INTERVENÇÕES NAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM: RELATO DE EXPERIÊNCIA NO ESTÁGIO DE PSICOPEDAGOGIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511172319


Maria Fernanda Furtado de Sousa1
Estélio Silva Barbosa2


RESUMO

O presente estudo aborda as contribuições da Pedagogia para as práticas psicopedagógicas clínicas, destacando como seus fundamentos teóricos e metodológicos podem orientar o processo de avaliação e intervenção nas dificuldades de aprendizagem. A relevância deste tema encontra-se na importância de compreender como os saberes pedagógicos, aliados à escuta e ao olhar psicopedagógico, qualificam a atuação profissional diante dos desafios encontrados na clínica. A leitura e a escrita são bases fundamentais para o processo de alfabetização e letramento; entretanto, é nesse percurso que muitas crianças apresentam dificuldades, configurando uma das queixas mais recorrentes dos pais e responsáveis ao chegarem ao consultório psicopedagógico. Diante disso, levantou-se a seguinte problemática: de que maneira as contribuições pedagógicas podem qualificar a prática psicopedagógica clínica na intervenção dessas dificuldades? O objetivo geral consiste em investigar as principais dificuldades de aprendizagem e as estratégias de intervenção identificadas pelo psicopedagogo. Como objetivos específicos, busca-se descrever o papel da Pedagogia na prática psicopedagógica, delinear o processo de intervenção nas dificuldades de leitura e escrita e identificar a relevância da participação ativa dos pais no desenvolvimento psicopedagógico. A metodologia utilizada baseou-se em um estágio supervisionado, articulado a uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, fundamentada em autoras clássicas e contemporâneas da Psicopedagogia e da Pedagogia. Foram analisadas obras de referência, como as de Soares (2020), Weiss (2016), Fernández (1991, 2001), Teberosk (2020), Smith e Strick (2007) e Kishimoto (2011), selecionados por sua relevância teórica no campo da leitura e da intervenção psicopedagógica. Os resultados apontam que a consolidação do processo de aprendizagem ocorre por meio de intervenções lúdicas, voltadas ao desenvolvimento das habilidades necessárias, associadas à participação ativa da família no processo psicopedagógico. Assim o acompanhamento se configura como um espaço de desenvolvimento integral do aprendente e de fortalecimento do vínculo positivo com a aprendizagem.

Palavras-chave: orientação parental; intervenção lúdica; leitura e escrita; psicopedagogia clínica.

ABSTRACT

This study addresses the contributions of Pedagogy to clinical psychopedagogical practices, highlighting how its theoretical and methodological foundations can guide the assessment and intervention process in learning difficulties. The relevance of this topic lies in the importance of understanding how pedagogical knowledge, combined with psychopedagogical listening and observation, enhances professional practice in the face of challenges encountered in the clinic. Reading and writing are fundamental bases for the literacy process; however, it is in this process that many children experience difficulties, constituting one of the most frequent complaints from parents and guardians when they arrive at the psychopedagogical office. Given this, the following problem arose: how can pedagogical contributions enhance clinical psychopedagogical practice in the intervention of these difficulties? The general objective is to investigate the main learning difficulties and the intervention strategies identified by the psychopedagogue. As specific objectives, this study seeks to describe the role of Pedagogy in psychopedagogical practice, outline the intervention process for reading and writing difficulties, and identify the relevance of active parental participation in psychopedagogical development. The methodology used was based on a supervised internship, articulated with a qualitative bibliographic research, grounded in classic and contemporary authors of Psychopedagogy and Pedagogy. Reference works were analyzed, such as those by Soares (2020), Weiss (2016), Fernández (1991, 2001), Teberosk (2020), Smith and Strick (2007), and Kishimoto (2011), selected for their theoretical relevance in the field of reading and psychopedagogical intervention. The results indicate that the consolidation of the learning process occurs through playful interventions, aimed at developing the necessary skills, associated with the active participation of the family in the psychopedagogical process. Thus, the mentoring process is configured as a space for the learner’s integral development and for strengthening the positive bond with learning.

Keywords: parental guidance; playful intervention; reading and writing; clinical psychopedagogy.

