A MAGIA DO BRINCAR: COMO A DIVERSÃO TRANSFORMA A LUTA CONTRA O CÂNCER INFANTIL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202507241257


Alexandre Vitor Resende de Albuquerque¹; Anna Clara Sampaio Lima²; Antônio Cardoso de Oliveira Reis³; Bianca Ravenna da Silva Sousa4; Camilla Ferraz Resende Carvalho5; Danillo da Silva Frota6; Felipe Messias de Sousa7; Maria Cláudia da Silva Cardoso8; Paulo Tavares Falcão9; Klégea Maria Câncio Ramos Cantinho10


RESUMO

Introdução: As atividades lúdicas exercem papel fundamental na promoção do bem-estar e desenvolvimento emocional de crianças hospitalizadas, ao contribuírem para a redução do estresse e humanização do cuidado em saúde. Objetivo: Relatar uma experiência extensionista de desenvolvimento de atividades lúdicas no ambiente hospitalar como estratégia de promoção do cuidado humanizado à criança. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência desenvolvido em hospital da rede pública do município de Teresina (PI), com crianças internadas na unidade pediátrica. As intervenções ocorreram semanalmente, com duração média de duas horas, por acadêmicos extensionistas orientados por profissionais da saúde. As atividades incluíram contação de histórias, desenho, teatro de fantoches, jogos, atividades artísticas e músicas. Resultados e Discussão: As ações possibilitaram o fortalecimento do vínculo entre profissionais, estudantes, crianças e familiares, além de favorecerem a comunicação, o enfrentamento da hospitalização e o resgate da subjetividade infantil. Observou-se melhora na aceitação da internação, na expressão de emoções e no comportamento das crianças. Do ponto de vista extensionista, as ações promoveram a integração entre ensino e serviço, ampliando a visão dos estudantes sobre o cuidado centrado na pessoa. Conclusão: As atividades lúdicas se mostraram eficazes na humanização do ambiente hospitalar, favorecendo o acolhimento e o desenvolvimento integral da criança internada, ao passo que qualificaram a formação dos extensionistas por meio do contato direto com realidades complexas da atenção em saúde.

Palavras-chave: Cuidado da criança hospitalizada; Ludoterapia; Humanização da assistência; Jogos e brinquedos; Saúde da criança.

ABSTRACT

Introduction: Playful activities play a key role in promoting the well-being and emotional development of hospitalized children by contributing to stress reduction and the humanization of health care. Objective: To report an extension experience involving playful activities in the hospital environment as a strategy to promote child-centered and humanized care. Method: This is an experience report conducted in a public hospital in the city of Teresina (PI), involving children hospitalized in the pediatric unit. The interventions were carried out weekly, lasting an average of two hours, by extension students supervised by health professionals. Activities included storytelling, drawing, puppet theater, games, artistic workshops, and music. Results and Discussion: The actions strengthened the bond between professionals, students, children, and families, favoring communication, coping with hospitalization, and rescuing childhood subjectivity. Improved acceptance of hospitalization, emotional expression, and behavior were observed. From the extensionist perspective, the actions promoted integration between teaching and service, broadening students’ understanding of person-centered care. Conclusion: Playful activities proved effective in humanizing the hospital environment, fostering welcoming practices and the holistic development of hospitalized children, while enhancing the training of extension students through real-life health care experiences.

Keywords: Hospitalized child care; Play therapy; Humanization of care; Games and toys; Child health.

1. INTRODUÇÃO

A hospitalização infantil representa uma vivência complexa e potencialmente traumática, marcada por rupturas no cotidiano da criança, como a separação do ambiente familiar, a imposição de rotinas médicas e a convivência com dor, medo e incertezas. Tais experiências podem comprometer não apenas o bem-estar emocional, mas também o desenvolvimento global da criança, sobretudo em longas internações (Melo e Vasconcelos, 2021). Diante disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil reforçam a importância da humanização do cuidado pediátrico como diretriz fundamental para a promoção de saúde integral (BRASIL, 2018; WHO, 2022).

Dentro das práticas de humanização, destaca-se o uso de atividades lúdicas no contexto hospitalar. O brincar, além de um direito garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, é uma linguagem própria da infância e uma ferramenta essencial no enfrentamento da hospitalização. As atividades lúdicas favorecem a expressão de sentimentos, a elaboração simbólica da experiência de adoecimento e a ressignificação do ambiente hospitalar como espaço de cuidado e acolhimento (Silva et al., 2020). Além disso, estudos apontam que o brincar hospitalar reduz a ansiedade, melhora a adesão aos tratamentos e fortalece vínculos entre equipe de saúde, criança e familiares (Rocha e Dias, 2019).

