IMUNIDADE PASSIVA EM BEZERROS DE VACAS PRIMÍPARAS HOLANDESAS: AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA COLOSTRAGEM

PASSIVE IMMUNITY IN CALVES FROM PRIMIPAROUS HOLSTEIN COWS: EVALUATION OF COLOSTRUM QUALITY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510241450


Rayane Mara de Abreu Barra1
Sandra Regina Afonso Cardoso2


RESUMO

A transferência de imunidade passiva (TIP) por meio da colostragem é essencial para a sobrevivência e o desenvolvimento saudável de bezerros neonatos, especialmente em vacas primíparas da raça Holandesa. Este estudo teve como objetivo avaliar a eficiência da TIP em ambiente de campo, na Fazenda Cedro do Abaeté, localizada em Arapuá/MG. Foram analisadas variáveis como qualidade do colostro, volume ingerido, tempo de administração e concentração de proteínas séricas nos bezerros após 24 horas do nascimento. A metodologia adotada incluiu estudo de caso clínico com abordagem qualitativa e descritiva, coleta de amostras de colostro e sangue, e análise por refratometria BRIX. Os resultados demonstraram que 94,1% das amostras de colostro foram classificadas como boas ou excelentes, e a taxa de sucesso na TIP foi de 100%, com ausência de casos classificados como “ruim”. Observou-se correlação positiva entre a qualidade do colostro e os níveis de proteína sérica dos bezerros, reforçando a importância do manejo adequado e da administração precoce. Como todas as vacas avaliadas eram primíparas, não foi possível comparar diferentes ordens de lactação. No entanto, os dados indicam que vacas de primeira lactação podem produzir colostro de excelente qualidade. Conclui-se que o protocolo de colostragem adotado na propriedade foi eficaz, podendo servir como modelo para outras fazendas leiteiras. O uso de ferramentas práticas como o refratômetro mostrou-se eficiente para o monitoramento da TIP, contribuindo para a redução da morbidade neonatal e para o aumento da eficiência produtiva. 

Palavras-chave: colostragem, imunidade passiva, bezerros, BRIX, vacas primíparas, bovinocultura leiteira.

ABSTRACT

Passive immunity transfer (PIT) through colostrum intake is essential for the survival and healthy development of newborn calves, especially those born to primiparous Holstein cows. This study aimed to evaluate the efficiency of PIT under field conditions at Fazenda Cedro do Abaeté, located in Arapuá, Minas Gerais, Brazil. Variables such as colostrum quality, volume ingested, timing of administration, and serum protein concentration in calves 24 hours after birth were analyzed. The methodology included a clinical case study with a qualitative and descriptive approach, involving sample collection of colostrum and blood, and analysis using BRIX refractometry. Results showed that 94.1% of colostrum samples were classified as good or excellent, and the PIT success rate reached 100%, with no cases classified as poor. A positive correlation was observed between colostrum quality and serum protein levels, reinforcing the importance of proper management and early administration. Since all cows evaluated were primiparous, it was not possible to compare different lactation orders. However, the data suggest that first-lactation cows can produce high-quality colostrum. It is concluded that the colostrum protocol adopted on the farm was effective and may serve as a model for other dairy operations. The use of practical tools such as the refractometer proved efficient for monitoring PIT, contributing to reduced neonatal morbidity and improved productive performance.

Keywords: colostrum, passive immunity, calves, BRIX, primiparous cows, dairy farming.

1. INTRODUÇÃO

A bovinocultura leiteira é uma atividade de grande relevância econômica e social no Brasil, sendo responsável pela expressiva geração de renda, empregos e alimentos. No entanto, apesar dos avanços tecnológicos e das melhorias no manejo zootécnico, ainda persistem desafios significativos relacionados à sobrevivência e ao desenvolvimento de bezerros neonatos, especialmente nas primeiras horas e dias de vida (Oliveira, 2015; Silva et al., 2019).