1. INTRODUÇÃO

A presente pesquisa, desenvolvida a partir do estágio supervisionado em psicopedagogia clínica, visa apresentar as vivências do estágio como também as contribuições acadêmicas exercidas e adquiridas durante o processo. Essa etapa é fundamental na formação do profissional, pois possibilita articular o conhecimento teórico à prática clínica, integrando saberes pedagógicos, psicológicos e sociais. 

A  atuação clínica oferece ao futuro psicopedagogo o contato direto com o seu aprendente e com a realidade enfrentada pelos profissionais que já atuam no mercado de trabalho. Nessa prática, o estagiário observa, planeja e acompanha o processo de aprendizagem além de diagnosticar as dificuldades de leitura, escrita e outras dimensões cognitivas, emocionais e sociais que impactam no aprender, atuando de modo preventivo e interventivo nos processos normais e patológicos de aprendizagem

Conforme Weiss (2016, p. 28): “Já são identificadas diferentes síndromes orgânicas desde o nascimento da criança e apontadas suas relações com a aprendizagem, o trabalho psicopedagógico pode ser feito no momento mais oportuno para cada caso”. A psicopedagogia clínica tem como objetivo analisar, avaliar e intervir em casos de sujeitos com dificuldades de aprendizagem, o psicopedagogo(a)  precisa ter um olhar atento para os comportamentos que são evidenciados assim como são relatados no consultório como possíveis queixas sejam eles comportamentos do aspecto social, cognitivo e socioemocional que interfere na aprendizagem escolar.

“O diagnóstico psicopedagógico clínico tem como objetivo identificar as causas dos bloqueios que se apresentam nos sujeitos com dificuldades de aprendizagem” (Sampaio, 2009, p. 17) e  é dividido em duas etapas: avaliação e intervenção.  

Na avaliação, o profissional precisa de expertise e deve observar o comportamento do aprendente, suas produções e interações para chegar a conclusão de uma hipótese diagnóstica, é como se fosse montar um quebra cabeça pois a medida em que se vai encaixando é descoberto o que é por trás dos sintomas comportamentais e a causa das queixas. São informações adquiridas pela família, pela escola e na vivência com o aprendente, considerando que o processo avaliativo inicia-se pela anamnese feita com a família, tornando-se assim fundamental para o entendimento das queixas apresentadas.

Na fase interventiva, as ações são direcionadas mediante a hipótese diagnóstica em que foi obtida durante as sessões avaliativas, e tem como objetivo o desenvolvimento de habilidades e competências que estejam em defasagem como também superar as dificuldades de aprendizagem. Conforme Soares (2020, p. 44): “A leitura e escrita tem papel e funções centrais em nossas sociedades grafocêntricas pois antes mesmo da criança entrar na escola ela já obteve contato do conceito de escrita e leitura, sua utilização e aplicação  em diferentes contextos”. É justamente nesse campo que se concentram as queixas que apontam prejuízos na leitura e escrita, diversos fatores podem ocasionar ou pode está associado a essa dificuldade e concomitante a isso o olhar atento do profissional, a anamnese feita de forma acolhedora e minuciosa fazem toda a diferença nas práticas diagnósticas e interventivas.

Frente ao exposto, este estudo fundamenta-se em uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, tem como objetivo geral investigar  as principais dificuldades de aprendizagem e as estratégias de intervenções identificadas pelo psicopedagogo, bem como apresentar as contribuições da pedagogia para as práticas psicopedagógicas clínicas, destacando como essas contribuições podem orientar a avaliação e a intervenção nas dificuldades de aprendizagem. Como objetivo específico, busca descrever o papel da pedagogia na prática psicopedagógica, analisar o processo de intervenção nas dificuldades de leitura e escrita do paciente e identificar a relevância da participação ativa dos pais no desenvolvimento psicopedagógico do aprendente.

2. REVISÃO DE LITERATURA

2.1 O PAPEL DA PEDAGOGIA NA PRÁTICA PSICOPEDAGÓGICA 

No âmbito da psicopedagogia, ao tratar das dificuldades de aprendizagem podemos encontrar diversas demandas que chegam ao consultório. Conforme apresentado na introdução desse relato, a hipótese diagnóstica envolve dificuldades de leitura, linguagem oral e no processo de alfabetização e letramento.

