REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202510312236
Maria Vitória Destro Port
Orientadora: Gabriela Dominicci M. Casacio
Coorientador: Amanda Schenatto Ferreira
RESUMO
O melasma é uma condição dermatológica caracterizada pela hiperpigmentação da pele, que afeta principalmente mulheres em idade fértil, sendo mais prevalente durante a gestação em decorrência das alterações hormonais. Este estudo teve como objetivo investigar a prevalência, os sinais e sintomas do melasma em gestantes e não gestantes, além de analisar os fatores relacionados ao seu desenvolvimento e impacto na qualidade de vida. Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva e transversal, realizada com aplicação do questionário MELASQoL em uma amostra de 30 mulheres, com idades entre 22 e 42 anos, sendo 21 gestantes e 9 não gestantes. Os resultados indicaram maior frequência de melasma entre as gestantes (66,7%) em comparação às não gestantes (33,3%), associada principalmente a fatores hormonais e à exposição solar, embora sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos. Observou-se também forte correlação entre a intensidade do melasma e o impacto percebido nas gestantes, indicando que quanto maior a gravidade das manchas, maior o prejuízo à autoestima e ao bem-estar emocional. Conclui-se que o melasma é uma condição multifatorial e que o conhecimento sobre os fatores de risco, aliado à prática de fotoproteção e ao suporte psicológico, é essencial para prevenir o agravamento da condição e promover a qualidade de vida das mulheres afetadas.
Palavras-chave: Melasma. Gestação. Autoestima. Qualidade de vida. Fotoproteção.
ABSTRACT
Melasma is a dermatological condition characterized by skin hyperpigmentation that mainly affects women of childbearing age, being more prevalent during pregnancy due to hormonal changes. This study aimed to investigate the prevalence, signs, and symptoms of melasma in pregnant and non-pregnant women, as well as to analyze the factors related to its development and its impact on quality of life. This is a quantitative, descriptive, and cross-sectional study conducted through the application of the MELASQoL questionnaire to a sample of 30 women aged 22 to 42 years, including 21 pregnant and 9 non-pregnant participants. The results showed a higher frequency of melasma among pregnant women (66.7%) compared to non-pregnant women (33.3%), mainly associated with hormonal factors and sun exposure, although without statistically significant differences between groups. A strong correlation was observed between melasma intensity and perceived impact among pregnant women, indicating that the greater the severity of the lesions, the greater the impairment of self-esteem and emotional well-being. It is concluded that melasma is a multifactorial condition and that knowledge of risk factors, along with adequate photoprotection and psychological support, is essential to prevent its worsening and to promote the physical and emotional well-being of affected women.
Keywords: Melasma. Pregnancy. Self-esteem. Quality of life. Photoprotection.
1 INTRODUÇÃO
O melasma é uma condição cutânea, caracterizada por hiperpigmentação, manifestando-se como manchas marrons irregulares, especialmente em partes do corpo expostas à luz solar, como o rosto (Santos et al., 2024).
Em geral, o melasma é uma condição complexa que pode afetar tanto gestantes, quanto mulheres não grávidas, apresentando características diferenciadas em cada grupo. É mais comum entre mulheres, em particular aquelas com pele mais escura e idade entre 30 e 40 anos.
Pesquisas indicam que até 70% das mulheres grávidas podem apresentar melasma, frequentemente relacionado a alterações hormonais e à exposição ao sol (Pietrowski et al., 2022). Essa condição vai além de um simples problema estético, pois impacta a autoestima e a qualidade de vida das pessoas afetadas.
As manifestações clínicas do melasma em gestantes podem incluir a conhecida máscara da gravidez ou cloasma, que é um tipo de hiperpigmentação que ocorre nas bochechas, testa e lábio superior. Durante a gestação, as mudanças hormonais aumentam a produção de melanina, contribuindo para o surgimento de manchas. Além disso, a hiperpigmentação e as manchas podem ser observadas em outras áreas, como as aréolas mamárias e a linha alba do abdômen, conhecida como linha nigra. É importante ressaltar que a prevalência do melasma entre mulheres latino americanas varia entre 1,5% e 33,3%, com taxas ainda mais altas entre gestantes, chegando a 50% a 80% (Purim et al., 2012).
Os fototipos de pele são determinados pela resposta da pele à exposição solar, especialmente em relação à capacidade de desenvolver queimaduras solares e bronzeamento. Essa classificação foi desenvolvida pelo dermatologista Thomas Fitzpatrick, em 1975, e é amplamente utilizada na prática clínica para avaliar o risco de danos solares e a predisposição a condições dermatológicas.
A classificação se divide em seis fototipos, que variam desde a pele muito clara até a pele muito escura. O fototipo I é caracterizado por pele muito clara, frequentemente com sardas, cabelos ruivos ou loiros e olhos azuis ou verdes. Indivíduos desse fototipo sempre se queimam e nunca bronzeiam, apresentando um risco muito alto para queimaduras solares e câncer de pele. O fototipo II apresenta pele clara, cabelos louros ou castanhos claros e olhos azuis, verdes ou castanhos claros. Esses indivíduos queimam-se facilmente e bronzeiam levemente, tendo um alto risco de queimaduras solares e câncer de pele. O fototipo III tem pele clara, cabelos castanhos claros ou escuros e olhos castanhos. Indivíduos desse fototipo queimam-se moderadamente e bronzeiam-se bem, apresentando um risco moderado para queimaduras solares e câncer de pele. O fototipo IV é caracterizado por pele média a oliva, cabelos castanhos escuros e olhos castanhos ou pretos. Esses indivíduos queimam-se raramente e bronzeiam-se facilmente, com risco moderado a baixo para queimaduras solares e câncer de pele. O fototipo V apresenta pele entre escura muito escura, cabelos pretos e olhos castanhos ou pretos. Indivíduos desse fototipo queimam-se muito raramente e bronzeiam-se profundamente, tendo baixo risco de queimaduras solares e câncer de pele. O fototipo VI é caracterizado por pele muito escura, cabelos pretos e olhos pretos. Indivíduos desse fototipo nunca se queimam e se bronzeiam muito bem, apresentando risco muito baixo para queimaduras solares e câncer de pele (Fitzpatrick et al., 1975).
A classificação dos fototipos de pele é importante para avaliar o risco de danos solares, orientar tratamentos dermatológicos e promover a educação em fotoproteção. Essa compreensão permite que profissionais da saúde ofereçam recomendações personalizadas de proteção solar, especialmente para indivíduos de fototipos mais claros, que são mais suscetíveis a danos. Além disso, a classificação é uma ferramenta valiosa em pesquisas e estudos clínicos, ajudando a identificar a incidência de doenças dermatológicas e a eficácia de tratamentos em diferentes grupos de pele. Em suma, entender os fototipos de pele é essencial para promover a saúde da pele e prevenir condições relacionadas à exposição solar (Sánchez et al., 2009).
Em relação aos sinais e sintomas do melasma, pode-se observar alterações na cor da pele se manifestando por manchas marrons ou acastanhadas, que podem variar em intensidade e local, afetando principalmente o rosto. As manchas têm uma aparência irregular e assimétrica, que pode ser mais evidente em áreas frequentemente expostas ao sol. Em gestantes, as manchas podem se intensificar devido ao aumento dos hormônios estrogênio e progesterona, além de uma maior exposição ao sol. É comum que as mulheres percebam o surgimento de novas manchas ou piora dos sintomas a partir do segundo semestre de gestação (Ikino et al., 2014)
Como o melasma possui alta taxa de recorrência, isso torna o tratamento desafiador. Mesmo após tratamentos eficazes, as manchas podem voltar, especialmente se a exposição ao sol não for de maneira adequada. Como consequência, há um impacto negativo na autoestima e na qualidade de vida, especialmente em mulheres, que podem se sentir inseguras e insatisfeitas com sua aparência.
Esse aspecto psicológico é particularmente relevante, já que o melasma afeta áreas visíveis do corpo, principalmente o rosto (Kagha et al., 2020). Entender os mecanismos mais comuns que motivam o surgimento do melasma é fundamental para elaborar estratégias eficazes de diagnóstico e tratamento. Entre as opções terapêuticas, a adoção de medidas de proteção aos raios Ultravioleta se destacam, pois podem evitar a evolução dessa condição. A aplicação frequente de proteção solar, o uso de roupas apropriadas e a evitação da exposição ao sol nos horários de maior intensidade são práticas indispensáveis para o dia-a-dia desse público, especialmente para mulheres grávidas, cujas peles são mais vulneráveis a essas alterações (Miot, 2018).
Os fisioterapeutas têm um papel significativo no tratamento do melasma. Os peelings químicos se destacam, pois demonstram eficácia na remoção de pigmentos acumulados na epiderme e na inibição da tirosina quinase, enzima que fosforila o aminoácido tirosina em proteínas. Nesse contexto, a nanotecnologia surgiu como uma alternativa promissora, possibilitando a criação de microemulsões que auxiliam na permeação dos medicamentos pela barreira cutânea. Essas microemulsões, por apresentarem um tamanho reduzido e estabilidade termodinâmica, garantem uma entrega eficiente de agentes terapêuticos, aprimorando a penetração dos ativos na pele.
Investigações recentes indicam que o uso de microemulsões com ácido retinóico, associado a peelings químicos, pode proporcionar resultados clínicos superiores em pacientes com melasma, em comparação aos tratamentos tradicionais, destacando-se no manejo desta condição desafiadora. Assim, a abordagem integrada do fisioterapeuta, que combina conhecimento em estética, farmacologia e tecnologia, é essencial para otimizar os resultados no manejo dessa condição (Andrade et al., 2024).
Portanto, compreender os fatores de risco, os sinais e sintomas, bem como as alternativas de tratamento, é fundamental para um manejo eficaz do melasma e para a promoção da saúde da pele ao longo de todas as fases da vida. A conscientização e a importância da proteção e o acesso a informações corretas podem ser decisivos para reduzir o impacto do melasma na vida das pessoas afetadas.
Justificativa
O melasma é uma condição dermatológica comum que afeta uma significativa parcela da população, especialmente mulheres na faixa etária fértil, sendo frequentemente exacerbada durante a gestação devido a alterações hormonais e à exposição solar. A hiperpigmentação associada ao melasma pode impactar negativamente a autoestima e a qualidade de vida das mulheres afetadas, especialmente em um contexto em que a aparência física é valorizada. Apesar de sua prevalência, o conhecimento sobre os fatores desencadeantes, os sinais e sintomas do melasma, bem como suas diferenças entre gestantes e não gestantes, ainda é limitado. A compreensão desses aspectos é crucial para a implementação de medidas eficazes de prevenção e tratamento, além de orientar gestantes sobre os cuidados com a pele durante a gravidez. Assim, este estudo busca contribuir para o entendimento sobre o melasma, e seus fatores associados, tanto em gestantes como em não gestantes. Dessa forma, as orientações e condutas terapêuticas podem ser planejadas de forma individualizada, e associadas a promoção da conscientização sobre a importância da fotoproteção e do acompanhamento dermatológico em ambas as populações (Sarma et al., 2017)
1.1 Objetivo Geral
Investigar a prevalência, sinais e sintomas do melasma em gestantes e não gestantes, bem como os fatores relacionados ao seu desenvolvimento, com o intuito de proporcionar uma compreensão abrangente da condição e suas implicações na saúde da pele.
1.2 Objetivos Específicos
- Analisar a prevalência do melasma em gestantes e não gestantes em uma população específica.
- Identificar os principais fatores desencadeantes do melasma, incluindo aspectos hormonais, genéticos e ambientais.
- Descrever os sinais e sintomas clínicos do melasma, com foco nas características específicas dessa fase da vida.
- Avaliar o impacto do melasma na qualidade de vida e na autoestima das mulheres afetadas, tanto gestantes quanto não gestantes.
- Promover a conscientização sobre a importância da fotoproteção e dos cuidados com a pele para a prevenção do melasma em diferentes fases da vida.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O melasma, também conhecido como cloasma, é uma condição cutânea crônica caracterizada pela hiperpigmentação da pele, resultado da superprodução de melanina em áreas expostas à radiação ultravioleta. O entendimento da patogênese do melasma é complexo e multifatorial, envolvendo aspectos hormonais, genéticos e ambientais. Segundo Pietowska et al. (2022), a condição ocorre mais frequentemente em mulheres com tons de pele mais escuros, especialmente entre os fototipos III a V de Fitzpatrick, geralmente na terceira e quarta décadas de vida. Fatores como o uso de contraceptivos orais, gravidez e exposição solar prolongada são reconhecidos como influentes no desenvolvimento do melasma.
A prevalência do melasma pode variar significativamente, com estudos indicando que afeta de 1% da população geral até 9-50% em grupos de risco. Além disso, a condição está frequentemente associada a comorbidades, como a síndrome do ovário policístico, resistência à insulina, disfunções da tireoide e transtornos psicológicos, como ansiedade e depressão. Lena Ahmed, identificou uma relação significativa entre melasma e distúrbios psicológicos, ressaltando a importância de considerar o impacto emocional da condição na qualidade de vida dos pacientes (Ahmed et al., 2025).
No que diz respeito aos tratamentos, diversas abordagens têm sido exploradas. Os peelings químicos, especialmente os que utilizam ácido retinoico, têm se mostrado úteis na redução da pigmentação, uma vez que não apenas removem pigmentos depositados na epiderme, mas também inibem a tirosina-quinase, uma enzima fundamental na produção de melanina.
Deste modo, a revisão da literatura revela um quadro em evolução sobre o melasma, enfatizando a necessidade de uma abordagem integrada e baseada em evidências para seu tratamento. O conhecimento atual destaca a importância de considerar não apenas os fatores físicos que contribuem para a condição, mas também os aspectos emocionais e sociais que afetam os pacientes, garantindo assim um tratamento holístico e eficaz.
MATERIAL E MÉTODOS
Para a realização deste estudo, foram utilizados questionários estruturados e o instrumento validado Melasma Quality of Life (MELASQoL), destinado à avaliação da qualidade de vida das participantes com diagnóstico clínico de melasma.(Apêndice A).
Também foram empregados formulários de registro clínico, contendo informações sociodemográficas e clínicas (Apêndice B), e equipamentos fotográficos digitais de alta resolução, utilizados para a captura das imagens das lesões cutâneas sob iluminação padronizada (Apêndice C).
A análise das imagens foi realizada utilizando critérios da escala MASI (Melasma Area and Severity Index), a fim de mensurar a gravidade e extensão das lesões. (Apêndice C).
Durante a coleta, todos os materiais foram devidamente higienizados e manuseados de acordo com os protocolos de biossegurança.
Caracterização do Objeto de Estudo
O objeto de estudo desta pesquisa compreendeu mulheres com diagnóstico clínico confirmado de melasma, subdivididas em dois grupos:
- Grupo 1: Gestantes com idade gestacional confirmada no momento da coleta de dados;
- Grupo 2: Mulheres não gestantes, em idade fértil, incluindo nulíparas e multíparas.
As participantes apresentavam idades entre 18 e 45 anos e foram selecionadas em clínicas de estética e consultórios dermatológicos.
Foram incluídas apenas participantes com diagnóstico clínico confirmado por profissional qualificado e que aceitaram participar voluntariamente, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice D).
Foram excluídas mulheres com doenças dermatológicas que pudessem interferir nos resultados (como psoríase, dermatite atópica), uso recente de medicamentos despigmentantes, e aquelas com doenças sistêmicas capazes de alterar a pigmentação cutânea (como lúpus eritematoso sistêmico, diabetes mellitus, distúrbios da tireoide ou síndrome dos ovários policísticos).
Caracterização da Área
O estudo foi realizado em clínicas de estética localizadas na região de Santa Terezinha de Itaipu – PR, entre os meses de março e junho de 2025.
As coletas ocorreram em ambientes climatizados, com iluminação artificial controlada, garantindo padronização nas condições de observação e registro fotográfico.
As participantes foram avaliadas em salas reservadas, assegurando privacidade, conforto e confidencialidade das informações.
Metodologia da Pesquisa
A pesquisa foi classificada como quantitativa, de caráter descritivo e transversal, pois teve como objetivo analisar e comparar, em um único momento temporal, a prevalência, os sinais e sintomas do melasma em gestantes e não gestantes.
Os dados foram coletados diretamente das participantes, caracterizando um estudo de campo, com uso de questionários e exame clínico da pele (Apêndices A, B e C)
A abordagem quantitativa permitiu mensurar variáveis e estabelecer relações entre fatores hormonais, ambientais e psicossociais associados à condição.
Procedimentos Metodológicos/Procedimento Experimental A coleta de dados ocorreu em duas etapas principais:
1. Aplicação dos questionários estruturados
As participantes responderam a questionários contendo perguntas sobre idade, etnia, escolaridade, histórico de saúde, uso de anticoncepcionais hormonais, histórico gestacional, início e evolução do melasma, hábitos de exposição solar e uso de fotoprotetor (Apêndice A).
O questionário MELASQOL foi aplicado para avaliar o impacto do melasma na qualidade de vida, autoestima e bem-estar emocional (Apêndice A).
2. Exame clínico e registro fotográfico
Após o questionário, foi realizado o exame clínico da pele, seguido do registro fotográfico das áreas afetadas, utilizando câmeras digitais de alta resolução sob iluminação padronizada (Apêndice C).
As imagens foram analisadas de acordo com os critérios da escala MASI, classificando a extensão e intensidade das lesões em diferentes regiões faciais (Apêndice C).
RESULTADOS E DISCUSSÃO OU RESULTADOS ESPERADOS
O estudo contou com a participação de 30 mulheres, sendo 21 gestantes e 9 não gestantes. As participantes apresentaram idades entre 22 e 42 anos, com média predominante na faixa dos 30 anos. A maior parte das mulheres relatou exposição solar frequente e uso de protetor solar de forma irregular, fator que pode estar associado à piora das manchas melânicas (HANDEL, 2013). Observou-se também que cerca de 40% das participantes relataram histórico familiar positivo para melasma, o que reforça a influência genética na manifestação da doença (SOUZA et al., 2025).
Na comparação entre gestantes e não gestantes, verificou-se que o diagnóstico confirmado de melasma foi mais frequente entre as gestantes (66,7%) em relação às não gestantes (33,3%), embora essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa (p = 0,123). O gráfico apresentado na Figura 1 ilustra essa distribuição. Mesmo sem significância estatística, a maior proporção de casos entre as gestantes sugere possível influência dos fatores hormonais característicos da gestação, como aumento dos níveis de estrogênio e progesterona, que estimulam a produção de melanina (SOUZA et al., 2025).
Em relação ao uso de protetor solar, não foram encontradas diferenças relevantes entre os grupos (p = 0,687). Aproximadamente dois terços das gestantes e metade das não gestantes relataram uso regular, indicando que o hábito de fotoproteção ainda é insuficiente em ambos os grupos. O mesmo ocorreu com o histórico familiar (p = 0,577) e o fototipo (p = 0,866), sendo observada predominância dos fototipos II e III, típicos de peles claras que apresentam maior sensibilidade à radiação ultravioleta (HANDEL, 2013).
Quanto à autoestima e ao impacto psicossocial, observou-se leve tendência de maior comprometimento entre as gestantes (38,1%) em comparação às não gestantes (22,2%), embora sem diferença estatisticamente significativa (p = 0,675). Essa diferença pode estar relacionada às mudanças hormonais e emocionais próprias do período gestacional, que aumentam a sensibilidade corporal e emocional diante de alterações na aparência (ESPÓSITO, 2022).
A análise da escala de intensidade do melasma (de 1 a 5) demonstrou valores médios semelhantes entre os grupos (p = 0,961), sugerindo que a percepção da gravidade das manchas é parecida entre gestantes e não gestantes. Em ambos os grupos, a maioria classificou o impacto do melasma como “nada” ou “pouco”, sem diferença significativa (p = 0,512), o que mostra que, embora a presença das manchas cause incômodo estético, nem sempre resulta em prejuízos marcantes à qualidade de vida (Purim et al., 2012).
A correlação ordinal de Spearman revelou uma relação positiva forte e estatisticamente significativa entre a intensidade do melasma e o impacto percebido entre as gestantes (ρ = 0,91; p < 0,001). Esse resultado demonstra que, quanto maior a intensidade das manchas, maior é o impacto emocional e social sentido pelas mulheres. Entre as não gestantes, a correlação não pôde ser calculada devido ao número reduzido de participantes, porém observou-se tendência semelhante de associação entre a gravidade do melasma e o desconforto relatado (HANDEL, 2013).
