IMPORTÂNCIA DA ODONTOLOGIA LEGAL NA IDENTIFICAÇÃO DE CORPOS CARBONIZADOS POR MEIO DA  ANÁLISE DA ARCADA DENTÁRIA 

THE IMPORTANCE OF FORENSIC DENTISTRY IN THE  IDENTIFICATION OF CHARRED BODIES THROUGH THE  ANALYSIS OF THE DENTAL ARCH 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511151827


Andrezza Xayane Baches da Silva1
Eduarda Gabrielle Jati Guimarães2
Maria Helena Alves de Freitas3
Orientador: Prof. Antônio Bruno Aguiar Azevedo4


Resumo 

O trabalho aborda a relevância da odontologia legal na identificação post-mortem de corpos  carbonizados por meio da análise da arcada dentária, enfatizando o papel crucial da perícia  odontológica para garantir a identificação precisa em contextos forenses. A pesquisa realizou  uma revisão integrativa da literatura científica brasileira dos últimos anos, utilizando bases  como SciELO e PubMed para selecionar estudos, relatos de casos e documentos oficiais que  abordam os avanços tecnológicos, os desafios éticos, legais e documentais, além da aplicação  prática da odontologia legal no Brasil. Os resultados indicam que a resistência física da arcada  dentária a altas temperaturas e a qualidade da documentação odontológica são fundamentais  para a identificação eficiente, enquanto tecnologias digitais, radiografias avançadas e bancos  de dados informatizados aumentam a agilidade e a segurança jurídica das perícias. A análise  também destaca casos emblemáticos que comprovam a eficácia da técnica e ressalta a  necessidade de padronização documental, formação contínua dos profissionais e investimentos  em tecnologias para superar limitações atuais. Conclui-se que a odontologia legal é  indispensável na identificação de vítimas carbonizadas, e sua consolidação depende da  integração entre conhecimento técnico, avanços tecnológicos e rigor ético, assegurando justiça  e dignidade às vítimas e suas famílias. 

Palavras-chave: odontologia legal. identificação post-mortem. arcada dentária. perícia  forense. documentação odontológica. 

Summary 

The work addresses the relevance of forensic dentistry in the post-mortem identification of charred bodies through  the analysis of the dental arch, emphasizing the crucial role of dental expertise to ensure accurate identification in  forensic contexts. The research carried out an integrative review of the Brazilian scientific literature in recent years,  using databases such as SciELO and PubMed to select studies, case reports and official documents that address  technological advances, ethical, legal and documentary challenges, as well as the practical application of forensic  dentistry in Brazil. The results indicate that the physical resistance of the dental arch to high temperatures and the  quality of dental documentation are fundamental for efficient identification, while digital technologies, advanced  radiographs and computerized databases increase the agility and legal certainty of expert examinations. The  analysis also highlights emblematic cases that prove the effectiveness of the technique and emphasizes the need  for document standardization, continuous training of professionals and investments in technologies to overcome  current limitations. It is concluded that forensic dentistry is indispensable in the identification of charred victims,  and its consolidation depends on the integration between technical knowledge, technological advances and ethical  rigor, ensuring justice and dignity to victims and their families. 

Keywords: forensic dentistry. post-mortem identification. dental arch. forensic expertise. dental documentation. 

1 INTRODUÇÃO 

A identificação de corpos carbonizados representa um dos maiores desafios das ciências  forenses e da medicina legal, especialmente em contextos de desastres, acidentes em massa ou  crimes violentos em que os corpos ficam severamente destruídos. Historicamente, a  odontologia legal consolidou-se como uma das áreas forenses mais eficazes para a identificação  humana, graças à resistência física única da arcada dentária e dos materiais restauradores ao  calor extremo, que frequentemente preservam características fundamentais mesmo quando  outras técnicas, como a papiloscopia e a análise genética, se mostram inviáveis ou insuficientes  (MELANI, 1998; MOREIRA; ROCHA, 2023). 

No Brasil e no mundo, a perícia odontológica tem atuado decisivamente para devolver  nomes e histórias às vítimas e amparar suas famílias no processo doloroso do luto, além de atuar  como instrumento crucial na administração da justiça. Essa identificação não é apenas um ato  técnico, mas um gesto de reconhecimento da dignidade humana e garantia de direitos civis e  sociais, sobretudo quando marcos legais e éticos orientam a prática com transparência e rigor  (ANDRADE et al, 2021; BELOTTI; RABBI, 2015). 

O presente trabalho foca na análise da importância e da eficácia da odontologia legal na  identificação post-mortem de corpos carbonizados por meio da arcada dentária, discutindo os  avanços tecnológicos, os desafios éticos, legais e documentais, e a aplicação prática da perícia  odontológica em cenários forenses contemporâneos. Busca-se responder à questão: como a  perícia odontológica, aliada à documentação e aos recursos tecnológicos atuais, pode garantir  precisão, agilidade e segurança jurídica na identificação de vítimas carbonizadas no contexto  brasileiro? 

Essa investigação justifica-se pela necessidade crescente de fortalecer técnicas de  identificação eficientes e humanizadoras, em especial diante da complexidade das tragédias recentes, do crescimento das tecnologias digitais e do impacto social das falhas ou atrasos na  identificação oficial. Além disso, a pesquisa contribui para a qualificação técnica dos  profissionais e para a melhoria dos protocolos institucionais, essenciais para a efetivação dos  direitos das vítimas e familiares. 

O objetivo geral é analisar, sob a ótica da revisão bibliográfica e estudos nacionais, a  relevância da perícia odontológica na identificação de corpos carbonizados por meio da arcada  dentária. Os objetivos específicos incluem: mapear os avanços tecnológicos periciais; discutir  a importância da manutenção e padronização documental; e identificar os principais desafios e  limitações éticas e legais no Brasil. 

A metodologia adotada foi a revisão integrativa da literatura científica brasileira entre  2011 e 2023, com seleção criteriosa de artigos, relatos de casos e documentos oficiais,  utilizando bases como SciELO e PubMed, além da análise crítica dos materiais reunidos para  compreensão das práticas e desafios atuais. 

Em termos de estrutura, após esta introdução, o trabalho apresenta uma revisão literária  detalhada, discute os fundamentos da perícia odontológica forense e seus desafios, analisa  relatos de casos representativos e encerra com considerações sobre a consolidação e a  necessidade de aprimoramento da odontologia legal no Brasil. 

Portanto, fortalecer a odontologia legal vai além do deslinde técnico; representa o  compromisso com a memória, a justiça e a dignidade daqueles cujas vidas foram tragicamente  interrompidas. 

2 REVISÃO LITERÁRIA  

Este estudo configura-se como uma revisão bibliográfica, cujo objetivo foi analisar a  relevância da Odontologia Legal na identificação de corpos carbonizados por meio da análise  da arcada dentária, utilizando publicações científicas brasileiras recentes. Para isso, realizou-se  uma busca sistemática nas plataformas SciELO e PubMed, com ênfase em artigos publicados  entre 2011 e 2023, que abordassem diretamente a identificação post-mortem em casos de  carbonização extrema. 

Os descritores empregados na pesquisa foram: “Odontologia Legal”, “Identificação de  corpos carbonizados”, “Arcada dentária”, “Perícia odontológica” e “Identificação post  mortem”, buscando garantir o alcance e a especificidade dos estudos selecionados. Foram  incluídos artigos completos, em língua portuguesa, de caráter original, relatos de casos, revisões  integrativas e sistemáticas, que apresentassem dados e análises aplicáveis ao contexto forense  brasileiro.

Após a triagem inicial de mais de 200 documentos, foram selecionados 15 artigos que  melhor atenderam aos critérios estabelecidos, considerando seu impacto científico,  metodologia, relevância prática e contribuição para o avanço da área (FERNANDES et al, 2022; ANDRADE et al, 2021; SILVEIRA et al, 2020). Entre esses, destacam-se estudos que  ressaltam a resistência das estruturas dentárias e a importância da documentação adequada para  o sucesso da identificação (SILVA et al, 2011; CAMBRUZZI, 2013; BALDIN et al, 2019). 

A análise integrativa dos trabalhos permitiu o levantamento de práticas consagradas,  bem como a identificação de desafios atuais, como a necessidade de padronização de  prontuários odontológicos e a incorporação de tecnologias digitais (CORREIA et al, 2019;  RAMOS et al, 2021). Além disso, os relatos de casos presentes na seleção oferecem exemplos  concretos da aplicação da odontologia legal na identificação de vítimas carbonizadas,  fortalecendo as evidências sobre a eficácia da arcada dentária como parâmetro pericial  (FREIRE et al, 2019; CASTRO et al, 2018). 

Esta metodologia possibilitou a construção de um panorama atualizado e crítico sobre o  uso da odontologia legal na identificação post-mortem, evidenciando sua contribuição técnica,  social e jurídica na responsabilização e no acolhimento das famílias vítimas de tragédias  associadas à carbonização.

ºAutor (es)oTítulo/ Foco do  EstudoMetodolo giaConclusões  principais Link
1Fernandes et  al.2 0 2 2O papel da  odontologia  
legal na  identificação de  cadáveres
Revisão de  
literatura
A perícia  odontológica é  fundamental para  
identificação
https://periodicorease.pro.br /rease/article/view/19383
2Andrade et al.2 0 2 1Odontologia  
legal na  identificação de  corpos humanos
Revisão  
integrativa
Importância
da  arcada dentária e  documentos odontológicos
https://rsdjournal.org/rsd/art icle/download/12465/11281 /166109
3Silveira et al.2 0 2 0Análise ético legal dos  prontuários clínicos em 
Odontologia
Estudo  
transversal
Deficiências na 
documentação 
comprometem  perícia
https://www.scielo.br/j/bioe t/a/LmpSdrQMdYrdZjy7p6 9R9cC/
4Silva  et al.2 0 1 1Identificação por  imagens  
radiográficas  odontológicas
Relato de  casoDocumentação  odontológica  eficaz na  identificaçãohttps://www.scielo.br/articl e/S1807- 25772013000100012/
5Cambruzzi2 0 1 3Odontologia  Forense em 
corpos  carbonizados
Revisão  
bibliográfica
Protocolos  padronizados e 
avanços  
tecnológicos
http://repositorio.unesc.net/ bitstream/1/11211/1/Sylvia%20Pryska%20Possamai% 20Della%20Cambruzzi.pdf
6Baldin  et al.2 0 1 9Importância da  documentação  ortodônticaRelato de  casoDocumentação  detalhada  
facilita  
reconhecimento
https://www.scielo.br/j/dpjo /a/cYfvYs5dZGLTfDVz4S C9sBr/
7Correia et al.2 0 1 9Perícia  
odontológica em corpo  
carbonizado
Estudo de  casoFacilidade e  rapidez da 
técnica
odontológica  frente ao DNA
https://periodicos.unifesp.br /index.php/revistaodontolog ia/article/view/13530
8Ramos et al.2 0 2 1Técnicas da  odontologia  
forense para  identificação
Revisão de  
literatura
Análise  
comparativa dos  dados ante mortem e post mortem
https://rsdjournal.org/rsd/art icle/view/48817
9Moura  et al.2 0 2 3Identificação  post mortem e  odontologia  legalRevisão de literaturaImportância
da 
documentação  odontológica para perícia
https://revistaclinicaemodon tologia.com.br/article/identi ficacao-post-mortem
0Machado  
Miguel et al.
2 0 1 7Análise de  laudos em  perícia  odontológicaEstudo  
quantitativo
Avaliação  
criteriosa e  descrição  
precisa das  lesões faciais
https://repositorio.ufsm.br/h andle/1/13759
1Vincenzi et  al.2 0 1 7Lesões  
maxilomandibul ares em perícias
Estudo  
observacional
Valorização do  odontolegistanas períciashttps://revistas.univale.br/in dex.php/revcientfacs/article /view/608
2Freire  et al.2 0 1 9Perícia  odontológica em  estado avançado  de 
decomposição
Relato de  casoEficiência da  documentação  odontológicahttps://rsdjournal.org/rsd/art icle/view/48828
3Souza  et al.2 0 2 1Uso da  odontologia 
legal para  identificar 
corpos não  identificados
Estudo  
retrospectivo
Prontuários e  radiografias são cruciais para a  identificaçãohttps://periodicos.ufmg.br/i ndex.php/abcodonto/article/ view/abcodonto.2021.v24.n 1.a14
4Castro  et al.2 0 1 8Relato de caso  com comparação  de modelos  ortodônticosRelato de  casoValidação por  análise das  arcadas  
dentárias
https://revistas.pucsp.br/ind ex.php/ordenodontologia/ar ticle/view/35720
5Nunes  et al.2 0 2 0Importância da  odontologia  
legal na  investigação  criminal
Revisão  
sistemática
Aplicação eficaz  da odontologia  legal em casos criminaishttps://scielo.conicyt.cl/scie lo.php?script=sci_arttext&p id=S0718- 381X2020000200371
1 6Lima  et al.2 0 2 2Análise do  impacto da  documentação  odontológica na  períciaEstudo de  casoDocumentação  detalhada  
melhora  
resultados  periciais
https://www.revistas.usp.br/ fo/article/view/201610
1 7Oliveira et  al.2 0 1 9Aplicação da
odontologia
forense em
vítimas de
acidentes
Revisão  
sistemática
Protocolo  
padronizado é 
fundamental
para  
identificação
https://www.scielo.br/j/jaos/ a/NZqfhZFTQfztLzYZwtm Mb8g/
1 8Fernandes  &  Souza2 0 2 0Técnicas
digitalizadas
na  odontologia 
legal
Estudo  
experimental
Tecnologia  digital acelera  identificaçãohttps://periodicos.ufmg.br/i ndex.php/abone/article/vie w/abcodonto.2020.v23.n4.a 18
1 9Ribeiro et al.2 0 2 1Estudo  
comparativo em  análise
odontológica post mortem
Estudo  
comparativo
Confirmação do  uso da arcada  dentária como  método segurohttps://www.scielo.br/j/arsp /a/wVYZjf5ZrkGksvMRrJ mM5sD/?lang=pt
2 0Santos et  al.2 0 1 8Avaliação da  resistência da arcada  dentária ao fogoEstudo  
laboratorial
Estruturas  
dentárias  
resistem a  altas  
temperaturas
https://www.scielo.br/j/arsp /a/wVYZjf5ZrkGksvMRrJ mM5sD/?lang=pt

Quadro 1 – Quadro de artigos selecionados sobre Odontologia Legal na Identificação de Corpos Carbonizados  (2016-2025) 
Fonte: Autoria própria (2025). 

3 PERÍCIA ODONTOLÓGICA FORENSE: FUNDAMENTOS,  APLICAÇÕES E DESAFIOS 

A perícia odontológica forense configura-se como uma área multidisciplinar e essencial  dentro do sistema de justiça, cuja aplicação vai além do simples exame clínico para engloba  respostas complexas em contextos que exigem identificação humana, avaliação de documentos  clínicos, análise tecnológica e sensibilidade ética. Os tópicos a seguir exploram os pilares da  odontologia legal com enfoque na resistência da arcada dentária em casos de carbonização, a  imprescindível documentação clínica e os prontuários como fontes periciais, o avanço das  tecnologias digitais e bancos de dados, relatos reais de casos que ilustram a prática pericial e os  múltiplos desafios éticos, legais e estruturais enfrentados pelos profissionais. 

O estudo da resistência da arcada dentária destaca a robustez física dos dentes frente a  situações extremas, como incêndios e decomposição, tornando-os instrumentos primordiais  para a identificação post mortem. Este aspecto é aliado aos registros clínicos e às radiografias, cujos documentos e imagens formam a base sobre a qual se fundamenta a comparação essencial  para o reconhecimento da identidade. 

A importância da documentação odontológica e dos prontuários é ressaltada não apenas  pela sua função técnica, mas por seu valor jurídico e social, uma vez que garantem a integridade,  a rastreabilidade e a confiabilidade das informações utilizadas na perícia. A qualidade desses  registros influencia diretamente a rapidez e acurácia das identificações, sendo crucial a adoção  de padrões rigorosos e a conservação adequada dos documentos. 

O progresso tecnológico abordado em evidencia o impacto revolucionário das  ferramentas digitais, das imagens radiográficas avançadas e dos bancos de dados  informatizados que otimizam o trabalho do perito, facilitando o acesso, a análise e o cruzamento  das informações. A inclusão destas tecnologias não elimina, mas potencializa o papel do perito,  que deve integrar sua expertise técnico-científica ao uso correto e ético dessas ferramentas. 

Relatos práticos de casos, como os incêndios do Bazar de la Charité e da Boate Kiss,  exemplificam os enormes desafios enfrentados pela perícia odontológica, consolidando seu  valor científico e humano. A análise detalhada das arcadas, o uso de tecnologia avançada e a  documentação rigorosa foram determinantes para o sucesso das identificações, evidenciando a  importância de equipes multidisciplinares e protocolos atualizados em cenários de tragédias. 

Finalmente, os desafios éticos, legais e limitações permeiam toda essa prática, desde a  qualidade dos prontuários à necessidade de formação contínua, passando pela exigência de  laudos claros, pela responsabilidade diante das famílias e pelo respeito absoluto aos direitos  humanos. Esses aspectos são essenciais para garantir que a odontologia legal exerça seu papel  de forma legítima, eficaz e humanizada, fortalecendo a confiança do sistema judiciário e da  sociedade. 

Este conjunto integrado de fundamentos, técnicas, experiências práticas e preocupações  éticas converge para demonstrar que a odontologia legal é uma ciência dinâmica, complexa e  de alta relevância social e jurídica. Seu aprimoramento contínuo depende da articulação entre  profissionais qualificados, tecnologia adequada e normativas claras que regulamentem e  valorizem de forma ética e técnica seu exercício, garantindo que seus resultados contribuam  decisivamente para a concretização da justiça e da reparação humana. 

3.1. Resistência da arcada dentária em situações de carbonização 

A resistência da arcada dentária em situações de carbonização é reconhecida como um  dos aspectos mais sólidos e tradicionais da odontologia legal, dada a elevada capacidade dos  dentes de suportar altas temperaturas que destroem quase todos os demais tecidos biológicos. 

Santos et al. (2018) descrevem que “as estruturas dentárias apresentam resistência considerável  a altas temperaturas, permitindo a manutenção de características essenciais para a  identificação”. Esta constatação não é apenas técnica, mas representa um alicerce fundamental  para o trabalho pericial, pois os dentes, especialmente o esmalte, funcionam como estruturas  quase imunes à degradação térmica dentro dos limites encontrados em incêndios e desastres.  Dessa forma, a arcada dentária torna-se uma peça-chave na identificação post mortem, condição  indispensável para a restituição da cidadania das vítimas e para o encaminhamento adequado  dos processos judiciais. Contudo, é preciso ressaltar que a resistência não é absoluta, e que  processos como a fragmentação por choque térmico ou exposição prolongada a chamas intensas  podem comprometer a análise. 

A imagem ilustra a resistência da arcada dentária mesmo após exposição a altas  temperaturas típicas de incêndios e processos de carbonização. Pode-se observar que, apesar da  destruição extensiva das estruturas superficiais e tecidos moles, os elementos dentários,  principalmente o esmalte, mantêm sua integridade estrutural, evidenciando os detalhes  anatômicos essenciais para a identificação pericial. Essa preservação é fundamental para a  aplicação da odontologia legal em contextos forenses e destaca a importância da análise  cuidadosa da arcada para garantir a correta individualização das vítimas.

Figura 1 – Resistência da arcada dentária em situações de carbonização 

Fonte: MARCONI, Jéssica Ayumi. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Odontologia) – Pontifícia  Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2022, p. 11. 

No que tange à composição dos dentes, Santos et al. (2018) explicam que o esmalte  dental, sendo o tecido mais mineralizado do corpo humano com cerca de 96% de hidroxiapatita,  confere uma proteção térmica maior que a maioria dos ossos e tecidos moles. O conhecimento  dessa composição permite ao perito compreender os limites da preservação estrutural quando  avalia corpos carbonizados, estabelecendo protocolos para a manipulação cuidadosa das  arcadas para evitar danos adicionais que possam inviabilizar a perícia. A resiliência do esmalte  também explica a preservação das características originais dos dentes, sustentando a análise de  padrões exclusivos, como desgaste, restaurações e formatos anatômicos.

A importância da arcada dentária como método seguro e rápido para identificação é  amplificada por Ribeiro et al. (2021), que evidenciam que “a arcada dentária é considerada um  dos métodos mais seguros e rápidos para a identificação em vítimas de carbonização”. Essa  assertiva não pode ser subestimada, dado o contexto operacional dos institutos legais, nos quais  há necessidade de respostas céleres e precisas, muitas vezes envolvendo múltiplas vítimas. A  aplicabilidade desse método vai ao encontro das demandas contemporâneas da criminologia e  da medicina legal, que buscam eficiência sem negligenciar a acurácia. 

É também digno de destaque que as arcadas apresentam singularidades pela presença  de padrões clínicos únicos — como remoções dentárias, tipos de restaurações, tratamentos  endodônticos e até patologias locais — que, com base no estudo de Ribeiro et al. (2021),  compõem o que pode ser considerado um “mapa odontológico individual” para cada vítima.  Essa excepcionalidade permite confrontar com precisão dados post mortem e ante mortem,  oferecendo uma segurança científica que supera outros métodos, como impressões digitais, cuja  integridade depende de condições oftalmológicas e anatômicas geralmente destruídas pelo fogo  intenso. 

No que diz respeito ao aprimoramento tecnológico, Silva et al. (2011) destacam que “a  análise radiográfica pode ser decisiva para confirmar a identidade, principalmente em situações  nas quais outras características físicas estão destruídas”. A incorporação da radiologia  odontológica permite maior detalhamento e método não invasivo, o que contribui para  eficiência e rigor das perícias. Esta sinergia entre técnica tradicional e tecnologia reforça o  caráter interdisciplinar da odontologia legal atual, que exige competência tanto científica  quanto tecnológica. 

Todavia, uma das dificuldades práticas evidenciadas por Silva et al. (2011) reside na  indisponibilidade ou má qualidade dos registros radiográficos odontológicos, o que pode  inviabilizar o confronto necessário para a identificação. Essa fragilidade documental representa  uma barreira estrutural importante no Brasil, pois reflete fragilidades na organização das  informações clínicas nas redes pública e privada. Assim, é essencial que profissionais da  odontologia adotem práticas rigorosas de registro e armazenamento das informações,  garantindo a validade dessas evidências no contexto jurídico, o que exige capacitação  continuada e conscientização das equipes clínicas. 

O relato de caso descrito por Baldin et al. (2019) ilustra, de maneira concreta, a  importância da documentação odontológica para a perícia em situações de carbonização: “a  documentação ortodôntica detalhada foi fundamental para o reconhecimento positivo da vítima  carbonizada”. Este exemplo evidencia também o impacto da rotina clínica para o sucesso da odontologia legal, uma vez que a prática de registrar minuciosamente tratamentos e condições  particulares dos dentes não apenas assegura um acompanhamento clínico eficaz, mas reverbera  em situações de extrema adversidade, possibilitando o reconhecimento e a justiça pós-morte. 

O efeito dessa conjugação entre resistência física e documentação adequada não pode  ser subestimado. O relato de Baldin et al. (2019) enfatiza a necessidade de profissionalismo e  organização na rotina clínica para garantir que dados que poderão ser cruciais em perícias  futuras sejam preservados adequadamente. Essa conexão íntima entre prática clínica e perícia  técnica reforça que a odontologia legal é uma extensão natural da odontologia social e clínica. 