O primeiro contexto educativo de um sujeito é na família, cujas vivências e experiências contribuem para formação do seu ser, porém, onde é devidamente alfabetizado e letrado é no contexto escolar, no ambiente da sala de aula. Nesse espaço, o aprendente vivencia descobertas, aprendizados, ressignificações e a instrução pedagógica conforme o currículo escolar. Pois: “a maioria das queixas escolares específicas está focada em leitura, escrita e matemática, em diferentes graus e anos” (Weiss, 2016, p. 96).

Devido a isso, a escola e professores tem um efeito significativo na vida de cada criança. O processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita deve ser feito de modo embasado e coerente, considerando diferentes perspectivas pedagógicas e possibilitando uma prática consistente. Frequentemente, são os olhares atentos dos professores que possibilitam aos pais reconhecer a necessidade de um acompanhamento psicopedagógico. Como enfatiza Weiss (2016, p. 96):

É necessário que se pesquise o que o paciente já aprendeu, como articula os diferentes conteúdos entre si, como faz uso desses conhecimentos nas diferentes situações escolares e sociais, como os usa no processo de assimilação de novos conhecimentos. É importante definir o nível pedagógico para verificar a adequação à série que cursa. Algumas vezes a defasagem entre o nível pedagógico e as exigências escolares atuais pode agravar dificuldades do paciente anteriores à escola, e outras vezes criar situações que podem vir a formar dificuldades de aprendizagem e/ou de produção escolar.

O aprendente ao chegar no consultório da psicopedagógico com queixas relacionadas a dificuldades na leitura e escrita, torna-se imprescindível que o profissional tenha a conduta de sondar o contexto em que aquela criança esteve e está inserida, como é o seu vínculo com a aprendizagem, o que já sabe e como aprendeu, para isso que são aplicados testes e provas.

Contudo, tratando-se da dificuldade com a leitura e escrita, as causas podem ser multifatoriais.Assim, é necessário compreender como ocorre o sistema de alfabetização e letramento para realizar um diagnóstico e orientar intervenções eficazes. Segundo Teberosk (2020, p. 16): 

Os partidários do enfoque fonético apresentam o sistema alfabético de escrita com base em uma visão restrita ao código e consideram a aprendizagem dele uma associação entre letras e fonemas. Opinam que as crianças têm de aprender a estabelecer relações entre as letras do sistema de escrita e os sons com os quais se associam e que os representam (o que designam como “princípio alfabético”). Em linguística, a terminologia acadêmica de denomina “fonemas” os sons individuais da língua, e a associação entre letras e sons evoca uma reflexão sobre o aspecto sonoro da linguagem, chamado de “consciência fonológica. 

O fazer pedagógico vem sendo amplamente discutido no que diz respeito a organização do processo de ensino e aprendizagem na alfabetização inicial sendo o enfoque fonético o mais tradicional e difundido nas práticas escolares.

Para que ocorra a aprendizagem da leitura e escrita é notório que se desenvolvam uma mútua dependência e apropriação do sistema de escrita alfabética, para que aprenda a associar o significante a significados (ler) e a representar significados com significantes (escrever) e para o viés psicopedagógico a atuação conforme a orientação dos conteúdos precisa ser dinâmica, interativa e que favoreça a participação ativa do aprendente, de modo que o estímulo e prazer pela aprendizagem estejam presentes, respeitando as diferentes modalidades de aprendizagem e promovendo o êxito no processo educativo.

2.2 A RELEVÂNCIA DA INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA  POR MEIO DO LÚDICO CONSIDERANDO AS MÚLTIPLAS RELAÇÕES DA APRENDIZAGEM

No acompanhamento psicopedagógico as condutas adotadas para intervenções nas dificuldades de leitura e escrita, fundamenta-se em práticas que articulam os aspectos cognitivos, psicomotores, afetivos e sociais do aprendente. A utilização do lúdico, por meio de jogos e atividades interativas, favorece o desenvolvimento global da criança e a consolidação de atividades pré acadêmicas, como atenção, coordenação motora e linguagem. Nesse processo, o brincar beneficia ao profissional não só a intervir nas defasagens do sujeito, mas favorece a compreensão das potencialidades que podem ser desenvolvidas. Como afirma Alicia Fernandez (2001, p. 34): 

Nossa escuta não se dirige aos conteúdos não aprendidos, nem aos aprendidos, nem às operações cognitivas não logradas ou logradas, nem aos condicionantes orgânicos, nem aos inconscientes, mas às articulações entre essas instâncias. Não se situa no aluno, nem no professor, nem na sociedade, nem nos meios de comunicação como ensinantes, mas nas múltiplas relações entre eles.

