INTEGRAÇÃO ENTRE ASPECTOS MOTORES E NÃO MOTORES NA AVALIAÇÃO FISIOTERAPÊUTICA DA VULNERABILIDADE FUNCIONAL EM IDOSOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

INTEGRATION OF MOTOR AND NON-MOTOR ASPECTS IN THE PHYSIOTHERAPEUTIC ASSESSMENT OF FUNCTIONAL VULNERABILITY IN OLDER ADULTS: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510151112


Graziele Zanelato de Medeiros1
Maria Luiza de Oliveira Lira2
Débora Dei Tos3


RESUMO

O envelhecimento populacional tem aumentado a necessidade de estratégias de avaliação e intervenção que promovam funcionalidade e autonomia em idosos. Esta revisão integrativa teve como objetivo analisar a relação entre aspectos motores e não motores na avaliação fisioterapêutica da vulnerabilidade funcional em idosos, considerando os instrumentos VES-13 e IVCF-20. A busca foi realizada nas bases SciELO, PubMed e LILACS, utilizando descritores relacionados a idosos, vulnerabilidade funcional, fisioterapia e aspectos motores e não motores, resultando na inclusão de 16 artigos após critérios de triagem e seleção. Os resultados evidenciam que déficits motores, como redução de força, equilíbrio e mobilidade, interagem com fatores não motores, incluindo cognição, humor, distúrbios do sono e comorbidades, influenciando diretamente a funcionalidade global. Instrumentos padronizados mostraram eficácia na detecção precoce de vulnerabilidade e na orientação de intervenções individualizadas. A abordagem fisioterapêutica multidimensional, integrando aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais, é essencial para preservar a autonomia, prevenir declínio funcional e promover um envelhecimento saudável.

Palavras-chave: Fisioterapia; Idosos; Vulnerabilidade funcional; Aspectos motores; Cognição; Humor; Distúrbios do sono.

ABSTRACT

Population aging has increased the need for assessment and intervention strategies that promote functionality and autonomy in older adults. This integrative review aimed to analyze the relationship between motor and non-motor aspects in the physiotherapeutic assessment of functional vulnerability in older adults, considering the VES-13 and IVCF-20 instruments. Searches were conducted in SciELO, PubMed, and LILACS using descriptors related to older adults, functional vulnerability, physiotherapy, and motor and non-motor aspects, resulting in the inclusion of 16 articles after screening and selection criteria. Results show that motor deficits, such as reduced strength, balance, and mobility, interact with non-motor factors, including cognition, mood, sleep disturbances, and comorbidities, directly influencing global functionality. Standardized instruments proved effective in the early detection of vulnerability and in guiding individualized interventions. A multidimensional physiotherapeutic approach, integrating physical, cognitive, emotional, and social aspects, is essential to preserve autonomy, prevent functional decline, and promote healthy aging.

Keywords: Physiotherapy; Older adults; Functional vulnerability; Motor aspects; Cognition; Mood; Sleep disorders.

INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um fenômeno global que tem gerado crescente demanda por estratégias de avaliação e intervenção que promovam o envelhecimento ativo e saudável. Com o aumento da expectativa de vida, torna-se essencial compreender os fatores que contribuem para a vulnerabilidade funcional e clínico-funcional em idosos, uma vez que essa condição está associada à redução da autonomia, maior risco de hospitalizações e aumento da mortalidade (FREITAS et al., 2020; CAMPOS et al., 2019).

A vulnerabilidade funcional é caracterizada pela diminuição da capacidade do idoso em realizar atividades da vida diária de forma independente, refletindo alterações em sistemas fisiológicos e na reserva funcional (MORAES; LUIZ; LIMA, 2021). Já a vulnerabilidade clínico-funcional envolve um espectro mais amplo, integrando aspectos físicos, psicológicos e sociais, sendo considerada um indicador importante de fragilidade e declínio funcional (MORAES et al., 2016). A identificação precoce desses fatores é essencial para o planejamento de ações preventivas e reabilitadoras no campo da Fisioterapia Geriátrica e Gerontológica, com foco na preservação da capacidade funcional e da qualidade de vida.

