MENINGITE BACTERIANA SECUNDÁRIA A INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO EM LACTENTE: RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511261109


Ana Maria Esteves Cascabulho1; Djalma Gomes Neto2; Laura Botelho Ramos Godinho3; Laura Helena Magalhães Zanelli4; Júlia Pessanha Chequer5; Stella Motta Ranzato6; Judá Leite de Souza7


RESUMO

Introdução: A meningite é uma doença infecciosa que afeta as meninges, configurando emergência médica, principalmente nos primeiros meses de vida. Dentre os focos infecciosos capazes de originar essa condição destaca-se a infecção do trato urinário (ITU), pela sua frequência em lactentes. A identificação precoce e o tempo para o início da antibioticoterapia adequada são partes importantes que podem melhorar os resultados clínicos da meningite bacteriana em crianças. Objetivo: O relato de caso tem como objetivo um estudo retrospectivo e transversal, com análise do prontuário do paciente com Meningite bacteriana, diagnóstico clínico, radiológico e laboratorial. Método: Os dados relatados foram obtidos por meio do acesso ao prontuário médico do paciente e entrevista à progenitora do mesmo. Fora realizada revisão bibliográfica nas plataformas de pesquisa Scielo, Google Acadêmico, Revistas Periódicas da Sociedade Brasileira de Pediatria e Ministério da Saúde. Relato de caso: O caso clínico descreve paciente, sexo masculino, 9 meses e 21 dias, que apresentava quadro de febre persistente com diagnóstico prévio de infecção do trato urinário evoluindo com êmese e rebaixamento do nível de consciência.  Discussão: A meningite bacteriana é uma emergência infecciosa de incidência predominante em crianças, que resulta em uma inflamação do espaço subaracnóideo e membranas leptomeníngeas. Os principais agentes responsáveis pelo quadro em crianças maiores de dois meses de idade são: Haemophilus influenzae tipo b, Neisseria meningitidis e Streptococcus pneumoniae. Na suspeita diagnóstica, é imprescindível que seja realizado o exame de líquor. Os exames de imagem não são indicados de rotina, sendo reservados para os casos em que a punção lombar está contraindicada, como na suspeita de hipertensão intracraniana. Conclusão: O caso apresentado demonstra a complexidade diagnóstica da meningite bacteriana em lactentes, visto que a apresentação clínica tende a ser inespecífica e muitas vezes mascarada por sinais iniciais de outras infecções, como a infecção do trato urinário. A confirmação diagnóstica por meio da punção lombar foi determinante para a condução terapêutica, mesmo diante da negatividade da cultura, possivelmente influenciada pelo uso prévio de antibióticos. Esse aspecto ressalta a necessidade de interpretação criteriosa dos exames complementares, integrando-os ao quadro clínico. Além disso, o caso evidencia a relevância da antibioticoterapia empírica adequada e precoce, associada ao suporte clínico, como medida essencial para assegurar melhor prognóstico e reduzir o risco de sequelas.

Palavras-chave: Meningite, meningite bacteriana, meningite secundária, doenças infecciosas, emergência infecciosa.

SUMMARY

Introduction: Meningitis is an infectious disease that affects the meninges and constitutes a medical emergency, especially in the first months of life. Among the infectious sources capable of causing this condition, urinary tract infections (UTIs) stand out due to their frequency in infants. Early identification and timely initiation of appropriate antibiotic therapy are important factors that can improve the clinical outcomes of bacterial meningitis in children. Objective: The case report aims to be a retrospective and cross-sectional study, with analysis of the medical records of the patient with bacterial meningitis, clinical, radiological and laboratory diagnosis. Method: The reported data were obtained through access to the patient’s medical records and an interview with the patient’s mother. A bibliographic review was conducted on the research platforms Scielo, Google Scholar, Periodical Journals of the Brazilian Society of Pediatrics and the Ministry of Health. Case report: The clinical case describes a 9-month and 21-day-old male patient who presented with persistent fever and a previous diagnosis of urinary tract infection progressing to emesis and decreased level of consciousness. Discussion: Bacterial meningitis is an infectious emergency predominantly affecting children, resulting in inflammation of the subarachnoid space and leptomeningeal membranes. The main agents responsible for this condition in children over two months of age are Haemophilus influenzae type b, Neisseria meningitidis, and Streptococcus pneumoniae. When the diagnosis is suspected, a cerebrospinal fluid examination is essential. Imaging tests are not routinely recommended and are reserved for cases in which lumbar puncture is contraindicated, such as suspected intracranial hypertension. Conclusion: This case demonstrates the diagnostic complexity of bacterial meningitis in infants, as the clinical presentation tends to be nonspecific and often masked by early signs of other infections, such as urinary tract infections. Diagnostic confirmation by lumbar puncture was crucial for therapeutic management, even given the negative culture, possibly influenced by prior antibiotic use. This aspect highlights the need for careful interpretation of complementary tests, integrating them into the clinical picture. Furthermore, the case highlights the importance of early and appropriate empirical antibiotic therapy, combined with clinical support, as an essential measure to ensure a better prognosis and reduce the risk of sequelae.

