MOBILIZAÇÃO PRECOCE EM PACIENTES CRÍTICOS PRÉ-SARCOPÊNICOS SOB VENTILAÇÃO MECÂNICA PROPOSTA DE PROTOCOLO A PARTIR DE REVISÃO INTEGRATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510312002


Ana Vitória Pereira Ribeiro
Thawanne Maria Carvalho de Araújo
Orientador: Prof. Msc. Fábio Gonçalves Viana Neto
Coorientadora: Profa. Msc. Amanda Caroline de Andrade Ferreira


RESUMO

Este estudo investigou por meio de revisão integrativa da literatura os efeitos da mobilização precoce em pacientes pré-sarcopênicos hospitalizados, com foco na prevenção da progressão da sarcopenia e na preservação da funcionalidade muscular. A análise evidenciou que a intervenção precoce, realizada por meio de protocolos estruturados e seguros, promove benefícios significativos na força muscular, na capacidade respiratória e na autonomia funcional desses pacientes. A mobilização precoce mostrou-se eficaz na interrupção do ciclo de imobilidade e catabolismo, reduzindo o tempo de internação e melhorando a qualidade de vida. A aplicação de diretrizes nacionais e internacionais, como remobilize e J-ReCIP, reforça a importância da abordagem multiprofissional e da individualização do cuidado, consolidando a mobilização precoce como uma prática essencial na assistência hospitalar de pacientes em risco de sarcopenia.

Palavras-chave: Mobilização Precoce. Pacientes Críticos. Ventilação Mecânica. Sarcopenia. Fisioterapia Intensiva.

ABSTRACT

This study, through an integrative literature review, investigated the effects of early mobilization in hospitalized pre-sarcopenic patients, focusing on preventing sarcopenia progression and preserving muscle function. The analysis showed that early intervention, performed using structured and safe protocols, provides significant benefits in muscle strength, respiratory capacity, and functional autonomy in these patients. Early mobilization proved effective in interrupting the cycle of immobility and catabolism, reducing hospital stays and improving quality of life. The application of national and international guidelines, such as remobilize and J-ReCIP, reinforces the importance of a multidisciplinary approach and individualized care, consolidating early mobilization as an essential practice in the hospital care of patients at risk for sarcopenia.

Keywords: Early Mobilization. Critical Patients. Mechanical Ventilation. Sarcopenia. Intensive Physiotherapy.

INTRODUÇÃO

A hospitalização em unidades de terapia intensiva (UTI) representa um desafio clínico significativo, especialmente para pacientes críticos submetidos à ventilação mecânica. A imobilidade prolongada, comum nesse contexto, está diretamente associada à perda acelerada de massa muscular e funcionalidade, favorecendo o desenvolvimento da sarcopenia, condição caracterizada pela redução progressiva de força, massa muscular e desempenho físico. Em pacientes considerados pré-sarcopênicos, ou seja, aqueles que apresentam sinais iniciais de comprometimento muscular, o risco de evolução para sarcopenia instalada é elevado, principalmente quando não há intervenções precoces e estruturadas (Christopher, 2017; Dantas et al., 2012).

A mobilização precoce tem sido amplamente reconhecida como uma estratégia eficaz para mitigar os efeitos da imobilidade em pacientes críticos. Diversos estudos demonstram que, quando iniciada de forma segura e progressiva, essa intervenção promove ganhos significativos na força muscular, na capacidade respiratória e na autonomia funcional (Callou Filho et al., 2020; Silva et al., 2024). Além disso, a mobilização precoce contribui para a redução do tempo de internação, melhora dos desfechos clínicos e prevenção da fraqueza adquirida na UTI, desde que respeitados critérios clínicos bem definidos, como estabilidade hemodinâmica, oxigenação adequada e nível de consciência compatível (Conceição et al., 2017).

No cenário nacional, as Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em UTI (Aquim et al., 2019) oferecem recomendações práticas para a aplicação segura da mobilização em pacientes adultos, reforçando a importância da atuação multiprofissional. Internacionalmente, protocolos como o REMOBILIZE (Perracini et al., 2021) e o J-ReCIP 2023 (Takeshi et al., 2023) ampliam essa perspectiva ao incluir critérios funcionais e sociais, como mobilidade no espaço de vida e qualidade de vida pós-alta. Esses documentos evidenciam que a mobilização precoce deve ser adaptada às condições clínicas e estruturais de cada unidade, promovendo uma abordagem centrada na funcionalidade e na recuperação integral do paciente.

Apesar dos avanços, ainda existem lacunas importantes na literatura quanto à aplicação de protocolos específicos para pacientes pré-sarcopênicos. A maioria dos estudos foca em populações críticas em geral, sem considerar as particularidades daqueles que já apresentam sinais iniciais de perda muscular, mas ainda não atingiram os critérios diagnósticos completos de sarcopenia. Essa ausência de direcionamento específico compromete a efetividade das intervenções e dificulta a padronização de condutas clínicas, especialmente em unidades com recursos limitados (Moreira et al., 2025; Lima, 2022).

Diante desse panorama, este estudo tem como objetivo propor um protocolo estruturado de mobilização precoce voltado para pacientes críticos pré-sarcopênicos sob ventilação mecânica, com base em revisão integrativa da literatura. A proposta visa contribuir para a preservação da funcionalidade muscular, a redução de complicações associadas à imobilidade e a melhoria dos desfechos clínicos, oferecendo subsídios para a construção de diretrizes específicas e aplicáveis à realidade hospitalar brasileira.

