INCLUSÃO DIGITAL NA EDUCAÇÃO BÁSICA: POLÍTICAS PÚBLICAS, LETRAMENTO E TENSÕES NO CAMPO EDUCACIONAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601121207


Tony Santos Ribeiro


RESUMO

Este artigo analisa as políticas públicas brasileiras de inclusão digital na Educação Básica, tomando como foco a forma como elas concebem a inserção de recursos tecnológicos e o desenvolvimento do letramento digital. Parte-se da compreensão de que a inclusão digital não se limita ao acesso a equipamentos e conectividade, mas envolve também processos de formação crítica e cidadã. A investigação pretende compreender em que medida tais políticas expressam avanços, limites e contradições, situando a escola pública como espaço central nesse debate. A pesquisa, de caráter bibliográfico, organiza-se em quatro eixos: fundamentos teóricos das políticas de inclusão digital; concepções de letramento digital para a Educação Básica; trajetória histórica dos principais programas governamentais; e tensões que surgem na relação entre prescrição normativa e práticas concretas. O estudo demonstra que a efetividade das políticas continua marcada por descontinuidades e desigualdades estruturais, que a pandemia de COVID-19 tornou ainda mais visíveis. Conclui-se que a inclusão digital precisa ser entendida como um processo político-pedagógico com acesso, apropriação crítica e equidade. A partir dessa perspectiva é possível transformar o digital em instrumento de emancipação, superando sua condição de mera ferramenta técnica para convertê-lo em elemento constitutivo da cidadania e da justiça social no contexto educacional.

Palavras-chave: Inclusão digital; Políticas públicas; Educação Básica; Letramento digital; Cidadania.

1. INTRODUÇÃO

A inclusão digital na Educação Básica é um dos grandes desafios contemporâneos, e atravessa a esfera do direito à educação bem como da democratização do acesso ao conhecimento. Inserida em um contexto de crescente digitalização da vida social, a escola pública brasileira é convocada a se reinventar, incorporando recursos tecnológicos e práticas de letramento digital que formem sujeitos críticos e autônomos. As políticas públicas surgem como tentativas de orientar esse processo, ora impulsionando avanços, ora revelando contradições que perpetuam desigualdades históricas.

O objeto deste estudo concentra-se na análise das políticas públicas brasileiras de inclusão digital voltadas à Educação Básica. O problema que orienta a investigação é formulado nos seguintes termos: como essas políticas concebem e orientam a inserção de recursos tecnológicos e o desenvolvimento do letramento digital na escola, e quais tensões e implicações decorrem dessa concepção para o campo educacional? A questão ultrapassa a dimensão técnica, exigindo reflexão sobre os sentidos atribuídos ao digital na escola e sobre a forma como o Estado traduz a promessa da cidadania digital em práticas educativas concretas.

O objetivo geral do trabalho é analisar as políticas de inclusão digital, com atenção às suas concepções, trajetórias e implicações no campo educacional. Como objetivos específicos, busca-se: discutir os fundamentos teóricos que sustentam sua formulação; examinar as concepções de letramento digital presentes em documentos oficiais; resgatar a trajetória histórica de programas de democratização tecnológica; e identificar as tensões que atravessam o currículo, a formação docente e a equidade. Com esses elementos, pretende-se contribuir para a compreensão crítica de um processo que se situa entre a promessa de inovação e a urgência de justiça social.

2. ESTADO DA ARTE

Este estudo foi realizado a partir de uma revisão bibliográfica que toma como eixo as políticas públicas brasileiras de inclusão digital na Educação Básica. A análise organiza-se em torno de quatro dimensões complementares: os fundamentos teóricos que sustentam a formulação de tais políticas; as concepções de letramento digital que emergem de documentos oficiais e de produções acadêmicas; a trajetória histórica de programas voltados à democratização tecnológica; e as tensões e implicações reveladas no campo educacional. Trata-se de perscrutar os sentidos atribuídos à digitalização da escola, de modo a compreender a inserção tecnológica como uma prática de cidadania, situada entre promessas de inovação e limites impostos pelas condições concretas de acesso (Franco, 2021; Souza; Vasconcelos, 2021).

Qualquer reflexão sobre inclusão digital no tempo presente exige considerar um marco inescapável: a pandemia da COVID-19. Esse acontecimento histórico, como apontam Carvalho, David e Vasconcelos (2021), deslocou a discussão sobre o digital do campo da inovação para o da sobrevivência pedagógica. A conectividade, outrora concebida como recurso de apoio, tornou-se condição mínima para a continuidade do ensino e para a manutenção do vínculo escolar. Ao mesmo tempo, como observam Oliveira, Silva e Pereira (2021), a experiência pandêmica trouxe nitidez às desigualdades digitais que atravessam a rede pública de ensino, mostrando a insuficiência de políticas anteriores. Emerge assim a necessidade de repensar o letramento digital como processo formativo que articula acesso, uso crítico e equidade (Santos, 2024).

2.1 FUNDAMENTOS TEÓRICOS DAS POLÍTICAS DE INCLUSÃO DIGITAL

As políticas públicas em educação podem ser compreendidas como o esforço do Estado em transformar princípios constitucionais em práticas sociais, com caminhos pelos quais se busca garantir o direito à aprendizagem. Elas funcionam como um fio condutor que pretende costurar equidade em meio às múltiplas desigualdades que atravessam o campo educacional. Nesse sentido, pensar a inclusão digital sob a ótica das políticas públicas é reconhecer que o acesso às tecnologias inscreve-se no horizonte maior da cidadania e da justiça social (Franco, 2021).

No contexto brasileiro, esse movimento está relacionado com o direito à educação, assegurado na Constituição Federal, e com o direito à informação, ambos reconhecidos como fundamentos de uma sociedade democrática. Como destacam Carvalho, David e Vasconcelos (2021), na medida que aproximam educação e tecnologia, as políticas públicas revelam sua dupla dimensão: de um lado, oferecem a promessa de ampliar a participação social e reduzir desigualdades; de outro, carregam tensões, na medida em que a ausência de continuidade ou a fragmentação das ações produz novas formas de exclusão. A inclusão digital é a inserção em redes de significados, nas quais se disputam sentidos de pertencimento e de poder.

Nesse horizonte, o letramento digital emerge como parte constitutiva do direito educacional. Mais do que capacitar para o uso instrumental de recursos, trata-se de formar sujeitos que saibam compreender criticamente as linguagens digitais, de posicionar-se diante das narrativas mediadas pela tecnologia e de utilizar os dispositivos digitais como ferramentas de expressão cidadã. Incluindo a dimensão digital como elemento de formação integral, as políticas públicas tensionam o próprio conceito de escola: de espaço de transmissão de saberes para espaço de produção de sentidos na cultura digital contemporânea (Franco, 2021; Carvalho; David; Vasconcelos, 2021).

2.2 LETRAMENTO DIGITAL: CONCEPÇÕES E SENTIDOS PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA

A discussão sobre inclusão digital nas escolas públicas exige distinguir dois conceitos frequentemente tratados como sinônimos, mas que guardam diferenças fundamentais: a alfabetização tecnológica e o letramento digital. A primeira refere-se ao domínio instrumental de dispositivos e softwares, isto é, à capacidade de operar máquinas e programas em sua dimensão técnica. Já o letramento digital, por sua vez, envolve a apropriação crítica das linguagens mediadas pelas tecnologias, possibilitando que o sujeito não apenas consuma conteúdos, mas seja capaz de interpretá-los, questioná-los e produzir novas narrativas em contextos digitais (Santos, 2024). Trata-se de uma competência que ultrapassa a habilidade técnica e se enraíza no campo da cultura e da cidadania.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece o letramento digital como uma das competências gerais da educação básica, situando-o como parte da formação integral dos estudantes. Quando enfatiza a capacidade de “utilizar diferentes linguagens – verbal, corporal, visual, sonora e digital – de forma crítica, significativa e ética” (Brasil, 2017), a BNCC desloca o digital do lugar de ferramenta auxiliar para o de campo de produção cultural e social. Essa orientação traduz a exigência de uma escola capaz de articular a experiência do estudante com os ambientes digitais em que já está inserido, formando sujeitos que transitem entre o local e o global, entre o presencial e o virtual.

Contudo, como problematiza Santos (2024), os caminhos do letramento digital na educação brasileira oscilam entre avanços e descaminhos. De um lado, há políticas e práticas pedagógicas que reconhecem o potencial formativo das tecnologias; de outro, persiste uma tendência reducionista de tratar o digital como mera ferramenta, desconsiderando sua dimensão crítica, ética e social. É nesse tensionamento que o letramento digital se constitui como desafio teórico e prático, revelando a necessidade de formar professores e alunos para o exercício da autoria e da cidadania digital.

André, Azevedo e Andrade (2023) apontam que as tecnologias emergentes, como a inteligência artificial, aumentam as possibilidades de personalização do ensino e de mediação da aprendizagem. Todavia, ressaltam que tais recursos só se efetivam quando compreendidos a partir do letramento digital: não basta inserir plataformas adaptativas ou algoritmos de recomendação se os sujeitos envolvidos não são capazes de interpretá-los criticamente. Nessa perspectiva, o letramento digital apresenta múltiplas dimensões – cognitivas, críticas, éticas e sociais – que se articulam no processo formativo. 

2.3 POLÍTICAS E PROGRAMAS DE INCLUSÃO DIGITAL NO BRASIL: UMA TRAJETÓRIA

A trajetória das políticas públicas brasileiras voltadas à inclusão digital na Educação Básica revela um caminho marcado por avanços, descontinuidades e reinvenções. Desde a década de 1990, o Estado brasileiro tem lançado iniciativas que buscaram democratizar o acesso às tecnologias nas escolas públicas, ora com maior amplitude, ora com visível fragilidade de execução. Essa linha histórica possibilita compreender como diferentes programas foram concebidos, quais objetivos declararam perseguir e quais limitações enfrentaram em sua implementação (Carvalho; David; Vasconcelos, 2021).

O marco inicial é o Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), instituído em 1997, que tinha como meta equipar escolas públicas com laboratórios de informática e dar condições para formação de professores para o uso pedagógico das tecnologias. Em 2007, foi criado o ProInfo Integrado, que ampliou as ações anteriores ao incluir cursos de capacitação docente e a produção de conteúdos digitais. Pouco tempo depois, o Programa Um Computador por Aluno (PROUCA), formalizado pela Lei nº 12.249/2010, buscou garantir laptops educacionais individuais a estudantes da rede pública, em uma tentativa de personalizar o acesso às tecnologias digitais (Souza; Vasconcelos, 2021).

Em paralelo, foi implementado o Programa Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão (GESAC), voltado à disponibilização de acesso gratuito à internet em comunidades e escolas, em específico nas áreas de vulnerabilidade social e regiões afastadas dos grandes centros. Mais recentemente, o Programa de Inovação Educação Conectada, instituído pelo Decreto nº 9.204/2017 e consolidado pela Lei nº 14.180/2021, passou a figurar como política estruturante, articulando infraestrutura, formação, recursos educacionais digitais e gestão escolar. A análise desses programas pode ser sintetizada na Tabela 1, que apresenta seus objetivos, alcances e principais limitações. 