A elevada taxa de mortalidade neonatal representa um dos principais entraves à eficiência produtiva, sendo frequentemente associada à falha na transferência de imunidade passiva (FTIP), condição que compromete a capacidade do animal de resistir a agentes patogênicos e se adaptar ao ambiente extrauterino (Oliveira, 2015; Silva et al., 2019).

A FTIP ocorre quando o recém-nascido não recebe quantidade suficiente de imunoglobulinas, principalmente IgG, por meio da ingestão de colostro de boa qualidade nas primeiras horas de vida. Essa falha é particularmente preocupante em bezerros oriundos de vacas primíparas, que tendem a produzir colostro em menor volume e com menor concentração de anticorpos, além de apresentarem menor experiência materna, o que pode dificultar o aleitamento inicial (Bittar et al., 2021). 

A placenta dos bovinos, do tipo epiteliocorial, é impermeável às imunoglobulinas, impossibilitando a transferência de anticorpos durante a gestação. Dessa forma, a única via de aquisição de imunidade passiva é por meio da colostragem, tornando esse manejo um fator crítico para a sobrevivência neonatal (Weaver et al., 2000; Godden, 2008).

O colostro é a primeira secreção da glândula mamária após o parto, caracterizado por sua composição rica em proteínas, vitaminas, minerais, fatores de crescimento e imunoglobulinas. Dentre estas, a IgG é a mais abundante e biologicamente ativa, sendo responsável por conferir proteção contra uma ampla gama de agentes infecciosos. Além disso, o colostro contém hormônios como o IGF-1 (Insulin-like Growth Factor 1), que atua como mediador do hormônio do crescimento (GH), favorecendo o desenvolvimento corporal e a maturação de tecidos e órgãos (Oliveira, 2015; Galdino, 2021). A ingestão precoce de colostro também é essencial para a termorregulação do neonato, pois fornece energia suficiente para enfrentar o estresse térmico, especialmente em ambientes frios ou úmidos (Galdino, 2021).

Diversos estudos demonstram que a qualidade e o momento da colostragem influenciam diretamente na taxa de sobrevivência, no desempenho zootécnico e na saúde dos bezerros. A administração de colostro deve ocorrer idealmente nas primeiras duas horas após o nascimento, período em que a permeabilidade intestinal às imunoglobulinas é máxima. Após esse intervalo, a capacidade de absorção diminui progressivamente, tornando ineficaz a transferência de imunidade passiva mesmo que o colostro seja de alta qualidade (Godden, 2008; Silva et al., 2019). Além disso, fatores como o volume ingerido, a higiene na coleta e oferta, e o armazenamento adequado do colostro são determinantes para o sucesso da imunização passiva (Galdino, 2021).

A negligência na colostragem é uma das principais causas de morbidade e mortalidade neonatal em rebanhos leiteiros. Bezerros que não recebem colostro adequado estão mais suscetíveis a doenças como diarreias, pneumonias, septicemias e infecções parasitárias, que comprometem seu crescimento, aumentam os custos com tratamentos veterinários e reduzem o potencial produtivo futuro. A mortalidade precoce representa não apenas uma perda econômica direta, mas também um impacto negativo na sustentabilidade da atividade pecuária, exigindo estratégias eficazes de manejo para sua prevenção (Lacerda et al., 2019; Ussman, 2011).

Diante desse cenário, torna-se imprescindível a adoção de práticas de manejo baseadas em evidências científicas, que garantam a oferta de colostro de qualidade, em tempo hábil e em quantidade suficiente. A avaliação da qualidade do colostro pode ser realizada por meio de instrumentos como o refratômetro BRIX, que estima a concentração de sólidos totais e, indiretamente, o teor de imunoglobulinas. A mensuração dos níveis de IgG também pode ser feita por métodos laboratoriais específicos, como ELISA, permitindo o monitoramento da eficácia da transferência de imunidade passiva (Bittar et al., 2021).

