IMPACTOS PERIOPERATÓRIOS DA ABREVIAÇÃO DO JEJUM EM PACIENTES SUBMETIDOS À CIRURGIA CARDÍACA: REVISÃO DA LITERATURA

PERIOPERATIVE IMPACTS OF ABBREVIATING FASTING IN PATIENTS UNDERGOING CARDIAC SURGERY: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202512281242


Luiz Felipe Nobre Queiroz1
Guilherme Groto Santos2


RESUMO

As intervenções cirúrgicas desencadeiam uma série de alterações metabólicas desfavoráveis, como resistência à insulina, hiperglicemia, aumento do catabolismo proteico e resposta inflamatória exacerbada, as quais podem ser potencializadas pelo jejum pré-operatório. Evidências indicam que a abreviação do jejum, por meio da ingestão de soluções ricas em carboidratos antes da indução anestésica, constitui uma estratégia promissora para atenuar o estresse metabólico induzido pelo procedimento cirúrgico. Diante desse contexto, o objetivo do presente estudo foi analisar, por meio de uma revisão bibliográfica, os impactos da abreviação do jejum pré-operatório com solução rica em carboidratos sobre os desfechos perioperatórios, incluindo aspectos clínicos, resistência à insulina, controle glicêmico e tempo de internação hospitalar, em pacientes submetidos eletivamente a cirurgias cardiovasculares. Ressalta-se que, particularmente em cirurgias cardiovasculares, ainda há necessidade de estudos adicionais, com amostras representativas e protocolos padronizados, que permitam esclarecer de forma consistente os efeitos dessa intervenção sobre desfechos clínicos relevantes para a recuperação dos pacientes.

Palavras-chave: Jejum pré-operatório. Abreviação do jejum. Cirurgia cardíaca. Doenças cardiovasculares. Perioperatório.

1 INTRODUÇÃO

A cirurgia cardíaca é realizada quando a probabilidade de vida útil de um determinado paciente é maior com o tratamento cirúrgico do que com o tratamento clínico. Existem três tipos de cirurgia cardíaca: as corretoras (fechamento de canal arterial, de defeito de septo atrial e ventricular), as reconstrutoras (revascularização do miocárdio, plastia de valva aórtica, mitral ou tricúspide) e as substitutivas (trocas valvares e transplantes) (MARCARINI et al., 2017).

O jejum pré-operatório, definido como o período preestabelecido antes de um procedimento cirúrgico durante o qual o paciente deve abster-se da ingestão de líquidos e sólidos por via oral (AMERICAN SOCIETY OF ANESTHESIOLOGISTS, 2017), constitui uma etapa obrigatória para a indução anestésica (AGUILAR-NASCIMENTO, PERRONE & PRADO, 2009). Contudo, sabe-se que à medida que o jejum se prolonga, ocorre redução dos níveis séricos de insulina e elevação de glucagon, o que leva à mobilização das reservas glicogênicas, predominantemente hepáticas. Paralelo a isso, observa-se aumento na liberação de mediadores inflamatórios. As reservas de glicogênio do fígado se esgotam em menos de 24 horas de jejum; a partir desse ponto, a gliconeogênese é ativada e passa a utilizar proteínas musculares para a produção de glicose, que se torna a principal fonte energética para tecidos glicose-dependentes (GHAFFARI et al., 2025; MARCARINI et al., 2017; NYGREN, 2006). 

Esse processo é regulado por mecanismos neuroendócrinos que estimulam a secreção de hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) pela hipófise e, consequentemente, aumentam a liberação de cortisol pelas glândulas suprarrenais. Em situações de hipoglicemia ou redução de ácidos graxos livres, há ainda incremento da secreção do hormônio do crescimento (GH). Ressalta-se que o aumento dos hormônios adrenérgicos, associado à redução da insulina e à ação do cortisol, intensificam o catabolismo proteico, disponibilizando aminoácidos para a circulação sistêmica (NYGREN, 2006).

Muitos estudos enfatizam a resistência à insulina como parte da resposta metabólica, que pode se prolongar até três semanas após procedimentos eletivos, sendo proporcional ao porte da cirurgia e mais intensa no primeiro e segundo dia de pós-operatório (MARCARINI et al., 2017; AWAD et al., 2013). 

O estado de hiperglicemia segue como um fator independente de mal prognóstico em cirurgia cardiovascular, uma vez que aumenta o risco de infecção, dificulta a cicatrização de ferida operatória e causa aumento de morbimortalidade. Os desfechos indesejados provocados pela hiperglicemia são observados principalmente em diabéticos, mas também em não diabéticos que realizaram cirurgias de revascularização do miocárdio, onde se observou o aumento da inflamação no pós-operatório, da agregação plaquetária, além dos custos hospitalares (MARCARINI et al., 2017; ESTRADA et al., 2003).

Assim, a abreviação do jejum pré-operatório tem sido proposta como uma estratégia segura e eficaz para atenuar as alterações metabólicas desencadeadas pelo jejum prolongado e pelo estresse cirúrgico. A ingestão pré-operatória de soluções contendo carboidratos tem demonstrado potencial para reduzir a resistência à insulina, melhorar o controle glicêmico e minimizar o catabolismo proteico, sem aumento do risco de eventos adversos anestésicos, quando aplicada a pacientes criteriosamente selecionados. No entanto, apesar dos benefícios fisiológicos bem documentados, ainda existem lacunas na literatura quanto ao impacto dessa intervenção sobre desfechos clínicos relevantes em cirurgias cardiovasculares, justificando a necessidade de análises mais aprofundadas.

Diante das evidências apresentadas, o objetivo do presente estudo foi analisar, por meio de uma revisão bibliográfica, os impactos da abreviação do jejum pré-operatório com solução rica em carboidratos (CHO) sobre os desfechos perioperatórios, incluindo aspectos clínicos, resistência à insulina, controle glicêmico e tempo de internação hospitalar, em pacientes submetidos eletivamente a cirurgias cardiovasculares.

2 REVISÃO DA LITERATURA
Contextualização da Cirurgia Cardíaca

As doenças cardiovasculares (DCV) constituem a principal causa de mortalidade prematura em âmbito global, sendo responsáveis por aproximadamente um terço de todos os óbitos (OLIVEIRA et al., 2024). Estima-se que 17,5 milhões de pessoas morram anualmente devido a doenças cardiovasculares, o que representa 31% de todas as mortes no mundo (OMS, 2023; FEGURI et al., 2019). Destas, aproximadamente 7,4 milhões (42%) são consequência de doença arterial coronariana (DAC) (FEGURI et al., 2019). A cirurgia cardíaca é indicada quando a expectativa de sobrevida, a qualidade de vida e o prognóstico como um todo do paciente são significativamente superiores com a intervenção cirúrgica em comparação ao tratamento clínico isolado. Trata-se de uma estratégia terapêutica amplamente utilizada no manejo de cardiopatias congênitas e adquiridas, podendo ser classificada, de acordo com sua finalidade, em três grandes grupos: cirurgias corretoras, que visam à correção de defeitos estruturais, como o fechamento do canal arterial persistente e dos defeitos do septo atrial e ventricular; cirurgias reconstrutoras, destinadas à restauração da anatomia e da função cardíaca, incluindo a revascularização do miocárdio e as plastias das válvulas aórtica, mitral e tricúspide; e cirurgias substitutivas, caracterizadas pela substituição de estruturas comprometidas, como nas trocas valvares e nos transplantes cardíacos (MARCARINI et al., 2017).

A taxa de prevalência de DCV no Brasil em 2021 foi 6,9% (6,4-7,4) para os dois sexos, sendo maior entre os homens, 7,6% (7,0-8,1), do que entre as mulheres, 6,3% (6,0-6,9). Apesar das taxas de mortalidade por DCV no Brasil terem diminuído significativamente nos últimos anos, até por conta da pandemia, o número total de mortes por DCV aumentou devido ao crescimento e envelhecimento populacional (OLIVEIRA et al., 2024).

No Brasil, no ano de 2023, foram registrados 106.738 óbitos ocasionados por doenças do aparelho circulatório, sendo a região Sudeste a de maior número, com 48.915 mortes. Já em janeiro e fevereiro de 2024, um total de 201.815 internações, 16.150 mortes e um custo total de serviços hospitalares de R$ 583.075.060,03 apenas nesse período e somente dessa especialidade (DATASUS, 2024).

Os avanços na medicina e o questionamento de práticas obsoletas levaram à busca por fatores que possam melhorar a qualidade da assistência à saúde e minimizar erros. Para esse fim, os serviços cirúrgicos criaram equipes multiprofissionais e multidisciplinares e estabeleceram protocolos de recuperação rápida e listas de verificação para determinar o cuidado perioperatório associado à menor morbidade e mortalidade, redução de custos e recuperação pós-operatória mais rápida (FEGURI et al., 2019).

As intervenções cirúrgicas desencadeiam uma cascata de respostas catabólicas caracterizadas pela liberação de hormônios do estresse, como o cortisol, juntamente com a ativação de vias pró-inflamatórias. Essas respostas contribuem para o desenvolvimento de resistência à insulina e distúrbios metabólicos (GHAFFARI et al., 2025). 

A cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM) constitui uma importante opção terapêutica para DAC e figura entre os procedimentos cirúrgicos mais realizados e estudados mundialmente, cujo objetivo é o restabelecimento do fluxo sanguíneo em vasos coronários obstruídos. Esse procedimento é realizado, em grande parte dos casos, com o auxílio da circulação extracorpórea (CEC) (FEGURI et al., 2019; MARCARINI et al., 2017; BRASIL et al., 1999), que proporcionou um grande avanço da cirurgia cardíaca em todo o mundo, tornando-se um procedimento essencial para abordagem de uma série de cardiopatias, até então, sem possibilidades de terapêutica cirúrgica. Por ser um procedimento que não mantém os princípios da fisiologia normal, sua utilização rotineira estimulou o estudo das complicações a ela associadas (BRASIL et al., 1999).

A CEC está associada ao desencadeamento de resposta inflamatória sistêmica no período pós-operatório, podendo contribuir para o aumento da morbidade. A síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS) caracteriza-se por leucocitose, liberação de citocinas pró-inflamatórias e outras proteínas de fase aguda, além do aumento da permeabilidade vascular, resultando em acúmulo de fluido intersticial e lesões orgânicas, especialmente no coração, rins e pulmões. Ademais, a utilização da CEC contribui para o desenvolvimento de resistência à insulina e hiperglicemia, agravando o estresse metabólico perioperatório. Embora o uso de corticosteroides possa interferir nos efeitos adversos decorrentes da passagem do sangue pelo circuito de circulação extracorpórea, essa estratégia permanece controversa. Nesse contexto, a literatura corrobora a necessidade de atuação sobre múltiplos fatores relacionados ao procedimento cirúrgico, visando à atenuação da resposta inflamatória induzida pela CEC (FEGURI et al., 2019; MARCARINI et al., 2017; BRASIL et al., 1999).

Pacientes submetidos à cirurgia frequentemente se deparam com diversas restrições quanto à ingestão nutricional (NYGREN, 2006).

Com o procedimento cirúrgico, ocorre alteração do metabolismo basal, que é mediado por citocinas pró-inflamatórias, hormônios contrarreguladores, tais como glucagon, catecolaminas, cortisol, entre outros mediadores, chamada de resposta metabólica ao trauma cirúrgico. Esta resposta é potencializada pelo jejum pré-operatório prolongado (MARCARINI et al., 2017).

Jejum Pré-Operatório

O jejum pré-operatório é definido como um período de tempo preestabelecido antes de um procedimento, durante o qual os pacientes não podem ingerir líquidos ou sólidos por via oral (AMERICAN SOCIETY OF ANESTHESIOLOGISTS, 2017). O tempo de jejum de 8 a 12 horas foi instituído em 1946 por Mendelson, quando as técnicas anestésicas ainda eram muito primárias (AGUILAR-NASCIMENTO, PERRONE & PRADO, 2009).

É considerado obrigatório para a indução anestésica. No entanto, um conjunto concreto de evidências demonstra que o jejum pré-operatório prolongado deve ser desencorajado em pacientes saudáveis submetidos a cirurgias eletivas; as diretrizes modernas recomendam a ingestão de líquidos claros, com ou sem carboidratos, até 2 horas antes da indução da anestesia geral. Essas recomendações, contudo, não são seguidas pela grande maioria dos hospitais; regimes tradicionais, como jejum absoluto após a meia-noite ou mesmo 6 a 8 horas de jejum total, são impostos à maioria dos pacientes cirúrgicos. Esse longo período de jejum inconveniente provavelmente se deve a atrasos no centro cirúrgico, à maximização do jejum por pacientes que acreditam ser saudável e às alterações na programação diária das cirurgias. O tempo prolongado de jejum para pacientes aguardando cirurgia pode comprometer seu metabolismo e desencadear reações bioquímicas (AGUILAR-NASCIMENTO et al., 2014).

Em pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos, o jejum pré-operatório desencadeia alterações na homeostase, e ativa diversas respostas endócrino-metabólicas. O prolongamento desse período intensifica tais respostas, gerando repercussões que impactam diretamente o prognóstico do paciente (MARCARINI et al., 2017).

Após algumas horas de jejum, ocorre a diminuição dos níveis de insulina e, em contrapartida, há aumento dos níveis de glucagon, determinando uma utilização rápida da pequena reserva de glicogênio (cerca de 400g em um indivíduo adulto), que se encontra em maior parte no fígado; além de uma maior produção de mediadores inflamatórios. Em menos de 24 horas de jejum, o glicogênio hepático é totalmente consumido. Porém, a gliconeogênese é ativada e a proteína muscular passa a ser utilizada, provendo glicose para os tecidos que dependem exclusivamente dela como fonte de energia (MARCARINI et al., 2017; AGUILAR-NASCIMENTO et al., 2014; NYGREN, 2006).

O jejum pré-operatório foi instituído no procedimento cirúrgico no momento em que as técnicas anestésicas tinham como objetivo permitir o esvaziamento gástrico e evitar broncoaspiração na indução anestésica, prevenindo complicações pulmonares decorrentes da aspiração de conteúdo gástrico (MARCARINI et al., 2017; OLIVEIRA et al., 2009; AGUILAR-NASCIMENTO, PERRONE & PRADO, 2009). Entretanto, as medidas de jejum pré-operatório estão sendo modificadas pela maioria das sociedades mundiais, que recomendam a ingestão de solução oral enriquecida com carboidratos (CHO), duas a três horas antes do procedimento cirúrgico (AMERICAN SOCIETY OF ANESTHESIOLOGISTS, 2017; SMITH et al., 2011). Medida esta que representa um fator positivo para diminuir a resistência à insulina, resposta metabólica ao trauma cirúrgico e, consequentemente, melhorar do bem-estar do paciente, mostrando ser segura e necessária para a recuperação precoce do trauma cirúrgico (MARCARINI et al., 2017; PIMENTA & AGUILAR-NASCIMENTO, 2014). 

Abreviação do Jejum

O jejum pré-operatório e a cirurgia causam estresse metabólico e resistência à insulina, que é caracterizada por hiperglicemia e diminuição da responsividade dos tecidos (principalmente músculo esquelético e fígado) às ações biológicas da insulina. O desenvolvimento de resistência à insulina está associado ao aumento da morbidade, mortalidade e tempo de internação hospitalar. Medidas para atenuar o desenvolvimento de resistência à insulina, como o tratamento oral pré-operatório com carboidratos complexos, podem, portanto, ser clinicamente benéficos. Diversos estudos examinaram os efeitos do tratamento pré-operatório com carboidratos na resistência à insulina pós-operatória e na cinética da glicose, no equilíbrio proteico e na composição corporal, nas respostas hormonais e metabólicas pós-prandiais, na função imunológica, na expressão gênica e proteica, no volume gástrico residual, nas complicações relacionadas à ingestão de bebidas, no bem-estar do paciente e no tempo de internação hospitalar. Embora a segurança e os benefícios fisiológicos da administração pré-operatória de carboidratos estejam bem estabelecidos, os dados relativos ao impacto dessa intervenção sobre desfechos clínicos relevantes, como o tempo de internação hospitalar, permanecem inconsistentes. Enquanto alguns estudos demonstram redução do período de hospitalização, outros não identificam diferença significativa. Tais divergências podem ser atribuídas, principalmente, ao reduzido tamanho amostral de determinados estudos e à heterogeneidade das populações avaliadas, que incluem pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos de diferentes complexidades e magnitudes (AWAD et al., 2013).

Considerando o panorama descrito, foram desenvolvidos e implementados projetos estruturados com o objetivo de reduzir o estresse cirúrgico, otimizar o manejo perioperatório e minimizar complicações associadas ao procedimento cirúrgico. Entre eles, destaca-se o Enhanced Recovery After Surgery (ERAS), um programa multicêntrico adotado inicialmente em países europeus, fundamentado em múltiplos estudos e sustentado pelos princípios da medicina baseada em evidências, que propõe um conjunto de intervenções padronizadas ao longo do período perioperatório, visando à recuperação mais rápida e segura do paciente (SØREIDE & LJUNGQVIST, 2006; MARCARINI et al., 2017).

No contexto brasileiro, em meados de 2005, foi desenvolvido um protocolo baseado nas condutas do ERAS, denominado ACERTO (ACEleração da Recuperação Total Pós-Operatória). Trata-se de um programa multicêntrico e multiprofissional, que envolve as equipes de anestesia, cirurgia, nutrição, enfermagem e fisioterapia, e que estabelece um conjunto de condutas perioperatórias direcionadas à melhoria dos desfechos clínicos e à otimização da recuperação do paciente cirúrgico. Entre as principais estratégias adotadas pelo protocolo ACERTO destacam-se a abreviação do jejum pré-operatório, a oferta de líquidos contendo carboidratos, a avaliação e adequação da terapia nutricional perioperatória, a restrição do uso rotineiro de sondas, drenos e fluidos intravenosos, bem como a liberação precoce da dieta e a mobilização antecipada no pós-operatório (AGUILAR-NASCIMENTO et al., 2006; FEGURI et al., 2019).

A Sociedade Americana de Anestesiologistas (American Society of Anesthesiologists – ASA) revisou suas diretrizes para o jejum pré-operatório, incorporando a análise de aspectos previamente não contemplados, com destaque para a abreviação do período de jejum. Evidências científicas apontaram que o jejum prolongado está associado a desfechos clínicos adversos, incluindo desidratação, distúrbios hidroeletrolíticos e hipotensão durante a indução da anestesia geral (JOSHI et al., 2023). 

A principal recomendação para a abreviação do jejum pré-operatório consiste na ingestão de até 400 ml de líquidos claros contendo carboidratos, simples ou complexos, até duas horas antes da indução anestésica. Essa estratégia tem como objetivo atenuar os efeitos deletérios do jejum prolongado, tais como desconforto relacionado à fome e à sede, além de contribuir para a manutenção do equilíbrio metabólico. Evidências provenientes da literatura científica demonstram que a adoção dessa conduta não está associada ao aumento da incidência de eventos adversos, como regurgitação ou aspiração pulmonar, desde que aplicada em pacientes criteriosamente avaliados (JOSHI et al., 2023). 

Nesse contexto, torna-se fundamental a implementação de estratégias perioperatórias baseadas em evidências, que visem à redução do tempo de jejum, à otimização do estado metabólico e à promoção da segurança do paciente, contribuindo para a melhoria da qualidade assistencial e do prognóstico clínico.

3 METODOLOGIA 

Trata-se de um estudo de caráter descritivo, do tipo revisão integrativa da literatura, desenvolvido com o objetivo de identificar e analisar as evidências científicas disponíveis acerca dos impactos perioperatórios da abreviação do jejum em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca.

A busca bibliográfica foi realizada nas seguintes bases de dados: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed) e Google Acadêmico, além da consulta a sites institucionais e diretrizes governamentais relacionadas ao tema.

Os estudos identificados foram organizados de acordo com ano de publicação, título e relevância científica, considerando sua contribuição para a temática proposta na área médica.

Os descritores utilizados na estratégia de busca foram definidos a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), incluindo: “jejum pré-operatório”, “abreviação do jejum”, “cirurgia cardíaca”, “doenças cardiovasculares” e “perioperatório”, combinados de acordo com a estratégia de busca adotada em cada base de dados.

Foram incluídos nesta revisão de literatura artigos originais, publicados nos idiomas inglês e português, no período compreendido entre 1996 a 2025, que abordassem os desfechos relacionados ao tema do estudo. Foram excluídos artigos publicados antes de 1996, aqueles redigidos em outros idiomas, estudos com resumos inadequados, duplicados ou que não se enquadrassem no contexto temático, bem como pesquisas que abordassem populações diferentes daquelas de interesse desta revisão.

Os artigos selecionados foram analisados na íntegra, respeitando os critérios de elegibilidade estabelecidos. Posteriormente, os estudos foram submetidos à análise crítica, discussão e síntese narrativa dos principais achados, os quais foram apresentados de forma descritiva neste trabalho.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A abreviação do jejum pré-operatório mostrou-se segura nos estudos avaliados, não havendo muitos casos de broncoaspiração relacionados ao procedimento cirúrgico e à ingestão do suplemento nutricional. O resultado de outros trabalhos clínicos disponíveis na literatura tem demonstrado, cada vez mais, que a abreviação do jejum não aumenta o risco de aspiração durante as cirurgias, segundo descrito por Marcarini e colaboradores, em 2017, e também por Joshi et al, em 2023. Dessa forma, os benefícios da abreviação do jejum são consistentes e clinicamente relevantes, desde que respeitados os critérios de elegibilidade e as condições clínicas individuais.

No estudo conduzido por Breuer e colaboradores (2006), os autores investigaram entre outras coisas, os efeitos da administração pré-operatória de carboidratos por via oral sobre a resistência à insulina pós-operatória em 160 pacientes submetidos à cirurgia cardíaca. Os indivíduos foram separados em três grupos e tratados em formato duplo-cego: 1- abreviação do jejum com bebida transparente contendo CHO; 2- abreviação do jejum com água (placebo); 3- jejum convencional (controle). Esses pacientes foram monitorados desde a indução da anestesia geral até 24 horas após a cirurgia. A necessidade de insulina exógena para controlar os níveis de glicose no sangue ≤10,0 mmol/L foi utilizada como marcador de resistência à insulina pós-operatória, o que não diferiu entre os grupos. Os pacientes que receberam CHO e placebo apresentaram menos sede em comparação ao grupo controle (p < 0,01 e p = 0,06, respectivamente), e mais conforto no pré-operatório, além da necessidade de dobutamina ser menor no grupo CHO. E ainda, concluíram que mais pesquisas são necessárias para investigar os possíveis efeitos cardioprotetores da ingestão pré-operatória de CHO (BREUER et al., 2006).

Na metanálise proposta por Awad et al. (2013), os pesquisadores verificaram que os efeitos nos desfechos clínicos pós-operatórios permaneceram incertos. O desfecho primário foi o tempo de internação hospitalar. Os desfechos secundários incluíram o desenvolvimento de resistência à insulina pós-operatória, complicações, náuseas e vômitos. Nos vinte e um estudos randomizados com 1685 pacientes não foi observada diferença geral no tempo de internação na análise de todos os estudos ou subgrupos de pacientes submetidos a cirurgias com previsão de internação hospitalar de 2 dias ou procedimentos ortopédicos. Entretanto, pacientes submetidos à cirurgia abdominal de grande porte após tratamento pré-operatório com carboidratos (TPC) apresentaram redução no tempo de internação [diferença média, intervalo de confiança de 95%: 1,08 (1,87 a 0,29); I² = 60%, p = 0,007]. O TPC reduziu a resistência à insulina pós-operatória sem efeitos sobre as complicações intra-hospitalares em comparação ao grupo controle (razão de risco, intervalo de confiança de 95%, 0,88 (0,50 a 1,53), I² = 41%; p = 0,640). Houve heterogeneidade significativa entre os estudos e, portanto, a qualidade da evidência foi de baixa a moderada (AWAD et al., 2013).

A pesquisa BIGFAST foi realizada em um total de 3.715 pacientes (58,1% mulheres), com mediana de idade de 49 anos (18-94 anos), provenientes de 16 hospitais brasileiros. O tempo mediano (intervalo) de jejum pré-operatório foi de 12 (2–216) horas, sendo mais longo (p < 0,001) em hospitais que utilizavam protocolo de jejum tradicional (13 [6–216] horas) do que naqueles que adotaram novas diretrizes (8 [2–48] horas). Os autores demonstraram que o tempo de jejum prescrito é prolongado por atrasos nas operações, remarcações e adiamentos. Essa pesquisa verificou que, em cerca de 50% dos casos estudados, os pacientes são operados após 12h de jejum e, em cerca de 80%, com mais de 8 horas de jejum pré-operatório. E ainda, que a utilização de um protocolo de abreviação de jejum pré-operatório com líquidos claros, duas a três horas antes da cirurgia, ainda é pouco utilizada no Brasil, sendo os pacientes expostos ao risco de longos períodos de jejum, especialmente nos hospitais com protocolos mais tradicionais (MARCARINI et al., 2017; AGUILAR-NASCIMENTO et al., 2014).

Segundo o estudo brasileiro de Feguri et al. (2019), foram avaliados dados clínicos pós-operatórios a partir da associação entre a abreviação do jejum pré-operatório com a sobrecarga de CHO e a infusão intraoperatória de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 (AGPI ω-3). Cinquenta e sete pacientes submetidos a cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM) foram aleatoriamente alocados para receber 12,5% de maltodextrina (200 mL, 2 h antes da anestesia) (CHO, n=14); água (200 mL, 2 h antes da anestesia) (controle, n=14); 12,5% de maltodextrina (200 mL, 2 h antes da anestesia) mais infusão intraoperatória de AGPI ω-3 (0,2 g/kg) (CHO+W3, n=15); ou água (200 mL, 2 h antes da anestesia) mais infusão intraoperatória de AGPI ω-3 (0,2 g/kg) (W3, n=14). A necessidade de drogas vasoativas foi analisada, além da inflamação pós-operatória e do controle metabólico. Dentre os resultados encontrados, destacou-se menor incidência de infecção hospitalar nos grupos CHO, além de melhores níveis de glicemia nas primeiras seis horas de recuperação (p=0,015), necessitando de menos insulina exógena (p=0,018). E, portanto, concluíram que a abreviação do jejum com sobrecarga de carboidratos e infusão intraoperatória de PUFA ω-3 é segura e promove uma recuperação pós-operatória mais rápida em pacientes submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio com CEC.

A CEC causa uma série de alterações na hemostasia, devido à passagem do sangue por superfície não epitelizada. Outras causas seriam as reações transfusionais, trombocitopenia, coagulação intravascular disseminada e insuficiência hepática. O sangramento é tido como risco inerente ao procedimento cirúrgico de revascularização miocárdica, pois o bypass cardiopulmonar causa alteração nos sistemas de coagulação intrínseca e da função plaquetária. Analisando as complicações pós-operatórias encontradas em pacientes já estudados, constata-se que não se relacionaram com a abreviação do jejum pré-operatório, mas sim com o próprio procedimento cirúrgico (MARCARINI et al., 2017).

Os dados de estudos aqui apresentados sugerem que a abreviação do jejum pré-operatório em cirurgia cardíaca pode ser segura, e pode melhorar o desfecho do paciente cirúrgico, em função da melhora do perfil glicêmico, redução da resposta metabólica ao trauma, entre outros aspectos.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise da literatura evidencia que a abreviação do jejum pré-operatório com o uso de soluções ricas em carboidratos representa uma estratégia segura e potencialmente benéfica no contexto perioperatório, especialmente por sua associação à melhora do controle glicêmico, à redução da resistência à insulina, à atenuação do estresse metabólico induzido pelo procedimento cirúrgico, e menor tempo de internação. Em cirurgias cardiovasculares, marcadas por intensa resposta inflamatória e metabólica, essa abordagem pode contribuir para a otimização do cuidado perioperatório, para a recuperação clínica dos pacientes.

Entretanto, apesar de um conjunto significativo de evidências que apoiam a utilização de carboidratos no período perioperatório, ainda persistem inconsistências nos resultados, bem como lacunas relacionadas à implementação e à adesão a essa estratégia em diferentes cenários assistenciais. Revisões sistemáticas e meta-análises demonstraram alguns benefícios metabólicos, mas ainda com desfechos subjetivos inconclusivos, conforme observado em estudos conduzidos em diferentes tipos de procedimentos cirúrgicos, nos quais não foram identificadas diferenças significativas em sintomas como dor, náuseas, vômitos ou fadiga entre grupos submetidos ao jejum tradicional e à ingestão de carboidratos.

Dessa forma, embora a abreviação do jejum com soluções ricas em carboidratos se apresente como uma intervenção promissora e respaldada por diretrizes internacionais, sua aplicação no contexto das cirurgias cardiovasculares ainda demanda maior padronização e fortalecimento de evidências. É necessário a realização de estudos mais delineados a despeito do assunto, com amostras representativas e protocolos uniformes, que permitam esclarecer seus efeitos sobre desfechos clínicos relevantes, tempo de internação e recuperação pós-operatória, favorecendo a incorporação segura e consistente dessa estratégia na prática clínica.

REFERÊNCIAS

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1Discente da Residência Médica de Anestesiologia da Santa Casa de
Franca, São Paulo e-mail: luiz_felipefv@hotmail.com

2Docente da Residência Médica de Anestesiologia da Santa Casa de
Franca, São Paulo e-mail: guilhermegroto@usp.br