REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511071846
Josineide Alencar de Araújo1, Bruno de Araújo Silva2, Júlia Maria Pinto de Abreu3, Josirene Faustino Alencar4, Raimunda Leite Sousa5, Pedro Henrique Rodrigues Alencar6, Sandeyvison Oliveira da Silva7
RESUMO
O tratamento radioterápico representa uma das principais modalidades terapêuticas utilizadas no combate ao câncer, atuando de forma eficaz na destruição de células tumorais. No entanto, esse processo frequentemente gera efeitos adversos físicos e emocionais que impactam significativamente a qualidade de vida dos pacientes. Nesse contexto, o papel do enfermeiro torna-se essencial, pois é o profissional que acompanha de forma contínua todas as etapas do tratamento, realizando avaliações clínicas, diagnósticos de enfermagem e intervenções direcionadas à prevenção e ao manejo das complicações decorrentes da radioterapia. O presente estudo teve como objetivo analisar os principais diagnósticos de enfermagem e as intervenções prioritárias no cuidado de pacientes oncológicos submetidos à radioterapia, destacando as estratégias voltadas à prevenção e manejo dos efeitos adversos e à promoção da qualidade de vida. A pesquisa foi desenvolvida por meio de uma revisão integrativa da literatura, fundamentada no modelo PRISMA, com levantamento em bases nacionais e internacionais, como SciELO, LILACS e PubMed, abrangendo publicações entre 2018 e 2025. Os resultados apontaram que os efeitos adversos mais recorrentes são radiodermites, fadiga, náuseas, mucosite e alterações gastrointestinais. Entre os diagnósticos de enfermagem mais frequentes, destaca-se a integridade da pele prejudicada, fadiga, ansiedade e nutrição desequilibrada e outros. As intervenções prioritárias envolvem ações educativas, cuidados com a pele irradiada, monitoramento contínuo, orientações sobre autocuidado e suporte emocional. Além disso, a humanização da assistência e a comunicação efetiva são determinantes para a adesão terapêutica e para o enfrentamento do processo oncológico. Conclui-se que a atuação profissional de enfermagem significativamente para a segurança do paciente, a redução de complicações e a melhoria da qualidade de vida durante o tratamento oncológico.
Palavras-chave: Enfermagem. Radioterapia. Câncer.
ABSTRACT
Radiotherapy represents one of the main therapeutic modalities used in cancer treatment, acting effectively in the destruction of tumor cells. However, this process often generates physical and emotional adverse effects that significantly impact patients’ quality of life. In this context, the role of the nurse becomes essential, as this professional continuously monitors all stages of treatment, performing clinical assessments, nursing diagnoses, and targeted interventions for the prevention and management of complications resulting from radiotherapy. The present study aimed to analyze the main nursing diagnoses and priority interventions in the care of oncology patients undergoing radiotherapy, highlighting strategies aimed at preventing and managing adverse effects and promoting quality of life. The research was developed through an integrative literature review, based on the PRISMA model, with searches conducted in national and international databases such as SciELO, LILACS, and PubMed, covering publications from 2018 to 2025. The results indicated that the most frequent adverse effects are radiodermatitis, fatigue, nausea, mucositis, and gastrointestinal alterations. Among the most common nursing diagnoses are impaired skin integrity, fatigue, anxiety, and imbalanced nutrition, among others. The priority interventions involve educational actions, care for irradiated skin, continuous monitoring, guidance on self-care, and emotional support. Furthermore, humanized care and effective communication are key determinants for therapeutic adherence and for coping with the oncological process. It is concluded that professional nursing practice contributes significantly to patient safety, the reduction of complications, and the improvement of quality of life during cancer treatment.
Keywords: Nursing. Radiotherapy. Cancer.
1 INTRODUÇÃO
O câncer constitui-se como um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade, tanto pela elevada incidência quanto pela complexidade do seu tratamento. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca, 2023), estima-se que, entre 2023 e 2025, ocorrerão cerca de 704 mil novos casos anuais no Brasil, com destaque para as neoplasias de mama, próstata, cólon e reto.
O tratamento oncológico envolve múltiplas modalidades terapêuticas, entre as quais a radioterapia tem papel central, sendo indicada em aproximadamente 60% dos casos de câncer, seja de forma curativa, adjuvante ou paliativa (Who, 2022). E apesar de sua eficácia no controle da doença, a radioterapia está associada a efeitos adversos que impactam de forma significativa a qualidade de vida dos pacientes, tais como fadiga, alterações cutâneas (radiodermite), mucosite, anorexia, náuseas e sintomas psicológicos como ansiedade e depressão (Ferreira et al., 2021) (Oliveira; Lima, 2022).