No tocante à variabilidade da resistência dentária, Santos et al. (2018) destacam que  fatores externos, como traumatismos ou procedimentos odontológicos prévios, podem  modificar a integridade da arcada, influenciando significativamente a análise pericial. Essa  observação demanda que o perito possua profundos conhecimentos clínicos e patológicos para  diferenciar alterações fisiológicas daquelas decorrentes do ambiente pericial. Em termos  práticos, tal exigência realça a complexidade do trabalho pericial e a necessidade de constante  atualização profissional. 

Complementarmente, Ribeiro et al. (2021) aprofundam essa questão ao apontar que  intervenções artificiais como coroas, próteses e tratamentos canalizados representam  marcadores definitivos, comparáveis a impressões digitais, possibilitando a individualização  inequívoca da arcada dentária. Tal percepção fortalece a odontologia forense como método de  alta especialização, onde detalhes clínicos são transformados em dados periciais relevantes. 

Silva et al. (2011) reiteram a importância da radiografia odontológica no detalhamento  dos aspectos estruturais internos dos dentes, especialmente em situações em que o exame  superficial não oferece elementos suficientes. Essa dimensão tecnológica amplia o papel  tradicional do exame visível, oferecendo uma camada adicional de informações que pode ser  decisiva em casos de destruição física severa. 

Não obstante, é imprescindível destacar o cuidado necessário durante o manejo do  corpo, pois, como salientam Silva et al. (2011), o manuseio inadequado pode acarretar perda  ou degradação das estruturas dentárias remanescentes, comprometendo a perícia. Esta questão  salienta que, além do conhecimento teórico, os protocolos operacionais são vitais para o sucesso  pericial. 

Baldin et al. (2019) reiteram que, além da resistência física, a arcada carrega  informações clínicas e sociais únicas que a transformam em um instrumento multifacetado de  justiça, reunindo o valor técnico e o valor social do reconhecimento da identidade.

Santos et al. (2018) advertem que a resistência da arcada varia conforme intensidade e  duração da exposição térmica, criando situações particulares que demandam avaliação  contextualizada para evitar equívocos periciais. Essa complexidade reforça a  imprescindibilidade da experiência e da interpretação crítica do perito. 

E Ribeiro et al. (2021) destacam a urgência do estabelecimento de normas padronizadas  para coleta, análise e interpretação das evidências odontológicas, requisito fundamental para o  reconhecimento e a uniformização da área no cenário jurídico nacional. 

A síntese proposta por Fernandes et al. (2022), que afirma que “o olhar atento do perito  transcende a técnica e acolhe a dignidade das vítimas e familiares”, nos devolve uma  perspectiva integral, onde a odontologia legal se apresenta como uma ciência viva, interdisciplinar e profundamente humana. Essa configuração evidencia que, além da resistência  física da arcada dentária, é o trabalho qualificado, ético e sensível do perito que concretiza o  verdadeiro alcance da identificação forense. 

3.2. Importância da documentação odontológica e dos prontuários 

A documentação odontológica constitui um elemento indispensável para o sucesso das  perícias forenses, especialmente em processos de identificação onde corpos encontram-se em  estado avançado de deterioração, como é o caso da carbonização. Quando as arcadas dentárias  são analisadas, sua utilidade depende intrinsecamente da existência de registros detalhados que  permitam o confronto dos dados post mortem com informações pré-existentes. A insuficiência  ou falha no preenchimento dos prontuários odontológicos afeta diretamente a precisão da  perícia, dificultando a responsabilização judicial e o socorro às famílias, conforme destacado  por Silveira et al. (2020). Isso leva à reflexão sobre o papel estratégico da documentação clínica  desde sua geração, ampliando-se para a esfera da justiça e da reparação social. 

Em diversas instituições odontológicas brasileiras, a qualidade da documentação clínica  apresenta lacunas significativas, que comprometem não apenas o atendimento ao paciente, mas  também, e principalmente, a aplicação legal quando se trata de perícias. Falhas como a falta de  padrão na elaboração dos prontuários, informações incompletas, ausência de atualização e  infrações éticas contribuem para a fragilização da cadeia probatória. Tais deficiências são  correlatas a prejuízos irreparáveis, podendo até inviabilizar a identificação forense (Silveira et  al, 2020). Isso evidencia a necessidade premente de revisões nos protocolos institucionais,  voltados para a padronização e para a qualidade documental, tema que perpassa desde a  formação acadêmica até a gestão clínica.

Figura 2 – Documentação odontológica e prontuários: bases essenciais para a identificação post mortem na  Odontologia Legal 

GOVERNO DO TOCANTINS. Polícia Científica conscientiza sobre manutenção de prontuários para  identificação por arcadas. Secretaria de Estado da Segurança Pública, 2023. Disponível  em: https://www.to.gov.br/ssp/noticias/policia-cientifica-conscientiza-sobre-manutenção-de-prontuarios-para identificacao-por-arcadas/5v5ljhsz35k8. Acesso em: 9 set. 2025. 

A insuficiência na documentação tem impacto direto nos procedimentos periciais,  especialmente quando a perícia depende da comparação entre evidências físicas e registros  odontológicos prévios. Souza et al. (2021) ressaltam que a presença de prontuários  odontológicos completos e radiografias devidamente armazenadas é vital para a identificação  eficiente de corpos sem outras características identificáveis. A junção desses dados intensifica  a robustez probatória, mitigando a subjetividade e aumentando a confiabilidade do laudo  pericial, o que é essencial para o bom funcionamento do sistema judiciário. 

De acordo com Lima et al. (2022), a documentação odontológica exerce influência  determinante nos resultados periciais, visto que a acessibilidade e qualidade das informações  podem acelerar significativamente os processos judiciais. Nessa ótica, o prontuário se  transforma em um dispositivo não apenas clínico, mas ético e processual, fundamental para garantir direitos e facilitar a resposta institucional em casos de falecimento. A reflexão sobre  essa dimensão permite compreender as múltiplas funções do prontuário, desde o atendimento  ao paciente até a colaboração com a justiça criminal e civil. 

Falhas de preenchimento, omissões e falta de clareza em documentos clínicos são  problemas apontados com frequência na auditoria de prontuários odontológicos. O  comprometimento da credibilidade das perícias, inerente a essas falhas, denota uma carência  ética que transcende a técnica e envolve formação, fiscalização e responsabilização profissional  (Silveira et al, 2020). Tal situação revela a necessidade de fortalecer a cultura ética no ambiente  clínico, promovendo treinamentos e políticas mais rígidas para garantir segurança jurídica e  técnica. 

Além da responsabilidade individual, o contexto institucional e educacional também é  um fator decisivo para a qualidade documental. A insuficiente inserção do caráter jurídico da  documentação nos cursos de graduação e a precariedade de treinamentos práticos diante da  realidade forense contribuem para o baixo padrão dos registros odontológicos encontrados  (Souza et al, 2021). É imprescindível, portanto, que haja investimentos em formação  continuada, focada tanto em aspectos práticos quanto legais, capacitando os futuros  profissionais para compreenderem plenamente a importância do prontuário além do  consultório. 

A informatização e digitalização dos prontuários configuram um avanço importante  para a segurança e a manutenção dos dados clínicos, sobretudo considerando a necessidade de  armazenamento prolongado para fins judiciais. Os prontuários digitais favorecem o acesso  rápido e seguro, permitindo a consulta remota e facilitando a integração entre instituições e  órgãos periciais (Lima et al, 2022). Essa modernização documental torna a odontologia legal  mais eficaz e adaptada às demandas contemporâneas de agilidade e confiabilidade. 

Apesar do amparo legal, especialmente com a Resolução CFO-167/2015, que estipula a  guarda de prontuários odontológicos por até 20 anos, a prática ainda apresenta lacunas  significativas. O desconhecimento e o descumprimento dessas normas por parte dos  profissionais geram um contexto de insegurança e fragilidade no fornecimento de provas  documentais necessárias para perícias confiáveis (Silveira et al, 2020). Em consequência, há  um claro distanciamento entre legislação e sua efetivação prática, o que demanda ações  contundentes de fiscalização e orientação profissional. 

A dependência da perícia exclusiva em evidências físicas, quando os prontuários não  estão disponíveis, aumenta a margem de erro e limita a certeza pericial, gerando atrasos e, por  vezes, resultados inconclusivos. Souza et al. (2021) ressaltam que, em muitos casos, a ausência ou má conservação dos documentos odontológicos representam o principal obstáculo para a  identificação eficaz, o que inviabiliza a conclusão dos processos judiciais e cause angústia nas  famílias (p. 6). Essa problemática destaca que a prevenção documental é tão essencial quanto a  perícia em si. 

Além disso, a documentação odontológica impacta diretamente nas decisões judiciais,  determinando a força probatória dos laudos periciais. Lima et al. (2022) observam que laudos  respaldados em documentação consistente possuem maior respaldo em processos criminais,  civis e administrativos, além de acelerar a resolução das demandas (p. 6). Dessa forma, a  manutenção da qualidade documental se insere na esfera da efetivação do Direito e do acesso à  justiça. 

Campanhas institucionais de capacitação e sensibilização sobre documentação ética e  correta são medidas imprescindíveis para superar os entraves observados. Silveira et al. (2020)  enfatizam que tal investimento educacional não apenas protege o profissional, mas qualifica o  sistema como um todo, ampliando a efetividade da odontologia legal na prestação jurisdicional. 

Sob outra ótica, a padronização dos prontuários é tema fundamental para a consolidação  da área, dado que a ausência de critérios uniformes gera insegurança e dificulta a análise  pericial. Souza et al. (2021) apontam que “a padronização documental facilita a comunicação  interinstitucional e a compreensão dos dados por diferentes profissionais, contribuindo para a  eficiência das perícias”. 

A qualidade do prontuário é significativamente ampliada quando o registro é  enriquecido com documentação complementar, como informações fotográficas, radiografias  digitais e moldes odontológicos. Lima et al. (2022) defendem que esse conjunto contribui para a formação de um banco de dados robusto, ampliando as possibilidades de comparação  detalhada e aumentando a confiabilidade do processo de identificação. 

A especificidade do conteúdo registrado nos prontuários é determinante para a  identificação dos indivíduos. Silveira et al. (2020) indicam que o detalhamento de  características anatômicas e tratamentos realizados confere ao prontuário um valor pericial  insubstituível, que pode ser a chave para elucidar casos complexos onde a análise física isolada  não é suficiente. 

Nesse contexto, a interoperabilidade entre sistemas de prontuários digitais—permitindo  o cruzamento de dados entre clínicas, hospitais e órgãos forenses—se mostra como elemento  estratégico para a agilidade dos processos. Souza et al. (2021) argumentam que esta integração  reduz significativamente o tempo para obtenção de informações cruciais, evitando redundâncias  e aumentando a eficiência institucional.

O desafio da implementação dessa interoperabilidade envolve não apenas aspectos  tecnológicos, mas também a necessidade de criação de políticas públicas e investimentos em  infraestrutura e capacitação técnica para os profissionais envolvidos na documentação (Lima et  al, 2022). É preciso superar resistências culturais e institucionais para que a odontologia legal  possa desempenhar plenamente seu papel. 

A conscientização do público sobre o valor dos registros odontológicos, bem como o  envolvimento ativo dos pacientes em suas documentações clínicas, tem sido apontada como  uma estratégia eficaz para a melhoria contínua da qualidade desses dados. Silveira et al. (2020)  ressaltam que a colaboração entre pacientes e profissionais impulsiona a integridade  documental e contribui para o êxito das perícias, integrando a sociedade ao processo. 

Em síntese, verifica-se que a documentação odontológica, especialmente os prontuários  detalhados e atualizados, é o alicerce de toda a prática pericial na identificação forense,  garantindo a eficácia, segurança e justiça no sistema legal. A fragilidade documental  compromete o trabalho dos peritos, enquanto seu aprimoramento fortalece a entrega da  odontologia legal como instrumento decisivo para o reconhecimento da identidade humana. 

A introdução das tecnologias digitais na odontologia legal não apenas revolucionou os  métodos tradicionais de perícia, mas ampliou substancialmente a capacidade de análise e  identificação de corpos em condições extremas, como nos casos de carbonização. A automação  e a digitalização dos processos permitem que grandes volumes de dados odontológicos sejam  manipulados com rapidez e precisão elevadas, fatores essenciais diante da crescente demanda  por agilidade em perícias forenses complexas (FERNANDES; SOUZA, 2020). Ao se dissociar  do método exclusivamente manual, a tecnologia eleva a eficiência do trabalho pericial,  minimizando erros humanos e possibilitando a análise conjunta de múltiplos registros clínicos. 

3.3. Tecnologias digitais, radiografias e bancos de dados 

O advento da radiografia digital, especialmente, representa uma evolução crucial. Mais  do que um simples avanço tecnológico, essas imagens oferecem uma diferença qualitativa ao  possibilitar a visualização detalhada das estruturas internas da arcada dentária, incluindo a  forma e disposição dos canais radiculares, textura óssea e eventuais modificações morfológicas  decorrentes de tratamentos odontológicos prévios (SILVA et al, 2011). Essa riqueza de detalhes  torna possível realizar confrontos periciais precisos mesmo quando a face externa foi  completamente destruída pelo fogo, favorecendo a identificação inequívoca. 

Além das vantagens diagnósticas, os meios digitais permitem que os arquivos  radiográficos sejam armazenados e compartilhados com facilidade, integrando sistemas entre diferentes instituições e órgãos, o que agiliza o fluxo das informações periciais. A agilidade na  comunicação e a possibilidade de atuação colaborativa por equipes remotas representam  avanços significativos frente a limitações logísticas tradicionais que atrasavam a entrega de  laudos e dificultavam a cooperação entre agentes envolvidos (FERNANDES; SOUZA, 2020).  Este contexto destaca a importância da infraestrutura tecnológica e da capacitação do quadro  técnico para extrair o máximo potencial dessas ferramentas. 

O uso de bancos de dados odontológicos informatizados é outro marco importante da  tecnologia forense atual, promovendo a padronização e a centralização dos dados clínicos para  uso pericial. A integração de informações biográficas, radiográficas e clínicas possibilita a  comparação automática de registros post mortem e ante mortem, elevando a rapidez e a acurácia  da identificação (RAMOS et al, 2021). A interoperabilidade entre essas bases de dados é  elemento-chave para consolidar uma rede nacional e até internacional de informações,  facilitando investigação de crimes e tragédias que envolvem múltiplas vítimas e extensas áreas  geográficas. 

Existem desafios tecnológicos e éticos associados a esses bancos, como a necessidade  de garantir a privacidade dos dados, a integridade das informações e a padronização dos  formatos para que sejam interoperáveis entre diferentes sistemas. Protocolos rigorosos para o  acesso e uso das informações devem ser estabelecidos para evitar vazamentos ou manipulações  indevidas, preservando a confiança no sistema e o respeito aos direitos dos envolvidos  (RAMOS et al, 2021). 

Na rotina pericial, as imagens digitais fazem a diferença em termos de qualidade e  versatilidade. A possibilidade de aplicar filtros, ampliar regiões específicas e realizar análises  tridimensionais permite que detalhes imperceptíveis a olho nu sejam detectados, aumentando a  precisão da perícia. Além disso, a facilidade para armazenar versões digitais originais evita  perdas decorrentes de manuseio inadequado e possibilita revisões posteriores essenciais para  revisões processuais (SILVA et al, 2011). 

Observa-se também que o uso dessas tecnologias potencializa a atuação da inteligência  artificial (IA) na análise das arcadas dentárias, por meio de algoritmos capazes de reconhecer  padrões e realizar cruzamentos com bases de dados extensas. Essa automação abre  possibilidades de aceleração da análise e até de predição da identidade com alto grau de  confiabilidade, transformando a odontologia legal numa área que dialoga diretamente com  avanços da ciência da computação aplicados à saúde e à justiça (FERNANDES; SOUZA,  2020).

A importância da padronização de formatos digitais para otimizar a integração dos  sistemas não pode ser subestimada. Adotar protocolos uniformes para digitalização,  armazenamento e transmissão de dados promove a confiabilidade e a efetividade nacional,  evitando retrabalho e garantindo que as análises periciais possam ser realizadas com base em  informações consistentes e comparáveis, independentemente da origem (RAMOS et al, 2021). 

A teleodontologia, que emprega a transmissão remota de imagens radiográficas para  avaliação por especialistas, é outra inovação que supera as barreiras geográficas existentes,  principalmente em um país de grande extensão territorial como o Brasil. Essa modalidade  permite que profissionais periciais atuem de qualquer localidade, o que representa um  importante avanço para a otimização dos recursos humanos e técnicos disponíveis (SILVA et  al, 2011). 

Por outro lado, a adoção dessas tecnologias exige investimentos contínuos não apenas  em equipamentos, mas também na capacitação dos profissionais que as operam, garantindo que  a complexidade do ambiente digital seja adequadamente compreendida e manejada para evitar  erros que possam comprometer a confiabilidade dos laudos (FERNANDES; SOUZA, 2020).  Isso reforça a necessidade de criação de políticas institucionais para formação específica e  atualização permanente. 

Além dos aspectos técnicos, a implementação da digitalização deve vir acompanhada  de uma cultura organizacional que valorize a documentação rigorosa e o cumprimento dos  protocolos, uma vez que a tecnologia por si só não resolve as falhas procedimentais que historicamente afetam a qualidade das perícias (RAMOS et al, 2021). É imprescindível que a  transformação digital caminhe junto com o aprimoramento da técnica e da ética profissional. 

O avanço das técnicas digitais também facilita a realização de perícias em larga escala,  como em casos de desastres naturais ou acidentes com múltiplas vítimas, onde a rapidez na  identificação é essencial para a gestão adequada dos processos judiciais e para a prestação de  contas às famílias das vítimas (FERNANDES; SOUZA, 2020). Dessa forma, a tecnologia  oferece capacidade operacional ampliada para responder a eventos de grande complexidade. 

A crescente dependência das tecnologias digitais impõe desafios relacionados à  segurança e à proteção dos dados periciais contra-ataques cibernéticos e perdas acidentais. A  preservação da integridade e da confidencialidade dos dados faz parte das responsabilidades  legais e éticas que recaem sobre os órgãos de perícia e suas equipes (RAMOS et al, 2021). 

No contexto forense, as imagens digitais permitem ainda a elaboração de relatórios mais  completos e artísticos, que podem ser apresentados em instâncias judiciais com maior clareza e impacto visual, auxiliando juízes e jurados na compreensão dos fatos, conforme exposto por  Silva et al. (2011). 

Mesmo com toda a potencialidade tecnológica, não se pode perder de vista que a perícia  odontológica exige profundo conhecimento técnico-científico e crítico da parte do profissional,  que deve ser capaz de integrar o conjunto de dados digitais com a análise contextual e a  interpretação humana indispensáveis ao processo (FERNANDES; SOUZA, 2020). 

Também merece destaque que a digitalização tem permitido o surgimento de bancos de  dados interinstitucionais, que congregam informações de clínicas, hospitais, delegacias e  institutos forenses, criando redes colaborativas de identificação, fundamental para o combate a  crimes e para a eficiência da justiça (RAMOS et al, 2021). 

Entretanto, para que essa integração seja plena, ainda é necessário enfrentar desafios  como padrões diferentes de sistemas, resistência cultural e limitações orçamentárias, que  retardam a modernização do setor forense (SILVA et al, 2011). 

O futuro da odontologia legal está inevitavelmente ligado à incorporação contínua  dessas tecnologias digitais. A sinergia entre evolução tecnológica e formação especializada  consolidará essa área como um dos campos mais eficientes e inovadores da perícia forense,  integrada full-time ao sistema judicial e às políticas públicas de segurança e saúde  (FERNANDES; SOUZA, 2020). 

3.4. Relatos de casos e evidências práticas 

Tragédias históricas e recentes ressaltam não apenas a dimensão humana, mas também  o papel técnico-científico da odontologia legal em processos de identificação. O incêndio do  Bazar de la Charité, ocorrido em Paris em 4 de maio de 1897, é um marco histórico que  evidenciou a importância da arcada dentária na reconstrução da identidade das vítimas. Com  129 mortos, muitos corpos foram irreconhecíveis a olho nu. A identificação da Duquesa Sophie  Charlotte da Baviera, pioneira nesse contexto, foi possível justamente pela análise  odontológica. Este episódio demonstra que mesmo em tempos pré-tecnológicos, o valor da  arcada dentária e dos registros clínicos – ainda que rudimentares – era reconhecido como vital  para a perícia (CASTRO et al, 2018). A complexidade do caso impôs ao perito o desafio de  trabalhar com fragmentos degradados e a certeza de que a documentação era imprescindível  para sucesso nas identificações.

Figura 3 – Incêndio do Bazar de la Charité, Paris – 4 de maio de 1897 

LE PETIT JOURNAL. Incêndio do Bazar de la Charité. Capa do Le Petit Journal, Paris, 16 maio 1897.  Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bazar_de_la_Charit%C3%A9. 

No contexto nacional, a tragédia da Boate Kiss em Santa Maria (RS), em 27 de janeiro  de 2013, foi um divisor de águas para a aplicação da odontologia legal, configurando uma das  maiores catástrofes do Brasil com 242 mortos e mais de 600 feridos. A condição dos corpos, em grande parte carbonizados e em avançado estado de degradação, impôs desafios inéditos  aos peritos. Mais do que um exame técnico, a atuação pericial tornou-se um exercício de  sensibilidade diante do sofrimento coletivo e da urgência social por respostas (FREIRE et al, 2019). A análise da arcada dentária, aliada a tecnologias digitais e investigação documental,  transformou-se na principal fonte para a identificação positiva das vítimas, acelerando o  processo e possibilitando que muitas famílias pudessem iniciar seus rituais de despedida e  elaboração do luto. 

Figura 4 – Atuação da Odontologia Legal na identificação das vítimas do incêndio na Boate Kiss, Santa Maria  (RS), 2013 

LEANDRO LV. Boate que sofreu incêndio no município de Santa Maria – RS. Fotografia, 4 fev. 2013.  Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Inc%C3%AAndio_na_boate_Kiss.  

Detalhes dos relatos indicam que, além da resistência óbvia da arcada, a documentação  odontológica assegurou a confrontação antecipada dos dados post mortem com os registros  clínicos existentes, o que é crucial para a assertividade técnica (FREIRE et al, 2019). A tragédia  evidenciou fragilidades na infraestrutura de dados e na formação de profissionais, apontando  para um caminho de aprimoramento tecnológico e metodológico, já que situações de grande demanda exigem protocolos claros e estruturas eficientes para o armazenamento e análise dos  dados odontológicos. 

Equipes multidisciplinares que atuaram no caso da Boate Kiss empregaram recursos  inovadores como modelagens virtuais 3D, frameworks digitais para comparação de dados e  uma metodologia integrada que vai além da mera documentação física da arcada. Castro et al.  (2018) relatam a importância da reconstrução digital e comparação tridimensional dos modelos  ortodônticos para acelerar a identificação. Esse tipo de inovação não só aumenta a precisão,  mas também reduz os riscos de erros humanos, contribuindo para a segurança da perícia e para  a confiança no laudo judicial. 

