REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512092055
Marcelo Leoni Leal Corrêa
Orientador: Prof. Hilder Alves Laudino
INTRODUÇÃO
A pergunta proposta pelo título do trabalho: “O livro de mórmon é o passado da América?” foi a pergunta que veio em minha mente quando me deparei pela primeira vez com a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos dias, também conhecidos como mórmons ou pela sigla SUD (Santos dos Últimos Dias), essa é uma pergunta de muitas pessoas que vêm essa igreja cada vez mais perto de suas casas, abrindo novas capelas em seus bairros e tem o primeiro contato com o livro de mórmon através dos seus jovens missionários.
O livro de mórmon diz contar a vida de povos antigos que habitaram o continente americano e deixaram como descendência os atuais indígenas, será que tal afirmação condiz com a historiografia atual? Temos uma nova possibilidade de entender o passado dos povos que carregamos o sangue em nossas veias? Esse trabalho foi feito com o intuito de fornecer uma análise historiográfica sobre a narrativa contada no livro e mórmon sem desmerecer qualquer filosofia religiosa desta instituição e origem norte americana, apenas abordando quais encontros ou desencontros temos entre a história tradicional e a narrativa do livro.
No capítulo 1, abordaremos de forma resumida a história de origem da Igreja SUD e o livro de mórmon e um pouco de sua trajetória até os dias atuais.
No capítulo 2, falaremos sobre o livro e mórmon, seu conteúdo e analisaremos de forma crítica o seu conteúdo comparando com a historiografia tradicional.
No capítulo 3, daremos a resposta para a pergunta se o livro e mórmon é ou não o passado do continente americano.
Capítulo 1 – Uma breve história SUD.
Na primavera de 1820 em Palmyra, Nova York, um jovem chamado Joseph Smith Jr. aos seus 14 anos de idade, filho de arrendatários de terras entra em um dilema espiritual, qual das várias igrejas que professavam suas crenças em sua região ele deveria se afiliar? Qual delas era a correta? Como um jovem leitor da Bíblia, o jovem lembrou-se de uma passagem de Tiago 1:5 que diz “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada”. Ao refletir sobre a citação Joseph se retira em oração em um bosque perto de sua casa para orar a Deus, nesse momento à o acontecimento que na doutrina SUD é chamada de “Primeira Visão” onde o garoto vê diante dos seus olhos duas figuras de luz que de acordo com o próprio Joseph:
Foi-me respondido que não me unisse a qualquer delas, pois estavam todas erradas; e o Personagem que se dirigia a mim disse que todos os credos eram uma abominação à sua vista; que aqueles religiosos eram corruptos. (Joseph Smith-História, Capítulo 1:19).
Já no ano de 1823, na casa de Joseph Smith em seu quarto acontece a segunda experiência mediúnica, a visita de um anjo que se que apresenta como Moroni e é este anjo que através de visões passa para o jovem confuso a localização do Livro de Mórmon, objeto de nosso estudo que é dito conter os registros da comunicação de Deus com os antigos habitantes das Américas e a plenitude do evangelho eterno de Deus sendo para a Doutrina mórmon como a própria capa do livro diz: “Um outro testamento de Jesus Cristo”, sendo feito de placas de metal e escrito em uma língua chamada de “egípcio reformado”. Em 1827, o anjo Moroni na Colina de Cumorah, localizada no Condado de Ontário, Nova York, entrega o livro de mórmon a Joseph que em posse de artefatos, chamados de Urim e Tumin e um peitoral igual aos utilizados pelos sacerdotes do templo de Jerusalém, que estavam junto com o livro, que era todo escrito em placas de ouro, o traduzem para o inglês com ajuda de Oliver Cowdery e o publicam no ano de 1930 o mesmo ano da fundação de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Após a fundação da igreja, que se espalhou rapidamente na região de Nova York, ela começou a sofrer muitas perseguições por parte de pessoas de outras denominações que culminaram na prisão e assassinato de Joseph Smith e seu irmão na prisão de Carthage, em Navoo, hoje ponto de visitação para os membros da igreja.
