INTRODUÇÃO ALIMENTAR E OBESIDADE INFANTIL: OS EFEITOS DO CONSUMO DE ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511121310


Vitória Campos Moura
Wellington Henrique de Abreu
Professora: Giovanna Nascimento Mello


RESUMO

A introdução alimentar é um período crítico para o desenvolvimento de hábitos alimentares saudáveis e a prevenção de doenças crônicas. O consumo precoce de alimentos ultraprocessados (AUP) é um fator de risco significativo para a obesidade infantil, devido à sua alta densidade energética, baixo valor nutricional e estímulo ao consumo excessivo. Esta revisão sistemática analisou os efeitos do consumo de AUP durante a introdução alimentar e sua relação com a obesidade infantil. A busca foi realizada nas bases SciELO, PubMed e BVS, entre 2015 e 2025, utilizando descritores relacionados à introdução alimentar, obesidade infantil e ultraprocessados. Após a aplicação dos critérios PICOS, exclusão de duplicatas e avaliação metodológica, foram incluídos nove estudos. Os resultados demonstram uma elevada prevalência de práticas alimentares inadequadas, como a introdução precoce de ultraprocessados e baixa adesão ao aleitamento materno exclusivo. Fatores socioeconômicos, como escolaridade e renda materna, também influenciam essas práticas. A introdução precoce de AUP está associada a um maior risco de sobrepeso e obesidade na infância. Conclui-se que intervenções educativas e políticas públicas focadas na promoção de uma alimentação saudável são essenciais para reduzir o consumo de ultraprocessados nos primeiros anos de vida.

Palavras-chave:  Introdução Alimentar. Obesidade Infantil. Alimentação Complementar. Alimentos Ultraprocessados. Fatores Socioeconômicos.

ABSTRACT

The introduction of solid foods is a critical period for the development of healthy eating habits and the prevention of chronic diseases. Early consumption of ultraprocessed foods (UPF) is a significant risk factor for childhood obesity due to its high energy density, low nutritional value, and encouragement of overconsumption. This systematic review analyzed the effects of UPF consumption during the introduction of solid foods and its relationship with childhood obesity. The search was conducted in the SciELO, PubMed, and BVS databases between 2015 and 2025, using descriptors related to solid food introduction, childhood obesity, and ultra-processed foods. After applying the PICOS criteria, excluding duplicates, and methodological evaluation, nine studies were included. The results demonstrate a high prevalence of inadequate dietary practices, such as the early introduction of ultra-processed foods and low adherence to exclusive breastfeeding. Socioeconomic factors, such as maternal education and income, also influence these practices. Early introduction of UPF is associated with a higher risk of overweight and obesity in childhood. It is concluded that educational interventions and public policies focused on promoting healthy eating are essential to reduce the consumption of ultra-processed foods in the first years of life.

Keywords: Introduction to solid foods. Childhood obesity. Complementary feeding. Ultra-processed foods. Socioeconomic factors.

 1.   INTRODUÇÃO

A obesidade infantil é uma das principais preocupações de saúde pública no mundo contemporâneo, afetando milhões de crianças em diferentes contextos sociais e econômicos. Diversas complicações metabólicas, cardiovasculares e emocionais estão associadas ao excesso de peso na infância, e muitos desses fatores podem ter origem ainda nos primeiros anos de vida, especialmente durante o período da introdução alimentar. Essa fase, considerada fundamental para o desenvolvimento de hábitos alimentares saudáveis, pode ser determinante na prevenção ou no desencadeamento da obesidade. Em crianças, seu diagnóstico considera parâmetros como o índice de massa corporal (IMC) para idade e sexo, segundo curvas de crescimento padronizadas. Quando o IMC ultrapassa o percentil 97, a criança é considerada obesa (OMS, 2023).

A introdução alimentar representa um momento determinante na formação dos hábitos alimentares, na aceitação de novos sabores e texturas, e na construção da relação da criança com o alimento. Segundo recomendações da OMS e do Ministério da Saúde, a introdução de alimentos complementares deve ocorrer a partir dos seis meses de idade, de forma gradual e respeitosa, mantendo o aleitamento materno até pelo menos dois anos de idade. Esta prática favorece o desenvolvimento do sistema imunológico, neurológico e motor da criança, além de ser fundamental na prevenção da obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis (Santos Camila, et al, 2020).

Para que a introdução alimentar ocorra de maneira segura e adequada, é importante observar os sinais de prontidão da criança, como a capacidade de manter-se sentada com apoio, demonstrar interesse pelos alimentos e conseguir levar objetos à boca. Esses sinais geralmente aparecem por volta dos seis meses de idade e são essenciais para garantir uma alimentação eficaz e sem riscos de engasgo ou recusa alimentar, conforme o Guia alimentar da Criança menor de 2 anos. O respeito a esses sinais contribui para uma experiência alimentar positiva, reduzindo conflitos durante as refeições e promovendo maior aceitação alimentar (De Lima, et al, 2021).

Entre as técnicas recomendadas para a introdução alimentar estão o método tradicional com colher, a alimentação responsiva e o método Baby Led Weaning (BLW). A técnica responsiva consiste em oferecer o alimento respeitando os sinais de fome e saciedade da criança, promovendo sua autonomia e desenvolvendo a autorregulação da ingestão. Já o BLW incentiva que o bebê se alimente sozinho, com as mãos, oferecendo os alimentos em pedaços próprios para sua idade. Ambas as abordagens enfatizam o papel do cuidador como facilitador do processo, evitando distrações como telas e incentivando a refeição em família (Freire, et al, 2023).

 A obesidade infantil está associada a um aumento no risco de doenças metabólicas como diabetes tipo 2, dislipidemias, hipertensão arterial, além de comprometimentos psicossociais, como baixa autoestima e estigmatização social. A presença precoce dessas condições tem forte correlação com a manutenção da obesidade na vida adulta e aumento da morbimortalidade. A literatura aponta que práticas inadequadas, como o desmame precoce e a oferta frequente de alimentos ultraprocessados, os quais são ricos em açúcares, gorduras saturadas e sódio, e pobres em fibras, vitaminas e minerais (Souza et al., 2021). 

Nos últimos anos, o estilo de vida da população e seu comportamento alimentar sofreram transformações, alimentos in natura ou minimamente processados foram substituídos por alimentos processados e ultraprocessados (AUP), introduzidos cada vez mais precocemente na alimentação infantil1,2. Tal cenário contribui para o desequilíbrio na oferta de nutrientes e para o alto consumo de alimentos calóricos, favorecendo o desenvolvimento da obesidade que, na população infantil, está relacionada com o desmame precoce e com a introdução de alimentos não saudáveis na alimentação complementar (Monteiro, et al, 2010) 

Os alimentos ultraprocessados são produtos que sofrem diversas etapas e técnicas de processamento e recebem aditivos como edulcorantes, corantes, aromatizantes e realçadores de sabor, utilizados para deixar os produtos mais atraentes e com maior durabilidade nas prateleiras. Esses produtos são nutricionalmente desequilibrados, pois possuem alta densidade energética, alta densidade de gordura, alto teor de açúcar e sódio e pouco teor de fibras e proteínas4, e devem ser evitados antes dos dois anos de vida, uma vez que o consumo excessivo desses alimentos está associado à anemia, ao excesso de peso e a alergias alimentares5, além de ter efeitos a longo prazo na saúde das crianças, predispondo-os ao desenvolvimento de doenças crônicas na vida adulta (Giesta JM, et al, 2019).

A introdução precoce e frequente desses alimentos tem sido associada ao maior risco de obesidade infantil, uma vez que eles promovem maior densidade calórica e baixa saciedade, além de estimularem o paladar para sabores intensos, prejudicando a aceitação de alimentos naturais. Esse padrão alimentar, muitas vezes influenciado pela mídia, pela praticidade e pelo custo acessível estão relacionadas ao maior risco de ganho de peso excessivo em crianças. Por outro lado, estratégias como o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e a introdução de alimentos in natura e minimamente processados, conforme as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, são protetoras contra a obesidade, é um desafio importante para a promoção de hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida. (OMS, 2023).

