COMPARAÇÃO DAS FREQUÊNCIAS ALÉLICAS DOS GENES HLA PARA OS LOCI HLA-A, HLA-B, HLA-DRB1 E HLA-DQB1 NO BRASIL: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511151836


Pedro Lucas Loureiro Barbosa Santos¹
Laís do Rêgo Barros Borges¹
Orientadora: Drª Michelle da Silva Barros²
Coorientador: Wilson Fernando de Farias Santos³


RESUMO 

O antígeno leucocitário humano (HLA), codifica proteínas atuantes nas vias de processamento e apresentação de antígeno. Ademais, compreende uma das regiões gênicas mais polimórficas encontradas na espécie humana.  Sendo assim, as chances de encontrar doadores compatíveis não aparentados, são de 1 a cada 100.000 indivíduos. Dessa forma, a tipagem HLA torna-se imprescindível para o sucesso dos transplantes de células tronco hematopoiéticas (TCTH), aumentando suas chances de sucesso. Nesse sentido, buscou-se comparar a prevalência das frequências alélicas entre os estados brasileiros. Para tal, foi realizado um levantamento de literatura nas principais bases de dados como PubMed, LILACS e Scielo, utilizando das palavras-chaves: HLA allele frequency, bone marrow e Brazil. Além disso, para otimizar as buscas foi utilizado o operador booleano “AND” para refinar o termo de busca. Por meio dessa estratégia de busca foram selecionados 76 estudos, desses, 10 trabalhos foram incluídos nesta revisão. Evidenciou-se que a prevalência dos alelos HLA-A, HLA-B, HLA-DRB1 e HLADQB1, foram semelhantes nos diferentes estados do Brasil e quando comparados com estudos de âmbito nacional. Entretanto, a literatura mostra que, com base nas diferentes constituições populacionais do Brasil e com as diferentes metodologias de resolução, diferentes alelos podem ser mais ou menos prevalentes, como os alelos A*31 e DRB1*11, nas regiões Norte e Sul-Sudeste, respectivamente. 

Palavras-chave: Frequência alélica HLA. Medula óssea. Brasil  

ABSTRACT 

Human leukocyte antigen (HLA) encodes proteins involved in antigen processing and presentation pathways. Furthermore, it comprises one of the most polymorphic gene regions found in humans.  As such, the chances of finding compatible unrelated donors are 1 in 100,000 individuals. Therefore, HLA typing is essential for the success of hematopoietic stem cell transplants (HSCT), increasing their chances of success. In this sense, we sought to compare the prevalence of allele frequencies among Brazilian states. To this end, a literature review was conducted in the main databases such as PubMed, LILACS, and Scielo, using the keywords: HLA allele frequency, bone marrow, and Brazil. In addition, to optimize the searches, the Boolean operator “AND” was used to refine the search term. Through this search strategy, 76 studies were selected, of which 10 were included in this review. It was found that the prevalence of HLA-A, HLA-B, HLA-DRB1, and HLA-DQB1 alleles was similar in different Brazilian states and when compared with national studies. However, the literature shows that, based on the different population compositions in Brazil and the different resolution methodologies, different alleles may be more or less prevalent, such as alleles A*31 and DRB1*11 in the North and South-Southeast regions, respectively.

Keywords: HLA allele frequency. Bone marrow. Brazil.

1. INTRODUÇÃO 

Os genes do antígeno leucocitário humano (HLA) correspondem ao equivalente humano do chamado complexo principal de histocompatibilidade (MHC), o qual compreende uma região genômica localizada no braço curto do cromossomo 6. Nesse sentido, tal região abrange diversos loci, que em sua maioria, estão relacionados a imunidade. Os genes HLA possuem como uma de suas funções codificar proteínas de superfície que fazem parte das vias de processamento e apresentação de antígeno, de forma que, trabalham para impedir que um corpo estranho entre ou se espalhe no organismo. (Abbas e colaboradores, 2011; Alberts e colaboradores, 2015).  

De acordo com Maróstica e colaboradores (2022), os genes HLA correspondem a região gênica de maior polimorfismo do genoma humano. De maneira que, se dividem em duas classes, I e II, as moléculas de classe I estão distribuídas na superfície de todas as células nucleadas, de modo que interagem fortemente com receptores presentes nos linfócitos TCD8+ e células Natural killer (NK), apresentando peptídeos endógenos na fenda de ligação. Em contrapartida, as moléculas de classe II estão presentes na membrana das células apresentadoras de antígeno (APCs), sendo reconhecidas pelos linfócitos TCD4+, de maneira que exibem peptídeos exógenos. As moléculas de classe I codificam os genes HLA-A, HLA-B e HLA-C, já as de classe II codificam as cadeias α e β dos genes HLA-DP, HLA-DR e HLA-DQ. (Klein e Sato, 2000; Abbas e colaboradores, 2011; Alberts e colaboradores, 2015; Neefjes e colaboradores, 2011). 

No contexto dos transplantes de medula óssea, o alto polimorfismo dos genes HLA representa um obstáculo a ser superado, uma vez que a incompatibilidade HLA entre doador e receptor caracteriza um risco aumentado de falha do enxerto, assim como de doença do enxerto contra hospedeiro (GVHD) (Morishima e colaboradores, 2002). No Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH) o ideal é que a equivalência entre alelos seja total. Todavia, entre indivíduos relacionados a chance de correspondência total de alelos é de apenas 25% e a chance de doador não relacionado apresentar esse nível de compatibilidade pode alcançar 1 a cada 100.000 indivíduos (Macêdo e colaboradores, 2014). 

Nesse sentido, desenvolveram-se métodos de alta resolução para tipagem HLA, permitindo que os pesquisadores definam a distribuição de alelos de HLA dentro de uma população, processo que facilita a doação de medula entre indivíduos, tanto aparentados, quanto não aparentados. Desse modo, com o intuito de facilitar a identificação de um potencial doador,  foram criados, ao redor do mundo, bancos de cadastro para doação de medula óssea, no Brasil, tem-se o Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME), que atualmente conta com 6.042.623 inscritos (REDOME, NOVEMBRO DE 2025).

2. OBJETIVOS 

2.1 Geral  

Comparar as frequências alélicas em nível estadual e nacional dos genes HLA para os loci HLA-A, HLA-B, HLA-DRB1 e HLA-DQB1. 

2.2 Específicos  

Avaliar as diferenças territoriais e de níveis de resolução como impacto nas prevalências dos loci -A, -B, -DR e -DQ. 

Catalogar quais os alelos mais prevalentes encontrados nas variadas populações do Brasil. 

Comparar as frequências encontradas com os bancos de dados mundiais de tipagem HLA. 

3. METODOLOGIA 

O presente estudo trata-se de uma revisão bibliográfica, visando identificar qual a prevalência dos alelos HLA encontrados no Brasil, para isso foram utilizadas as bases de dados MEDLINE (via Pubmed), Scielo e LILACS, usando as palavras chaves HLA allele frequency, bone marrow e Brazil e para refinar as buscas foi utilizado o operador booleano “AND”. Como forma de otimizar a seleção da literatura, esses foram tabelados no software Excel. Em seguida, houve exclusão das duplicatas e dos títulos que não estivessem alinhados à temática. 

Além disso, foram selecionados, somente, trabalhos originais em que foram catalogadas as frequências alélicas de estados brasileiros. Não houve restrição de idioma ou período de publicação. A tabela 1 mostra o número total de artigos encontrados e em quais bases de dados pertencem. Tabela 1: Número de artigos encontrados e suas respectivas bases de dados.

Base de dados Palavras chaves Números de artigos encontrados 
Medline (via Pubmed) HLA allele Frequency AND bone marrow AND Brazil 37 
Scielo HLA allele Frequency AND bone marrow AND Brazil 
LILACS HLA allele Frequency AND bone marrow AND Brazil 37 

Fonte: Autores, 2025. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Dos 76 trabalhos encontrados e tabelados no software Excel, foi realizada a remoção das duplicatas, restando 42 artigos. A partir daí, foram selecionados os artigos cujos títulos e resumos se enquadrassem na temática analisada, restando 12 artigos. Entretanto, um desses artigos não pôde ser lido na íntegra, outro, se tratava do mesmo tema com publicações em formatos diferentes, e assim, foram excluídos da análise. Ou seja, restando 10 trabalhos na temática dessa revisão, como mostra na figura 1. 

Figura 1: Fluxograma da metodologia aplicada para a seleção dos artigos.

Fonte: Autores, 2025.  

