REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202507241226
Ana Beatriz Resende da Silva¹; Ana Clara Meireles Pinho Sobral²; Dinart Nunes de Sousa Junior³; Isabelle Amorim Melo4; Maria Luísa de Moura Leite Barros5; Marina Cavalcante Gonçalves6; Thiago de Almeida Castro7; Klégea Maria Câncio Ramos Cantinho8
RESUMO
Introdução: O Transtorno do Espectro Autista (TEA) envolve características sensoriais específicas que dificultam a adaptação de indivíduos autistas ao ambiente escolar. A falta de compreensão dessas particularidades pode favorecer o preconceito e comprometer práticas inclusivas. Objetivo: Sensibilizar estudantes do ensino fundamental para as diferenças sensoriais de pessoas com TEA, promovendo empatia e inclusão no ambiente escolar. Metodologia: A ação de extensão foi realizada em uma escola estadual de Teresina-PI, com alunos do 7º ano. Foram aplicadas três simulações sensoriais (auditiva, visual e tátil), que permitiram aos participantes experimentar situações que simulavam sobrecargas vivenciadas por pessoas com TEA. Após as vivências, os estudantes relataram suas sensações e participaram de uma discussão orientada sobre o impacto desses estímulos no comportamento e bem-estar de indivíduos autistas. Resultados e Discussão: Os participantes demonstraram maior compreensão sobre as manifestações sensoriais do TEA. Houve relatos espontâneos de reconhecimento de atitudes preconceituosas, além do engajamento nas discussões sobre inclusão e respeito à diversidade. A atividade possibilitou a desmistificação de estereótipos e o estímulo a práticas de convivência mais acolhedoras. Conclusão: A vivência sensorial mostrou-se eficaz para ampliar a empatia e o entendimento sobre o autismo, promovendo mudanças de atitude e fortalecendo a construção de uma cultura escolar mais inclusiva.
Palavras-chave: Empatia; Neurodiversidade; Educação Inclusiva; Percepção Sensorial.
ABSTRACT
Introduction: Autism Spectrum Disorder (ASD) includes specific sensory characteristics that may hinder the adaptation of autistic individuals to the school environment. A lack of understanding of these particularities can foster prejudice and compromise inclusive practices. Objective: To raise awareness among elementary school students about the sensory differences experienced by individuals with ASD, promoting empathy and school inclusion. Methods: The extension activity was carried out at a public school in Teresina, Brazil, with 7th-grade students. Three sensory simulations were conducted (auditory, visual, and tactile), allowing participants to experience situations that mimicked sensory overloads often faced by individuals with ASD. After the activities, students shared their impressions and took part in a guided discussion about how such stimuli affect behavior and well-being. Results and Discussion: Participants demonstrated greater understanding of ASD-related sensory manifestations. There were spontaneous reports recognizing past prejudiced behaviors, and students actively engaged in discussions about diversity and inclusive practices. The activity contributed to the deconstruction of stereotypes and encouraged more supportive interactions. Conclusion: The sensory-based experience proved effective in enhancing empathy and understanding of autism, fostering attitude changes and reinforcing the development of a more inclusive school culture.
Keywords: Empathy; Neurodiversity; Inclusive Education; Sensory Perception.
1. INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por padrões de comportamento restritivos, dificuldades na comunicação social e alterações no processamento sensorial (APA, 2014; OMS, 2018). Embora as manifestações clínicas variem amplamente entre os indivíduos, muitos compartilham experiências de hipersensibilidade ou hipossensibilidade a estímulos auditivos, visuais, táteis e olfativos (Robertson; Baron-Cohen, 2017). Essa diversidade justifica o uso do termo “espectro”, que contempla diferentes graus de comprometimento e singularidades no modo como essas pessoas percebem e interagem com o mundo (Volkmar et al., 2014).