A compreensão do sujeito deve ser considerada em sua totalidade para que a aprendizagem seja exímia e eficaz, partindo do pressuposto que há inter relações nos aspectos físicos, sociais, emocionais e psicomotores. Por isso, o profissional deve adotar uma postura investigativa, sensível e dialógica.

Na psicopedagogia clínica, as dificuldades na leitura e escrita devem ser observadas de maneira integral, de forma minuciosa e concomitantemente abrangente para os comportamentos e produções do aprendente além das suas subjetividades.

Logo, deve-se instigá-lo a pensar, a refletir sobre seu próprio pensamento e reconhecer sua modalidade de aprendizagem. Essa mediação entre o sujeito e sua autopercepção contribui para que ele se torne participante ativo e consciente do seu processo de aprender. Segundo Weiss (2016, p. 98):

O desrespeito ao ritmo de construção da criança no ler e escrever pode criar uma dificuldade que se avoluma como “bola de neve”, podendo chegar a estancar seu processo de verdadeira alfabetização. Ela começa a apelar exclusivamente para a memória e, a partir de certo ponto, passa a não caminhar mais, ou mesmo a se recusar a cumprir qualquer tarefa relacionada à leitura e à escrita.  

Dessa forma, a intervenção psicopedagógica deve ser planejada de forma personalizada considerando especificidades do aprendente, compreendendo que o foco desloca-se das dificuldades para as potencialidades, com esse crescente estímulo promove-se a  aquisição de novas habilidades e conhecimentos de forma estratégica por meio da ludicidade. Para perpetuar essa afirmativa, a autora afirma:

No brincar, a criança constroi um espaço de experimentação, de transição entre o mundo interno e o externo. Nesse espaço transicional – criança-outro, indivíduo-meio – dá-se a aprendizagem. Por essa razão, o processo lúdico é fundamental no trabalho psicopedagógico. No diagnóstico, o uso de situações lúdicas é mais uma possibilidade de se compreender, basicamente, o funcionamento dos processos cognitivos e afetivos sociais em suas interferências mútuas, no modelo de aprendizagem do paciente (Weiss, 2016, p. 76).

Por isso, atividades de identificação e reconhecimento de letras, sílabas e palavras, jogos que estimulem o contato com alfabeto, sons e ditados contribuem para que possa haver o avanço gradual na consciência fonológica e leitura. Essas práticas possibilitam melhorias e progressos diante das dificuldades diagnosticadas.

Assim, a intervenção psicopedagógica se estrutura sobre o brincar compartilhado entre o paciente e o terapeuta. Podemos considerar que são duas pessoas que brincam juntas visando uma aprendizagem significativa. Na visão de Kishimoto (2011, p. 41):

Ao permitir a ação intencional (afetividade), a construção de representações mentais (cognição), a manipulação de objetos e o desempenho de ações sensório-motoras (físico) e as trocas nas interações (social), o jogo contempla várias formas de representação da criança ou suas múltiplas inteligências, contribuindo para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil. Quando as situações lúdicas são intencionalmente criadas pelo adulto com vistas a estimular certos tipos de aprendizagem, surge a dimensão educativa.

Portanto, o psicopedagogo oportuniza a função terapêutica e significativa da aprendizagem através do brincar, os recursos lúdicos de cada sessão devem ser planejados e aplicados com o intuito de estimular e desenvolver as habilidades que se encontram em defasagem no aprendente, como também se avalia nas sessões as evoluções perpetuadas no sujeito e as competências que precisam ser reforçadas. Desse modo, é através do brincar que se propicia prazer e diversão. Além da função educativa, pois o jogo e as atividades lúdicas objetivam o saber, conhecimento, apreensão do mundo e favorece o desenvolvimento em aspectos globais.