No Brasil, o cenário é de bastante alerta: a prevalência de excesso de peso em crianças menores de cinco anos é de 14,2%, quase o triplo da média mundial (OMS, 2023). Fatores socioeconômicos, como renda familiar, nível de escolaridade dos pais e acesso a serviços de saúde, exercem forte influência sobre as práticas alimentares adotadas na infância. Famílias em situação de vulnerabilidade podem apresentar maior dificuldade em oferecer uma alimentação adequada, optando por produtos industrializados em detrimento de alimentos in natura. Além disso, a falta de informação nutricional adequada, somada à cultura alimentar vigente, pode reforçar práticas prejudiciais à saúde infantil, perpetuando o ciclo de obesidade e suas consequências, 

Diante desse cenário, torna-se essencial compreender a introdução alimentar como uma estratégia de prevenção da obesidade infantil, considerando os múltiplos fatores que a influenciam. Investigar a qualidade dos alimentos oferecidos, a frequência de consumo de ultraprocessados, o papel dos cuidadores e o contexto socioeconômico são aspectos fundamentais para o desenvolvimento de intervenções eficazes por meio de uma revisão bibliográfica narrativa, o trabalho busca compreender a relação entre a qualidade dos alimentos oferecidos, os fatores socioeconômicos envolvidos e os impactos dessas práticas na saúde infantil a longo prazo. A partir dessa análise, espera-se contribuir com subsídios para a formulação de ações educativas, políticas públicas e práticas profissionais voltadas à promoção da saúde infantil.

2.   FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A introdução alimentar representa um marco fundamental no desenvolvimento infantil, pois corresponde ao período em que alimentos passam a complementar o aleitamento materno. A Organização Mundial da Saúde recomenda que a alimentação complementar seja iniciada apenas aos seis meses de idade, mantendo-se o aleitamento materno até dois anos ou mais (WHO, 2021). Esse processo exerce grande influência na formação dos hábitos alimentares e no estado nutricional da criança, podendo prevenir ou favorecer o desenvolvimento de doenças crônicas ao longo da vida.

A obesidade infantil, por sua vez, constitui um grave problema de saúde pública global e vem aumentando de forma expressiva nas últimas décadas. Evidências indicam que crianças com excesso de peso apresentam maior risco de desenvolver obesidade na adolescência e vida adulta, além de maior probabilidade de desenvolver comorbidades metabólicas precocemente (FERREIRA et al., 2021). Esse cenário reforça a importância de investigar fatores determinantes como padrões alimentares estabelecidos nos primeiros anos de vida.

Entre esses fatores, destaca-se o consumo de alimentos ultraprocessados, amplamente reconhecidos por sua composição nutricional inadequada, com excesso de açúcares, gorduras e sódio, e baixo teor de fibras, vitaminas e minerais. Monteiro et al. (2019), ao apresentarem a classificação NOVA, demonstram que tais produtos estão associados ao aumento do risco de obesidade devido à alta densidade energética e ao seu potencial de substituição de alimentos saudáveis. No contexto infantil, diversos estudos brasileiros apontam que a introdução precoce de ultraprocessados eleva significativamente o risco de excesso de peso, especialmente em menores de 24 meses (SCHNEIDER et al., 2020).

Além dos aspectos alimentares, os fatores socioeconômicos exercem forte influência sobre a introdução alimentar e o risco de obesidade infantil. A literatura evidencia que famílias de menor renda e escolaridade possuem maiores dificuldades de acesso a alimentos saudáveis, além de serem mais impactadas pela publicidade e disponibilidade de ultraprocessados (COSTA et al., 2021). Tais condições estruturais influenciam diretamente a qualidade da alimentação complementar oferecida, podendo contribuir para padrões alimentares inadequados desde os primeiros anos de vida.

Assim, observa-se que a introdução alimentar adequada e a redução do consumo de ultraprocessados são estratégias essenciais para prevenir a obesidade infantil. Compreender o impacto dos fatores socioeconômicos, das práticas familiares e da qualidade dos alimentos oferecidos permite o desenvolvimento de intervenções educativas e políticas públicas mais efetivas, promovendo hábitos alimentares saudáveis desde a infância.

3.   JUSTIFICATIVA

A obesidade infantil é um dos principais desafios de saúde pública mundial, associada a diversas complicações metabólicas, cardiovasculares e psicológicas ao longo da vida. A introdução alimentar, etapa fundamental no desenvolvimento nutricional da criança, desempenha um papel essencial na formação de hábitos alimentares e pode influenciar diretamente a prevenção da obesidade. A introdução precoce ou inadequada de alimentos ultraprocessados, assim como o desmame precoce, está relacionada a um maior risco de obesidade infantil. A Organização Mundial da Saúde recomenda que a introdução de alimentos complementares ocorra a partir dos seis meses de idade, mantendo o aleitamento materno exclusivo até esse período, pois essa prática reduz significativamente o risco de obesidade infantil. No Brasil, a prevalência de excesso de peso em crianças menores de cinco anos é de 14,2%, quase três vezes a média mundial, evidenciando a necessidade de estratégias eficazes de prevenção. Essas estatísticas ressaltam a urgência de intervenções que promovam uma alimentação saudável desde os primeiros anos de vida, visando não apenas a saúde imediata das crianças, mas também a prevenção de problemas de saúde a longo prazo.

4.   OBJETIVO

4.1  Objetivo Geral: Identificar o impacto do consumo de ultraprocessados na introdução alimentar e o desenvolvimento da obesidade infantil. 

4.2  Objetivos específicos:

  •       Análise da qualidade dos alimentos oferecidos, compreendendo a variedade, a qualidade nutricional e a quantidade de alimentos ultraprocessados mais consumidas por menores de 2 anos. 
  •       Identificar a influência dos fatores socioeconômicos (como renda, educação, emprego, saúde e acesso a serviços básicos), impactando nas escolhas alimentares e como pode relacionar aos riscos de obesidade infantil. 
  •       Avaliar o impacto da introdução alimentar na saúde a longo prazo, investigando a relação entre práticas de introdução alimentar e o desenvolvimento de condições de saúde, como obesidade.

5.   METODOLOGIA

Este trabalho trata-se de uma revisão bibliográfica Sistemática, cuja finalidade foi analisar como a introdução alimentar pode ser utilizada como estratégia de prevenção da obesidade infantil. A revisão Sistemática permitiu reunir as mais diversas evidências empíricas que se enquadrem nos critérios pré-definidos, por meio de métodos explícitos e sistemáticos selecionados de forma cuidadosa garantindo resultados mais confiáveis, dessa forma, podemos tirar conclusões mais precisas e tomar decisões melhores. com foco reflexivo, amplo e integrativo (Donato, Et al, 2019).

A pesquisa foi conduzida por meio da seleção e leitura crítica de artigos científicos e documentos técnicos publicados entre os anos de 2015 e 2025, que abordem os seguintes eixos temáticos: Qualidade, variedade e frequência do consumo alimentar na introdução alimentar; impacto dos alimentos ultraprocessados na infância; Relação entre fatores socioeconômicos e práticas alimentares; Influência da introdução alimentar na saúde e no risco de obesidade a longo prazo. As fontes de dados foram obtidas nas bases eletrônicas SciELO, PubMed e Bvs, sendo excluídos os artigos que não apresentem dados empíricos; Estudos que não estejam disponíveis em texto completo; Pesquisas que não abordem os eixos temáticos definidos; Revisões bibliográficas. utilizando os seguintes descritores e palavras-chave: introdução alimentar, obesidade infantil, alimentação complementar, alimentos ultraprocessados, fatores socioeconômicos. Após a seleção dos artigos, foi realizada uma leitura crítica de cada estudo. A análise incluiu: Avaliação da metodologia utilizada nos estudos; Identificação dos resultados e discussões apresentadas; Consideração das implicações dos achados para a prática clínica e políticas de saúde pública.

