ZOONOSES AQUI NÃO! RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UMA ATIVIDADE DE EXTENSÃO NA CAPITAL PIAUIENSE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202507241148


Guilherme Inácio Romeiro da Silva¹; Hugo Antunes Macedo²; Jeferson Alves Brandão Filho³; João Pedro de Sousa Ferreira4; João Victor Oliveira Motta5; Lucas Miranda Cantanhede6; Luís Felipe Passos Teixeira7; Klégea Maria Câncio Ramos Cantinho8


RESUMO

Introdução: As zoonoses são doenças infecciosas transmitidas entre animais e seres humanos, cuja ocorrência está fortemente relacionada a condições ambientais precárias e à vulnerabilidade social. Em comunidades rurais, a ausência de saneamento básico, a convivência próxima com animais e a falta de informação contribuem para a manutenção dessas enfermidades. Objetivo: Desenvolver uma ação educativa de extensão universitária voltada à prevenção de zoonoses, por meio de atividades práticas e interativas com moradores da zona rural de Teresina-PI. Metodologia: A atividade foi realizada na Escola Municipal Baixão do Carlos, no dia 12 de outubro de 2024, com participação de crianças, adolescentes e adultos. Foram aplicadas estratégias educativas como palestras, demonstrações práticas de lavagem correta das mãos, tratamento caseiro da água e produção de repelentes naturais. As ações foram baseadas em literatura científica selecionada a partir dos descritores DeCS “zoonoses”, “pobreza” e “saneamento básico”. Resultados e Discussão: A atividade contou com 138 participantes e demonstrou forte engajamento da comunidade. As metodologias utilizadas favoreceram a assimilação do conteúdo e estimularam o protagonismo dos participantes na prevenção de doenças. A participação ativa dos discentes também evidenciou a importância da extensão na formação médica. Conclusão: A intervenção contribuiu para a conscientização em saúde e reforçou o papel da universidade na promoção da cidadania e do cuidado coletivo em contextos de vulnerabilidade.

Palavras-chave: Promoção da Saúde; Comunidade Rural; Higiene das Mãos; Infecções Parasitárias.

ABSTRACT

Introduction: Zoonoses are infectious diseases transmitted between animals and humans, and their occurrence is strongly associated with poor environmental conditions and social vulnerability. In rural communities, the lack of basic sanitation, close contact with animals, and insufficient health education contribute to the persistence of these diseases. Objective: To develop a university extension activity focused on zoonosis prevention through practical and interactive educational actions with residents of a rural area in Teresina, Brazil. Methods: The activity was carried out at Baixão do Carlos Municipal School on October 12, 2024, involving children, adolescents, and adults. Educational strategies included lectures, practical demonstrations of proper handwashing, homemade water treatment, and the production of natural repellents. All actions were based on scientific literature selected using the MeSH terms “zoonoses,” “poverty,” and “basic sanitation.” Results and Discussion: The action reached 138 participants and demonstrated strong community engagement. The applied methods facilitated content assimilation and encouraged active participation in disease prevention. The experience also highlighted the role of extension activities in the training of medical students. Conclusion: The intervention contributed to public health awareness and reinforced the role of the university in promoting citizenship and collective care in socially vulnerable contexts.

Keywords: Health Promotion; Rural Community; Hand Hygiene; Parasitic Infections.

1. INTRODUÇÃO

As zoonoses, doenças naturalmente transmissíveis entre animais e seres humanos, representam um dos mais complexos e desafiadores problemas de saúde pública na atualidade. Estima-se que mais de 60% das doenças infecciosas emergentes tenham origem zoonótica, o que evidencia a necessidade de atenção redobrada quanto às formas de vigilância, controle e prevenção dessas enfermidades (JONES et al., 2008). Os agentes etiológicos envolvidos são diversos — incluindo vírus, bactérias, parasitas e fungos — e estão frequentemente associados a fatores ambientais, sociais e econômicos que afetam desproporcionalmente populações vulneráveis (GUBLER, 2010).

