REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511070219
Valeska Zerbini
Orientador: Prof (a): Melina Marie Yasuoka
RESUMO
Considerando os desafios enfrentados pela Arábia Saudita no processo de redução da dependência de importações e no fortalecimento da segurança alimentar, objetiva-se analisar a implementação da reprodução de aves no país, com foco nas estratégias adotadas para alcançar a autossuficiência avícola. Para tanto, procede-se à realização de uma pesquisa de abordagem mista, fundamentada em análise de dados secundários obtidos em relatórios de mercado, artigos acadêmicos disponíveis nas bases Google Acadêmico e SciELO, além de documentos institucionais de órgãos governamentais, como o MEWA e o USDA. A metodologia incluiu análise quantitativa de dados sobre produção, importações e taxas de mortalidade, bem como uma análise qualitativa das barreiras técnicas enfrentadas, como doenças, clima extremo, escassez de água e altos custos de produção. Desse modo, observa-se que as políticas públicas de incentivo, os investimentos em tecnologia, a adoção de boas práticas de manejo e a participação de empresas internacionais têm contribuído significativamente para o crescimento do setor avícola saudita e para a redução das importações de carne de frango. O que permite concluir que, apesar dos desafios ambientais e estruturais, a Arábia Saudita apresenta avanços consistentes rumo à autossuficiência na produção de aves.
Palavras-chaves: Avicultura; Reprodução de Aves; Carne de Frango.
ABSTRACT
Considering the challenges faced by Saudi Arabia in reducing its dependence on imports and strengthening food security, this study aims to analyze the implementation of poultry reproduction in the country, focusing on the strategies adopted to achieve poultry self-sufficiency. To this end, a mixed-methods research approach was conducted, based on the analysis of secondary data obtained from market reports, academic articles available in Google Scholar and SciELO databases, as well as institutional documents from government bodies such as MEWA and USDA. The methodology included quantitative analysis of data on production, imports, and mortality rates, along with a qualitative analysis of the technical barriers faced, such as diseases, extreme climate, water scarcity, and high production costs. Thus, it was observed that public incentive policies, investments in technology, the adoption of good management practices, and the participation of international companies have significantly contributed to the growth of the Saudi poultry sector and the reduction of chicken meat imports. This allows us to conclude that, despite environmental and structural challenges, Saudi Arabia is making consistent progress toward selfsufficiency in poultry production.
Keywords: Poultry Farming; Bird Breeding; Chicken Meat.
1. INTRODUÇÃO
A produção avícola na Arábia Saudita ocupa um lugar estratégico dentro das metas de segurança alimentar e diversificação econômica estabelecidas pela Saudi Vision 2030. Atualmente, o país figura como o quinto maior importador mundial de carne de frango, sendo que, em 2023, mais de 70% dessas importações tiveram origem no Brasil (MORDOR INTELLIGENCE, 2022).
Apesar desse alto nível de dependência externa, a produção interna de aves vem apresentando crescimento gradual. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, Água e Agricultura da Arábia Saudita (MEWA), a produção doméstica alcançou 910 mil toneladas métricas em 2021, respondendo por aproximadamente 60% do consumo nacional (USDA, 2021). Essa expansão resulta de políticas públicas que incentivam a autossuficiência alimentar, ponto que será abordado nesse estudo posteriormente.
O mercado avícola saudita, no entanto, permanece fragmentado e enfrenta desafios de caráter técnico e econômico. Entre os principais desafios estão os elevados custos de produção, decorrentes da dependência de insumos importados, como rações, vacinas e equipamentos especializados, além de altas taxas de mortalidade em razão das condições climáticas extremas, que podem alcançar até 25% (MITCHELL, 2015). Paralelamente, medidas protecionistas e restrições comerciais, como a suspensão de plantas brasileiras de exportação em 2021, têm gerado instabilidades no abastecimento (USDA, 2021).
Além disso, o governo saudita tem adotado estratégias para fomentar o investimento estrangeiro no setor, oferecendo incentivos financeiros e regulatórios, incluindo subsídios diretos à produção e a possibilidade de propriedade integral de empreendimentos locais por investidores externos (KINSLEY, 2021). Em contrapartida, o país também busca fortalecer suas capacidades de exportação, com destaque para os mercados vizinhos, como Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Bahrein (OEC, 2023).
A implementação de tecnologias reprodutivas eficientes pode contribuir para a redução dos custos de produção, atualmente elevados devido à importação de insumos essenciais (MITCHELL, 2015). Além disso, políticas como a Saudi Vision 2030 reforçam a urgência de medidas que aumentem a autossuficiência nacional, estabelecendo metas ambiciosas, como alcançar até 85% de produção interna até o final da década (USDA, 2021).
Diante desse contexto, a pesquisa se justifica por trazer um olhar acadêmico a essa situação e incentivar novas pesquisas na área. Assim, o objetivo geral da atual pesquisa é compreender as estratégias para implementar e otimizar a reprodução de aves na Arábia Saudita. Para alcançá-lo foi estabelecido os seguintes objetivos específicos: descrever o Contexto Econômico e de Mercado da avicultura na Arábia Saudita; Identificar barreiras técnicas e econômicas na reprodução de aves; e citar as políticas governamentais e parcerias internacionais para a da avicultura na Arábia Saudita. A partir disso, buscar-se-á responder a pergunta: quais as estratégias adotadas para a implementação da reprodução de aves na Arábia Saudita?
2. METODOLOGIA E OBJETIVOS
Este estudo caracterizou-se por uma abordagem metodológica mista, fundamentada na combinação de análise de dados secundários e revisão bibliográfica, com o objetivo de construir uma compreensão abrangente sobre os desafios e estratégias relacionados à implementação da reprodução de aves na Arábia Saudita.
A etapa de coleta de dados envolveu diferentes fontes, organizadas em três categorias principais: relatórios de mercado, artigos acadêmicos e documentos institucionais governamentais.
Relatórios de Mercado: Foram utilizados documentos recentes de instituições reconhecidas, como a Mordor Intelligence (2022) e o United States Department of Agriculture (USDA), que forneceram informações quantitativas sobre produção, importações e projeções de crescimento do mercado avícola saudita.
Artigos Acadêmicos: Para fundamentar a análise teórica, foram selecionados artigos das bases Google Acadêmico e SciELO. O foco recaiu sobre estudos relacionados à autossuficiência alimentar, reprodução avícola e desafios técnicos em ambientes de clima árido.
Fontes Governamentais: Informações estratégicas sobre políticas públicas, metas de autossuficiência e incentivos governamentais foram extraídas de documentos oficiais, incluindo o portal Saudipedia (2023), o Ministério do Meio Ambiente, Água e Agricultura da Arábia Saudita (MEWA, 2021) e a plataforma internacional de comércio The Observatory of Economic Complexity (OEC).
Análise dos Dados foi qualiquantitativa. Os dados numéricos referentes a volumes de importação de carne de frango entre 2018 e 2023, produção doméstica de aves entre 2020 e 2022, e taxas de mortalidade avícola foram coletados, sistematizados e apresentados em quadros comparativos. Esse procedimento visou facilitar a visualização das tendências de crescimento, dos níveis de autossuficiência e dos impactos das políticas de incentivo. E os artigos, como base teórica, serviram para trazer a análise qualitativa.
3. REVISAO DE LITERATURA
3.1 Contexto Econômico e de Mercado
A avicultura na Arábia Saudita abrange a criação e processamento de aves como galinhas, patos e perus, atendendo à demanda por carne e ovos em uma das maiores economias do Oriente Médio. Em 2024, o mercado foi avaliado em USD 42,32 milhões, com projeções otimistas de alcançar USD 60,28 milhões até 2030, impulsionado por um CAGR de 6,15% no período de 2026 a 2030 (TECHSCIRESEARCH, 2025) (figura 1). Esse crescimento reflete não apenas a popularidade do frango como a carne mais consumida no país, mas também os esforços para modernizar a produção local e reduzir a dependência de importações, que ainda suprem uma parcela significativa da demanda.
Figura 1- Projeções de Crescimento e Características do Mercado Avícola da Arábia Saudita (2024–2030)

De acordo com dados da Mordor Intelligence (2024), o setor projeta um crescimento moderado, com uma taxa composta anual de crescimento (CAGR) de 1,79% entre 2025 e 2030. Estima-se que o valor de mercado atinja US$ 5,62 bilhões até 2030, frente aos US$ 5,14 bilhões previstos para 2025.
Figura 2- Projeção do Tamanho e Crescimento do Mercado de Carne de Aves na Arábia Saudita (2025–2030)

Apesar do crescimento, o relatório do Mordor Intelligence (2024), destaca que a concentração de mercado é considerada baixa, o que indica um cenário competitivo e fragmentado, com a presença de diversos players nacionais e internacionais. Entre as principais empresas atuantes estão a Al-Watania, Americana, BRF, Tanmiah e Savola, cada uma com estratégias distintas de posicionamento e produção.
Ao fazer uma análise, é possível dizer que esse panorama revela um ambiente de oportunidades, mas também de desafios, especialmente no que se refere à necessidade de aumentar a produção local para reduzir a dependência de importações e atender às metas estabelecidas pela Saudi Vision 2030 (MORDOR INTELLIGENCE, 2024).
Esse setor é impulsionado devido a população em expansão, combinada com o aumento da renda e urbanização o que intensifica a demanda por esse produto e posiciona a avicultura como uma resposta estratégica às necessidades nutricionais. Apesar dos avanços e de já exportar, as importações ainda desempenham um papel crucial, com o Brasil fornecendo mais de 70% da carne de frango importada até 2023, embora barreiras comerciais tenham reduzido esse volume de 650.000 toneladas em 2018 para 520.000 toneladas em 2023 (Tabela 1).
Tabela 1 – Importações de Carne de Frango (2018–2023)
| Ano | Importações (toneladas) |
|---|---|
| 2018 | 650.000 |
| 2019 | 630.000 |
| 2020 | 617.930 |
| 2021 | 520.000 |
| 2022 | 510.000 |
| 2023 | 520.000 |
Com o que foi apresentado nesse tópico, percebe-se a importância da reprodução de aves na Arábia Saudita e a questão a substituição das importações. Nesse contexto, um conceito relevante é a autossuficiência, o qual será discutido no tópico seguinte
3.2 Produção e Autossuficiência
Segundo Mendes et al. (2010), a busca pela autossuficiência na produção de frangos de corte está diretamente relacionada a estratégias de desenvolvimento tecnológico, integração produtiva e investimentos em pesquisa. Os autores destacam que “o fortalecimento da produção interna, por meio de inovação e melhoria da eficiência produtiva, é fundamental para garantir a estabilidade do abastecimento e reduzir os impactos de oscilações no comércio internacional” (MENDES et al., 2010, p. 295).
Santos et al. (2014) complementam essa visão ao analisar a experiência de estados do Nordeste brasileiro. Eles apontam que a integração vertical e o estímulo a parcerias entre produtores e grandes frigoríficos foram fundamentais para reduzir os custos logísticos e alcançar maior autossuficiência regional. Para os autores, “a sustentabilidade econômica da cadeia avícola passa necessariamente pela ampliação da capacidade produtiva local e pelo fortalecimento das relações comerciais regionais” (SANTOS et al., 2014, p. 50).
No plano regional, Souza et al. (2019) discutem a distribuição geográfica da produção avícola no Brasil, reforçando que a autossuficiência é também um resultado da concentração de investimentos em infraestrutura produtiva, capacidade de processamento e acesso a mercados consumidores. Conforme os autores afirmam, “os polos de produção com maior autossuficiência são aqueles que conseguem alinhar disponibilidade de insumos, tecnologia e logística eficiente” (SOUZA et al., 2019, p. 270).
Além dos aspectos econômicos e logísticos, a autossuficiência produtiva tem importante dimensão social. Rocha (2014), ao estudar a avicultura familiar no semiárido alagoano, evidencia que o fortalecimento da produção local contribui para a geração de emprego, segurança alimentar e redução da vulnerabilidade socioeconômica de comunidades rurais. Para a autora, “a avicultura, quando inserida em uma lógica de autossuficiência, potencializa a reprodução socioeconômica de famílias agricultoras e amplia a capacidade de abastecimento de mercados locais” (ROCHA, 2014, p. 88).
Diante desse conjunto de fatores, fica evidente que a autossuficiência produtiva na avicultura vai muito além da simples produção de alimentos. Ela envolve uma rede complexa de fatores estruturais, tecnológicos, econômicos e sociais, sendo uma estratégia essencial para garantir a segurança alimentar, a estabilidade de preços e a geração de desenvolvimento regional sustentável.
A avicultura na Arábia Saudita tem representado uma das atividades mais fortemente apoiadas pelo Ministério do Meio Ambiente, Água e Agricultura (MEWA). Diante do crescente desafio de garantir a segurança alimentar e reduzir a dependência de importações, o país tem direcionado esforços para ampliar a produção interna de carne de aves e ovos (SAUDIPEDIA, 2023).
O ciclo de produção de frango de corte na Arábia Saudita é caracterizado por um processo intensivo e de curta duração, com uma média de 32 dias desde o alojamento dos pintinhos até o abate.
Durante esse período, o manejo nutricional desempenha um papel fundamental na garantia do desempenho zootécnico e da qualidade final do produto. Inicialmente, as aves recebem uma dieta com 23% de proteína bruta e 3.200 calorias, visando o rápido desenvolvimento nos primeiros dias de vida. No estágio de crescimento, entre a quarta e a sexta semana de idade, a alimentação é ajustada para uma formulação com 20% de proteína bruta, mantendo o mesmo nível energético. Por fim, no estágio de terminação, a dieta é reduzida para 18% de proteína bruta, sempre com 3.200 calorias, visando o acabamento do peso corporal e a eficiência alimentar (SAUDIPEDIA, 2023).
