IMPLANTAÇÃO DE ENDOEXOPRÓTESE EM MEMBRO TORÁCICO DE CÃO COMO ALTERNATIVA AO SALVAMENTO DE MEMBRO: RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511071855


Giovanna Cuba Balastegui1
Bruno Spedo da Cruz2
Camilla Magnani Hara3


Resumo 

A amputação é o tratamento de escolha para traumas graves e neoplasias em membros de cães, porém acarreta limitações funcionais ao membro acometido. Este trabalho descreve o caso de uma fêmea canina, Pitbull, 4 anos, com lesão grave por estrangulamento no membro torácico, onde a amputação alta foi inicialmente indicada. Devido à insistência dos tutores na preservação funcional, optou-se pela implantação de uma endoexoprótese em titânio cirúrgico (Ti6Al4V), fabricada por impressão 3D. O planejamento cirúrgico minucioso, incluindo controle de infecção pré-operatório e a  avaliação neurológica, foi crucial. O procedimento resultou na fixação do implante e subsequente reabilitação fisioterapêutica intensiva. O caso demonstra que a tecnologia de osseointegração é uma alternativa viável e promissora, oferecendo aprimoramento da mobilidade e da qualidade de vida como um todo. 

Palavras-chave 

Endoexoprótese; Osseointegração; Titânio; Impressão 3D; Ortopedia Veterinária; Salvamento de Membro. 

Introdução 

A perda de um membro em cães devido a traumas severos, neoplasias ou doenças congênitas é uma ocorrência que, muitas vezes, resulta na amputação como tratamento padrão. Embora essa seja uma medida eficaz para eliminar a causa do problema e prevenir complicações sistêmicas, a amputação total pode impactar significativamente a biomecânica e a qualidade de vida do animal, levando a sobrecargas nas articulações remanescentes e atrofia muscular (GAMA et al., 2023; KIM et al., 2024). 

Em busca de alternativas que promovam uma recuperação mais completa e funcional, as próteses osseointegradas, conhecidas como endoexopróteses, emergem como uma solução promissora na medicina veterinária (OLIVEIRA et al., 2025; MONTI et al., 2018). Essa técnica permite a fixação de um implante diretamente no tecido ósseo remanescente, restaurando a capacidade de suporte de peso e deambulação. O sucesso desta abordagem depende de um rigoroso planejamento cirúrgico e de uma reabilitação intensa. 

O objetivo deste trabalho é relatar o caso clínico de um canino submetido à implantação de uma endoexoprótese torácica, demonstrando a aplicação de tecnologia avançada (impressão 3D e titânio grau 5) e o manejo multidisciplinar necessário para o salvamento e reabilitação funcional do membro. 

Relato do Caso Clínico 

Histórico e Exame Clínico 

A paciente, uma fêmea canina de 4 anos, da raça Pitbull, pesando 25,60 kg, foi resgatada de maus tratos, encontrada com o membro torácico amarrado em uma corda, o que causou uma ferida extensa expondo ligamentos e inervações, tornando o membro inviável. A natureza da lesão, um trauma por estrangulamento de longa duração, resultou em necrose tecidual e déficits neurológicos. A indicação inicial foi a amputação alta, mas os tutores, buscando a preservação funcional, insistiram em manter o máximo do comprimento do membro. Mesmo apresentando uma lesão extensa nos tecidos moles (tendão, ligamento e nervos) e múltiplas fraturas nas falanges, uma porção viável do membro permaneceu, o que permitiu a avaliação de uma solução protética. 

Planejamento e Procedimento Cirúrgico 

O planejamento cirúrgico foi crucial. Para a realização do procedimento, foi necessário um manejo rigoroso da ferida em etapas, incluindo desbridamento e acompanhamento até a resolução da infecção local, um passo fundamental para evitar a falha da osseointegração (MONTI et al., 2018). Foi realizada uma avaliação neurológica aprofundada que, juntamente com a execução de radiografia confirmou a ausência de sensibilidade nociceptiva na ponta do membro, mas a viabilidade óssea para a fixação. 