6.   RESULTADOS

Ao ser aplicado às estratégias de pesquisa, identificou-se 656 arquivos (Scielo = 179) (Bvs= 82) e (pubmed= 20). Desses foram lidos os títulos e resumos, filtrando e escolhendo 46 arquivos com potencialidade para uma leitura completa. 

A Tabela a seguir apresenta os 9 arquivos validados sendo estes em sua maioria corte transversal. Publicados a partir de 2015. Em relação a análise qualitativa dos artigos selecionados, todos aqui descritos apresentam qualidade metodológica aceitáveis dentro dos padrões possíveis de replicação e reprodução. 

Tabela 1 – SÍNTESE DOS ESTUDOS INCLUÍDOS:

Citação(Autor/Ano)Título do artigoTipo de estudoPrincipais resultadosConclusões
Giesta et al. (2019)Fatores associados à introdução precoce de alimentos ultraprocessados na alimentação de crianças menores de dois anos. Estudo transversalPráticas alimentares inadequadas nos primeiros dois anos, com baixa prevalência de aleitamento materno exclusivo e alta introdução precoce de ultraprocessados.As práticas alimentares estão inadequadas em relação às recomendações da OMS e do MS.
Melo et al. (2021)Aspectos influenciadores da introdução alimentar infantil.Pesquisa transversal quantitativaAleitamento materno exclusivo até 6 meses: 31,8%. Introdução alimentar oportuna: 45%. Correlação entre escolaridade, renda e conhecimento sobre alimentação complementar.O nível de instrução e a renda familiar influenciam o conhecimento dos pais e o tempo de introdução alimentar.
Soares et al. (2022Características maternas e infantis correlacionadas à frequência do consumo de alimentos ultraprocessados por crianças de 6 a 24 meses.Estudo transversalSemelhança no consumo de ultraprocessados entre mães e filhos; associação com aumento dos índices P/I e IMC/I.O consumo infantil reflete o padrão materno e está relacionado a maiores índices de peso/idade e IMC/idade.
Lucena et al. (2022)Marcadores do consumo de alimentos ultraprocessados em crianças de 06 a 23 meses no Brasil (20152018).Estudo ecológico descritivoMais da metade das crianças consumiu ultraprocessados no dia anterior, com risco de obesidade e deficiência de micronutrientes. Mostra a inserção precoce e generalizada de ultraprocessados na alimentação infantil brasileira.
Dallazen et. al (2018)Introdução inadequada de alimentação complementar no primeiro ano de vida e fatores associados em crianças de baixa condição socioeconômica.Estudo multicêntrico transversalElevada prevalência de introdução de alimentos não recomendados, associada à baixa escolaridade e renda.Fatores socioeconômicos desfavoráveis aumentam o risco de práticas alimentares inadequadas.
Doub et al. (2015)Preditores maternos e infantis nas decisões alimentares na primeira infância.Estudo exploratórioMães mais jovens e com menor escolaridade introduzem alimentos sólidos precocemente.A idade e a escolaridade materna influenciam o momento da introdução alimentar.
Moore et al. (2023)Decisões dos cuidadores sobre alimentação e características sociodemográficas associadas ao consumo de lanches infantis.Análise secundária transversalIngestão de lanches associada às decisões e características familiares.Reforça o papel dos cuidadores nas escolhas alimentares infantis.
Taylor et al. (2017)Efeito de uma abordagem de alimentação complementar guiada pelo bebê no crescimento e sobrepeso infantil.Ensaio clínico randomizadoAbordagem guiada pelo bebê não reduziu peso, mas favoreceu atitudes positivas em relação à comida.Não melhora o controle de peso, mas reduz a seletividade alimentar.
Rocha et al. (2020)Fatores ambientais, socioeconômicos e maternos associados ao sobrepeso e à obesidade infantil no Ceará.Estudo transversal de base populacionalObesidade materna
e hipertensão
associadas à
obesidade infantil.
A obesidade
materna é um
fator de risco
para a obesidade
infantil.

7. DISCUSSÃO

O presente estudo teve como objetivo identificar o impacto do consumo de alimentos ultraprocessados na introdução alimentar e o desenvolvimento da obesidade infantil. Os resultados obtidos revelam um panorama preocupante, onde a introdução precoce de alimentos ultraprocessados é comum entre crianças menores de dois anos, corroborando achados de estudos anteriores.

Os dados de Giesta et al. (2019) destacam que a introdução precoce de alimentos ultraprocessados está associada a práticas alimentares prejudiciais, com baixa prevalência de aleitamento materno exclusivo. Essa preocupação é reforçada pelos achados de Melo et al. (2021), que identificaram uma correlação significativa entre a escolaridade dos pais e a introdução alimentar, sugerindo que a educação parental é um fator crítico na formação de hábitos alimentares saudáveis. A baixa escolaridade materna, conforme observado em diversos estudos, pode levar à falta de conhecimento sobre as recomendações de alimentação infantil, resultando em escolhas inadequadas.

Além disso, Soares et al. (2022) relataram que o consumo de ultraprocessados está ligado ao aumento dos índices de sobrepeso e obesidade infantil. Nossos achados corroboram essa conexão, evidenciando que a alta prevalência de alimentos ultraprocessados na alimentação infantil pode contribuir para problemas de saúde a longo prazo. Essa relação é preocupante, visto que a infância é um período crítico para o desenvolvimento de hábitos alimentares que perduram pela vida.

As implicações práticas dos resultados são significativas. É fundamental que profissionais de saúde implementem programas de educação alimentar que abordem não apenas a introdução de alimentos, mas também enfatizem a importância do aleitamento materno e da alimentação saudável. A validação da cartilha educativa mencionada por Dallazen et al. (2018) reforça a necessidade de materiais informativos que sejam acessíveis e relevantes para os cuidadores, promovendo uma maior conscientização sobre a alimentação adequada.

Entretanto, é importante reconhecer as limitações deste estudo. A amostra restrita pode não refletir a diversidade socioeconômica da população em geral, limitando a generalização dos achados. Futuros estudos devem considerar amostras mais amplas e variadas, bem como investigar a eficácia de intervenções educativas direcionadas a diferentes grupos socioeconômicos, visando entender melhor como as variáveis sociais influenciam as escolhas alimentares.

Em suma, os dados deste estudo destacam a urgência de intervenções que promovam práticas alimentares saudáveis desde os primeiros anos de vida, visando a prevenção de doenças crônicas na infância. A educação alimentar deve ser uma prioridade nas políticas de saúde pública, a fim de garantir que todas as crianças tenham acesso a informações e recursos que favoreçam uma alimentação adequada e saudável.

8. CONCLUSÃO

A revisão sistemática realizada teve como foco a análise das evidências relacionadas à introdução de alimentos ultraprocessados na alimentação infantil e suas consequências para a saúde. Os achados demonstram que a introdução precoce desses alimentos é uma prática amplamente observada, intimamente ligada ao aumento do risco de obesidade infantil e associada a hábitos alimentares prejudiciais.

Os resultados desta revisão ressaltam a importância de intervenções educativas direcionadas a pais e cuidadores, que devem ser implementadas para melhorar a compreensão sobre alimentação saudável e a relevância do aleitamento materno. É crucial que os profissionais de saúde e educadores colaborem para desenvolver programas que abordem a introdução de alimentos de maneira clara e acessível, promovendo escolhas alimentares adequadas desde os primeiros anos de vida.

Embora a revisão tenha identificado algumas limitações, como a heterogeneidade nos métodos dos estudos analisados e o risco de viés de publicação, ela destaca a necessidade de um enfoque cauteloso em relação à introdução de alimentos ultraprocessados. Pesquisas futuras devem investigar intervenções específicas e seus impactos a longo prazo na saúde infantil, com o objetivo de aprimorar o conhecimento sobre alimentação saudável.

Em síntese, a promoção de hábitos alimentares saudáveis desde a infância é essencial para garantir que as crianças tenham acesso a uma nutrição adequada, contribuindo para seu desenvolvimento e bem-estar ao longo da vida. A implementação de ações efetivas e coordenadas é fundamental para enfrentar os desafios relacionados à alimentação na infância, assegurando um futuro mais saudável para as próximas gerações.

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