O modelo intensivo e tecnificado adotado no ciclo de produção de frangos de corte saudita, com duração média de 32 dias e ajustes nutricionais ao longo das fases de crescimento, reflete as estratégias descritas por Mendes et al. (2010). Segundo os autores, “o fortalecimento da produção interna, por meio de inovação e melhoria da eficiência produtiva, é fundamental para garantir a estabilidade do abastecimento e reduzir os impactos de oscilações no comércio internacional” (MENDES et al., 2010, p. 295). A capacidade de controlar os parâmetros de nutrição e ganho de peso, como ocorre na Arábia Saudita, é um exemplo direto da aplicação dessas estratégias de eficiência.
Esse modelo produtivo reflete o esforço do setor avícola saudita em equilibrar eficiência, custo e qualidade, elementos essenciais para atender à crescente demanda interna por carne de frango. Após a finalização do ciclo, os animais são destinados ao processamento industrial, etapa que envolve rigorosos padrões sanitários e logísticos para garantir a entrega de produtos seguros e de alta qualidade aos consumidores locais.
Paralelamente, o mercado avícola da Arábia Saudita tem vivenciado uma rápida evolução nos últimos anos, impulsionada por investimentos estratégicos de grandes empresas do setor. Em julho de 2022, a BRF Sadia, uma das maiores exportadoras mundiais de carne de frango, inaugurou sua nova planta industrial “Al Joody”, na cidade de Dammam. Essa unidade elevou a capacidade de produção da empresa para 1.200 toneladas mensais de alimentos, fortalecendo a integração da BRF no mercado saudita e contribuindo para o desenvolvimento da cadeia produtiva local, conforme os dados do Mordor Intelligence (2024).
Além disso, a integração entre grandes produtores, como Almarai, Tanmiah e BRF Sadia, com pequenas fazendas familiares, é um aspecto que dialoga com a análise de Santos et al. (2014), que destacam que “a sustentabilidade econômica da cadeia avícola passa necessariamente pela ampliação da capacidade produtiva local e pelo fortalecimento das relações comerciais regionais” (SANTOS et al., 2014, p. 50). pequenas unidades produtivas têmão entre grandes investimentos privados e apoio às pequenas unidades produtivas tem sido fundamental para alcançar as metas de autossuficiência propostas pelo governo.
O Reino da Arábia Saudita ocupa a terceira posição global em consumo de carne e produtos avícolas, sendo também um dos principais produtores do setor no Oriente Médio e na África (SAUDIPEDIA, 2023). Em termos de volume, a produção anual chega a aproximadamente 1,3 bilhão de aves e 5,4 bilhões de ovos, evidenciando a robustez do setor. Essa capacidade produtiva é sustentada por uma estrutura composta por grandes fazendas comerciais – como Almarai e Tanmiah – e um número expressivo de pequenas propriedades familiares, que contribuem para a diversidade e sustentabilidade da produção (SAUDIPEDIA, 2023).
A evolução da produção doméstica de carne de frango é um dos destaques desse processo de expansão. Em 2020, o país produziu 900.000 toneladas, representando 60% do consumo interno. Esse volume aumentou para 910.000 toneladas em 2021 e, posteriormente, para 947.000 toneladas em 2022 (USDA, 2023), como demonstrado na tabela 2. Esses avanços refletem os esforços contínuos de investimento e modernização do setor.
Tabela 2 – Produção Doméstica de Frango (2020–2022)
| Ano | Produção (toneladas) |
|---|---|
| 2020 | 910.000 |
| 2021 | 930.000 |
| 2022 | 947.000 |
As metas de autossuficiência estabelecidas pelo governo saudita são ambiciosas e indicam um compromisso com o fortalecimento da produção nacional. O objetivo é alcançar 80% de autossuficiência até 2025, com uma produção estimada em 1,3 milhão de toneladas, e atingir 90% até 2030 (ARGAAM, 2023). A trajetória de crescimento é ilustrada na tabela 3, que apresenta a evolução histórica e as projeções futuras.
Tabela 3 – Autossuficiência na Produção de Carne de Aves
| Ano | Autossuficiência (%) | Produção (toneladas) |
|---|---|---|
| 2016 | 45 | 600.000 |
| 2020 | 60 | 900.000 |
| 2021 | 60 | 910.000 |
| 2022 | 68 | 947.000 |
| 2024 | 70 | – |
| 2025 | 80 (meta) | 1.300.000 (meta) |
| 2030 | 90 (meta) | – |
Outro fator relevante para o fortalecimento da cadeia avícola é a estrutura de incubatórios existente no país, que atingiu, em 2021, uma capacidade de produção de 480,5 milhões de pintinhos por ano (SAUDIPEDIA, 2023). Essa capacidade é fundamental para garantir o abastecimento contínuo dos plantéis e sustentar o crescimento projetado da produção.
Além da carne de frango, a produção de ovos também apresenta índices expressivos de autossuficiência. Segundo o Statistical Yearbook 2022, o Reino atingiu 117% de autossuficiência na produção de ovos, superando a demanda interna e gerando excedentes potenciais para exportação. Em termos de consumo per capita, a Arábia Saudita figura entre os maiores consumidores mundiais de carne de aves, com uma média anual de aproximadamente 50 kg por habitante.
O crescimento contínuo da produção doméstica saudita, com aumento progressivo do volume de carne de frango e dos níveis de autossuficiência, também encontra respaldo nas reflexões de Souza et al. (2019). Os autores enfatizam que “os polos de produção com maior autossuficiência são aqueles que conseguem alinhar disponibilidade de insumos, tecnologia e logística eficiente” (SOUZA et al., 2019, p. 270). Embora a Arábia Saudita ainda dependa de importações de insumos, como grãos e vacinas, o investimento em infraestrutura produtiva, como a instalação de incubatórios com capacidade para mais de 480 milhões de pintinhos anuais, demonstra avanços nessa direção.
No aspecto social, a diversificação da estrutura produtiva, que inclui também pequenas propriedades familiares, pode ser relacionada aos achados de Rocha (2014). A autora destaca que “a avicultura, quando inserida em uma lógica de autossuficiência, potencializa a reprodução socioeconômica de famílias agricultoras e amplia a capacidade de abastecimento de mercados locais” (ROCHA, 2014, p. 88). Embora o contexto saudita seja distinto do brasileiro em termos de escala e condições climáticas, o princípio da inclusão de pequenos produtores como agentes na cadeia produtiva se mantém.
Os dados da Embrapa (2005) sobre a importância da proximidade de fontes de insumos reforçam um dos desafios mais críticos enfrentados pela Arábia Saudita: a dependência de importações para alimentar a produção avícola. Como aponta o estudo, “a disponibilidade local de matérias-primas é um fator determinante para a competitividade e para o equilíbrio da balança comercial de carne de frango” (EMBRAPA, 2005, p. 12). A superação desse obstáculo será essencial para que o país avance rumo às metas de 80% de autossuficiência até 2025 e 90% até 2030.
Dessa forma, a trajetória da Arábia Saudita no setor avícola pode ser compreendida como um exemplo de aplicação prática das recomendações descritas na literatura científica, articulando eficiência produtiva, políticas públicas, investimentos privados e estratégias de integração vertical.
3.3 Desafios Técnicos na Reprodução de Aves
O mercado avícola da Arábia Saudita enfrenta uma série de desafios interconectados que comprometem sua sustentabilidade e competitividade. Entre os principais obstáculos estão os surtos de doenças, as condições climáticas extremas, a escassez de água, a dependência de insumos importados e infestações por pragas.
Os surtos de doenças representam uma ameaça significativa ao mercado avícola saudita, com impactos econômicos que incluem abate de aves, restrições comerciais e perda de confiança do consumidor. Doenças virais, como a Doença de Newcastle (NCD), a Doença Infecciosa da Bolsa (IBD), a Bronquite Infecciosa (IB) e a Influenza Aviária (H9N2), historicamente causaram altas taxas de mortalidade nas granjas do país. Conforme fontes do setor,
O controle de doenças aviárias representa um desafio significativo para a avicultura na Arábia Saudita. Segundo fontes do setor, a taxa de mortalidade de frangos apresentou uma redução expressiva nos últimos cinco anos, estando atualmente estimada em menos de 8%. Historicamente, os altos índices de mortalidade nas granjas sauditas estavam associados, principalmente, à ocorrência de surtos de doenças virais como a Doença de Newcastle (NCD), a Doença Infecciosa da Bolsa (IBD ou Gumboro), a Bronquite Infecciosa (IB) e a Influenza Aviária, especialmente o subtipo H9N2 (USDA, 2021, p. 4).
A Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (H5N8) também é uma preocupação sazonal, especialmente no inverno, quando doenças respiratórias se intensificam. Apesar de avanços em biossegurança, vacinação e manejo sanitário, que reduziram surtos significativos até 2021, a constante ameaça exige investimentos contínuos em infraestrutura robusta, sistemas de vigilância e programas de educação para criadores. A colaboração entre governo e indústria é essencial para implementar medidas preventivas, protegendo a saúde das aves e a segurança alimentar global (USDA, 2021).
As condições climáticas extremas da Arábia Saudita, com temperaturas médias de 40°C no verão, agravam os desafios do setor avícola. Segundo o relatório da PMC (2024), o estresse térmico eleva as taxas de mortalidade em até 25%, impactando significativamente a saúde e a produtividade das aves. Anderson e Carter (2004) afirmam que “o clima quente pode ter um impacto severo no desempenho das aves.
A eficiência da produção pode ser afetada muito antes de a temperatura atingir um nível em que a sobrevivência se torna uma preocupação”. O estresse térmico, que se inicia acima de 27°C e se intensifica acima de 29°C, reduz o consumo de ração, o tamanho dos ovos, a qualidade da casca e as taxas de eclosão, comprometendo o crescimento e a reprodução (Quadro 1). Sistemas de resfriamento, essenciais para mitigar esses efeitos, aumentam os custos operacionais em 30–40% (MITCHELL, 2015), tornando a produção economicamente desafiadora. Essas condições exigem tecnologias avançadas de climatização e manejo eficiente para manter a viabilidade do setor.
Quadro 1 – Faixas de Temperatura e Efeitos Fisiológicos nas Aves (°C)
| Faixa de Temperatura (°C) | Descrição dos Efeitos nas Aves |
|---|---|
| 13°C a 24°C | Zona de temperatura neutra. As aves não precisam alterar sua taxa metabólica básica ou comportamento para manter a temperatura corporal. |
| 18°C a 24°C | Faixa de temperatura ideal para o desempenho produtivo das aves. |
| 24°C a 29°C | Pode ocorrer uma leve redução no consumo de ração. Se a ingestão de nutrientes for adequada, a eficiência de produção permanece boa. Entretanto, o tamanho dos ovos pode reduzir e a qualidade da casca pode ser afetada nas temperaturas mais altas dessa faixa. |
| 29°C a 32°C | Redução mais acentuada no consumo de alimentos. Ganhos de peso diminuem, e a qualidade dos ovos e da casca se deteriora. A produção de ovos sofre. Procedimentos de resfriamento devem ser iniciados antes que essa faixa seja atingida. |
| 32°C a 35°C | O consumo de alimentos continua a cair. Aumenta o risco de prostração por calor, especialmente em aves pesadas ou em plena produção. Procedimentos de resfriamento são essenciais. |
| 35°C a 38°C | Alta probabilidade de prostração por calor. Medidas emergenciais de manejo são necessárias. Produção de ovos e consumo de ração sofrem quedas severas. O consumo de água aumenta significativamente. |
| Acima de 38°C | Necessidade urgente de medidas de emergência para garantir a sobrevivência das aves. O foco torna-se a manutenção da vida dos animais. |
A escassez de água, um problema crítico em um país com recursos hídricos limitados, representa outro obstáculo significativo. A avicultura exige grandes quantidades de água para beber, limpeza e resfriamento, o que eleva os custos de produção em um contexto de disponibilidade restrita. A adoção de tecnologias de poupança de água e práticas de gestão eficiente é indispensável para assegurar a sustentabilidade do setor. Essas medidas, embora demandem investimentos iniciais, são fundamentais para reduzir o impacto da escassez hídrica e garantir a continuidade das operações avícolas a longo prazo (USDA, 2021; SAUDIPEDIA, 2023).
Os elevados custos de produção são outro desafio central, impulsionados pela forte dependência de insumos importados. Segundo o USDA (2021), rações, vacinas e equipamentos importados representam cerca de 80% dos custos totais de produção.
Além disso,
Os custos de produção de carne de frango na Arábia Saudita são relativamente altos, principalmente devido ao custo associado ao controle da temperatura nos galpões avícolas, em virtude das condições climáticas extremamente quentes, e à forte dependência de insumos importados, como rações, vacinas e equipamentos. Com o objetivo de reduzir esses custos, o governo saudita (SAG) oferece diferentes formas de apoio à produção. Entre essas medidas estão subsídios financeiros diretos mensais, calculados com base na quantidade produzida, além de empréstimos sem juros e descontos na aquisição de determinados equipamentos avícolas.
Os custos com alimentação representam, em média, cerca de 70% do custo total de produção avícola no país. O custo de produção local de frango varia entre US$ 1,60 e US$ 1,87 por quilograma de peso processado (carcaça pronta para o consumo). Em alguns casos, esse valor chega a ser superior ao preço de venda no varejo da carne de frango importada.
Destaca-se que os subsídios à ração animal desempenharam um papel crucial no desenvolvimento do setor avícola saudita. Contudo, em janeiro de 2020, a Arábia Saudita eliminou a maioria dos subsídios à importação de rações, substituindo-os por pagamentos financeiros mensais baseados na produção efetiva dos produtores de aves (USDA, 2021, p.3-4).
Os custos com alimentação correspondem a aproximadamente 70% do total, com o custo de produção local variando entre US$ 1,60 e US$ 1,87 por quilograma, muitas vezes superando o preço de varejo do frango importado. Para mitigar esses custos, o governo saudita oferece subsídios financeiros, empréstimos sem juros e descontos em equipamentos. No entanto, a substituição dos subsídios à importação de rações por pagamentos baseados na produção, a partir de janeiro de 2020, reforça a necessidade de estratégias que promovam maior autossuficiência.
Outro desafio específico é a infestação por carrapatos, como Argas persicus, que afeta a saúde e a reprodução de galinhas locais, conforme apontado por Alzahrani e Edrees (2019). Essas infestações agravam as taxas de mortalidade e reduzem a produtividade, exigindo medidas de controle sanitário rigorosas. A combinação desses fatores, doenças, clima árido, escassez de água, custos elevados e pragas, demanda uma abordagem integrada que envolva tecnologia, políticas públicas e capacitação. Investimentos em biossegurança, sistemas de resfriamento, gestão hídrica e controle de pragas, aliados a esforços para reduzir a dependência de importações, são essenciais para fortalecer o mercado avícola saudita, garantindo sua resiliência e sustentabilidade frente aos desafios ambientais e econômicos.
Do ponto de vista sanitário, a Doença de Newcastle (ND) permanece como uma das maiores ameaças à produção avícola no país. Segundo Al-Garadi et al. (2024), a ND tem causado perdas econômicas significativas e continua sendo um obstáculo crítico para a reprodução de aves. O estudo destaca que os surtos recorrentes dessa enfermidade exigem estratégias rigorosas de prevenção, como programas de vacinação eficientes e controle de biossegurança nas granjas.
No campo tecnológico, o mercado avícola saudita tem investido em soluções inovadoras para minimizar os efeitos desses desafios. Conforme aponta o relatório da GlobeNewswire (2025), tecnologias como agricultura de precisão, monitoramento ambiental automatizado e análise de dados em tempo real estão sendo progressivamente implementadas. Essas inovações buscam otimizar as condições de reprodução, reduzir perdas e aumentar a produtividade.
Além disso, as tendências mais recentes apontam para uma maior preocupação com práticas sustentáveis e o bem-estar animal. O levantamento de Livestock Middle East (2024) destaca que o setor tem investido em tecnologias que permitem melhorar o manejo térmico das aves, considerando o impacto severo das altas temperaturas típicas do clima desértico da Arábia Saudita. Entre as soluções adotadas estão sistemas de climatização avançados, uso eficiente da água e melhorias no design das instalações avícolas.
Os surtos de Influenza Aviária também merecem atenção. O relatório “Saudi Arabia Poultry Forecast Report 2025” enfatiza que doenças como a Influenza têm afetado não apenas a produção, mas também a confiança do consumidor e as exportações do setor (GLOBENEWSWIRE, 2025). Diante desse cenário, o documento reforça a necessidade de ampliar as medidas de biossegurança e os programas de vigilância epidemiológica.
Por fim, destaca-se a importância da cooperação internacional na superação desses desafios. O artigo publicado pela Agroberichten Buitenland (2024) mostra como parcerias entre a Arábia Saudita e empresas holandesas têm promovido a adoção de práticas sustentáveis e tecnologias de ponta voltadas para a melhoria da reprodução e da produtividade avícola. Essa colaboração tem permitido o intercâmbio de conhecimento técnico e o desenvolvimento de soluções adaptadas às condições ambientais específicas do país.
Portanto, os estudos analisados convergem na indicação de que os desafios técnicos na reprodução de aves na Arábia Saudita exigem uma abordagem multidimensional, que combine inovação tecnológica, manejo sanitário eficiente, políticas públicas de apoio e parcerias internacionais. O futuro da avicultura saudita depende da capacidade de enfrentar esses obstáculos de forma integrada e sustentável, por isso no tópico seguinte é abordado as políticas que tem sido implantadas na região e os incentivos.
3.4 Políticas Governamentais e Incentivos
O país ocupa, atualmente, a terceira posição mundial em consumo de carne e produtos derivados de aves, evidenciando a importância desse setor para a economia e a soberania alimentar nacional. Um dos eventos que simbolizam essa ascensão é a Middle East Poultry Expo, organizada pelo Ministério do Meio Ambiente, Água e Agricultura (MEWA) (MORDOR INTELLIGENCE, 2024).
Em 2023, a segunda edição contou com 207 expositores de 37 países e atraiu 10 mil visitantes de 54 nações. A terceira edição, realizada em maio de 2024, reuniu 300 empresas de 40 países, com mais de 75% de participação internacional, sob o tema “Maximização do valor e redução de custos: engenharia de valor na indústria de aves”. O evento destacou oportunidades de investimento, troca de tecnologias e fortalecimento das cadeias produtivas regionais (MORDOR INTELLIGENCE, 2024).
Além da promoção de eventos, o governo saudita instituiu o Sistema Saudi Good Agricultural Practices (SGAP), com rígidos padrões sanitários e ambientais aplicados à produção avícola. Esse sistema abrange desde o fornecimento de água potável e manejo alimentar até procedimentos de controle sanitário, transporte, abate, gestão de resíduos, controle de pragas e capacitação da força de trabalho rural.
O processo de licenciamento de projetos avícolas tem registrado crescimento acelerado. Até o final de 2021, foram emitidas 275 licenças no setor, número que subiu para 415 projetos de frangos de corte, 144 de poedeiras e 40 de matrizes de frango de corte ao final de 2022, revelando o contínuo investimento em infraestrutura produtiva.
No campo do financiamento, o apoio governamental tem sido decisivo. O Fundo de Desenvolvimento Agrícola (ADF) oferece condições diferenciadas para o setor avícola, com destaque para o financiamento de até 70% dos custos de investimento dos projetos aprovados (MEWA, 2021; WAYA MEDIA, 2023).
Além disso, o governo saudita destina subsídios anuais que podem chegar a USD 187 milhões, garantindo liquidez e viabilidade econômica para os produtores locais. Essa política de apoio é parte integrante da Estratégia Agrícola Nacional 20212025, cujo objetivo é elevar a produção de carne de frango de 947 mil toneladas em 2020 para 1,362 milhão de toneladas até 2025, aumentando a taxa de autossuficiência alimentar de 68% para 80% (ARAB NEWS, 2023).
Outro marco importante foi o anúncio, em 2023, de um plano de investimento de USD 4,5 bilhões, previsto para o período de 2023 a 2025, destinado a ampliar ainda mais a capacidade produtiva, modernizar instalações e adotar tecnologias sustentáveis (ARAB NEWS, 2023).
A Arábia Saudita também tem adotado medidas para atrair investidores estrangeiros. Uma dessas iniciativas é a possibilidade de 100% de propriedade estrangeira para empresas que queiram investir localmente no setor avícola, o que representa um incentivo importante para grandes conglomerados internacionais (MORDOR INTELLIGENCE, 2022).
Além disso, o governo estabeleceu exigências de conteúdo local em contratos de fornecimento (catering), com a meta de que 70% dos produtos avícolas utilizados sejam de produção nacional (MEWA, 2021). Essa política, somada a barreiras comerciais como a limitação de licenças de importação e o aumento de taxas, tem contribuído para uma redução significativa das importações de carne de frango, criando um ambiente de maior proteção e incentivo à indústria nacional (USDA, 2023).
O investimento estrangeiro, especialmente do Brasil, merece destaque. A BRF S.A., maior processadora de carne de frango brasileira, firmou, em 2019, um acordo com o governo saudita para construir uma unidade industrial no valor de USD 120 milhões, com capacidade anual de 50 mil toneladas. Posteriormente, a BRF adquiriu a Vita Food Company, investindo ainda mais na ampliação da produção local. Atualmente, cinco empresas brasileiras, com nove plantas industriais, possuem autorização para exportar carne de aves para o Reino, sendo a BRF a principal fornecedora.
Este panorama evidencia o esforço contínuo da Arábia Saudita para consolidar sua indústria avícola, promover a segurança alimentar, atrair investimentos externos e reduzir a dependência de importações. As estratégias combinam modernização tecnológica, incentivo financeiro e políticas de proteção ao mercado interno, desenhando um cenário promissor para os próximos anos.
Os resultados destacam o clima quente como principal barreira à reprodução de aves, com mortalidade elevada devido ao estresse térmico. O clima quente da Arábia Saudita é a principal barreira à reprodução de aves, resultando em elevada mortalidade devido ao estresse térmico (PMC, 2024). Temperaturas extremas comprometem o bem-estar animal e a eficiência produtiva, impactando diretamente os índices de mortalidade, que contrastam com os menos de 10% observados no Brasil (MITCHELL, 2015).
Tecnologias de resfriamento, como sistemas de ventilação e nebulização, e o desenvolvimento de linhagens genéticas termotolerantes são soluções viáveis, mas demandam investimentos iniciais significativos (RESEARCHGATE, 2008). A implementação dessas tecnologias pode reduzir perdas e alinhar a produção saudita a padrões globais de eficiência, embora os custos elevados representem um obstáculo, especialmente para pequenos produtores.
As políticas governamentais sauditas, incluindo subsídios anuais de USD 187 milhões e barreiras comerciais, têm incentivado a produção local de carne de frango (MEWA, 2021; USDA, 2023). Essas medidas visam reduzir a dependência de importações e fortalecer a segurança alimentar, em linha com a Visão 2030. Contudo, a dependência de insumos importados, como grãos e vacinas, limita a redução de custos e a competitividade do setor (EMBRAPA, 2005).
Como destacado por Souza et al. (2019), “os polos de produção com maior autossuficiência são aqueles que conseguem alinhar disponibilidade de insumos, tecnologia e logística eficiente” (SOUZA et al., 2019, p. 270). A superação dessa barreira exige investimentos em infraestrutura, como incubatórios com capacidade para 480 milhões de pintinhos anuais, e estratégias para aumentar a produção local de matérias-primas.
Parcerias com empresas internacionais, como a BRF, têm sido fundamentais para a transferência de tecnologia e o aumento da eficiência produtiva (MORDOR INTELLIGENCE, 2022). A integração vertical entre grandes produtores, como Almarai, Tanmiah e BRF Sadia, e pequenas fazendas familiares fortalece a cadeia produtiva, promovendo sustentabilidade econômica e inclusão social.
Santos et al. (2014) destacam que a sustentabilidade econômica da cadeia avícola passa necessariamente pela ampliação da capacidade produtiva local e pelo fortalecimento das relações comerciais regionais (SANTOS et al., 2014, p. 50). Essa integração permite a adoção de práticas de manejo avançadas, como ciclos produtivos de 32 dias com ajustes nutricionais rigorosos, refletindo as estratégias de eficiência descritas por Mendes et al. (2010).
A diversificação da estrutura produtiva saudita, que inclui pequenas propriedades familiares, contribui para a reprodução socioeconômica e o abastecimento de mercados locais, conforme observado por Rocha (2014). A autora afirma que a avicultura, quando inserida em uma lógica de autossuficiência, potencializa a reprodução socioeconômica de famílias agricultoras (ROCHA, 2014, p. 88). Esse modelo inclusivo é essencial para alcançar as metas de autossuficiência de 80% até 2025 e 90% até 2030, reduzindo a vulnerabilidade a oscilações no comércio internacional (MENDES et al., 2010). A combinação de grandes investimentos privados e apoio às pequenas unidades produtivas fortalece a resiliência do setor.
Uma limitação significativa identificada é a escassez de dados primários sobre fazendas locais, o que sugere a necessidade de pesquisas de campo para embasar políticas e estratégias específicas. Além disso, a dependência de insumos importados reforça a relevância de estudos que avaliem a viabilidade de produção local de matérias-primas e a otimização da logística. Investir em pesquisa local e colaborações internacionais pode alinhar a avicultura saudita às práticas de manejo bem-sucedidas do Brasil, adaptando-as às condições climáticas e econômicas do país.
A avicultura na Arábia Saudita exemplifica a aplicação prática de conceitos acadêmicos sobre eficiência produtiva, integração vertical e sustentabilidade econômica. Apesar dos desafios climáticos e da dependência de insumos importados, as políticas públicas, parcerias com empresas como a BRF e investimentos em tecnologia oferecem caminhos viáveis para a autossuficiência. A inclusão de pequenos produtores e o fortalecimento da infraestrutura produtiva são passos cruciais para alcançar as metas da Visão 2030. Pesquisas futuras devem focar em dados locais e estratégias para reduzir a dependência externa, consolidando o setor avícola como pilar da segurança alimentar saudita.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo geral deste estudo foi avaliar estratégias para implementar e otimizar a reprodução de aves na Arábia Saudita, com foco na redução da dependência de importações e no aumento da eficiência da produção avícola local. Após a análise dos dados obtidos por meio de revisão documental, análise de relatórios de mercado e artigos acadêmicos, pode-se afirmar que o objetivo proposto foi alcançado.