Keywords: Meningitis, bacterial meningitis, secondary meningitis, infectious diseases, infectious emergency.

INTRODUÇÃO

A meningite é uma doença infecciosa que afeta as meninges, configurando emergência médica, principalmente nos primeiros meses de vida. Dentre os focos infecciosos capazes de originar essa condição destaca-se a infecção do trato urinário (ITU), pela sua frequência em lactentes.

O diagnóstico não é simples, visto que os sintomas podem ser inespecíficos; especialmente em lactentes; como febre isolada, irritabilidade, letargia, vômito e recusa alimentar. A confirmação é feita por exames complementares e análise do líquido cefalorraquidiano.

A identificação precoce e o tempo para o início da antibioticoterapia adequada são partes importantes que podem melhorar os resultados clínicos da meningite bacteriana em crianças.

OBJETIVO

Este artigo relata um caso de meningite bacteriana secundária à ITU em lactente, abordando os principais aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos envolvidos.

MÉTODO

Os dados relatados foram obtidos por meio do acesso ao prontuário médico do paciente e entrevista à progenitora do mesmo. Fora realizada revisão bibliográfica nas plataformas de pesquisa Scielo, Google Acadêmico, Revistas Periódicas da Sociedade Brasileira de Pediatria e Ministério da Saúde.

DESCRIÇÃO DO CASO

B.M.B., sexo masculino, 9 meses e 21 dias, foi admitido na emergência pediátrica com uma queixa principal de febre há 2 dias. De acordo com os relatos da progenitora, a criança foi previamente diagnosticada com infecção do trato urinário, evoluindo no dia do atendimento com êmese e rebaixamento do nível de consciência após o episódio. Inicialmente, não houve adesão ao uso do antibiótico prescrito.

Paciente apresentava-se em regular estado geral, boa interação com examinador, acordado, reativo ao manuseio, corado, hidratado, eupneico, acianótico, com temperatura de 37,6°C; tônus preservados, resposta motora presente e simétrica, com fontanela deprimida. Ao exame do sistema nervoso central, apresentava nuca livre, pupilas medianas, isocóricas e fotorreagentes, sem sinais de irritação meníngea. No aparelho cardiovascular, apresentava ritmo cardíaco regular, bulhas normofonéticas e ausência de sopros. Ao exame do aparelho respiratório evidenciou murmúrio vesicular audível, sem ruídos adventícios. Constava um abdômen globoso, flácido, timpânico, peristalse presente, sem visceromegalias palpáveis. Membros superiores e inferiores sem edemas e pulsos palpáveis. Oroscopia e otoscopia sem alterações.

Aos exames laboratoriais apresentou hepatograma sem alterações, no EAS apresentando piúria, hematúria, ausência de nitritos, além de urocultura negativa. Aos demais exames; radiografia de tórax, tomografia computadorizada de crânio e ultrassonografia do aparelho urinário; se mostraram dentro dos limites da normalidade.

Realizada a internação, iniciado tratamento com Amoxicilina + Clavulanato e mantida hidratação venosa com soro fisiológico 0,9%. No entanto, a febre persistiu nos dias seguintes, atingindo máxima de 38,9°C, e o paciente evoluiu com sonolência após 48h. Diante da piora clínica, foi realizada punção lombar, que evidenciou líquido cefalorraquidiano incolor, com leucocitose (149,3/mm³; 82% segmentados) e glicose de 46,5 mg/dl. A bacterioscopia e a cultura foram negativas, possivelmente devido a introdução prévia de antibióticos.

Frente aos achados, confirmou-se o diagnóstico de Meningite Bacteriana. Foi introduzido esquema terapêutico com Vancomicina associada a Ceftriaxona por 10 dias e mantido suporte clínico. A criança apresentou melhora progressiva e estabilidade clínica antes da alta, 13 dias após a admissão.

DISCUSSÃO

A meningite bacteriana é uma emergência infecciosa de incidência predominante em crianças, que resulta em uma inflamação do espaço subaracnóideo e membranas leptomeníngeas.2

Os principais agentes responsáveis pelo quadro em crianças maiores de dois meses de idade são: Haemophilus influenzae tipo b, Neisseria meningitidis e Streptococcus pneumoniae. Em locais onde foi introduzida rotineiramente a vacina contra Haemophilus Influenzae, houve redução considerável do número de casos de meningite por esse agente, sendo considerada uma medida de prevenção muito eficaz. Normalmente a meningite se inicia com a colonização da mucosa da nasofaringe, invasão local e bacteremia e posteriormente penetração no sistema nervoso central.4

No período neonatal é mais comumente causada por Streptococcus agalactine, Escherichia coli e Listeria monocutogenes. Entre um e três meses de idade, a etiologia é definida como de transição, podendo, portanto, ser encontrados tanto agentes do período neonatal quanto agentes mais comuns em crianças após esse período. Nesse período, os patógenos são adquiridos no ambiente pós-natal ou através da mãe, sendo assim, a via de transmissão pode ser transplacentária, vertical durante o parto ou horizontal após o nascimento.1,4

A clínica é essencial para o diagnóstico da meningite, que quando realizado de forma precoce juntamente com imediato início terapêutico, garante melhor prognóstico. Os sinais e sintomas que implicará na suspeita diagnóstica podem variar de acordo com a faixa etária. Em crianças maiores, é mais comum que encontremos a tríade clássica, constituída por febre, vômitos e cefaléia, podendo ser encontrado também fotofobia, confusão mental e sinais de irritação meníngea, como rigidez de nuca, sinal de Kernig e sinal de Brudzinski. Já em lactentes, os sintomas tendem a ser mais inespecíficos, apresentando irritabilidade, apatia, recusa alimentar, febre, convulsões e dificuldade respiratória, não sendo comum a presença dos sinais de irritação meníngea.4,5

Na suspeita diagnóstica, é imprescindível que seja realizado o exame de líquor. Os exames de imagem não são indicados de rotina, sendo reservados para os casos em que a punção lombar está contraindicada, como na suspeita de hipertensão intracraniana.3

O líquor normalmente esperado em crianças maiores de três meses possui aspecto límpido, leucócitos até 5/mm3, predominando linfomononucleares, com proteínas não excedendo 40 mg/dl e glicorraquia com coeficiente > 0,6 em relação à glicose sanguínea. Em neonatos, os valores do líquor podem apresentar variações, sendo esperado número de leucócitos até 30/mm3, predominando polimorfonucleares, e concentração média de proteínas de 90mg/dl. 1,2

Na meningite bacteriana, especialmente após período neonatal, o líquor apresenta aspecto turvo, número de células aumentado às custas de polimorfonucleares, valores elevados de proteína e glicorraquia baixa. 2,3

A meningite viral representa um diagnóstico diferencial importante, no entanto, quanto à análise do líquor, costuma apresentar número de leucócitos aumentado às custas de linfócitos, valores de glicose normais e de proteínas normais ou discretamente elevadas. Ademais, na meningite fúngica encontra-se celularidade diminuída, predomínio linfomonocitário, com valores elevados de proteína e glicorraquia muito baixa. 2,3

O tratamento é realizado inicialmente com antibioticoterapia empírica, levando em consideração os agentes mais incidentes na faixa etária do indivíduo. As drogas de escolha atualmente são as cefalosporinas de terceira geração, idealmente associada à ampicilina se o paciente tiver menos de dois meses de idade. O esquema terapêutico pode ser modificado após reavaliação, levando em consideração os resultados de cultura e teste de sensibilidade, ausência de melhora ou piora do quadro. A dexametasona tem sido utilizada também no tratamento, com objetivo de diminuir a resposta inflamatória e consequentemente reduzir sequelas da doença. 5,6

CONCLUSÃO

O caso apresentado demonstra a complexidade diagnóstica da meningite bacteriana em lactentes, visto que a apresentação clínica tende a ser inespecífica e muitas vezes mascarada por sinais iniciais de outras infecções, como a infecção do trato urinário. A evolução clínica deste paciente reforça que a ausência de adesão ao tratamento antibiótico prescrito pode contribuir para complicações significativas, como a disseminação bacteriana ao sistema nervoso central.

A confirmação diagnóstica por meio da punção lombar foi determinante para a condução terapêutica, mesmo diante da negatividade da cultura, possivelmente influenciada pelo uso prévio de antibióticos. Esse aspecto ressalta a necessidade de interpretação criteriosa dos exames complementares, integrando-os ao quadro clínico.

Além disso, o caso evidencia a relevância da antibioticoterapia empírica adequada e precoce, associada ao suporte clínico, como medida essencial para assegurar melhor prognóstico e reduzir o risco de sequelas. Assim, a experiência relatada reforça a importância da suspeição clínica frente a sintomas aparentemente inespecíficos, do acompanhamento rigoroso e da implementação imediata de condutas baseadas em evidências na prática pediátrica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. DAS NEVES SZTAJNBOK, Denise Cardoso. Meningite bacteriana aguda. Revista de pediatria SOPERJ, v. 13, n. 2, p. 72-76, 2012.
  2. DE FARIA, Sonia M.; FARHAT, Calil K. Meningites bacterianas-diagnóstico e conduta. Jornal de Pediatria, v. 99, n. 75, p. 46, 1999.
  3. FASTLE, R. K.; BOTHNER, J. Punção lombar em crianças. In: UPTODATE. Waltham, MA: UpToDate, Inc., 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/lumbar-puncture-in-children/. Acesso em: 14 out. 2025.
  4. HASBUN, R. Patogênese e fisiopatologia da meningite bacteriana. In: UPTODATE. Waltham, MA: UpToDate, Inc., 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/pathogenesis-and-pathophysiology-of-bacterial-meningitis/. Acesso em: 14 out. 2025.
  5. KAPLAN, S. L. Meningite bacteriana em crianças: papel da dexametasona. In: UPTODATE. Waltham, MA: UpToDate, Inc., 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/bacterial-meningitis-in-children-role-of-dexamethasone/. Acesso em: 14 out. 2025.

1Instituição: Hospital São José do Avaí – Rua Cel. Luiz Ferraz 397, Itaperuna, RJ, CEP: 28300-000
Email: anacascabulho@hotmail.com – https://orcid.org/0000-0003-2493-7183

2Instituição: Hospital São José do Avaí – Rua Cel. Luiz Ferraz 397, Itaperuna, RJ, CEP: 28300-000 –
Email: dgneto@yahoo.com.br – https://orcid.org/0000-0003-3044-1109

3Instituição: Hospital São José do Avaí – Rua Cel. Luiz Ferraz 397, Itaperuna, RJ, CEP: 28300-000 –
Email: laurabotelhoramosgodinho@gmail.com – https://orcid.org/0000-0002-1005-9511

4Instituição: Hospital São José do Avaí – Rua Cel. Luiz Ferraz 397, Itaperuna, RJ, CEP: 28300-000
Email: laurahelenazanelli@gmail.com – https://orcid.org/0009-0005-9782-5934

5Instituição: Hospital São José do Avaí – Rua Cel. Luiz Ferraz 397, Itaperuna, RJ, CEP: 28300-000
Email: jlia.chequer@gmail.com – https://orcid.org/0009-0007-1934-7839

6Instituição: Hospital São José do Avaí – Rua Cel. Luiz Ferraz 397, Itaperuna, RJ, CEP: 28300-000
Email: stella.motta123@gmail.com – https://orcid.org/0009-0001-6440-5205

7Instituição: Hospital São José do Avaí – Rua Cel. Luiz Ferraz 397, Itaperuna, RJ, CEP: 28300-000
Email: judaleite@hotmail.com – https://orcid.org/0009-0001-9349-303X