Em conjunto com uma empresa especializada em próteses, o projeto foi concebido utilizando a tecnologia de Impressão 3D (SOUZA & BREMER, 2024). A endoprótese foi fabricada em titânio cirúrgico, grau 5 (Ti6Al4V), um material de eleição por sua alta biocompatibilidade, resistência à fadiga e capacidade de promover a osseointegração (DONAGHY et al., 2020). O design personalizado garantiu o encaixe preciso no remanescente ósseo, e a prótese foi complementada com amortecimento e solado de borracha para melhor acomodação do membro. 

Pós Operatório e Reabilitação 

Para o pós cirúrgico, foram administrados anti inflamatórios esteroidais, analgésicos para dor neuropática (como gabapentina) e medicação tópica cicatrizante. O manejo da interface foi rigoroso, com higiene diária e monitoramento de infecções, que são a principal complicação de longo prazo (WANG et al., 2023). A reabilitação à base de fisioterapia foi iniciada precocemente e evoluiu em fases: controlando a dor e edema, recuperando  amplitude de movimento e suportando o  peso progressivamente . Técnicas como a hidroterapia foram utilizadas para permitir a movimentação precoce do membro sem sobrecarga excessiva, fundamental para a adaptação e recuperação muscular (ROSA et al., 2024; DYBCZYŃSKA et al., 2022). 

Discussão 

O caso ap 

A tendência atualmente se baseia na busca de alternativas funcionais à amputação. A decisão de optar pela endoexoprótese baseou-se na viabilidade óssea remanescente e no desejo dos tutores, apesar da complexidade das lesões de tecidos moles e nervosos. 

O sucesso inicial do procedimento está ligado principanervoso à tecnologia de implante e manejo da infecção. O uso do titânio grau 5 impresso em 3D não só permitiu um ajuste personalizado e preciso (GUPTA et al., 2022) mas também maximizou as condições para a osseointegração, graças às propriedades do material e à arquitetura de superfície porosa (HILDEBRAND et al., 2021; CHEN et al., 2023). 

A condução pós operatória incluiu o controle rigoroso da dor e a prevenção de infecções e sepse. Complicações como a osteomielite e a infecção de partes moles na interface são os maiores desafios a longo prazo para a durabilidade destes implantes (MONTI et al., 2018; LEE et al., 2023). Por fim, a fisioterapia multimodal foi essencial para a reaquisição da função. A literatura demonstra que a reabilitação intensiva melhora a qualidade de vida e a funcionalidade de cães com próteses, prevenindo a sobrecarga dos membros remanescentes (BALTZER, 2020; ZHU et al., 2023).  

Conclusão 

A endoexoprótese representa uma abordagem inovadora e viável para o salvamento de membros em cães com lesões traumáticas complexas. Este relato de caso demonstra o sucesso de um procedimento que, mediante planejamento cirúrgico meticuloso, o uso de titânio 3D de alta qualidade e um protocolo de reabilitação rigoroso, proporcionou à paciente uma adaptação funcional positiva. A técnica oferece uma promissora alternativa à amputação, com potencial para restaurar a mobilidade e elevar a qualidade de vida de animais criteriosamente selecionados. 

Referências 

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1Médica Veterinária formada pela Universidade Anhanguera, especializada em neurologia, Clínica de pequenos animais e pós graduanda de cirurgia de tecidos moles. Veterinária Clínica de cães e gatos na clínica veterinária Vethealthato em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil.
2Médico Veterinário formado pela Universidade Metodista de São Paulo, especializado em Cirurgia de tecidos moles Ortopedia, Neurologia e neurocirurgia. CEO da Clínica Veterinária Especializada em Ortopedia e Neurologia VethealthHato em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil.
3Médica Veterinária formada pela Universidade Metodista de São Paulo, especializada em Clínica médica de cães e gatos e anestesiologia Veterinária. CEO da Clínica Veterinária Especializada em Ortopedia e Neurologia VethealthHato em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil