LETRAMENTOS EM SALA DE AULA: A CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS NA ERA DA MULTIMODALIDADE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510122026


Marcos de Assunção Gaia1
Jaqueline Mendes Bastos2


RESUMO

As práticas de letramento e multiletramentos têm se consolidado como eixos fundamentais no contexto escolar contemporâneo, extrapolando a mera decodificação da linguagem escrita e promovendo a formação de sujeitos críticos e atuantes nas diversas esferas sociais e culturais. O presente artigo tem como objetivo analisar as Histórias em Quadrinhos (HQs) como principal gênero textual, reconhecendo seu caráter multimodal e sua potência pedagógica para promover o engajamento dos discentes em práticas significativas de leitura e produção textual. A metodologia seguiu a abordagem qualitativa por meio de pesquisa bibliográfica a partir de dos autores: Kleiman (2010), Rojo (2012), Soares (2004), Nicolau et al. (2010), dentre outros. Os resultados mostraram que o uso de HQs com outros gêneros discursivos, como o debate, o artigo de opinião e o texto teatral, proporcionando aos alunos oportunidades de reflexão crítica, criatividade e autoria. As práticas pedagógicas alinhadas ao letramento e aos multiletramentos, integram diferentes linguagens e formam leitores e produtores de sentidos em múltiplos contextos comunicativos. A implementação da proposta pedagógica com o uso de HQs e multiletramentos resultam em avanços significativos na participação, interesse e desempenho dos alunos em leitura e produção textual. Conclui-se que a articulação entre HQs, multiletramentos e metodologias ativas potencializa o ensino da língua portuguesa, promovem uma escola mais inclusiva, crítica e conectada com os desafios contemporâneos.

Palavras-chave: Multiletramentos, Histórias em Quadrinhos, Leitura, Escrita.

INTRODUÇÃO

Ler e escrever são habilidades fundamentais para o exercício pleno da cidadania, especialmente em um contexto histórico marcado pela pluralidade de linguagens e pela constante evolução tecnológica. A escola, como instituição socialmente responsável pela formação de sujeitos autônomos e críticos, assume o papel de ampliar a competência leitora e escritora dos estudantes, de modo que possam interagir de forma significativa com as múltiplas esferas sociais nas quais estão inseridos. Nesse sentido, os conceitos de letramento e multiletramentos emergem como eixos estruturantes das práticas pedagógicas contemporâneas, na medida em que exigem uma abordagem que vá além da codificação e decodificação de signos linguísticos, favorecendo a leitura crítica do mundo (Freire, 1989; Kleiman, 2010). A partir da perspectiva de Kleiman (2010), o letramento deve ser compreendido como a função primeira da escola, estruturando o currículo em torno das práticas sociais de leitura e escrita. Rojo (2012), por sua vez, amplia essa concepção ao defender a necessidade de uma educação voltada para os multiletramentos, ou seja, para a leitura e produção de textos em diferentes linguagens e mídias, exigindo dos estudantes competências interpretativas, discursivas e tecnológicas. Diante das dificuldades enfrentadas por muitos alunos da Educação Básica como a defasagem na aprendizagem, a ausência de repertório cultural e a falta de estímulo à produção autoral, torna-se imperativo que o professor adote metodologias que estimulem a criatividade, a criticidade e a autoria dos discentes, valorizando seus saberes e experiências.

O humor, elemento marcante das HQs, revelou-se uma poderosa ferramenta para a problematização de questões sociais relevantes e para o estímulo à produção textual com viés crítico e propositivo. Além disso, o trabalho com HQs permitiu que os alunos refletissem sobre sua própria realidade e se colocassem como sujeitos ativos no processo de construção do conhecimento, transformando a sala de aula em um espaço de autoria, diálogo e intervenção social.

A escola, nesse processo, reafirma-se como um espaço que valoriza as múltiplas linguagens e as diversas formas de expressão, reconhecendo as variações linguísticas e culturais dos estudantes como pontos de partida para a construção do conhecimento. Nesse sentido, dialogar com mídias digitais, redes sociais, animes e outros produtos culturais do cotidiano juvenil torna-se não apenas uma estratégia de motivação, mas uma exigência para o ensino que almeja ser significativo e emancipador (Rojo, 2012; Cosson, 2009).

Assim, ao compreendermos alfabetização, letramento e multiletramentos como dimensões complementares e indissociáveis da formação linguística, reafirmamos nosso compromisso com uma prática pedagógica que promova a leitura e a escrita em suas múltiplas formas e funções.

2. LETRAMENTOS VERSUS MULTILETRAMENTOS

A escola contemporânea tem sido constantemente desafiada a repensar suas práticas de ensino e aprendizagem, especialmente frente às transformações sociais, culturais e tecnológicas que marcam a atualidade. Diferentemente de períodos anteriores quando a alfabetização era compreendida de forma extremamente limitada, muitas vezes resumida à capacidade de assinar o próprio nome ou decodificar frases simples, hoje é necessário compreender esse processo em uma perspectiva mais ampla. A introdução do conceito de letramento marca essa mudança, ao destacar que, para atuar plenamente na sociedade contemporânea, o sujeito precisa estar inserido em práticas sociais significativas de leitura e escrita, que extrapolem o domínio técnico da língua.

Segundo Soares (2004), essa compreensão mais aprofundada do letramento mostra que não basta apenas saber ler e escrever: é preciso entender como a linguagem escrita funciona em contextos reais, sendo usada para mediar relações sociais, acessar direitos, participar do mundo do trabalho e exercer a cidadania. A leitura e a escrita, portanto, devem ser ensinadas de forma situada, conectadas com as práticas sociais vividas pelos estudantes em seu cotidiano.

A partir dessa perspectiva, torna-se evidente a necessidade de o processo de ensino e aprendizagem acompanhar as mudanças impostas pelas tecnologias digitais. O uso intenso de dispositivos como celulares, tablets e computadores pelos jovens, aliado ao fácil acesso a conteúdos multimodais, impõe à escola o desafio de ressignificar suas práticas pedagógicas, de modo a garantir que os alunos não apenas sejam alfabetizados, mas também desenvolvam competências relacionadas ao letramento contemporâneo. Isso implica uma postura ativa por parte dos educadores, que precisam estar abertos ao diálogo com as demandas dessa nova geração, cujas práticas comunicativas e culturais estão fortemente imbricadas com a era digital.

Nesse cenário, os multiletramentos emergem como um conceito-chave para o trabalho pedagógico. Eles ampliam a noção tradicional de leitura e escrita, incluindo outras linguagens como a visual, a sonora, a gestual e a midiática, que compõem os textos e as formas de comunicação do mundo atual. Rojo (2013) argumenta que a presença de elementos midiáticos e digitais nas práticas escolares pode não apenas tornar as aulas mais motivadoras para os alunos, mas também mais relevantes, por estarem em sintonia com suas vivências e repertórios culturais.

A autora defende que o conceito de multiletramentos ganha ainda mais relevância quando se observa a forma como os jovens se comunicam, aprendem e se expressam no presente. Grande parte das profissões atuais já demanda competências relacionadas à manipulação de imagens, sons, vídeos e softwares de edição, e, para muitos jovens, esse modo de operar já faz parte do cotidiano. Ou seja, os textos multimodais, compostos por diferentes linguagens, já são a norma para essa geração, e também farão parte do seu futuro profissional.

Nesse sentido, é possível afirmar que, assim como a escola do século XIX alfabetizava para que o sujeito pudesse assinar seu nome e, posteriormente, para que pudesse compreender textos cada vez mais complexos ao longo do século XX, hoje ela precisa letrar para os novos textos aqueles que se constroem por meio de múltiplas linguagens, que circulam nas redes, nas plataformas digitais e nas interações cotidianas. Reconhecer e incorporar essas práticas nas salas de aula é, portanto, um compromisso fundamental para que a escola continue sendo um espaço de formação crítica, inclusiva e conectada com o mundo em constante transformação.

A partir das reflexões de Soares, compreende-se que os letramentos e os multiletramentos devem ocupar um lugar de centralidade no ambiente escolar, sobretudo em um contexto marcado pela era digital e pelas transformações da sociedade pós-moderna. Nesse cenário, é fundamental que os docentes estejam não apenas conscientes da importância das tecnologias da informação e da comunicação, mas também capacitados a lidar com as múltiplas linguagens que emergem no cotidiano educacional, mediadas por diferentes signos e códigos. Caso essa adequação não ocorra, corre-se o risco de promover um retrocesso educacional, desconectando a escola das demandas da contemporaneidade.

Sob essa perspectiva, Nicolau et al. (2010) nos convidam a refletir sobre um aspecto central da educação contemporânea: a multiplicidade de linguagens que emergem das mídias digitais interativas. Em um cenário onde textos, imagens, sons, movimentos e símbolos se entrelaçam a todo instante, torna-se essencial compreender como esses signos são criados e reinterpretados, produzindo novas formas de significação. É nesse contexto que a semiótica ganha relevância, pois ela nos oferece as ferramentas teóricas e práticas para compreender como os sentidos são construídos em ambientes comunicacionais cada vez mais complexos e multimodais.

A relação entre semiótica e multiletramentos, portanto, não é apenas complementar, mas profundamente interdependente. Quando nos deparamos com gêneros como os stop motions, machinimas, animes e outras produções digitais contemporâneas, percebemos claramente como elementos verbais e não verbais dialogam entre si, criando camadas de significados que vão muito além do que a linguagem escrita tradicional pode alcançar. Essas produções, por sua própria natureza, exigem do leitor (ou espectador) a capacidade de transitar entre diferentes códigos e linguagens, exigência que só pode ser atendida se houver uma formação voltada para o desenvolvimento de uma leitura crítica e sensível à multissemiose.

As novas ferramentas e formatos, como o hipertexto, reconfiguram a forma como interagimos com a informação e com o conhecimento. Ao permitir leituras não lineares, personalizadas e interativas, o hipertexto exemplifica como as práticas de leitura e escrita já não podem ser compreendidas apenas sob a ótica tradicional, demandando um novo olhar pedagógico que integre essas múltiplas formas de linguagem ao cotidiano da sala de aula.

Nesse cenário multicultural, globalizado e hiperconectado, o conceito de letramento se expande, dando lugar à noção de multiletramentos, que contempla a compreensão e produção de significados em diferentes suportes e linguagens. Como aponta Rojo (2012), os repertórios culturais e midiáticos dos professores muitas vezes não coincidem com aqueles vivenciados pelos alunos um descompasso que pode gerar rupturas no processo de ensino e aprendizagem. Daí a importância de um diálogo constante e horizontal entre docentes e discentes, em que ambos compartilhem saberes, práticas e visões de mundo.

Mais do que simplesmente ensinar a lidar com as novas linguagens, o desafio que se impõe é construir, de forma colaborativa, novas perspectivas pedagógicas que valorizem a diversidade de expressões, culturas e modos de produção de sentido. Só assim poderemos oferecer uma educação verdadeiramente significativa, inclusiva e crítica capaz de preparar os estudantes não apenas para o mercado de trabalho, mas para a vida em sua pluralidade, complexidade e riqueza comunicativa.

3.  AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS COMO TEXTO MULTIMODAL.

As HQs fazem parte do cotidiano dos alunos por meio de personagens emblemáticos como “O Menino Maluquinho” e “O Menino Quadradinho”, de Ziraldo; “A Turma da Mônica”, de Maurício de Sousa; e “Os Trapalhões Super-Heróis”, de Bira Dantas. Muitos estudantes demonstram interesse por pesquisar, na internet, HQs que abordam temáticas sociais e exploram variações linguísticas, como é o caso de personagens como Chico Bento e Mafalda. Essa familiaridade se justifica, em parte, pela capacidade que esse gênero tem de despertar o interesse dos leitores por meio de um encantamento lúdico que, conforme aponta Oliveira (2010), funciona como um elo simbólico entre os universos interno e externo da criança, permitindo que ela adentre o mundo da leitura e da fantasia, projetando-se em situações próximas à sua realidade.

Com o advento das tecnologias digitais, o papel das HQs passou a incorporar novos formatos, como as animações e as interações possíveis por meio de plataformas virtuais. No entanto, Oliveira (2010) observa que, apesar dessas inovações, é essencial que as HQs também estejam disponíveis em suportes físicos como livros e revistas, garantindo o acesso ao gênero em bibliotecas e gibitecas escolares. O autor destaca que vivemos em uma sociedade marcada pela velocidade das informações e pela centralidade dos computadores, o que tem provocado o esquecimento de elementos fundamentais da cultura escrita tradicional. Por isso, propõe-se que os docentes elaborem estratégias que incentivem o contato dos alunos com o material analógico, resgatando o gosto pela leitura por meio do suporte impresso, sem desprezar as contribuições da tecnologia, mas também sem substituí-la completamente.

As Histórias em Quadrinhos (HQs) oferecem um vasto repertório de possibilidades pedagógicas, especialmente no que diz respeito ao incentivo à formação leitora e ao desenvolvimento de múltiplas habilidades linguísticas. Ao aliarem texto e imagem em uma narrativa sequencial, as HQs favorecem a construção de sentido por meio da articulação entre diferentes linguagens, tornando-se ferramentas potentes para o trabalho em sala de aula. Oliveira (2010) aponta que os quadrinhos, ao despertarem o interesse pela leitura, contribuem não apenas para a ampliação do vocabulário dos estudantes, mas também para a abordagem de temas históricos, culturais e sociais, aproximando o conteúdo escolar da realidade e dos repertórios dos alunos.

Diante desse potencial, é papel do professor propor situações de aprendizagem que incentivem uma leitura crítica, criativa e significativa das HQs, superando a visão simplista que, por vezes, associa esse gênero apenas ao entretenimento. Para isso, é fundamental orientar os alunos quanto às especificidades do gênero, desenvolvendo competências interpretativas que os permitam compreender tanto os elementos textuais quanto os visuais da narrativa.

No que se refere à constituição linguística das HQs, Brandizzi et al. (2012) destacam a presença marcante da oralidade como uma característica distintiva do gênero, evidenciada por meio de recursos gráficos variados. O uso de letras em tamanhos e formatos diferentes, repetições, pausas (representadas por reticências), onomatopeias e expressões faciais intensificadas são exemplos de estratégias utilizadas para dar ritmo, tom e emoção ao texto. O discurso direto é amplamente explorado, reforçando o dinamismo da narrativa e possibilitando um trabalho mais próximo da performance textual e da entonação oral — aspectos que podem ser explorados em atividades de leitura dramatizada, por exemplo.

Adicionalmente, por se configurarem como um hiper gênero, as HQs demandam dos leitores um domínio de múltiplas competências. Tavares, citado por Ramos (2001), explica que esse gênero é composto por uma série de elementos formais e discursivos que se entrelaçam para formar uma estrutura complexa. As HQs podem se apropriar de diferentes gêneros textuais (como entrevistas, crônicas, relatos históricos, entre outros), e apresentam variações significativas quanto ao número de quadros, à presença ou ausência de personagens fixos, à linearidade ou fragmentação da narrativa, além de fatores externos à obra em si, como o suporte de publicação (livro, revista, jornal, internet), que também interfere na construção de sentido.

Outro ponto importante é o uso de recursos visuais que extrapolam o desenho manual, podendo incluir fotografias, colagens, montagens digitais e técnicas híbridas, o que amplia ainda mais o campo de exploração pedagógica. Essas possibilidades tornam o gênero não apenas acessível, mas também altamente estimulante para o trabalho com os alunos, especialmente quando se busca fomentar práticas autorais que integrem diferentes mídias e linguagens.

Contudo, a riqueza das HQs também apresenta desafios. Muitos alunos, por não estarem familiarizados com a terminologia ou com os elementos estruturais do gênero, encontram dificuldade em distinguir HQs de outros formatos similares, como tiras cômicas, charges e cartuns. Essa confusão, embora comum, pode ser um ponto de partida para a construção de práticas investigativas, nas quais os estudantes sejam convidados a pesquisar, analisar e comparar diferentes formas de expressão gráfica e textual, reconhecendo seus propósitos comunicativos, contextos de circulação e características específicas.

Ao proporcionar esse tipo de experiência, o professor não apenas amplia o repertório dos alunos, mas também estimula a autonomia, o senso crítico e o protagonismo estudantil. Quando incentivados a trazer HQs que dialoguem com seus interesses pessoais, os estudantes sentem-se mais envolvidos e representados no processo de aprendizagem. A escola, nesse contexto, torna-se um espaço de circulação de saberes diversos, em que as múltiplas vozes e linguagens que compõem o cotidiano dos alunos são legitimadas e integradas às práticas pedagógicas.

O trabalho com HQs em sala de aula não deve se restringir a atividades pontuais ou superficiais. Ao contrário, deve ser inserido em propostas pedagógicas que valorizem o multiletramento, a leitura crítica, a produção textual e o diálogo entre diferentes linguagens e contextos sociais. Quando bem orientadas, essas práticas contribuem significativamente para a formação de leitores e produtores de sentido mais preparados para interagir, de forma ativa e reflexiva, com os textos e discursos que circulam na sociedade contemporânea.

Considerando que os textos multimodais estão cada vez mais presentes e circulando amplamente nas diversas esferas sociais, observa-se que as Histórias em Quadrinhos (HQs), enquanto manifestações típicas da multimodalidade, têm ocupado espaço significativo nas mídias digitais e em diferentes contextos socioculturais. Kleiman (2005) aponta que, na contemporaneidade, os textos veiculados pela mídia assumem uma configuração multissemiótica, caracterizando-se pelo uso combinado de linguagem verbal, imagens, fotografias e diversos recursos gráficos. Para a autora, essa complexidade textual evidencia que a produção de sentido não se restringe à linguagem verbal; ao contrário, a imagem adquire status de ferramenta expressiva e comunicacional de grande relevância.

Nesse sentido, as HQs revelam-se potentes instrumentos pedagógicos, pois articulam expressividade, humor e ludicidade em narrativas que representam situações do cotidiano de maneira acessível e dinâmica. Essa articulação favorece o processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita, promovendo práticas de letramento alinhadas aos princípios da multimodalidade e dos multiletramentos. Garcia e Rangel (2013), ao abordarem essa temática, destacam que a escrita, especialmente no contexto atual, funciona em constante diálogo com outras linguagens, como a caligrafia, a diagramação, as ilustrações e os recursos audiovisuais, o que faz com que a construção de sentidos se dê de forma naturalmente multimodal ou multissemiótica.

CONCLUSÃO

A implementação das atividades proporcionou momentos significativos na prática docente, especialmente ao confrontar as diversas dificuldades relacionadas ao processo de ler, escrever e interpretar textos. A escola adotou uma postura inclusiva ao considerar a linguagem própria de cada estudante durante as práticas de letramento, valorizando os aspectos culturais e sociais intrínsecos às variações linguísticas presentes no contexto educacional. Essa valorização abarcou tanto as normas urbanas de prestígio quanto as variedades linguísticas locais, como as faladas nas periferias, reconhecendo que o indivíduo em desenvolvimento intelectual necessita dominar sua língua materna e as múltiplas variações que refletem a diversidade cultural de sua origem.

É importante destacar que diversas práticas de letramento transcendem o suporte digital, circulando em múltiplos formatos de textos multimodais, entre os quais as Histórias em Quadrinhos se inserem plenamente, dada sua presença em diferentes esferas sociais. Os gêneros textuais utilizados como suporte no processo pedagógico relacionaram-se às práticas de letramento de forma ampla, incluindo não apenas os meios digitais, mas também os suportes tradicionais, como a oralidade em voz viva, revistas e jornais. Isso porque a linguagem, enquanto meio de comunicação complexo e multifacetado, apresenta uma multiplicidade de sentidos, muitas vezes polissêmicos, o que amplia as possibilidades de construção de significado nos diferentes gêneros e suportes em circulação, enriquecendo assim as produções das HQs.

Cada gênero de apoio para a elaboração das HQs foi objeto de estudo aprofundado, contemplando análise, compreensão, interpretação, produção e reescrita, respeitando suas características específicas. Dessa forma, os letramentos e multiletramentos manifestam-se como elementos evidentes nas variadas esferas sociais e culturais, uma vez que os textos ultrapassam a dimensão estritamente escrita para incorporar imagens e recursos das mídias digitais, o que favorece o avanço dos processos de leitura e escrita.

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1 Mestrando em Ciências da Educação – FICS, Licenciatura Plena em Letras, marcosgaia07@gmail.com
2 Doutora em Educação – UFRN, Pedagoga, jaquelinebastos321@gmail.com