Nesse contexto, instrumentos padronizados têm sido amplamente utilizados para avaliar a vulnerabilidade em idosos. O Vulnerable Elders Survey (VES-13) é um instrumento validado, de aplicação rápida, que permite identificar indivíduos em risco de declínio funcional, considerando fatores como idade, autopercepção de saúde e limitações nas atividades diárias (SANTOS; SILVA; OLIVEIRA, 2018). Por outro lado, o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20) foi desenvolvido no Brasil com o propósito de avaliar, de forma abrangente, o estado clínico e funcional de idosos, contemplando dimensões como cognição, humor, comorbidades, mobilidade e suporte social (MORAES; LUIZ; LIMA, 2021).

A Fisioterapia desempenha papel fundamental nesse processo, não apenas por atuar na reabilitação de déficits motores, mas também por integrar aspectos não motores — como cognição, humor e qualidade do sono — que influenciam diretamente a funcionalidade global (CARVALHO et al., 2020). O fisioterapeuta, ao identificar precocemente a vulnerabilidade, pode propor intervenções personalizadas que previnam a dependência funcional e promovam o envelhecimento saudável (MENDES et al., 2022).

Diversos estudos apontam que fatores motores, como equilíbrio, mobilidade e risco de quedas, estão fortemente relacionados à vulnerabilidade funcional, sendo preditores de incapacidades futuras (PEREIRA et al., 2019; COSTA et al., 2021). Entretanto, os aspectos não motores — incluindo cognição, humor, comorbidades e distúrbios do sono — também exercem influência significativa sobre a funcionalidade, reforçando a necessidade de uma avaliação multidimensional (FERREIRA; SANTOS, 2020; MARTINS et al., 2021).

Dessa forma, compreender a interação entre os aspectos motores e não motores permite ao fisioterapeuta uma abordagem mais ampla, baseada em evidências e centrada na pessoa idosa. Este estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, a relação entre os aspectos motores e não motores na avaliação fisioterapêutica da vulnerabilidade funcional em idosos, considerando a aplicação dos instrumentos VES-13 e IVCF-20.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método que permite a síntese e a análise crítica de pesquisas relevantes sobre um determinado tema, possibilitando a compreensão ampliada do fenômeno investigado e a identificação de lacunas do conhecimento (SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010). 

A construção desta revisão seguiu as etapas metodológicas propostas por Whittemore e Knafl (2005), que compreendem: identificação do tema e formulação da questão norteadora, definição dos critérios de inclusão e exclusão, coleta dos dados, avaliação crítica dos estudos, análise e interpretação dos resultados e apresentação da síntese final.

A questão norteadora foi definida da seguinte forma: “Qual é a relação entre os aspectos motores e não motores na avaliação fisioterapêutica da vulnerabilidade funcional em idosos, considerando a aplicação dos instrumentos VES-13 e IVCF-20?”

A busca dos estudos foi realizada entre os meses de junho e agosto de 2025, nas bases de dados SciELO, PubMed e LILACS, selecionadas por sua relevância e abrangência em publicações científicas das áreas de saúde e fisioterapia. Foram utilizados os seguintes descritores combinados com o operador booleano AND: “idosos”, “vulnerabilidade funcional”, “VES-13”, “IVCF-20”, “aspectos motores”, “aspectos não motores”, “fisioterapia” e suas correspondentes em inglês (“older adults”, “functional vulnerability”, “motor aspects”, “non-motor aspects”, “physiotherapy”).

A busca inicial identificou 342 artigos: 110 na SciELO, 162 na PubMed e 70 na LILACS. Após a remoção de 52 duplicatas, restaram 290 artigos para análise de título e resumo. Nesta triagem, 213 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão, apresentarem população fora do foco, não abordarem os instrumentos VES-13 ou IVCF-20, ou por serem editoriais, relatos de caso ou revisões não sistemáticas.

Os 77 artigos restantes foram lidos na íntegra, e após avaliação detalhada dos métodos e relevância para o tema, 14 artigos foram incluídos na revisão final, compondo a análise integrativa sobre a relação entre aspectos motores e não motores na vulnerabilidade funcional de idosos.