Nas análises, foi observado que a distribuição entre as regiões do País inclui: três para o Sudeste (dois para São Paulo e um para o Rio de Janeiro), dois para o Sul (um para o Rio Grande do Sul e um para o Paraná), dois para o Nordeste (um para o Rio grande do Norte e um para o Piauí), somente um para a região Norte, sendo este para o estado do Pará e 3 estudos em âmbito nacional. Desse modo, nota-se que as regiões menos representadas são as constituintes do eixo Norte-Nordeste. 

Bihl e colaboradores (2006), esclarecem que os alelos de genes HLA são identificados com base na sequência de nucleotídeos de sua extensão, onde cada sequência receba identificação de, no mínimo, quatro dígitos. Os dois primeiros dígitos referem-se à identificação sorológica, os terceiros e quartos dígitos, compreendem subtipos dentro da mesma linhagem, de forma que, os números são dados de acordo com a ordem de descoberta das sequências. Alelos que apresentam diferenças nucleotídicas sinônimas, mas codificam a mesma proteína são diferenciados pelos quintos e sextos dígitos.  

Sob essa ótica, os artigos selecionados para comparação das frequências alélicas utilizaram tipagens em um, dois campos e três campos de resolução, aumentando assim o escopo da análise realizada. Dos artigos selecionados, nove são de um campo, um de dois campos e um de três campos. Além desses, um dos artigos selecionados faz a comparação de dois e três campos de resolução simultaneamente. Esse levantamento é mostrado na tabela 2, indicando estudos que abrangem a região Sudeste. 

Tabela 2: Frequências alélicas para os loci HLA, A, B, DRB1 e DQB1 oriundos da região Sudeste.

Ayo e colaboradores (2014) Frequência(%) Salvadori e colaboradores (2014) Frequência(%) Vianna e colaboradores (2020) Frequên cia(%) 
A*02 24,9 A*02 26,3 A*02:01:01 20,3 
A*01 10,2 A*24 9,8 A*01:01:01 9,5 
A*24 9,5 A*03 9,4 A*03:01:01 8,4 
B*35 12 B*35 12 B*51:01:01 7,30 
B*44 10,5 B*44 10,6 B*44:03:01 6,5 
B*15 8,7 B*51 8,3 B*07:02:01 5,4 
DRB1*13 13,8 DRB1*07 14,9 DRB1*07:01:01 13,5 
DRB1*11 13,6 DRB1*11 12,9 DRB1*03:01:01 8,9 
DRB1*07 13,1 DRB1*13 12,9 DRB1*13:01:01 6,5 
– – – – DQB1*03:01:01 15,25 
– – – – DQB1*05:01:01 13,88 
– – – – DQB1*02:02:01 12,40 

Fonte: Elaborada pelos autores com dados extraídos de Ayo e colaboradores (2014); Salvadori e colaboradores (2014); Vianna e colaboradores (2020).

Em primeiro plano, evidencia-se o número de alelos encontrados em cada loci em seu respectivo estudo. Os trabalhos de Ayo e colaboradores (2014) e Salvadori e colaboradores (2014), avaliaram a população do estado de São Paulo em diferentes localidades, o primeiro artigo citado, tem seu n° amostral oriundo da região noroeste do estado, contando com 1.559 doadores cadastrados no REDOME. Já o segundo artigo, a população amostral é do município de Bauru, localizado no centro-oeste do estado, possuindo um número de 3.542 doadores. Ambos realizaram sua análise em um campo de resolução, catalogando 20 alelos HLA-A, 32 alelos HLA-B e 13 alelos HLA-DRB1 para a população do noroeste do estado. Para a população de Bauru, o número de alelos encontrados foram o mesmo para o HLA-A e HLA-DRB1, variando somente o número do HLA-B, sendo este 36.  

Nesse sentido, é possível entender que, as substituições de aminoácidos afetam o repertório de ligação a peptídeos de forma mais significativa nas moléculas de HLA-B, em comparação com outras moléculas de HLA. De maneira que, mutações de ponto no HLA-B são capazes modificar o repertório de ligação a peptídeos desse gene, aumentando a heterozigose, culminando na produção de maiores variabilidades HLA-B na superfície celular da maioria dos indivíduos (Silva, 2021). Além disso, observa-se que o maior número amostral é o do estudo da população do município de Bauru, aumentando assim as chances de identificação de um maior número de alelos.  Outra relação referente aos estudos supracitados, diz respeito aos outros loci analisados. Nesse caso, nota-se que ocorreu uma variação de prevalência do alelo A*03, que na população bauruense possui a terceira maior prevalência, já em comparação com o noroeste do estado este é o quarto alelo mais prevalente. Sobre o loci de classe II, os mesmos alelos compõem as três maiores prevalências, mudando somente sua respectiva posição. 

