IMPACTOS DO USO DO CIGARRO ELETRÔNICO NO PERIODONTO – UMA REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511242049


Mateus Almeida Fernandes1
Ana Beatriz Santos da Silva2
Matheus Santos Mafra Barbosa3


RESUMO

O uso de Sistemas Eletrônicos de Nicotina (SEN), popularmente conhecidos como cigarros eletrônicos, tem aumentado significativamente, especialmente entre jovens e adultos, impulsionado pela percepção equivocada de que esses dispositivos são menos nocivos que o cigarro convencional. Contudo, evidências científicas recentes indicam que o aerossol liberado pelos cigarros eletrônicos contém substâncias tóxicas capazes de desencadear alterações biológicas nocivas aos tecidos periodontais. Este estudo teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão de literatura narrativa, os principais impactos do uso dos cigarros eletrônicos na saúde periodontal, considerando parâmetros clínicos, microbiológicos e inflamatórios. Foram consultadas as bases de dados PubMed, Scopus e SciELO, incluindo artigos publicados entre 2015 e 2025. Os resultados apontam que usuários de cigarros eletrônicos apresentam níveis elevados de cotinina salivar, redução da taxa de fluxo salivar, acidificação do pH e maior predisposição à disbiose da microbiota subgengival. Além disso, observou-se aumento na profundidade de sondagem, perda de inserção clínica e perda óssea marginal, bem como resposta menos favorável ao tratamento periodontal não cirúrgico. Conclui-se que o uso do cigarro eletrônico não é inócuo e representa fator de risco significativo para o desenvolvimento e progressão das doenças periodontais, sendo necessária maior conscientização e vigilância clínica.

Palavras-chave: Vaping; Periodontia; Nicotina; Cigarro Eletrônico; Doenças Periodontais.

1. INTRODUÇÃO

O uso dos Sistemas Eletrônicos de Nicotina (SEN) — popularmente conhecidos como cigarros eletrônicos (CE) ou vaping — tem se expandido rapidamente em escala global, especialmente entre adultos e jovens. Desde sua introdução no mercado, esses dispositivos portáteis e alimentados por bateria vêm sendo amplamente divulgados como alternativas “menos nocivas” ao cigarro convencional e, em alguns casos, como potenciais auxiliares na cessação do tabagismo. A percepção de segurança tem impulsionado sua popularidade, apesar da incerteza sobre os efeitos do uso a longo prazo na saúde.1

Do ponto de vista epidemiológico, estimativas globais indicam que o número de usuários de cigarros eletrônicos chegou a aproximadamente 68 milhões em 2020, alcançando cerca de 82 milhões em 2021, evidenciando crescimento expressivo em curto intervalo de tempo.2 No entanto, apesar dessa expansão, o tabagismo convencional permanece consideravelmente mais prevalente, com cerca de 1,14 bilhão de fumantes no mundo em 2019, número que, embora apresente leve tendência de redução, ainda representa um importante problema de saúde pública global.3  

O funcionamento dos CE baseia-se no aquecimento de um líquido específico, que produz um aerossol inalável com aparência semelhante à fumaça tradicional. Essa solução geralmente contém nicotina, propilenoglicol, glicerol (ou glicerina vegetal) e uma variedade de aromatizantes e aditivos químicos. Embora essa formulação pareça mais simples do que a dos produtos derivados do tabaco, estudos têm demonstrado que o vapor resultante contém substâncias tóxicas e compostos reativos, capazes de afetar negativamente tanto a saúde bucal quanto a sistêmica.4

O periodonto compreende os tecidos gengivais e o osso alveolar, sendo responsável pela sustentação e estabilidade dos dentes. A doença periodontal (DP) caracteriza-se como uma inflamação crônica e multifatorial, desencadeada por um desequilíbrio na microbiota bucal — a chamada disbiose microbiana. Esse processo altera o biofilme presente no sulco gengival e ativa respostas imunoinflamatórias do hospedeiro, que, quando não controladas, culminam em perda de inserção clínica (NIC), perda óssea (PO) e eventual perda dentária.5

O tabagismo tradicional é amplamente reconhecido como um dos principais fatores de risco para a periodontite, pois modifica o microbioma oral, suprime os mecanismos de defesa imunológica e acelera a perda óssea alveolar. No entanto, apesar da percepção comum de que o CE seria menos prejudicial, evidências científicas recentes têm demonstrado que seu uso também pode resultar em efeitos adversos à saúde oral e periodontal. A exposição ao aerossol proveniente dos CE está associada a processos patológicos semelhantes aos do tabaco convencional, como aumento do estresse oxidativo e ativação de respostas inflamatórias nos tecidos gengivais.6

Pesquisas in vitro indicam que o vapor dos CE é capaz de provocar inflamação em células epiteliais gengivais, comportamento comparável ao observado em células expostas à fumaça dos fumantes convencionais (FC)5. Além disso, a nicotina e componentes como o propilenoglicol podem reduzir a taxa de fluxo salivar (TFS) e acidificar o pH salivar, comprometendo mecanismos naturais de proteção contra cárie e doença periodontal1

O uso contínuo de CE também tem sido relacionado a alterações estruturais e microbiológicas do periodonto, incluindo perda óssea marginal. A exposição prolongada ao aerossol pode favorecer a disbiose da microbiota subgengival (MSg), resultando em um ecossistema bacteriano distinto, frequentemente enriquecido por microrganismos patogênicos, como Fusobacterium e Bacteroidales (G-2). Essas mudanças estão associadas a piores indicadores clínicos, como profundidade de sondagem (PS) aumentada, redução do NIC e agravamento da PO.7

Outro ponto relevante é o efeito vasoconstritor da nicotina presente no vapor dos CE, que pode reduzir o sangramento à sondagem (SS) e o índice gengival (IG), mascarando sinais clínicos de inflamação gengival. Essa falsa percepção de saúde periodontal também é observada entre os fumantes convencionais (FC), o que dificulta a detecção precoce da doença. Além disso, a resposta ao tratamento periodontal parece ser menos eficaz em usuários de CE. Evidências sugerem que esses indivíduos apresentam menor resposta à remoção mecânica profissional da placa (RMP) e maior probabilidade de necessitar de intervenções cirúrgicas complementares, resultados comparáveis aos verificados em fumantes ativos.7

2. OBJETIVOS

O presente trabalho tem como objetivo analisar, de forma crítica e fundamentada, os impactos do uso do cigarro eletrônico na saúde periodontal, considerando parâmetros clínicos, microbiológicos e inflamatórios relacionados à patogênese das doenças periodontais. A influência da exposição à nicotina e aos componentes do aerossol sobre o fluxo e o pH salivar, bem como sobre a integridade dos tecidos periodontais, é avaliada por meio da comparação entre usuários de cigarros eletrônicos, fumantes convencionais e não fumantes, considerando profundidade de sondagem, perda de inserção clínica, perda óssea marginal e índices de inflamação gengival.

3. METODOLOGIA

O presente estudo consiste em uma revisão de literatura narrativa. Foi realizada uma busca estruturada nas bases de dados PubMed, Scopus e SciELO para identificar estudos originais relacionados ao impacto do uso de cigarros eletrônicos na saúde bucal e periodontal. A pesquisa incluiu artigos publicados entre 2015 e 2025. Foram utilizadas as seguintes palavras-chave: “eletronic cigarrette”, “e-cigarrette”, “periodontitis”, “vaping”. Foram incluídos apenas estudos originais (ensaios clínicos, estudos observacionais e transversais), que abordassem o impacto do uso de cigarros eletrônicos na saúde periodontal. 

A seleção foi realizada em duas etapas: leitura de títulos e resumos, seguida de leitura completa dos artigos potencialmente relevantes. Foram excluídas revisões de literatura.

4. REVISÃO DE LITERATURA

Os estudos analisados focaram na comparação dos efeitos dos cigarros eletrônicos (CE), dos fumantes convencionais (FC) e dos não fumantes (NF) em múltiplos parâmetros de saúde oral, incluindo marcadores clínicos, níveis de exposição e composição da microbiota subgengival (MSg).

4.1 EXPOSIÇÃO À NICOTINA, TAXA DE FLUXO SALIVAR E SINTOMAS ORAIS

A avaliação da exposição à nicotina e seus impactos imediatos na saliva revelou diferenças significativas entre os grupos de utilizadores de CE e os NF.

Hasan et al. (2024) observaram que os níveis salivares de cotinina (principal metabólito da nicotina, formada predominantemente no fígado após a exposição ao tabaco), em utilizadores de CE eram significativamente mais altos do que em NF. De fato, os níveis de cotinina em CE (349,56 ng/ml) foram comparáveis aos dos fumantes convencionais (FC: 370,29 ng/ml), e ambos os grupos apresentaram concentrações significativamente mais altas do que os NF (1,56 ng/ml). Este achado confirma que o uso de CE resulta em uma exposição sistêmica à nicotina similar à do fumo tradicional.

Em relação às propriedades salivares, Tashkandi et al. (2025) e Hasan et al. (2024) relataram que tanto CE quanto FC demonstraram um pH salivar em repouso mais ácido em comparação com NF. 

Tashkandi et al. (2025) também identificaram que CE apresentavam uma taxa de fluxo salivar (TFS) significativamente mais baixa do que NF. Essa redução no TFS foi classificada como um tamanho de efeito grande (Cohen’s d = 0,784) quando comparado a NF, sendo um achado clinicamente relevante para o risco de cárie e doença periodontal. 

Consistente com a redução da TFS, Tashkandi et al. (2025) também notaram uma prevalência estatisticamente maior de sintomas de boca seca e gengivite em CE em comparação com NF.

4.2 PARÂMETROS CLÍNICOS PERIODONTAIS

Os índices de inflamação gengival e de placa em usuários de cigarros eletrônicos têm apresentado resultados consistentes com um possível efeito supressor da resposta vascular gengival. A meta-análise de Tattar et al. (2025) demonstrou que não fumantes e ex-fumantes apresentaram valores significativamente mais elevados de sangramento à sondagem e índice gengival quando comparados aos usuários de cigarros eletrônicos, padrão que também foi observado na comparação entre fumantes convencionais e usuários desses dispositivos. Esses achados sugerem que a nicotina, presente tanto no cigarro eletrônico quanto no convencional, promove vasoconstrição local, reduzindo sinais clínicos aparentes de inflamação e gerando um possível efeito de mascaramento da condição inflamatória. Em relação ao índice de placa, Tattar et al. (2025) observaram níveis mais elevados em usuários de cigarros eletrônicos quando comparados a não fumantes e ex-fumantes; entretanto, Tashkandi et al. (2025) e Hasan et al. (2024) não identificaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, evidenciando divergências na literatura quanto ao acúmulo de biofilme.

No que se refere à destruição periodontal, a evidência atual é considerada mista, embora tenda a indicar maior risco entre usuários regulares de cigarros eletrônicos quando comparados a não fumantes. Hasan et al. (2024) relataram que fumantes convencionais apresentaram maiores valores de profundidade de sondagem e perda de inserção clínica em comparação com usuários de cigarros eletrônicos e não fumantes. Em contrapartida, um estudo clínico mais recente, conduzido por Alnufaiy et al. (2025), ao analisar exclusivamente usuários de cigarros eletrônicos e não fumantes, identificou valores significativamente mais elevados de profundidade de sondagem, perda de inserção clínica e perda óssea marginal no grupo exposto, com profundidade média de sondagem de 4,10 mm em comparação a 2,72 mm no grupo controle. Reforçando essa associação, a análise epidemiológica de Mohajeri et al. (2023), a partir de dados do estudo PATH, demonstrou que usuários regulares de sistemas eletrônicos de nicotina — excluídos fumantes convencionais e indivíduos diabéticos — apresentavam uma probabilidade quase cinco vezes maior de relatar perda óssea ao redor dos dentes em comparação a não fumantes, risco que se elevava para doze vezes quando comparados a usuários não regulares, sugerindo uma possível relação dose–resposta. Por outro lado, a meta-análise de Tattar et al. (2025) não identificou diferenças estatisticamente significativas quanto à profundidade de sondagem e à perda óssea entre usuários de cigarros eletrônicos e não fumantes ou ex-fumantes, embora tenha confirmado piores parâmetros entre fumantes convencionais.

4.4 MICROBIOTA SUBGENGIVAL E RESPOSTA INFLAMATÓRIA

O estudo longitudinal de Thomas et al. (2022) revelou o impacto do uso crônico de CE na microbiota subgengival (MSg) e o microbioma dos indivíduos crônicos de CE foi considerado um estado estável e heterogêneo, situando-se entre o de fumantes convencionais e o de não fumantes, porém mantendo características únicas. Embora a diversidade alfa tenha aumentado de maneira semelhante em todos os grupos ao longo de 6 meses, a estrutura da comunidade (diversidade beta) era distinta para cada coorte. 

Nesses mesmos indivíduos, observou-se um enriquecimento em patógenos periodontais anaeróbios, especialmente dos gêneros Fusobacterium e Bacteroidales (G-2), (em comparação com FC e NF, ou apenas NF). Além disso, gêneros como Selenomonas e Leptotrichia — que também apareceram em maior abundância em fumantes convencionais — estavam igualmente enriquecidos entre os usuários de CE em relação aos não fumantes.

No que diz respeito à resposta inflamatória, o Fator de Necrose Tumoral Alfa (TNF-α) apresentou níveis significativamente mais elevados nos usuários de CE em comparação aos outros grupos. Além disso, Thomas et al. (2022) encontraram uma correlação positiva entre a presença de gêneros patogênicos, como Treponema, Selenomonas e Porphyromonas, e o aumento de citocinas pró-inflamatórias periodontais (como IL-1β e TNF-α), além de associações com medidas clínicas de doença periodontal, como sangramento à sondagem e profundidade de sondagem. De forma semelhante, Alnufaiy et al. (2025) observaram que os níveis médios de IL-1β eram significativamente mais elevados em usuários de CE quando comparados a não fumantes em uma análise bivariada; no entanto, após o ajuste pela idade em um modelo multivariado, essa associação deixou de ser estatisticamente significativa.

4.5 RESPOSTA AO TRATAMENTO PERIODONTAL NÃO CIRÚRGICO

O estudo exploratório retrospectivo de Shah et al. (2023) comparou a resposta à remoção mecânica profissional da placa (RMP) entre os grupos. O estudo encontrou que CE tiveram uma resposta ao tratamento significativamente menos favorável do que NF. Para o desfecho primário (“necessidade de cirurgia”, definida como número de sextantes com ≥2 sítios não adjacentes com PS ≥5 mm pós-RMP), CE e FC tiveram a maior necessidade de tratamento adicional (4,3 e 4,0 sextantes, respectivamente, vs 2,4 para NF). É crucial que Shah et al. (2023) não encontraram diferenças estatisticamente significativas na resposta ao tratamento entre CE e FC. Além disso, os ex-fumantes (EF) responderam significativamente melhor do que os utilizadores de CE, e a diferença na resposta desfavorável dos CE persistiu mesmo após o ajuste para o tempo de cessação do fumo.

5. DISCUSSÃO

A análise e interpretação dos achados revelados estabelecem que o uso de Sistemas Eletrônicos de Nicotina (SEN/CE) promove um perfil de risco periodontal distinto, frequentemente posicionado em uma área intermediária, mas significativa, entre o tabagismo convencional (FC) e o estado de não fumante (NF). Embora o CE seja frequentemente promovido como uma alternativa “menos nocivaˮ ao tabaco, a evidência científica examinada demonstra que o cigarro eletrônico não é inócuo ao periodonto. 

5.1 Exposição Sistêmica e Alterações Salivares

A exposição sistêmica à nicotina é uma constante entre os usuários de CE. Os resultados confirmaram que os níveis salivares de cotinina em utilizadores de CE (349,56 ng/ml) são comparáveis aos dos fumantes convencionais (370,29 ng/ml) e significativamente mais altos do que os detectados em NF (1,56 ng/ml)4. Essa exposição comparável de nicotina, uma substância com propriedades vasoconstritoras, contribui para a disfunção salivar, um mecanismo chave na patogênese das doenças orais.

A disfunção foi manifestada pela redução na Taxa de Fluxo Salivar (TFS) e pela acidificação do pH. TASHKANDI et al. (2025) observaram que os usuários de CE apresentaram uma TFS significativamente mais baixa do que os NF, com um tamanho de efeito classificado como grande (Cohenʼs d 0,784). Esta redução da TFS é clinicamente relevante e tem sido associada a um risco aumentado de cárie e doença periodontal. Adicionalmente, tanto CE quanto FC demonstraram um pH salivar em repouso mais ácido em comparação com NF 4; 5. A redução do fluxo e a acidificação do pH salivar comprometem os mecanismos naturais de proteção bucal, facilitando a irritação da mucosa e a disbiose. 

5.2 Mascaramento da Inflamação e Risco de Destruição Periodontal

Um efeito notável do uso de CE é o mascaramento dos sinais clínicos de inflamação gengival, um fenômeno também característico do tabagismo convencional (SHAH et al., 2023). Os índices de Sangramento à Sondagem (SS) e Índice Gengival (IG) foram consistentemente mais baixos em CE e FC do que em NF, sugerindo um efeito supressor similar devido à vasoconstrição induzida pela nicotina presente no aerossol. A meta-análise de TATTAR et al. (2025) corroborou que NF/ex-fumantes (EF) tiveram SS e IG significativamente mais altos do que CE. Esse mascaramento exige que os clínicos utilizem parâmetros mais rigorosos, como Profundidade de Sondagem (PS) e Nível de Inserção Clínica (NIC), para o diagnóstico em usuários de CE.

Embora os fumantes convencionais (FC) tenham consistentemente apresentado os piores parâmetros de destruição periodontal (PS, NIC, PO) (HASAN et al., 2024; TATTAR et al., 2025), os dados indicam um risco significativo para usuários regulares e exclusivos de CE:

A análise de dados do estudo PATH conduzida por Mohajeri et al. (2024), que excluiu fumantes de cigarro convencional e indivíduos diabéticos, revelou que usuários regulares de sistemas eletrônicos de nicotina apresentavam uma probabilidade quase 5 vezes maior de relatar perda óssea ao redor dos dentes quando comparados a indivíduos que nunca utilizaram esses dispositivos (OR = 4,82). 

Em consonância com esse achado, Alnufaiy et al. (2025), ao avaliarem exclusivamente usuários de cigarros eletrônicos e não fumantes, identificaram valores significativamente mais elevados de profundidade de sondagem, perda de inserção clínica e perda óssea marginal no grupo exposto, com profundidade média de sondagem de 4,10 mm, em contraste com 2,72 mm no grupo controle. 

Em contrapartida, a meta-análise conduzida por Tattar et al. (2025) não encontrou diferenças estatisticamente significativas quanto à profundidade de sondagem e à perda óssea marginal entre usuários de cigarros eletrônicos e não fumantes ou ex-fumantes em análises transversais, embora tenha sido observada uma tendência a maiores profundidades de sondagem nesse grupo. Essa discrepância entre os achados é frequentemente atribuída ao elevado risco de viés de confusão, visto que muitos estudos transversais falham em isolar o efeito exclusivo do CE do histórico prévio de tabagismo.

5.3 Disbiose da Microbiota e Resposta Inflamatória

O uso crônico de CE induz disbiose na microbiota subgengival (MSg), que adota um ecossistema bacteriano distinto. O estudo longitudinal de THOMAS et al. (2022) demonstrou que, embora o microbioma de CE compartilhe características com o de FC e NF, ele existe como um estado estável e heterogêneo com características únicas. Essa comunidade está enriquecida em patógenos periodontais anaeróbios, como Fusobacterium e Bacteroidales (G-2), em comparação com NF. O enriquecimento de patógenos também foi notado por XU et al. (2022).

Essa disbiose microbiana é acompanhada por uma resposta inflamatória particular. O Fator de Necrose Tumoral Alfa (TNF-α) foi encontrado significativamente elevado em CE em comparação com FC e NF (THOMAS et al., 2022). Gêneros patogênicos presentes em CE (como Treponema, Selenomonas e Porphyromonas) correlacionaram-se positivamente com citocinas pró-inflamatórias (IL-1β e TNF-α) e com medidas clínicas de doença, como SS e PS (THOMAS et al., 2022). Embora ALNUFAIY et al. (2025) tenham observado níveis médios de IL-1β significativamente maiores em CE na análise bivariada, essa associação se tornou não significativa após ajuste pela idade no modelo multivariado.

5.4 Resposta Comprometida ao Tratamento Periodontal

Uma das implicações clínicas mais críticas é a resposta desfavorável à terapia periodontal não cirúrgica (RMP) em usuários de CE, comparável à dos fumantes ativos. O estudo exploratório retrospectivo de SHAH et al. (2023) observou que os usuários de CE tiveram uma resposta ao tratamento significativamente menos favorável do que os NF. Para o desfecho primário (“necessidade de cirurgia”), os usuários de CE (média de 4,3 sextantes) e FC (4,0 sextantes) tiveram a maior necessidade de tratamento adicional, em contraste com NF (2,4 sextantes). É notável que SHAH et al. (2023) não encontraram diferenças estatisticamente significativas na resposta ao tratamento entre CE e FC, sugerindo que o prognóstico terapêutico para usuários de CE é semelhante ao dos fumantes convencionais. Além disso, a resposta desfavorável nos usuários de CE persistiu mesmo após o ajuste para o tempo de cessação do fumo.

6. CONCLUSÃO

A crescente prevalência do uso de Sistemas Eletrônicos de Nicotina (SEN/CE) constitui um desafio relevante à saúde pública e à prática clínica periodontal, sustentado pela percepção equivocada de que esses dispositivos representariam uma alternativa inócua ao tabaco convencional. Embora a evidência disponível ainda apresente caráter exploratório, os dados atuais demonstram que o uso de cigarro eletrônico não é isento de riscos, estando associado a impactos adversos sobre a saúde periodontal. Estudos clínicos, microbiológicos e epidemiológicos indicam que sua utilização configura um perfil de risco intermediário entre o tabagismo convencional e a condição de não fumante.

Apesar de potencialmente menos prejudicial que o cigarro convencional, o uso de CE associa-se à disbiose, à inflamação celular, à disfunção salivar e à pior resposta ao tratamento periodontal, o que reforça a necessidade de reconhecer seus usuários como uma população de risco distinta para a doença periodontal. A evidência atual, baseada predominantemente em estudos transversais, limita a determinação de relações de causalidade e apresenta elevado risco de viés, especialmente em função de fatores de confusão relacionados ao histórico prévio de tabagismo, conforme destacado por Tattar et al. (2025). A identificação de usuários exclusivos por autorrelato configura relevante limitação metodológica. Ainda assim, o uso regular desses dispositivos deve ser considerado fator de risco independente para o desenvolvimento de doenças periodontais, incluindo a perda óssea, demandando maior vigilância clínica, atenção ao possível mascaramento da inflamação e a adoção de estratégias terapêuticas e de manutenção mais rigorosas, diante de um prognóstico comparável ao de fumantes convencionais (Shah et al., 2023).

Para o avanço do conhecimento na área, tornam-se necessários estudos longitudinais envolvendo indivíduos que nunca tenham feito uso de tabaco convencional, assim como a aplicação de marcadores bioquímicos objetivos, como a cotinina e metabólitos específicos do tabaco, além da investigação da heterogeneidade dos constituintes do aerossol e de seus impactos sobre os desfechos clínicos e biológicos.

7. REFERÊNCIAS 

1. TASHKANDI, M. et al. Comparative assessment of oral health findings among e-cigarette users, conventional smokers, and non-smokers in Makkah City: a cross-sectional study. The Open Dentistry Journal, Sharjah, v. 19, e18742106400186, 2025. DOI: 10.2174/0118742106400186250801050338.

2. JERZYŃSKI, T.; STIMSON, G. V.; SHAPIRO, H.; KRÓL, G. Estimation of the global number of e-cigarette users in 2020. Harm Reduction Journal, Londres, v. 18, n. 1, art. 109, 2021. DOI: 10.1186/s12954-021-00556-7.

3. REITSMA, M. B.; KENDALL, A. S.; DANIELS, M. et al. (GBD 2019 Tobacco Collaborators). Spatial, temporal, and demographic patterns in prevalence of smoking tobacco use and attributable disease burden in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis from the Global Burden of Disease Study 2019. The Lancet, Londres, v. 397, n. 10292, p. 2337–2360, 2021. DOI: 10.1016/S0140-6736(21)01169-7.

4. HASAN, N. W. M. et al. Comparative effects of e-cigarette smoking on periodontal status, salivary pH, and cotinine levels. BMC Oral Health, Londres, v. 24, n. 1, art. 861, 2024. DOI: 10.1186/s12903-024-04650-7.

5. MOHAJERI, A. et al. Electronic nicotine delivery systems use and periodontal health: findings from the Population Assessment of Tobacco and Health Study. Healthcare, Basel, v. 12, n. 1, art. 25, 2024. DOI: 10.3390/healthcare12010025.

6. PUSHALKAR, S. et al. Electronic cigarette aerosol modulates the oral microbiome and increases risk of infection. iScience, Cambridge, v. 23, art. 100884, 2020. DOI: 10.1016/j.isci.2020.100884.

7. ALNUFAIY, B. et al. The impact of electronic cigarette smoking on periodontal status and proinflammatory cytokine levels: a cross-sectional study. BMC Oral Health, Londres, v. 25, n. 1, art. 775, 2025. DOI: 10.1186/s12903-025-06148-2.

8. SHAH, C. et al. Retrospective exploratory study of smoking status and ecigarette use with response to non-surgical periodontal therapy. Journal of Periodontology, Chicago, v. 94, n. 1, p. 41–54, 2023. DOI: 10.1002/JPER.210702.

9. TATTAR, R. et al. The impact of e-cigarette use on periodontal health: a systematic review and meta-analysis. Evidence-Based Dentistry, Londres, v. 26, 2025. DOI: 10.1038/s41432-025-01119-6.

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11. XU, F.; PUSHALKAR, S.; LIN, Z.; THOMAS, S. C.; PERSAUD, J. K.; SIERRA, M. A.; VARDHAN, M.; VASCONCELOS, R.; AKAPO, A.; GUO, Y.; GORDON, T.; CORBY, P. M.; KAMER, A. R.; LI, X.; SAXENA, D. Electronic cigarette use enriches periodontal pathogens. Molecular Oral Microbiology, Oxford, v. 37, n. 2, p. 63–76, 2022. DOI: 10.1111/omi.12361.


1Acadêmico de Odontologia
Centro Universitário Mário Pontes Jucá
ORCID: https://orcid.org/0009-0009-5867-233X

2Acadêmica de Odontologia
Centro Universitário Mário Pontes Jucá
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-9646-5303

3Professor Orientador – Especialista em Periodontia
Centro Universitário Mário Pontes Jucá
ORCID: http://orcid.org/0000-0001-6728-4229