2.3 A PARTICIPAÇÃO ATIVA DA FAMÍLIA NO ACOMPANHAMENTO PSICOPEDAGÓGICO

O vínculo familiar exerce papel fundamental no processo de aprendizagem, configurando-se como base afetiva e social sobre a qual a criança constroi seus primeiros conhecimentos sobre o mundo. A família é o primeiro ambiente educativo, responsável pela transmissão de valores, comportamentos e atitudes que influenciam diretamente o desenvolvimento emocional, cognitivo e social do indivíduo.

Na perspectiva psicopedagógica clínica, o processo diagnóstico deve considerar a influência e a cultura familiar, observando o que foi aprendido, negligenciado e como se constitui a dinâmica de aprendizagem nesse contexto. Pois conforme Fernandez (1991, p. 66):

Além disso, como observamos que a modalidade de aprendizagem do sujeito na infância está entrelaçada com uma “modalidade de aprendizagem familiar”, trataremos de observar as características deste modo familiar de aproximar-se ao não conhecido. 

A participação ativa da família se torna relevante em todo o processo psicopedagógico, primordialmente, na avaliação diagnóstica para se ter informações do que não sabemos sobre a história e cultura do aprendente, porém, não se limita apenas para critérios diagnósticos, o protagonismo da família nas intervenções nos garante resultados significativos para desenvolvimento do paciente. Como mencionado por Fernandez (1991, p. 88):

Os pais precisam sentir-se protegidos, e somente percebendo uma boa escuta, não crítica, terão o espaço de confiança necessário e terapêutico. nossa função não é julgar se foram bons ou maus pais, mas favorecer a expressão, criando um clima afetuoso e compreensivo. por isso recorremos também às suas próprias infâncias. isto os ajuda a ver que dentro deles atua também uma parte infantil e, principalmente, a aproximar-se da compreensão do filho. 

Conforme a autora, ao se entrelaçar na trama vincular do grupo familiar, o sintoma de aprendizagem adquire sentido e funcionalidade para esse sistema. Desse modo, o diagnóstico e a intervenção também não poderão estar  eximidos do grupo familiar e nem da instituição escolar, isso é fundamental. O psicopedagogo durante o processo de acompanhamento com o paciente precisa inserir a família dentro desse contexto, pois é no ambiente familiar onde a criança dará continuidade com o que é aprendido na escola e nas terapias. De acordo com Weiss (2016, p. 75):

Deve-se investigar em que medida a família possibilita o desenvolvimento cognitivo da criança – facilitando a construção de esquemas e deixando desenvolver o equilíbrio entre assimilação e acomodação – e qual carga afetiva coloca nesses processos.

A partir dessa compreensão, a família torna-se uma extensão das práticas terapêuticas por isso deve ser participativa, como também atuante nas intervenções e estimulação da aprendizagem da criança, cooperando conforme as orientações do psicopedagogo. Sendo assim, torna-se uma rede de cooperação visando o desenvolvimento e com a compreensão de que as habilidades a serem desenvolvidas e estimuladas só serão consolidadas através da generalização da aprendizagem. Nesse cenário, é preciso que a família estabeleça para criança: rotina, deve conhecer quais reforçadores funcionam, a modalidade de aprendizagem, dar incentivo e apoio, ser ativo no ambiente escolar e suas respectivas festividades, ter uma escuta ativa e entre outros fatores que são preponderantes para consolidar o desenvolvimento.

A tríade de cooperação entre escola, família e psicopedagogo resultará em benesses para o desenvolvimento da criança e a oportunizará autodescobertas em que podem ser reforçadas para que a criança possa ter a compreensão de que ela pode progredir em outras áreas e não apenas estar limitada às suas dificuldades. Strick e Smith (2007, p. 99) explicam que:

É muito importante identificar os pontos fortes dos estudantes com dificuldades de aprendizagem por várias razões. Em primeiro lugar, devem usar seus pontos fortes para compensar as áreas de fraqueza. Embora façam isso instintivamente até certo ponto, o processo de aprendizagem pode ser bastante simplificado, se todos (especialmente o aluno) entendem de forma clara quais são seus pontos fortes. Em segundo lugar, a fim de manterem sua auto estima, é importante que os estudantes com deficiências obtenham amplas oportunidades de prática com o que podem fazer bem. 

Essa perspectiva  evidencia que a aprendizagem não se limita à superação de dificuldades, mas envolve também o reconhecimento e fortalecimento das potencialidades do aprendente.