O trabalho de Vianna e colaboradores (2020), avaliou a população de duas cidades do estado do Rio de Janeiro, Barra Mansa e capital, possuindo um número amostral de 1.435 doadores, também cadastrados no REDOME, entretanto nesse trabalho foi realizado a tipagem para 3 campos de resolução, encontrando 58 alelos HLA-A, 114 alelos HLA-B, 61 HLA-DRB1 e 28 HLA-DQB1. Esse tipo de análise é explicado por Choi e colaboradores (2024) que afirmam que quanto maior a resolução utilizada, maior será o número de subtipos HLA encontrados. Outra alteração causada pelo aumento da resolução é a diminuição das prevalências encontradas, fato esse explicado pelo mesmo motivo.  

Nesse trabalho, também foi realizada a tipagem dos alelos respectivos ao loci HLA-DQB1, sendo esse o loci com menos subtipos encontrados. Esse achado corrobora com o observado nos bancos de dados internacionais de referência, o  IPDIMGT/HLA Database, até o momento, como mostrado na tabela 3. 

Tabela 3: N° de alelos encontrados no banco de dados IPD-IMGT/HLA Database. Locus

LocusN° de alelos encontrados
A8.949
B10.680
DRB13.892
DQB12.924

Fonte: Dados IPD-IMGT/HLA Database. 

 Com relação aos Estados do eixo Norte-Nordeste, os trabalhos foram realizados somente para um campo de resolução, os resultados das prevalências encontradas estão descritos na tabela 4. 

Tabela 4: Frequências alélicas para os loci HLA, A, B e DRB1 oriundos do eixo Norte-Nordeste.

Macêdo e colaboradores (2014) Frequência(%) Carvalho e colaboradores (2013) Frequência(%) Mendonça-Mattos e colaboradores (2023) Frequência(%) 
A*02 25,4 A*02 25,4 A*02 23,8 
A*24 10,2 A*24 A*24 12,4 
A*01 8,6 A*03 7,8 A*31 9,5 
B*44 11,2 B*15 11,2 B*35 15,2 
B*35 10,7 B*35 10,8 B*15 10,3 
B*15 9,7 B*44 10 B*44 9,6 
DRB1*13 15,5 DRB1*13 13,7 DRB1*04 15 
DRB1*04 14 DRB1*04 13,4 DRB1*13 12,1 
DRB1*07 12 DRB1*07 12,5 DRB1*07 11,2 

Fonte: Elaborada pelos autores com dados extraídos de Macêdo e colaboradores (2014); Carvalho e colaboradores (2013); Mendonça-Mattos e colaboradores (2020).

As tipagens realizadas para os loci HLA-B e HLA-DRB1 nos três estudos, catalogaram os mesmos alelos, variando somente a posição entre as três maiores prevalências. Ressalta-se o achado de um tipo HLA-A não observado entre as três maiores prevalências dos estudos analisados, sendo este o A*31, o qual representa a terceira maior prevalência no trabalho de Mendonça-Mattos e colaboradores (2020), o qual foi realizado com 5000 doadores de medula óssea no estado do Pará, cadastrados no REDOME. Salienta-se que este foi o único trabalho encontrado que analisou o perfil dos doadores do Norte do Brasil.  

De acordo com Nunes e colaboradores (2025), as populações de estados como Pará e Amazonas são constituídas de uma porção maior de indivíduos de etnia indígena, fator que os diferencia das demais populações analisadas nesta revisão, fato que pode estar associado a maior prevalência do alelo A*31 no Pará. Estabelecendo uma comparação entre o percentual do A*31 encontrado no estudo em questão, com o banco de dados Allele Frequency Net Database, o qual armazena dados referentes às mais diversas populações ao redor do mundo, é possível observar que a prevalência encontrada no banco de dados do estado do Pará que possui 72.637 doadores cadastrados é exatamente a mesma, sendo de 9,5%.  

Os trabalhos analisados com populações do Sul do país utilizaram-se de tipagens de um campo de resolução. Evidencia-se que entre os dois estudos mostrados na tabela 4, os mesmos alelos estiveram mais presentes nas amostras analisadas, mudando somente suas posições de domínio entre os três mais prevalentes. Esse achado pode ser explicado, em contexto histórico, pelas semelhantes constituições populacionais desses estados, já que no trabalho de Bardi e colaboradores (2011), mais de 82% dos 3.978 doadores analisados, identificam-se como caucasianos e no estudo de Bortolotto e colaboradores (2011) mais de 88% dos 5.000 doadores também possuem essa mesma autodeclaração étnico-racial.  