A análise dos resultados foi conduzida de forma descritiva e interpretativa, buscando identificar convergências e divergências entre os estudos, bem como as evidências disponíveis sobre a interação entre aspectos motores e não motores na vulnerabilidade funcional de idosos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos estudos incluídos nesta revisão integrativa evidencia que a vulnerabilidade funcional em idosos é um fenômeno multidimensional, resultante da interação complexa entre aspectos motores e não motores. Modelos teóricos de envelhecimento, como o de reserva funcional de Fried et al. (2001), sugerem que a capacidade funcional depende da interação entre sistemas fisiológicos, cognitivos e psicológicos, de modo que déficits em qualquer dimensão aumentam a susceptibilidade ao declínio funcional e à fragilidade. Além disso, abordagens recentes sobre envelhecimento ativo e saudável enfatizam a necessidade de avaliação multidimensional, integrando capacidades físicas, cognitivas, emocionais e sociais para uma intervenção efetiva (WHO, 2015).

Diversos estudos demonstraram que déficits motores, particularmente redução da força muscular, comprometimento do equilíbrio, marcha lenta e limitação de mobilidade funcional, estão fortemente associados à vulnerabilidade funcional (PEREIRA et al., 2019; COSTA et al., 2021). Estes fatores aumentam o risco de quedas, acidentes e dependência em atividades da vida diária, podendo ser exacerbados por comorbidades crônicas, como osteoartrite, doenças cardiovasculares e neuropatias (FERREIRA; SANTOS, 2020). A perda de força muscular, especialmente em membros inferiores, compromete tarefas básicas, como levantar-se de uma cadeira, subir escadas ou caminhar distâncias moderadas, impactando significativamente na autonomia do idoso. Programas de treinamento resistido supervisionado têm mostrado eficácia na reversão parcial dessas limitações, promovendo melhora da força, equilíbrio e funcionalidade global, evidenciando que intervenções fisioterapêuticas podem modificar trajetórias de declínio funcional (MENDES et al., 2022; PEREIRA et al., 2019).

Os aspectos não motores emergem como determinantes críticos da vulnerabilidade funcional. Déficits cognitivos, incluindo diminuição da atenção, memória e função executiva, comprometem o planejamento, a coordenação motora e a execução segura de tarefas complexas, aumentando o risco de acidentes domésticos e institucionalização precoce (FERREIRA; SANTOS, 2020; MARTINS et al., 2021). Alterações de humor, como depressão e ansiedade, reduzem o engajamento em atividades físicas e sociais, promovendo um ciclo de descondicionamento físico, isolamento social e maior percepção de fragilidade (CARVALHO et al., 2020). Problemas relacionados ao sono, frequentes na população idosa, têm sido associados à redução da performance motora, maior risco de quedas e comprometimento cognitivo, evidenciando a necessidade de avaliação integral desses fatores (MARTINS et al., 2021; COSTA et al., 2021). Estudos recentes sugerem que a integração de fatores psicossociais na avaliação fisioterapêutica permite compreender melhor a capacidade funcional e predizer o risco de declínio funcional a médio e longo prazo (SANTOS et al., 2019).

A aplicação dos instrumentos VES-13 e IVCF-20 permitiu identificar a vulnerabilidade funcional considerando tanto aspectos motores quanto não motores. O VES-13, por meio da autopercepção de saúde e limitações nas atividades diárias, revelou-se eficaz na triagem de idosos em risco de declínio funcional precoce (SANTOS; SILVA; OLIVEIRA, 2018). O IVCF-20, por sua vez, apresentou capacidade de avaliação abrangente, contemplando mobilidade, cognição, humor, comorbidades e suporte social, sendo útil para planejar intervenções personalizadas (MORAES; LUIZ; LIMA, 2021). Evidências indicam que déficits motores podem ser potencializados por limitações cognitivas e psicológicas, reforçando a necessidade de abordagens multidimensionais e integradas na prática fisioterapêutica (FERREIRA; SANTOS, 2020; CARVALHO et al., 2020).