Mesmo com a morte de seu líder o movimento mórmon não parou, migrando para oeste fugindo de perseguições, agora liderada por Brigham Young que será o segundo presidente da Igreja SUD, cargo esse que carrega consigo a responsabilidade de ser o líder e como é ensinado aos membros um “profeta, vidente e revelador”, cargo que continua até os dias atuais. Passando por Missouri, onde é decretado o extermínio contra os mórmons, e Illinois onde a perseguição continua o novo Profeta conduz a migração de todos os membros mórmons para o Oeste seguindo o movimento migratório que os Estados Unidos estavam passando na época para o povoamento do Oeste americano, chegando finalmente no ano de 1850 no vale de Salt Lake onde se estabeleceram criando o território de Utah, tendo Brigham Young como primeiro governador do estado, sendo substituído posteriormente por um governador não membro pelo governo americano, no intuito de impedir uma possível criação de um estado mórmon, ideia que era ponderada através da criação do estado de deseret.
Longe de perseguições e com uma forte obra missionária, a igreja cresce expandindo-se por todos os Estados Unidos e posteriormente os continentes tendo mais de 15 milhões de membros no mundo e 1,25 milhões no Brasil fazendo o terceiro país com o maior número de membros no mundo segundo a própria igreja SUD, hoje é comum observamos jovens entre 18 a 26 anos praticando proselitismo religioso por grande parte do mundo expandindo a doutrina SUD por todo o globo com calças pretas e plaquetas em suas camisas brancas.
Capítulo 2 – O livro de mórmon.
O livro de mórmon junto com Doutrina e Convênios, Pérola de Grande Valor e a Bíblia constituem os livros sagrados da doutrina SUD e a partir dos ensinamentos deles que a religião é praticada por seus membros. A nossa análise será feita nesse livro que como dito por Joseph Smith é:
“(…) o mais correto de todos os livros da Terra e a pedra fundamental de nossa religião; e que seguindo seus preceitos o homem se aproximaria mais de Deus do que seguindo os de qualquer outro livro.” (O livro de Mórmon, introdução).
O livro de mórmon tem um período de abrangência que vai de 2.200 a.c a 400 d.c, sendo a maior parte dele passada de 600 a.c até seu final, e resumidamente como a própria introdução diz conta a história de duas grandes civilizações, uma que veio as Américas de Jerusalém no século 6 a.c que se dividiu em dois povos citados como nefitas e lamanitas, e outra que chegou ao século 22 a.c proveniente dos povos que tiveram suas línguas confundidas na construção da Torre de Babel, e ao final é dito que todos foram destruídos com exceção dos lamanitas que seriam os antepassados de todos os indígenas americanos.
2.1. A viagem ao Novo Mundo.
O livro de mórmon começa contando a história de Leí um judeu que tem visões divinas sobre a destruição de Jerusalém que alerta ao povo sem sucesso, e por orientação divina foge da cidade com sua família para o deserto, constituída de sua esposa chamada Saria e quatro filhos chamados Lamã, Lemuel, Néfi e Sam, aqui podemos ter um pequeno primeiro ponto de discussão, “Sam” é um nome tipicamente americano mais os apologistas mórmons não dão nenhuma explicação plausível da presença desse nome em 600 a.c. dado a um judeu, deixando a entender que pode ser um diminutivo de “Samuel” embora não haja nenhuma confirmação de teoria. Outra passagem que merece menção é o arco de metal de Néfi usado enquanto ele caçava para sua família:
“E acontece que quando eu, Néfi, saí para caçar, eis que quebrei meu arco, que era feito de aço puro; (…).” (1 Néfi 16:18, Livro de Mórmon).