Ao longo do desenvolvimento, começou-se contextualizando o cenário econômico e de mercado da avicultura na Arábia Saudita, destacando a elevada dependência de importações e o crescimento gradual da produção interna. No segundo tópico, abordou-se a questão da autossuficiência produtiva, evidenciando a importância de fatores como integração produtiva, investimentos em tecnologia e estruturação de incubatórios. O terceiro tópico aprofundou os desafios técnicos na reprodução de aves, com ênfase nos impactos das doenças, das condições climáticas extremas, da escassez de água, dos custos elevados de produção e da presença de pragas. Por fim, o quarto tópico detalhou as políticas governamentais e os incentivos oferecidos, incluindo subsídios financeiros, financiamentos e estratégias para atração de investimentos estrangeiros.
Os principais resultados evidenciaram que, apesar dos desafios enfrentados, a Arábia Saudita tem avançado significativamente na implementação de políticas de incentivo à produção avícola, na adoção de tecnologias de manejo reprodutivo e no fortalecimento das capacidades locais de produção. Os investimentos em infraestrutura, a ampliação de parcerias com empresas internacionais e a adoção de metas claras de autossuficiência reforçam que o país está no caminho para alcançar os índices propostos de produção interna, reduzindo progressivamente a dependência de mercados externos.
As contribuições desta pesquisa se concentram na sistematização de informações atualizadas sobre o setor avícola saudita, oferecendo uma análise integrada que pode subsidiar gestores, pesquisadores e formuladores de políticas públicas no planejamento de ações estratégicas para o fortalecimento da cadeia produtiva de aves no país. Além disso, o estudo oferece uma visão comparativa com outras experiências internacionais, como o modelo brasileiro, o que amplia as possibilidades de adaptação de boas práticas.
Entre as limitações do estudo, destaca-se a ausência de dados primários de campo, especialmente sobre as práticas de manejo reprodutivo adotadas nas granjas sauditas de pequeno e médio porte. Além disso, a pesquisa concentrou-se em fontes secundárias e relatórios institucionais, o que pode restringir a análise de fatores culturais e socioeconômicos que influenciam diretamente a dinâmica da produção avícola local.
Como sugestão para futuras pesquisas, recomenda-se a realização de estudos de campo que envolvam entrevistas com produtores, técnicos e formuladores de políticas públicas na Arábia Saudita, a fim de aprofundar a compreensão das práticas reprodutivas em diferentes escalas de produção. Investigações voltadas para o desenvolvimento de linhagens genéticas mais adaptadas ao clima árido e para o aprimoramento de tecnologias de manejo hídrico e controle de pragas também são indicadas como caminhos promissores para a continuidade do desenvolvimento do setor avícola saudita.
REFERÊNCIAS
AGROBERICHTEN BUITENLAND. Poultry in KSA: A Leap Forward with Dutch Innovation. 2024. Disponível em: https://www.agroberichtenbuitenland.nl/actueel/nieuws/2024/06/03/poultry-in-ksa-aleap-forward-with-dutch-innovation?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 30 jun. 2025.
AL-GARADI, M. A. et al. A review of current knowledge on avian Newcastle infection in Saudi Arabia. Saudi Journal of Biological Sciences, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11018399/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 30 jun. 2025.
ALZAHRANI, A. M.; EDREES, N. O. Seasonal distribution of Argas persicus in local poultry farms (Baladi chicken) in Jeddah Governorate, Saudi Arabia. Global Veterinaria, v. 21, n. 5, p. 268-277, 2019. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Nada-Edrees/publication/336578698_Seasonal_Distribution_of_Argas_persicus_in_Local_Poultry_Farms_Baladi_Chicken_in_Jeddah_Governorate_Saudi_Arabia/links/5da6d06e4585159bc3d021d2/Seasonal-Distribution-of-Argas-persicus-in-Local-Poultry-Farms-Baladi-Chicken-in-Jeddah-Governorate-Saudi-Arabia.pdf. Acesso em: 30 jun. 2025.
ANDERSON, K. E.; CARTER, T. A. Gestão de tempo quente de aves. The Poultry Site, [s.d.]. Disponível em: https://www.thepoultrysite.com/articles/hot-weather-management-of-poultry. Acesso em: 30 jun. 2025.
ARAB NEWS. Saudi Arabia plans $5bn poultry investment. Arab News, [S. l.], 2023. Disponível em: https://www.arabnews.com/node/2128406/business-economy. Acesso em: 30 jun. 2025.
ARGAAM. Saudi Arabia achieves 70% poultry self-sufficiency. Argaam, [S. l.], 2023. Disponível em: https://www.argaam.com/en/article/articledetail/id/1727927. Acesso em: 30 jun. 2025.
ELSAYED, N.; ELSAYED, N. K. Effect of dietary corn oil on productive performance, yolk fatty acids content and reproductive aspects of Saudi local strain layers. Egyptian Poultry Science Journal, v. 40, n. 4, p. 831-842, 2021. Disponível em: https://journals.ekb.eg/article_135029.html. Acesso em: 30 jun. 2025.
EMBRAPA. A cadeia produtiva do frango de corte no Brasil e na Argentina. Campinas: Embrapa Informática Agropecuária, 2005. (Documentos / Embrapa Informática Agropecuária, n. 45). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/433669/1/doc45.pdf. Acesso em: 30 jun. 2025.
GLOBE NEWSWIRE. The Saudi Arabian poultry meat market is anticipated to register a CAGR of 1.64% during 2023-2028 – Market size, share, forecasts, and trends analysis report by Mordor Intelligence. Disponível em: https://www.globenewswire.com/news-release/2023/03/28/2635405/0/en/The-SaudiArabian-Poultry-Meat-Market-is-anticipated-to-register-a-CAGR-of-1-64-during-2023-2028-Market-Size-Share-Forecasts-and-Trends-Analysis-Report-by-Mordor-Intelligence.html. Acesso em: 30 jun. 2025.
GLOBENEWSWIRE. Saudi Arabia Poultry Forecast Report 2025: A $5.62 Billion Market by 2033 – Halal Certification and Cultural Alignment, Expanding Retail and Foodservice Sectors, Competition and Market Size. 2025. Disponível em: https://www.globenewswire.com/news-release/2025/03/13/3042161/28124/en/Saudi-Arabia-Poultry-Forecast-Report-2025-A-5-62-Billion-Market-by-2033-Halal-Certification-and-Cultural-Alignment-Expanding-Retail-and-Foodservice-Sectors-Competition-and-Market-S.html?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 30 jun. 2025.
GLOBENEWSWIRE. Saudi Arabia Poultry Market Forecasts and Opportunities, 2024–2025–2030: Industry Set to Thrive with Advancements in Smart Technology and Consumer Shifts. 2025. Disponível em: https://www.globenewswire.com/news-release/2025/05/13/3079837/28124/en/Saudi-Arabia-Poultry-Market-Forecasts-and-Opportunities-2024-2025-2030-Industry-Set-to-Thrive-with-Advancements-in-Smart-Technology-and-Consumer-Shifts.html?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 30 jun. 2025.
HAFEZ, H. M.; ATTIA, Y. A. Challenges to the poultry industry: current perspectives and strategic future after the COVID-19 outbreak. Frontiers in Veterinary Science, v. 7, p. 516, 2020. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/veterinary-science/articles/10.3389/fvets.2020.00516/full. Acesso em: 30 jun. 2025.
KINSLEY, Natalie. Saudi Arabia’s changing poultry landscape. Poultry World, 2021. Disponível em: https://www.poultryworld.net/poultry/saudi-arabias-changing-poultry-landscape/. Acesso em: 30 jun. 2025.
LIVESTOCK MIDDLE EAST. Poultry farming in Saudi Arabia: Trends and developments in 2024. 2024. Disponível em: https://livestockmiddleeast.com/industry-update/livestock-farming/poultry-farming-in-saudi-arabia-trends-and-developments-in-2024/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 30 jun. 2025.
MENDES, Iran José Ribeiro et al. Pesquisa e desenvolvimento na cadeia produtiva de frangos de corte no Brasil. Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 48, n. 2, p. 291-312, abr./jun. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/resr/a/8rxzVgDsW9sRW6bSCPt73hv/. Acesso em: 30 jun. 2025.
MEWA. Saudi Arabia poultry incentives. Citado em: BECK, [S. l.], 2021.
MITCHELL. Poultry production challenges in Saudi Arabia. [S. l.], 2015.
MORDOR INTELLIGENCE. Saudi Arabia analysis of the poultry sector industry. Disponível em: https://www.mordorintelligence.com/industry-reports/saudi-arabia-analysis-of-the-poultry-sector-industry. Acesso em: 30 jun. 2025.
MORDOR INTELLIGENCE. Saudi Arabia poultry meat market analysis. [S. l.], 2022. Disponível em: https://www.mordorintelligence.com/industry-reports/saudi-arabia-analysis-of-the-poultry-sector-industry. Acesso em: 30 jun. 2025.
OEC. Poultry meat in Saudi Arabia. Disponível em: https://oec.world/en/profile/bilateral-product/poultrymeat/reporter/sau?selector1205id=2020. Acesso em: 30 jun. 2025.
OEC. Poultry meat trade data. The Observatory of Economic Complexity, [S. l.], 2023. Disponível em: https://oec.world/en/profile/bilateral-product/poultrymeat/reporter/sau. Acesso em: 30 jun. 2025.
PMC. Climate change and broiler production. PubMed Central, [S. l.], 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10951626/. Acesso em: 30 jun. 2025.
POULTRY WORLD. Saudi Arabia’s changing poultry landscape. Disponível em: https://www.poultryworld.net/poultry/saudi-arabias-changing-poultry-landscape/. Acesso em: 30 jun. 2025.
POULTRY WORLD. Saudi Arabia’s changing poultry landscape. Poultry World, [S. l.], 2023. Disponível em: https://www.poultryworld.net/poultry/saudi-arabias-changing-poultry-landscape/. Acesso em: 30 jun. 2025.
RESEARCHGATE. Poultry production in hot climates. [S. l.], 2008. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/233918745_Poultry_Production_in_Hot_Climates. Acesso em: 30 jun. 2025.
ROCHA, Eliane Gomes da. Avicultura e reprodução socioeconômica dos agricultores familiares no semiárido alagoano: um olhar a partir da associação dos avicultores de Santana do Ipanema. 2014. 120 f. Dissertação (Mestrado em Extensão Rural) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2014. Disponível em: https://www.repositorio.ufal.br/bitstream/riufal/3401/1/Avicultura%20e%20reprodu%C3%A7%C3%A3o%20socioecon%C3%B4mica%20dos%20agricultores%20familiares%20no%20semi%C3%A1rido%20alagoano%3A%20um%20olhar%20a%20partir%20da%20associa%C3%A7%C3%A3o%20dos%20avicultores%20de%20Santana%20do%20Ipanema.pdf. Acesso em: 30 jun. 2025.
SANTOS, Antonio Carlos dos et al. Avicultura integrada e estratégias de competitividade no Nordeste brasileiro. Revista Geonorte, Boa Vista, v. 5, n. 18, p. 45-67, 2014. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/5707/570765374004.pdf. Acesso em: 30 jun. 2025.
SAUDIPEDIA. Poultry farming in Saudi Arabia. Disponível em: https://saudipedia.com/en/article/2377/economy-and-business/economic-affairs/poultry-farming-in-saudi-arabia. Acesso em: 30 jun. 2025.
SAUDIPEDIA. Poultry farming in Saudi Arabia. Saudipedia, [S. l.], 2023. Disponível em: https://saudipedia.com/en/article/2377/economy-and-business/economic-affairs/poultry-farming-in-saudi-arabia. Acesso em: 30 jun. 2025.
SOUZA, Rosângela de Oliveira et al. O setor avícola no Brasil e sua distribuição regional: uma análise da produção entre os anos de 1995 e 2015. Revista Economia e Região, Londrina, v. 7, n. 2, p. 263-284, jul./dez. 2019. Disponível em: https://www.uel.br/revistas/uel/index.php/ecoreg/article/viewFile/35464/31777. Acesso em: 30 jun. 2025.
TECHNICAL RESEARCH. Saudi Arabia poultry market. TechSci Research, [S. l.], 2024. Disponível em: https://www.techsciresearch.com/report/saudi-arabia-poultry-market/7726.html. Acesso em: 30 jun. 2025.
TECHSCI RESEARCH. Saudi Arabia poultry market. Disponível em: https://www.techsciresearch.com/report/saudi-arabia-poultry-market/7726.html. Acesso em: 30 jun. 2025.
THE POULTRY SITE. Hot weather management of poultry. Disponível em: https://www.thepoultrysite.com/articles/hot-weather-management-of-poultry. Acesso em: 30 jun. 2025.
USDA United States Department of Agriculture. Poultry and Products Annual – Riyadh, Saudi Arabia. Riyadh: United States Department of Agriculture – Foreign Agricultural Service, 2021. Disponível em: https://apps.fas.usda.gov/newgainapi/api/Report/DownloadReportByFileName?fileName=Poultry%20and%20Products%20Annual_Riyadh_Saudi%20Arabia_09-01-2021.pdf. Acesso em: 30 jun. 2025.
USDA. Saudi Arabia: poultry and products annual. United States Department of Agriculture, [S. l.], 2023. Disponível em: https://www.fas.usda.gov/data/saudi-arabia-poultry-and-products-annual-5. Acesso em: 30 jun. 2025.
WAYA MEDIA. Saudi Arabia’s $5bn poultry self-sufficiency plan. Waya Media, [S. l.], 2023. Disponível em: https://waya.media/saudi-arabia-to-invest-5bn-to-achieve-self-sufficiency-in-poultry-meat-production/. Acesso em: 30 jun. 2025.