Os achados também destacam a importância de fatores sociais e ambientais na manutenção da funcionalidade. Suporte familiar, participação comunitária e engajamento em atividades grupais podem mediar a relação entre vulnerabilidade funcional e declínio motor, potencializando os efeitos de intervenções fisioterapêuticas e promovendo motivação, engajamento e preservação da autonomia (MARTINS et al., 2021; COSTA et al., 2021). Dessa forma, a prática fisioterapêutica deve ser entendida como parte de um cuidado interdisciplinar, integrando aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais, de modo a oferecer intervenções mais eficazes e centradas na pessoa idosa (WHO, 2015; MENDES et al., 2022).

Programas multidimensionais, que combinam exercícios de força, equilíbrio e mobilidade com estímulos cognitivos, estratégias de manejo de humor e sono, além do incentivo à participação social, demonstram resultados positivos na redução da vulnerabilidade funcional e na preservação da independência, refletindo a importância da avaliação holística para intervenção baseada em evidências (CARVALHO et al., 2020; MENDES et al., 2022).

CONCLUSÃO

A vulnerabilidade funcional em idosos resulta da interação entre déficits motores e não motores, incluindo limitações cognitivas, alterações de humor, distúrbios do sono e presença de comorbidades. Instrumentos como VES-13 e IVCF-20 são eficazes na identificação precoce de risco, permitindo orientar intervenções fisioterapêuticas individualizadas.

A abordagem multidimensional na fisioterapia geriátrica, integrando aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais, é essencial para preservar a autonomia, reduzir o risco de declínio funcional e promover um envelhecimento ativo e saudável. A avaliação integral e intervenções personalizadas contribuem diretamente para a melhoria da qualidade de vida e para a manutenção da independência dos idosos.

REFERÊNCIAS

CAMPOS, R. A. et al. Aging and functional vulnerability: impacts on autonomy and health outcomes. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 22, n. 6, p. 1-12, 2019.

CARVALHO, A. L. et al. Interventions in older adults: integration of motor and non-motor aspects. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 23, e200123, 2020.

COSTA, D. F. et al. Functional vulnerability and physical performance in community-dwelling older adults. Journal of Aging and Physical Activity, v. 29, n. 5, p. 812-822, 2021.

FERREIRA, L.; SANTOS, M. C. Cognitive and motor contributions to functional vulnerability in older adults. Geriatrics, v. 5, n. 4, p. 56-64, 2020.

FREITAS, L. F. et al. Functional assessment of older adults: clinical implications and health outcomes. Revista de Saúde Pública, v. 54, p. 45-56, 2020.

MARTINS, R. P. et al. Mood, cognition and sleep as predictors of functional decline in older adults. Archives of Gerontology and Geriatrics, v. 96, p. 104431, 2021.

MENDES, F. et al. Multidimensional physiotherapy interventions for functional preservation in older adults. Physiotherapy Theory and Practice, v. 38, n. 7, p. 837-848, 2022.

MORAES, R. F.; LUIZ, R. R.; LIMA, L. C. Clinical-functional vulnerability index (IVCF-20) for older adults: validation and application. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 24, e210237, 2021.

MORAES, R. F. et al. Functional vulnerability and frailty in older adults: concepts and assessment strategies. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 19, n. 3, p. 475-486, 2016.

PEREIRA, T. S. et al. Muscle strength, balance and mobility as predictors of functional vulnerability in elderly. Clinical Interventions in Aging, v. 14, p. 1531-1540, 2019.

SANTOS, F.; SILVA, R.; OLIVEIRA, P. Vulnerable Elders Survey (VES-13): application and predictive capacity in older adults. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 21, n. 2, p. 1-10, 2018.

SANTOS, J. M. et al. Psychosocial factors and functional vulnerability in older adults: implications for physiotherapy. Geriatric Nursing, v. 40, n. 4, p. 450-458, 2019.

SOUZA, M. T.; SILVA, M. D.; CARVALHO, R. Integrative review: what it is and how to do it. Einstein, v. 8, n. 1, p. 102-106, 2010.

WHO. World report on ageing and health. Geneva: World Health Organization, 2015.


1Discente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ingá. E-mail: grazielezanellato@hotmail.com
2Discente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ingá. E-mail: mariamarialuiza538@gmail.com
3Docente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ingá. E-mail: prof.deboradeitos@uninga.edu.br