CONTINUOUS QT INTERVAL MONITORING: CLINICAL IMPLICATIONS AND THE ROLE OF NURSING IN PATIENT SAFETY WHEN USING CARDIOTOXIC DRUGS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511181554
Rafael Passos de Melo1; Beatriz Soares Fonseca; Isadora Marques Lima Natividade; Maria Fernanda Moreira Costa; Amanda Lopes Zottich; Julia Udihara Balthazar; Ediene Luciene de Barros; Ayza Juliana Sousa Anchieta; Haifa Machado Cury2; Ivana Caetano Strauss3
RESUMO
O prolongamento do intervalo QT (PIQT) é uma alteração eletrocardiográfica de relevância clínica, associada ao risco de arritmias ventriculares graves, como a Torsades de Pointes, e à morte súbita cardíaca. Essa complicação pode ser induzida por diversos fármacos, tornando essencial a detecção precoce e o monitoramento contínuo do eletrocardiograma (ECG) para garantir a segurança do paciente. Este estudo teve como objetivo analisar a importância da utilização do eletrocardiograma contínuo no monitoramento de pacientes em uso de medicamentos que prolongam o intervalo QT, enfatizando as implicações para a segurança do paciente e o papel da enfermagem nesse contexto. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem qualitativa, realizada nas bases SciELO, LILACS e PubMed, considerando publicações entre 2020 e 2025. Foram identificados 28 artigos, dos quais 13 atenderam aos critérios de inclusão e foram analisados integralmente. Os resultados evidenciaram que medicamentos como antipsicóticos, antidepressivos, antiarrítmicos, antimicrobianos e antieméticos estão frequentemente associados ao prolongamento do QT, especialmente em pacientes idosos, críticos ou sob polifarmácia. A monitorização contínua do ECG mostrou-se eficaz na detecção precoce de alterações eletrofisiológicas, permitindo intervenções oportunas e redução de eventos adversos fatais.
Palavras-chave: Síndrome do QT Longo; ECG; Segurança do Paciente; Cardiologia.
ABSTRACT
The prolongation of the QT interval (PIQT) is an electrocardiographic alteration of clinical relevance, associated with the risk of severe ventricular arrhythmias such as Torsades de Pointes and sudden cardiac death. This complication can be induced by various drugs, making early detection and continuous electrocardiogram (ECG) monitoring essential to ensure patient safety. This study aimed to analyze the importance of using continuous electrocardiogram monitoring in patients receiving medications that prolong the QT interval, emphasizing the implications for patient safety and the role of nursing in this context. This is a narrative literature review, descriptive in nature and with a qualitative approach, conducted in the SciELO, LILACS, and PubMed databases, considering publications between 2020 and 2025. A total of 28 articles were identified, of which 13 met the inclusion criteria and were fully analyzed. The results showed that drugs such as antipsychotics, antidepressants, antiarrhythmics, antimicrobials, and antiemetics are frequently associated with QT prolongation, especially in elderly, critically ill, or polypharmacy patients. Continuous ECG monitoring proved to be effective in the early detection of electrophysiological alterations, allowing timely interventions and a reduction in fatal adverse events.
Keywords: Long QT Syndrome; ECG; Patient Safety;Cardiology.
1. INTRODUÇÃO
A monitorização e o manejo de complicações cardíacas decorrentes de terapias medicamentosas representam um foco clínico de extrema relevância, especialmente no que tange ao prolongamento do intervalo QT (PIQT). O intervalo QT, uma medida eletrocardiográfica não invasiva, corresponde à duração total da atividade elétrica ventricular, abrangendo desde o início do complexo QRS até o final da onda T. O aumento desta duração, ou prolongamento do QT corrigido (QTc), é uma alteração de considerável importância clínica, pois predispõe o paciente a arritmias ventriculares potencialmente fatais (Bezerra et al., 2022).
A complicação mais grave associada ao PIQT é a Torsades de Pointes (TdP), uma taquicardia ventricular polimórfica que pode degenerar em fibrilação ventricular, parada cardíaca e, consequentemente, morte súbita cardíaca (MSC). Em pacientes adultos, valores de QTc acima de 500 ms estão frequentemente associados a arritmias. A síndrome do QT longo (SQTL) adquirida, frequentemente induzida por fármacos (diLQTS), é mais comum que a forma congênita, tornando a prevenção de eventos um objetivo alcançável (Carvalho et al., 2022).
A relevância clínica do monitoramento contínuo do eletrocardiograma (ECG) reside na necessidade de prevenir esses eventos arrítmicos. Muitos medicamentos, pertencentes a diferentes grupos farmacoterapêuticos, possuem a capacidade de bloquear o canal de potássio hERG (o mecanismo mais comum do SQTL induzido por drogas), prolongando a repolarização ventricular e elevando o risco de TdP. Dentre as classes de medicamentos de risco que requerem vigilância, destacam-se os antipsicóticos (como Haloperidol, Quetiapina, Risperidona), antiarrítmicos (como Amiodarona e Sotalol), antidepressivos (como tricíclicos e ISRS), macrolídeos (como Azitromicina), fluoroquinolonas (como Ciprofloxacina e Levofloxacina), e antieméticos (como Ondansetrona) (Araya et al., 2022).
Em ambientes de cuidados intensivos (UTI), onde a polifarmácia é comum, a incidência de interações medicamentosas potencialmente prolongadoras do intervalo QT (IMQT) pode ser alta, chegando a 43,9%. O monitoramento contínuo do QTc pode ser utilizado como uma ferramenta auxiliar para determinar o momento de concentração máxima eletrofisiológica do fármaco, o que é especialmente útil em casos de intoxicação em que o tempo de ingestão ou a substância são desconhecidos (Silva et al., 2021).
A importância da vigilância multiprofissional é inquestionável na gestão do risco de PIQT. A prevenção de eventos arrítmicos requer a aplicação de protocolos de conduta que auxiliam o profissional de saúde na decisão pela prescrição e manutenção do tratamento. O manejo das IMQT exige uma abordagem baseada em fatores de risco individuais, como idade avançada, distúrbios eletrolíticos e uso concomitante de múltiplos medicamentos que prolongam o QT, e em condutas genéricas, como a realização de exames bioquímicos, instalação de monitores cardíacos e eletrocardiogramas periódicos. A supervisão farmacêutica é desejável para garantir a segurança, especialmente ao evitar a prescrição de medicamentos não essenciais que prolongam o QT (Wu et al., 2020).
Neste contexto, o papel da enfermagem é essencial e de destaque. O enfermeiro é um ator importante no processo de cuidado multiprofissional, permanecendo em contato direto e contínuo com o paciente. O profissional de enfermagem deve ter a capacidade de identificar anormalidades no ritmo cardíaco e interpretar precocemente as alterações eletrocardiográficas (Felipe et al., 2025).
A atuação do enfermeiro é fundamental na assistência, pois exige a monitorização dos sinais vitais para determinar o efeito hemodinâmico de problemas cardíacos, a vigilância infecciosa, a observação atenta aos sinais e sintomas sugestivos de complicações, e a comunicação precoce desses achados à equipe. Além disso, cabe ao enfermeiro a orientação sobre o uso de antiarrítmicos e o esclarecimento de dúvidas sobre a doença e seu tratamento, visando o autocuidado e a qualidade de vida (Abreu et al., 2022).
Diante disso, o objetivo deste estudo é analisar a importância da utilização do eletrocardiograma contínuo no monitoramento de pacientes em uso de fármacos que prolongam o intervalo QT, enfatizando as implicações para a segurança do paciente e o papel da enfermagem nesse processo.
2. MÉTODO
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem qualitativa, que teve como objetivo reunir e analisar publicações científicas relacionadas à utilização do eletrocardiograma contínuo no monitoramento de pacientes em uso de fármacos que prolongam o intervalo QT, com foco nas implicações para a segurança do paciente e na atuação da enfermagem. A revisão narrativa foi escolhida por permitir uma ampla compreensão do tema, integrando diferentes perspectivas teóricas e práticas sobre o cuidado seguro em pacientes sob risco de arritmias induzidas por medicamentos.
A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados SciELO (Scientific Electronic Library Online), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e PubMed (National Library of Medicine). Foram utilizados os seguintes descritores controlados e suas combinações com o operador booleano AND: Eletrocardiograma, Intervalo QT, Monitorização contínua, Segurança do paciente e Enfermagem.
Foram incluídos artigos publicados em português, inglês e espanhol, disponíveis em texto completo, publicados entre 2020 e 2025, que abordassem a relação entre o uso de fármacos com potencial de prolongar o intervalo QT, a monitorização eletrocardiográfica e as práticas de segurança do paciente, com destaque para a atuação da enfermagem. Excluíram-se teses, dissertações, cartas ao editor, relatos de caso e estudos que não apresentavam relação direta com o tema proposto.
Após a busca inicial, foram identificados 28 artigos. Após a leitura dos títulos e resumos, aplicaram-se os critérios de inclusão e exclusão, resultando em 10 artigos selecionados para análise final. O processo de triagem foi realizado de forma independente por dois revisores, a fim de garantir a confiabilidade da seleção.
Os dados extraídos dos estudos foram analisados qualitativamente, buscando-se compreender o estado atual do conhecimento sobre o tema e suas contribuições para a prática da enfermagem e a segurança do cuidado hospitalar.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Fisiopatologia do prolongamento do intervalo QT
O prolongamento do intervalo QT (PIQT) é uma alteração eletrocardiográfica que requer atenção imediata, e sua fisiopatologia está intrinsecamente ligada à eletrofisiologia cardíaca, bem como a uma série de fatores de risco que aumentam a susceptibilidade individual (Alves, 2025).
O intervalo QT no eletrocardiograma (ECG) corresponde à soma dos potenciais de ação dos miócitos ventriculares. A Síndrome do QT Longo (SQTL), seja ela congênita ou adquirida, é um transtorno que se manifesta na fase de repolarização cardíaca, caracterizada por uma demora anormal na repolarização ventricular. O potencial de ação reflete o fluxo de correntes de íons através de canais existentes na membrana celular. O PIQT ocorre quando há disfunção desses canais, resultando em um aumento da corrente interna ou uma corrente externa reduzida (Bezerra et al., 2022).
Ambos os mecanismos resultam no aumento da duração do potencial de ação e, consequentemente, no prolongamento do intervalo QT. O mecanismo mais comum para o prolongamento do QT induzido por fármacos (diLQTS) é o bloqueio do canal retificador de potássio rápido (IKr). Este canal é também conhecido como canal hERG (human-Ether-a-go-go Gene). O bloqueio do canal hERG retarda a repolarização ventricular, aumentando o risco de arritmias ventriculares graves, como a Torsades de Pointes (TdP) (Bot et al., 2024).
O risco de prolongamento do QTc e a ocorrência de TdP são influenciados por diversos fatores demográficos e clínicos como sexo Feminino (Mulheres): O sexo feminino é um fator de risco associado ao SQTL e ao PIQT/TdP. Mulheres tendem a apresentar um intervalo QT basal mais longo do que homens após a puberdade. A prevalência do sexo feminino foi o fator de risco mais comum (61,5%) em um estudo de pacientes que desenvolveram SQTL induzido por medicamentos (Costa et al., 2023).
A idade avançada, especialmente acima de 65 anos, é um fator de risco documentado para o prolongamento do QT e TdP. Pacientes idosos (60 anos ou mais) são particularmente vulneráveis a interações medicamentosas que prolongam o QT. Além disso, em alguns estudos, pacientes mais velhos apresentaram maior prolongamento do QTc, e foi observada uma correlação positiva entre idade e prolongamento do QTc (Silva et al., 2021).
Distúrbios eletrolíticos são fatores de risco críticos. Especificamente, a hipocalemia (potássio baixo, K+ < 3,5 mEq/l), a hipomagnesemia e a hipocalcemia estão associadas ao risco de PIQT e TdP. A dosagem e o controle desses eletrólitos são fundamentais para a estabilidade da repolarização ventricular (Carvalho et al., 2023).
Polifarmácia (Uso Concomitante de Múltiplos Fármacos): O uso concomitante de mais medicamentos que prolongam o intervalo QT é um fator de alto risco para PIQT e TdP. A polifarmácia é uma prática comum, especialmente em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), e é um preditor significativo de interações medicamentosas que prolongam o QT (IMQT). A coadministração de dois ou mais fármacos que prolongam o iQT pode conferir um risco importante para o desenvolvimento de arritmias malignas e morte súbita (Alves, 2025).
O risco de TdP aumenta significativamente em pacientes com múltiplas comorbidades ou em cuidados intensivos, onde há maior exposição a interações medicamentosas e/ou distúrbios eletrolíticos (Araya et al., 2022).
O coração pode ser comparado a uma bateria recarregável. O intervalo QT é o tempo que leva para o ventrículo (a célula do coração) descarregar (despolarizar) e recarregar (repolarizar) completamente. O mecanismo de repolarização depende de “portas” (canais iônicos), principalmente as de potássio (como o canal hERG), que se abrem para permitir que os íons saiam e “reiniciem” a célula. O prolongamento do QT é como se essas portas de saída de potássio estivessem “emperradas” ou bloqueadas por medicamentos. Se a recarga (repolarização) demora muito, a célula fica vulnerável a ser acionada novamente antes de estar pronta, criando um “curto-circuito” elétrico (a Torsades de Pointes) (Silva et al., 2021).
3.2 Fármacos relacionados ao Prolongamento do QT
O prolongamento do intervalo QT (PIQT) induzido por fármacos (diLQTS) é mais frequente do que a forma congênita e, portanto, é uma causa evitável de Torsades de Pointes (TdP) e morte súbita cardíaca (MSC). A incidência de interações medicamentosas prolongadoras do intervalo QT (IMQT) potenciais é particularmente elevada em ambientes de cuidados intensivos, chegando a 43,9% em idosos hospitalizados. O risco é amplificado pela administração simultânea de dois ou mais fármacos com esse potencial (Costa et al., 2023).
Inúmeras drogas, utilizadas habitualmente em pacientes internados, podem bloquear o canal hERG, prolongar o tempo de repolarização ventricular e facilitar a ocorrência de TdP (Bezerra et al., 2022).
Os antipsicóticos são frequentemente citados como preditora de IMQT. Alguns dos medicamentos de alto risco ou risco conhecido para prolongamento do QT e TdP são Haloperidol e Clorpromazina. Medicamentos de moderado risco incluem Risperidona, Quetiapina, Olanzapina e Prometazina. Estudos indicam que doses elevadas de Amissulprida podem causar aumento significativo do QTc (cerca de 23,4 ms em 40 mg), e o Sertindole também está associado a prolongamento (12,1 ms), enquanto Quetiapina e Haloperidol em baixas doses podem ter impacto mínimo ou irrelevante (Alves et al., 2025).
Os Antiarrítmicos são preditores de IMQT. Os de alto risco incluem Amiodarona e Sotalol. A Amiodarona é um dos medicamentos mais frequentemente combinados nas IMQT potenciais em idosos em UTI. Os antidepressivos (como tricíclicos e inibidores seletivos de recaptação de serotonina) são preditores de IMQT. Os tricíclicos (como a Amitriptilina) podem bloquear canais de sódio e prolongar o intervalo QT (Araya et al., 2022).