Nesse cenário, a enfermagem desempenha papel crucial não apenas no manejo clínico dessas complicações, mas também na implementação de cuidados que englobem aspectos físicos, emocionais e sociais. A sistematização da assistência de enfermagem, por meio do processo de enfermagem e da utilização de diagnósticos padronizados (como os da NANDA-I), possibilita identificar necessidades prioritárias e estabelecer intervenções eficazes e individualizadas (Santos; Barbosa; Costa, 2023).
Entre as modalidades terapêuticas mais utilizadas, a radioterapia ocupa lugar de destaque devido à sua eficácia no controle local do tumor e à possibilidade de associação com outros tratamentos, como a cirurgia e a quimioterapia (Ferreira et al., 2021). No entanto, apesar dos avanços tecnológicos que permitiram maior precisão e menor toxicidade, a radioterapia ainda apresenta efeitos adversos significativos, como fadiga, perda de apetite, mucosite, náuseas, alterações cutâneo e impacto na qualidade de vida.
O estudo baseia-se na percepção a radioterapia, embora seja uma das principais modalidades terapêuticas no tratamento oncológico, frequentemente está associada a efeitos adversos que comprometem o bem-estar físico, emocional e social do indivíduo. Assim, a pesquisa tem como relevância, consolidar conhecimentos sobre os diagnósticos e intervenções prioritárias no contexto oncológico, visto que ainda existem lacunas na literatura acerca da sistematização do cuidado frente aos efeitos colaterais da radioterapia, incluído ativamente a evidencia do papel da enfermagem no manejo prioritário das complicações da radioterapia (Sousa e Moura, 2022).
Portanto, o estudo almeja analisar os principais diagnósticos de enfermagem e as intervenções prioritárias no cuidado de pacientes oncológicos submetidos ao tratamento radioterápico, além disso, identificar os efeitos adversos mais frequentes em pacientes submetidos à radioterapia, descrever os diagnósticos de enfermagens mais comuns diante das manifestações clínicas apresentadas pelos pacientes oncológicos em radioterapia, analisar as intervenções de enfermagem prioritárias voltadas à prevenção, monitoramento e manejo desses efeitos e por fim, discutir a importância do cuidado humanizado e da comunicação terapêutica no acompanhamento de pacientes em radioterapia.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Radioterapia
A radioterapia é uma modalidade terapêutica baseada na utilização de radiação ionizante para tratar neoplasias, com o objetivo principal de danificar ou destruir células tumorais, inibindo sua multiplicação e induzindo morte celular, ao mesmo tempo em que se busca minimizar os danos aos tecidos sadios adjacentes (Sousa e Moura, 2022).
Os estudos que levaram ao desenvolvimento da radioterapia começaram no final do século XIX pelo pesquisador Roentgen, que foi seguido por diversos pesquisadores. No ano de 1898, Pierre e Marie Curie descobriram o rádio, que colaborou com os avanços no desenvolvimento da radioterapia. Logo após a descoberta dos raios X, por Wilhelm Conrad Röntgen, em 1895 (Lopes; Turchetti; Santos, 2024).
Em 1896 já se tinha registro das primeiras aplicações terapêuticas dos raios. Também no período, com as descobertas relacionadas à radioatividade (como pelos trabalhos de Becquerel, Curie e outros), realizou-se experimentações com diferentes fontes de radiação para uso em tumores superficiais (Yang et al., 2024; Salari et al., 2023)
Ao longo do século XX, a radioterapia evoluiu significativamente. No início, os equipamentos eram rudimentares, a estimativa de dose era imprecisa, e os efeitos colaterais eram frequentes e pouco controlados. Com o avanço da física médica e da biologia do câncer, o campo se beneficiou de progressos como imagens diagnósticas mais refinadas, melhores técnicas de planejamento, aprimoramento dos aceleradores lineares, e métodos mais sofisticados para dosimetria e verificação de dose. Essas inovações permitiram melhorar tanto a eficácia antitumoral quanto o perfil de segurança para os pacientes (Yang et al., 2024).
Recentemente, além das técnicas tradicionais, observaram-se novos desenvolvimentos que destacam a radioterapia moderna. Por exemplo, a terapia com prótons e a radioterapia com íons de carbono (CIRT – Carbon Ion Radiotherapy) representam avanços tecnológicos que permitem depositar a dose de forma mais precisa em tumores, costuma haver menor dispersão para tecidos normais, especialmente em casos de tumores localizados próximos a estruturas críticas.
Ademais, a radioterapia adaptativa (Adaptive Radiotherapy – ART) tornou-se uma prática importante, ajustando o plano de tratamento ao longo das sessões para responder às alterações anatômicas ou tumorais do paciente (mudança de volume tumoral, peso, posição dos órgãos internos) (Bustos et al., 2025).
Também se observam avanços em técnicas de fração de dose. Um exemplo é o consenso recente da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) sobre irradiação hipofracionada integral ou parcial da mama (frequências de dose maiores por sessão, com menor número de sessões totais), que trazem benefícios em termos de tempo de tratamento, custo, menor desconforto para o paciente, e preservação de tecidos normais sem perder eficácia clínica (Freitas et al., 2025).
Em termos biológicos, a radioterapia atua primariamente por induzir danos ao DNA das células tumorais, com quebras de fita dupla o que se não for reparado adequadamente, leva à morte celular por apoptose ou necrose. Além disso, altera o microambiente tumoral, incluindo vascularização, oxigenação local, a resposta imunológica, e pode induzir efeitos indiretos por radicais livres(Salari et al., 2023)
As modalidades de entrega da radiação são diversas. As principais incluem: teleterapia ou radiação externa (External Beam Radiotherapy – EBRT), que utiliza aceleradores lineares para emitir feixes de radiação do exterior em direção ao tumor; braquiterapia, que consiste na colocação de fontes radioativas muito próximas ou dentro do próprio tumor ou cavidade corporal; radioterapia intraoperatória, em que a radiação é aplicada diretamente durante procedimento cirúrgico; além de técnicas mais especializadas como SBRT (Stereotactic Body Radiation Therapy), SRS (Stereotactic Radiosurgery), e terapias de partícula (prótons, íons) (Yang et al., 2024).
Em paralelo, as práticas modernas de radioterapia têm incorporado grandes avanços no planejamento e na entrega do tratamento. A integração de imagem médica de alta resolução (tomografia, ressonância magnética, PET-CT), que permite localizar o tumor com precisão, definir margens de segurança menores e adaptar o tratamento se necessário (image-guided radiotherapy – IGRT) é um marco (GarcíaFigueiras et al., 2024).
Outra característica relevante da radioterapia moderna é o esforço para concentrar doses elevadas em tumores enquanto se reduz o número de sessões (“frações”) estratégia que favorece conveniência para o paciente, reduz custos, e pode reduzir efeitos adversos cumulativos. Isso inclui técnicas como hipofracionamento e protocolos de dose fracionada mais intensiva (Freitas et al., 2025).
Portanto, a radioterapia começou como prática rudimentar logo após a descoberta dos raios X, evoluiu com o desenvolvimento dos conhecimentos de física, biologia tumoral e tecnologia de imagem, e atualmente se caracteriza por técnicas complexas que buscam alta precisão, personalização, fracionamento otimizado, integração com novas tecnologias e cuidados com a segurança e qualidade de vida do paciente (Lopes; Turchetti; Santos, 2024).
No Brasil a radioterapia começou a ser usada no início do século XX, no, no Rio Grande do Sul, trazida pelo médico Becker Pinto, que naquele momento usava aparelhos de raio x no tratamento de tumores cutâneos. No decorrer do século XX, a radioterapia avançou, se dividindo em diferentes terapias de contato. Começaram com o uso de materiais radioativos (césio, cobalto etc.) e em seguida com a criação de aceleradores lineares, que permitiam a radioterapia à distância (García-Figueiras et al., 2024).
Dessas experiências surgiram a braquiterapia, e a teleterapia, realizada com os aceleradores lineares atuais. Na década de 1970, surgiram novos métodos de captação de imagens, como a tomografia e a tomografia computadorizada. Foi uma revolução para o tratamento, que até o momento era realizado por meio de imagens de raio x e cálculos manuais (Bustos et al., 2025).
O uso de imagens tridimensionais permitiu uma identificação mais assertiva do volume que devia ser tratado e possibilitou o cálculo, por meio da escala de cinza de Hounsfiled, a densidade necessária para que a radiação tivesse efeito positivo de cura (Inca, 2022).
Foi uma revolução no uso do método na medida em que tornou os cálculos precisos, deixando de partir de uma mensuração que em muitos casos gerava erros de tratamento. A radioterapia brasileira visa propor oferecer qualidade como em outros países, mas devido às condições tecnológicas, principalmente no âmbito da saúde pública muito serviço precisam de melhoria. Apesar de que existem no Brasil centro de tratamentos de qualidade internacional, contudo não são ainda acessíveis a toda a população (Fernandes et al., 2024).
O Brasil possui 184 centros de radioterapia com registro no Instituto Nacional do Câncer (Inca). Ainda são usados aparelhos de cobalto terapia (Co 60) ou aceleradores lineares (Als) antigos, que estão sendo substituídos paulatinamente. Além da falta de recursos para a aquisição e manutenção dos equipamentos existentes, a crença de que a radioterapia é um tratamento secundário contribui com a falta de investimentos para o tratamento no país (Inca, 2021).
Alguns cânceres podem ser curados com o tratamento em radioterapia, em suas fases iniciais. Cerca de 60% dos tumores malignos são submetidos ao tratamento com radioterapia. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o tratamento de câncer com radioterapia deve incluir uma máquina de megavoltagem para cada 600 mil habitantes (Inca, 2022).
No Brasil, os aparelhos de radioterapia estão concentrados em alguns estados. Em alguns estados do norte do país, como Amapá e Roraima, ainda não existem máquinas para atendimento à população. Há ainda o problema de concentração de aparelhos nas capitais, estimulando os moradores do interior ou das regiões periféricas a disputar uma vaga para tratamento e percorrer grandes distâncias até o centro de tratamento (Bustos et al., 2025).
No ano de 1896 foi realizado o primeiro tratamento experimental com radiação e 3 anos depois um paciente com epitelioma de células basais teve a cura provocada pelo tratamento com radiação. Todudo, esse histórico mostra não apenas a capacidade de evolução da oncologia, mas também ressalta os desafios atuais: resistências biológicas, toxicidade, custo, acesso, e a necessidade de intervenção integral dos profissionais de saúde durante todo o processo terapêutico sobre aplicabilidade da radioterapia.
2.2 O papel do enfermeiro em radioterapia
Os pacientes acometidos com câncer vivem em situação de vulnerabilidade no que se refere às suas condições de saúde e o risco de morte com consequência da doença. O atendimento básico em saúde é o momento no qual a relação entre o paciente e o acolhimento se inicia e no qual as suas demandas são identificadas (Fernandes et al., 2024).
Para Oliveira, Castro e Lima, (2020) o profissional de enfermagem quando atua no setor de radioterapia desempenha um papel central na assistência a pacientes oncológicos, sendo fundamental para garantir a qualidade, a segurança e a humanização do tratamento. Sua atuação vai muito além da aplicação técnica de cuidados, englobando planejamento, execução, supervisão e orientação tanto do paciente quanto da equipe de saúde.
No âmbito assistencial, o enfermeiro é responsável por avaliar o estado clínico do paciente antes, durante e após as sessões de radioterapia, identificando sinais e sintomas relacionados aos efeitos adversos do tratamento, como fadiga, radiodermite, mucosite, náuseas e alterações no apetite (Fernandes et al., 2024). A partir dessas avaliações, ele elabora planos de cuidados individualizados, realiza intervenções específicas e coordena o acompanhamento contínuo do paciente, garantindo que todas as ações estejam fundamentadas em evidências científicas e protocolos atualizados.
Além das funções assistenciais, o enfermeiro exerce um papel administrativo relevante no serviço de radioterapia, organizando o fluxo de atendimento, supervisionando as atividades da equipe de enfermagem, controlando materiais e equipamentos, e mantendo registros e relatórios detalhados sobre o tratamento (Vilhena, 2024). Essas ações contribuem para o bom funcionamento do serviço, para a eficiência dos procedimentos e para a segurança do paciente.
Paralelamente, a atuação educacional do enfermeiro é indispensável, pois envolve informar pacientes e familiares sobre o tratamento radioterápico, seus objetivos, possíveis efeitos adversos e estratégias de autocuidado, promovendo compreensão, adesão terapêutica e empoderamento no enfrentamento da doença (Ferreira; Kalinke, 2023).
Outro aspecto essencial do papel do enfermeiro em radioterapia é a humanização do cuidado. Esse profissional deve atuar como um ponto de apoio emocional, oferecendo escuta qualificada, acolhimento e suporte psicológico aos pacientes, que frequentemente enfrentam ansiedade, medo e incertezas em relação ao tratamento e ao prognóstico (Vilhena, 2024). A atenção às necessidades emocionais e sociais, aliada à competência técnica, fortalece a relação terapêutica, melhora a experiência do paciente e contribui para melhores resultados clínico.
Por certo, o enfermeiro em radioterapia integra a equipe multidisciplinar de forma estratégica, unindo conhecimentos técnicos, administrativos e educacionais à sensibilidade humana necessária para lidar com pacientes oncológicos. Sua atuação é decisiva para a eficácia do tratamento, para a minimização de efeitos adversos e para a promoção do bem-estar físico e psicológico do paciente (Fernandes et al., 2024).
E para o profissional de enfermagem desempenhar esse papel com excelência, é imprescindível que o profissional esteja continuamente atualizado, capacitado e comprometido com as práticas baseadas em evidências, assegurando que o cuidado seja seguro, eficiente e centrado nas necessidades individuais de cada paciente.
2.3 Diagnóstico e Intervenção em Enfermagem
O diagnóstico e a intervenção de enfermagem constituem elementos centrais da prática profissional, estruturando o cuidado de forma sistemática, segura e individualizada. O diagnóstico de enfermagem pode ser definido como um julgamento clínico sobre respostas humanas a problemas de saúde reais ou potenciais, que permite ao enfermeiro identificar necessidades prioritárias do paciente e estabelecer metas terapêuticas específicas.
Para Oliveira et al., (2024) contexto oncológico, e mais especificamente em pacientes submetidos à radioterapia, o diagnóstico de enfermagem assume relevância ainda maior, pois esses pacientes apresentam múltiplos riscos associados aos efeitos da radiação, incluindo alterações de pele, fadiga intensa, alterações nutricionais, ansiedade, medo do tratamento e impacto na qualidade de vida.
A intervenção de enfermagem, por sua vez, consiste nas ações planejadas e executadas para tratar ou prevenir os problemas identificados nos diagnósticos, visando resultados desejados para a saúde do paciente (Rodrigues, Almeida e Sousa, 2021). Essas intervenções podem ser independentes, quando o enfermeiro atua de maneira autônoma, ou dependentes, quando necessitam de prescrição médica, bem como colaborativas, quando realizadas em conjunto com outros profissionais da saúde.
No contexto da radioterapia, a intervenção de enfermagem inclui ações preventivas, como a orientação sobre cuidados com a pele irradiada, hidratação adequada, nutrição, controle da fadiga e suporte emocional, além de monitoramento contínuo de sinais vitais, alterações cutâneas e sintomas decorrentes do tratamento (Oliveira, Sagica, Vilhena, 2024). A sistematização desse cuidado permite identificar precocemente complicações, minimizar efeitos adversos e aumentar a adesão ao tratamento.
O planejamento de intervenções é realizado com base em uma avaliação completa do paciente, considerando fatores físicos, emocionais, sociais e culturais, além da análise de exames laboratoriais e de imagem, histórico de saúde e particularidades do tumor e do tratamento radioterápico.
Segundo Oliveira et al., (2024) a escolha das intervenções deve priorizar aqueles diagnósticos mais críticos e que impactam diretamente a segurança, o conforto e a qualidade de vida do paciente. Por exemplo, pacientes com radiodermite exigem cuidados rigorosos com a pele, aplicação de cremes específicos, orientação quanto à exposição solar e monitoramento constante, enquanto pacientes com fadiga intensa podem se beneficiar de planejamento de atividades, suporte nutricional e acompanhamento psicológico. Todas essas ações são registradas de forma detalhada no prontuário, garantindo a continuidade do cuidado e a avaliação de resultados.
A utilização de intervenções baseadas em evidências é essencial para a prática de enfermagem, pois garante que as ações estejam respaldadas cientificamente, aumentam a efetividade do cuidado e reduzem riscos para o paciente. Conforme Ferreira, Souza e Mendonça (2021) estudos recentes destacam que o uso de protocolos padronizados de diagnóstico e intervenção em enfermagem em pacientes oncológicos submetidos à radioterapia contribui significativamente para a prevenção de complicações, melhora da qualidade de vida, redução da ansiedade e aumento da satisfação do paciente com os cuidados recebidos.
Ademais, o registro sistemático permite avaliar a evolução do paciente, replanejar intervenções quando necessário e gerar indicadores de qualidade para a instituição, fortalecendo a prática baseada em evidências e promovendo aprimoramento contínuo da assistência (Barroso, 2023).
Contudo, o diagnóstico e intervenção de enfermagem constituem a base da prática profissional centrada no paciente, permitindo identificar problemas, priorizar cuidados e executar ações eficazes e humanizadas. No contexto da radioterapia, essa sistematização assume importância ainda maior, pois possibilita prevenir e minimizar os efeitos adversos do tratamento, melhorar a adesão terapêutica, apoiar emocionalmente o paciente e promover resultados de saúde positivos (Oliveira, Sagica, Vilhena, 2024).
Dessa forma, a enfermagem não apenas contribui para a execução segura e eficiente do tratamento oncológico, mas também para a promoção do bem-estar integral do paciente, consolidando seu papel essencial na equipe multidisciplinar de saúde.
3 METODOLOGIA
O estudo foi desenvolvido a partir de uma revisão integrativa da literatura em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo artigos publicados entre 2018 e 2025, com foco em diagnóstico e intervenção de enfermagem em radioterapia. Foram selecionadas fontes confiáveis, como SciELO, LILACS, PubMed e periódicos especializados em enfermagem oncológica, utilizando-se os descritores: “enfermagem oncológica”, “radioterapia”, “diagnóstico de enfermagem”, “intervenção de enfermagem”, “cuidados de enfermagem” e “assistência humanizada”.
A análise dos artigos seguiu critérios de inclusão bem definidos: foram considerados elegíveis estudos que abordassem diretamente a atuação do enfermeiro em radioterapia, com descrição de diagnósticos, intervenções e resultados assistenciais, publicados em português, inglês ou espanhol. Foram excluídos artigos que não abordassem práticas de enfermagem ou que se concentrassem exclusivamente em aspectos técnicos da radioterapia sem relação com o cuidado humano.
Para a coleta de dados, foi realizado o levantamento sistemático da literatura entre os meses de maio a outubro, seguido de leitura crítica, categorização e síntese das informações obtidas. As categorias analisadas incluíram: diagnósticos de enfermagem mais frequentes em pacientes submetidos à radioterapia, intervenções prioritárias adotadas pelos profissionais, estratégias de prevenção de efeitos adversos, suporte emocional e educacional ao paciente, bem como indicadores de qualidade do cuidado. Durante a análise, buscou-se identificar não apenas as práticas recomendadas, mas também os desafios enfrentados pelo enfermeiro, como restrições de tempo, limitações de recursos, sobrecarga de trabalho e necessidade de atualização constante.
A análise dos dados foi conduzida de forma integrada, comparando os achados da literatura com os protocolos institucionais, resultando em uma síntese das melhores práticas de diagnóstico e intervenção de enfermagem, priorizando aquelas que contribuem para a segurança do paciente, a prevenção de efeitos adversos da radioterapia. Contudo, a metodologia adotada permite compreender de forma abrangente e detalhada o papel do enfermeiro em radioterapia, integrando revisão de literatura, na qual foram essenciais no alcance dos objetivos traçados.
4 RESULTADOS
Foram selecionados inicialmente, em contato com 40 artigos, na qual foram relacionados ao tema da pesquisa, sendo 25 localizados no SciELO, 5 LILACS, 10 no PubMed. Após a leitura do título, foram excluídos 5 artigos. Em seguida, 12 artigos foram excluídos por não se relacionarem à temática, conforme identificado pela leitura do título e do resumo. Restaram 23 resumos, dos quais 10 foram excluídos após a leitura. A partir dessa breve análise, foram selecionados 13 artigos para leitura integral, dos quais 5 foram escolhidos para compor o presente estudo.
O fluxograma do processo de seleção de artigos foi apresentado da seguinte maneira, conforme ilustra a Figura 1 de acordo com o Primas (2020):

A seguir, apresenta-se um quadro com a síntese detalhada dos artigos selecionados após a aplicação dos critérios de inclusão/exclusão adotados para este estudo. Cada artigo foi rigorosamente avaliado e selecionado com base em sua relevância e contribuição para o tema em análise.
A tabela a seguir contém informações essenciais sobre cada artigo, incluindo o título, autor e ano de publicação, objetivo e os principais resultados obtidos. Essa estrutura visa proporcionar uma compreensão clara e concisa das pesquisas realizadas e suas conclusões.
Tabela 1: Análise das Obras Selecionadas sobre Enfermagem em Radioterapia
| Autores (Ano) | Título do Estudo | Objetivo | Principais Resultados / Conclusões |
| BARBOSA, Cícero Santos (2023) | Os cuidados do enfermeiro ao paciente em radioterapia de câncer. | Identificar os principais cuidados prestados pelo enfermeiro ao paciente submetido à radioterapia oncológica. | O estudo destacou a importância do enfermeiro na monitorização dos efeitos colaterais da radioterapia, orientações quanto à pele irradiada e suporte emocional ao paciente, evidenciando que o cuidado humanizado melhora a adesão ao tratamento. |
| LIMA, Fábio Silva; OLIVEIRA, Márcia Silva de (2024) | Revisão sistemática sobre o impacto das ações de enfermagem na prevenção de efeitos adversos da radioterapia. | Avaliar o impacto das ações de enfermagem na prevenção e minimização dos efeitos adversos em pacientes submetidos à radioterapia. | As ações educativas e preventivas realizadas pelos enfermeiros foram determinantes para reduzir complicações cutâneas e gastrointestinais, além de promover maior segurança e qualidade de vida aos pacientes. |
| LOPES, Renata H.; TURCHETTI, Rogério; SANTOS, Leila Maria Araújo (2024) | Humanização na saúde: Um olhar para a Radioterapia. | Refletir sobre a importância da humanização no cuidado de enfermagem em serviços de radioterapia. | Evidenciou-se que a empatia, o acolhimento e a comunicação efetiva são elementos fundamentais na prática da enfermagem oncológica, fortalecendo o vínculo paciente-profissional e reduzindo o sofrimento emocional durante o tratamento. |
| FERNANDES, L. F. G.; RAMOS, R. de S.; GOMES, A. M. T.; DIB, R. V.; ANTUNES, R. F.; BERNARDES, M. M. R.; SANTOS, V. O.; TOMAZ, A. P. K. de A.; OLIVEIRA, S. da S. (2024) | As Representações Sociais do Paciente Oncológico em Radioterapia. | Compreender as representações sociais dos pacientes oncológicos submetidos à radioterapia e suas percepções sobre o cuidado recebido. | Os pacientes expressaram sentimentos de medo, esperança e confiança no papel do enfermeiro. O estudo destacou a necessidade de escuta ativa e suporte emocional como estratégias essenciais para um cuidado integral e humanizado. |
| FERREIRA, A. L. S.; SOUZA, J. R.; MENDONÇA, P. F. 2021. | Radioterapia em oncologia: avanços, desafios e perspectivas. | Averiguar os avanços e perspectivas da radioterapia no setor da oncologia. | Apesar dos desafios, a imunoterapia representa uma mudança significativa no paradigma do tratamento oncológico, com potencial para se tornar uma alternativa cada vez mais eficaz e acessível, beneficiando um número maior de pacientes. |
As obras selecionadas evidência o papel essencial da enfermagem no cuidado de pacientes oncológicos submetidos à radioterapia, destacando não apenas os aspectos técnicos do tratamento, mas também a dimensão humana e emocional que permeia o processo terapêutico.
5 DISCUSSÃO
Dentre os achados da pesquisa, ficou evidente que a enfermagem tem um papel relevante na prevenção, diagnóstico e tratamento na oncologia, assim proferiu Barbosa (2023), ao afirmar que o enfermeiro é o profissional que mantém contato mais direto e contínuo com o paciente durante a radioterapia, sendo responsável pelo monitoramento dos sinais e sintomas decorrentes da exposição à radiação.
Ideologias semelhantes apresentaram Lima e Oliveira (2024), por reforçar que a prevenção dos efeitos adversos gerados pela radioterapia é uma das principais responsabilidades do enfermeiro oncológico, e que ações educativas contínuas desempenham papel decisivo na adesão ao tratamento. Nesse interim, a comunicação clara e o acompanhamento sistemático permitem que o paciente reconheça precocemente alterações cutâneas, gastrointestinais ou hematológicas, possibilitando intervenções rápidas e eficazes.
É importante frisar que avaliações diárias da área irradiada usam de produtos específicos para hidratação cutânea e incentivos à nutrição adequada são essenciais para reduzirem significativamente a incidência de complicações e favorecem a manutenção da qualidade de vida durante o tratamento.
Na perspectiva de Lopes, Turchetti e Santos (2024), o cuidado em radioterapia na enfermagem não deve restringir-se à dimensão biológica, mas deve incorporar o olhar humanizado sobre o paciente que vivencia o câncer e suas múltiplas consequências físicas e emocionais. Por esse motivo, a humanização é eixo estruturante da prática de enfermagem, correlacionando-se com o acolhimento, a empatia e a comunicação terapêutica, pois todos são estratégias tão importantes quanto às intervenções clínicas. Lima e Oliveira (2024) proferem que esses elementos são essências entre enfermeiro e paciente, o que cria um ambiente de segurança emocional que contribui para o enfrentamento do tratamento e para a adesão às orientações.
No que tange as representações sociais entre o enfermeiro e os pacientes em radioterapia, Fernandes et al. (2024), proferem que influenciam diretamente a forma como o paciente reage às intervenções e ao próprio adoecimento. Na qual é natural o mesmo apresentar sentimentos de medo, incerteza e esperança, indicando que o cuidado de enfermagem deve considerar as percepções e expectativas individuais. Nesse interim, Ferreira, Souza e Mendonça (2021) asseguram que a escuta ativa e o apoio emocional contínuo configuram-se como intervenções essenciais para a redução da ansiedade e para a construção de um cuidado verdadeiramente integral.
Ao colocar integração entre dimensões técnicas e humanas do cuidado da enfermagem, Barbosa (2023) e Lima e Oliveira (2024) dão ênfase às intervenções práticas e preventivas, com foco na segurança e no controle dos efeitos adversos, Lopes, Turchetti e Santos (2024) e Fernandes et al. (2024) ampliam a discussão ao destacar a importância da comunicação e da empatia como instrumentos terapêuticos indispensáveis. Essa complementaridade revela que o cuidado de enfermagem em radioterapia se sustenta em dois pilares interdependentes: a competência técnica e a sensibilidade humana.
Em relação aos efeitos adversos mais frequentes, a pesquisa realizada por Barbosa (2023), aponta como ocorrência de radiodermites: fadiga, mucosite, náuseas, alterações no apetite e distúrbios do sono. Esses sintomas impactam diretamente a qualidade de vida e exigem do enfermeiro uma atuação contínua de prevenção e manejo.
As intervenções mais citadas envolvem a avaliação sistemática do estado clínico, a educação do paciente sobre cuidados domiciliares, o registro e monitoramento de reações cutâneas, além de ações voltadas à promoção do bem-estar psicológico. Lopes et al., (2024) garante que os diagnósticos de enfermagem mais comuns incluem fadiga relacionada ao tratamento, integridade da pele prejudicada, ansiedade relacionada ao medo do desconhecido e nutrição desequilibrada inferior às necessidades corporais.
Lima e Oliveira (2024) salientam que o domínio técnico e o conhecimento atualizado sobre os efeitos biológicos da radiação são indispensáveis para garantir a segurança do paciente. Barbosa (2023) acrescenta que a sistematização da assistência de enfermagem é uma ferramenta fundamental para orientar o raciocínio clínico e assegurar intervenções eficazes. Já Lopes et al. (2024) e Fernandes et al. (2024) argumentam que, mesmo diante das limitações institucionais, o cuidado humanizado representa uma forma de resistência e de reafirmação do papel social do enfermeiro no contexto oncológico.
Dessa forma, é possível compreender que o diagnóstico de enfermagem não se resume à identificação de alterações fisiológicas, mas envolve também o reconhecimento das necessidades emocionais e sociais do paciente. Lopes et al. (2024) asseguram que as intervenções prioritárias, por sua vez, devem integrar ações preventivas, educativas e comunicacionais, de modo a favorecer a adesão ao tratamento e a reduzir a carga de sofrimento associada à radioterapia.
Barbosa (2023), Lima e Oliveira (2024), Lopes et al. (2024) e Fernandes et al. (2024) revela uma compreensão ampliada sobre o papel do enfermeiro em radioterapia. Reforçam o aspecto clínico e preventivo das intervenções, para a dimensão subjetiva do cuidado, indicando que o equilíbrio entre técnica e humanização é o que efetivamente garante resultados positivos.
Por certo, a eficácia do cuidado de enfermagem está diretamente ligada à capacidade do profissional de unir o saber técnico-científico à sensibilidade ética e humana, respondendo de forma integral às demandas do paciente oncológico. Lopes, Turchetti e Santos (2024) diz que essa integração de perspectivas confirma que o enfermeiro é peça central na equipe multiprofissional, sendo responsável não apenas por prevenir e tratar efeitos adversos, mas também por cuidar com empatia, orientar com clareza e acompanhar com presença, assegurando ao paciente uma vivência mais segura, digna e humanizada durante todo o processo radioterápico.
6 CONCLUSÃO
O papel central do enfermeiro no cuidado de pacientes oncológicos submetidos à radioterapia engloba além da execução de procedimentos técnicos, integra conhecimento científico, raciocínio clínico e sensibilidade humana, uma vez que a base do cuidado seguro, eficaz e humanizado, minimiza os efeitos adversos da patologia, tratamento e promover qualidade de vida ao paciente.
Em um cenário em que o câncer e o tratamento radioterápico frequentemente geram medo, insegurança e fragilidade emocional, o enfermeiro surge como figura de apoio, capaz de oferecer conforto, esperança e segurança por meio de uma presença ativa e empática.
No entanto, desafios significativos são enfrentados pela enfermagem em radioterapia, como sobrecarga de trabalho, escassez de recursos materiais e humanos, e a necessidade constante de capacitação profissional. Tais limitações, embora impactem o cotidiano dos serviços, não diminuem a importância da prática reflexiva e do compromisso ético que norteiam o exercício da profissão. Ao contrário, reforçam a necessidade de políticas institucionais que valorizem o trabalho do enfermeiro e incentivem a educação permanente, garantindo condições adequadas para o desenvolvimento de um cuidado seguro e integral.
Assim, pode-se afirmar que o enfermeiro desempenha um papel indispensável na equipe multiprofissional de radioterapia, atuando não apenas como executor de cuidados, mas como mediador entre o conhecimento científico e a realidade vivida pelo paciente. Sua atuação influencia diretamente os resultados terapêuticos, reduzindo riscos, promovendo segurança e oferecendo suporte integral durante todo o processo oncológico.
Sem dúvida, o enfermeiro ao aliar ciência e empatia, transforma o cuidado em um ato de acolhimento e esperança, contribuindo de maneira decisiva para a qualidade de vida e o fortalecimento emocional de pacientes que enfrentam o câncer. Assim sendo, recomenda-se que novas pesquisas sejam desenvolvidas com o intuito de aprofundar o estudo sobre a eficácia das intervenções de enfermagem para cada tipo de neoplasia, pois quanto mais conhecimentos for construído, fortalece atuação da enfermagem na promoção de um cuidado cada vez mais humano, seguro e baseado em evidências.
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