THE IMPORTANCE OF FORENSIC DENTISTRY IN THE IDENTIFICATION OF CHARRED BODIES THROUGH THE ANALYSIS OF THE DENTAL ARCH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511151827
Andrezza Xayane Baches da Silva1
Eduarda Gabrielle Jati Guimarães2
Maria Helena Alves de Freitas3
Orientador: Prof. Antônio Bruno Aguiar Azevedo4
Resumo
O trabalho aborda a relevância da odontologia legal na identificação post-mortem de corpos carbonizados por meio da análise da arcada dentária, enfatizando o papel crucial da perícia odontológica para garantir a identificação precisa em contextos forenses. A pesquisa realizou uma revisão integrativa da literatura científica brasileira dos últimos anos, utilizando bases como SciELO e PubMed para selecionar estudos, relatos de casos e documentos oficiais que abordam os avanços tecnológicos, os desafios éticos, legais e documentais, além da aplicação prática da odontologia legal no Brasil. Os resultados indicam que a resistência física da arcada dentária a altas temperaturas e a qualidade da documentação odontológica são fundamentais para a identificação eficiente, enquanto tecnologias digitais, radiografias avançadas e bancos de dados informatizados aumentam a agilidade e a segurança jurídica das perícias. A análise também destaca casos emblemáticos que comprovam a eficácia da técnica e ressalta a necessidade de padronização documental, formação contínua dos profissionais e investimentos em tecnologias para superar limitações atuais. Conclui-se que a odontologia legal é indispensável na identificação de vítimas carbonizadas, e sua consolidação depende da integração entre conhecimento técnico, avanços tecnológicos e rigor ético, assegurando justiça e dignidade às vítimas e suas famílias.
Palavras-chave: odontologia legal. identificação post-mortem. arcada dentária. perícia forense. documentação odontológica.
Summary
The work addresses the relevance of forensic dentistry in the post-mortem identification of charred bodies through the analysis of the dental arch, emphasizing the crucial role of dental expertise to ensure accurate identification in forensic contexts. The research carried out an integrative review of the Brazilian scientific literature in recent years, using databases such as SciELO and PubMed to select studies, case reports and official documents that address technological advances, ethical, legal and documentary challenges, as well as the practical application of forensic dentistry in Brazil. The results indicate that the physical resistance of the dental arch to high temperatures and the quality of dental documentation are fundamental for efficient identification, while digital technologies, advanced radiographs and computerized databases increase the agility and legal certainty of expert examinations. The analysis also highlights emblematic cases that prove the effectiveness of the technique and emphasizes the need for document standardization, continuous training of professionals and investments in technologies to overcome current limitations. It is concluded that forensic dentistry is indispensable in the identification of charred victims, and its consolidation depends on the integration between technical knowledge, technological advances and ethical rigor, ensuring justice and dignity to victims and their families.
Keywords: forensic dentistry. post-mortem identification. dental arch. forensic expertise. dental documentation.
1 INTRODUÇÃO
A identificação de corpos carbonizados representa um dos maiores desafios das ciências forenses e da medicina legal, especialmente em contextos de desastres, acidentes em massa ou crimes violentos em que os corpos ficam severamente destruídos. Historicamente, a odontologia legal consolidou-se como uma das áreas forenses mais eficazes para a identificação humana, graças à resistência física única da arcada dentária e dos materiais restauradores ao calor extremo, que frequentemente preservam características fundamentais mesmo quando outras técnicas, como a papiloscopia e a análise genética, se mostram inviáveis ou insuficientes (MELANI, 1998; MOREIRA; ROCHA, 2023).
No Brasil e no mundo, a perícia odontológica tem atuado decisivamente para devolver nomes e histórias às vítimas e amparar suas famílias no processo doloroso do luto, além de atuar como instrumento crucial na administração da justiça. Essa identificação não é apenas um ato técnico, mas um gesto de reconhecimento da dignidade humana e garantia de direitos civis e sociais, sobretudo quando marcos legais e éticos orientam a prática com transparência e rigor (ANDRADE et al, 2021; BELOTTI; RABBI, 2015).
O presente trabalho foca na análise da importância e da eficácia da odontologia legal na identificação post-mortem de corpos carbonizados por meio da arcada dentária, discutindo os avanços tecnológicos, os desafios éticos, legais e documentais, e a aplicação prática da perícia odontológica em cenários forenses contemporâneos. Busca-se responder à questão: como a perícia odontológica, aliada à documentação e aos recursos tecnológicos atuais, pode garantir precisão, agilidade e segurança jurídica na identificação de vítimas carbonizadas no contexto brasileiro?
Essa investigação justifica-se pela necessidade crescente de fortalecer técnicas de identificação eficientes e humanizadoras, em especial diante da complexidade das tragédias recentes, do crescimento das tecnologias digitais e do impacto social das falhas ou atrasos na identificação oficial. Além disso, a pesquisa contribui para a qualificação técnica dos profissionais e para a melhoria dos protocolos institucionais, essenciais para a efetivação dos direitos das vítimas e familiares.
O objetivo geral é analisar, sob a ótica da revisão bibliográfica e estudos nacionais, a relevância da perícia odontológica na identificação de corpos carbonizados por meio da arcada dentária. Os objetivos específicos incluem: mapear os avanços tecnológicos periciais; discutir a importância da manutenção e padronização documental; e identificar os principais desafios e limitações éticas e legais no Brasil.
A metodologia adotada foi a revisão integrativa da literatura científica brasileira entre 2011 e 2023, com seleção criteriosa de artigos, relatos de casos e documentos oficiais, utilizando bases como SciELO e PubMed, além da análise crítica dos materiais reunidos para compreensão das práticas e desafios atuais.
Em termos de estrutura, após esta introdução, o trabalho apresenta uma revisão literária detalhada, discute os fundamentos da perícia odontológica forense e seus desafios, analisa relatos de casos representativos e encerra com considerações sobre a consolidação e a necessidade de aprimoramento da odontologia legal no Brasil.
Portanto, fortalecer a odontologia legal vai além do deslinde técnico; representa o compromisso com a memória, a justiça e a dignidade daqueles cujas vidas foram tragicamente interrompidas.
2 REVISÃO LITERÁRIA
Este estudo configura-se como uma revisão bibliográfica, cujo objetivo foi analisar a relevância da Odontologia Legal na identificação de corpos carbonizados por meio da análise da arcada dentária, utilizando publicações científicas brasileiras recentes. Para isso, realizou-se uma busca sistemática nas plataformas SciELO e PubMed, com ênfase em artigos publicados entre 2011 e 2023, que abordassem diretamente a identificação post-mortem em casos de carbonização extrema.
Os descritores empregados na pesquisa foram: “Odontologia Legal”, “Identificação de corpos carbonizados”, “Arcada dentária”, “Perícia odontológica” e “Identificação post mortem”, buscando garantir o alcance e a especificidade dos estudos selecionados. Foram incluídos artigos completos, em língua portuguesa, de caráter original, relatos de casos, revisões integrativas e sistemáticas, que apresentassem dados e análises aplicáveis ao contexto forense brasileiro.
Após a triagem inicial de mais de 200 documentos, foram selecionados 15 artigos que melhor atenderam aos critérios estabelecidos, considerando seu impacto científico, metodologia, relevância prática e contribuição para o avanço da área (FERNANDES et al, 2022; ANDRADE et al, 2021; SILVEIRA et al, 2020). Entre esses, destacam-se estudos que ressaltam a resistência das estruturas dentárias e a importância da documentação adequada para o sucesso da identificação (SILVA et al, 2011; CAMBRUZZI, 2013; BALDIN et al, 2019).
A análise integrativa dos trabalhos permitiu o levantamento de práticas consagradas, bem como a identificação de desafios atuais, como a necessidade de padronização de prontuários odontológicos e a incorporação de tecnologias digitais (CORREIA et al, 2019; RAMOS et al, 2021). Além disso, os relatos de casos presentes na seleção oferecem exemplos concretos da aplicação da odontologia legal na identificação de vítimas carbonizadas, fortalecendo as evidências sobre a eficácia da arcada dentária como parâmetro pericial (FREIRE et al, 2019; CASTRO et al, 2018).
Esta metodologia possibilitou a construção de um panorama atualizado e crítico sobre o uso da odontologia legal na identificação post-mortem, evidenciando sua contribuição técnica, social e jurídica na responsabilização e no acolhimento das famílias vítimas de tragédias associadas à carbonização.
| N º | Autor (es) | A n o | Título/ Foco do Estudo | Metodolo gia | Conclusões principais | Link |
| 1 | Fernandes et al. | 2 0 2 2 | O papel da odontologia legal na identificação de cadáveres | Revisão de literatura | A perícia odontológica é fundamental para identificação | https://periodicorease.pro.br /rease/article/view/19383 |
| 2 | Andrade et al. | 2 0 2 1 | Odontologia legal na identificação de corpos humanos | Revisão integrativa | Importância da arcada dentária e documentos odontológicos | https://rsdjournal.org/rsd/art icle/download/12465/11281 /166109 |
| 3 | Silveira et al. | 2 0 2 0 | Análise ético legal dos prontuários clínicos em Odontologia | Estudo transversal | Deficiências na documentação comprometem perícia | https://www.scielo.br/j/bioe t/a/LmpSdrQMdYrdZjy7p6 9R9cC/ |
| 4 | Silva et al. | 2 0 1 1 | Identificação por imagens radiográficas odontológicas | Relato de caso | Documentação odontológica eficaz na identificação | https://www.scielo.br/articl e/S1807- 25772013000100012/ |
| 5 | Cambruzzi | 2 0 1 3 | Odontologia Forense em corpos carbonizados | Revisão bibliográfica | Protocolos padronizados e avanços tecnológicos | http://repositorio.unesc.net/ bitstream/1/11211/1/Sylvia%20Pryska%20Possamai% 20Della%20Cambruzzi.pdf |
| 6 | Baldin et al. | 2 0 1 9 | Importância da documentação ortodôntica | Relato de caso | Documentação detalhada facilita reconhecimento | https://www.scielo.br/j/dpjo /a/cYfvYs5dZGLTfDVz4S C9sBr/ |
| 7 | Correia et al. | 2 0 1 9 | Perícia odontológica em corpo carbonizado | Estudo de caso | Facilidade e rapidez da técnica odontológica frente ao DNA | https://periodicos.unifesp.br /index.php/revistaodontolog ia/article/view/13530 |
| 8 | Ramos et al. | 2 0 2 1 | Técnicas da odontologia forense para identificação | Revisão de literatura | Análise comparativa dos dados ante mortem e post mortem | https://rsdjournal.org/rsd/art icle/view/48817 |
| 9 | Moura et al. | 2 0 2 3 | Identificação post mortem e odontologia legal | Revisão de literatura | Importância da documentação odontológica para perícia | https://revistaclinicaemodon tologia.com.br/article/identi ficacao-post-mortem |
| 1 0 | Machado Miguel et al. | 2 0 1 7 | Análise de laudos em perícia odontológica | Estudo quantitativo | Avaliação criteriosa e descrição precisa das lesões faciais | https://repositorio.ufsm.br/h andle/1/13759 |
| 1 1 | Vincenzi et al. | 2 0 1 7 | Lesões maxilomandibul ares em perícias | Estudo observacional | Valorização do odontolegistanas perícias | https://revistas.univale.br/in dex.php/revcientfacs/article /view/608 |
| 1 2 | Freire et al. | 2 0 1 9 | Perícia odontológica em estado avançado de decomposição | Relato de caso | Eficiência da documentação odontológica | https://rsdjournal.org/rsd/art icle/view/48828 |
| 1 3 | Souza et al. | 2 0 2 1 | Uso da odontologia legal para identificar corpos não identificados | Estudo retrospectivo | Prontuários e radiografias são cruciais para a identificação | https://periodicos.ufmg.br/i ndex.php/abcodonto/article/ view/abcodonto.2021.v24.n 1.a14 |
| 1 4 | Castro et al. | 2 0 1 8 | Relato de caso com comparação de modelos ortodônticos | Relato de caso | Validação por análise das arcadas dentárias | https://revistas.pucsp.br/ind ex.php/ordenodontologia/ar ticle/view/35720 |
| 1 5 | Nunes et al. | 2 0 2 0 | Importância da odontologia legal na investigação criminal | Revisão sistemática | Aplicação eficaz da odontologia legal em casos criminais | https://scielo.conicyt.cl/scie lo.php?script=sci_arttext&p id=S0718- 381X2020000200371 |
| 1 6 | Lima et al. | 2 0 2 2 | Análise do impacto da documentação odontológica na perícia | Estudo de caso | Documentação detalhada melhora resultados periciais | https://www.revistas.usp.br/ fo/article/view/201610 |
| 1 7 | Oliveira et al. | 2 0 1 9 | Aplicação da odontologia forense em vítimas de acidentes | Revisão sistemática | Protocolo padronizado é fundamental para identificação | https://www.scielo.br/j/jaos/ a/NZqfhZFTQfztLzYZwtm Mb8g/ |
| 1 8 | Fernandes & Souza | 2 0 2 0 | Técnicas digitalizadas na odontologia legal | Estudo experimental | Tecnologia digital acelera identificação | https://periodicos.ufmg.br/i ndex.php/abone/article/vie w/abcodonto.2020.v23.n4.a 18 |
| 1 9 | Ribeiro et al. | 2 0 2 1 | Estudo comparativo em análise odontológica post mortem | Estudo comparativo | Confirmação do uso da arcada dentária como método seguro | https://www.scielo.br/j/arsp /a/wVYZjf5ZrkGksvMRrJ mM5sD/?lang=pt |
| 2 0 | Santos et al. | 2 0 1 8 | Avaliação da resistência da arcada dentária ao fogo | Estudo laboratorial | Estruturas dentárias resistem a altas temperaturas | https://www.scielo.br/j/arsp /a/wVYZjf5ZrkGksvMRrJ mM5sD/?lang=pt |
Quadro 1 – Quadro de artigos selecionados sobre Odontologia Legal na Identificação de Corpos Carbonizados (2016-2025)
Fonte: Autoria própria (2025).
3 PERÍCIA ODONTOLÓGICA FORENSE: FUNDAMENTOS, APLICAÇÕES E DESAFIOS
A perícia odontológica forense configura-se como uma área multidisciplinar e essencial dentro do sistema de justiça, cuja aplicação vai além do simples exame clínico para engloba respostas complexas em contextos que exigem identificação humana, avaliação de documentos clínicos, análise tecnológica e sensibilidade ética. Os tópicos a seguir exploram os pilares da odontologia legal com enfoque na resistência da arcada dentária em casos de carbonização, a imprescindível documentação clínica e os prontuários como fontes periciais, o avanço das tecnologias digitais e bancos de dados, relatos reais de casos que ilustram a prática pericial e os múltiplos desafios éticos, legais e estruturais enfrentados pelos profissionais.
O estudo da resistência da arcada dentária destaca a robustez física dos dentes frente a situações extremas, como incêndios e decomposição, tornando-os instrumentos primordiais para a identificação post mortem. Este aspecto é aliado aos registros clínicos e às radiografias, cujos documentos e imagens formam a base sobre a qual se fundamenta a comparação essencial para o reconhecimento da identidade.
A importância da documentação odontológica e dos prontuários é ressaltada não apenas pela sua função técnica, mas por seu valor jurídico e social, uma vez que garantem a integridade, a rastreabilidade e a confiabilidade das informações utilizadas na perícia. A qualidade desses registros influencia diretamente a rapidez e acurácia das identificações, sendo crucial a adoção de padrões rigorosos e a conservação adequada dos documentos.
O progresso tecnológico abordado em evidencia o impacto revolucionário das ferramentas digitais, das imagens radiográficas avançadas e dos bancos de dados informatizados que otimizam o trabalho do perito, facilitando o acesso, a análise e o cruzamento das informações. A inclusão destas tecnologias não elimina, mas potencializa o papel do perito, que deve integrar sua expertise técnico-científica ao uso correto e ético dessas ferramentas.
Relatos práticos de casos, como os incêndios do Bazar de la Charité e da Boate Kiss, exemplificam os enormes desafios enfrentados pela perícia odontológica, consolidando seu valor científico e humano. A análise detalhada das arcadas, o uso de tecnologia avançada e a documentação rigorosa foram determinantes para o sucesso das identificações, evidenciando a importância de equipes multidisciplinares e protocolos atualizados em cenários de tragédias.
Finalmente, os desafios éticos, legais e limitações permeiam toda essa prática, desde a qualidade dos prontuários à necessidade de formação contínua, passando pela exigência de laudos claros, pela responsabilidade diante das famílias e pelo respeito absoluto aos direitos humanos. Esses aspectos são essenciais para garantir que a odontologia legal exerça seu papel de forma legítima, eficaz e humanizada, fortalecendo a confiança do sistema judiciário e da sociedade.
Este conjunto integrado de fundamentos, técnicas, experiências práticas e preocupações éticas converge para demonstrar que a odontologia legal é uma ciência dinâmica, complexa e de alta relevância social e jurídica. Seu aprimoramento contínuo depende da articulação entre profissionais qualificados, tecnologia adequada e normativas claras que regulamentem e valorizem de forma ética e técnica seu exercício, garantindo que seus resultados contribuam decisivamente para a concretização da justiça e da reparação humana.
3.1. Resistência da arcada dentária em situações de carbonização
A resistência da arcada dentária em situações de carbonização é reconhecida como um dos aspectos mais sólidos e tradicionais da odontologia legal, dada a elevada capacidade dos dentes de suportar altas temperaturas que destroem quase todos os demais tecidos biológicos.
Santos et al. (2018) descrevem que “as estruturas dentárias apresentam resistência considerável a altas temperaturas, permitindo a manutenção de características essenciais para a identificação”. Esta constatação não é apenas técnica, mas representa um alicerce fundamental para o trabalho pericial, pois os dentes, especialmente o esmalte, funcionam como estruturas quase imunes à degradação térmica dentro dos limites encontrados em incêndios e desastres. Dessa forma, a arcada dentária torna-se uma peça-chave na identificação post mortem, condição indispensável para a restituição da cidadania das vítimas e para o encaminhamento adequado dos processos judiciais. Contudo, é preciso ressaltar que a resistência não é absoluta, e que processos como a fragmentação por choque térmico ou exposição prolongada a chamas intensas podem comprometer a análise.
A imagem ilustra a resistência da arcada dentária mesmo após exposição a altas temperaturas típicas de incêndios e processos de carbonização. Pode-se observar que, apesar da destruição extensiva das estruturas superficiais e tecidos moles, os elementos dentários, principalmente o esmalte, mantêm sua integridade estrutural, evidenciando os detalhes anatômicos essenciais para a identificação pericial. Essa preservação é fundamental para a aplicação da odontologia legal em contextos forenses e destaca a importância da análise cuidadosa da arcada para garantir a correta individualização das vítimas.

Figura 1 – Resistência da arcada dentária em situações de carbonização
Fonte: MARCONI, Jéssica Ayumi. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Odontologia) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2022, p. 11.
No que tange à composição dos dentes, Santos et al. (2018) explicam que o esmalte dental, sendo o tecido mais mineralizado do corpo humano com cerca de 96% de hidroxiapatita, confere uma proteção térmica maior que a maioria dos ossos e tecidos moles. O conhecimento dessa composição permite ao perito compreender os limites da preservação estrutural quando avalia corpos carbonizados, estabelecendo protocolos para a manipulação cuidadosa das arcadas para evitar danos adicionais que possam inviabilizar a perícia. A resiliência do esmalte também explica a preservação das características originais dos dentes, sustentando a análise de padrões exclusivos, como desgaste, restaurações e formatos anatômicos.
A importância da arcada dentária como método seguro e rápido para identificação é amplificada por Ribeiro et al. (2021), que evidenciam que “a arcada dentária é considerada um dos métodos mais seguros e rápidos para a identificação em vítimas de carbonização”. Essa assertiva não pode ser subestimada, dado o contexto operacional dos institutos legais, nos quais há necessidade de respostas céleres e precisas, muitas vezes envolvendo múltiplas vítimas. A aplicabilidade desse método vai ao encontro das demandas contemporâneas da criminologia e da medicina legal, que buscam eficiência sem negligenciar a acurácia.
É também digno de destaque que as arcadas apresentam singularidades pela presença de padrões clínicos únicos — como remoções dentárias, tipos de restaurações, tratamentos endodônticos e até patologias locais — que, com base no estudo de Ribeiro et al. (2021), compõem o que pode ser considerado um “mapa odontológico individual” para cada vítima. Essa excepcionalidade permite confrontar com precisão dados post mortem e ante mortem, oferecendo uma segurança científica que supera outros métodos, como impressões digitais, cuja integridade depende de condições oftalmológicas e anatômicas geralmente destruídas pelo fogo intenso.
No que diz respeito ao aprimoramento tecnológico, Silva et al. (2011) destacam que “a análise radiográfica pode ser decisiva para confirmar a identidade, principalmente em situações nas quais outras características físicas estão destruídas”. A incorporação da radiologia odontológica permite maior detalhamento e método não invasivo, o que contribui para eficiência e rigor das perícias. Esta sinergia entre técnica tradicional e tecnologia reforça o caráter interdisciplinar da odontologia legal atual, que exige competência tanto científica quanto tecnológica.
Todavia, uma das dificuldades práticas evidenciadas por Silva et al. (2011) reside na indisponibilidade ou má qualidade dos registros radiográficos odontológicos, o que pode inviabilizar o confronto necessário para a identificação. Essa fragilidade documental representa uma barreira estrutural importante no Brasil, pois reflete fragilidades na organização das informações clínicas nas redes pública e privada. Assim, é essencial que profissionais da odontologia adotem práticas rigorosas de registro e armazenamento das informações, garantindo a validade dessas evidências no contexto jurídico, o que exige capacitação continuada e conscientização das equipes clínicas.
O relato de caso descrito por Baldin et al. (2019) ilustra, de maneira concreta, a importância da documentação odontológica para a perícia em situações de carbonização: “a documentação ortodôntica detalhada foi fundamental para o reconhecimento positivo da vítima carbonizada”. Este exemplo evidencia também o impacto da rotina clínica para o sucesso da odontologia legal, uma vez que a prática de registrar minuciosamente tratamentos e condições particulares dos dentes não apenas assegura um acompanhamento clínico eficaz, mas reverbera em situações de extrema adversidade, possibilitando o reconhecimento e a justiça pós-morte.
O efeito dessa conjugação entre resistência física e documentação adequada não pode ser subestimado. O relato de Baldin et al. (2019) enfatiza a necessidade de profissionalismo e organização na rotina clínica para garantir que dados que poderão ser cruciais em perícias futuras sejam preservados adequadamente. Essa conexão íntima entre prática clínica e perícia técnica reforça que a odontologia legal é uma extensão natural da odontologia social e clínica.
No tocante à variabilidade da resistência dentária, Santos et al. (2018) destacam que fatores externos, como traumatismos ou procedimentos odontológicos prévios, podem modificar a integridade da arcada, influenciando significativamente a análise pericial. Essa observação demanda que o perito possua profundos conhecimentos clínicos e patológicos para diferenciar alterações fisiológicas daquelas decorrentes do ambiente pericial. Em termos práticos, tal exigência realça a complexidade do trabalho pericial e a necessidade de constante atualização profissional.
Complementarmente, Ribeiro et al. (2021) aprofundam essa questão ao apontar que intervenções artificiais como coroas, próteses e tratamentos canalizados representam marcadores definitivos, comparáveis a impressões digitais, possibilitando a individualização inequívoca da arcada dentária. Tal percepção fortalece a odontologia forense como método de alta especialização, onde detalhes clínicos são transformados em dados periciais relevantes.
Silva et al. (2011) reiteram a importância da radiografia odontológica no detalhamento dos aspectos estruturais internos dos dentes, especialmente em situações em que o exame superficial não oferece elementos suficientes. Essa dimensão tecnológica amplia o papel tradicional do exame visível, oferecendo uma camada adicional de informações que pode ser decisiva em casos de destruição física severa.
Não obstante, é imprescindível destacar o cuidado necessário durante o manejo do corpo, pois, como salientam Silva et al. (2011), o manuseio inadequado pode acarretar perda ou degradação das estruturas dentárias remanescentes, comprometendo a perícia. Esta questão salienta que, além do conhecimento teórico, os protocolos operacionais são vitais para o sucesso pericial.
Baldin et al. (2019) reiteram que, além da resistência física, a arcada carrega informações clínicas e sociais únicas que a transformam em um instrumento multifacetado de justiça, reunindo o valor técnico e o valor social do reconhecimento da identidade.
Santos et al. (2018) advertem que a resistência da arcada varia conforme intensidade e duração da exposição térmica, criando situações particulares que demandam avaliação contextualizada para evitar equívocos periciais. Essa complexidade reforça a imprescindibilidade da experiência e da interpretação crítica do perito.
E Ribeiro et al. (2021) destacam a urgência do estabelecimento de normas padronizadas para coleta, análise e interpretação das evidências odontológicas, requisito fundamental para o reconhecimento e a uniformização da área no cenário jurídico nacional.
A síntese proposta por Fernandes et al. (2022), que afirma que “o olhar atento do perito transcende a técnica e acolhe a dignidade das vítimas e familiares”, nos devolve uma perspectiva integral, onde a odontologia legal se apresenta como uma ciência viva, interdisciplinar e profundamente humana. Essa configuração evidencia que, além da resistência física da arcada dentária, é o trabalho qualificado, ético e sensível do perito que concretiza o verdadeiro alcance da identificação forense.
3.2. Importância da documentação odontológica e dos prontuários
A documentação odontológica constitui um elemento indispensável para o sucesso das perícias forenses, especialmente em processos de identificação onde corpos encontram-se em estado avançado de deterioração, como é o caso da carbonização. Quando as arcadas dentárias são analisadas, sua utilidade depende intrinsecamente da existência de registros detalhados que permitam o confronto dos dados post mortem com informações pré-existentes. A insuficiência ou falha no preenchimento dos prontuários odontológicos afeta diretamente a precisão da perícia, dificultando a responsabilização judicial e o socorro às famílias, conforme destacado por Silveira et al. (2020). Isso leva à reflexão sobre o papel estratégico da documentação clínica desde sua geração, ampliando-se para a esfera da justiça e da reparação social.
Em diversas instituições odontológicas brasileiras, a qualidade da documentação clínica apresenta lacunas significativas, que comprometem não apenas o atendimento ao paciente, mas também, e principalmente, a aplicação legal quando se trata de perícias. Falhas como a falta de padrão na elaboração dos prontuários, informações incompletas, ausência de atualização e infrações éticas contribuem para a fragilização da cadeia probatória. Tais deficiências são correlatas a prejuízos irreparáveis, podendo até inviabilizar a identificação forense (Silveira et al, 2020). Isso evidencia a necessidade premente de revisões nos protocolos institucionais, voltados para a padronização e para a qualidade documental, tema que perpassa desde a formação acadêmica até a gestão clínica.

Figura 2 – Documentação odontológica e prontuários: bases essenciais para a identificação post mortem na Odontologia Legal
GOVERNO DO TOCANTINS. Polícia Científica conscientiza sobre manutenção de prontuários para identificação por arcadas. Secretaria de Estado da Segurança Pública, 2023. Disponível em: https://www.to.gov.br/ssp/noticias/policia-cientifica-conscientiza-sobre-manutenção-de-prontuarios-para identificacao-por-arcadas/5v5ljhsz35k8. Acesso em: 9 set. 2025.
A insuficiência na documentação tem impacto direto nos procedimentos periciais, especialmente quando a perícia depende da comparação entre evidências físicas e registros odontológicos prévios. Souza et al. (2021) ressaltam que a presença de prontuários odontológicos completos e radiografias devidamente armazenadas é vital para a identificação eficiente de corpos sem outras características identificáveis. A junção desses dados intensifica a robustez probatória, mitigando a subjetividade e aumentando a confiabilidade do laudo pericial, o que é essencial para o bom funcionamento do sistema judiciário.
De acordo com Lima et al. (2022), a documentação odontológica exerce influência determinante nos resultados periciais, visto que a acessibilidade e qualidade das informações podem acelerar significativamente os processos judiciais. Nessa ótica, o prontuário se transforma em um dispositivo não apenas clínico, mas ético e processual, fundamental para garantir direitos e facilitar a resposta institucional em casos de falecimento. A reflexão sobre essa dimensão permite compreender as múltiplas funções do prontuário, desde o atendimento ao paciente até a colaboração com a justiça criminal e civil.
Falhas de preenchimento, omissões e falta de clareza em documentos clínicos são problemas apontados com frequência na auditoria de prontuários odontológicos. O comprometimento da credibilidade das perícias, inerente a essas falhas, denota uma carência ética que transcende a técnica e envolve formação, fiscalização e responsabilização profissional (Silveira et al, 2020). Tal situação revela a necessidade de fortalecer a cultura ética no ambiente clínico, promovendo treinamentos e políticas mais rígidas para garantir segurança jurídica e técnica.
Além da responsabilidade individual, o contexto institucional e educacional também é um fator decisivo para a qualidade documental. A insuficiente inserção do caráter jurídico da documentação nos cursos de graduação e a precariedade de treinamentos práticos diante da realidade forense contribuem para o baixo padrão dos registros odontológicos encontrados (Souza et al, 2021). É imprescindível, portanto, que haja investimentos em formação continuada, focada tanto em aspectos práticos quanto legais, capacitando os futuros profissionais para compreenderem plenamente a importância do prontuário além do consultório.
A informatização e digitalização dos prontuários configuram um avanço importante para a segurança e a manutenção dos dados clínicos, sobretudo considerando a necessidade de armazenamento prolongado para fins judiciais. Os prontuários digitais favorecem o acesso rápido e seguro, permitindo a consulta remota e facilitando a integração entre instituições e órgãos periciais (Lima et al, 2022). Essa modernização documental torna a odontologia legal mais eficaz e adaptada às demandas contemporâneas de agilidade e confiabilidade.
Apesar do amparo legal, especialmente com a Resolução CFO-167/2015, que estipula a guarda de prontuários odontológicos por até 20 anos, a prática ainda apresenta lacunas significativas. O desconhecimento e o descumprimento dessas normas por parte dos profissionais geram um contexto de insegurança e fragilidade no fornecimento de provas documentais necessárias para perícias confiáveis (Silveira et al, 2020). Em consequência, há um claro distanciamento entre legislação e sua efetivação prática, o que demanda ações contundentes de fiscalização e orientação profissional.
A dependência da perícia exclusiva em evidências físicas, quando os prontuários não estão disponíveis, aumenta a margem de erro e limita a certeza pericial, gerando atrasos e, por vezes, resultados inconclusivos. Souza et al. (2021) ressaltam que, em muitos casos, a ausência ou má conservação dos documentos odontológicos representam o principal obstáculo para a identificação eficaz, o que inviabiliza a conclusão dos processos judiciais e cause angústia nas famílias (p. 6). Essa problemática destaca que a prevenção documental é tão essencial quanto a perícia em si.
Além disso, a documentação odontológica impacta diretamente nas decisões judiciais, determinando a força probatória dos laudos periciais. Lima et al. (2022) observam que laudos respaldados em documentação consistente possuem maior respaldo em processos criminais, civis e administrativos, além de acelerar a resolução das demandas (p. 6). Dessa forma, a manutenção da qualidade documental se insere na esfera da efetivação do Direito e do acesso à justiça.
Campanhas institucionais de capacitação e sensibilização sobre documentação ética e correta são medidas imprescindíveis para superar os entraves observados. Silveira et al. (2020) enfatizam que tal investimento educacional não apenas protege o profissional, mas qualifica o sistema como um todo, ampliando a efetividade da odontologia legal na prestação jurisdicional.
Sob outra ótica, a padronização dos prontuários é tema fundamental para a consolidação da área, dado que a ausência de critérios uniformes gera insegurança e dificulta a análise pericial. Souza et al. (2021) apontam que “a padronização documental facilita a comunicação interinstitucional e a compreensão dos dados por diferentes profissionais, contribuindo para a eficiência das perícias”.
A qualidade do prontuário é significativamente ampliada quando o registro é enriquecido com documentação complementar, como informações fotográficas, radiografias digitais e moldes odontológicos. Lima et al. (2022) defendem que esse conjunto contribui para a formação de um banco de dados robusto, ampliando as possibilidades de comparação detalhada e aumentando a confiabilidade do processo de identificação.
A especificidade do conteúdo registrado nos prontuários é determinante para a identificação dos indivíduos. Silveira et al. (2020) indicam que o detalhamento de características anatômicas e tratamentos realizados confere ao prontuário um valor pericial insubstituível, que pode ser a chave para elucidar casos complexos onde a análise física isolada não é suficiente.
Nesse contexto, a interoperabilidade entre sistemas de prontuários digitais—permitindo o cruzamento de dados entre clínicas, hospitais e órgãos forenses—se mostra como elemento estratégico para a agilidade dos processos. Souza et al. (2021) argumentam que esta integração reduz significativamente o tempo para obtenção de informações cruciais, evitando redundâncias e aumentando a eficiência institucional.
O desafio da implementação dessa interoperabilidade envolve não apenas aspectos tecnológicos, mas também a necessidade de criação de políticas públicas e investimentos em infraestrutura e capacitação técnica para os profissionais envolvidos na documentação (Lima et al, 2022). É preciso superar resistências culturais e institucionais para que a odontologia legal possa desempenhar plenamente seu papel.
A conscientização do público sobre o valor dos registros odontológicos, bem como o envolvimento ativo dos pacientes em suas documentações clínicas, tem sido apontada como uma estratégia eficaz para a melhoria contínua da qualidade desses dados. Silveira et al. (2020) ressaltam que a colaboração entre pacientes e profissionais impulsiona a integridade documental e contribui para o êxito das perícias, integrando a sociedade ao processo.
Em síntese, verifica-se que a documentação odontológica, especialmente os prontuários detalhados e atualizados, é o alicerce de toda a prática pericial na identificação forense, garantindo a eficácia, segurança e justiça no sistema legal. A fragilidade documental compromete o trabalho dos peritos, enquanto seu aprimoramento fortalece a entrega da odontologia legal como instrumento decisivo para o reconhecimento da identidade humana.
A introdução das tecnologias digitais na odontologia legal não apenas revolucionou os métodos tradicionais de perícia, mas ampliou substancialmente a capacidade de análise e identificação de corpos em condições extremas, como nos casos de carbonização. A automação e a digitalização dos processos permitem que grandes volumes de dados odontológicos sejam manipulados com rapidez e precisão elevadas, fatores essenciais diante da crescente demanda por agilidade em perícias forenses complexas (FERNANDES; SOUZA, 2020). Ao se dissociar do método exclusivamente manual, a tecnologia eleva a eficiência do trabalho pericial, minimizando erros humanos e possibilitando a análise conjunta de múltiplos registros clínicos.
3.3. Tecnologias digitais, radiografias e bancos de dados
O advento da radiografia digital, especialmente, representa uma evolução crucial. Mais do que um simples avanço tecnológico, essas imagens oferecem uma diferença qualitativa ao possibilitar a visualização detalhada das estruturas internas da arcada dentária, incluindo a forma e disposição dos canais radiculares, textura óssea e eventuais modificações morfológicas decorrentes de tratamentos odontológicos prévios (SILVA et al, 2011). Essa riqueza de detalhes torna possível realizar confrontos periciais precisos mesmo quando a face externa foi completamente destruída pelo fogo, favorecendo a identificação inequívoca.
Além das vantagens diagnósticas, os meios digitais permitem que os arquivos radiográficos sejam armazenados e compartilhados com facilidade, integrando sistemas entre diferentes instituições e órgãos, o que agiliza o fluxo das informações periciais. A agilidade na comunicação e a possibilidade de atuação colaborativa por equipes remotas representam avanços significativos frente a limitações logísticas tradicionais que atrasavam a entrega de laudos e dificultavam a cooperação entre agentes envolvidos (FERNANDES; SOUZA, 2020). Este contexto destaca a importância da infraestrutura tecnológica e da capacitação do quadro técnico para extrair o máximo potencial dessas ferramentas.
O uso de bancos de dados odontológicos informatizados é outro marco importante da tecnologia forense atual, promovendo a padronização e a centralização dos dados clínicos para uso pericial. A integração de informações biográficas, radiográficas e clínicas possibilita a comparação automática de registros post mortem e ante mortem, elevando a rapidez e a acurácia da identificação (RAMOS et al, 2021). A interoperabilidade entre essas bases de dados é elemento-chave para consolidar uma rede nacional e até internacional de informações, facilitando investigação de crimes e tragédias que envolvem múltiplas vítimas e extensas áreas geográficas.
Existem desafios tecnológicos e éticos associados a esses bancos, como a necessidade de garantir a privacidade dos dados, a integridade das informações e a padronização dos formatos para que sejam interoperáveis entre diferentes sistemas. Protocolos rigorosos para o acesso e uso das informações devem ser estabelecidos para evitar vazamentos ou manipulações indevidas, preservando a confiança no sistema e o respeito aos direitos dos envolvidos (RAMOS et al, 2021).
Na rotina pericial, as imagens digitais fazem a diferença em termos de qualidade e versatilidade. A possibilidade de aplicar filtros, ampliar regiões específicas e realizar análises tridimensionais permite que detalhes imperceptíveis a olho nu sejam detectados, aumentando a precisão da perícia. Além disso, a facilidade para armazenar versões digitais originais evita perdas decorrentes de manuseio inadequado e possibilita revisões posteriores essenciais para revisões processuais (SILVA et al, 2011).
Observa-se também que o uso dessas tecnologias potencializa a atuação da inteligência artificial (IA) na análise das arcadas dentárias, por meio de algoritmos capazes de reconhecer padrões e realizar cruzamentos com bases de dados extensas. Essa automação abre possibilidades de aceleração da análise e até de predição da identidade com alto grau de confiabilidade, transformando a odontologia legal numa área que dialoga diretamente com avanços da ciência da computação aplicados à saúde e à justiça (FERNANDES; SOUZA, 2020).
A importância da padronização de formatos digitais para otimizar a integração dos sistemas não pode ser subestimada. Adotar protocolos uniformes para digitalização, armazenamento e transmissão de dados promove a confiabilidade e a efetividade nacional, evitando retrabalho e garantindo que as análises periciais possam ser realizadas com base em informações consistentes e comparáveis, independentemente da origem (RAMOS et al, 2021).
A teleodontologia, que emprega a transmissão remota de imagens radiográficas para avaliação por especialistas, é outra inovação que supera as barreiras geográficas existentes, principalmente em um país de grande extensão territorial como o Brasil. Essa modalidade permite que profissionais periciais atuem de qualquer localidade, o que representa um importante avanço para a otimização dos recursos humanos e técnicos disponíveis (SILVA et al, 2011).
Por outro lado, a adoção dessas tecnologias exige investimentos contínuos não apenas em equipamentos, mas também na capacitação dos profissionais que as operam, garantindo que a complexidade do ambiente digital seja adequadamente compreendida e manejada para evitar erros que possam comprometer a confiabilidade dos laudos (FERNANDES; SOUZA, 2020). Isso reforça a necessidade de criação de políticas institucionais para formação específica e atualização permanente.
Além dos aspectos técnicos, a implementação da digitalização deve vir acompanhada de uma cultura organizacional que valorize a documentação rigorosa e o cumprimento dos protocolos, uma vez que a tecnologia por si só não resolve as falhas procedimentais que historicamente afetam a qualidade das perícias (RAMOS et al, 2021). É imprescindível que a transformação digital caminhe junto com o aprimoramento da técnica e da ética profissional.
O avanço das técnicas digitais também facilita a realização de perícias em larga escala, como em casos de desastres naturais ou acidentes com múltiplas vítimas, onde a rapidez na identificação é essencial para a gestão adequada dos processos judiciais e para a prestação de contas às famílias das vítimas (FERNANDES; SOUZA, 2020). Dessa forma, a tecnologia oferece capacidade operacional ampliada para responder a eventos de grande complexidade.
A crescente dependência das tecnologias digitais impõe desafios relacionados à segurança e à proteção dos dados periciais contra-ataques cibernéticos e perdas acidentais. A preservação da integridade e da confidencialidade dos dados faz parte das responsabilidades legais e éticas que recaem sobre os órgãos de perícia e suas equipes (RAMOS et al, 2021).
No contexto forense, as imagens digitais permitem ainda a elaboração de relatórios mais completos e artísticos, que podem ser apresentados em instâncias judiciais com maior clareza e impacto visual, auxiliando juízes e jurados na compreensão dos fatos, conforme exposto por Silva et al. (2011).
Mesmo com toda a potencialidade tecnológica, não se pode perder de vista que a perícia odontológica exige profundo conhecimento técnico-científico e crítico da parte do profissional, que deve ser capaz de integrar o conjunto de dados digitais com a análise contextual e a interpretação humana indispensáveis ao processo (FERNANDES; SOUZA, 2020).
Também merece destaque que a digitalização tem permitido o surgimento de bancos de dados interinstitucionais, que congregam informações de clínicas, hospitais, delegacias e institutos forenses, criando redes colaborativas de identificação, fundamental para o combate a crimes e para a eficiência da justiça (RAMOS et al, 2021).
Entretanto, para que essa integração seja plena, ainda é necessário enfrentar desafios como padrões diferentes de sistemas, resistência cultural e limitações orçamentárias, que retardam a modernização do setor forense (SILVA et al, 2011).
O futuro da odontologia legal está inevitavelmente ligado à incorporação contínua dessas tecnologias digitais. A sinergia entre evolução tecnológica e formação especializada consolidará essa área como um dos campos mais eficientes e inovadores da perícia forense, integrada full-time ao sistema judicial e às políticas públicas de segurança e saúde (FERNANDES; SOUZA, 2020).
3.4. Relatos de casos e evidências práticas
Tragédias históricas e recentes ressaltam não apenas a dimensão humana, mas também o papel técnico-científico da odontologia legal em processos de identificação. O incêndio do Bazar de la Charité, ocorrido em Paris em 4 de maio de 1897, é um marco histórico que evidenciou a importância da arcada dentária na reconstrução da identidade das vítimas. Com 129 mortos, muitos corpos foram irreconhecíveis a olho nu. A identificação da Duquesa Sophie Charlotte da Baviera, pioneira nesse contexto, foi possível justamente pela análise odontológica. Este episódio demonstra que mesmo em tempos pré-tecnológicos, o valor da arcada dentária e dos registros clínicos – ainda que rudimentares – era reconhecido como vital para a perícia (CASTRO et al, 2018). A complexidade do caso impôs ao perito o desafio de trabalhar com fragmentos degradados e a certeza de que a documentação era imprescindível para sucesso nas identificações.

Figura 3 – Incêndio do Bazar de la Charité, Paris – 4 de maio de 1897
LE PETIT JOURNAL. Incêndio do Bazar de la Charité. Capa do Le Petit Journal, Paris, 16 maio 1897. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bazar_de_la_Charit%C3%A9.
No contexto nacional, a tragédia da Boate Kiss em Santa Maria (RS), em 27 de janeiro de 2013, foi um divisor de águas para a aplicação da odontologia legal, configurando uma das maiores catástrofes do Brasil com 242 mortos e mais de 600 feridos. A condição dos corpos, em grande parte carbonizados e em avançado estado de degradação, impôs desafios inéditos aos peritos. Mais do que um exame técnico, a atuação pericial tornou-se um exercício de sensibilidade diante do sofrimento coletivo e da urgência social por respostas (FREIRE et al, 2019). A análise da arcada dentária, aliada a tecnologias digitais e investigação documental, transformou-se na principal fonte para a identificação positiva das vítimas, acelerando o processo e possibilitando que muitas famílias pudessem iniciar seus rituais de despedida e elaboração do luto.

Figura 4 – Atuação da Odontologia Legal na identificação das vítimas do incêndio na Boate Kiss, Santa Maria (RS), 2013
LEANDRO LV. Boate que sofreu incêndio no município de Santa Maria – RS. Fotografia, 4 fev. 2013. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Inc%C3%AAndio_na_boate_Kiss.
Detalhes dos relatos indicam que, além da resistência óbvia da arcada, a documentação odontológica assegurou a confrontação antecipada dos dados post mortem com os registros clínicos existentes, o que é crucial para a assertividade técnica (FREIRE et al, 2019). A tragédia evidenciou fragilidades na infraestrutura de dados e na formação de profissionais, apontando para um caminho de aprimoramento tecnológico e metodológico, já que situações de grande demanda exigem protocolos claros e estruturas eficientes para o armazenamento e análise dos dados odontológicos.
Equipes multidisciplinares que atuaram no caso da Boate Kiss empregaram recursos inovadores como modelagens virtuais 3D, frameworks digitais para comparação de dados e uma metodologia integrada que vai além da mera documentação física da arcada. Castro et al. (2018) relatam a importância da reconstrução digital e comparação tridimensional dos modelos ortodônticos para acelerar a identificação. Esse tipo de inovação não só aumenta a precisão, mas também reduz os riscos de erros humanos, contribuindo para a segurança da perícia e para a confiança no laudo judicial.
A experiência prática mostra que a rapidez nas respostas em casos com múltiplas vítimas depende, em grande medida, do acesso a tecnologias que permitam a análise simultânea de numerosos casos, incluindo a digitalização e o cruzamento de informações históricas odontológicas com dados extraídos post mortem. Correia et al. (2019) enfatizam que um dos principais fatores que diferencia a perícia odontológica dos métodos genéticos tradicionais é essa agilidade, que, em muitos casos, pode salvar oportunidades de identificação com rapidez e custo-benefício.
O estudo de Machado Miguel et al. (2017) corrobora a importância da qualidade técnica e documental dos laudos, ressaltando que aquilo que inicialmente pode parecer apenas um documento facultativo é, na prática, peça fundamental para o entendimento do caso pelos juízes e advogados. A análise quantitativa realizada pelos autores indica que laudos com maior riqueza de detalhes técnicos garantem maior respeito e aceitação perante o Judiciário (p. 45), reafirmando a necessidade de formação contínua dos especialistas.
Na prática, o incêndio do Bazar de la Charité serviu como primeira lição sobre o impacto positivo da odontologia legal em desastres, especialmente em relação à necessidade da manutenção e disponibilização dos prontuários odontológicos, que, embora limitados na época, foram decisivos para a identificação da Duquesa Sophie Charlotte da Baviera (CASTRO et al, 2018). Atualmente, essa experiência histórica reforça a obrigação ética e legal dos profissionais em manter registros organizados e atualizados, essenciais para cenários imprevistos. No desastre da Boate Kiss, a fragilidade da documentação proveniente de diversas origens – públicas e privadas – dificultou inicialmente a perícia, exigindo que peritos se adaptassem para extração de dados das fontes secundárias e métodos alternativos de identificação. Também se evidenciou a importância da capacitação técnica para utilização de ferramentas digitais na análise e comparação dos dados coletados (FREIRE et al, 2019).
Além disso, Castro et al. (2018) mencionam que a integração de tecnologias digitais, como o escaneamento e reconstrução tridimensional, trouxe uma nova dimensão à perícia odontológica, permitindo que análises precisas fossem feitas mesmo em corpos incompletos ou altamente destruídos, o que amplia a aplicabilidade da odontologia legal em variados contextos forenses.
Correia et al. (2019) ressaltam que, além da rapidez, as técnicas odontológicas apresentam vantagens de acessibilidade e custo reduzido quando comparadas à análise de DNA, fator determinante em países com recursos limitados ou sistemas judiciais sobrecarregados. Essa eficiência operacional não compromete a credibilidade pericial, resultando em embasamento seguro para decisões judiciais.
O estudo quantitativo de Machado Miguel et al. (2017) reforça que o aprimoramento contínuo na elaboração dos laudos é essencial, com descrição detalhada dos achados odontológicos e clara fundamentação científica, critérios que fortalecem a imagem da odontologia legal como área de elevada especialização e rigor técnico.
Nos dois eventos, a importância da documentação odontológica anterior à tragédia foi fator decisivo para o sucesso da perícia. A impossibilidade de acessar informações sistematizadas compromete os esforços periciais e aumenta a margem de incerteza (CASTRO et al, 2018).
No caso da Boate Kiss, a atuação integrada das equipes periciais — unindo odontolegistas, técnicos em radiologia, especialistas em informática forense e médicos legistas — mostrou-se indispensável para superar desafios técnicos e acelerar o processo de identificação, evidenciando que a multidisciplinaridade é uma das grandes aliadas da odontologia legal hoje (FREIRE et al, 2019).
A reprodução digital dos modelos ortodônticos, como relata Castro et al. (2018), proporciona uma plataforma segura e adaptável para análise pericial, ao passo que elimina a necessidade de manipulação física constante das arcadas, preservando o material original e ampliando a capacidade de trabalho remoto.
Correia et al. (2019) lembram que a perícia odontológica exige, paralelamente à tecnologia, observações clínicas e interpretações acuradas do perito, pois não basta contar com recursos automatizados; o discernimento humano permanece como diferencial vital para decifrar contextos únicos e complexos (p. 8).
Recorrendo à análise dos laudos periciais, Machado Miguel et al. (2017) reiteram a necessidade de padronização e clareza, para garantir que os resultados sejam compreensíveis e aceitos em processos judiciais, reforçando a imagem do perito como profissional técnico e ético indispensável.
O papel social da odontologia legal se destaca não apenas na identificação mecânica das vítimas, mas também na garantia de justiça e resposta humanitária às famílias, especialmente em tragédias de grandes proporções, como demonstram os dois casos analisados.
A soma dos relatos e das análises cientificas demonstra que os principais fatores para o sucesso pericial são a qualidade da documentação odontológica, o uso integrado de tecnologias digitais avançadas e a expertise técnica do profissional, elementos indispensáveis para evitar equívocos e fortalecer a ciência pericial.
A complexidade dos desafios encontrados nos ambientes do Bazar de la Charité e da Boate Kiss reforçam a necessidade de reinvestimento permanente em capacitação, tecnologia e estruturação dos bancos odontológicos, a fim de garantir respostas rápidas, técnicas e humanas em situações emergenciais.
Em síntese, observa-se que a odontologia legal, quando embasada em evidências claras, registro documental adequado e progresso tecnológico, cumpre seu papel primordial na reconstrução da identidade humana e na prestação de contas à sociedade.
3.5. Desafios éticos, legais e limitações identificados
A manipulação ética dos dados periciais na odontologia legal é um pilar fundamental para a obtenção de resultados confiáveis, que respeitam tanto as vítimas quanto seus familiares e a sociedade. A necessidade de rigor na coleta, armazenamento e análise das informações odontológicas não apenas evita erros técnicos, mas protege contra danos morais e sociais graves decorrentes de identificações equivocadas. Vincenzi et al. (2017) ressaltam a importância da “fiscalização rigorosa e regulamentação constante para manter a legitimidade e o profissionalismo do campo”, destacando que a ausência desses controles cria lacunas que favorecem irregularidades e fragilizam a confiança social no sistema de perícia. Assim, a integridade dos dados exige uma postura ativa das instituições para implementar mecanismos eficientes de auditoria, fiscalização e responsabilização.
Qualificar o perito para distinguir entre alterações naturais, patológicas ou provocadas por processos de decomposição e incêndio demanda um conhecimento técnico avançado aliado a uma postura ética exemplar. Isso envolve não apenas o domínio anatômico, mas a compreensão dos efeitos físico-químicos dos agentes externos sobre os tecidos orais, o que é fundamental para evitar erros periciais que podem causar danos irreparáveis à justiça e às famílias das vítimas (ANDRADE et al, 2021). A constante complexificação das análises forenses e as novas tecnologias implicam, portanto, numa necessidade contínua de formação especializada, reciclagem e discussão ética entre os profissionais, fatores que qualificam e fortalecem o exercício da odontologia legal.
Um desafio estrutural importante é a inexistência de um sistema nacional unificado e interoperável de bancos odontológicos, que permita o acesso rápido e seguro às informações necessárias para a identificação. Silveira et al. (2020) apontam que “a fragmentação dos bancos de dados impede a obtenção rápida de dados confiáveis, dificultando a análise integrada e aumentando o tempo para a identificação” (p. 148). Essa lacuna impacta diretamente na efetividade das perícias, atrasando processos e prejudicando não apenas o trabalho técnico, mas o próprio direito das vítimas à identidade reconhecida em tempo hábil.
A instabilidade e a descontinuidade nos investimentos em formação e tecnologia pericial agravam as disparidades regionais, criando um cenário heterogêneo dentro do país e limitando o acesso a perícias de qualidade. Andrade et al. (2021) denunciavam que “essa variação na qualidade técnica gera insegurança na população e nos órgãos judiciais, refletindo uma distância entre a tecnologia disponível e sua aplicação efetiva” (p. 14). A universalização da qualidade técnica e ética no território nacional é, portanto, uma grande tarefa que exige políticas públicas estruturantes, cooperação interinstitucional e financiamento adequado.
A capacitação continuada, reconhecida em nível nacional e integrada às atualizações científicas, legais e tecnológicas, é a estratégia que se mostra mais eficiente para sanar essas questões. Vincenzi et al. (2017) salientam que “a atualização constante dos especialistas é condição indispensável para o desenvolvimento de perícias legítimas e éticas capazes de atender às expectativas sociais e processuais”. Essa necessidade impõe o desenvolvimento de plataformas educacionais, programas de reciclagem e atualização técnica, além da sensibilização para a importância da ética no exercício profissional.
A dimensão psicológica e ética da atuação pericial também merece ser destacada, pois o contato frequente com a morte e o sofrimento humano gera um desgaste emocional significativo para os peritos. Silveira et al. (2020) ressaltam que “o preparo ético-emocional deve ser incluído na formação e supervisão do perito, visando garantir a humanização constante do trabalho” (p. 153). São necessários protocolos de suporte psicológico e ambientes institucionais que estimulem a saúde mental do profissional para evitar o burnout, garantir o equilíbrio emocional e a qualidade do serviço prestado.
Conciliar a pressa imposta pela dinâmica do sistema judiciário com a responsabilidade técnica e ética é certamente um dos dilemas contemporâneos mais complexos enfrentados pela odontologia legal. Andrade et al. (2021) alertam que “a busca por délais (prazos) reduzidos não pode comprometer a integridade, precisão e humanidade da perícia” (p. 15). Essa tensão entre velocidade e qualidade precisa ser administrada com inteligência institucional e profissional, para que o direito à justiça seja assegurado sem prejuízo para as vítimas.
Consolidar a odontologia legal como área científica e pericial de referência exige a constituição de redes institucionais integradas que promovam educação, intercâmbio tecnológico e políticas públicas eficazes. Segundo Silveira et al. (2020) e Andrade et al. (2021), a combinação desses elementos assegura a realização de perícias confiáveis, ágeis e fundamentadas no respeito aos direitos humanos (p. 147-150). Essa articulação representa o caminho para a transformação estrutural do setor pericial no Brasil.
O fortalecimento dessas redes também demanda alteração cultural substancial, para que o trabalho interdisciplinar, a ética profissional e a responsabilidade social sejam valorizadas internamente e externamente, fortalecendo a confiança pública e institucional. Colocar o perito como um agente chave na promoção da verdade e da justiça trará maior legitimidade à odontologia legal perante a sociedade.
Ainda que as dificuldades sejam significativas, elas impulsionam o desenvolvimento da área, abrindo espaço para aprimoramentos técnicos, normativos e de formação. A odontologia legal brasileira pode, a partir dessas transformações, se firmar verdadeiramente como uma ciência essencial na promoção da justiça e na proteção dos direitos humanos.
Assim, o compromisso ético com a manipulação correta dos dados, a qualificação técnica apurada e o fortalecimento institucional são elementos inseparáveis para a evolução e consolidação da odontologia legal. A experiência mostra que sem esses pilares, a integridade do sistema judicial e o direito fundamental à identidade das vítimas ficam comprometidos.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa evidenciou a importância fundamental da Odontologia Legal na identificação de corpos carbonizados, sobretudo por meio da análise detalhada da arcada dentária, que demonstra notável resistência mesmo diante de condições extremas de calor. A literatura revisada e os estudos de casos analisados confirmam que os dentes funcionam como verdadeiros biomarcadores, permitindo a individualização da vítima em situações nas quais outras técnicas, como impressão digital ou exame genético, podem não ser aplicáveis. Ressalta se, portanto, como a odontologia forense é insubstituível para garantir o direito fundamental à identidade e a dignidade das vítimas, fatores que repercutem profundamente na esfera social e jurídica.
Outro aspecto de inegável relevância é o papel dos registros odontológicos, prontuários e documentação antemortem/post-mortem, que servem como base documental imprescindível para o confronto e confirmação da identidade. A pesquisa reforça a necessidade de conscientização quanto à elaboração, atualização e conservação adequada desses documentos, pois falhas nessa documentação fragilizam significativamente a perícia e podem inviabilizar a identificação, estendendo o sofrimento das famílias e prejudicando o andamento da justiça.
As tecnologias digitais, radiografias avançadas e a consolidação de bancos de dados informatizados surgem como instrumentos que ampliarão substancialmente a capacidade da odontologia legal para responder com rapidez, precisão e confiabilidade aos desafios enfrentados. A incorporação dessas ferramentas, aliada à qualificação técnica dos peritos, possibilitará a modernização da perícia, garantindo maior acurácia e agilidade, além da possibilidade de atuações remotas e integradas entre diferentes institutos e profissionais.
A análise detalhada de relatos de casos práticos, como os acidentes do Bazar de la Charité e da Boate Kiss, demonstra a efetividade da odontologia forense quando aliada à documentação adequada e tecnologia avançada. Esses episódios reais evidenciam ainda a complexidade e o impacto social da perícia, reforçando a importância de protocolos rigorosos e multidisciplinares para o sucesso das identificações em contextos de tragédias e desastres.
Entretanto, os desafios éticos e legais permanecem como barreiras relevantes para a excelência da odontologia legal. A ética na manipulação dos dados, a transparência na elaboração dos laudos e o respeito aos direitos humanos são elementos indispensáveis que sustentam a confiabilidade da perícia. Além disso, a fragmentação dos bancos de dados, a carência de formação continuada e a falta de investimentos consistentes dificultam o pleno desenvolvimento da área e a uniformização dos serviços no Brasil.
A atuação do perito odontolegista demanda constante atualização técnica e ética, maior articulação institucional e o fortalecimento de políticas públicas que garantam condições adequadas para o exercício da profissão. Assim, o compromisso científico deve andar lado a lado com a sensibilidade humanitária, visto que o trabalho envolve a restituição da identidade e da dignidade a pessoas falecidas e suas famílias.
Este trabalho destaca que a odontologia legal constitui uma ciência dinâmica, interdisciplinar e com valor social e jurídico indiscutíveis. Seu aperfeiçoamento depende da integração entre profissionais qualificados, inovação tecnológica e normativas atualizadas que regulamentem e valorizem a especialidade. O fortalecimento desses pilares é fundamental para que a odontologia legal contribua efetivamente para a concretização da justiça, promovendo respostas ágeis, técnicas e humanizadas.
Portanto, investir em formação, tecnologia, gestão documental e na ética da perícia odontológica se apresenta como imperativo para atender à crescente demanda da sociedade por justiça, segurança jurídica e respeito aos direitos humanos, consolidando a odontologia legal como ferramenta essencial e insubstituível no sistema forense contemporâneo.
Essas considerações finais reafirmam a necessidade de continuidade e aprofundamento das pesquisas, capacitação dos profissionais e aprimoramento dos mecanismos institucionais para garantir que a odontologia legal possa atuar com excelência, eficiência e humanidade diante dos desafios atuais e futuros.
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1Discente do Curso Superior de Odontologia do Instituto Esperança de Ensino Superior Campus Santarém – Pará e-mail: andrezzaxayane@icloud.com
2Discente do Curso Superior de Odontologia do Instituto Esperança de Ensino Superior Campus Santarém – Pará e-mail: Eduardajati@icloud.com
3Discente do Curso Superior de Odontologia do Instituto Esperança de Ensino Superior Campus Santarém – Pará e-mail: mariahelenaa971@gmail.com
4https://orcid.org/0009-0005-4530-1055