Tabela 4: Frequências alélicas para os loci HLA, A, B e DRB1 oriundos da região Sul do país.

Bardi e colaboradores (2011) Frequência(%) Bortolotto e colaboradores (2011) Frequência(%) 
A*02 27 A*02 27,8 
A*24 10,8 A*03 10,4 
A*03 10,3 A*24 10,3 
B*35 13,9 B*35 12,5 
B*44 11,1 B*44 12 
B*51 B*51 8,7 
DRB1*11 14,7 DRB1*13 13,7 
DRB1*13 13,6 DRB1*07 13,1 
DRB1*0713DRB1*0412,4

Fonte: Elaborada pelos autores com dados extraídos de Bardi e colaboradores (2011); Bortolotto e colaboradores (2011).

Dessa forma, a autodeclaração dessas populações, segundo Nunes e colaboradores (2025) é condizente com o processo imigratório, que ocorreu na região no século XIX, com enfoque na carga genética de populações europeias diferentes das até então residentes no Brasil inteiro, como de italianos e alemães. 

Estudos que trataram dessa temática em âmbito nacional em níveis de resolução diferentes como, o trabalho de Guimarães (2015) avaliou os 3.038.286 doadores voluntários de medula óssea, cadastrados no REDOME de 2003 até julho de 2014, avaliando os indivíduos de todo o país e estabelecendo comparativos entre as regiões brasileiras, os resultados das três maiores prevalências encontradas nesse trabalho estão listados na tabela 5. 

Tabela 5: Frequências alélicas para os loci HLA, A, B e DRB1 em âmbito nacional.

Norte Frequên cia(%) Nordeste Frequência(%) C. Oeste Frequên cia(%) Sudeste Frequên cia(%) Sul Frequência(%) 
A*02 25,8 A*02 25,2 A*02 25,7 A*02 25,5 A*02 27 
A*24 11,6 A*24 9,7 A*24 9,7 A*24 9,8 A*03 10 
A*31 7,8 A*03 8,2 A*01 A*03 9,2 A*24 10 
B*35 12,8 B*35 10,7 B*35 11,5 B*35 11,8 B*35 12,2 
B*15 10 B*44 10 B*44 10 B*44 10 B*44 11,2 
B*44 9,6 B*15 10 B*15 9,3 B*15 8,8 B*51 8,6 
DRB1*04 14,6 DRB1*13 14,1 DRB1*13 13,5 DRB1*13 13,4 DRB1*13 13 
DRB1*13 12,5 DRB1*04 13,1 DRB1*07 13 DRB1*07 13,1 DRB1*07 13 
DRB1*07 11,6 DRB1*07 12,6 DRB1*04 12,8 DRB1*11 12,9 DRB1*11 12,8 

Fonte: Elaborada pelos autores com dados extraídos de Guimarães (2015).

Guimarães (2015), tem em seu artigo, o n° amostral bastante satisfatório, sendo possível estabelecer uma comparação estatística com os trabalhos a nível estadual acima relatados. Relacionando-o com a população do estado do Pará no estudo de Mendonça-Mattos e colaboradores (2023), observa-se que os mesmos alelos foram encontrados nas mesmas posições e o A*31 segue como o terceiro alelo mais prevalente, tanto na população paraense, quanto na região Norte. Para comparação com os estudos da região Nordeste as prevalências relatadas foram similares, alterando somente suas posições entre as três maiores prevalências. A única variação encontrada foi o alelo A*01, relatado como o terceiro mais prevalente no estudo de Macêdo e colaboradores (2014), entretanto a variação de prevalência entre esse alelo e o A*03, que assumiu a terceira maior prevalência nos trabalhos usados na comparação, foi menor que 1%. 

Um dado relevante de Guimarães (2015), foi a catalogação da frequência alélica para a região Centro-Oeste como um todo, uma vez que, não foram encontrados artigos que abordassem a população dos seus entes federativos. Nesse sentido, é possível evidenciar a similaridade dos dados dessa região com os catalogados nas regiões Norte-Nordeste, com destaque para o Nordeste, tendo em vista que o mesmo achado sobre a alternância da prevalência entre os alelos A*01 e A*03, foi visto nessas populações. 

Com relação às regiões Sul-Sudeste, para o trabalho de Guimarães, os achados foram os mesmos, mudando somente suas posições, porém a aparição do alelo DRB1*11, foi um achado diferenciado em relação aos outros estados. De forma que sua alta prevalência também foi vista nos trabalhos de Ayo e colaboradores (2014), Salvadori e colaboradores (2014) para o estado de São Paulo e no estudo de Bardi e colaboradores (2011) para a população paranaense. Esses dados estabelecem uma proximidade em relação à genética de populações dessas regiões. 

Outro estudo a nível nacional analisado nesta revisão, foi o trabalho de da Silva e colaboradores (2025) que realizou a catalogação dos alelos para 298.162 doadores voluntários de medula óssea cadastrados no REDOME. Além disso, esse estudo também fez a classificação dos alelos encontrados, respeitando os critérios estabelecidos na planilha CIWD 3.0, tal planilha se trata de um banco de dados internacional, que tem como intuito catalogar as frequências alélicas dos doadores cadastrados ao redor do mundo, nessa análise, os alelos foram classificados em comum (C), intermediário (I), bem documentados (WD) e não presentes na planilha CIWD (non-CIWD), tendo em vista que o Brasil não estava incluído na compilação original da planilha. 

Os alelos tidos como comuns têm uma frequência de pelo menos 1 a cada 10.000 indivíduos. Já os alelos intermediários, compreendem aqueles com frequência menor que 1 a cada 10.000, porém não ultrapassando de 1 a cada 100.000, no caso dos bem documentados, deve haver mais de 5 observações do alelo, além da frequência, que deve ser inferior a 1 a cada 100.000. 

O ponto relevante no artigo de da Silva (2025) é a catalogação dos alelos nonCIWD por Next-Generation Sequencing (NGS), e nota-se alelos que existem na população brasileira, porém não estão na planilha citada. 

Alelos non-CIWD visualizados, por Vianna (2020) e da Silva (2025) foram: HLAA (A*11:12 e A*24:25), HLA-B (B*15:52 e B*35:22:01), HLA-DRB1 (DRB1*03:06, DRB1*13:16, DRB1*07:11 e DRB1*15:07:01), e não foram encontrados alelos HLADQB1 classificados como non-CIWD para ambos os estudos. Outro achado relevante foram os alelos visualizados somente por Vianna e colaboradores (2020), sendo estes HLA-A (A*24:314), HLA-B (B*80:01:01, B*35:69, B*39:20, B*51:75 e B*58:22), HLADRB1(DRB1*11:07:01 e DRB1*12:05) e HLA-DQB1 (DQB1*02:03:01 e DQB1*03:21). Esses alelos visualizados somente no estudo da população do Rio de Janeiro, demonstra que estudos a nível estadual, podem relatar a presença de alelos que sejam particulares de subpopulações brasileiras, ou seja, podem não ser visualizados em estudos de âmbito nacional. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS  

De acordo com os aspectos acima relacionados, foi possível mapear e comparar as frequências alélicas dos loci HLA-A, HLA-B, HLA-DRB1 e HLA-DQB1 em diferentes populações estaduais e na média nacional por meio de literatura científica brasileira. Nesse sentido, a análise demonstrou uma uniformidade notável na composição dos três alelos mais prevalentes para cada locus em quase todos os cenários investigados. 

Com relação a todos os loci, destaca-se que, no caso do HLA-A, HLA-B, HLADRB1 E HLA-DQB1, os três alelos mais prevalentes são os mesmos entre as populações em quase todos os cenários analisados, a composição dos três alelos líderes permaneceu a mesma entre as populações, variando apenas a sua porcentagem de prevalência, o que resultava em alternância de posições ao longo das regiões. 

Apesar da relevância da análise com amplo panorama, as diferenças entre as metodologias aplicadas, o número amostral bastante variado e a concentração de pesquisas nas regiões sul e sudeste ressaltam a necessidade de realização de pesquisas mais recentes, com metodologias avançadas, que contemplem todas as regiões do país. Como o estudo de da Silva que além de realizar a catalogação, também comparou os achados com os parâmetros de grandes bancos de dados HLA, como a planilha CIWD. 

REFERÊNCIAS 

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¹Graduandos em Biomedicina (tcclaisepedro@gmail.com).
²Orientadora.
³Coorientador.