A inserção de estudantes da área da saúde em projetos de extensão que envolvam o cuidado lúdico à criança hospitalizada permite, ainda, a construção de uma formação sensível e ética, centrada na integralidade e na escuta qualificada. A vivência extensionista no contexto hospitalar amplia a percepção dos discentes sobre o sofrimento humano, contribuindo para o desenvolvimento de competências como empatia, comunicação e atuação interdisciplinar (Ferreira et al., 2022).

No entanto, mesmo diante de evidências sobre os benefícios das práticas lúdicas em hospitais, observa-se que ainda são pouco sistematizadas e muitas vezes relegadas a um segundo plano diante das demandas clínicas. Essa lacuna revela a necessidade de fomentar ações que integrem ludicidade ao cuidado, sobretudo em hospitais públicos, onde recursos e iniciativas humanizadoras são mais escassos.

Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo relatar a experiência de um projeto de extensão universitária voltado à promoção de atividades lúdicas com crianças hospitalizadas em uma unidade pediátrica da rede pública do município de Teresina (PI), destacando sua relevância para a humanização do cuidado e a formação dos estudantes envolvidos.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, vinculado ao projeto de extensão universitária “A Magia do Brincar: A importância das atividades lúdicas para o desenvolvimento da criança no ambiente hospitalar”, promovido por discentes da área da saúde da UNIFACID/IDOMED, em Teresina-PI. As atividades foram desenvolvidas entre os meses de março e junho de 2024, na unidade de pediatria de um hospital público localizado na zona urbana do município de Teresina (PI), com a participação de crianças hospitalizadas em diferentes faixas etárias.

A proposta teve como finalidade utilizar o brincar como instrumento de humanização do cuidado, buscando minimizar os efeitos negativos da hospitalização e favorecer o bem-estar físico, emocional e social das crianças internadas. Para isso, foram organizadas ações semanais com duração média de duas horas, realizadas aos sábados por acadêmicos extensionistas, sob supervisão de docentes e profissionais da saúde do hospital.

A intervenção foi conduzida em cinco momentos principais:

  1. Ambientação e acolhimento: no início de cada encontro, a equipe realizava uma breve ambientação do espaço recreativo disponibilizado pelo hospital, com a disposição de tatames, brinquedos, músicas suaves e decorações temáticas com balões e cartazes, com o intuito de criar um ambiente acolhedor, alegre e seguro para as crianças.
  2. Atividades lúdicas dirigidas: foram aplicadas diferentes estratégias lúdicas adaptadas à faixa etária e às condições clínicas das crianças presentes. Entre as ações, destacam-se: contação de histórias com personagens interativos; teatro de fantoches com temáticas educativas e afetivas; oficinas de pintura, colagem e dobradura; jogos de memória e brincadeiras com massinhas de modelar.
  3. Expressão e interação livre: após as atividades dirigidas, as crianças foram incentivadas a se expressarem livremente, escolhendo entre desenhos, rodas de conversa, brincadeiras espontâneas e músicas. Este momento foi essencial para a valorização da subjetividade infantil e fortalecimento dos vínculos entre participantes e equipe extensionista.
  4. Participação dos acompanhantes: em várias ocasiões, os pais ou responsáveis foram convidados a participar das atividades com as crianças, promovendo maior conexão familiar, acolhimento emocional e corresponsabilização pelo cuidado em saúde.
  5. Encerramento e despedida: ao final de cada encontro, foi realizada uma breve roda de conversa com as crianças e acompanhantes, seguida da entrega de lembranças simbólicas (desenhos, cartinhas ou pequenos brindes). Este momento foi marcado por afeto, escuta e agradecimento mútuo.

A ação foi planejada com base em pressupostos da humanização do cuidado hospitalar e no reconhecimento do brincar como direito da criança. Todos os materiais utilizados foram de baixo custo, higienizáveis e adequados ao contexto hospitalar, o que favorece a replicabilidade da ação em outras unidades de saúde e instituições públicas.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Durante o período de execução do projeto, foram realizadas doze visitas à unidade de pediatria, totalizando a participação de aproximadamente 60 crianças com idades entre 2 e 11 anos. As ações foram conduzidas por equipes compostas por 5 a 8 extensionistas, com supervisão docente contínua (figura 1). Ao longo das intervenções, observou-se que a presença de atividades lúdicas contribuiu significativamente para a melhora do estado emocional das crianças, sendo recorrentes relatos espontâneos de alegria, tranquilidade e interesse pelas dinâmicas propostas.

Gráfico 1. Distribuição etária dos pacientes oncológicos participantes do projeto de extensão do Hospital São Marcos, Teresina-PI, 2024.

Fonte: Dados levantados junto ao Hospital no dia da ação, 2024.

As atividades de contação de histórias e teatro de fantoches geraram forte engajamento, facilitando a comunicação entre as crianças e a equipe hospitalar. Em especial, a mediação simbólica dos personagens favoreceu o enfrentamento da dor e o entendimento do processo de hospitalização, como já descrito por Silva et al. (2020), que apontam o brincar como facilitador do cuidado e da escuta da infância.

As oficinas de arte também despertaram a criatividade e permitiram a expressão de sentimentos, especialmente em crianças mais introspectivas (figura 2). Em consonância com Happé e Frith (2020), atividades que valorizam a linguagem não verbal são especialmente relevantes em contextos de vulnerabilidade emocional, como o hospitalar. A participação de acompanhantes foi um fator facilitador da adesão à proposta, fortalecendo os laços afetivos e promovendo acolhimento mútuo entre cuidadores e profissionais.

Figura 2. Prancha com os registros do dia da ação de extensão, Teresina – PI.

As equipes de enfermagem e serviço social relataram mudanças positivas no comportamento das crianças após os encontros, incluindo maior aceitação dos procedimentos clínicos, redução de agitação e melhora na alimentação. Esses efeitos também foram percebidos por familiares, que demonstraram gratidão à equipe extensionista, reconhecendo o impacto positivo da ação no bem-estar das crianças. Tais resultados corroboram estudos de Robertson e Baron-Cohen (2017), que reforçam a importância do brincar para o equilíbrio emocional infantil em contextos adversos.

Dentre os desafios enfrentados, destacam-se a limitação de espaço físico, a rotatividade das crianças internadas e a necessidade constante de adaptação das atividades de acordo com as condições clínicas. Ainda assim, a proposta mostrou-se viável e de baixo custo, evidenciando a possibilidade de replicação em outras unidades hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS).

Do ponto de vista da formação dos estudantes, a experiência permitiu o desenvolvimento de competências relacionais e éticas, como empatia, escuta ativa, respeito à diversidade e atuação interprofissional. A vivência no ambiente hospitalar, mediada pela ludicidade, ampliou a percepção dos acadêmicos sobre o cuidado centrado na pessoa, conforme preconizado pela Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2018).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência extensionista desenvolvida no ambiente hospitalar permitiu demonstrar a relevância das atividades lúdicas como ferramenta de promoção da saúde integral da criança, contribuindo significativamente para a humanização do cuidado em contextos de internação. As ações implementadas favoreceram a expressão emocional, a interação social, a redução da ansiedade e a valorização da infância mesmo em meio ao adoecimento.

Para a comunidade atendida, os efeitos positivos foram observados na melhora do estado emocional das crianças, na participação ativa dos acompanhantes e no fortalecimento do vínculo com a equipe hospitalar. Além disso, a presença recorrente dos extensionistas contribuiu para a criação de um espaço acolhedor, seguro e afetuoso, o que repercutiu em maior adesão aos cuidados clínicos e no fortalecimento da confiança das famílias na instituição de saúde.

Do ponto de vista formativo, a atividade possibilitou aos estudantes o desenvolvimento de competências comunicacionais, empáticas e interdisciplinares, além de ampliar a compreensão sobre o cuidado centrado na pessoa e a importância do brincar como direito fundamental da criança hospitalizada. A vivência reforçou a articulação entre ensino, serviço e comunidade, conforme os princípios da extensão universitária e das diretrizes da Política Nacional de Humanização.

A replicabilidade da ação em outras instituições públicas é viável, dado o baixo custo dos materiais utilizados e a simplicidade das dinâmicas propostas. Recomenda-se, para futuras edições, o fortalecimento do registro sistemático das experiências e o envolvimento multiprofissional mais amplo, com vistas à sustentabilidade e ampliação do impacto da ação.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5. 5. ed. Arlington: American Psychiatric Publishing, 2014.

BRASIL. Política Nacional de Humanização. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_humanizacao_pnh_folheto.pdf. Acesso em: 20 jul. 2024.

HAPPÉ, F.; FRITH, U. Annual Research Review: Looking back to look forward – changes in the concept of autism and implications for future research. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 61, n. 3, p. 218–232, 2020.

ROBERTSON, C. E.; BARON-COHEN, S. Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, v. 18, n. 11, p. 671–684, 2017.

SILVA, L. G. et al. O brincar como ferramenta terapêutica no contexto hospitalar pediátrico: contribuições da brinquedoteca. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, v. 16, n. 2, p. 45–53, 2020.

VOLKMAR, F. R. et al.Autism and Pervasive Developmental Disorders. 3. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.


1Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

2Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

3Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

4Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

5Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

6Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

7Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

8Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

9Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

10Bióloga, Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFRN), Docente do Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

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