Discussão
Esses achados estão de acordo com o que a literatura descreve sobre o melasma gestacional, apontando que os fatores hormonais e genéticos são determinantes importantes no aparecimento da condição, enquanto a exposição solar atua como agente desencadeante ou agravante. Por exemplo, estudos brasileiros demonstraram que o início do melasma está associado à gestação em cerca de 36 % dos casos em mulheres com fototipos intermediários. (TAMEGA, et al. 2013). Ainda, a associação entre início durante a gestação e histórico familiar reforça a natureza multifatorial da doença. ( RIBEIRO et al., 2024)
Adicionalmente, estudos laboratoriais sugerem que os hormônios sexuais, especialmente o estrogênio, podem modular a pigmentação da pele induzindo atividade de melanócitos e fatores de pigmentação em sinergia com radiação UV. (CARIO, 2019), cario No estudo de Miranti et al., verificou-se que níveis de estradiol em gestantes com melasma eram levemente superiores aos daquelas sem melasma, embora não estatisticamente significativos. (JANG et al., 2015). Outro estudo identificou correlação positiva entre níveis de estradiol e gravidade do melasma (r = 0,462; p < 0,05) em gestantes. (RODRIGUES et al., 2024). Esses achados reforçam a hipótese de que o ambiente hormonal da gestação favorece a expressão clínica do melasma.
No que se refere à qualidade de vida, diversas pesquisas mostram impacto emocional relevante nas mulheres com melasma. Um estudo em Florianópolis encontrou que 94,1 % relataram sentirem-se incomodadas com a aparência; 78,4 % consideraram-se menos atraentes; 52,9 % relataram se deprimidas. (GHALE et al., 2025). Outro estudo integrativo apontou que o instrumento MELASQoL vem sendo utilizado amplamente para mensurar esse impacto. (MANNA et al., 2016).
A nossa amostra apresentou impacto mais leve e sem significância estatística entre gestantes e não gestantes, o que pode ser explicado pelo menor número de não gestantes e/ou pela sensibilização prévia das gestantes em relação às mudanças corporais da gestação, que tornaram a percepção de pigmentação menos isolada como problema estético.
É importante destacar que, embora nossa amostra não tenha revelado diferenças estatísticas expressivas entre gestantes e não gestantes, o fato da forte correlação entre gravidade e impacto psicológico entre gestantes reforça a necessidade de abordagens integradas no tratamento do melasma, especialmente no contexto da gestação. O uso de protetor solar, a limitação da exposição solar e o suporte psicológico são medidas recomendadas tanto na literatura quanto na prática clínica. Estudos como o de Purim & Avelar (2012) em gestantes brasileiras apontaram baixa orientação em fotoproteção durante o pré-natal, o que pode agravar os resultados. (Purim et al., 2012).
Por fim, pode-se concluir que o melasma é uma condição multifatorial, em que aspectos hormonais, genéticos e comportamentais interagem de maneira complexa. A forte correlação entre intensidade e impacto na gestação reforça a importância de uma abordagem que vá além da estética, contemplando também o cuidado psicológico e o incentivo a hábitos preventivos.
2 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo permitiu compreender de forma mais ampla os impactos do melasma na qualidade de vida e na autoestima de mulheres gestantes e não gestantes. Observou-se que, embora o melasma seja uma condição dermatológica benigna, suas repercussões estéticas e emocionais podem afetar significativamente o bem-estar das mulheres, especialmente no período gestacional, em virtude das alterações hormonais e psicológicas características dessa fase.
Os resultados obtidos reforçam a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento multiprofissional, que envolva não apenas o tratamento clínico, mas também o suporte psicológico e orientações quanto à fotoproteção e aos cuidados contínuos com a pele. Além disso, evidenciam a necessidade de ampliar o acesso à informação e à orientação adequada sobre o melasma, de modo a reduzir o impacto negativo dessa condição sobre a autoestima feminina.
Dessa forma, este trabalho contribui para o avanço do conhecimento sobre o tema e serve de base para novas pesquisas que busquem aprimorar as estratégias de prevenção, tratamento e promoção da qualidade de vida das mulheres acometidas por essa alteração pigmentária.
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