O aço começou a ser produzido muito mais tarde, do século XV em diante com o refinamento de ferro-gusa, não podemos alegar alguma má tradução do livro de mórmon como acontece na Bíblia porque além de não existir o livro original, porque de acordo com os ensinamentos SUD ele foi levado junto com as relíquias usadas na tradução pelo anjo Moroni ao fim do trabalho de Joseph Smith, ele foi traduzido por experiência mediúnica e não científica. Mas depois de alguns acontecimentos a família de Leí, agora com algumas pessoas a mais, Zorã um servo de um judeu rico que possuía registros antigos sobre a descendência de Leí, continuando sua jornada construindo um barco saindo da península arábica em direção ao Oceano Pacífico e finalmente chegando as Américas. É difícil estudar sobre a viagem feita por Leí, por que são ações feitas por um grupo humano diminuto que deixariam poucas evidências para algum tipo de refutação histórica e mesmo sendo algo pouco provável não é algo impossível, afinal quanto mais à história avança vão surgindo evidências, algumas bem sólidas, que o continente americano já havia sido visitado por diferentes povos ao longo dos séculos, embora seja notável que nenhum conseguiu estabelecer alguma colônia contínua que tenha durado até a empreitada Ibérica nas Américas, o que vai de encontro com o livro mórmon, já que os povos descritos nele alcançaram um grande nível social. Não há um consenso sobre o lugar em que a família de Leí abortou no continente, embora os estudiosos mórmons acreditem que tenha sido na região da atual Guatemala ou El Salvador.
2.2. Onde se passou toda essa história? E os nativos?
Aqui iremos discutir dois assuntos que sofreram mudanças ao longo da história da igreja mórmon, o primeiro seria o “onde” se passou os eventos do livro de mórmon e o outro seria a participação dos vários povos nativos que já existiam em toda a América.
Existem duas teorias sobre o cenário em que aconteceu os eventos do livro de mórmon, a primeira usada no início da doutrinação SUD ainda no século XIX, seria que todo o continente foi o cenário dele tendo por base uma citação contida no livro de mórmon:
“E assim, a distância entre o mar do leste e o mar do oeste, pela fronteira entre Abundância e a terra de Desolação, era o equivalente a um dia e meio de viagem para um nefita. E assim a terra de Néfi e a terra de Zaraenla estavam quase que rodeadas por água, havendo uma pequena faixa de terra entre a terra do norte e a terra do sul.” (Alma 22:32, Livro de Mórmon).
Sendo a terra do norte e a do sul a América do Norte e a do Sul e a estreita faixa a América Central. E a outra teoria, chamada de “geografia limitada”, as dimensões são reduzidas para apenas a Mesoamérica.
Figura 1: Região da Mesoamérica inclui aproximadamente o sul do México, e os territórios da Guatemala, El Salvador e Belize.

Fonte: Google Maps.
Sendo a estreita faixa de terra a faixa de terra entre os estados de Veracruz e Tabasco. Essas mudanças de extensão territorial estão diretamente ligadas a segunda questão que é a participação do povo nativo americano no livro de mórmon, como a introdução do livro é nos apresentado que os lamanitas são antepassados dos índios americanos, o que nos leva logo a entender que para a doutrina mórmon não havia ocupação humana no continente, ensinava-se que foi a família de Leí que foi a responsável pela expansão humana no continente. Mesmo assim, estudiosos mórmons ligados a Universidade Brigham Young aceitam a existência de presença humana anterior à ocupação israelita, e que os povos do livro de mórmon interagiram com os povos antigos da América.
Mas de acordo com a historiografia tradicional, acredita-se que o continente americano foi povoado por sucessivas ondas migratórias datadas da última grande glaciação com teorias que vão de migrações terrestres através do estreito de Bering e marítimas com travessias pelo Oceano Pacífico de povos em sua maioria de origem mongoloide e não israelita, sem conta que um grupo tão pequeno teria capacidade de povoar um continente inteiro em poucos anos.
2.3. Nefitas e Lamanitas.
Figura 2: Figura ilustrativa do Capitão Moroni segurando o estandarte da liberdade, seguida de imagem ilustrativa de guerreiros maias.

Fonte: Domínio público. (https://www.lds.org/media-library/images/captain-moroni-title-liberty-39658?lang=eng).