O ambiente escolar pode representar um dos maiores desafios para pessoas com TEA, sobretudo quando não há uma compreensão adequada de suas particularidades sensoriais. Estímulos comuns, como o ruído em salas lotadas ou iluminação intensa, podem ser vivenciados de maneira amplificada, provocando desconforto extremo, desorganização emocional ou comportamentos de fuga (Mattos, 2019). Essa percepção diferenciada, quando mal interpretada, frequentemente resulta em exclusão social, rótulos negativos ou até mesmo práticas discriminatórias no contexto educacional (Happé; Frith, 2020).
De acordo com o Censo Escolar de 2023, aproximadamente 636 mil estudantes com TEA estão matriculados na educação básica brasileira (BRASIL, 2024). Apesar do crescimento das matrículas, a inclusão escolar ainda enfrenta obstáculos relacionados à falta de capacitação docente, escassez de recursos adaptados e, sobretudo, à ausência de uma cultura de empatia e respeito à neurodiversidade. A construção de um ambiente escolar verdadeiramente inclusivo demanda, portanto, mais do que adaptações físicas: exige a desconstrução de estigmas e o engajamento de toda a comunidade escolar na valorização das diferenças (Smith et al., 2019).
Nesse contexto, a sensibilização sensorial surge como uma estratégia pedagógica inovadora e eficaz para promover o entendimento das experiências de pessoas com TEA. Ao permitir que estudantes neurotípicos vivenciem, ainda que simbolicamente, os desafios enfrentados por seus colegas autistas, cria-se um espaço de escuta, empatia e reflexão. A literatura aponta que experiências sensoriais simuladas favorecem a internalização de valores inclusivos e contribuem para a mudança de atitudes (Ferreira; Santos, 2020).
A ação de extensão universitária “Integração dos típicos no Transtorno do Espectro Autista: Como é ser você?” foi idealizada com o propósito de promover esse tipo de vivência entre estudantes do ensino fundamental de uma escola pública de Teresina-PI. A partir de atividades práticas e interativas, buscou-se sensibilizar os participantes para as especificidades sensoriais de indivíduos com TEA, desmistificando estereótipos e incentivando comportamentos inclusivos. O presente relato descreve a metodologia, os resultados obtidos e os impactos observados, destacando a importância da educação em saúde como ferramenta de transformação social e inclusão.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, vinculado ao projeto de extensão universitária “Integração dos típicos no Transtorno do Espectro Autista: Como é ser você?”, promovido por discentes do curso de Medicina da UNIFACID/IDOMED, em Teresina-PI. A atividade foi desenvolvida no dia 6 de novembro de 2024, na Unidade Escolar Severiano Sousa, localizada no bairro Acarape, zona urbana da capital piauiense, com a participação de alunos do 7º ano do ensino fundamental.
A proposta teve como finalidade sensibilizar estudantes neurotípicos quanto às particularidades sensoriais enfrentadas por indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por meio de experiências interativas que simulassem situações de sobrecarga sensorial. Inicialmente, foi realizada uma ambientação da sala, com disposição circular dos participantes e distribuição de folders ilustrativos e pirulitos, visando criar um clima de acolhimento e facilitar a adesão à proposta.
A intervenção foi conduzida em cinco momentos principais:
- 1. Abertura e introdução ao tema: iniciou-se com uma breve explanação sobre o que é o TEA, suas características e os desafios enfrentados por pessoas autistas no ambiente escolar. Para promover o engajamento, foram feitas perguntas interativas, estimulando os alunos a refletirem sobre suas percepções e vivências.
- 2. Experimentos sensoriais simulados: três voluntários da turma participaram de atividades que simularam sobrecargas sensoriais comuns no TEA. O primeiro experimento abordou a audição, utilizando fones de ouvido com sons intensos e desconfortáveis (ruídos sobrepostos, buzinas, vozes altas). O segundo trabalhou a visão, com exposição a luzes piscantes alternadas. O terceiro focou o tato, por meio do contato manual com materiais de diferentes texturas (gel, areia e bolinhas de silicone).
- 3. Relato de sensações: após os experimentos, os voluntários compartilharam com a turma as sensações percebidas, como desconforto, confusão ou irritação, favorecendo a construção empática dos colegas com base na experiência vivida.
- 4. Discussão orientada: conduziu-se uma roda de conversa sobre como os estímulos sensoriais impactam o comportamento e o bem-estar de pessoas com TEA. Foram discutidas atitudes cotidianas que podem contribuir ou dificultar a inclusão escolar, estimulando sugestões dos próprios alunos sobre ações práticas para promover um ambiente mais acolhedor.
- 5. Encerramento e lanche coletivo: a atividade foi finalizada com a entrega de lembranças e a oferta de um lanche aos participantes, momento que consolidou o vínculo e reforçou o caráter afetivo e humano da ação.
A ação foi planejada com base em referências teóricas da neurociência e da pedagogia inclusiva, e orientada por uma docente supervisora. Todos os materiais utilizados foram de baixo custo e de fácil acesso, permitindo a replicabilidade da atividade em diferentes contextos escolares e comunitários.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A ação extensionista contou com ampla adesão dos alunos do 7º ano da Unidade Escolar Severiano Sousa, totalizando aproximadamente 30 participantes diretos. Desde o início da atividade, observou-se curiosidade e receptividade por parte dos estudantes, o que favoreceu a execução das etapas propostas. As experiências sensoriais simuladas foram realizadas de forma segura, com respeito às limitações dos voluntários, e provocaram reações espontâneas como incômodo, surpresa e desconforto — sentimentos que refletem, em alguma medida, as sensações vivenciadas por indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em contextos de sobrecarga sensorial.
O experimento auditivo gerou expressões faciais de tensão e comentários imediatos sobre o quanto os sons eram perturbadores. A simulação visual, com luzes intermitentes, causou desconforto ocular e dificuldade de concentração. Já a experiência tátil despertou reações de hesitação e repulsa ao contato com texturas contrastantes. Esses relatos empíricos, ao serem compartilhados em grupo, favoreceram a construção de uma compreensão coletiva mais profunda sobre o impacto dos estímulos sensoriais em pessoas com TEA, como discutido por Robertson e Baron-Cohen (2017) e Mattos (2019).
Durante a roda de conversa, emergiram reflexões significativas. Muitos alunos demonstraram empatia ao reconhecerem que comportamentos atípicos de colegas autistas — como o isolamento, o uso de fones de ouvido ou a evitação do toque — não são sinais de indisciplina ou desinteresse, mas estratégias de autorregulação diante da hipersensibilidade sensorial. Uma aluna compartilhou espontaneamente o relato de um colega com TEA em sua turma que, até então, era alvo de piadas. Após a vivência, ela afirmou ter compreendido melhor seus comportamentos e sugeriu que a turma pudesse adotar novas formas de acolhimento.
Esses achados estão em consonância com os estudos de Ferreira e Santos (2020) e Silva e Melo (2021), que destacam a importância de ações educativas práticas para o fortalecimento da empatia e da cultura de respeito às diferenças. A experiência também reforça que a inclusão escolar vai além da presença física de alunos com deficiência: ela exige uma mudança de atitudes por parte dos colegas e educadores, capaz de transformar o ambiente em um espaço verdadeiramente acolhedor.
Do ponto de vista dos discentes extensionistas, a atividade permitiu a aplicação prática dos conhecimentos sobre o espectro autista e favoreceu o desenvolvimento de competências como comunicação empática, escuta ativa e mediação de conflitos. A vivência contribuiu para a formação de profissionais mais conscientes do seu papel social e mais preparados para atuar em contextos de diversidade.
Em suma, a ação demonstrou que vivências sensoriais mediadas por estratégias pedagógicas acessíveis podem ser potentes ferramentas de transformação no ambiente escolar (figura 1). Ao sensibilizar os alunos para os desafios enfrentados por seus colegas com TEA, promove-se uma educação mais humana, inclusiva e ética.
Figura 1. Prancha com os registros do dia da atividade, em Teresina – PI.


4. CONCLUSÃO
A ação de extensão “Integração dos típicos no Transtorno do Espectro Autista: Como é ser você?” alcançou seus objetivos ao sensibilizar alunos do ensino fundamental sobre as particularidades sensoriais que compõem a experiência de indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Por meio de atividades práticas e interativas, os participantes foram capazes de compreender, de forma vivencial, como estímulos cotidianos podem impactar significativamente o comportamento e o bem-estar de pessoas com TEA no ambiente escolar.
Os relatos dos estudantes evidenciaram uma mudança de percepção em relação aos comportamentos atípicos, promovendo a empatia e a valorização da diversidade. O reconhecimento de atitudes discriminatórias e a proposição de práticas mais acolhedoras por parte dos próprios alunos reforçam o potencial transformador da atividade como estratégia de promoção da inclusão.
Além dos benefícios diretos à comunidade escolar, a ação contribuiu para a formação crítica dos discentes envolvidos no projeto, ao colocá-los em contato com contextos reais de exclusão e ao permitir que atuassem como mediadores do conhecimento em saúde e inclusão. Tal experiência fortalece a articulação entre ensino, pesquisa e extensão e demonstra o papel da universidade como agente de transformação social.
Conclui-se que iniciativas educativas centradas na sensibilização sensorial podem ser eficazes na construção de ambientes escolares mais inclusivos. A replicabilidade do modelo proposto, o baixo custo dos recursos utilizados e a receptividade da comunidade indicam a viabilidade de sua implementação em outras instituições de ensino, ampliando os impactos positivos na formação de uma cultura escolar mais justa, empática e diversa.
REFERÊNCIAS
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5. 5. ed. Arlington: American Psychiatric Publishing, 2014.
BRASIL. Censo Escolar da Educação Básica: Matrículas na educação especial chegam a mais de 1,7 milhão. Brasília: Ministério da Educação, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/censo-escolar/matriculas-na-educacao-especial-chegam-a-mais-de-1-7-milhao. Acesso em: 17 jul. 2024.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Data & Statistics on Autism Spectrum Disorder, 2020. Disponível em: https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html. Acesso em: 17 jul. 2024.
FERREIRA, L. A.; SANTOS, M. C. Respeito às diferenças: uma abordagem sobre inclusão e autismo. Revista Educação e Diversidade, v. 12, n. 1, p. 34–49, 2020.
HAPPÉ, F.; FRITH, U. Annual Research Review: Looking back to look forward – changes in the concept of autism and implications for future research. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 61, n. 3, p. 218–232, 2020.
MATTOS, J. C. Alterações sensoriais no Transtorno do Espectro Autista (TEA): implicações no desenvolvimento e na aprendizagem. Psicopedagogia, v. 36, n. 109, p. 87–95, 2019.
OLIVEIRA, F. S.; COSTA, P. R. Estratégias para um ensino inclusivo de alunos autistas. Perspectivas Educacionais, v. 15, n. 4, p. 89–102, 2018.
OLIVEIRA, S. A. A. Autismo na escola: inclusão de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Revista Territórios, v. 3, n. 2, p. 317–328, 2021.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Classificação Internacional de Doenças – CID-11: Transtorno do Espectro Autista. Genebra: OMS, 2018. Disponível em: https://www.paho.org/pt/topicos/transtorno-do-espectro-autista. Acesso em: 17 jul. 2024.
ROBERTSON, C. E.; BARON-COHEN, S. Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, v. 18, n. 11, p. 671–684, 2017.
SILVA, T. M.; MELO, J. A. Práticas inclusivas e empatia no ambiente escolar. Cadernos de Pedagogia e Inclusão, v. 9, n. 2, p. 95–110, 2021.
SMITH, I. C. et al. The importance of school connectedness for reducing problem behaviors among adolescents with and without autism spectrum disorder. Research in Autism Spectrum Disorders, v. 66, 2019.
VOLKMAR, F. R. et al.Autism and Pervasive Developmental Disorders. 3. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.
1Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
2Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
3Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
4Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
5Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
6Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
7Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
8Bióloga, Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFRN), Docente do Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
