AVALIAÇÃO DO CONTROLE DE TRONCO DE CRIANÇAS COM DISTÚRBIOS NEUROMOTORES SUBMETIDAS A PROTOCOLO SEMI-INTENSIVO DE FISIOTERAPIA 

EVALUATION OF TRUNK CONTROL IN CHILDREN WITH NEUROMOTOR DISORDERS UNDERGOING SEMI-INTENSIVE PHYSIOTHERAPY PROTOCOL 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511181527


Eduarda Victória Azevedo Cabral, Samara Campos de Assis, Helder Italo Dantas de Sousa, Ana Mayara Pereira Vilar Trigueiro, Felipe Longo de Araújo Correia, Nigessia Dutra de Oliveira, Lavoisier Morais de Medeiros


RESUMO 

Alterações neuromotoras em crianças afetam significativamente a postura, o equilíbrio e a coordenação motora, exigindo intervenções terapêuticas específicas. Dentre as habilidades comprometidas, o controle de tronco se destaca como essencial para o desenvolvimento motor e funcional, sendo fundamental para a realização de atividades como sentar, locomover-se e interagir com o ambiente. Nesse cenário, a fisioterapia exerce papel central, e os protocolos semi-intensivos surgem como alternativa viável ao tratamento intensivo, equilibrando eficácia e acessibilidade. Este estudo teve como objetivo avaliar a eficácia de um protocolo semi-intensivo de fisioterapia no controle de tronco de crianças com distúrbios neuromotores, utilizando a Avaliação Segmentar do Controle de Tronco (SATCo) como instrumento de mensuração. Foram acompanhadas 20 crianças, submetidas a sessões regulares de fisioterapia motora e uso do dispositivo Theratogs®, com aplicação de testes periódicos ao longo de três meses. Os resultados demonstraram melhora progressiva e estatisticamente significativa (p=0,04) nos escores de controle segmentar de tronco, com aumento do controle torácico e lombar e redução da necessidade de suporte externo. A pesquisa contribui para o aprimoramento das práticas clínicas e para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais adaptadas às realidades institucionais.

Palavras-chave: Controle de tronco; Distúrbios neuromotores; Fisioterapia pediátrica; Protocolo semi-intensivo; Reabilitação infantil.

ABSTRACT

Neuromotor disorders in children significantly affect posture, balance, and motor coordination, requiring specific therapeutic interventions. Among the impaired skills, trunk control stands out as essential for motor and functional development, being crucial for performing activities such as sitting, moving, and interacting with the environment. In this scenario, physical therapy plays a central role, and semi-intensive protocols emerge as a viable alternative to intensive treatment, balancing efficacy and accessibility. This study aimed to evaluate the effectiveness of a semi-intensive physical therapy protocol for trunk control in children with neuromotor disorders, using the Segmental Assessment of Trunk Control (SATCo) as a measurement tool. Twenty children were followed, undergoing regular motor physiotherapy sessions and using the Theratogs® device, with periodic testing over three months. The results demonstrated progressive and statistically significant (p=0.04) improvement in trunk segmental control scores, with increased thoracic and lumbar control and reduced need for external support. The research contributes to the improvement of clinical practices and the development of therapeutic strategies better adapted to institutional realities.

Keywords: Cumulative Traumatic Disorders. Occupational Health. Distance learning. Musculoskeletal Pain.

RESUMEN

Los trastornos neuromotores en niños afectan significativamente la postura, el equilibrio y la coordinación motora, requiriendo intervenciones terapéuticas específicas. Entre las habilidades deterioradas, el control del tronco destaca como esencial para el desarrollo motor y funcional, siendo crucial para realizar actividades como sentarse, moverse e interactuar con el entorno. En este contexto, la fisioterapia desempeña un papel fundamental, y los protocolos semiintensivos surgen como una alternativa viable al tratamiento intensivo, equilibrando eficacia y accesibilidad. Este estudio tuvo como objetivo evaluar la eficacia de un protocolo de fisioterapia semiintensiva para el control del tronco en niños con trastornos neuromotores, utilizando la Evaluación Segmental del Control del Tronco (SATCo) como herramienta de medición. Se realizó un seguimiento de veinte niños, que recibieron sesiones regulares de fisioterapia motora y utilizaron el dispositivo Theratogs®, con evaluaciones periódicas durante tres meses. Los resultados demostraron una mejora progresiva y estadísticamente significativa (p = 0,04) en las puntuaciones de control segmentario del tronco, con un mayor control torácico y lumbar y una menor necesidad de apoyo externo. La investigación contribuye a la mejora de las prácticas clínicas y al desarrollo de estrategias terapéuticas mejor adaptadas a las realidades institucionales.

Palabras clave: Control del tronco; Trastornos neuromotores; Fisioterapia pediátrica; Protocolo semiintensivo; Rehabilitación infantil.

INTRODUÇÃO

As alterações neuromotoras englobam um conjunto de condições clínicas que envolvem prejuízos na coordenação motora decorrentes de lesões ou disfunções no sistema nervoso central. Essas alterações comprometem a execução dos movimentos voluntários, além do equilíbrio e da postura, sendo comuns em crianças com diagnósticos como paralisia cerebral, distúrbios genéticos, malformações congênitas ou lesões adquiridas no período perinatal (OLIVEIRA; MANZINI, 2013).

Entre os principais aspectos afetados nessas condições destaca-se o controle de tronco, uma habilidade fundamental para o desenvolvimento motor e funcional. Com isso, o tronco atua como base para os movimentos dos membros e é essencial para a manutenção da postura durante atividades motoras, como sentar, andar ou alcançar objetos. A ausência de controle adequado do tronco compromete não apenas a estabilidade postural, mas também a realização de tarefas básicas do cotidiano e a progressão dos marcos motores (SANTOS; MANCINI, 2019).

Nesse cenário, a fisioterapia desempenha papel central na intervenção precoce e na promoção de habilidades funcionais. Dentre os diferentes modelos de abordagem terapêutica, os protocolos semi-intensivos vêm sendo considerados uma estratégia viável para ampliar a eficácia do tratamento sem os altos encargos físicos, emocionais e logísticos que os programas intensivos podem gerar (CASTRO et al., 2016). Esse modelo propõe uma frequência moderada de sessões com foco na repetição, intensidade e adaptação às necessidades específicas da criança.

Estudos indicam que a frequência e a intensidade da fisioterapia influenciam diretamente os resultados clínicos em crianças com disfunções neuromotoras. Conforme Damiano (2006), intervenções mais sistemáticas e regulares são associadas a melhorias substanciais no controle postural, especialmente quando iniciadas na infância. No entanto, ainda são escassas as evidências sobre os efeitos específicos de protocolos semi-intensivos na recuperação do controle de tronco, apontando para a necessidade de pesquisas que aprofundem esse tema.

Para avaliar de maneira precisa os avanços no controle de tronco, é fundamental utilizar instrumentos validados e específicos, como a Avaliação Segmentar do Controle de Tronco (Segmental Assessment of Trunk Control – SATCo). Essa ferramenta permite analisar o controle postural em diferentes segmentos do tronco, contribuindo para a definição de objetivos terapêuticos e para a mensuração dos resultados obtidos com a intervenção (BUTLER et al., 2010).

A reabilitação adequada do controle postural pode não apenas melhorar a mobilidade funcional da criança, mas também promover maior participação social, autonomia e qualidade de vida. Além disso, uma abordagem terapêutica eficaz que pode prevenir o surgimento de complicações secundárias, como retrações musculares, desvios posturais e deformidades ortopédicas (MAYSTON, 2001). Assim, compreender o impacto de diferentes modelos de intervenção fisioterapêutica no controle de tronco é essencial para aprimorar o atendimento clínico baseado em evidências.

Diante dessa realidade, este estudo busca compreender se essa proposta terapêutica favorece ganhos relevantes na estabilidade do tronco e na capacidade funcional global. Além disso, ao analisar os efeitos de um protocolo semi-intensivo, esta investigação pretende ampliar a base de dados existente na área e colaborar com a formulação de estratégias terapêuticas mais ajustadas à realidade de diferentes contextos de atendimento em saúde.

REFERENCIAL TEÓRICO

O controle postural do tronco é essencial para o desenvolvimento motor das crianças, pois afeta tanto as habilidades motoras globais quanto as motoras finas, além de influenciar diretamente o desempenho em atividades acadêmicas e recreativas (MARTINS et al., 2021). Esse controle se desenvolve progressivamente desde os primeiros meses de vida, sendo fortemente influenciado pela maturação do sistema nervoso central e pela integração das informações sensoriais, como a visão, o sistema vestibular e a propriocepção. À medida que a criança cresce e adquire mais experiência motora, esse controle se aprimora continuamente (SILVA et al., 2019). A ausência ou o atraso no desenvolvimento adequado pode levar a dificuldades motoras significativas, comprometendo a mobilidade e a capacidade de realizar tarefas cotidianas de forma independente. Crianças com distúrbios no desenvolvimento neuromotor, como a paralisia cerebral, enfrentam frequentemente desafios nessa área, necessitando de intervenções terapêuticas específicas para fortalecer a musculatura e melhorar a estabilidade e o controle do tronco, promovendo sua independência e qualidade de vida (OLIVEIRA et al., 2018).

Uma base postural sólida é essencial para a execução de movimentos coordenados e, a longo prazo, impacta diretamente a qualidade de vida e a funcionalidade da criança. O desenvolvimento adequado do controle de tronco está intimamente relacionado ao aprimoramento das habilidades motoras globais, que, por sua vez, formam a base necessária para a realização de tarefas motoras mais complexas (PAVÃO; SANTOS, 2017). Em contrapartida, crianças com deficiências neuromotoras frequentemente enfrentam dificuldades nessa área, restringindo suas capacidades de mobilidade e interação com o ambiente. Nesse sentido, intervenções terapêuticas voltadas para o fortalecimento e a estabilidade do tronco são fundamentais para promover a independência funcional (FERREIRA et al., 2019).

O controle postural do tronco é também um componente essencial no desenvolvimento motor de crianças com condições que afetam o sistema neuromuscular, como a paralisia cerebral. A deficiência nessa área pode prejudicar a aquisição de habilidades motoras fundamentais, como sentar, engatinhar e andar. Estudos demonstram que intervenções voltadas ao fortalecimento e à estabilização do tronco são eficazes em melhorar a função motora e o equilíbrio, promovendo o desenvolvimento global (DAMIANO; SANTOS, 2020). Além disso, práticas fisioterapêuticas como o uso de superfícies instáveis e o treinamento de equilíbrio favorecem ajustes posturais mais eficientes e fortalecem a musculatura do core, contribuindo para a estabilidade e facilitando a execução de movimentos mais complexos (KIM et al., 2020). Esses achados reforçam a importância de programas de intervenção precoce para reduzir os impactos de problemas posturais e motoras, promovendo um desenvolvimento físico e social mais saudável ao longo da infância (PAVÃO; ROCHA, 2017; DAMIANO; SANTOS, 2020; KIM et al., 2020).

A fisioterapia desempenha papel essencial no tratamento de crianças com alterações motoras decorrentes de condições neurológicas e musculoesqueléticas, como a paralisia cerebral e as distrofias musculares (DAVID et al., 2019). Nesse contexto, protocolos intensivos e semi-intensivos de fisioterapia têm se mostrado eficazes ao potencializar ganhos motores em curto período, utilizando práticas repetitivas e atividades direcionadas, realizadas com alta frequência (CUNHA et al., 2020). Os protocolos intensivos são caracterizados por intervenções de 3 a 5 horas diárias, que proporcionam reorganização neural, aumento da força e resistência muscular, especialmente em crianças com paralisia cerebral (SOUZA et al., 2021; MOURA et al., 2018). Já os protocolos semi-intensivos, realizados por 1 a 2 horas diárias, também promovem adaptações significativas, sendo alternativa eficaz para crianças com menor tolerância a sessões longas (FERNANDES; LIMA, 2022).

A escolha entre protocolos intensivos e semi-intensivos deve considerar as necessidades específicas de cada criança. Enquanto o intensivo é eficaz para ganhos rápidos, o semi-intensivo favorece uma abordagem mais gradual e sustentável a longo prazo (PEREIRA et al., 2019). O protocolo TheraSuit, por exemplo, utiliza uma vestimenta de compressão que alinha o corpo, facilita a reeducação postural e muscular e promove estímulos proprioceptivos, sendo eficaz na melhoria da força, amplitude de movimento e equilíbrio (CUNHA et al., 2018). O protocolo semi-intensivo, por sua vez, oferece maior flexibilidade e geralmente é estruturado em três a quatro sessões semanais, com duração de 2 a 3 horas, ao longo de três a seis meses. Esse modelo favorece a adaptação progressiva e a manutenção dos ganhos motores, sem sobrecarregar o paciente (SILVA et al., 2021). Frequentemente, ele é combinado com abordagens como PediaSuit e Integração Sensorial, que fortalecem a musculatura, aprimoram o controle motor e a propriocepção, e facilitam a interação com o ambiente (GOMES; ARAÚJO, 2019; LOPES; SILVA, 2020).

As vestes terapêuticas, como as Theratogs®, também se destacam como recursos para crianças com distúrbios neurológicos e outras condições motoras. Elas promovem alinhamento postural, estabilidade e controle motor, funcionando como uma ortótese dinâmica de corpo inteiro, já que aplicam pressão suave sobre o tronco e os membros e favorecem padrões motores mais funcionais (HAYDEN et al., 2017). Essa compressão estratégica melhora a consciência corporal, a mobilidade e o equilíbrio, especialmente em crianças com paralisia cerebral (MCLAUGHLIN et al., 2018). Além disso, o uso das Theratogs® potencializa os efeitos das terapias convencionais, promovendo ganhos na força muscular e amplitude de movimento (WANG; LIAO, 2019).

Por fim, essas vestes apresentam também um impacto psicológico positivo. Crianças relatam sensação de segurança e estabilidade ao utilizá-las, o que aumenta a autoconfiança e a independência funcional. A melhora postural e motora, portanto, repercute em benefícios emocionais significativos, favorecendo uma recuperação mais eficaz e uma melhor qualidade de vida (FERREIRA; SOUZA, 2020).

3 METODOLOGIA

O presente estudo trata-se de uma pesquisa de campo do tipo exploratória, de campo, longitudinal e qualiquantitativa, com levantamento de dados. A pesquisa foi realizada na Clínica de Desenvolvimento Infantil Massa, localizada na cidade de Patos, no Estado da Paraíba.

A população foi formada por 6 crianças atendidas na clínica, e a amostragem selecionada para o estudo constou com 6 crianças de acordo com critérios de acessibilidade.

Como critérios de inclusão do estudo, estiveram aptas a participar da amostra crianças de 4 meses a 8 anos de idade, com diagnóstico de ECNPI, Síndrome de Down ou mielomeningocele, que faziam uso do Theratogs e cujos responsáveis aceitaram assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Estiveram excluídas do estudo as crianças que faltaram mais de 3 vezes consecutivas ao tratamento ou cujas mães não utilizaram o Theratogs por 6 horas diárias nas crianças.

A coleta de dados foi realizada com a aplicação dos seguintes instrumentos no início, com 2 e 3 meses de intervenção: SATCo (Segmental Assessment of Trunk Control), entrevistas e fotografias.

O SATCo (ANEXO A) foi desenvolvido como uma ferramenta de avaliação clínica para medir o controle postural segmentar do tronco em crianças com comprometimentos motores, como paralisia cerebral (PC). Inicialmente criado por Butler et al. (2010), o SATCo permite avaliar o controle do tronco de forma segmentada, possibilitando uma análise detalhada do desempenho postural em diferentes níveis, desde a região cervical até a sacral. Esse tipo de análise segmentar foi especialmente útil para crianças com dificuldades de controle motor, pois permitiu determinar em qual nível específico do tronco a criança apresentava melhor controle postural, auxiliando na elaboração de intervenções fisioterapêuticas mais precisas e personalizadas (Butler et al., 2010).

Para sua aplicação, foi utilizado um banco de madeira com 24 cm de altura, 60 cm de comprimento e 27 cm de largura, adaptado com três faixas, sendo duas de 1,25 m e uma de 1,35 m de comprimento.

Como análise opinativa, os dados da amostra foram analisados, tabulados e graficados através do software Microsoft Excel e da ferramenta de pesquisa quantitativa Statistical Package for the Social Science (SPSS) versão 20. A entrevista foi analisada através do conteúdo de Bardin.

A realização deste estudo considerou a Resolução nº 510/16 do Conselho Nacional de Saúde que rege sobre a ética da pesquisa envolvendo seres humanos direta ou indiretamente, assegurando a garantia de que a privacidade do sujeito da pesquisa será preservada. Este projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário de Patos – UNIFIP. Após a concessão de sua aprovação, sob o parecer de número 6.606.987. 

4 RESULTADOS

Participaram da pesquisa 6 crianças, sendo 3 (50%) do sexo feminino e 3 (50%) do sexo masculino, com predominância da faixa etária de 2-4 (66,7%).

A Tabela I demonstra a diversidade clínica da amostra, composta majoritariamente por crianças com Paralisia Cerebral (PC), sendo três com quadriparesia espástica e duas com diparesia espástica. Apenas uma criança foi diagnosticada com mielomeningocele lombar alta. Essa variedade permite observar a aplicação do protocolo em diferentes perfis neurológicos.

A faixa etária entre 2 e 4 anos corresponde a um período crucial para o desenvolvimento motor e postural, o que justifica a importância da intervenção precoce. Crianças com quadriparesia espástica tendem a apresentar maior comprometimento motor global, o que pode dificultar ou retardar os ganhos. Já nas formas de diparesia, a função dos membros superiores costuma ser mais preservada, favorecendo respostas mais rápidas.

A inclusão de uma criança com mielomeningocele amplia a aplicabilidade do protocolo, mas exige cautela na comparação dos resultados, dada a diferença na fisiopatologia. Ainda assim, o conjunto de dados reforça a importância de intervenções adaptadas ao diagnóstico e à idade, respeitando as particularidades de cada condição.

A Tabela II apresenta os escores obtidos no Segmental Assessment of Trunk Control (SATCo), instrumento utilizado para avaliar o controle postural segmentar das crianças antes, durante e após o protocolo semi-intensivo de fisioterapia. O SATCo analisa o alinhamento e a estabilidade do tronco em diferentes segmentos corporais, atribuindo escores de 0 a 20 pontos, nos quais valores mais baixos indicam maior dependência de suporte e valores mais altos representam melhor controle postural e independência funcional.

Na primeira avaliação, observou-se que metade das crianças (3, 4 e 5) apresentava escore igual a 0, caracterizando ausência de controle de tronco, enquanto a criança 2 obteve escore 5, demonstrando controle torácico parcial, e a criança 6 apresentou escore 8, indicando controle torácico inferior e lombar inicial. A criança 1 manteve pontuação máxima (14), evidenciando estabilidade total do tronco desde o início.

Na segunda avaliação, após algumas semanas de intervenção, os resultados mostraram melhora progressiva em praticamente todos os participantes. As crianças 2, 3 e 5 apresentaram ganhos discretos, refletindo avanço na sustentação torácica e melhora do alinhamento postural, enquanto a criança 6 evoluiu de 8 para 9 pontos. Essa progressão, embora gradual, demonstra respostas positivas ao treinamento de tronco, equilíbrio e marcha realizados nas sessões.

Na terceira avaliação, ao final do protocolo, verificou-se melhora expressiva e consistente na maioria das crianças. As participantes 3, 4 e 5, que haviam iniciado com escores nulos, alcançaram valores entre 8 e 11, correspondendo a controle torácico baixo e lombar alto, níveis que indicam maior independência postural. As crianças 2 e 6 também apresentaram aumento considerável, atingindo respectivamente 8 e 14 pontos, o que demonstra melhora substancial da estabilidade segmentar. A criança 1 manteve pontuação máxima ao longo de todo o tratamento, confirmando estabilidade postural preservada.

O valor de p = 0,04 evidencia diferença estatisticamente significativa entre as avaliações, reforçando a eficácia do protocolo semi-intensivo de fisioterapia associado ao uso do Theratogs® na melhora do controle de tronco. Esses achados confirmam que a intervenção contínua e adaptada favoreceu o fortalecimento dos músculos estabilizadores, a melhora do alinhamento corporal e o aumento da autonomia postural das crianças com distúrbios neuromotores.

A Tabela III demonstra uma evolução significativa no controle postural segmentar das crianças após o protocolo semi-intensivo de fisioterapia, segundo a classificação SATCo. Inicialmente, 50% dos participantes apresentavam controle apenas a nível de cabeça, evidenciando limitações motoras importantes. Ao final da intervenção, esse número foi reduzido a 0%, o que indica avanços na estabilização do tronco.

Destaca-se o aumento do controle torácico médio, de 16,6% para 50%, indicando maior estabilidade funcional e melhor organização do movimento. Além disso, a categoria “total de tronco sem faixa” passou de 0% para 33,4%, demonstrando que parte das crianças adquiriu independência postural, o que pode favorecer a participação em atividades cotidianas.

Por outro lado, não houve progressão nas classificações lombar alta e lombar baixa, sugerindo que essas regiões demandam maior tempo ou abordagens mais específicas para alcançar melhora.

A substituição de níveis de controle mais básicos por níveis mais avançados reforça a efetividade do protocolo fisioterapêutico proposto. Os resultados indicam que a intervenção foi capaz de promover ganhos funcionais relevantes, especialmente nas regiões torácicas, sendo promissora para a reabilitação de crianças com comprometimento motor.

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo demonstraram que a aplicação de um protocolo semi-intensivo de fisioterapia promoveu avanços clínicos e funcionais relevantes em crianças com diferentes diagnósticos neuromotores, evidenciados pela caracterização diagnóstica e evolução individual (Tabela I), pela progressão nos escores clínicos (Tabela II) e pela melhora do controle segmentar de tronco (Tabela III). Esses achados reforçam a hipótese de que a prática estruturada, ainda que não intensiva em nível máximo, é capaz de gerar mudanças significativas no desenvolvimento motor e postural infantil.

A análise da Tabela I evidencia a predominância de crianças com paralisia cerebral espástica — tanto diparesia quanto quadriparesia — em idades precoces, além de um caso de mielomeningocele lombar alta. Essa diversidade diagnóstica é relevante, pois reflete a heterogeneidade frequentemente observada em serviços de reabilitação pediátrica, nos quais diferentes condições coexistem, mas todas demandam estratégias específicas de estimulação do tronco. Butler et al. (2010) destacam que o Segmental Assessment of Trunk Control (SATCo) é uma ferramenta válida e confiável para identificar níveis distintos de controle postural em crianças com comprometimentos neuromotores, permitindo a detecção precisa de progressos segmentares. Em consonância, Saavedra e Woollacott (2015) apontam que crianças com mielomeningocele tendem a apresentar evolução postural mais lenta quando comparadas àquelas com paralisia cerebral espástica, devido às diferenças nos mecanismos fisiopatológicos. Assim, a presença desses dois grupos na amostra explica por que alguns participantes responderam mais rapidamente ao protocolo, enquanto outros apresentaram ganhos mais discretos.

Na Tabela II, verificou-se que crianças que apresentavam desempenho inicial nulo conseguiram alcançar avanços expressivos após as 12 semanas, atingindo valores entre 8 e 11 pontos. Esse resultado sugere que mesmo crianças em estágio inicial de comprometimento motor podem responder de maneira satisfatória quando submetidas a estímulos frequentes e sistematizados. Segundo Oliveira et al. (2017), programas intensivos de fisioterapia promovem ganhos significativos no desempenho funcional de crianças com paralisia cerebral, sobretudo naquelas com maiores limitações iniciais. Em complemento, Barbosa e Mancini (2014) observaram que programas semi-intensivos, com frequência regular e acompanhamento estruturado, também resultam em evolução gradativa do desempenho motor. Dessa forma, pode-se afirmar que os achados deste estudo se alinham ao corpo de evidências que sustentam a eficácia da fisioterapia frequente e contínua, ainda que não em regime máximo de intensidade.

Na Tabela III, nota-se uma mudança qualitativa no padrão de controle postural. Houve redução expressiva do percentual de crianças que apresentavam apenas controle de cabeça (50% → 0%) e aumento considerável daquelas com controle torácico médio (16,6% → 50%), torácico baixo (0% → 16,6%) e, sobretudo, com controle total de tronco sem faixa (0% → 33,4%). Essa evolução é clinicamente relevante, pois reflete não apenas a capacidade de manter segmentos superiores estabilizados, mas também a aquisição de estratégias motoras para sustentar o tronco em níveis mais baixos, aproximando-se da independência postural. Pavão et al. (2013) observaram resultados semelhantes em crianças com paralisia cerebral submetidas a fisioterapia intensiva, relatando progressão do controle cefálico para torácico/lombar, com impacto positivo em atividades de vida diária. Esses achados são corroborados por Saether et al. (2018), que descreveram evolução significativa no SATCo após protocolos semi-intensivos, especialmente na transição de controle com suporte para controle sem suporte externo, evidenciada de maneira clara no presente estudo.

Do ponto de vista fisiológico, os ganhos observados podem ser explicados pelo fortalecimento da musculatura estabilizadora do tronco e pela maior eficiência no recrutamento de mecanismos antigravitacionais, fundamentais para manter a postura ereta. Além disso, o treinamento segmentar progressivo, que caracteriza o SATCo, permite que a criança adquira estabilidade em um nível do tronco antes de avançar para o seguinte, o que torna o processo mais estruturado e facilita a consolidação do aprendizado motor (BUTLER et al., 2010). Segundo Saavedra e Woollacott (2015), a aquisição gradual do controle segmentar está diretamente relacionada ao desenvolvimento de habilidades motoras globais, como sentar, alcançar objetos e iniciar o padrão da marcha.

Sendo assim, do ponto de vista funcional, a evolução do controle de tronco impacta diretamente na independência das crianças. Ao reduzir a necessidade de suportes externos e ampliar a estabilidade postural, há maior liberdade para o uso dos membros superiores em atividades como alimentação, escrita e brincadeiras, além de favorecer a aquisição e a qualidade da marcha (SÆTHER; HELBOSTAD; ADDE, 2018). Nesse sentido, os resultados obtidos neste estudo não apenas confirmam a eficácia do protocolo semi-intensivo em termos de números, mas também indicam repercussões práticas importantes para a vida diária dos pacientes.

Assim, ao comparar os resultados individuais e coletivos das tabelas com os estudos de referência, evidencia-se uma forte convergência metodológica e clínica, situando o presente trabalho como contribuição relevante ao campo da fisioterapia pediátrica, em especial no que se refere à aplicabilidade e eficácia de protocolos semi-intensivos.

CONCLUSÃO

O presente trabalho evidenciou que a aplicação de um protocolo semi-intensivo de fisioterapia contribui para ganhos expressivos no controle de tronco de crianças com distúrbios neuromotores. A melhora observada na estabilidade postural refletiu diretamente na execução de atividades funcionais, favorecendo maior independência e qualidade de vida. Desse modo, o problema proposto foi respondido, confirmando a relevância da intervenção na reabilitação motora infantil.

Esses achados reforçam a importância da fisioterapia como área essencial no cuidado de crianças com limitações neuromotoras, destacando o papel do fisioterapeuta na promoção da autonomia e no fortalecimento das potencialidades individuais. Além disso, o estudo amplia a discussão sobre a necessidade de protocolos estruturados e acessíveis, capazes de oferecer suporte eficaz tanto no ambiente clínico quanto no contexto social dessas crianças.

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ANEXO A – Avaliação Segmentar do Controle de Tronco- SATCo-BR