Quando o psicopedagogo adota uma postura dialógica com a família, reconhecendo-a como parte integrante da aprendizagem da criança e não apenas observadores do processo, cria um ambiente de segurança e encorajamento que sustenta e amplia as possibilidades de progressão.Sendo assim, devem articular-se para identificar e valorizar os pontos fortes do aprendente, para que a prática interventiva deixe de ser apenas remediação das dificuldades e possa incluir a promoção de experiências significativas que favoreçam o progresso e fortalecimento da auto capacidade de aprender e evoluir.

3. METODOLOGIA

A pesquisa caracteriza-se como um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, que possibilita compreender melhor a partir das vivências do indivíduo. Foi desenvolvida e  é de natureza qualitativa, com caráter bibliográfico. Ao se referir à experiência, pode-se destacar que ela “é vivida antes de ser captada pelo pensamento, apreendida pela reflexão, caracterizada em seus componentes” (Breton; Alves, 2021, p. 3) e “que desperta o poder de conhecer” (Menezes, 2021, p. 10). A análise baseou-se em livros, teses e publicações de referência que abordam sobre práticas psicopedagógicas relacionadas à leitura e escrita. O recorte temporal privilegiou autores e autoras, renomados como Fernandez (1991, 2001), Soares (2020), Teberosk (2020), Smith e Strcik (2007), Weiss (2016) e Kishimoto (2011), publicadas entre 1991 a 2021, são cientistas de referência no campo da pedagogia e psicopedagogia. A escolha por tais obras deve-se à escassez de artigos científicos recentes que abordem de forma abrangente a temática investigada, justificando o foco em fontes teóricas da Pedagogia e Psicopedagogia. 

O levantamento bibliográfico permitiu identificar três eixos centrais de análise:

  1. Descrever o papel da pedagogia na prática psicopedagógica.
  2. Designar o processo de intervenção nas dificuldades de leitura e escrita do paciente considerando as múltiplas relações da aprendizagem.
  3. Identificar a relevância da participação ativa dos pais no desenvolvimento psicopedagógico do aprendente. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os estudos discutidos, neste estudo, destacam a leitura e escrita no contexto psicopedagógico. A partir do relato pessoal da autora e da revisão bibliográfica, a análise dos seis (6) autores escolhidos, possibilita uma reflexão sobre a relevância da pedagogia para a psicopedagogia no aspecto de aquisição da leitura e escrita, a intervenção através do lúdico e a participação ativa e assídua dos pais na vida da criança no contexto psicopedagógico.

A pedagogia tem a contribuição ímpar para a psicopedagogia clínica pois um dos enfoques no primeiro contato com o aprendente é que o psicopedagogo possa descobrir a sua modalidade de aprendizagem, como é o seu pensamento cognitivo e a forma em que articula os saberes. Devido a isso, a pedagogia implementa com seus aspectos metodológicos, teorias da aprendizagem, atribuições e reconhecimentos de habilidades esperadas por cada ano e faixa etária, análise do nível conceitual da escrita e trabalhar com atividades significativas (Teberosky, 2020).

Para isso, é primordial que o psicopedagogo tenha o reconhecimento de diferenças e desigualdades por parte do sujeito considerando que toda criança pode aprender, desde que se garanta acesso às práticas psicopedagógicas coerentes, afetivas e inclusivas (Soares, 2020). Nesse caso, os reconhecimentos das dificuldades servem para que possamos criar estratégias interventivas e recursos para impulsionar o desenvolvimento de habilidades que estão defasadas considerando que o potencial da criança para aprender pode ser desenvolvido.

No contexto da leitura e escrita, as dificuldades e erros devem ser compreendidas como parte do processo de construção do conhecimento e desenvolvimento e não como falha (Teberosky, 2020), o psicopedagogo como mediador do conhecimento e ao estimular no desenvolvimento de forma interventiva tem que propiciar nas suas interações uma atenção conjunta nas sessões e aos materiais que estão sendo aplicados a fim de interpretar como se faz e o que se diz com este, suas funcionalidades e lógica no que está sendo aplicado. Para isso, é relevante trabalhar com atividades significativas como recontos, leitura em voz alta, ditados, leitura compartilhada, produção de texto e jogos de linguagem que envolva a criança cognitivamente.