Antimicrobianos nas classes como as Quinolonas (por exemplo, Ciprofloxacina e Levofloxacina) e os Macrolídeos (como a Azitromicina) são listados como de risco. Antiemético representa uma classe de risco, sendo a Ondansetrona frequentemente combinada em IMQT. A Ondansetrona foi o segundo medicamento mais associado ao SQTL em um estudo com pacientes cardiopatas. A Cloroquina e a Hidroxicloroquina (HCQ) também bloqueiam o canal de potássio hERG e podem causar TdP (Bot et al., 2024).
A gestão das IMQT requer uma abordagem pautada tanto em fatores de risco individuais quanto em condutas genéricas obrigatórias. A prevenção de arritmias fatais pode ser minimizada com a aplicação de protocolos de conduta que auxiliam o profissional de saúde na decisão pela prescrição e manutenção do tratamento.
A supervisão farmacêutica é desejável sempre que possível para garantir a segurança do paciente, especialmente ao evitar a prescrição de medicamentos não essenciais que prolonguem o intervalo QT (Silva et al., 2021).
Em situações de risco elevado, o manejo requer a suspensão imediata do uso de todas as medicações com potencial para prolongamento do intervalo QT. No tratamento com antipsicóticos, a farmacogenômica é considerada uma ferramenta essencial para identificar pacientes de alto risco e personalizar o tratamento (Costa et al., 2023).
O profissional de enfermagem, por estar em contato contínuo com o paciente, desempenha um papel fundamental na identificação e comunicação precoce de sinais e sintomas sugestivos de complicações. O enfermeiro deve ter a capacidade de avaliar as prescrições e reconhecer o risco de IMQT, visto que a polifarmácia é um preditor de risco. A enfermagem deve estar atenta ao uso de classes terapêuticas preditoras de IMQT, como antipsicóticos, antiarrítmicos e antidepressivos. A média de medicamentos é frequentemente maior em pacientes que apresentam IMQT potencial (Abreu et al., 2022).
Deve-se considerar que pacientes com doenças cardíacas pré-existentes, distúrbios eletrolíticos e aqueles em UTI ou idosos são particularmente vulneráveis a IMQT e desfechos cardíacos sendo papel da equipe de enfermagem estabelecer o monitoramento contínuo e a identificação dos sinais clínicos (Araya et al., 2022).
Ademais, o enfermeiro deve ter aptidão para identificar anormalidades no ritmo cardíaco e interpretar precocemente as alterações eletrocardiográficas. O ECG é fundamental no diagnóstico de distúrbios do ritmo cardíaco. Precisa estar atento a sinais críticos no monitoramento do QTc, como QTc acima de 520 ms ou um aumento do QTc > 60 ms e/ou mais de 10% em relação ao ECG basal. Nesses casos, a suspensão do tratamento deve ser avaliada (Abreu et al., 2022).
A vigilância atenta dos sinais vitais é crucial para determinar o efeito hemodinâmico de problemas cardíacos. O enfermeiro deve observar sintomas como vertigem, síncope e mal súbito (que podem ser causados por arritmias malignas), além de monitorar reações adversas e efeitos colaterais das medicações. O controle dos eletrólitos (potássio, magnésio e cálcio) é uma conduta obrigatória. A hipocalemia (potássio sérico ≤ 3.5 mEq/l) é um preditor de IMQT. O enfermeiro deve garantir que o potássio seja mantido acima de 4,0 mEq/l e o magnésio acima de 2,0 mEq/l (Bot et al., 2024).
A capacidade do enfermeiro de solicitar o ECG e identificar anormalidades no ritmo cardíaco é respaldada e contribui para um plano de cuidado mais eficiente, aumentando a chance de sobrevida do paciente e evitando fatalidades (Felipe et al., 2025).
3.3 Segurança do paciente e eventos adversos evitáveis
A segurança do paciente, particularmente no que se refere à prevenção de eventos adversos evitáveis de natureza cardíaca, como as arritmias induzidas por fármacos, é uma prioridade clínica fundamental. Tais eventos, frequentemente associados ao prolongamento do intervalo QT (PIQT), requerem vigilância contínua e a aplicação rigorosa de protocolos de segurança (Bot et al., 2024).
A associação entre terapias medicamentosas e complicações cardíacas é uma realidade com alta prevalência, especialmente em populações vulneráveis. As arritmias cardíacas acometem mais de 20 milhões de brasileiros e são responsáveis por mais de 300 mil mortes por ano no país. A Morte Súbita Cardíaca (MSC), frequentemente causada por arritmias ventriculares como a Torsades de Pointes (TdP), é responsável por 20% das mortes em Portugal (Alves, 2025).
Em pacientes cardiopatas hospitalizados em salas de cardiologia, a prevalência da Síndrome do QT Longo (SQTL) foi de 41,7%, sendo que em 86,7% desses casos a causa foi atribuída a medicamentos. Pacientes idosos hospitalizados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) estão particularmente expostos a interações medicamentosas prolongadoras do intervalo QT (IMQT). A incidência de IMQT potenciais nesse grupo foi de 43,9%, um valor superior ao encontrado em investigações prévias, que variavam de 15,9% a 38,8%. A coexistência de condições críticas e polifarmácia complexa agrava a predisposição a IMQT e a desfechos associados, como TdP (Bezerra et al., 2022).
Apesar da alta prevalência de risco, a adoção de estratégias de monitoramento ativo e a detecção precoce de alterações eletrofisiológicas podem converter o risco potencial em um desfecho seguro. A avaliação e o monitoramento do intervalo QTc antes e durante o tratamento são fundamentais para a prevenção de eventos arrítmicos. O PIQT é o único marcador de risco conhecido para TdP (Costa et al., 2023).
A monitorização eletrofisiológica contínua (análise do QTc) pode ser utilizada como um adjunto para determinar o Tmax toxicocinético (tempo de concentração máxima) em pacientes que chegam intoxicados com medicamentos prolongadores do QTc, especialmente quando a hora da ingestão ou a substância são desconhecidas. Isso tem o potencial de reduzir a necessidade de medições repetidas de concentrações plasmáticas e ajudar a estabelecer a duração de observação ideal para o paciente na emergência (Felipe et al., 2025).
Em um estudo com pacientes cardiopatas, apesar da alta prevalência de SQTL induzido por fármacos, não houve casos de Torsades de Pointes, o que foi possivelmente atribuído à detecção oportuna do evento adverso. A capacidade do enfermeiro de identificar anormalidades no ritmo cardíaco e interpretar precocemente as alterações eletrocardiográficas e, em casos de dor torácica, garantir a realização rápida do ECG são fatores decisivos para a assistência de qualidade e para um melhor prognóstico (Felipe et al., 2025).
O julgamento crítico da equipe de saúde, juntamente com o uso de escore de risco individual para TdP, o monitoramento dos níveis séricos de eletrólitos (mantendo K+ > 4,0 mEq/l e Mg++ > 2,0 mEq/l), e a realização de eletrocardiograma durante toda a internação, são fundamentais para promover a segurança no uso desses medicamentos (Wu et al., 2020).
A gestão do PIQT está diretamente ligada à implementação de protocolos de segurança e sistemas de vigilância que transformam o conhecimento do risco em ações concretas. O risco de arritmias fatais pode ser minimizado com a aplicação de protocolos de conduta. Protocolos institucionais para controle do intervalo QT e prevenção de arritmias ventriculares foram formulados, por exemplo, pelo American College of Cardiology e pelo Núcleo de Arritmias do Instituto do Coração (Felipe et al., 2025).