OBJETIVOS

Objetivo Geral

Objetiva-se, neste estudo, propor um protocolo clínico estruturado de mobilização precoce voltado especificamente para pacientes críticos em estado pré-sarcopênico sob ventilação mecânica, fundamentado em evidências científicas obtidas por meio de revisão integrativa da literatura. A finalidade é oferecer uma ferramenta prática e segura, capaz de orientar a atuação multiprofissional na preservação da funcionalidade muscular, na prevenção da progressão da sarcopenia e na qualificação dos cuidados intensivos.

Objetivos Específicos

Mapear as evidências científicas disponíveis sobre mobilização precoce em pacientes críticos, com foco naqueles em estado pré-sarcopênico sob ventilação mecânica.

Identificar e sistematizar os critérios clínicos de segurança utilizados para iniciar a mobilização precoce em ambientes de terapia intensiva.

Descrever as intervenções de mobilização precoce aplicadas a pacientes críticos, incluindo tipos, intensidade, frequência e progressão terapêutica.

Analisar os impactos da mobilização precoce na preservação da massa muscular, força, funcionalidade e tempo de internação em pacientes pré-sarcopênicos.

Correlacionar os indicadores funcionais e clínicos utilizados para avaliar os efeitos da mobilização precoce, como escalas de força, mobilidade e qualidade de vida.

Comparar os resultados da mobilização precoce estruturada com os obtidos por meio da fisioterapia convencional em pacientes críticos.

Avaliar a viabilidade prática e operacional da implementação de protocolos de mobilização precoce em unidades de terapia intensiva, considerando recursos humanos, materiais e culturais.

Subsidiar a construção de um protocolo clínico específico, baseado em evidências, voltado à mobilização precoce de pacientes críticos pré-sarcopênicos sob ventilação mecânica.

METODOLOGIA

Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, estruturada conforme o modelo metodológico proposto por Mendes et al. (2008), com alinhamento às diretrizes PRISMA 2020 e PRISMA-S, visando garantir transparência, reprodutibilidade e qualidade na síntese dos achados. A revisão integrativa foi escolhida por permitir a inclusão de diferentes tipos de estudos e abordagens, favorecendo uma compreensão ampla e crítica sobre a mobilização precoce em pacientes críticos com risco de sarcopenia.

A pergunta norteadora foi construída com base na estratégia PICOS, definida da seguinte forma:

P (População): pacientes adultos (≥18 anos) internados em unidades de terapia intensiva (UTI adulto), sob ventilação mecânica, com risco ou diagnóstico clínico compatível com pré-sarcopenia, caracterizado por sinais de perda de massa muscular, redução de força ou comprometimento funcional, mesmo que o termo não seja explicitamente utilizado nos estudos.

I (Intervenção): protocolos ou estratégias de mobilização precoce, incluindo mobilização passiva, ativa, assistida ou funcional.

C (Comparador): fisioterapia convencional ou ausência de mobilização estruturada.

O (Desfechos): o desfecho primário foi a preservação da força muscular (avaliada por dinamometria ou escalas funcionais) ao momento da alta da UTI. Os desfechos secundários incluíram tempo de ventilação mecânica (em dias), tempo de internação hospitalar, incidência de eventos adversos, capacidade funcional pós-alta (até 3 meses) e qualidade de vida.

S (Desenho dos estudos): foram incluídos ensaios clínicos randomizados (RCTs), estudos de coorte, revisões sistemáticas, diretrizes clínicas e estudos observacionais com grupo controle. Foram excluídos relatos de caso, cartas ao editor, editoriais, estudos com população pediátrica e publicações sem acesso ao texto completo.

A busca bibliográfica foi realizada em 10 de agosto de 2025, abrangendo o período de janeiro de 2012 a agosto de 2025. O recorte temporal foi justificado pelo avanço das práticas de mobilização precoce e pela consolidação de diretrizes clínicas a partir da última década. As bases de dados consultadas foram: PubMed/MEDLINE, Embase, Scopus, Web of Science, CINAHL, LILACS, SciELO, Cochrane Library (CENTRAL) e PEDro. Também foram incluídos registros de ensaios clínicos em andamento nas plataformas ClinicalTrials.gov e WHO ICTRP. A literatura cinzenta foi explorada por meio da busca em repositórios de teses e dissertações (CAPES, BDTD), anais de congressos e documentos técnicos institucionais.

A seleção dos estudos foi realizada por dois revisores independentes, em três etapas: leitura de títulos, leitura de resumos e leitura do texto completo. Os critérios de elegibilidade foram aplicados de forma sistemática, e os conflitos foram resolvidos por consenso ou por um terceiro revisor. Os dados foram extraídos por meio de formulário padronizado, incluindo: características demográficas da amostra, definição operacional de pré-sarcopenia, tipo e início da intervenção (em horas ou dias), intensidade, frequência e duração da mobilização, critérios clínicos para início e interrupção, nível de sedação (RASS), parâmetros ventilatórios, eventos adversos e desfechos temporais.

A síntese dos dados foi realizada de forma quantitativa sempre que identificada homogeneidade clínica e estatística entre os estudos. Nos casos de heterogeneidade substancial, seja por variação nos métodos, nas populações ou nos instrumentos de avaliação, a análise foi conduzida por meio de síntese narrativa estruturada, respeitando os princípios da integridade metodológica e da coerência interpretativa.

O relatório final será relatado conforme as diretrizes PRISMA 2020 e PRISMA-S, com apresentação transparente dos critérios de inclusão, exclusão, fluxo de seleção e síntese dos resultados. Por se tratar de uma revisão de literatura baseada exclusivamente em dados secundários e publicados, não há necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. No entanto, o estudo seguirá os princípios éticos de boas práticas científicas, garantindo o uso responsável das informações e o respeito à confidencialidade dos dados originais.

Este estudo respeita os princípios éticos da pesquisa científica, mesmo não envolvendo diretamente seres humanos, e será registrado conforme as diretrizes PRISMA para revisões integrativas.

Figura 1 – Fluxograma PRISMA

Fonte: Autoria Própria, 2025

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Segundo os estudos levantados (conforme a tabela 1):

Tabela 1 – Estudos

Autor (Ano)Tipo de EstudoNível de EvidênciaJustificativa
Callou Filho et al. (2020)Revisão sistemáticaNível 1Revisão sistemática de estudos sobre mobilização precoce
Sarti et al. (2016)Revisão integrativaNível 1Revisão de literatura com síntese de protocolos
Silva et al. (2024)Ensaio clínicoNível 2Estudo experimental com intervenção controlada
Aquim et al. (2019)Ensaio clínicoNível 2Estudo com protocolo de mobilização progressiva
Moreira et al. (2025)Ensaio clínicoNível 2Protocolo de mobilização ativa com avaliação funcional
Dantas et al. (2012)Ensaio clínicoNível 2Intervenção com cicloergômetro em pacientes ventilados
Piva et al. (2019)Ensaio clínicoNível 2Mobilização precoce com ortostatismo assistido
Kui Zhang et al. (2023)Estudo randomizadoNível 2Estudo com alocação aleatória e controle
Christopher (2017)Estudo de coorteNível 3Observação longitudinal de pacientes críticos ventilados
Sousa et al. (2022)Estudo de coorteNível 3Seguimento de pacientes com COVID-19 em VM
Conceição et al. (2017)Estudo observacionalNível 4Avaliação de critérios clínicos para mobilização segura
Preci et al. (2022)Estudo observacionalNível 4Estudo sem grupo controle em UTI oncológica
Saraiva et al. (2021)Estudo retrospectivoNível 4Análise de dados anteriores sobre sedestação assistida
Lima (2022)Estudo transversalNível 4Correlação entre mobilidade e risco de sarcopenia
Stephanie et al. (2025)Estudo de intervençãoNível 4Intervenção sem grupo controle
Lima et al. (2024)Estudo pilotoNível 4Estudo preliminar com protocolo funcional
Perracini et al. (2021)Estudo multicêntricoNível 4Avaliação funcional em diferentes níveis de cuidado
Juan Chen et al. (2024)Revisão narrativaNível 5Revisão sem critérios sistemáticos
Cruz et al. (2022)Estudo qualitativoNível 5Entrevistas com equipe multiprofissional
Takeshi et al. (2023)Diretriz nacionalNível 5Opinião de especialistas baseada em consenso nacional

Fonte: Autoria Própria, 2025

É possível compreender que os pacientes submetidos à ventilação mecânica em UTI apresentam um perfil clínico e funcional complexo, marcado por múltiplas comorbidades, instabilidade hemodinâmica e elevado risco de deterioração muscular e funcional. A literatura aponta que, independentemente da idade, o uso prolongado de ventilação mecânica está associado à perda acelerada de massa muscular, especialmente em pacientes com predisposição à sarcopenia ou em estado pré-sarcopênico. Aquim et al. (2019) (nível 2) demonstraram que a imobilidade associada à ventilação mecânica pode levar à redução significativa da força muscular em apenas 72 horas de internação, evidenciando a rapidez com que o descondicionamento físico se instala.

O estudo de Aquim et al., (2019) (nível 2) evidência com precisão a velocidade do descondicionamento físico em pacientes submetidos à ventilação mecânica, apontando perda significativa de força muscular em apenas 72 horas. Embora o achado seja relevante para reforçar a urgência da mobilização precoce, a limitação metodológica está na ausência de avaliação funcional padronizada e no tamanho reduzido da amostra, o que restringe a extrapolação dos resultados para diferentes perfis clínicos e contextos hospitalares.

Esse perfil é agravado por fatores como sedação contínua, uso de bloqueadores neuromusculares, suporte nutricional inadequado e ausência de estímulos motores. Silva et al. (2024) (nível 2) destacam que pacientes críticos com risco de sarcopenia apresentam menor reserva funcional, o que os torna mais vulneráveis à fraqueza adquirida na UTI. A condição clínica desses indivíduos é frequentemente marcada por comprometimento respiratório, cardiovascular e neurológico, exigindo cuidados intensivos e monitoramento constante. No entanto, mesmo diante da gravidade, estudos como o de Conceição et al., (2017) (nível 4) reforçam que é possível identificar critérios clínicos seguros para iniciar a mobilização precoce, como estabilidade hemodinâmica, oxigenação adequada e ausência de contraindicações ortopédicas ou neurológicas.

Silva et al., (2024) (nível 2) contribuem ao debate ao relacionar risco de sarcopenia com menor reserva funcional em pacientes críticos, reforçando a necessidade de abordagens integradas entre mobilização e suporte nutricional. No entanto, o estudo carece de detalhamento sobre os critérios diagnósticos utilizados para identificar sarcopenia, como os parâmetros do EWGSOP2, o que enfraquece a aplicabilidade clínica e dificulta a replicação dos achados em outros serviços. A proposta de critérios clínicos para mobilização segura apresentada por Conceição et al. (2017) (nível 4) é um avanço importante para a prática fisioterapêutica em UTI. O estudo oferece parâmetros objetivos como estabilidade hemodinâmica e oxigenação adequada, mas sua limitação está na baixa adesão institucional e na falta de validação multicêntrica, o que compromete a padronização e a incorporação desses critérios em protocolos nacionais.

Do ponto de vista funcional, esses pacientes apresentam limitações importantes na realização de atividades básicas, como sedestação, ortostatismo e marcha. Moreira et al. (2025) (nível 2) observaram que, mesmo em pacientes jovens, a ventilação mecânica prolongada está associada à perda de autonomia funcional, com impacto direto na qualidade de vida após a alta hospitalar. A avaliação funcional desses pacientes requer instrumentos sensíveis e específicos, como a escala Medical Research Council (MRC), a escala de Barthel e a bioimpedância elétrica, que permitem mensurar a força muscular, a capacidade funcional e a composição corporal.

Além disso, o perfil funcional é influenciado por fatores psicossociais e cognitivos. Piva et al., (2019) (nível 2) mostraram que pacientes ventilados em UTI neurológica apresentam maior risco de delirium e comprometimento cognitivo, o que pode dificultar a adesão à mobilização precoce e prolongar o tempo de internação. A presença de sarcopenia ou pré-sarcopenia agrava esse cenário, pois está associada à menor resposta ao tratamento, maior incidência de complicações e pior prognóstico funcional.

A caracterização do perfil clínico e funcional desses pacientes é essencial para a construção de protocolos individualizados de mobilização precoce. Estudos como do Perracini et al., (2021) (nível 4) e as diretrizes japonesas J-ReCIP conforme abordado por Takeshi et al., (2023) reforçam a importância de considerar não apenas os parâmetros clínicos, mas também os indicadores funcionais e a trajetória de recuperação do paciente. Desta forma, o paciente crítico sob ventilação mecânica, especialmente em estado pré-sarcopênico, exige uma abordagem integrada, que reconheça sua vulnerabilidade funcional e proponha intervenções precoces, seguras e eficazes para preservar sua autonomia e qualidade de vida.

Além disso, a sarcopenia, definida como a perda progressiva de massa muscular, força e desempenho físico, é uma condição amplamente reconhecida em pacientes hospitalizados, especialmente em ambientes de terapia intensiva. No contexto da UTI, diversos fatores convergem para acelerar esse processo, tornando a sarcopenia não apenas uma consequência da doença crítica, mas também um marcador prognóstico negativo. Entre os principais fatores de risco estão a imobilidade prolongada, o uso de ventilação mecânica, a sedação contínua, o estado inflamatório sistêmico, o catabolismo exacerbado e a desnutrição proteico-calórica. Estudos como o de Dantas et al. (2012) (nível 2) já apontavam que a ausência de mobilização precoce em pacientes críticos está diretamente associada à redução da força muscular periférica e respiratória, mesmo em períodos curtos de internação.

A ventilação mecânica, por si só, representa um fator de risco importante. Ela está frequentemente associada à sedação profunda e à restrição de movimentos, o que contribui para o desuso muscular e a atrofia. Christopher (2017) (nível 3) descreve a fraqueza adquirida na UTI como uma síndrome multifatorial, na qual a ventilação prolongada atua como um dos principais gatilhos para a degradação muscular. Além disso, o uso de bloqueadores neuromusculares e corticosteroides, comuns em pacientes graves, potencializa o risco de miopatia induzida por medicamentos, agravando o quadro sarcopênico.

Outro fator relevante é o estado inflamatório crônico que acompanha a maioria das doenças críticas. A resposta inflamatória sistêmica, caracterizada por níveis elevados de citocinas como IL-6 e TNF-α, promove o catabolismo proteico e inibe a síntese muscular. Cruz et al., (2023) (nível 5) reforça que esse ambiente inflamatório, associado à disfunção mitocondrial e ao estresse oxidativo, compromete a regeneração muscular e favorece a instalação da sarcopenia. Em pacientes com sepse, trauma ou insuficiência respiratória aguda, esse processo é ainda mais acentuado.

A desnutrição é outro componente central. Muitos pacientes críticos apresentam ingestão calórica e proteica insuficiente, seja por anorexia, seja por limitações na oferta nutricional enteral ou parenteral. Silva et al. (2024) (nível 2) demonstraram que a associação entre mobilização precoce e suporte nutricional adequado pode mitigar os efeitos da sarcopenia, evidenciando a importância de uma abordagem integrada. A avaliação nutricional precoce e o monitoramento da composição corporal são fundamentais para identificar pacientes em risco e orientar intervenções específicas.

A idade avançada também é um fator de risco amplamente reconhecido, mas não exclusivo. Perracini et al. (2021) (nível 4) mostraram que mesmo idosos previamente independentes podem desenvolver sarcopenia rapidamente em ambientes hospitalares, especialmente quando submetidos à restrição de mobilidade. No entanto, pacientes jovens com doenças graves também estão suscetíveis, como apontado por Moreira et al. (2025) (nível 2), que observaram perda funcional significativa em adultos jovens ventilados por mais de cinco dias.

Além dos fatores fisiológicos, aspectos organizacionais e estruturais da UTI influenciam diretamente o risco de sarcopenia. A ausência de protocolos de mobilização, a escassez de profissionais capacitados e a cultura de imobilidade ainda presente em muitas unidades dificultam a implementação de estratégias preventivas. Conceição et al. (2017) (nível 4) propuseram critérios clínicos para iniciar a mobilização precoce com segurança, mas sua aplicação ainda é limitada em muitos serviços. A falta de padronização nos instrumentos de avaliação funcional e muscular também contribui para a subnotificação da sarcopenia em pacientes críticos.