Em comunidades com infraestrutura precária, como as que não dispõem de saneamento básico adequado, coleta de resíduos ou abastecimento regular de água potável, o risco de disseminação dessas doenças é significativamente ampliado (VAN DER HOEK, 2006). Nessas regiões, a convivência próxima entre seres humanos e animais, o acúmulo de lixo, a presença de vetores como mosquitos, roedores e pulgas, além da limitada oferta de serviços de saúde, cria um cenário ideal para o surgimento e a manutenção das zoonoses endêmicas e emergentes. A leishmaniose, a raiva, a leptospirose, a toxoplasmose e a febre amarela são apenas alguns exemplos que ilustram a relação direta entre condições ambientais e a dinâmica das zoonoses (WHO, 2020).

Reconhecendo essa complexidade, a Organização Mundial da Saúde e outras instituições de saúde pública têm promovido o conceito de “Uma Só Saúde” (One Health), uma abordagem integrada que articula os campos da saúde humana, saúde animal e meio ambiente. Essa estratégia visa fortalecer ações coordenadas que previnam surtos zoonóticos e promovam uma vigilância mais eficiente, com participação comunitária e ações educativas (SCHNEIDER, 2017; WHO, 2020). A educação em saúde, nesse contexto, assume papel central ao fomentar a conscientização da população sobre os riscos, modos de transmissão e medidas de prevenção.

No Brasil, ações educativas voltadas à prevenção de zoonoses são especialmente necessárias nas zonas rurais e periféricas dos centros urbanos, onde muitas vezes há ausência do Estado e carência de políticas públicas efetivas. Projetos de extensão universitária, quando bem estruturados, cumprem um papel fundamental na promoção da saúde coletiva e na formação cidadã dos estudantes, proporcionando experiências que conectam o saber científico à realidade social (SANTANA et al., 2021).

Diante desse cenário, a presente atividade de extensão foi desenvolvida com o intuito de atuar diretamente em uma comunidade rural do município de Teresina-PI, promovendo a conscientização sobre as principais zoonoses e formas de prevenção, por meio de metodologias interativas e acessíveis. O objetivo principal foi capacitar os moradores quanto às práticas de higiene pessoal, cuidado com o ambiente e controle de vetores, fomentando a construção coletiva de saberes voltados à promoção da saúde e à prevenção de doenças evitáveis.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um relato de experiência de uma ação de extensão universitária realizada no dia 12 de outubro de 2024, na Escola Municipal Baixão do Carlos, situada na zona rural de Teresina, Piauí. A atividade teve como público-alvo os moradores da comunidade, com ênfase em crianças, adolescentes e seus responsáveis. A escolha da data coincidiu estrategicamente com o Dia das Crianças, visando ampliar a adesão e o envolvimento da população local.

O planejamento da ação envolveu a submissão prévia de ofício à direção da escola para autorização do uso do espaço. Em paralelo, foi realizada uma revisão bibliográfica no Portal de Periódicos da CAPES, utilizando os descritores DeCS “zoonoses”, “pobreza” e “saneamento básico”, conectados pelo operador booleano “AND”. Foram identificados inicialmente 30 artigos científicos publicados entre 2014 e 2024. Aplicaram-se critérios de inclusão como: classificação Qualis B1 ou B2, acesso completo ao texto e abordagem integrada entre os descritores selecionados. Após triagem por relevância e temática, seis artigos foram utilizados para embasar a fundamentação teórica da ação.

A metodologia prática foi estruturada em cinco etapas sequenciais e complementares:

  • Etapa 1 – Acolhimento e entrega de materiais educativos: foram distribuídos panfletos ilustrativos sobre medidas de prevenção de zoonoses, higiene pessoal e saneamento básico. Essa atividade inicial teve como objetivo introduzir o tema de forma acessível e gerar interesse dos participantes.
  • Etapa 2 – Palestra educativa: conduziu-se uma apresentação didática com linguagem simplificada sobre o conceito de zoonoses, formas de transmissão, medidas preventivas e cuidados com animais domésticos. Foram utilizados recursos visuais e exemplos cotidianos para facilitar a compreensão.
  • Etapa 3 – Demonstrações práticas: os participantes foram convidados a acompanhar e replicar técnicas simples de higiene, como a lavagem correta das mãos com tinta guache simulando impurezas, preparo de repelente natural à base de cravo-da-índia e álcool, e métodos caseiros de purificação da água (fervura e desinfecção com hipoclorito de sódio).
  • Etapa 4 – Roda de conversa: promoveu-se uma discussão coletiva com perguntas e respostas, permitindo o compartilhamento de dúvidas, saberes populares e reflexões sobre os desafios locais relacionados à saúde ambiental.
  • Etapa 5 – Atividades lúdicas em grupo: as crianças foram organizadas em pequenos grupos para vivenciar, de forma participativa, os conteúdos aprendidos. Um dos momentos de destaque foi a adaptação de atividades para um participante com deficiência visual, utilizando orientações táteis e acompanhamento individualizado.

Todas as etapas foram conduzidas por discentes do curso de Medicina, previamente orientados por um docente supervisor. Os materiais utilizados foram de baixo custo e de fácil acesso, priorizando a replicabilidade das ações no cotidiano da comunidade. O registro fotográfico das atividades foi autorizado pela escola e está disponível como parte da documentação da ação.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A atividade extensionista alcançou um total de 138 participantes da comunidade rural Baixão do Carlos, entre eles 38 adultos, 18 adolescentes e 44 crianças, além de oito discentes apresentadores, um docente preceptor e doze organizadores. As ações foram desenvolvidas em ambiente escolar, previamente autorizado, e ocorreram de forma sequenciada, conforme planejamento metodológico.

Durante a realização da atividade, observou-se alta adesão dos participantes às etapas propostas, especialmente nas demonstrações práticas de higiene. A simulação da lavagem das mãos com tinta guache revelou-se uma estratégia eficaz para demonstrar visualmente a importância da higienização adequada, sobretudo para o público infantil. Esse tipo de abordagem lúdica está alinhado às recomendações de Minetto et al. (2016), que destacam a relevância do envolvimento ativo da população em práticas educativas para a internalização do conhecimento em saúde.

Outro destaque foi a fabricação de repelentes naturais com ingredientes de baixo custo e fácil acesso. A proposta teve aceitação positiva entre os adultos presentes, principalmente pelo caráter replicável e pela possibilidade de uso doméstico imediato. A prática reforçou a autonomia dos participantes no enfrentamento de vetores de doenças, como mosquitos transmissores da leishmaniose e da dengue, conforme discutido por Bonfoh (2011) e Gracia (2015), que reforçam a importância da tecnologia social na prevenção de zoonoses.

Além das ações educativas, foram distribuídos folhetos, roupas e brinquedos, o que contribuiu para o engajamento e acolhimento da comunidade (figura 1). A doação de itens reforçou o vínculo entre a universidade e o território, fortalecendo os princípios da extensão universitária como instrumento de transformação social (Brito et al., 2021).

Figura 1. Fotos evidenciando a ação realizada na Escola Municipal, em Teresina – PI.

Fonte: Acervo pessoal.

Outro ponto relevante da ação foi a adaptação das atividades para um participante com deficiência visual, o que evidenciou o compromisso com a acessibilidade e a inclusão social. A participação ativa desse indivíduo, mediada por estratégias sensoriais e suporte individualizado, demonstrou a possibilidade de adequar intervenções comunitárias a diferentes perfis de público, em consonância com os princípios de equidade defendidos pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020).

Para os discentes envolvidos, a atividade representou uma oportunidade de vivenciar os desafios reais enfrentados por populações vulneráveis e de aplicar, na prática, conhecimentos adquiridos em sala de aula. Essa articulação entre teoria e prática é apontada por Santana et al. (2021) como essencial para a formação de profissionais comprometidos com o cuidado integral em saúde.

Em síntese, os resultados da ação confirmam a efetividade das metodologias participativas na promoção da saúde e na prevenção de doenças em contextos de vulnerabilidade social. A articulação entre saber técnico e diálogo com a realidade local se mostrou fundamental para o êxito da intervenção.