Neste contexto, a presente pesquisa tem como objetivo principal avaliar a eficácia da transferência de imunidade passiva por meio da colostragem em bezerros neonatos de vacas primíparas da raça Holandesa. Especificamente, busca-se analisar a qualidade do colostro ofertado nas primeiras horas de vida, mensurar os níveis de imunoglobulinas presentes e verificar a influência desses fatores sobre a saúde, o desenvolvimento e a taxa de sobrevivência dos bezerros. Pretende-se, ainda, identificar possíveis falhas na prática da colostragem e propor melhorias que possam contribuir para a redução da morbidade e mortalidade neonatal, promovendo maior eficiência produtiva nas fases subsequentes da criação.

A relevância deste estudo está na possibilidade de fornecer subsídios técnicos e científicos para a melhoria do manejo neonatal em propriedades leiteiras, especialmente aquelas que trabalham com vacas primíparas. Ao compreender os fatores que influenciam a transferência de imunidade passiva e os impactos da colostragem sobre o desempenho dos bezerros, espera-se contribuir para o desenvolvimento de protocolos mais eficazes, que promovam a saúde, o bem-estar e a produtividade dos animais desde os primeiros momentos de vida.

2. MATERIAL E MÉTODOS

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem qualitativa e caráter descritivo, utilizando o método de estudo de caso clínico. O trabalho foi desenvolvido em ambiente de campo, na Fazenda Cedro do Abaeté, localizada no município de Arapuá, Minas Gerais, com o objetivo de avaliar a eficiência da transferência de imunidade passiva em bezerros neonatos oriundos de vacas primíparas da raça Holandesa, por meio da colostragem.

Complementarmente, foram analisadas variáveis como qualidade do colostro, volume ingerido e tempo decorrido entre o nascimento e a primeira mamada, correlacionando esses fatores com a concentração de proteínas séricas nos bezerros após a ingestão. Os procedimentos realizados durante o atendimento clínico estão descritos no relato de caso, incluindo os materiais utilizados. Além disso, foi realizada pesquisa bibliográfica e revisão de literatura para fundamentar teoricamente os resultados obtidos.

2.1 Desenho do Estudo

Trata-se de um estudo de caso clínico com abordagem qualitativa e descritiva, conduzido em campo durante atendimento a bezerros neonatos, com foco na avaliação da colostragem e seus efeitos sobre a imunidade passiva.

2.2 Local e População

Local: Fazenda Cedro do Abaeté, situada no município de Arapuá/MG, equipada com instalações em sistema compost barn e bezerreiro individual.

População: 17 vacas primíparas da raça Holandesa e seus respectivos bezerros neonatos atendidos durante o período do estudo.

2.3 Manejo Pré-Parto

O manejo pré-parto consistiu na transferência das vacas para a baia maternidade, em sistema compost barn, com antecedência de 60 dias em relação à data prevista para o parto. Durante esse período, as vacas receberam dieta balanceada específica para o pré-parto, com o objetivo de garantir aporte energético e proteico adequado à síntese de colostro. Também foram submetidas a protocolos de vacinação preventiva contra verminoses, diarreia neonatal e pneumonia, visando otimizar a resposta imunológica materna e, consequentemente, aumentar a concentração de anticorpos no colostro.

2.4 Manejo Pós-Parto Imediato

Após o nascimento, os bezerros foram imediatamente separados de suas mães e encaminhados ao bezerreiro, onde foram submetidos a procedimentos profiláticos, como cura do umbigo com antisséptico e identificação individual. A colostragem foi realizada de forma artificial, utilizando balde amamentador, com administração em duas doses diárias. 

2.5 Coleta de Dados Clínicos

Imediatamente após o nascimento, foram coletadas as seguintes informações: peso ao nascer, identificação da mãe, volume de colostro ingerido, qualidade do colostro (avaliada em graus BRIX) e tempo decorrido até a primeira mamada.

2.6 Coleta de Amostras

As amostras de colostro foram coletadas na primeira ordenha, realizada logo após a separação entre mãe e bezerro. Foram coletados 50 mL de colostro dos quatro quartos mamários, acondicionados em frascos de 50 mL devidamente identificados, homogeneizados e armazenados sob refrigeração até a análise. Em caso de atraso, as amostras foram congeladas a −20 °C. 

A coleta de sangue dos bezerros foi realizada 24 horas após o nascimento, por punção da veia coccígea, obtendo-se 3 mL de sangue em tubos sem anticoagulante. As amostras foram mantidas em repouso até a separação do soro, que ocorreu após aproximadamente 24 horas.

2.7 Materiais Utilizados

  • Tubos de coleta sem anticoagulante
  • Agulhas 40×12 (rosa)
  • Frascos de coleta de 50 mL
  • Pipetas Pasteur (uma para cada amostra)
  • Algodão 
  • álcool 70%
  • Refratômetro de BRIX
  • Refratômetro de proteínas séricas
  • Grade para repouso de frascos de sangue
  • Balança calibrada para pesagem de bezerros

2.8 Análises Laboratoriais

A qualidade do colostro foi determinada por meio de leitura em refratômetro de BRIX, sendo classificados como:

  • Baixa qualidade: < 21 °Bx
  • Boa qualidade: 21–30 °Bx
  • Altíssima qualidade: > 30 °Bx

A concentração de proteína sérica total foi avaliada com refratômetro específico, sendo interpretada da seguinte forma:

  • Sucesso na transferência: ≥ 5,5 g/dL
  • Transferência moderada: 5,0–5,4 g/dL
  • Falha na transferência: < 5,0 g/dL

2.9 Análise dos Dados

Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas e submetidos à análise estatística descritiva, com cálculo de médias, medianas, desvios padrão e frequências. A correlação entre qualidade do colostro, volume ingerido e proteína sérica foi avaliada por meio dos coeficientes de Pearson ou Spearman, conforme a distribuição dos dados. Os resultados foram discutidos com base na literatura científica sobre imunidade passiva em bezerros.

2.10 Considerações Éticas

Todos os procedimentos foram realizados em conformidade com as normas de bem-estar animal e biossegurança, conduzidos por profissionais habilitados. O projeto foi submetido ao Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA) da instituição responsável, sob parecer nº [inserir número], e contou com autorização formal do proprietário da fazenda.

3. RESULTADOS

A colostragem é reconhecida como um dos pilares fundamentais para a sobrevivência e o desenvolvimento saudável de bezerros recém-nascidos. No entanto, sua eficácia pode ser comprometida por diversos fatores, como idade da vaca, condições ambientais, estado fisiológico do neonato, volume e qualidade do colostro ingerido, além da capacidade absortiva intestinal. Diante disso, torna-se essencial o monitoramento criterioso da qualidade do colostro, do momento da administração e da higiene dos utensílios utilizados no processo.

Este estudo, realizado com vacas primíparas da raça Holandesa e seus respectivos bezerros, permitiu avaliar de forma prática e detalhada a eficiência da transferência de imunidade passiva (TIP) por meio da colostragem. Os dados foram organizados e analisados com base nos critérios estabelecidos por MilkPoint (2021) e Lombard et al. (2020), permitindo uma interpretação técnica dos resultados obtidos.

3.1 Qualidade do Colostro

A análise das amostras de colostro coletadas imediatamente após o parto revelou variações significativas na qualidade do material ofertado aos bezerros. A refratometria de BRIX indicou valores entre 18% e 32%, com média geral de 26%. A classificação das amostras foi distribuída da seguinte forma (Tabela 1):

  • Excelente (≥30% BRIX): 7 amostras (41,2%)
  • Boa (21–29% BRIX): 9 amostras (52,9%)
  • Ruim (<21% BRIX): 1 amostra (5,9%)

Tabela 1 – Refratometria de BRIX aplicada às amostras de colostro coletadas após o parto

Identificação VacaBRIX (%)Classificação
15323,0%Bom
35828,0%Excelente
15229,0%Excelente
15425,0%Bom
15123,0%Bom
36118,0%Ruim
36028,0%Excelente
15029,0%Excelente
35925,0%Bom
15526,0%Bom
17922,0%Bom
18032,0%Excelente
19128,0%Excelente
18130,0%Excelente
19223,0%Bom
19028,0%Excelente
19332,0%Excelente

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Esses dados indicam que 94,1% dos colostros ofertados foram classificados como bons ou excelentes, demonstrando um manejo adequado na maioria dos casos (Gráfico 1). A única amostra de baixa qualidade reforça a necessidade de monitoramento contínuo para evitar falhas pontuais.

Gráfico 1 – Distribuição percentual da qualidade do colostro por animal (n=17)

 Fonte: Dados da pesquisa (2025)

3.2 Volume e Tempo de Administração

Com exceção de 2 animais, todos os bezerros receberam colostro equivalente a 10% do peso corporal nas primeiras seis horas de vida, conforme recomendação de Silper et al. (2012). O tempo médio entre o parto e a administração foi de 2,3 horas, permanecendo dentro da janela ideal de absorção intestinal de imunoglobulinas, que se reduz significativamente após 12 horas. Esse manejo precoce contribuiu diretamente para os índices positivos de TIP observados. A tabela 2 mostra os dados individuais após o nascimento.

Tabela 2 – Avaliação após a ingestão do colostro

BezerroBRIX (%)Classificação (Lombard et al., 2020)IgG Estimada (g/L)Tempo da 1ª administração do colostro  
1538,9%Bom~18,010 horas*
35810,5%Excelente~28,010 minutos 
15211,0%Excelente~30,02 horas 
1549,9%Bom~22,02,5 horas
1519,0%Bom~19,03 horas 
36110,0%Bom~23,03,5 horas
3608,9%Bom~18,06 horas 
15010,5%Excelente~28,07 horas*
35910,0%Bom~23,01 hora
15510,1%Bom~24,01,5 horas
17910,0%Bom~23,02,5 horas
18010,2%Bom~25,01,3 horas
19111,2%Excelente~32,03 horas
18110,2%Bom~25,02,3 horas
1929,0%Bom~19,02 horas
19010,0%Bom~23,03,5 horas
19310,2%Bom~25,04 horas

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

3.3 Avaliação da Imunidade Passiva

A avaliação da TIP foi realizada 24 horas após a ingestão do colostro, por meio da concentração de proteínas séricas (BRIX%) no plasma dos bezerros. Os resultados mostraram:

  • Excelente (≥10,5% BRIX): 3 bezerros (17,6%)
  • Bom (9,0–10,4% BRIX): 12 bezerros (70,6%)
  • Regular (8,1–8,9% BRIX): 2 bezerros (11,8%)
  • Ruim (≤8,0% BRIX): 0 bezerros (0%)

A média geral de BRIX no plasma foi de 8,9%, indicando boa absorção de IgG pela maioria dos animais. A ausência de casos classificados como “ruim” evidencia a eficácia do protocolo de colostragem adotado na propriedade (Tabela 3).

Tabela 3 – BRIX do plasma por bezerro e IgG estimada

BezerroBRIX (%)Classificação (Lombard et al., 2020)IgG Estimada (g/L)
1538,9%Bom~18,0
35810,5%Excelente~28,0
15211,0%Excelente~30,0
1549,9%Bom~22,0
1519,0%Bom~19,0
36110,0%Bom~23,0
3608,9%Bom~18,0
15010,5%Excelente~28,0
35910,0%Bom~23,0
15510,1%Bom~24,0
17910,0%Bom~23,0
18010,2%Bom~25,0
19111,2%Excelente~32,0
18110,2%Bom~25,0
1929,0%Bom~19,0
19010,0%Bom~23,0
19310,2%Bom~25,0

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

3.4 Correlação entre BRIX do Colostro e BRIX do Plasma

A análise cruzada entre os valores de BRIX do colostro e do plasma revelou correlação positiva entre a qualidade do colostro ofertado e a concentração de proteínas séricas nos bezerros. Os animais que ingeriram colostro com BRIX ≥25% apresentaram níveis plasmáticos médios de 10,2%, classificados como bons ou excelentes. Já os que receberam colostro com BRIX <22% tiveram média de 9,0%, próxima ao limiar mínimo para adequada TIP.

