);  Braga & Couto  (2019) 
II. FATORES DE  PROTEÇÃO E SUPORTE 
(MITIGADORES  DE RISCO) 
Preparação e  
Conscientização  
Parental 
Formação adequada dos  pretendentes e aceitação  do histórico da criança. Desmistifica  idealizações, reduz o  risco de “devolução” e  cria um ambiente de  aceitação e segurança. Peixoto et al. (2019);  Machado et al.  (2020);  Barros et al. (S.D.) 
Apoio  Profissional  
(Pós-Adoção) 
Suporte psicológico,  médico e social  qualificado para a família  adotiva (habilitação,  
convivência e pós adoção). 
Essencial para o  manejo das  dificuldades de  adaptação da criança e  para a persistência dos  pais. Peixoto et al.  (2019); Fonseca et al.  (2009); Barros et al.  (S.D.) 
Qualidade do  Vínculo Afetivo Foco na afetividade  recíproca, relações lúdicas  e estabelecimento  de um “porto seguro”  familiar. Supera o impacto do  trauma e acelera o  desenvolvimento  global da criança. Oliveira & Próchno  (2010); Barros et al.  (S.D.) 
Rede de Atenção e Cuidado Implantação de redes  substitutivas (Art. 4),  expansão da RAPS  (Rede de Atenção Psicossocial). Garante o tratamento do  sofrimento psíquico e  um ambiente menos  asilar. Blikstein & Reis  (2023); Braga &  Couto (2019) 
Promoção do  Protagonismo Garantir a participação da  criança/adolescente nos  processos e nas políticas  que lhes dizem respeito. Promove a dignidade, o  senso de controle e o  protagonismo na  superação do  sofrimento. Braga & Couto  (2019) 

Fonte: Elaborado pelos autores, 2025.  

A síntese dos Fatores Associados à Saúde Mental, apresentada no Quadro 3, estabelece  que o bem-estar psicológico de crianças e adolescentes no contexto de acolhimento e adoção  é o ponto de convergência de forças de risco estruturais e fatores de proteção que exigem  intervenção humana qualificada. 

Os Fatores de Risco demonstram que o sofrimento não é intrínseco à criança, mas sim  uma consequência da falha sistêmica: o trauma inicial do Histórico de Vida Adverso (BARROS et al., 2021) é agravado pela Institucionalização Prolongada (SIQUEIRA &  DELL’AGLIO, 2006) um efeito direto da Burocracia Excessiva e do Descompasso de Perfis  (MACHADO et al., 2020). Essa confluência de eventos eleva o risco de manifestação de  transtornos mentais, como Depressão e Ansiedade (THIENGO et al., 2014), e culmina no  risco da dolorosa ‘devolução’ (PEIXOTO et al., 2019), o duplo abandono. Contudo, a mesma  análise aponta caminhos claros para a resiliência. Os Fatores de Proteção se concentram na  qualidade do suporte humano.  

A principal implicação para a prática é o investimento na Preparação e  Conscientização Parental, que, ao de idealizar o perfil do adotando, aumenta a capacidade dos  pais de manejar o trauma e construir um Vínculo Afetivo Qualificado (OLIVEIRA &  PRÓCHNO, 2010). Este suporte deve ser contínuo, exigindo Apoio Profissional no Pós 

Adoção e a expansão da Rede de Atenção e Cuidado (BRAGA & COUTO, 2019), garantindo  que a falha do sistema não seja transferida para a família adotiva. Em última análise, o Quadro  3 confirma que a superação da vulnerabilidade requer, antes de tudo, celeridade processual e  o resgate da humanização em todas as esferas da Justiça da Infância e da Juventude.  

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS  

Este estudo revisou sistematicamente a literatura sobre a complexa intersecção entre  os fatores sociais, processuais e o desfecho da saúde mental de crianças e adolescentes no  sistema de acolhimento e adoção. Os achados evidenciam, de forma conclusiva, que a  morosidade e a burocracia nos processos de adoção exercem impacto direto e negativo sobre  o desenvolvimento emocional e psicológico dos acolhidos, demonstrando que o principal  fator de risco para o sofrimento psíquico não reside na criança, mas nas falhas estruturais e  relacionais do sistema. A permanência prolongada em abrigos, frequentemente decorrente de  entraves legais e do descompasso entre o perfil idealizado pelos pretendentes e o perfil real  das crianças disponíveis especialmente as mais velhas ou com necessidades especiais,  consolida um cenário de vulnerabilidade que contraria os princípios do Estatuto da Criança e  do Adolescente. Tal institucionalização prolongada potencializa o trauma de históricos  adversos, resultando em insegurança emocional, dificuldades de socialização, fragilidade nos  vínculos afetivos e maior risco de transtornos psicológicos. 

Diante desse contexto, torna-se urgente promover a celeridade processual e fortalecer  a atuação intersetorial entre o Poder Judiciário e a rede de apoio psicossocial, assegurando  que as políticas públicas priorizem a convivência familiar como direito fundamental. A  qualificação e conscientização parental emergem como eixos centrais, demandando:  preparação adequada dos adotantes e acompanhamento multiprofissional antes da inserção da  criança em família substituta, suporte contínuo e capacitação técnica para reduzir o risco de  devoluções, incentivos à construção de vínculos afetivos estáveis e saudáveis no pós adoção.  

Por fim, reconhece-se a necessidade de novas pesquisas, especialmente estudos  longitudinais, que analisem os desfechos da adoção inter-racial e a eficácia das intervenções  psicossociais no pós-adoção. Espera-se que os resultados desta revisão contribuam para o  aprimoramento das práticas e políticas de adoção no Brasil, orientando uma atuação mais  humanizada, célere e comprometida com o desenvolvimento integral e a dignidade das  crianças e adolescentes.  

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1Discentes do Curso Superior de Medicina do Faculdade Ages Campus Jacobina
2Coorientador e Discente do Curso Superior de Medicina do Faculdade Ages Campus Jacobina e-mail:  andre.muritiba@hotmail.com
3Orientador, Doutora em Biotecnologia e Docente do Curso Superior de Medicina – Faculdade Ages de Medicina  Campus Jacobina e-mail: tamara.carvalho@ages.edu.br