Nessa perspectiva, nas sessões precisa ser valorizada a mediação emocional e cultural no processo de aprender, reconhecendo o papel das experiências familiares, da oralidade e da convivência letrada (Teberosky, 2020). Sendo assim, as atividades desenvolvimento na psicopedagogia clínica para leitura e escrita deve ter propósito, contexto e sentido, contribuindo com a leitura como prática social pois ler é compreender, interpretar e interagir com o texto e com o mundo (Soares, 2020) como também a escrita deve ser vista como produção de sentido ponderando que escrever é comunicar-se, e não apenas copiar ou reproduzir.

Posteriormente, a prática interventiva deve ser pensada e articulada propondo que o aprender é um ato profundamente subjetivo no qual se entrelaçam fatores cognitivos, afetivos, corporais, sociais e simbólicos. Assim, a aprendizagem é entendida como uma construção que envolve o sujeito inteiro, e não apenas sua mente ou sua capacidade racional.

Na visão clínica, a intervenção deve ter o propósito de reconstrução de vínculo do aprendente com a aprendizagem, onde ele possa reescrever sua história (Fernandez, 2001), o psicopedagogo vai atuar como mediador, ajudando-o a reencontrar o prazer de aprender e a confiança em si mesmo, analisando o que o sujeito expressa de forma não verbal e ampliando seus modos de significar os aspectos do pensamento, emoção, palavra, corpo e ação. 

Nesse processo, as múltiplas relações do saber têm dimensões da aprendizagem consigo mesmo, com a história cultural considerando toda sua bagagem de conhecimento no que diz respeito ao outro, com seu corpo e o próprio saber.

Compreender o sujeito e ajudá-lo a aprender são dimensões indissociáveis, são movimentos que se constroem simultaneamente, as ferramentas para planejar as intervenções devem ser personalizadas considerando o ritmo, desejo e a subjetividade do aprendente em relação a aprendizagem. assim, é através do lúdico que as práticas interventivas se tornam mais interativas e criam intencionalidade com intuito de estimular e potencializar o desenvolvimento de habilidades  (Kishimoto, 2011), ajudando o sujeito a se abrir novamente ao conhecimento e a própria potência cognitiva, as relações interventivas tem suas dimensões e uma das primordiais é a relação com a família (Weiss, 2016) a história familiar na anamnese e processo diagnóstico transmite modelos inconscientes de aprendizagem, valorização do saber e expectativas, porém, na intervenção a família é um dos estimuladores relevantes para o desenvolvimento da criança.

A família tendo uma participação ativa no processo de intervenção pode tornar o processo interventivo mais vivo, criativo, eficiente e eficaz, unindo o desenvolvimento psicopedagógico ao vínculo afetivo, o técnico ao cultural, pois na rotina os pais podem fornecer informações fundamentais sobre o histórico da criança, seus comportamentos, avanços e possíveis regressões (Weiss, 2016), a participação parental permite que o objetivo intervenção se estenda para além do consultório, favorecendo a continuidade das mudanças no ambiente doméstico e outros âmbitos, assim como fortalece o vínculo afetivo da criança com o aprender, mostrando-lhe que sua evolução é valorizada e acompanhada.

Quando os pais entendem o processo de aprendizagem como algo compartilhado, a criança se sente mais segura, confiante e capaz. A intervenção deve ser personalizada e considerar a subjetividade do aprendente mas não deve restringir-se apenas à criança, mas incluir a família como protagonista do processo (Fernandez, 1991), não apenas como informantes os pais devem ser participantes ativos na reconstrução da história da criança e do seu vínculo com a aprendizagem, nesse viés a família precisa refletir, escutar, questionar e ressignificar sua própria postura diante do aprender, é um processo que transforma o olhar dos pais, tornando-os co autores desse processo.