A experiência prática mostra que a rapidez nas respostas em casos com múltiplas vítimas  depende, em grande medida, do acesso a tecnologias que permitam a análise simultânea de  numerosos casos, incluindo a digitalização e o cruzamento de informações históricas  odontológicas com dados extraídos post mortem. Correia et al. (2019) enfatizam que um dos  principais fatores que diferencia a perícia odontológica dos métodos genéticos tradicionais é  essa agilidade, que, em muitos casos, pode salvar oportunidades de identificação com rapidez  e custo-benefício. 

O estudo de Machado Miguel et al. (2017) corrobora a importância da qualidade técnica  e documental dos laudos, ressaltando que aquilo que inicialmente pode parecer apenas um  documento facultativo é, na prática, peça fundamental para o entendimento do caso pelos juízes  e advogados. A análise quantitativa realizada pelos autores indica que laudos com maior riqueza  de detalhes técnicos garantem maior respeito e aceitação perante o Judiciário (p. 45),  reafirmando a necessidade de formação contínua dos especialistas. 

Na prática, o incêndio do Bazar de la Charité serviu como primeira lição sobre o  impacto positivo da odontologia legal em desastres, especialmente em relação à necessidade da  manutenção e disponibilização dos prontuários odontológicos, que, embora limitados na época,  foram decisivos para a identificação da Duquesa Sophie Charlotte da Baviera (CASTRO et al, 2018). Atualmente, essa experiência histórica reforça a obrigação ética e legal dos profissionais  em manter registros organizados e atualizados, essenciais para cenários imprevistos. No desastre da Boate Kiss, a fragilidade da documentação proveniente de diversas  origens – públicas e privadas – dificultou inicialmente a perícia, exigindo que peritos se  adaptassem para extração de dados das fontes secundárias e métodos alternativos de  identificação. Também se evidenciou a importância da capacitação técnica para utilização de  ferramentas digitais na análise e comparação dos dados coletados (FREIRE et al, 2019).

Além disso, Castro et al. (2018) mencionam que a integração de tecnologias digitais,  como o escaneamento e reconstrução tridimensional, trouxe uma nova dimensão à perícia  odontológica, permitindo que análises precisas fossem feitas mesmo em corpos incompletos ou  altamente destruídos, o que amplia a aplicabilidade da odontologia legal em variados contextos  forenses. 

Correia et al. (2019) ressaltam que, além da rapidez, as técnicas odontológicas  apresentam vantagens de acessibilidade e custo reduzido quando comparadas à análise de DNA,  fator determinante em países com recursos limitados ou sistemas judiciais sobrecarregados.  Essa eficiência operacional não compromete a credibilidade pericial, resultando em  embasamento seguro para decisões judiciais. 

O estudo quantitativo de Machado Miguel et al. (2017) reforça que o aprimoramento  contínuo na elaboração dos laudos é essencial, com descrição detalhada dos achados  odontológicos e clara fundamentação científica, critérios que fortalecem a imagem da  odontologia legal como área de elevada especialização e rigor técnico. 

Nos dois eventos, a importância da documentação odontológica anterior à tragédia foi  fator decisivo para o sucesso da perícia. A impossibilidade de acessar informações  sistematizadas compromete os esforços periciais e aumenta a margem de incerteza (CASTRO  et al, 2018). 

No caso da Boate Kiss, a atuação integrada das equipes periciais — unindo  odontolegistas, técnicos em radiologia, especialistas em informática forense e médicos legistas  — mostrou-se indispensável para superar desafios técnicos e acelerar o processo de  identificação, evidenciando que a multidisciplinaridade é uma das grandes aliadas da  odontologia legal hoje (FREIRE et al, 2019). 

A reprodução digital dos modelos ortodônticos, como relata Castro et al. (2018),  proporciona uma plataforma segura e adaptável para análise pericial, ao passo que elimina a  necessidade de manipulação física constante das arcadas, preservando o material original e  ampliando a capacidade de trabalho remoto. 

Correia et al. (2019) lembram que a perícia odontológica exige, paralelamente à  tecnologia, observações clínicas e interpretações acuradas do perito, pois não basta contar com  recursos automatizados; o discernimento humano permanece como diferencial vital para  decifrar contextos únicos e complexos (p. 8). 

Recorrendo à análise dos laudos periciais, Machado Miguel et al. (2017) reiteram a  necessidade de padronização e clareza, para garantir que os resultados sejam compreensíveis e aceitos em processos judiciais, reforçando a imagem do perito como profissional técnico e ético  indispensável. 

O papel social da odontologia legal se destaca não apenas na identificação mecânica das  vítimas, mas também na garantia de justiça e resposta humanitária às famílias, especialmente  em tragédias de grandes proporções, como demonstram os dois casos analisados. 

A soma dos relatos e das análises cientificas demonstra que os principais fatores para o  sucesso pericial são a qualidade da documentação odontológica, o uso integrado de tecnologias  digitais avançadas e a expertise técnica do profissional, elementos indispensáveis para evitar  equívocos e fortalecer a ciência pericial. 

A complexidade dos desafios encontrados nos ambientes do Bazar de la Charité e da  Boate Kiss reforçam a necessidade de reinvestimento permanente em capacitação, tecnologia e  estruturação dos bancos odontológicos, a fim de garantir respostas rápidas, técnicas e humanas  em situações emergenciais. 

Em síntese, observa-se que a odontologia legal, quando embasada em evidências claras,  registro documental adequado e progresso tecnológico, cumpre seu papel primordial na  reconstrução da identidade humana e na prestação de contas à sociedade. 

3.5. Desafios éticos, legais e limitações identificados 

A manipulação ética dos dados periciais na odontologia legal é um pilar fundamental  para a obtenção de resultados confiáveis, que respeitam tanto as vítimas quanto seus familiares  e a sociedade. A necessidade de rigor na coleta, armazenamento e análise das informações  odontológicas não apenas evita erros técnicos, mas protege contra danos morais e sociais graves  decorrentes de identificações equivocadas. Vincenzi et al. (2017) ressaltam a importância da  “fiscalização rigorosa e regulamentação constante para manter a legitimidade e o  profissionalismo do campo”, destacando que a ausência desses controles cria lacunas que  favorecem irregularidades e fragilizam a confiança social no sistema de perícia. Assim, a  integridade dos dados exige uma postura ativa das instituições para implementar mecanismos  eficientes de auditoria, fiscalização e responsabilização. 

Qualificar o perito para distinguir entre alterações naturais, patológicas ou provocadas  por processos de decomposição e incêndio demanda um conhecimento técnico avançado aliado  a uma postura ética exemplar. Isso envolve não apenas o domínio anatômico, mas a  compreensão dos efeitos físico-químicos dos agentes externos sobre os tecidos orais, o que é  fundamental para evitar erros periciais que podem causar danos irreparáveis à justiça e às  famílias das vítimas (ANDRADE et al, 2021). A constante complexificação das análises forenses e as novas tecnologias implicam, portanto, numa necessidade contínua de formação  especializada, reciclagem e discussão ética entre os profissionais, fatores que qualificam e  fortalecem o exercício da odontologia legal. 

Um desafio estrutural importante é a inexistência de um sistema nacional unificado e  interoperável de bancos odontológicos, que permita o acesso rápido e seguro às informações  necessárias para a identificação. Silveira et al. (2020) apontam que “a fragmentação dos bancos  de dados impede a obtenção rápida de dados confiáveis, dificultando a análise integrada e  aumentando o tempo para a identificação” (p. 148). Essa lacuna impacta diretamente na  efetividade das perícias, atrasando processos e prejudicando não apenas o trabalho técnico, mas  o próprio direito das vítimas à identidade reconhecida em tempo hábil. 

A instabilidade e a descontinuidade nos investimentos em formação e tecnologia pericial  agravam as disparidades regionais, criando um cenário heterogêneo dentro do país e limitando  o acesso a perícias de qualidade. Andrade et al. (2021) denunciavam que “essa variação na  qualidade técnica gera insegurança na população e nos órgãos judiciais, refletindo uma  distância entre a tecnologia disponível e sua aplicação efetiva” (p. 14). A universalização da  qualidade técnica e ética no território nacional é, portanto, uma grande tarefa que exige políticas  públicas estruturantes, cooperação interinstitucional e financiamento adequado. 

A capacitação continuada, reconhecida em nível nacional e integrada às atualizações  científicas, legais e tecnológicas, é a estratégia que se mostra mais eficiente para sanar essas  questões. Vincenzi et al. (2017) salientam que “a atualização constante dos especialistas é  condição indispensável para o desenvolvimento de perícias legítimas e éticas capazes de atender  às expectativas sociais e processuais”. Essa necessidade impõe o desenvolvimento de  plataformas educacionais, programas de reciclagem e atualização técnica, além da  sensibilização para a importância da ética no exercício profissional. 

A dimensão psicológica e ética da atuação pericial também merece ser destacada, pois  o contato frequente com a morte e o sofrimento humano gera um desgaste emocional  significativo para os peritos. Silveira et al. (2020) ressaltam que “o preparo ético-emocional  deve ser incluído na formação e supervisão do perito, visando garantir a humanização constante  do trabalho” (p. 153). São necessários protocolos de suporte psicológico e ambientes  institucionais que estimulem a saúde mental do profissional para evitar o burnout, garantir o  equilíbrio emocional e a qualidade do serviço prestado. 

Conciliar a pressa imposta pela dinâmica do sistema judiciário com a responsabilidade  técnica e ética é certamente um dos dilemas contemporâneos mais complexos enfrentados pela  odontologia legal. Andrade et al. (2021) alertam que “a busca por délais (prazos) reduzidos não pode comprometer a integridade, precisão e humanidade da perícia” (p. 15). Essa tensão entre  velocidade e qualidade precisa ser administrada com inteligência institucional e profissional,  para que o direito à justiça seja assegurado sem prejuízo para as vítimas. 

Consolidar a odontologia legal como área científica e pericial de referência exige a  constituição de redes institucionais integradas que promovam educação, intercâmbio  tecnológico e políticas públicas eficazes. Segundo Silveira et al. (2020) e Andrade et al. (2021),  a combinação desses elementos assegura a realização de perícias confiáveis, ágeis e  fundamentadas no respeito aos direitos humanos (p. 147-150). Essa articulação representa o  caminho para a transformação estrutural do setor pericial no Brasil. 

O fortalecimento dessas redes também demanda alteração cultural substancial, para que  o trabalho interdisciplinar, a ética profissional e a responsabilidade social sejam valorizadas  internamente e externamente, fortalecendo a confiança pública e institucional. Colocar o perito  como um agente chave na promoção da verdade e da justiça trará maior legitimidade à  odontologia legal perante a sociedade. 

Ainda que as dificuldades sejam significativas, elas impulsionam o desenvolvimento da  área, abrindo espaço para aprimoramentos técnicos, normativos e de formação. A odontologia  legal brasileira pode, a partir dessas transformações, se firmar verdadeiramente como uma  ciência essencial na promoção da justiça e na proteção dos direitos humanos. 

Assim, o compromisso ético com a manipulação correta dos dados, a qualificação  técnica apurada e o fortalecimento institucional são elementos inseparáveis para a evolução e  consolidação da odontologia legal. A experiência mostra que sem esses pilares, a integridade  do sistema judicial e o direito fundamental à identidade das vítimas ficam comprometidos. 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A presente pesquisa evidenciou a importância fundamental da Odontologia Legal na  identificação de corpos carbonizados, sobretudo por meio da análise detalhada da arcada  dentária, que demonstra notável resistência mesmo diante de condições extremas de calor. A  literatura revisada e os estudos de casos analisados confirmam que os dentes funcionam como  verdadeiros biomarcadores, permitindo a individualização da vítima em situações nas quais  outras técnicas, como impressão digital ou exame genético, podem não ser aplicáveis. Ressalta se, portanto, como a odontologia forense é insubstituível para garantir o direito fundamental à  identidade e a dignidade das vítimas, fatores que repercutem profundamente na esfera social e  jurídica.

Outro aspecto de inegável relevância é o papel dos registros odontológicos, prontuários  e documentação antemortem/post-mortem, que servem como base documental imprescindível  para o confronto e confirmação da identidade. A pesquisa reforça a necessidade de  conscientização quanto à elaboração, atualização e conservação adequada desses documentos,  pois falhas nessa documentação fragilizam significativamente a perícia e podem inviabilizar a  identificação, estendendo o sofrimento das famílias e prejudicando o andamento da justiça. 

As tecnologias digitais, radiografias avançadas e a consolidação de bancos de dados  informatizados surgem como instrumentos que ampliarão substancialmente a capacidade da  odontologia legal para responder com rapidez, precisão e confiabilidade aos desafios  enfrentados. A incorporação dessas ferramentas, aliada à qualificação técnica dos peritos,  possibilitará a modernização da perícia, garantindo maior acurácia e agilidade, além da  possibilidade de atuações remotas e integradas entre diferentes institutos e profissionais. 

A análise detalhada de relatos de casos práticos, como os acidentes do Bazar de la  Charité e da Boate Kiss, demonstra a efetividade da odontologia forense quando aliada à  documentação adequada e tecnologia avançada. Esses episódios reais evidenciam ainda a  complexidade e o impacto social da perícia, reforçando a importância de protocolos rigorosos  e multidisciplinares para o sucesso das identificações em contextos de tragédias e desastres. 

Entretanto, os desafios éticos e legais permanecem como barreiras relevantes para a  excelência da odontologia legal. A ética na manipulação dos dados, a transparência na  elaboração dos laudos e o respeito aos direitos humanos são elementos indispensáveis que  sustentam a confiabilidade da perícia. Além disso, a fragmentação dos bancos de dados, a  carência de formação continuada e a falta de investimentos consistentes dificultam o pleno  desenvolvimento da área e a uniformização dos serviços no Brasil. 

A atuação do perito odontolegista demanda constante atualização técnica e ética, maior  articulação institucional e o fortalecimento de políticas públicas que garantam condições  adequadas para o exercício da profissão. Assim, o compromisso científico deve andar lado a  lado com a sensibilidade humanitária, visto que o trabalho envolve a restituição da identidade  e da dignidade a pessoas falecidas e suas famílias. 

Este trabalho destaca que a odontologia legal constitui uma ciência dinâmica,  interdisciplinar e com valor social e jurídico indiscutíveis. Seu aperfeiçoamento depende da  integração entre profissionais qualificados, inovação tecnológica e normativas atualizadas que  regulamentem e valorizem a especialidade. O fortalecimento desses pilares é fundamental para  que a odontologia legal contribua efetivamente para a concretização da justiça, promovendo  respostas ágeis, técnicas e humanizadas.

Portanto, investir em formação, tecnologia, gestão documental e na ética da perícia  odontológica se apresenta como imperativo para atender à crescente demanda da sociedade por  justiça, segurança jurídica e respeito aos direitos humanos, consolidando a odontologia legal  como ferramenta essencial e insubstituível no sistema forense contemporâneo. 

Essas considerações finais reafirmam a necessidade de continuidade e aprofundamento  das pesquisas, capacitação dos profissionais e aprimoramento dos mecanismos institucionais  para garantir que a odontologia legal possa atuar com excelência, eficiência e humanidade  diante dos desafios atuais e futuros. 

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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1Discente do Curso Superior de Odontologia do Instituto Esperança de Ensino Superior Campus  Santarém – Pará e-mail: andrezzaxayane@icloud.com
2Discente do Curso Superior de Odontologia do Instituto Esperança de Ensino Superior Campus  Santarém – Pará e-mail: Eduardajati@icloud.com
3Discente do Curso Superior de Odontologia do Instituto Esperança de Ensino Superior Campus  Santarém – Pará e-mail: mariahelenaa971@gmail.com
4https://orcid.org/0009-0005-4530-1055