Quando a família de Leí chegou às Américas, em menos de 52 anos houve uma grande explosão demográfica em que os descendentes do pequeno grupo de pessoas que imigrou de Jerusalém conseguiram erguer no novo mundo grandes cidades e um templo igual ao templo de Jerusalém. Além de crescerem em número suficiente para se separarem entre os que seguiram a Néfi, filho de Leí que sempre apoiou seu pai e a Deus, e os que seguiram a Lamã e Lemuel, os filhos mais velhos que sempre murmuraram contra o pai além de muitas vezes terem atentado contra a vida de Néfi, ficando conhecidos como Nefitas e Lamanitas respectivamente.
Os nefitas são retratados como as pessoas bem aventuradas por Deus possuindo um nível social elevado onde se pode destacar o uso de animais de tração e transporte ausentes no novo mundo como o cavalo e o boi; o cultivo de trigo, cevada, linho, uvas e azeitonas gêneros também ausentes na América antiga; cunhagem de moedas e construção de veículos com rodas como carroças e carruagens. Porém o mais impressionante seja a tecnologia bélica nefita onde são citados carros de guerra, espadas de aço, escudos, couraças e capacetes de latão e cobre.
Analisando o povo nefita pela historiografia tradicional da América antiga vemos o total oposto do apresentado pelo livro de mórmon, os povos antigos americanos mesmo os que alcançaram um maior nível social, não domesticaram animais para a carga, com exceção das lhamas incas, e o transporte era feito com força humana. Não existiu cunhagem de moedas, mas existiu um sistema monetário como as sementes de cacau astecas, e todos os principais povos antigos americanos tiveram um domínio grande sobre a tecnologia agrícola, por exemplo as plantações em terraço com complexos sistemas de irrigação dos Incas, além das chinampas Astecas que eram canteiros flutuantes para plantio, lembrando que o povo nefita pelas datas apresentadas nos cabeçalhos de cada capítulo mostram que eles teriam vivido ao mesmo tempo em que o povo Maia. Mas quando analisamos a tecnologia bélica é quando nos distanciamos mais da realidade, embora os povos pré-colombianos possuíssem grande conhecimento na área da matemática, astronomia e cultivo nunca se alcançou um forte domínio sobre a metalurgia restringindo o uso de metais para utensílios e adornos e não para a guerra.
A espada era algo desconhecido na América tanto que, quando da chegada espanhola liderada por Hernán Cortez os nativos quando golpeados pelas espadas espanholas agarravam-nas cortando suas mãos por não saberem o que era aquele objeto. Também não havia uso de metal como proteção no uso de armaduras ou escudos que eram feitos na verdade com materiais mais leves como pele ou algodão e dentre os materiais de ataque o que mais se aproxima de uma espada são os Macuahuitl que era um bastão achatado de onde saíam várias lâminas de obsidiana, uma pedra vulcânica que pode ser afiada e se tornar tão afiada quanto um metal.
Figura 3: Exemplos de Macuahuitl’s, nas bordas lâminas de obsidiana tão afiadas quanto metal.

Fonte: Domínio público. (https://br.pinterest.com/pin/547328160941960288/) Acesso em 19/11/16.
Por sua vez os lamanitas são retratados como o povo bárbaro, com pouca tecnologia, agressores, preguiçosos, rebeldes que eram contra as leis de Deus e inimigos dos nefitas, sempre querendo sua destruição. Enquanto os nefitas eram tidos como um povo branco e formoso os lamanitas tinham a pele escurecida por uma maldição de Deus:
“E ele fez cair a maldição sobre eles [lamanitas], sim, uma dolorosa maldição, por causa de sua iniquidade. (…) e como eram brancos, notavelmente formosos e agradáveis, a fim de que não fossem atraentes para meu povo o Senhor Deus fez com que sua pele se tornasse escura.” (2 Néfi 5:21, Livro de Mórmon)
É interessante observar que o povo lamanita sofre com uma descrição que os igualam a aparência física e as opiniões racistas que se tinha sobre os povos indígenas no século XIX nos Estados Unidos, representando para o leitor à ideia apresentada anteriormente de que eles seriam os descendentes de todos os povos indígenas da América.