O psicopedagogo, nesse contexto, tem o papel de convidar a família à responsabilidade, ajudando os pais a perceberem que o aprendizado da criança é uma construção conjunta e as dificuldades de aprendizagem não devem assumir um papel central na vida da criança e sim buscar ajudá-lo a desenvolver suas potencialidades (Strick; Smith, 2007) pois a prática psicopedagógica não busca culpados, mas alianças, e a presença dos pais se torna parte terapêutica da intervenção.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estágio em Psicopedagogia Clínica possibilitou vivenciar, de forma prática, todo o conhecimento teórico construído ao longo da formação, permitindo desenvolver uma visão mais ampla e sensível do processo de aprendizagem. É lícito postular que atuar na clínica exige uma expertise que vai além da análise técnica: é necessário interpretar de forma integral as informações obtidas na anamnese, nas sessões avaliativas e interventivas, considerando não apenas os aspectos objetivos, mas também as subjetividades envolvidas.

Considerando que o vínculo com a criança deve ser construído de forma acolhedora e respeitosa, possibilitando que ela desenvolva uma percepção mais positiva de si mesma a cada encontro, reconhecendo suas potencialidades e progressos. Desse modo, a atuação psicopedagógica não se restringe apenas ao aprendente, mas estende-se à família e ao ambiente escolar, promovendo uma rede de apoio fundamental para o desenvolvimento global.

O estágio evidenciou ainda a importância da atualização constante e dos estudos acadêmicos para embasar as práticas clínicas, além da postura ética que deve nortear todas as ações do profissional. Por fim, compreende-se que nosso objetivo maior é favorecer o protagonismo da criança neurodivergente ou com dificuldades de aprendizagem, para que ela possa alcançar autonomia e confiança em seu processo de aprender e de viver.

Portanto, este trabalho teve como propósito elucidar as dificuldades de aprendizagem apresentadas na psicopedagogia clínica durante a prática de estágio com enfoque no prejuízo da leitura e escrita, no que concerne às práticas interventivas enfatiza que por meio do lúdico é onde a aprendizagem pode ser feita de forma interativa e prazerosa, promovendo o desenvolvimento e aquisição de novos conhecimentos pois a criança aprende brincando. De modo que a generalização do que é feito de modo interventivo no consultório demanda continuidade e reforço no âmbito familiar, pois a participação ativa dos pais é essencial para que os avanços conquistados durante o atendimento sejam consolidados, uma vez que o lar representa o espaço primordial de construção das bases da aprendizagem e do desenvolvimento infantil.

Conclui-se que a pedagogia e suas teorias de aprendizagem fornecem embasamento para as práticas pedagógicas para que a aprendizagem seja aplicada e consolidada de forma subjetiva e efetiva, compreendendo o desenvolvimento infantil em sua totalidade e como deve ser aplicadas a estimulação de habilidades no aprendente para que possa ser exercido todo o seu potencial, além da utilização de recursos lúdicos e do brincar nas práticas interventivas para que o conhecimento seja construído de forma adequada para os marcos do desenvolvimento da criança, especialmente nas dificuldades de leitura e escrita. 

Como inovação, este trabalho propõe que para a prática psicopedagógica faz-se necessário que o profissional amplie seu foco para além da remediação das dificuldades, priorizando o desenvolvimento das potencialidades do aprendente e a corresponsabilidade familiar no processo terapêutico. A valorização da afetividade, da escuta e da ludicidade como instrumentos de mediação configura-se como um caminho promissor para tornar o aprender mais prazeroso, efetivo e humanizado. Assim, desenvolvimento e aprendizagem são processos interdependentes que exigem cooperação entre escola, família e psicopedagogo. A consolidação dessa tríade, aliada à formação contínua do profissional, constitui o alicerce para uma prática psicopedagógica transformadora e inovadora.

REFERÊNCIAS

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WEISS, M. L. L. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. 14. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2016.


1Graduada em pedagogia, acadêmica no Curso de Especialização em Psicopedagogia Clínica da Faculdade de Ensino Superior do Piauí – FAESPI. E-mail: mafesousa18@gmail.com.

2Mestre em Educação. Doutor em Educação. Doutor em Gestão. Doutor Honoris Causa. Pós doutor em Humanidade – Unilogos – Flórida- EUA. Professor da disciplina de Metodologia Científica e Orientador do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC, do Curso de Especialização em Psicopedagogia Clínica da Faculdade de Ensino Superior do Piauí – FAESPI. esteliobarbosasilva@gmail.com / Contato- (86) 99974-7965/Endereço do currículo lates no CNPQ: https://lattes.cnpq.br/9917115701695838   https://orcid.org/0000-0002-3769-6289