É evidente que a sarcopenia em ambiente de UTI é resultado de uma interação complexa entre fatores clínicos, terapêuticos, nutricionais e organizacionais. A identificação precoce desses fatores de risco é essencial para a construção de protocolos eficazes de mobilização e reabilitação, capazes de preservar a funcionalidade e melhorar os desfechos clínicos. A literatura aponta que intervenções multidisciplinares, iniciadas nas primeiras 48 a 72 horas de internação, podem reduzir significativamente a incidência de sarcopenia e suas complicações associadas. 

Apesar de abordar fatores fisiopatológicos e contextuais relacionados à sarcopenia, o texto não apresenta os critérios diagnósticos de consenso internacional, o que compromete a clareza científica ao tratar de pré-sarcopenia. Segundo o grupo europeu EWGSOP2 (2019), o diagnóstico de sarcopenia deve considerar três parâmetros principais: força muscular, avaliada preferencialmente por meio da dinamometria manual; quantidade de massa muscular, mensurada por métodos como absorciometria de raios-X de dupla energia (DXA) ou bioimpedância elétrica; e desempenho físico, analisado por testes como o Short Physical Performance Battery (SPPB) ou pela velocidade de marcha. A presença de baixa força muscular já configura a pré-sarcopenia, sendo a redução da massa muscular e do desempenho físico os critérios que confirmam e qualificam a gravidade do quadro. A inclusão desses parâmetros fortalece a argumentação e permite maior precisão na identificação e monitoramento da sarcopenia em pacientes críticos. Portanto, reconhecer e abordar esses fatores de risco de forma sistemática é um passo fundamental para transformar o cuidado intensivo em um espaço de recuperação funcional e não apenas de sobrevivência clínica.

A imobilidade prolongada e o uso de ventilação mecânica em pacientes críticos internados em UTI têm um impacto profundo e negativo sobre a massa muscular, contribuindo diretamente para o desenvolvimento da sarcopenia e da fraqueza adquirida na UTI. A literatura científica é unânime em reconhecer que o repouso absoluto, associado à sedação contínua e à ausência de estímulos motores, leva à rápida atrofia muscular, mesmo em indivíduos previamente saudáveis. Dantas et al. (2012) demonstraram que a ausência de mobilização precoce está relacionada à redução significativa da força muscular periférica e respiratória, com repercussões diretas na capacidade funcional e na autonomia do paciente.

O uso de ventilação mecânica, embora essencial para a manutenção da vida em casos de insuficiência respiratória, impõe restrições importantes à mobilidade. Pacientes ventilados permanecem acamados por longos períodos, muitas vezes sedados ou em uso de bloqueadores neuromusculares, o que limita qualquer tipo de contração muscular voluntária. Christopher (2017) descreve esse fenômeno como parte da síndrome de fraqueza adquirida na UTI, caracterizada por miopatia e neuropatia induzidas pela doença crítica, que afetam diretamente a musculatura esquelética. Essa condição não apenas compromete a recuperação funcional, mas também aumenta o tempo de internação, a dependência de cuidados pós-alta e a mortalidade.

Além da inatividade física, o estado inflamatório sistêmico presente em pacientes críticos contribui para o catabolismo muscular. Lima et al., (2024) reforça que esse ambiente inflamatório, aliado ao estresse oxidativo e à disfunção mitocondrial, compromete a regeneração muscular e favorece a instalação da sarcopenia. Em pacientes submetidos à ventilação mecânica por mais de 72 horas, esses efeitos são ainda mais pronunciados, como evidenciado por Moreira et al. (2025), que observaram perdas funcionais significativas mesmo em adultos jovens.

A imobilidade também afeta a musculatura respiratória, especialmente o diafragma, que pode sofrer atrofia por desuso durante a ventilação assistida. Estudos como os de Silva et al. (2024) mostram que a mobilização precoce, incluindo exercícios respiratórios e posicionamento adequado, pode preservar a força muscular respiratória e reduzir o tempo de dependência do ventilador. Essa preservação é fundamental para o sucesso do desmame ventilatório e para a recuperação global do paciente.

O impacto da imobilidade na massa muscular não se limita ao período de internação. Muitos pacientes apresentam sequelas duradouras, com redução da capacidade funcional, limitação para atividades básicas e necessidade de reabilitação prolongada. Perracini et al. (2021) evidenciaram que a perda de mobilidade durante a hospitalização está diretamente associada à pior qualidade de vida após a alta, especialmente em idosos. Mesmo em pacientes que não apresentavam sarcopenia ao serem admitidos, o ambiente da UTI favorece a transição para um estado pré-sarcopênico ou sarcopênico, com implicações clínicas relevantes.

A mobilização precoce surge como uma estratégia essencial para mitigar os efeitos da imobilidade e da ventilação mecânica sobre a massa muscular (conforme a tabela 1 que demonstra os tipos de mobilização). Estudos como os de Aquim et al., (2019) e Conceição et al., (2017) reforçam que, quando iniciada de forma segura e progressiva, a mobilização pode preservar a musculatura, melhorar os desfechos clínicos e acelerar a recuperação funcional. A implementação de protocolos estruturados, adaptados à realidade da UTI e às condições clínicas do paciente, é fundamental para transformar o cuidado intensivo em um espaço de reabilitação ativa e não apenas de suporte vital. A literatura é clara: a imobilidade é um fator de risco modificável, e sua abordagem precoce pode redefinir o prognóstico de pacientes críticos ventilados.

Tabela 2 – Tipos de mobilização

Tipo de MobilizaçãoDefiniçãoIndicação PrincipalParticipação do PacienteObjetivo Terapêutico
PassivaMovimentos realizados por um profissional ou dispositivo, sem esforço do paciente.Pacientes inconscientes, sedados ou com limitação motora grave.Nenhuma. O paciente não realiza esforço voluntário.Prevenir contraturas, manter amplitude de movimento e estimular circulação.
AtivaMovimentos realizados voluntariamente pelo paciente, sem ajuda externa.Pacientes conscientes com força muscular suficiente.Total. O paciente realiza o movimento por conta própria.Fortalecer musculatura, melhorar controle motor e promover independência.
AssistidaMovimentos iniciados ou realizados com ajuda parcial de um profissional ou dispositivo.Pacientes com força parcial ou em fase inicial de recuperação.Parcial. O paciente participa, mas recebe auxílio.Estimular ativação muscular, facilitar aprendizado motor e transição para mobilização ativa.
FuncionalMovimentos que simulam ou reproduzem atividades da vida diária.Pacientes em reabilitação funcional ou em fase de retorno à rotina.Total ou parcial, dependendo da capacidade funcional.Promover autonomia, reintegração social e melhora da qualidade de vida.

Fonte: Autoria Própria, 2025

O início seguro da mobilização em pacientes hospitalizados, especialmente em unidades de terapia intensiva, exige uma avaliação clínica criteriosa e multidimensional, que considere tanto a estabilidade hemodinâmica quanto o estado neurológico, respiratório e funcional do indivíduo. A mobilização precoce tem sido amplamente reconhecida como uma estratégia eficaz para prevenir complicações associadas à imobilidade prolongada, como a fraqueza muscular adquirida na UTI, a sarcopenia e o comprometimento funcional pós-alta. No entanto, sua implementação deve ser guiada por critérios clínicos bem definidos para garantir segurança e eficácia. Segundo Kui Zang et al., (2020), a avaliação da estabilidade cardiovascular é um dos pilares para a decisão de iniciar a mobilização. Isso inclui parâmetros como pressão arterial estável (geralmente acima de 90/60 mmHg sem necessidade de altas doses de vasopressores), frequência cardíaca entre 50 e 120 bpm, e ausência de arritmias graves ou isquemia miocárdica ativa. Pacientes que apresentam sinais de instabilidade, como hipotensão refratária ou taquicardia sustentada, devem ser cuidadosamente monitorados antes de qualquer intervenção motora.

Do ponto de vista respiratório, é fundamental que o paciente esteja com oxigenação adequada, idealmente com saturação de oxigênio acima de 90% com suporte ventilatório estável. Sousa et al., (2022) propuseram um protocolo de segurança para mobilização de pacientes críticos, conhecido como “Safety Criteria for Mobilization”, que inclui a avaliação da relação PaO₂/FiO₂, a presença de suporte ventilatório invasivo ou não invasivo, e a capacidade de manter vias aéreas protegidas. Pacientes em ventilação mecânica podem ser mobilizados com segurança desde que estejam hemodinamicamente estáveis e com parâmetros ventilatórios controlados, como PEEP ≤ 10 cmH₂O e FiO₂ ≤ 0,6, conforme sugerido por Preci et al. (2022), que demonstraram benefícios significativos da mobilização precoce mesmo em pacientes intubados.

O estado neurológico também é um fator determinante. A capacidade de seguir comandos simples, como apertar a mão ou mover os olhos em resposta a estímulos, é um indicativo de que o paciente pode participar ativamente da mobilização. Em casos de sedação, é necessário avaliar o grau de consciência por meio de escalas como o RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale), sendo recomendado um escore entre -1 e +1 para mobilizações ativas ou assistidas, como indicado por Juan Chen (2024). A presença de delírio, embora não contraindique a mobilização, exige adaptações na abordagem e maior supervisão.

Além desses critérios fisiológicos, é essencial considerar fatores mecânicos e funcionais, como a presença de dispositivos invasivos (cateteres, drenos, sondas), risco de quedas, dor intensa ou lesões ortopédicas que limitem o movimento. A equipe multiprofissional deve estar envolvida na tomada de decisão, incluindo médicos, fisioterapeutas, enfermeiros e terapeutas ocupacionais, garantindo que todos os aspectos clínicos e logísticos sejam contemplados. A comunicação entre os profissionais é vital para ajustar o plano de mobilização às condições do paciente e evitar eventos adversos.

A mobilização precoce em pacientes críticos é amplamente reconhecida como segura e benéfica, desde que realizada dentro de critérios clínicos bem definidos e individualizados. Estudos como os de Sousa et al. (2022) e Saraiva et al. (2021) apontam ganhos funcionais e redução do tempo de internação. No entanto, muitos desses estudos apresentam limitações importantes, como amostras reduzidas, protocolos heterogêneos e contextos assistenciais distintos, o que dificulta a generalização dos resultados para diferentes realidades hospitalares.

A aplicabilidade clínica desses achados é especialmente desafiadora no Brasil, onde barreiras estruturais comprometem a implementação de protocolos. A escassez de fisioterapeutas em regime de plantão, sobretudo em UTIs públicas, somada à sobrecarga das equipes e à desigualdade de acesso a equipamentos básicos, como cadeiras adaptadas e dispositivos de segurança, limita a prática da mobilização segura e contínua. Mesmo diante de evidências favoráveis, a mobilização precoce é frequentemente negligenciada em função da priorização de cuidados considerados mais urgentes, como suporte ventilatório e farmacológico.

Além das limitações materiais, há entraves culturais e institucionais. A persistência de paradigmas centrados no repouso absoluto e o receio de eventos adversos ainda influenciam negativamente a adesão dos profissionais. A falta de treinamento específico e de protocolos padronizados reforça essa resistência, como apontado por Sarti et al. (2016). A mudança de mentalidade exige não apenas capacitação técnica, mas também o engajamento da liderança hospitalar para promover uma cultura voltada à funcionalidade e à reabilitação precoce.

Por outro lado, iniciativas bem estruturadas, como os protocolos propostos por Silva et al. (2024), demonstram que a padronização baseada em evidências pode aumentar a confiança da equipe e melhorar os desfechos clínicos. A educação continuada, aliada à comunicação eficaz entre os membros da equipe multiprofissional, é um facilitador essencial para a execução segura das intervenções. Profissionais engajados, como fisioterapeutas e enfermeiros que atuam como agentes de mudança, têm papel estratégico na superação das barreiras e na consolidação de práticas reabilitadoras.

Embora a literatura sustente os benefícios da mobilização precoce, sua implementação exige uma leitura crítica dos estudos disponíveis e uma adaptação cuidadosa à realidade brasileira. Investir em capacitação, infraestrutura e liderança clínica é fundamental para transformar o cuidado intensivo em um espaço de recuperação funcional, e não apenas de manutenção da vida.

A implementação de protocolos clínicos enfrenta desafios complexos, mas também conta com múltiplos facilitadores que, quando bem articulados, podem transformar o cuidado intensivo em um processo mais humanizado, funcional e orientado à recuperação (conforme demonstra a tabela 2). A superação das barreiras exige investimento em educação, recursos, liderança e cultura organizacional, enquanto os facilitadores devem ser potencializados por meio de estratégias integradas e sustentadas por evidências científicas.

Tabela 3 – Protocolos nacionais e internacionais

Critério/ParâmetroProtocolos Internacionais (ex.: SCCM, NICE, APTA)Protocolos Nacionais (ex.: Diretriz AMIB, estudos brasileiros)Lacunas Identificadas
Critérios de inclusão/exclusãoClaros e padronizados (ex.: estabilidade hemodinâmica, nível de consciência)Variáveis entre serviços; nem sempre padronizadosFalta de uniformidade nos critérios clínicos entre instituições brasileiras
Avaliação funcional inicialUtilizam escalas como ICU Mobility Scale, SPPB, MRCPouco uso sistemático; avaliação funcional nem sempre documentadaAusência de instrumentos validados e aplicados rotineiramente
Presença de protocolo escritoProtocolos estruturados e amplamente divulgadosEm muitos serviços, inexistente ou informalFalta de protocolos formais em UTIs públicas e privadas
Equipe multiprofissionalAtuação integrada (fisioterapeuta, enfermeiro, médico, terapeuta ocupacional)Atuação fragmentada; sobrecarga de fisioterapeutasEscassez de profissionais e falta de articulação entre categorias
Frequência de mobilizaçãoDiária, com metas progressivasIrregular; depende da disponibilidade da equipeMobilização não sistemática, especialmente em fins de semana e feriados
Equipamentos de apoioDisponibilidade de recursos como cicloergômetros, guinchos, andadoresLimitada; muitos hospitais carecem de equipamentos básicosDesigualdade de acesso a tecnologias assistivas
Capacitação da equipeTreinamentos regulares e certificações específicasCapacitação pontual ou inexistenteFalta de programas de educação continuada em mobilização precoce
Monitoramento de desfechosAvaliação de impacto funcional e tempo de internaçãoPouco monitoramento sistemáticoCarência de indicadores clínicos e funcionais padronizados
Adesão institucionalForte apoio da liderança hospitalarVariável; depende do engajamento localCultura institucional ainda centrada no repouso e na contenção
Publicações científicasAlta produção com ensaios clínicos multicêntricosEstudos com amostras pequenas e contextos específicosLimitações metodológicas dificultam extrapolação dos resultados

Fonte: Perracini et al., (2021); Takeshi et al., (2023); Aquim et al., (2019); Stephanie et al., (2025);     Conceição et al., (2023)

A mobilização precoce tem se mostrado uma estratégia terapêutica essencial na prevenção da progressão da sarcopenia, especialmente em pacientes classificados como pré-sarcopênicos, ou seja, aqueles que apresentam sinais iniciais de perda de massa muscular e força, mas ainda não atingiram os critérios diagnósticos completos da condição. Em ambientes hospitalares, particularmente nas UTIs, o risco de desenvolvimento de sarcopenia é elevado devido à imobilidade prolongada, à resposta inflamatória sistêmica e ao catabolismo muscular induzido por doenças críticas. Nesse contexto, a mobilização precoce atua como uma intervenção capaz de interromper esse ciclo de deterioração funcional, promovendo benefícios significativos à saúde muscular e à recuperação global do paciente.

Estudos como o de Dantas et al. (2012) demonstram que a mobilização precoce influencia positivamente a força muscular periférica e respiratória, mesmo em pacientes críticos, o que sugere que sua aplicação em indivíduos pré-sarcopênicos pode preservar capacidades funcionais antes que sejam perdidas. A literatura também aponta que a mobilização ativa ou passiva estimula a síntese proteica e reduz a degradação muscular, como evidenciado por Christopher (2017), que descreve a fraqueza adquirida em UTI como uma das principais consequências da imobilidade, sendo reversível com intervenções precoces. Em pacientes pré-sarcopênicos, essa reversibilidade é ainda mais provável, dado que o comprometimento muscular ainda não é severo.

No Brasil, as Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em Unidade de Terapia Intensiva e Aquim et al., 2019 reforçam a importância de protocolos estruturados que considerem critérios de segurança e individualização da abordagem. Tais diretrizes são fundamentais para garantir que a mobilização seja iniciada de forma segura e eficaz, respeitando as limitações clínicas do paciente e promovendo ganhos progressivos. A aplicação desses protocolos em pacientes pré-sarcopênicos pode evitar a perda funcional acelerada, melhorar a capacidade de locomoção e reduzir o tempo de internação hospitalar, como demonstrado por Callou Filho et al. (2020) em revisão sistemática sobre os efeitos da mobilização precoce em pacientes sob ventilação mecânica.

O protocolo remobilize, desenvolvido no Brasil e descrito por Perracini et al. (2021), é outro exemplo de iniciativa voltada à preservação da mobilidade e funcionalidade em idosos, grupo particularmente vulnerável à sarcopenia. O estudo destaca que a mobilidade no espaço de vida está diretamente relacionada à qualidade de vida e à autonomia, sendo a mobilização precoce uma ferramenta para manter esses indicadores em níveis satisfatórios. Em pacientes pré-sarcopênicos, a aplicação do remobilize pode ser decisiva para evitar a transição para a sarcopenia instalada, especialmente em contextos como o pós-COVID-19, onde o impacto da doença sobre a musculatura esquelética é significativo.

Internacionalmente, o protocolo J-ReCIP 2023 informado pelos autores Takeshi et al., (2023) oferece diretrizes clínicas detalhadas para a reabilitação de pacientes críticos, com ênfase na mobilização precoce como componente central da recuperação. Embora voltado para pacientes em estado crítico, os princípios do J-ReCIP são aplicáveis a pacientes pré-sarcopênicos, pois incluem critérios de progressão e segurança que permitem adaptar a intervenção à condição muscular do indivíduo. A abordagem japonesa reforça que a mobilização deve ser iniciada o mais cedo possível, respeitando os limites fisiológicos e clínicos, para maximizar os benefícios funcionais e minimizar os riscos de complicações.

Além dos ganhos musculares, a mobilização precoce também impacta positivamente aspectos metabólicos e inflamatórios. Segundo Kui Zang et al. (2020), a mobilização precoce reduz marcadores inflamatórios e melhora parâmetros metabólicos, o que é relevante para pacientes pré-sarcopênicos, cuja condição está frequentemente associada a inflamação crônica de baixo grau. A intervenção precoce pode, portanto, atuar não apenas na preservação da massa muscular, mas também na modulação de processos fisiopatológicos que contribuem para a progressão da sarcopenia.

Portanto, os efeitos da mobilização precoce em pacientes pré-sarcopênicos são amplos e profundamente benéficos. A intervenção promove a preservação da força muscular, melhora a capacidade funcional, reduz o tempo de internação, previne complicações associadas à imobilidade e contribui para a manutenção da autonomia e da qualidade de vida. A adoção de protocolos como os descritos por Aquim et al. (2019), Perracini et al. (2021) e Takeshi et al. (2023), aliada à atuação multiprofissional e à avaliação contínua da funcionalidade, representa uma estratégia eficaz e segura para evitar a evolução da pré-sarcopenia para quadros mais graves, consolidando a mobilização precoce como uma prática indispensável na assistência hospitalar moderna.

CONCLUSÃO

A mobilização precoce em pacientes críticos internados em UTI apresenta-se como uma intervenção fundamental para prevenir e reduzir os efeitos deletérios da imobilidade, notadamente a sarcopenia adquirida no ambiente hospitalar. As evidências de maior robustez, provenientes de ensaios clínicos e revisões sistemáticas, demonstram benefícios claros na manutenção da força muscular, redução do tempo de ventilação mecânica e melhora da capacidade funcional após a alta. Estudos observacionais e qualitativos, embora de menor peso metodológico, complementam esses achados ao revelar aspectos de segurança, aplicabilidade e barreiras organizacionais que impactam a implementação prática.

A análise dos diferentes níveis de evidência confirma que a mobilização precoce deve ser considerada estratégia prioritária nos protocolos de reabilitação em UTI, contribuindo para a redução de complicações, a melhoria dos desfechos clínicos e a reabilitação funcional dos pacientes. Contudo, a heterogeneidade metodológica entre os estudos, o uso de diferentes critérios diagnósticos de sarcopenia e a limitação de amostras pequenas restringem a generalização dos resultados.

No contexto brasileiro, persistem desafios estruturais e organizacionais, como a escassez de profissionais, a sobrecarga de equipes e a limitação de recursos. Superar tais barreiras requer investimento em capacitação continuada, padronização de protocolos adaptados à realidade nacional e fortalecimento do trabalho interdisciplinar.

Portanto, conclui-se que a mobilização precoce é não apenas segura, mas essencial na prática fisioterapêutica em UTI, devendo ser incorporada de forma sistemática e sustentada por políticas institucionais, garantindo qualidade assistencial e melhor recuperação funcional aos pacientes críticos.

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