4. CONCLUSÃO

A ação de extensão realizada na comunidade rural Baixão do Carlos, em Teresina-PI, evidenciou o potencial transformador de intervenções educativas voltadas à prevenção de zoonoses em territórios vulneráveis. A utilização de metodologias participativas, adaptadas à realidade local e centradas na promoção da saúde, contribuiu para o fortalecimento da consciência coletiva quanto aos fatores de risco e às medidas preventivas relacionadas às doenças zoonóticas.

Os resultados indicam que práticas simples, como a lavagem adequada das mãos, o tratamento caseiro da água e o uso de repelentes naturais, podem ser facilmente incorporadas ao cotidiano das famílias, desde que sejam apresentadas de forma clara, acessível e culturalmente contextualizada. A participação ativa da comunidade, o acolhimento das crianças e o engajamento dos adolescentes e adultos demonstraram que o vínculo entre universidade e sociedade pode ser construído com base no respeito, escuta ativa e corresponsabilidade.

Para os discentes, a vivência extensionista proporcionou uma experiência formativa significativa, permitindo o contato direto com determinantes sociais da saúde e a aplicação prática de conteúdos teóricos. Essa aproximação com a realidade comunitária favorece o desenvolvimento de competências como empatia, comunicação, trabalho em equipe e compromisso social — pilares fundamentais da formação em saúde.

A inclusão de um participante com deficiência visual nas atividades reforça ainda o compromisso com a equidade e a acessibilidade, aspectos imprescindíveis em qualquer intervenção em saúde pública. Tal experiência contribuiu para ampliar o olhar dos estudantes sobre a diversidade dos sujeitos atendidos e sobre a necessidade de adaptar as estratégias educativas conforme as singularidades do público-alvo.

Conclui-se, portanto, que atividades extensionistas planejadas com base em evidências científicas, e realizadas de forma dialógica, lúdica e inclusiva, podem produzir impactos positivos e duradouros na saúde comunitária. Além de promover a prevenção de doenças, esse tipo de ação fortalece a cidadania, estimula o protagonismo social e contribui para a consolidação do papel da universidade como agente ativo na transformação da realidade social.

REFERÊNCIAS

BONFOH, B. Zoonoses: a challenge for public health in sub-Saharan Africa. Emerging Infectious Diseases, v. 17, n. 2, p. 129-135, 2011.

BRITO, L. M. et al. A interação entre teoria e prática no contexto extensionista. Revista Brasileira de Educação Profissional, v. 24, n. 3, p. 201–212, 2021.

GRACIA, J. et al. Economic impact of zoonotic diseases in developing countries. Health Economics Journal, v. 20, n. 1, p. 55–62, 2015.

GUBLER, D. J. The global emergence/resurgence of arboviral diseases as public health problems. Archives of Medical Research, v. 40, p. 450–459, 2010.

JONES, K. E. et al. Global trends in emerging infectious diseases. Nature, v. 451, n. 7181, p. 990–993, 2008.

MINETTO, S. A. et al. Boas práticas em saúde: uma análise do processo saúde-doença. Revista de Saúde Pública, v. 50, p. 1305–1310, 2016.

SANTANA, R. R. et al. Extensão universitária como prática educativa na promoção da saúde. Revista de Educação e Saúde, v. 5, n. 2, p. 95–110, 2021.

SCHNEIDER, M. Barriers to zoonotic disease control in underserved areas. Public Health Review, v. 38, n. 12, p. 1–9, 2017.

SILVA, A. G. et al. Reflexões sobre a promoção da saúde e o papel das práticas comunitárias. Revista Brasileira de Promoção da Saúde, v. 28, n. 1, p. 22–27, 2017.

VAN DER HOEK, W. Zoonotic diseases and poverty. WHO Bulletin, v. 84, n. 9, p. 654–659, 2006.
WHO – WORLD HEALTH ORGANIZATION. Zoonoses and the one health approach. Geneva:

WHO, 2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/zoonoses. Acesso em: 20 jul. 2025.


1Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

2Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

3Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

4Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

5Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

6Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

7Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina

8Bióloga, Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFRN), Docente do Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina