A INFLUÊNCIA DO GLIFOSATO NA GRAVIDEZ: IMPACTO NO DESENVOLVIMENTO DO TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA)

THE INFLUENCE OF GLYPHOSATE ON PREGNANCY: IMPACT ON THE DEVELOPMENT OF AUTISM SPECTRUM DISORDER (ASD)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510312006


Alice Cordeiro Rocha1
Débora Graziela Coelho Tokuta1
Francisca Marta Nascimento de Oliveira Freitas2
Rebeca Sakamoto Figueiredo3


RESUMO 

O glifosato é um herbicida amplamente utilizado e sua exposição durante a gestação tem gerado preocupação quanto  aos possíveis impactos no neurodesenvolvimento. Este estudo teve como objetivo analisar a relação entre a  exposição materna ao glifosato e o risco de desenvolvimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Foi  realizada uma revisão integrativa da literatura, com busca em bases científicas e livros publicados entre 2015 e  2025, selecionando materiais que abordassem agrotóxicos, gestação e TEA. A análise revelou que o glifosato pode  atuar como desregulador endócrino, imunológico e metabólico, além de interferir no eixo intestino-cérebro,  mecanismos relacionados ao neurodesenvolvimento fetal. Também foram identificados riscos decorrentes da  exposição ocupacional, ambiental e alimentar, que configuram um problema de saúde pública. Conclui-se que a  exposição materna ao glifosato representa um potencial fator de risco para alterações neurológicas no feto,  reforçando a necessidade de medidas preventivas e maior investigação científica. 

Palavras-chave: Glifosato, Agrotóxicos, Exposição pré-natal, Transtorno do Espectro Autista.

ABSTRACT 

Glyphosate is a widely used herbicide, and its exposure during pregnancy has raised concerns about possible  impacts on neurodevelopment. This study aimed to analyze the relationship between maternal exposure to  glyphosate and the risk of Autism Spectrum Disorder (ASD). An integrative literature review was carried out  through searches in scientific databases and academic books published between 2015 and 2025, selecting materials  that addressed pesticides, pregnancy, and ASD. The analysis showed that glyphosate can act as an endocrine,  immune, and metabolic disruptor, in addition to interfering with the gut-brain axis, mechanisms related to fetal  neurodevelopment. Occupational, environmental, and dietary exposure were also identified as risk factors,  representing a public health issue. It is concluded that maternal exposure to glyphosate represents a potential risk  factor for neurological alterations in the fetus, reinforcing the need for preventive measures and further scientific  investigation. 

Keyword: Glyphosate; Pesticides; Prenatal exposure; Autism Spectrum Disorder. 

1. INTRODUÇÃO 

O glifosato é um herbicida de uso massivo na agricultura global, reconhecido por sua  eficiência no controle de plantas invasoras, mas também alvo de crescentes preocupações pela  comunidade científica devido ao seu potencial neurotóxico, imunossupressor e como disruptor  endócrino (Mesnage; Antoniou, 2017; Mostafalou; Abdollahi, 2017). 

A exposição materna ao glifosato durante a gestação pode estar associada a alterações no  desenvolvimento neurológico fetal, elevando o risco do Transtorno do Espectro Autista (TEA)  (Pu et al., 2020; Von Ehrenstein et al., 2019; Cattani et al., 2017). Os mecanismos propostos  incluem interferência no eixo microbiota-intestino-cérebro, estresse oxidativo e inflamação,  fatores críticos para a regulação do sistema nervoso central (Yang et al., 2023; Kang et al., 2017;  Yang, Y. et al., 2023). 

O estudo de Marins et al. (2024) demonstra em modelos animais que a exposição perinatal ao  glifosato está relacionada a alterações comportamentais, neurometabólicas e morfológicas, além  de mudanças em neurotransmissores e estresse oxidativo. Hernández et al. (2025) acrescentam  que exposições gestacionais induzem disfunção sináptica e alterações em marcadores de  neurodesenvolvimento. Da mesma forma, dos Santos et al. (2025) apontam déficits cognitivos  e comportamentais semelhantes aos do TEA em animais expostos. Em humanos, Gerona et al.  (2022) observaram correlação entre níveis urinários de glifosato no início da gestação e restrição  de crescimento fetal, enquanto Román et al. (2024) e Parrón- Carrillo et al. (2024) identificaram  vínculos entre exposição ambiental a pesticidas e traços autistas em populações humanas. 

Gonzalez (2025), em uma scoping review, reuniu evidências consistentes de que a  exposição a herbicidas à base de glifosato pode contribuir para alterações neurocomportamentais  associadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). De forma semelhante, Hall et al. (2025)  observaram que níveis elevados de glifosato durante a gestação estão relacionados a déficits no  neurodesenvolvimento infantil, sugerindo um possível efeito neurotóxico do composto durante  períodos críticos da formação do sistema nervoso central. Joyce et al. (2022) também  identificaram associação entre resíduos de pesticidas na dieta materna e risco aumentado de TEA. Revisões mais amplas, como a conduzida por Miani et al. (2021), reforçam que esse risco pode estar relacionado não apenas ao glifosato isolado, mas também às formulações comerciais, que apresentam toxicidade potencialmente superior devido à  presença de adjuvantes (Mesnage; Antoniou, 2018). 

O TEA é uma condição neurodesenvolvimental complexa, caracterizada por déficits  persistentes na comunicação social, comportamentos repetitivos e interesses restritos. Sua  etiologia é multifatorial, envolvendo predisposições genéticas e fatores ambientais (American  Psychiatric Association, 2014; Faria; Borba, 2024). 

O aumento expressivo de diagnósticos, tanto em países desenvolvidos quanto no Brasil,  motiva a investigação de agentes ambientais que possam contribuir para o transtorno, entre eles os agrotóxicos (Love et al., 2024). No Brasil, o cenário é particularmente preocupante: o país é o  maior consumidor mundial de pesticidas desde 2008 (Carneiro et al., 2015), o país enfrenta  fragilidades regulatórias que permitem a comercialização de substâncias já banidas em outros  lugares. Evidências locais mostram que resíduos de glifosato foram detectados em amostras de  sangue do cordão umbilical e tecido fetal, sugerindo uma rota biológica plausível para sua  associação com o TEA (Parvez et al., 2018; Silva et al., 2022). 

O objetivo desta pesquisa foi analisar a influência do uso do glifosato durante a gestação no  desenvolvimento do transtorno do espectro autista (TEA) em crianças, tendo por objetivos  específicos conhecer os principais mecanismos dos agrotóxicos, identificar os principais  agrotóxicos relacionados ao risco de TEA e investigar estudos epidemiológicos que  correlacionam a exposição materna ao glifosato com o desenvolvimento do TEA. 

2. METODOLOGIA 

2.1 Tipo de estudo 

Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de natureza  qualitativa e exploratória. A revisão integrativa é um método que possibilita a síntese do  conhecimento científico já produzido, incluindo estudos com diferentes abordagens  metodológicas, permitindo uma análise abrangente e crítica sobre determinado fenômeno  (Souza; Silva; Carvalho, 2019). Essa estratégia metodológica é particularmente relevante no  campo da saúde, pois auxilia na sistematização de achados dispersos e na identificação de  lacunas de pesquisa (Mendes; Silveira; Galvão, 2019). Assim, este trabalho busca consolidar evidências científicas acerca da relação entre exposição materna ao glifosato e o risco de  desenvolvimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). 

2.2 Coleta de dados 

As coletas dos dados foram realizadas por meio de pesquisas nas bases de dados Google  Acadêmico, PubMed e SciELO e consulta a livros acadêmicos da área da saúde, neurociências e toxicologia ambiental. Foram utilizados os seguintes descritores: autismo, TEA, agrotóxicos,  glifosato e exposição pré-natal. Foram definidos como critérios de inelegibilidade: artigos e  livros publicados nos últimos dez anos (2015 a 2025), com acesso ao conteúdo completo, em  idioma como: espanhol, inglês e português, que abordassem de forma direta a relação entre o uso  de agrotóxicos (com ênfase no glifosato) e o desenvolvimento de alterações neurológicas  associadas ao TEA. Foram considerados inelegíveis os materiais duplicados, trabalhos sem  acesso ao conteúdo integral e publicações que não tratassem diretamente da temática central  proposta. 

2.3 Análise de dados 

Após a leitura completa dos materiais selecionados, as informações foram organizadas de  acordo com os principais temas encontrados nos estudos, como: toxicidade do glifosato, efeitos  dos agrotóxicos no desenvolvimento neurológico, exposição durante a gestação, alterações na  microbiota intestinal, mudanças genéticas e hormonais. Cada material foi resumido em fichamentos individuais, e os conteúdos foram analisados de forma crítica, com o objetivo de  identificar possíveis relações entre a exposição a agrotóxicos e os processos que podem levar ao  desenvolvimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Agrotóxicos e seus impactos gerais na saúde 

Os agrotóxicos, em especial herbicidas como o glifosato, consolidaram-se como  instrumentos centrais da agricultura moderna, garantindo altos índices de produtividade.  Contudo, seu uso indiscriminado configura uma das maiores ameaças à saúde pública mundial. A Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2020) estima que ocorram mais de sete milhões de 

intoxicações anuais por agrotóxicos, resultando em aproximadamente 70 mil mortes em países em desenvolvimento. O Brasil, desde 2008, ocupa a posição de maior consumidor global,  impulsionado pela expansão do agronegócio (Carneiro et al., 2015; ANVISA, 2020). 

Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana variam conforme a substância, dose, tempo  e via de exposição. Intoxicações agudas frequentemente resultam em sintomas como dermatite  de contato, conjuntivite, vômitos e distúrbios respiratórios, enquanto exposições crônicas têm  sido relacionadas a câncer, doenças endócrinas, imunossupressão e desordens neurológicas  (Mostafalou; Abdollahi, 2017; Brasil, 2022). Estudos recentes reforçam que os efeitos  cumulativos e de baixa dose representam riscos subestimados (Zhang et al., 2023; Gerona et al.,  2022). 

No Brasil, análises da Agência Nacional de Vigilância Sanitária revelam que resíduos de  agrotóxicos em frutas, hortaliças e cereais frequentemente ultrapassam os limites máximos de  resíduos (ANVISA, 2020). Isso amplia a exposição alimentar da população e contribui para  intoxicações silenciosas. Adicionalmente, a pulverização aérea e a lixiviação para corpos d’água  intensificam a contaminação ambiental, ampliando riscos para comunidades urbanas e rurais  (Mills et al., 2017; Román et al., 2024). 

Trabalhadores rurais, gestantes e crianças estão entre os grupos mais vulneráveis devido ao  contato direto ou indireto com essas substâncias (Zhang et al., 2023). A ausência de  equipamentos de proteção adequados e a baixa fiscalização sanitária agravam o cenário,  resultando em maior incidência de doenças relacionadas ao uso contínuo de pesticidas  (Hernández et al., 2025). 

Dessa forma, compreender os agrotóxicos como problema de saúde pública exige uma  abordagem intersetorial que integre fatores clínicos, ambientais e socioeconômicos. A associação crescente entre exposição a pesticidas e doenças crônicas não transmissíveis reforça a necessidade de regulamentações mais rigorosas e de vigilância constante (Faria; Borba, 2024; Augusto et al.,  2024). 

A classificação toxicológica dos agrotóxicos, utilizada para rotulagem e bula, baseia-se na  toxicidade aguda das substâncias. Essa categorização vai de Categoria 1 (extremamente tóxico) até não classificado, quando a substância apresenta baixo risco imediato (INCA, 2021).

Cada classe é identificada por cores na embalagem e palavras de advertência, como perigo ou cuidado

3.2 Classificação toxicológica e relevância 

Quadro 01 – Classificação toxicológica dos agrotóxicos no Brasil segundo toxicidade aguda.

Fonte: Adaptado de INCA (2021), ANVISA (2020), Mostafalou e Abdollahi (2017), Mesnage e Antoniou (2018), Zhang et al. (2023), Román et al. (2024).

A classificação toxicológica dos agrotóxicos no Brasil é regulamentada pela Agência  Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e segue critérios internacionais de toxicidade aguda,  considerando as vias oral, dérmica e inalatória. Os produtos são identificados por faixas de cor e  palavras de advertência, permitindo rápida visualização do risco associado (INCA, 2021;  ANVISA, 2020). 

As Categorias 1 e 2, identificadas em vermelho, representam os maiores riscos, com  potencial de causar intoxicações fatais mesmo em pequenas doses. São frequentemente  associadas a quadros graves de intoxicação ocupacional em trabalhadores rurais (Carneiro et al.,  2015; Zhang et al., 2023). 

A Categoria 3, em amarelo, reúne substâncias de toxicidade moderada, que embora menos letais, podem induzir doenças crônicas, como disfunções endócrinas e neurológicas, em  exposições prolongadas (Mostafalou; Abdollahi, 2017; Román et al., 2024). 

As Categorias 4 e 5, em azul, são consideradas de baixa toxicidade, porém mesmo  compostos enquadrados nestes níveis podem exercer efeitos cumulativos, como disrupção  hormonal e alterações imunológicas (Gerona et al., 2022; Oliveira; Oliveira; Gonçalves, 2023). 

Por fim, a classificação “não classificado”, indicada em verde, abrange produtos com  toxicidade aguda mínima. No entanto, evidências apontam que a ausência de risco imediato não  elimina a possibilidade de efeitos crônicos, como carcinogênese e distúrbios  neurodesenvolvimentais, especialmente no caso do glifosato (Mesnage; Antoniou, 2018; Yang et  al., 2023). 

Glifosato: uso, disseminação e toxidade 

O glifosato foi introduzido em 1971 pela Monsanto e se tornou o herbicida mais utilizado no mundo (Oliveira, 2021). No Brasil, é comercializado sob diferentes nomes, sendo a  formulação mais conhecida o Roundup®. Sua disseminação ambiental é evidente: resíduos  foram detectados em alimentos, solos, águas superficiais e até em urina de populações urbanas e  rurais, indicando exposição ampla e contínua (Cattani, 2017; Mills et al., 2017). 

No organismo, o glifosato pode sofrer degradação e formar o metabólito ácido  aminometilfosfônico (AMPA), associado a potenciais efeitos tóxicos (Zhang et al., 2023).  Paralelamente, produtos comerciais contendo glifosato apresentam toxicidade superior à  molécula isolada, devido à presença de aditivos que atravessam barreiras biológicas, como a  placentária e a hematoencefálica (Mesnage; Antoniou, 2018). 

A exposição aguda ao glifosato pode causar irritações oculares, dermatite, inflamações  pulmonares e sintomas gastrointestinais (Amarante Junior et al., 2002). Já a exposição crônica  tem sido associada a danos hepáticos, reprodutivos, teratogênicos, neurodegenerativos e  possíveis efeitos carcinogênicos (Marins et al., 2024; Hernández et al., 2025). 

O glifosato e sua ampla utilização 

O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo desde sua introdução em 1971. No Brasil, é comercializado em diversas formulações, como o Roundup, contendo aditivos que aumentam sua absorção e toxicidade (Oliveira, 2021; Mesnage; Antoniou, 2018). 

Contudo, sua presença recorrente em alimentos, águas superficiais e até na urina de  populações urbanas e rurais evidencia uma disseminação ambiental que transcende áreas  agrícolas. Mesmo indivíduos não diretamente envolvidos em atividades rurais apresentam  resíduos detectáveis, sugerindo contaminação generalizada (Cattani, 2017; Mills et al., 2017). 

No ambiente, o glifosato passa por processos de degradação, resultando no metabólito  AMPA, que já foi associado a potenciais efeitos tóxicos e genotóxicos, essa característica  amplia sua persistência e aumenta os riscos ambientais e à saúde (Zhang et al., 2023). 

Um aspecto preocupante é a utilização de formulações comerciais mais tóxicas que o  glifosato isolado. Surfactantes como o POEA aumentam a penetração celular, podendo  atravessar barreiras biológicas críticas, como a hematoencefálica e a placentária (Mesnage;  Antoniou, 2018). Isso sugere que a toxicidade real pode ser subestimada em análises  laboratoriais que avaliam apenas a molécula pura. 

A exposição gestacional ao glifosato tem sido associada a efeitos adversos no  desenvolvimento fetal, incluindo restrição de crescimento, um marcador de risco para distúrbios  do neurodesenvolvimento, indicando que a gestação é um período crítico para a monitorização  dessa exposição (Gerona et al., 2022). 

Apesar de o glifosato ser considerado seguro em baixas doses por alguns setores, sua  toxicidade pode estar subestimada. A ampla utilização e a persistência do herbicida no ambiente  resultam em contaminação de solos, águas e alimentos, o que representa um risco significativo  tanto para a biodiversidade quanto para a saúde humana (Hartwig, 2021). 

Efeitos toxicológico e mecanismo de ação 

O glifosato exerce múltiplos efeitos no organismo, atuando em processos biológicos  essenciais. Entre os principais mecanismos de toxicidade estão o estresse oxidativo, a apoptose  neuronal, a disfunção mitocondrial e as alterações endócrinas (Hernández et al., 2025; Marins et al., 2024). Esses processos comprometem o desenvolvimento neurológico fetal, justificando sua  associação com o TEA.

O modelo em animais desenvolvido por Pu et al. (2020) observaram que a exposição ao  glifosato durante a gestação de camundongos provocou alterações comportamentais nos filhotes,  semelhantes às observadas em indivíduos com TEA. Essas alterações foram acompanhadas de  mudanças na microbiota intestinal e no metabolismo da enzima sEH. 

Além disso, a exposição crônica está associada a danos hepáticos, alterações reprodutivas  e efeitos teratogênicos (Zhang et al., 2023). Esses resultados evidenciam que o glifosato não atua apenas em um sistema isolado, mas compromete múltiplos órgãos e funções. 

Produtos comerciais à base de glifosato, como Roundup®, apresentam toxicidade  significativamente maior que o composto isolado. Mesnage e Antoniou (2018) mostraram que a  presença de surfactantes potencializa a toxicidade, elevando o risco de danos celulares. Isso  evidencia que análises toxicológicas devem considerar a formulação completa. 

Outro ponto relevante é o potencial disruptor endócrino. Estudos sugerem que o glifosato  interfere no sistema hormonal, alterando a produção de estrogênio e testosterona, o que pode  afetar processos reprodutivos e o desenvolvimento fetal (Román et al., 2024). Essa característica  é especialmente preocupante durante a gestação. 

Por fim, a combinação de estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e alterações  epigenéticas cria um cenário plausível para explicar a relação entre exposição ao glifosato e  transtornos do neurodesenvolvimento, como o TEA. 

Glifosato e mecanismo biológicos associados ao TEA 

Pesquisas recentes sugerem que a exposição materna ao glifosato durante a gestação pode  alterar mecanismos fisiológicos fundamentais para o neurodesenvolvimento fetal. Alterações no eixo microbiota–intestino–cérebro, estresse oxidativo, disfunções mitocondriais e desregulação  endócrina têm sido apontadas como vias plausíveis para a associação entre glifosato e TEA (PU  et al., 2020; Yang et al., 2023; Fang, 2025). 

Em modelos animais, Pu et al. (2020) observaram que filhotes expostos ao glifosato  apresentaram comportamentos semelhantes ao TEA, como movimentos repetitivos e  dificuldades de socialização. Essas alterações foram relacionadas à enzima sEH e a modificações na microbiota intestinal. De forma semelhante, Sharon et al. (2019) e Fiori et al. (2022) apontam que desequilíbrios microbianos induzidos por pesticidas podem impactar a  barreira hematoencefálica e a produção de neurotransmissores. Estudos recentes também  demonstraram que o microbioma intestinal sofre alterações significativas após a exposição a  glifosato, afetando a diversidade bacteriana e a funcionalidade metabólica, fatores diretamente  associados ao neurodesenvolvimento (Walsh et al., 2023). 

No contexto humano, estudos epidemiológicos sugerem que resíduos de pesticidas,  incluindo o glifosato, podem ser detectados no sangue do cordão umbilical e no tecido cerebral  fetal, reforçando a plausibilidade biológica da associação (Silva et al., 2022; Gerona et al.,  2022). De acordo com Gerona et al. (2022), níveis urinários de glifosato em gestantes estiveram  correlacionados com menor peso ao nascer e necessidade de cuidados intensivos neonatais. 

Outro mecanismo emergente refere-se ao perfil metabolômico alterado. Matsuzaki et al. (2023) observaram que a exposição a pesticidas modifica metabólitos microbianos, radicais livres  e vias de sinalização celular envolvidas no metabolismo energético e neuroinflamação.  Complementarmente, Román et al. (2024) reforçam que a exposição ambiental a glifosato  durante períodos críticos de desenvolvimento pode induzir alterações cognitivas e  comportamentais semelhantes às observadas em crianças com TEA. 

Deve-se considerar que formulações comerciais de glifosato, que incluem surfactantes  como o POEA, podem intensificar os efeitos adversos em comparação com a molécula isolada.  Essas formulações aumentam a permeabilidade da barreira hematoencefálica, promovem  inflamação microglial e favorecem disfunções sinápticas (Massachusetts, 2024). 

Exposições perinatais ao glifosato resultam em alterações estruturais e comportamentais  significativas, incluindo redução em áreas cerebrais críticas e prejuízos no desenvolvimento  neuronal. Este achado reforça a hipótese de que o glifosato pode desempenhar papel relevante na  etiologia do TEA (Marins et al., 2024). 

Glifosato e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição multifatorial, resultante da  interação entre predisposições genéticas e fatores ambientais (APA, 2014). Nas últimas décadas,  a associação entre exposição materna a pesticidas, especialmente o glifosato, e o aumento do risco de TEA tem ganhado destaque na literatura científica. Pesquisas experimentais e epidemiológicas indicam que a exposição gestacional ao herbicida pode alterar  processos biológicos essenciais ao neurodesenvolvimento, como vias metabólicas, oxidativas,  inflamatórias e epigenéticas (Pu et al., 2020; Gerona et al., 2022; Williams et al., 2022). 

Em modelos animais, evidências robustas demonstram que o glifosato é capaz de induzir  comportamentos semelhantes ao TEA, incluindo prejuízos sociais, movimentos repetitivos e déficits de memória e cognição. Pu et al. (2021) verificaram que filhotes de mães expostas ao  herbicida durante a gestação e lactação exibiram padrões compatíveis com alterações do espectro  autista. Mais recentemente, Marins et al. (2024) e Hernández et al. (2025) identificaram  disfunções sinápticas, estresse oxidativo e alterações em neurotransmissores, reforçando a  plausibilidade biológica da associação. 

O eixo microbiota–intestino–cérebro tem sido apontado como um dos principais  mecanismos de ligação entre exposições ambientais e transtornos neuropsiquiátricos. Estudos  sugerem que o glifosato pode induzir disbiose intestinal, afetando a produção de metabólitos  neuroativos e modulando a resposta imunológica (Sharon et al., 2019; Yang et al., 2023). Román  et al. (2024) e Asif et al. (2025) acrescentam que exposições ambientais a pesticidas, incluindo o glifosato, estão diretamente relacionadas a alterações cognitivas e comportamentais em humanos,  destacando o papel epigenético dessas substâncias no neurodesenvolvimento. 

No Brasil, estudos populacionais apontam para um cenário crítico. Lima (2019) e  Augusto et al. (2024) mostraram que gestantes expostas a pesticidas apresentaram até 66% mais  chances de gerar filhos com TEA, com maior vulnerabilidade no segundo e terceiro trimestres da  gestação. Dados semelhantes foram encontrados por Silva et al. (2022), que detectaram resíduos  de pesticidas no sangue do cordão umbilical e em tecidos fetais, sugerindo uma via direta de  comprometimento do desenvolvimento neurológico. 

Em nível internacional, Von Ehrenstein et al. (2019) identificaram em estudo de coorte  realizado na Califórnia que crianças expostas ao glifosato apresentavam risco 16% maior de  diagnóstico de TEA, especialmente quando associado à deficiência intelectual. Gonzalez et al.  (2025), em uma revisão abrangente, reforçaram essa correlação, indicando que áreas agrícolas  com uso intensivo de glifosato apresentam maior prevalência do transtorno. Hall et al. (2025)  ainda destacaram que níveis pré-natais de glifosato podem afetar domínios comportamentais  específicos, mesmo sem comprometer todas as dimensões cognitivas.

Por fim, novos estudos têm explorado os efeitos do glifosato em mecanismos  epigenéticos relacionados ao TEA. Komada e Nishimura (2022) e Arberas et al. (2025)  descrevem que a metilação do DNA, alterações em miRNAs e disfunções na via da autofagia  (Abromeit et al., 2025) podem mediar a relação entre exposições ambientais e manifestações  clínicas do transtorno. Esses achados ressaltam que, embora ainda existam lacunas  metodológicas e a necessidade de mais estudos longitudinais, a plausibilidade biológica da  associação entre glifosato e TEA é consistente e crescente. 

O TEA: fatores de risco e gravidade clínica 

O TEA caracteriza-se por déficits na comunicação social, comportamentos repetitivos e  interesses restritos, variando em gravidade conforme o nível de suporte necessário (APA, 2014).  Essa heterogeneidade clínica torna o diagnóstico complexo e exige avaliação multidimensional,  fatores de risco incluem predisposição genética, complicações perinatais e exposição a agentes  ambientais, como pesticidas (Faria; Borba, 2024) 

As comorbidades são frequentes em indivíduos com TEA e agravam o quadro clínico.  Aguiar et al. (2025) identificaram prevalência elevada de TDAH e distúrbios do sono em  crianças autistas no Pará, evidenciando a necessidade de um acompanhamento integral. 

Além disso, diferenças de manifestação entre meninos e meninas podem levar a  diagnósticos tardios ou menos graves em mulheres, devido a habilidades compensatórias  (Mandy; Lai, 2016; Hull et al., 2020). Esse viés de gênero precisa ser considerado em políticas de  saúde. 

Pesquisas recentes também destacam o papel do ambiente social e das barreiras  educacionais na determinação da gravidade do TEA. Dois indivíduos com sintomas semelhantes  podem apresentar níveis diferentes de comprometimento dependendo do suporte recebido (Faria;  Borba, 2024). 

Assim, a gravidade clínica do TEA é influenciada por uma rede de fatores interligados,  reforçando a necessidade de políticas públicas que considerem tanto aspectos biológicos quanto  sociais.

Para o diagnóstico, é essencial que esses sinais não sejam explicados apenas por  deficiência intelectual. A gravidade do transtorno é avaliada conforme os prejuízos na  comunicação social e nos padrões de comportamento, conforme ilustrado no Quadro 02. 

Quadro 02- Níveis de gravidade do Transtorno do Espectro Autista (TEA) segundo critérios do DSM-5

Fonte: American Psychiatric Association – DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (2014).

A classificação dos níveis de gravidade do Transtorno do Espectro Autista (TEA),  conforme descrito no DSM-5 (APA, 2014) e representada no Quadro 1, é fundamental para  orientar o diagnóstico clínico e as estratégias de intervenção. Essa categorização não se limita a rotular o indivíduo, mas busca indicar o grau de suporte necessário para garantir sua adaptação  social, educacional e ocupacional. 

De acordo com Hodges, Fealko e Soares (2020), essa gradação é importante para  diferenciar perfis clínicos, já que indivíduos no nível 3 demandam intervenções intensivas e  multidisciplinares, enquanto aqueles no nível 1 podem desenvolver maior autonomia com suporte direcionado. No entanto, os autores ressaltam que a classificação apresenta limitações,  uma vez que a expressão clínica do TEA é altamente heterogênea. 

A avaliação da gravidade deve considerar não apenas os déficits em comunicação social e  os comportamentos repetitivos, mas também as comorbidades associadas. Aguiar et al. (2025), em estudo realizado no Pará, destacaram a elevada prevalência de Transtorno de Déficit de  Atenção e Hiperatividade (50%) e distúrbios do sono-vigília (42,9%) em crianças autistas,  fatores que intensificam as demandas de apoio e podem modificar o nível de gravidade aparente. 

Outro aspecto relevante refere-se à influência do contexto social e familiar. Segundo Faria e Borba (2024), a gravidade não deve ser entendida apenas como uma característica intrínseca do  indivíduo, mas também como um reflexo das barreiras ambientais enfrentadas, incluindo acesso  limitado a serviços de saúde especializados, desigualdades educacionais e ausência de políticas  inclusivas. Assim, dois indivíduos com características clínicas semelhantes podem apresentar  níveis de gravidade distintos dependendo do suporte recebido. 

Estudos como os de Mandy e Lai (2016) e Hull et al. (2020) chamam atenção para as  diferenças de manifestação do TEA em meninas e mulheres, que muitas vezes apresentam  habilidades compensatórias em comunicação social, levando a diagnósticos tardios ou  equivocadamente menos graves. Isso evidencia a necessidade de abordagens diagnósticas mais  sensíveis ao gênero, sob risco de subnotificação e de categorização incorreta do nível de  gravidade. 

Por fim, embora a classificação em três níveis seja amplamente utilizada, pesquisadores  como Lord et al. (2020) argumentam que essa taxonomia deve ser complementada por  avaliações funcionais individualizadas, já que o TEA é um espectro e, portanto, apresenta grande  variabilidade clínica. Assim, o quadro deve ser interpretado não como uma definição rígida, mas  como uma ferramenta inicial para guiar o planejamento terapêutico e as políticas públicas de  inclusão. 

Evidências epidemiológicas e lacunas científicas 

A demonstração da associação consistente entre exposição materna a pesticidas e aumento do risco de TEA. Von Ehrenstein et al. (2019) identificaram um risco 16% maior em crianças expostas ao glifosato durante a gestação, especialmente quando associado a deficiência  intelectual. Resultados semelhantes foram descritos por Shelton et al. (2020), que destacaram  maior incidência de TEA em populações rurais expostas à pulverização aérea de pesticidas. 

No Brasil, Lima (2019) e Augusto et al. (2024) apontaram que gestantes expostas a  pesticidas apresentaram risco até 66% maior de gerar filhos com TEA, com maior  vulnerabilidade no segundo e terceiro trimestres. Esses dados reforçam a necessidade de  monitoramento materno-infantil em regiões agrícolas. Da mesma forma, Silva et al. (2022)  identificaram resíduos de pesticidas em sangue de cordão umbilical, evidenciando a transferência  transplacentária de compostos neurotóxicos. 

Estudos internacionais também corroboram esses achados. Gerona et al. (2022)  relacionaram níveis urinários de glifosato em gestantes à restrição do crescimento fetal. Román et  al. (2024) reforçaram a associação entre exposição ambiental a pesticidas e traços autistas em  populações humanas. Em linha semelhante, Hernández et al. (2025) demonstraram que a  exposição gestacional ao glifosato causa disfunção sináptica e alterações em marcadores de  neurodesenvolvimento em modelos experimentais. 

Apesar dos avanços, ainda existem lacunas significativas. A maioria dos estudos é  retrospectiva ou experimental, havendo escassez de análises longitudinais populacionais (Marins et al., 2024). Essa limitação dificulta estabelecer causalidade direta. Trabalhos como o de Chang  et al. (2023) enfatizam que a heterogeneidade metodológica compromete a comparação entre  estudos e reduz a força da evidência científica. 

Outro ponto crítico é que poucos estudos consideram a toxicidade real de formulações  comerciais, que geralmente são mais agressivas do que a molécula isolada (Mesnage; Antoniou,  2018). Pesquisas recentes como as de Gonzalez (2025) e Zhang et al. (2023) reforçam que  aditivos presentes em herbicidas comerciais amplificam efeitos oxidativos, endócrinos e  imunológicos, potencializando riscos materno-infantis. 

Portanto, há necessidade de ampliar investigações longitudinais, especialmente em países  como o Brasil, onde o uso intensivo de agrotóxicos e as vulnerabilidades sociais ampliam os  riscos para gestantes e crianças. Adicionalmente, estudos multicêntricos com maior controle de variáveis ambientais e sociais são essenciais para fornecer evidências mais robustas sobre a associação entre pesticidas, como o glifosato, e o TEA. 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A presente revisão integrativa evidenciou que a exposição materna ao glifosato durante a  gestação pode estar associada a um aumento no risco de desenvolvimento do Transtorno do  Espectro Autista (TEA). Esse herbicida, amplamente utilizado na agricultura, demonstrou  capacidade de afetar mecanismos biológicos essenciais, como sistemas endócrino, imunológico e  metabólico, assim como de interferir no equilíbrio da microbiota intestinal, aspectos  fundamentais para o neurodesenvolvimento fetal. No Brasil, o uso intensivo de agrotóxicos torna gestantes e recém-nascidos grupos especialmente vulneráveis, configurando um problema  emergente de saúde pública. 

Apesar da relevância dos achados, é importante ressaltar as limitações dos estudos  disponíveis, em sua maioria experimentais ou observacionais, o que impede a comprovação de  causalidade direta. Ainda assim, as evidências apontam para uma associação biologicamente  plausível entre o glifosato e o TEA, levantando preocupações que justificam a necessidade de  maior rigor regulatório, fortalecimento da vigilância ambiental e acompanhamento clínico  especializado durante o período gestacional. 

Os resultados também reforçam a urgência de novos estudos, sobretudo de caráter  longitudinal e populacional, que possam aprofundar o entendimento dessa relação no contexto  brasileiro. Pesquisas que considerem não apenas a molécula isolada, mas também as formulações  comerciais de glifosato — geralmente mais tóxicas — são fundamentais para oferecer um retrato  realista dos riscos. Além disso, é essencial ampliar a discussão sobre práticas agrícolas mais  seguras e sustentáveis. 

Conclui-se, portanto, que o glifosato, embora seja um pilar da agricultura moderna,  apresenta riscos potenciais à saúde materno-infantil que não podem ser ignorados. O equilíbrio  entre produtividade agrícola e proteção à saúde requer ações intersetoriais, investimentos em  pesquisa nacional e políticas públicas consistentes, de modo a garantir não apenas a segurança  alimentar, mas também a qualidade de vida das gerações futuras.

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1Graduanda do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail:  alicerocha.nutri@gmail.com; deboratokuta.nutriçao@gmail.com
2Orientadora do TCC, Doutora em Biotecnologia pela Universidade Federal do Amazonas. Docente do Curso de  Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: francisca.freitas@fametro.edu.br
3Co-orientadora, Mestre em ciência da saúde pela Universidade Federal do Amazonas Docente do Curso de  Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: rebeca.figueiredo@fametro.edu.br