O profissional de enfermagem tem um papel de destaque no âmbito da segurança do paciente, permanecendo em contato direto e contínuo. É crucial que o enfermeiro seja treinado para identificar e comunicar precocemente achados sugestivos de complicações. A assistência deve ser padronizada e baseada em evidências científicas para garantir a segurança no tratamento, especialmente em terapias cardiotóxicas. A qualidade do registro de enfermagem sobre os cuidados prestados (incluindo sinais vitais, comorbidades, medicamentos de uso diário e manifestações cardiotóxicas) é importante para o acompanhamento e segurança (Abreu et al., 2022).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O prolongamento do intervalo QT, especialmente o adquirido por uso de fármacos, representa um risco clínico significativo e potencialmente evitável dentro dos serviços de saúde. A compreensão da fisiopatologia dessa alteração e dos fatores predisponentes é essencial para a prática clínica segura, visto que o PIQT pode evoluir para arritmias ventriculares graves, como a Torsades de Pointes, e resultar em morte súbita cardíaca. A implementação de estratégias de monitoramento contínuo do eletrocardiograma surge, portanto, como ferramenta indispensável para a detecção precoce de alterações elétricas e para a prevenção de desfechos fatais.
A literatura analisada evidenciou que o uso do eletrocardiograma contínuo permite acompanhar dinamicamente as variações do intervalo QT, possibilitando o reconhecimento imediato de anormalidades e a intervenção oportuna. Essa prática é especialmente relevante em ambientes de cuidados intensivos, onde há maior prevalência de polifarmácia e condições clínicas complexas. O monitoramento contínuo auxilia na tomada de decisão clínica e na individualização do tratamento, reduzindo o risco de eventos adversos e contribuindo diretamente para a segurança do paciente.
No contexto do cuidado multiprofissional, destaca-se o papel essencial da enfermagem na vigilância e manejo de pacientes sob risco de prolongamento do QT. O enfermeiro atua como elo entre o paciente e a equipe médica, sendo responsável pela monitorização constante dos sinais vitais, observação de sintomas clínicos, detecção de alterações no traçado eletrocardiográfico e comunicação imediata de achados relevantes. Além disso, sua atuação se estende ao controle de distúrbios eletrolíticos, à checagem de prescrições potencialmente perigosas e à educação do paciente quanto aos sinais de alerta e autocuidado.
Os resultados desta revisão reforçam a necessidade de capacitação contínua dos profissionais de enfermagem em interpretação básica de eletrocardiograma e em protocolos de segurança voltados à prevenção de arritmias. A prática baseada em evidências deve nortear a assistência, de modo que o enfermeiro atue não apenas na execução de cuidados, mas também na análise crítica e na tomada de decisões clínicas que possam evitar eventos adversos relacionados à terapia medicamentosa. A inserção do enfermeiro em programas de farmacovigilância e na elaboração de protocolos institucionais de monitoramento cardíaco é igualmente relevante.
Conclui-se que a utilização do eletrocardiograma contínuo no monitoramento de pacientes em uso de fármacos que prolongam o intervalo QT representa um importante avanço na segurança do paciente. A atuação proativa da enfermagem, aliada à integração multiprofissional e à adoção de protocolos clínicos, é determinante para prevenir arritmias fatais e garantir uma assistência qualificada. Assim, investir em tecnologia, treinamento e sistematização do cuidado são medidas fundamentais para fortalecer a cultura de segurança e promover uma prática assistencial mais eficiente, preventiva e centrada no paciente.
REFERÊNCIAS
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1Enfermeiro pós-graduando em enfermagem cardiovascular pelo Centro Universitário de Brasília – CEUB e Hospital do Coração do Brasil – HCBr
2Acadêmica do curso de Bacharelado em Enfermagem, da Faculdade de Ciências da Educação e Saúde, do Centro Universitário de Brasília – FACES/CEUB.
3Acadêmica do curso de Bacharelado em Medicina, do Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos – UNICEPLAC.