2.4. O contato cultural com o povo mesoamericano.
Se analisarmos se realmente houve algum tipo de contato entre os povos do livro de mórmon e o povo mesoamericano, não é fornecida nenhuma evidência de tal contato em toda a narrativa. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi fundada na primeira metade do século XIX em 1930, os primeiros estudos arqueológicos na mesoamérica iniciam já no século XX, então nota-se uma grande incoerência com as descobertas realizadas, fazendo o livro possuir uma grande carga de anacronismos por parte das tecnologias nefita e estereótipos contra os indígenas americanos e sua capacidade já que nota-se que o povo lamanita representa na narrativa os nativos do continente e toda a ideia que se tinha até o momento.
Analisando culturalmente os povos mesoamericanos como vários outros em todo o continente, a maioria possui crenças politeístas fortemente ligadas a forças da natureza e aos animais, onde é comum serem vistos deuses antropomórficos, os reis não são porta vozes dos deuses eles são deuses. O sacrifício humano é presente em vários rituais maias e astecas principalmente, tudo bem diferente da religião judaico-cristã que seria a religião dos povos do livro de mórmon, monoteísta e com no máximo o sacrifício animal, com certeza se houve algum contato entre os nefitas e maias, por exemplo, eles ficariam tão chocados com uma cultura tão diferente assim como os católicos espanhóis do século XVI no contato com o novo mundo.
Os estudiosos, mestres e doutores de universidades norte americanas prestigiadas, ligados à igreja mórmon argumentam que devido o povo nefita ter sido destruído ao final da narrativa e ter sobrado apenas os lamanitas que eram seus inimigos que toda a herança nefita foi apagada da história por eles. Embora seja uma possibilidade é algo impossível, um grupo tão grande e a frente de seu tempo tecnologicamente e com crenças tão adversas ao encontrado em todo o continente nunca tenha merecido alguma menção de algum outro povo americano, mesmo tendo travado tantas grandes guerras onde é descrito que milhares de pessoas fizeram parte, e deixar no esquecimento tecnologias que dariam uma grande vantagem perante outros grupos, o cenário de conquista espanhola poderia até tomar outros traços.
Capítulo 3 – O livro de mórmon é o passado do continente americano?
Quando Hernán Cortés se encontrou com o rei Montezuma II aconteceu o choque de dois mundos, por quê? Eram dois mundos que cresceram sem contato um com o outro, eram tão diferentes que quase não se entediam. Práticas culturas diferentes, diferentes formas de entender o mundo, houve na conquista espanhola ou “invasão” uma falta de respeito e entendimento que aquele mundo era outro. Não só os espanhóis mas portugueses, franceses, ingleses e tantos outros olharam para o novo mundo como algo inferior.
Os americanos, aqueles que vieram da Inglaterra em busca de uma nova vida, viram o indígena norte americano da mesma forma, e é isso que o livro de mórmon acaba por fazer, um povo descendente de um povo amaldiçoado, infiel e preguiçoso que tem que ser resgatado pelo anglo-saxão cristão, formoso aos olhos de Deus. Não dá para culpar o passado, mas é algo impensável continuar essa questão até nossos dias e tratá-la como algo normal, é como ver o espanhol Frei Diego de Landa destruindo os códices maias ao fogo fazendo se perder história de um povo em pleno o século XXI.
Figura 4: Pintura de John Scott – Jesus Cristo visita as Américas

Fonte: (www.lds.org/children/resources/topics/jesus-christ-visits?lang=eng)
A imagem da Figura 4 é recorrente nos livros de ensino mórmon, ela traz o momento mais importante da narrativa do livro de mórmon, a visita de Jesus ao povo nefita, e ela nos traz muitas informações sobre o posicionamento histórico da igreja SUD, a cidade cenário do quadro é a cidade Maia de Chichén Itza, mas por que essa cidade? A igreja dos santos dos últimos dias não reconhece oficialmente o local onde os eventos da narrativa do livro de mórmon ocorreram, então porque os Maias?
No início prevalecia á ideia que todo o continente teria sido cenário para a narrativa mórmon, mas com o avanço da historiografia mostrando que houve grandes civilizações que chegaram à um nível urbanização complexa nos antiplanos chilenos e na mesoamérica, os historiadores optaram em diminuir as dimensões da narrativa para a América Central por ser o lugar mais próximo do Monte Cumora local onde Joseph Smith supostamente achou o livro de mórmon, mesmo lugar onde o anjo Moroni os enterrou ao final da narrativa, ainda porque a historiografia não tem muitas informações sobre o povo Maia, tendo uma incógnita em muitos momentos da história desse povo, como o porquê do abandono de grandes cidades e o declínio de uma civilização que não dava sinais desestruturação. Mesmo não oficialmente, para a igreja mórmon os fatos do livro ocorreram na mesoamérica tendo nefitas e lamanitas convivido junto aos olmecas e maias do período pré-clássico (800 a.C.-300 d.c.), existe um documentário mórmon chamado “Jornada de Fé” realizado pela Neal A. Maxwell Institute ligada a Universidade Brigham Young, que conta com a participação de vários estudiosos mórmons onde deixam a entender que os nefitas e lamanitas são os povos antigos da América sendo os olmecas os nefitas e maias os lamanitas, o que explica o quadro de John Scott, tendo uma narrativa muito tendenciosa sobre as descobertas sobre os povos mesoamericanos. Analisando o documentário é espantoso ver um estudioso falar que é possível observar nas construções Maias influências judaicas, tendo por base que a construção em foco era uma pirâmide Maia que possuía uma grande escadaria com corrimões em forma de longas serpentes que para as religiões judaicas nunca seriam usadas em um local sagrado por conter uma figura ligada ao pecado de Adão e Eva narrada em Gênesis e em destaque.
3. Conclusão
O livro de mórmon é o passado da América? Analisando a história narrada no livro e comparando com o que a historiografia tem até o momento sobre os povos antigos da América pode-se chegar à conclusão que possa existir uma remota possibilidade dele estar certo, mas é pouco provável. Os anacronismos e as incompatibilidades com o conhecimento que se tem hoje são tão grandes que é difícil imaginar esse panorama mudar futuramente, resta para quem acredita no livro de mórmon como uma história verídica do passado seguir a recomendação de Moroni ao final do livro:
“E quando receberdes estas coisas, eu vos exorto a perguntardes a Deus, o Pai Eterno, em nome de Cristo, se estas coisas não são verdadeiras; (…)” (Moroni 10:4, Livro de mórmon)
Porque para a história esse livro parece apenas uma invenção do século XIX, escrito antes de se poder verificar sua veracidade em comparação com os vestígios deixados pelas várias culturas que habitaram o continente.
4. Considerações finais
Ao iniciar o curso de história não tinha a ideia do que esperar do curso, o que iria encontrar ou o que iria mudar em minha vida. Hoje vejo a história como um dos maiores presentes do conhecimento humano, capaz de expandir nossa visão até aos confins do tempo e espaço, aprendendo com os erros e acertos do passado e construindo um futuro novo cheio de possibilidades.
Também me deparei com o poder da história de produzir heróis ou vilões se ela não for bem contada e se tornar tendencionista valorizando inverdades e passar para o futuro apenas mentiras. Como alguém que durante dois anos frequentou A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sentia-me angustiado por observar pessoas pregando o livro de mórmon como o passado da América desvalorizando a história dos povos americanos que lutam até hoje pelo reconhecimento de sua cultura e a mudança da visão de vencidos no teatro da conquista Europeia.
Ao final desse trabalho sinto-me feliz por tentar fazer minha parte no ofício de historiador e trazer a verdade sobre o passado.
5. Referências Bibliográficas
Tota, Antonio Pedro. Os Americanos. São Paulo: Contexto, 2013.
Phillips, Charles. O mundo Asteca e Maia. São Paulo: Folio, 2007.
Alexander, Bruno. O livro das religiões. São Paulo: Globo Livros, 2014
Funari, Pedro Paulo. As religiões que o mundo esqueceu. São Paulo: Contexto, 2013.
The Book of Mormon. United States of America, 2013.