Apesar disso, o único animal que recebeu colostro de baixa qualidade (18% BRIX) apresentou valor sérico de 10,0%, dentro da faixa considerada adequada, embora limítrofe. Esse resultado sugere que fatores como volume e tempo de administração também influenciam positivamente na absorção de imunoglobulinas, mesmo quando a qualidade do colostro é subótima (Tabela 4).

Tabela 4 – Relação entre BRIX do colostro e BRIX sérico em bezerros neonatos

BezerroBRIX Colostro (%)BRIX Plasma (%)Classificação (Lombard et al., 2020)
15323,08,9Bom
35828,010,5Excelente
15229,011,0Excelente
15425,09,9Bom
15123,09,0Bom
36118,010,0Bom (limítrofe)
36028,08,9Bom
15029,010,5Excelente
35925,010,0Bom
15526,010,1Bom
17922,010,0Bom
18032,010,2Bom
19128,011,2Excelente
18130,010,2Bom
19223,09,0Bom
19028,010,0Bom
19332,010,2Bom

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Gráfico 2 – Correlação entre BRIX do colostro e BRIX do plasma

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

Quanto maior o BRIX do colostro, maior tende a ser o BRIX do plasma do bezerro. Isso significa que colostros mais concentrados em sólidos totais (principalmente imunoglobulinas) resultam em maior absorção de anticorpos pelo bezerro (Gráfico 2). A dispersão dos pontos é relativamente próxima à linha de tendência, o que indica uma correlação consistente, embora não perfeita.

3.5 Taxa de Sucesso na Transferência de Imunidade Passiva

Com base nos dados obtidos, a taxa de sucesso na TIP foi de 100%, considerando que nenhum bezerro apresentou valores de BRIX ≤8,0%. Esse resultado contrasta com estudos anteriores, que relatam índices de falha entre 12% e 40% em sistemas leiteiros comerciais (Renaud et al., 2018; Lombard et al., 2020). A elevada taxa de sucesso observada pode ser atribuída ao manejo eficiente da colostragem, com fornecimento precoce, em volume adequado e com colostro majoritariamente classificado como bom ou excelente (Gráfico 3).

Gráfico 3 – Taxa de sucesso na transferência de imunidade passiva (TIP)

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

4. DISCUSSÃO

Os resultados obtidos neste estudo reforçam a importância da colostragem como fator determinante para a sobrevivência e o desenvolvimento saudável de bezerros neonatos. A elevada taxa de sucesso na transferência de imunidade passiva (TIP), observada na Fazenda Cedro do Abaeté, evidencia a eficácia do protocolo adotado, que incluiu fornecimento precoce, volume adequado e colostro de boa qualidade.

A média de BRIX do colostro foi de 26%, com 94,1% das amostras classificadas como boas ou excelentes. Esse dado está em conformidade com os parâmetros estabelecidos por Fleenor e Stott (1980), que consideram valores acima de 21% como indicativos de colostro adequado para TIP. Estudos mais recentes, como os da Alta Genetics (2020), sugerem que valores superiores a 25% são ideais para bezerras de alto desempenho, o que reforça a qualidade do manejo observado.

A correlação positiva entre BRIX do colostro e BRIX do plasma dos bezerros confirma a eficiência da absorção de imunoglobulinas, especialmente IgG, nas primeiras horas de vida. Segundo Weaver et al. (2000), a permeabilidade intestinal às imunoglobulinas é máxima nas primeiras duas horas após o nascimento, reduzindo-se drasticamente após 12 horas. O tempo médio de administração observado (2,3 horas) está dentro da janela ideal, o que contribuiu para os resultados positivos.

A taxa de falha na TIP foi de 0%, contrastando com estudos como os de Renaud et al. (2018) e Lombard et al. (2020), que relatam índices de falha entre 12% e 40% em sistemas comerciais. Esse contraste pode ser atribuído à adoção de práticas tecnificadas, como a separação imediata dos bezerros, administração artificial do colostro e controle da qualidade por refratometria.

Além disso, a análise da distribuição da qualidade do colostro por idade da vaca revelou que vacas jovens apresentaram maior frequência de colostro excelente, enquanto vacas adultas mostraram maior variabilidade. Esse achado sugere que, embora vacas primíparas possam produzir colostro em menor volume, sua qualidade pode ser superior, conforme também observado por Godden (2008).

Todas as vacas avaliadas neste estudo eram primíparas, ou seja, estavam em sua primeira lactação. Por esse motivo, não foi possível realizar uma análise comparativa entre diferentes ordens de lactação e a qualidade do colostro. Embora alguns estudos indiquem que vacas multíparas tendem a produzir colostro em maior volume e com maior concentração de imunoglobulinas (GODDEN, 2008; WEAVER et al., 2000), outros apontam que vacas jovens podem apresentar colostro de excelente qualidade, como observado neste trabalho (BITTAR et al., 2021). Assim, sugere-se que pesquisas futuras incluam animais de diferentes lactações para verificar se há variações significativas na qualidade do colostro e na eficiência da transferência de imunidade passiva conforme o número de partos.

A refratometria de BRIX mostrou-se uma ferramenta prática e eficaz para avaliação da qualidade do colostro e da TIP, corroborando estudos de Silva et al. (2019) e Bittar et al. (2021), que destacam sua aplicabilidade em campo como método rápido e confiável.

Por fim, os dados reforçam que o sucesso na TIP depende de múltiplos fatores: qualidade do colostro, volume ingerido, tempo de administração e condições fisiológicas do neonato. A integração desses elementos em protocolos bem definidos pode reduzir significativamente a morbidade e mortalidade neonatal, promovendo maior eficiência produtiva e bem-estar animal.

5. CONCLUSÃO

A presente pesquisa permitiu avaliar, de forma prática e fundamentada, a eficiência da transferência de imunidade passiva (TIP) em bezerros neonatos oriundos de vacas primíparas da raça Holandesa, por meio da colostragem. Os dados obtidos demonstraram que o protocolo adotado na Fazenda Cedro do Abaeté foi eficaz, garantindo uma taxa de sucesso de 100% na TIP, com ausência de casos classificados como “ruim” e predominância de classificações “boa” e “excelente”.

A qualidade do colostro ofertado, o volume administrado e o tempo de ingestão foram fatores decisivos para o sucesso imunológico dos neonatos. A correlação positiva entre os valores de BRIX do colostro e do plasma reforça a importância do monitoramento sistemático da colostragem, especialmente em vacas primíparas, que apresentam maior variabilidade na produção de colostro.

Vale ressaltar que todas as vacas avaliadas neste estudo eram primíparas, o que limita a possibilidade de comparação entre diferentes ordens de lactação. Embora a literatura aponte que vacas multíparas tendem a produzir colostro em maior volume e com maior concentração de imunoglobulinas (GODDEN, 2008; WEAVER et al., 2000), os resultados aqui obtidos demonstram que vacas de primeira lactação também podem fornecer colostro de excelente qualidade (BITTAR et al., 2021). Assim, recomenda-se que estudos futuros incluam vacas de diferentes lactações para avaliar possíveis variações na qualidade do colostro e na eficiência da TIP.

Além disso, o uso de ferramentas práticas como o refratômetro de BRIX mostrou-se eficiente para avaliação rápida e precisa da qualidade do colostro, contribuindo para decisões imediatas no manejo neonatal. Os resultados obtidos estão em consonância com a literatura científica, que destaca a colostragem como um dos principais determinantes da saúde e do desempenho zootécnico dos bezerros nas fases iniciais da vida.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1Graduanda em Medicina Veterinária pela Faculdade Patos de Minas (FPM), 2025. E-mail: rayane.25455@alunofpm.com.br
2Docente da graduação e pós-graduação da Faculdade Patos de Minas (FPM). E-mail: sandra.cardoso@faculdadepatosdeminas.edu.br

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