Tabela 1 – Políticas e programas de inclusão digital na Educação Básica

ProgramaObjetivos declaradosAlcancesLimitações
ProInfo (1997)Informatizar escolas públicas e formar professores no uso pedagógico da tecnologia.Implantação de laboratórios de informática em várias escolas urbanas.Descontinuidade de investimentos e manutenção precária.
ProInfo Integrado (2007)Ampliar a formação docente e disponibilizar conteúdos digitais.Cursos de capacitação e criação de portais educacionais.Ações centralizadas e pouco enraizadas no cotidiano escolar.
PROUCA (2010)Oferecer um laptop para cada aluno da rede pública.Distribuição de equipamentos em escolas-piloto.Alto custo, problemas logísticos e descontinuidade do programa.
GESAC (2002)Garantir acesso gratuito à internet em escolas e comunidades vulneráveis.Conectividade em regiões afastadas e de difícil acesso.Limitações de banda larga, alcance restrito e falta de atualização tecnológica.
Educação Conectada (2017/2021)Ampliar conectividade, formação e recursos digitais integrados.Implementação nacional com metas de expansão até 2024.Ainda em fase de consolidação; dependência de infraestrutura local.

Fonte: Carvalho, David e Vasconcelos (2021) e Souza; Vasconcelos (2021).

A trajetória das políticas de inclusão digital mostra um movimento pendular: a cada avanço – seja pela criação de programas robustos, seja pela incorporação do digital como eixo pedagógico – surgem também as marcas da descontinuidade, da instabilidade política e das desigualdades estruturais que limitam o alcance das ações. Esse percurso histórico ajuda a compreender por que a inclusão digital na escola pública brasileira ainda se apresenta como um campo em permanente construção.

2.4 INCLUSÃO DIGITAL EM TEMPOS DE PANDEMIA: REVELAÇÕES E CONTRADIÇÕES

A pandemia da COVID-19 atuou como um espelho que devolveu à sociedade a imagem nítida de suas desigualdades digitais. Se antes a falta de acesso às tecnologias era percebida como um entrave silencioso, o fechamento das escolas e a adoção emergencial do ensino remoto escancararam as distâncias que separam estudantes, professores e famílias no direito à educação. Nesse contexto, como destacam Carvalho, David e Vasconcelos (2021), a conectividade deixou de ser uma possibilidade pedagógica complementar e se tornou condição mínima de existência escolar.

Para muitos professores, o período significou jornadas de trabalho intensificadas, custos pessoais com equipamentos e internet e uma constante reinvenção de práticas pedagógicas. Para os estudantes, sobretudo da rede pública, a falta de dispositivos, a má qualidade da conexão e a ausência de espaços adequados para estudo configuraram barreiras cotidianas. Já as famílias, muitas vezes, viram-se obrigadas a improvisar soluções entre dividir celulares, compartilhar dados móveis ou conciliar responsabilidades domésticas com a mediação do aprendizado. Como observam Oliveira, Silva e Pereira (2021), o ensino remoto aprofundou as contradições da exclusão digital, ao mesmo tempo em que deixou clara a resiliência e a criatividade de sujeitos diante da adversidade. Essas dificuldades estão descritas na tabela 2, que organiza os impactos mais recorrentes vivenciados no período pandêmico por diferentes atores educacionais.

Tabela 2 – Dificuldades da inclusão digital em tempos de pandemia

AtoresPrincipais dificuldades
ProfessoresSobrecarga de trabalho; falta de formação específica em TDIC; necessidade de custear equipamentos e internet por conta própria.
EstudantesAusência de dispositivos adequados; acesso precário ou inexistente à internet; falta de estímulo e risco de evasão escolar.
FamíliasDivisão de equipamentos entre vários membros; custos adicionais de conectividade; conciliação de tarefas domésticas com apoio ao ensino remoto.
Infraestrutura escolarDescontinuidade de políticas; ausência de plataformas unificadas; baixa cobertura de conectividade em áreas rurais e periféricas.

Fonte: Oliveira, Silva e Pereira (2021); Carvalho, David e Vasconcelos (2021).

As contradições da pandemia não foram apenas de ordem estrutural. Elas colocaram a vista de todos as desigualdades simbólicas: enquanto alguns puderam transformar suas casas em salas de aula digitais, outros permaneceram excluídos, sem voz nem visibilidade. O que se descortina, portanto, é um campo educacional tensionado entre a promessa da escola conectada e a realidade de uma exclusão que persiste em múltiplas camadas.

2.5 TENSÕES E IMPLICAÇÕES PARA O CAMPO EDUCACIONAL

A análise das políticas públicas brasileiras de inclusão digital aponta para um hiato persistente entre o que é prescrito nos documentos normativos e o que é efetivamente vivido no cotidiano das escolas. Enquanto planos e programas anunciam a promessa de uma educação conectada e equitativa, a realidade mostra que a presença da tecnologia não garante, por si só, a aprendizagem. Como observa Franco (2021), há uma distância entre os enunciados de democratização e a concretude das condições materiais que sustentam a escola pública.

As implicações desse descompasso reverberam em três dimensões fundamentais. No currículo, a integração das tecnologias digitais acontece mais como expectativa do que como prática consolidada, e isso fragiliza a formação crítica dos estudantes. Na formação docente, a ausência de políticas continuadas compromete a apropriação pedagógica das ferramentas digitais, deixando professores entre a improvisação e a sobrecarga. Na dimensão da equidade, o acesso desigual a dispositivos e conectividade perpetua exclusões históricas, agora transpostas para o ambiente digital (Santos, 2024).

As tensões também se expressam na contraposição entre acesso e uso crítico: estar conectado não significa estar incluído, pois a inclusão verdadeira depende da capacidade de interpretar, questionar e produzir sentido nos espaços digitais. A  expansão da conectividade não assegura, por si só, aprendizagem, uma vez que a mediação pedagógica e a formação para o letramento digital continuam sendo condições indispensáveis (André; Azevedo; Andrade, 2023).

Essas tensões podem ser visualizadas no Mapa conceitual da Figura 1, que sintetiza os principais contrastes identificados entre o plano normativo e a realidade prática, entre o acesso às tecnologias e a sua apropriação pedagógica.

Figura 1 – Tensões da inclusão digital no campo educacional

Fonte: adapt. Franco (2021); Santos (2024); André; Azevedo; Andrade (2023).

Compreender as tensões da inclusão digital significa reconhecer que ela não se limita a métricas de acesso, mas se projeta sobre a formação de sujeitos críticos e autônomos. A escola, nesse horizonte, torna-se espaço de disputa simbólica e material, em que o digital pode ser tanto instrumento de emancipação quanto de reprodução de desigualdades.

3. CONCLUSÃO

A análise das políticas públicas brasileiras de inclusão digital na Educação Básica demonstra que a questão não pode ser reduzida a índices de conectividade ou à mera distribuição de equipamentos. O percurso histórico é moldado por programas ProInfo, PROUCA, GESAC e Educação Conectada, mas também por descontinuidades, fragmentações e promessas não plenamente realizadas. Mais do que a materialidade das ações, o que está posto é o modo como essas políticas concebem o papel do digital na formação cidadã e na própria função social da escola.

A pandemia da COVID-19 surge como ponto de inflexão, desvelando de forma incontornável as desigualdades digitais e impondo à escola pública o desafio de reinventar-se diante da urgência. Professores, estudantes e famílias viveram, em seu cotidiano, os limites de um sistema educacional que ainda não consolidou estratégias robustas de inclusão digital. Essa experiência deixou claro que a conectividade, embora necessária, não é suficiente: sem mediação pedagógica, formação docente e currículos sensíveis ao digital, o acesso corre o risco de converter-se apenas em estatística.

As reflexões aqui desenvolvidas nos levam a concluir que a inclusão digital precisa ser compreendida como um processo formativo e político, que articula dimensões técnicas, críticas, éticas e sociais do letramento digital. Isso implica reconhecer tensões estruturais – entre o prescrito e o vivido, entre o acesso e a apropriação crítica, entre a promessa de inovação e a persistência da desigualdade –como desafios constitutivos do campo educacional.

Se a tecnologia pode ser tanto espaço de emancipação quanto de reprodução das exclusões, cabe à escola disputar esse território. A verdadeira política de inclusão digital será aquela capaz de transformar dispositivos em experiências de sentido, redes em práticas de solidariedade e conectividade em aprendizagem.

4. REFERÊNCIAS

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