INFLUÊNCIA DO FENÓTIPO GENGIVAL NA RETRAÇÃO GENGIVAL: REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511121332


Polyana Augusta Silva Soares1
Isabel Cristina Santos da Silva2
Mariana Sales de Melo Soares3
Orientador: Prof. Matheus Santos Mafra Barbosa4


RESUMO

Este trabalho teve como objetivo revisar a literatura sobre a relação entre o fenótipo gengival e o desenvolvimento da retração gengival. Para sua elaboração, foram selecionados artigos relevantes ao tema, identificados por meios de publicações, em meios eletrônicos, nas bases de dados das plataformas PubMed, Google Acadêmico, Web Of Science e Lilacs, utilizando-se das palavras-chave: fenótipo, biótipo, retração gengival, periodontia. A seleção contemplou estudos publicados em português e inglês, escolhidos com base em critérios de relevância científica e adequação ao tema proposto, possibilitando uma análise criteriosa e fundamentada das evidências disponíveis na literatura. Os artigos revisados demonstraram que o fenótipo gengival, caracterizado pela espessura do tecido gengival e pela largura da gengiva queratinizada, exerce influência nas condições periodontais e nas respostas do tecido a intervenções odontológicas. As retrações gengivais podem ser influenciadas por diversos fatores, sendo o fenótipo gengival um dos determinantes mais relevantes. Pacientes com fenótipo gengival fino apresentam maior vulnerabilidade a retrações, enquanto os com fenótipo espesso possuem maior resistência a traumas e procedimentos cirúrgicos. Conclui-se que os estudos analisados demonstraram que as características fenotípicas podem auxiliar no planejamento de tratamentos preventivos e terapêuticos.

Palavras-chave: Fenótipo, Biotipo, Retração gengival, Periodontia.

ABSTRACT

This study aimed to review the literature on the relationship between gingival phenotype and the development of gingival recession. For its elaboration, relevant articles on the topic were selected, identified through publications in electronic media, in the databases of the PubMed, Google Scholar, Web of Science, and Lilacs platforms, using the keywords: phenotype, biotype, gingival recession, periodontics. The selection included studies published in Portuguese and English, chosen based on criteria of scientific relevance and suitability to the proposed theme, allowing for a thorough and well-founded analysis of the evidence available in the literature. The reviewed articles demonstrated that the gingival phenotype, characterized by the thickness of the gingival tissue and the width of the keratinized gingiva, influences periodontal conditions and tissue responses to dental interventions. Gingival recessions can be influenced by several factors, with the gingival phenotype being one of the most relevant determinants. Patients with a thin gingival phenotype are more vulnerable to recession, while those with a thick phenotype have greater resistance to trauma and surgical procedures. It is concluded that the studies analyzed demonstrated that phenotypic characteristics can assist in the planning of preventive and therapeutic treatments.

Keywords: Phenotype, Biotype, Gingival recession, Periodontics

INTRODUÇÃO

A retração gengival é uma alteração caracterizada pelo deslocamento apical da margem gengival em direção à junção cemento-esmalte, promovendo a exposição radicular. Essa condição clínica pode gerar hipersensibilidade dentinária, acúmulo de biofilme, maior suscetibilidade a inflamações e comprometimento estético, principalmente em dentes anteriores. Cortellini e Bissada (2018) ressaltam que “traumas mecânicos, margens restauradoras profundas, movimentação ortodôntica e doença periodontal crônica estão entre os principais fatores associados ao desenvolvimento das recessões gengivais, o que reforça seu caráter multifatorial”.

O fenótipo gengival, por sua vez, refere-se ao conjunto de características anatômicas que incluem a espessura dos tecidos gengivais, a largura da mucosa ceratinizada e o morfotipo ósseo subjacente. Essa classificação auxilia na compreensão da resposta periodontal frente a estímulos externos e procedimentos clínicos. Para Kim e colaboradores (2020), indivíduos com fenótipo gengival mais fino apresentam maior vulnerabilidade frente a fatores locais e sistêmicos, o que pode influenciar tanto a estabilidade periodontal quanto o resultado estético dos tratamentos.

A relação entre fenótipo gengival e retração gengival tem recebido crescente atenção na literatura. Evidências apontam que o fenótipo fino constitui um importante fator de risco para a perda tecidual e para a ocorrência de recessões, mesmo em pacientes com adequada higiene oral (KIM, BASSIR E NGUYEN, 2020). Nesse sentido, a influência do fenótipo gengival é considerada, na periodontia contemporânea, de grande relevância clínica e estética, pois exerce impacto direto na manutenção da saúde periodontal e na preservação da harmonia do sorriso. Cortellini e Bissada (2018) reforçam que a retração gengival deve ser compreendida como uma condição multifatorial, em que o fenótipo gengival se destaca como um dos principais determinantes de risco. Essa relevância também está associada à evolução das classificações periodontais. Fischer et al. (2021) destacam que a avaliação adequada dessa característica é indispensável para a conduta clínica, sobretudo em procedimentos de recobrimento radicular e em reabilitações estéticas. Essa perspectiva é reforçada por Prato et al. (2022), ao afirmarem que a padronização diagnóstica amplia a previsibilidade terapêutica, sobretudo em procedimentos estéticos, evidenciando a contribuição da Classificação Mundial de 2017 da Academia Americana de Periodontia na integração do fenótipo gengival ao diagnóstico e ao prognóstico periodontal.

Dessa forma, compreender o papel do fenótipo gengival na retração gengival justifica-se tanto pela sua importância científica, ao permitir diagnósticos mais precisos e terapias individualizadas, quanto pelo impacto social, uma vez que influencia diretamente a estética do sorriso e a qualidade de vida dos pacientes. O entendimento dessas diferenças possibilita ao cirurgião-dentista selecionar abordagens seguras e eficazes, respeitando as particularidades de cada caso e promovendo resultados clínicos e estéticos mais previsíveis e duradouros.

OBJETIVO

Realizar uma revisão de literatura para análise da influência do fenótipo gengival no desenvolvimento de retração gengival. Além disso, avaliar as complicações clínicas no manejo periodontal, destacando de que forma as características do tecido gengival, particularmente a espessura, impactam no desenvolvimento e na progressão dessa condição.  

METODOLOGIA

A pesquisa foi realizada por meio de uma revisão de literatura baseada em artigos publicados nas bases de dados das plataformas PubMed, Google Acadêmico, Web Of Science e Lilacs, utilizando os descritores: fenótipo, biótipo, retração gengival, periodontia. Foram incluídos estudos que abordassem a relação entre o fenótipo gengival e as retrações gengivais, publicados nos idiomas português e inglês. A seleção dos trabalhos seguiu critérios de relevância e adequação ao tema proposto, permitindo uma análise criteriosa e fundamentada das evidências científicas disponíveis, de modo a oferecer uma visão abrangente sobre o assunto.

REVISÃO DE LITERATURA

Retração gengival

A retração gengival é considerada uma das alterações periodontais mais comuns, despertando interesse tanto por seus impactos funcionais quanto estéticos. Do ponto de vista clínico, caracteriza-se pelo deslocamento apical da margem gengival em relação à junção cemento-esmalte, o que resulta na exposição da superfície radicular. Essa condição pode ocasionar hipersensibilidade dentinária, acúmulo de biofilme, inflamação gengival, além de comprometer a estética, principalmente em dentes anteriores. Também pode estar associada a lesões cervicais cariosas e não cariosas, afetando tanto a função quanto a aparência do sorriso (Cortellini; Bissada, 2018).

A etiologia da retração gengival é multifatorial, envolvendo fatores extrínsecos e intrínsecos. Entre os fatores extrínsecos, destacam-se a escovação traumática, a higiene oral inadequada, o tratamento ortodôntico e restaurações cervicais mal adaptadas. Já entre os fatores intrínsecos, incluem-se a predisposição genética e as características do fenótipo periodontal. Para Cortellini e Bissada (2018, p. S206), indivíduos com fenótipo periodontal fino apresentam maior suscetibilidade à retração gengival, especialmente quando expostos a fatores mecânicos e inflamatórios. Nesse sentido, o fenótipo gengival exerce papel determinante na ocorrência e progressão dessa condição.

A classificação das retrações gengivais constitui etapa fundamental para um diagnóstico preciso, definição do prognóstico e elaboração de planos de tratamento eficazes, especialmente nos procedimentos de recobrimento radicular. Desde a proposta clássica de Miller (1985), amplamente utilizada na prática clínica por décadas, diversas classificações foram desenvolvidas com o objetivo de torná-las mais completas e reprodutíveis. Miller (1985) descreve sua classificação em quatro classes: Classe I: recessão do tecido marginal que não se estende até a junção mucogengival. Não há perda periodontal na área interdental; Classe II: a recessão do tecido marginal estende-se até ou além da junção mucogengival. Não há perda periodontal na área interdental; Classe III: a recessão do tecido marginal estende-se até ou além da junção mucogengival. Há perda óssea ou de tecido mole na área interdental ou mal posicionamento dentário; Classe IV: a recessão do tecido marginal estende-se além da junção mucogengival. Há perda óssea ou de tecido mole severa na área interdental e/ou mal posicionamento dentário acentuado.

Mais recentemente, Cairo et al. (2011) propuseram um sistema atualizado que considera a inserção interproximal, classificando as recessões em três tipos: Tipo 1 (RT1): recessão gengival sem perda de inserção interproximal; Tipo 2 (RT2): recessão gengival associada à perda de inserção interproximal, cuja quantidade é menor ou igual à perda de inserção na face vestibular; Tipo 3 (RT3): recessão gengival associada à perda de inserção interproximal maior do que a perda de inserção na face vestibular.

A nova classificação das doenças e condições periodontais e peri-implantares, proposta em 2018 pela Academia Americana de Periodontia e Federação Europeia de Periodontia, representou um avanço significativo ao integrar novos parâmetros diagnósticos, como profundidade da recessão, espessura gengival, largura da mucosa ceratinizada e características da superfície radicular. Essa abordagem ampliada permite considerar o fenótipo gengival como fator determinante tanto no diagnóstico quanto no prognóstico periodontal (PRATO et al., 2022).

Fenótipo gengival

Durante muito tempo, utilizou-se a expressão “biótipo periodontal” para descrever o perfil dos tecidos gengivais. No entanto, a nova classificação das doenças e condições periodontais e peri-implantares passou a adotar o termo “fenótipo periodontal”, ampliando o conceito ao considerar não apenas os tecidos moles, mas também o morfotipo ósseo subjacente. Nesse sentido Kim et al. (2019, p. 312) ressalta que o fenótipo periodontal deve ser compreendido sob a forma de variável dinâmica e multifatorial, influenciada por fatores genéticos, ambientais e procedimentos clínicos, podendo sofrer modificações ao longo da vida. 

No que se refere à classificação, o fenótipo gengival costuma ser dividido em dois grupos principais: o fenótipo fino, caracterizado por menor volume tecidual e maior suscetibilidade à retração gengival; e o fenótipo espesso, associado a maior resistência frente a processos inflamatórios, traumas mecânicos e procedimentos cirúrgicos. Mais recentemente, tem sido proposta uma classificação em três categorias: fino, moderado e espesso, baseada em limiares de espessura tecidual, o que proporciona maior detalhamento clínico e auxilia na seleção de intervenções mais adequadas (BORGES et al., 2019, p. 58; FISCHER et al., 2021, p. 845).

A avaliação clínica também apresenta diferentes possibilidades metodológicas. O teste de transparência da sonda periodontal continua sendo amplamente utilizado por sua simplicidade, baixo custo e boa reprodutibilidade. Contudo, novas propostas vêm sendo incorporadas. A esse respeito, Prato et al. (2022, p. 114) destacam que a Classificação de 2018 dos Defeitos de Recessão Gengival e Fenótipo Gengival introduziu parâmetros complementares, entre eles a profundidade da recessão, largura da mucosa ceratinizada e características da superfície radicular, favorecendo a padronização diagnóstica e aumentando a consistência entre diferentes examinadores.

Relação entre fenótipo gengival e a retração gengival

Estudos prévios exploraram a relação entre fenótipo gengival e recessão gengival. Nos últimos anos, houve aumento na produção de literatura sobre a influência do fenótipo gengival na ocorrência de recessão. 

Sob essa ótica, é relevante o trabalho de Nasser e Souza (2012) que realizaram um estudo observacional clínico, com o objetivo de relacionar características mucogengivais com a ocorrência de recessão gengival em estudantes do curso de Odontologia da Faculdade de Pindamonhangaba. no qual foram examinados 50 indivíduos com idades entre 21 e 47 anos, sem histórico prévio de doença periodontal ativa. A metodologia incluiu avaliação clínica de parâmetros mucogengivais, como espessura gengival, presença de transparência à sondagem, morfologia periodontal e ocorrência de recessão gengival. A análise foi descritiva, com categorização dos indivíduos segundo o tipo de biótipo gengival e gênero. Os resultados mostraram predominância do periodonto plano e espesso (54%) na amostra geral e no gênero feminino, enquanto no gênero masculino prevaleceu o biótipo fino e festonado. Observou-se maior frequência de gengiva sem transparência (58%) nas mulheres e gengiva translúcida nos homens. A ocorrência de recessão foi mais frequente em indivíduos com biótipo gengival fino, demonstrando relação entre espessura gengival e predisposição à recessão.

Nessa linha de raciocínio, Maroso et al. (2015) conduziram uma investigação para verificar a correlação entre espessura do tecido gengival e ocorrência de recessão gengival em humanos. Tratou-se de uma investigação observacional, transversal, realizada com 55 indivíduos de ambos os sexos, com idades entre 18 e 35 anos, atendidos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As medições de espessura e recessão gengival foram realizadas nas faces vestibulares de incisivos, caninos e pré-molares, sob anestesia local, de acordo com critérios de inclusão e exclusão previamente definidos. Os achados indicaram correlação negativa fraca entre espessura gengival e recessão gengival (r = -0,216; p = 0,025), sugerindo que tecidos gengivais mais delgados estão mais frequentemente associados à presença de recessão. A prevalência de recessão aumentou com a idade, sendo os fatores etiológicos mais citados escovação traumática, periodontite e tratamento ortodôntico prévio.

Aprofundando essa análise, Barbosa (2016) realizou um estudo observacional, transversal com 55 indivíduos, com idade entre 18 e 50 anos, que apresentavam todos os dentes superiores (16 a 26) em condições saudáveis. O objetivo foi avaliar a relação entre biótipo gengival e presença de recessão gengival em pacientes com saúde periodontal. Foram excluídos participantes com histórico de tratamento ortodôntico, tabagismo, gravidez ou lactação, diabetes, sinais de doença periodontal, uso de medicações que afetassem o periodonto ou oclusão traumatogênica. A coleta de dados foi realizada por dois examinadores calibrados e incluiu anamnese, exame clínico periodontal, medição da mucosa ceratinizada, profundidade de sondagem, avaliação do biótipo gengival e presença de recessão, abrangendo dentes de 16 a 26. O biótipo periodontal foi classificado como fino ou espesso, com base na transparência à sondagem, enquanto a recessão gengival foi avaliada segundo parâmetros clínicos padronizados e classificação de Miller. A amostra apresentou predominância do biótipo fino (67%), seguido pelo espesso (33%). Os achados demonstraram que o biótipo fino esteve mais frequentemente associado à presença de recessão gengival (2,9%) em comparação ao biótipo espesso, sugerindo relação direta entre espessura gengival e susceptibilidade à recessão. O biótipo fino foi predominante em ambos os sexos, confirmando sua ampla distribuição na amostra analisada.

Sob outra perspectiva, Bissada e Cortellini (2018) elaboraram uma revisão narrativa intitulada Condições mucogengivais na dentição natural, publicada conjuntamente pela Academia Americana e Federação Europeia de Periodontologia. O objetivo foi revisar e sistematizar conceitos relacionados às condições mucogengivais e propor diretrizes diagnósticas atualizadas para identificação e manejo clínico. A metodologia consistiu em ampla pesquisa bibliográfica em bases diversas, abrangendo estudos publicados entre 1999 e 2016. Foram analisadas evidências sobre prevalência, fatores predisponentes, aspectos morfológicos e abordagens terapêuticas das condições mucogengivais, com ênfase na recessão gengival. Os resultados indicaram que biótipos finos apresentam maior risco de desenvolver recessão gengival. Além disso, fatores como higiene oral inadequada, tratamento ortodôntico e restaurações cervicais foram considerados agravantes. A revisão destacou a importância do monitoramento clínico contínuo e, em casos específicos, a indicação de intervenção cirúrgica para correção estética e funcional.

Nessa perspectiva, Alsalhi e Tabasum (2021) realizaram um estudo transversal para determinar a prevalência de recessão gengival e sua correlação com o fenótipo gengival em incisivos mandibulares de pacientes do sexo feminino submetidas a tratamento ortodôntico. A amostra incluiu 150 mulheres sauditas, divididas igualmente entre grupo tratado e grupo controle. Os parâmetros clínicos avaliados foram índice de placa, índice gengival, espessura gengival, largura do tecido queratinizado, comprimento e largura da recessão gengival. Os resultados mostraram que 41,33% das mulheres tratadas apresentaram pelo menos um incisivo com recessão gengival, comparado a 24% do grupo controle. Houve correlação positiva entre espessura gengival e largura do tecido queratinizado, bem como entre comprimento e largura da recessão gengival, e correlação negativa entre largura do tecido queratinizado e largura da recessão gengival, indicando que o tratamento ortodôntico constitui fator predisponente à recessão gengival, especialmente em indivíduos com faixa estreita de mucosa ceratinizada.

Em complemento a isso, Shenoy e Sarma (2022) realizaram uma análise transversal para avaliar associação entre espessura gengival e recessão gengival em pacientes sem periodontite. O estudo foi conduzido no Departamento de Periodontia da Universidade NITTE, Índia, com 80 indivíduos de ambos os sexos, com idades entre 18 e 35 anos. A espessura gengival foi avaliada nos dentes maxilares e mandibulares utilizando a técnica de transparência da sonda. Um questionário sobre hábitos de escovação também foi aplicado. Os resultados indicaram que o biótipo fino foi mais frequente (73,8%) nos locais com recessão, principalmente no arco maxilar e no sextante anterior. As superfícies vestibulares dos dentes posteriores apresentaram maior número de retrações. Apesar de não haver associação estatisticamente significativa entre espessura gengival e recessão, observou-se tendência de maior prevalência de recessão em biótipos finos.

Seguindo essa mesma direção, Koppolu et al. (2023) desenvolveram um estudo transversal com o objetivo de examinar a correlação entre espessura gengival e ocorrência de recessão gengival em pacientes saudáveis. A amostra incluiu 94 indivíduos, dos quais 40 apresentaram recessão gengival e foram incluídos na análise final. Os parâmetros clínicos avaliados foram comprimento da recessão, largura da recessão, espessura gengival e largura gengival queratinizada. Os dados mostraram correlação negativa significativa entre espessura gengival e comprimento gengival, indicando que gengivas mais finas apresentaram recessões mais extensas. Também foram observadas correlações positivas entre largura da recessão e comprimento da recessão, e entre espessura gengival e largura gengival queratinizada. O estudo concluiu que a espessura gengival é um determinante relevante para ocorrência e extensão da recessão gengival.

No mesmo sentido, Silva (2023) realizou uma pesquisa observacional analítica do tipo transversal que teve como objetivo principal avaliar a existência de uma relação entre a presença de recessão gengival e o tipo de fenótipo gengival: fino ou espesso, na região dos pré-molares. O estudo partiu do pressuposto de que o fenótipo gengival fino pode ser um fator predisponente para a recessão gengival, uma condição marcada pela migração apical da margem gengival. A metodologia da pesquisa envolveu a avaliação de 26 pré-molares com recessão gengival, em 15 pacientes. A classificação do fenótipo gengival foi realizada utilizando o método da transparência à sondagem (sonda visível = fino; sonda não visível = espesso), e a recessão gengival foi classificada segundo Cairo et al. (RT1, RT2 e RT3). Além disso, foram coletados dados sobre parâmetros periodontais, como a largura da faixa de mucosa queratinizada, e a presença de hipersensibilidade dentinária cervical, avaliada com Escala Visual Numérica (EVN). Entre os resultados principais, observou-se que o fenótipo gengival fino foi o mais prevalente na amostra (61,5%), e a classificação de recessão gengival mais encontrada foi a RT1 (96,2%). O estudo revelou que há uma maior prevalência de recessões associadas ao fenótipo fino, o que pode estar relacionado à faixa estreita de mucosa queratinizada observada nos dentes avaliados. Adicionalmente, metade da amostra relatou algum grau de desconforto à presença de hipersensibilidade dentinária cervical após estímulo por jato de ar. Em suma, o trabalho concluiu que a presença de recessões do tipo RT1 é mais comum em pré-molares e está mais frequentemente associada ao fenótipo gengival fino e a uma faixa estreita de mucosa queratinizada.

DISCUSSÃO

A análise da literatura demonstra um consenso claro em relação à principal hipótese que permeia os estudos periodontais mais recentes: a espessura do fenótipo gengival é um fator determinante na suscetibilidade à retração gengival (Nasser e Souza, 2012; Barbosa, 2016; Bissada e Cortellini, 2018; Koppolu et al., 2023; Silva, 2023).

Diversos estudos observacionais, tanto transversais (Maroso et al., 2015; Barbosa, 2016; Shenoy e Sarma, 2022; Silva, 2023) quanto revisões sistemáticas (Bissada e Cortellini, 2018), convergem ao indicar que o fenótipo fino apresenta maior risco e prevalência de recessão quando comparado ao fenótipo espesso. Essa predisposição é explicada pela menor quantidade de tecido mole de proteção e, frequentemente, pela faixa mais estreita de mucosa queratinizada associada ao fenótipo fino (Cortellini; Bissada, 2018; Silva, 2023).

Apesar da concordância geral, é importante notar as variações na força da associação e na prevalência do fenótipo. Por exemplo: Maroso et al. (2015) encontraram uma correlação negativa fraca (r = -0,216), embora estatisticamente significativa, entre espessura e recessão. Isso pode indicar que, apesar da relevância, a espessura não é o único preditor da condição.

Em contraste, Koppolu et al. (2023) observaram uma correlação negativa significativa entre a espessura gengival e o comprimento da recessão, o que sugere que gengivas mais finas tendem a desenvolver recessões não apenas mais frequentes, mas também mais extensas.

Em termos de prevalência, houve divergências: Nasser e Souza (2012) encontraram predominância do fenótipo espesso na amostra geral (54%), enquanto Barbosa (2016) e Shenoy e Sarma (2022) reportaram maior prevalência do fenótipo fino (67% e 73,8%, respectivamente). Essas variações podem ser atribuídas às diferenças nas populações estudadas, nos critérios de inclusão/exclusão (exemplo: apenas estudantes, dentes específicos, ausência de periodontite) e na metodologia utilizada para classificar o fenótipo (transparência da sonda versus medição direta).

A revisão reforça o entendimento da etiologia multifatorial da retração gengival. O fenótipo fino atua como um fator intrínseco predisponente, mas o desencadeamento ou a progressão da condição estão frequentemente ligados a fatores extrínsecos, como: Trauma de Escovação: Mencionado como fator etiológico principal por Maroso et al. (2015). Tratamento Ortodôntico: O estudo de Alsalhi e Tabasum (2021) demonstra que o tratamento ortodôntico aumenta o risco de recessão, especialmente em indivíduos com faixa estreita de mucosa ceratinizada, reforçando a interação entre o fator extrínseco e a predisposição do fenótipo. Higiene Oral/Inflamação: Bissada e Cortellini (2018) citam a higiene oral inadequada como um agravante significativo.

A literatura evidencia a importância da padronização diagnóstica. A transição da classificação clássica de Miller (1985) para o sistema de Cairo et al. (2011) e, mais recentemente, para a Classificação de 2018, reflete a necessidade de incorporar o fenótipo gengival e a perda de inserção interproximal para um prognóstico mais preciso.

A transição do termo biótipo periodontal para fenótipo periodontal (Kim et al., 2019) sinaliza a visão mais dinâmica e multifatorial do tecido. Além disso, a proposta de classificação em três categorias (fino, moderado e espesso) em vez de apenas duas (BORGES et al., 2019) sugere um esforço para refinar a avaliação e melhorar a seleção de técnicas de recobrimento radicular.

Portanto, a literatura revisada estabelece o fenótipo gengival, notadamente o fino, como um fator de risco significativo para a retração gengival, com implicações tanto estéticas quanto funcionais (hipersensibilidade, como apontado por Silva, 2023). A tendência atual na Periodontia é a de integrar a avaliação do fenótipo (e da largura da mucosa ceratinizada) no diagnóstico e planejamento de tratamento, reconhecendo sua influência crucial na estabilidade periodontal.

CONCLUSÃO

A análise da literatura permite afirmar que as condições mucogengivais e o fenótipo gengival exercem influência direta na manutenção da saúde periodontal, na resposta aos diferentes tipos de tratamento odontológico e na longevidade de dentes e implantes. De modo geral, há consenso de que o fenótipo gengival fino apresenta maior propensão ao desenvolvimento e à progressão de recessões gengivais, além de estar associado à instabilidade do tecido marginal e a maiores desafios estéticos e funcionais. Essa vulnerabilidade torna-se ainda mais evidente em situações específicas, como durante o tratamento ortodôntico, na presença de restaurações mal adaptadas, em pacientes com histórico de periodontite ou em associação a fatores de risco locais e sistêmicos, como tabagismo e forças oclusais excessivas.

Com base nesses estudos, evidencia-se que o fenótipo gengival exerce papel determinante na suscetibilidade ao desenvolvimento de recessões gengivais. O consenso entre os autores demonstra que indivíduos com biótipo fino apresentam maior predisposição à migração apical da margem gengival, em razão da menor espessura tecidual, da reduzida quantidade de colágeno e da menor resistência frente a estímulos inflamatórios ou traumáticos. Além disso, fatores externos como o trauma de escovação, restaurações cervicais inadequadas, higiene oral deficiente e movimentos ortodônticos intensificam essa vulnerabilidade, especialmente quando associados a uma faixa estreita de mucosa queratinizada.

Dessa forma, o fenótipo gengival fino deve ser compreendido não apenas como uma característica morfológica, mas como um fator de risco biológico relevante na prática clínica. O reconhecimento precoce desse fenótipo e a adoção de métodos diagnósticos adequados, como a avaliação da transparência à sondagem, são fundamentais para o planejamento de estratégias preventivas e terapêuticas individualizadas. Reforça-se, portanto, a relevância de uma abordagem clínica integrativa, focada na identificação do fenótipo gengival e em medidas preventivas, visando à estabilidade tecidual e à manutenção da saúde periodontal.

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1Acadêmica de Odontologia – Centro Universitário Mário Pontes Jucá. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-8852-1877
2Acadêmica de Odontologia – Centro Universitário Mário Pontes Jucá. Orcid:http://orcid.org/0000-0003-1474-7079
3Profª Coautora – Drª em Periodontia – Centro Universitário Mário Pontes Jucá. Orcid: http://orcid.org/0000-0002-2311-863X
4Prof. Orientador – Esp. Em Periodontia – Centro Universitário Mário Pontes Jucá. Orcid: http://orcid.org/0000-0001-6728-4229