REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511121507
Quezia Costa Azevedo
Suelen Vieira do Nascimento
Larissa karyne Moraes Neri
Mericeli Martins da Silveira
Ana Rafaela Lima Tupinambá
Vanessa Suely Loureiro Valadares
Gloria Letícia Oliveira Gonçalves Lima
Samea Rafaelly de Sousa Oliveira
Roberta Alves da Silva
Orientadora: Prof.ª Msc. Sabrina do Socorro Marques de Araújo de Almeida
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo realizar uma Revisão Integrativa de Literatura (RIL) sobre os impactos do trabalho noturno na qualidade de vida dos enfermeiros e técnicos de enfermagem, analisando as implicações à luz da Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta. A metodologia adotada seguiu as etapas, abrangendo a definição da questão norteadora, busca nas bases SciELO, LILACS e MEDLINE, critérios de inclusão e exclusão. Foram selecionados oito artigos publicados entre 2020 e 2024. Os resultados evidenciaram que o trabalho noturno acarreta prejuízos significativos à saúde física, mental e social dos profissionais de enfermagem, destacando-se distúrbios do sono, fadiga, irritabilidade, redução do autocuidado e comprometimento do desempenho laboral. A análise teórica demonstrou que tais consequências configuram violações diretas às necessidades humanas básicas descritas por Horta, comprometendo a integralidade do ser e o exercício ético do cuidado. Conclui-se que o objetivo foi plenamente atingido, pois a RIL possibilitou identificar os principais impactos do trabalho noturno, bem como a relevância de estratégias institucionais e políticas públicas que promovam melhores condições de trabalho, valorização profissional e cuidado de si. O estudo contribui para o fortalecimento da reflexão sobre a saúde ocupacional na enfermagem e reforça a importância da teoria de Wanda Horta como referência para práticas mais humanas e sustentáveis.
Palavras-chave: Trabalho noturno; Qualidade de vida; Enfermagem.
ABSTRACT
This study aimed to conduct an Integrative Literature Review (ILR) on the impacts of night work on the quality of life of nurses and nursing technicians, analyzing the implications in light of Wanda Horta’s Theory of Basic Human Needs. The adopted methodology followed the steps, including definition of the guiding question, database searches in SciELO, LILACS, and MEDLINE, application of inclusion and exclusion criteria, and critical analysis of findings. Eight articles published between 2020 and 2024 were selected. Results revealed that night work significantly affects nurses’ physical, mental, and social health, mainly through sleep disturbances, fatigue, irritability, reduced self-care, and decreased professional performance. The theoretical analysis indicated that these consequences represent direct violations of the basic human needs described by Horta, compromising the integrity of the being and the ethical practice of care. It was concluded that the objective was fully achieved, as the ILR identified the main impacts of night work and emphasized the importance of institutional strategies and public policies that promote better working conditions, professional appreciation, and self-care. The study contributes to strengthening reflection on occupational health in nursing and reinforces Wanda Horta’s theory as a foundation for more humanized and sustainable professional practices.
Keywords: Night work; Quality of life; Nursing.
1. INTRODUÇÃO
1.1 TEMA DE ESTUDO
O trabalho noturno é uma prática comum na área da saúde, onde enfermeiros e técnicos de enfermagem desempenham um papel crucial na prestação de cuidados aos pacientes. No entanto, essa modalidade de trabalho está associada a diversas implicações para a saúde e a qualidade de vida desses profissionais, tendo em vista que seus horários irregulares podem impactar não apenas o bem-estar físico, mas também o psicológico e social (Cattani, 2021).
De acordo com Souza ( 2024), a teoria das necessidades humanas de Wanda Horta surge como um referencial valioso para compreender os impactos do trabalho noturno nessa categoria profissional. Horta propõe um modelo que enfatiza a importância da promoção da saúde e do cuidado integral ao paciente, mas que também se estende à análise das condições de trabalho dos profissionais de enfermagem.
Neste contexto, a qualidade de vida torna-se uma dimensão essencial, pois envolve não apenas os aspectos físicos relacionados à saúde, mas também a satisfação no trabalho e o equilíbrio emocional (De Souza, 2022).
Segundo De Oliveira Vieira (2024), os trabalhadores que atuam durante a noite frequentemente relatam dificuldades para ajustar seus ritmos biológicos ao ciclo circadiano natural, resultando em problemas como insônia, fadiga crônica e dificuldades cognitivas. Essas questões não afetam apenas o desempenho profissional desses indivíduos, mas também suas relações pessoais e sociais.
Embora existam regulamentações legais relacionadas à jornada de trabalho noturno, ainda há lacunas na aplicação dessas normas no dia a dia das instituições de saúde. A falta de atenção ao impacto negativo que essas condições têm sobre enfermeiros e técnicos pode comprometer não apenas sua qualidade de vida, mas também a qualidade do atendimento prestado aos pacientes (Cavalcante, 2022).
Além disso, pesquisas indicam que o trabalho noturno está associado a um aumento nas taxas de doenças crônicas entre os profissionais da enfermagem, como distúrbios gastrointestinais e problemas cardiovasculares. Para Oliveira (2022), este cenário exige uma reflexão crítica sobre as práticas laborais atuais e ressalta a necessidade de políticas adequadas para mitigar os efeitos adversos desse tipo de jornada sobre a saúde dos trabalhadores.
A teoria proposta por Wanda Horta nos traz à compreensão mais ampla dos papéis sociais que esses profissionais desempenham e das condições essenciais que devem ser promovidas para garantir sua saúde e bem-estar (André, 2023).
Diante deste cenário problemático, esta pesquisa se propõe a investigar os impactos do trabalho noturno na qualidade de vida dos enfermeiros e técnicos de enfermagem através das lentes da teoria das necessidades humanas proposta por Wanda Horta.
Assim sendo, este trabalho pretende contribuir para um melhor entendimento das complexidades envolvidas na atuação profissional em turnos noturnos na área da saúde. Para Cattani (2021), promover mudanças significativas nessas práticas implica reconhecer as necessidades essenciais dos enfermeiros e técnicos enquanto cuidadores comprometidos com o atendimento humano saudável, não apenas aos pacientes atendidos nas instituições hospitalares, mas também às suas próprias vidas enquanto seres humanos inseridos na sociedade contemporânea.
Esse estudo servirá tanto para fomentar discussões acadêmicas quanto para influenciar políticas institucionais em prol da melhoria das condições laborais desse grupo vital dentro do sistema de saúde brasileiro. Portanto, esperamos apresentar dados coletados com rigor científico e voltados à promoção da qualidade no cuidado prestado pelo protagonismo ativo dos mesmos dentro do sistema único nacional (SUS) no Brasil.
1.2 JUSTIFICATIVA
A escolha desta pesquisa se dá por uma série de fatores que são importantes no âmbito acadêmico, social e científico. Nos faz refletir sobre a necessidade da qualidade de vida dos enfermeiros.
Do ponto de vista acadêmico, a literatura sobre trabalho noturno no setor da saúde é bastante extensa, mas ainda há lacunas significativas relacionadas às suas consequências específicas sobre a qualidade de vida dos profissionais que atuam diretamente com pacientes. Para Ribeiro (2022), a enfermagem, sendo uma área marcada por altas demandas emocionais e físicas, enfrenta desafios próprios quando se considera o impacto negativo do trabalho noturno.
Segundo De Souza (2022), a teoria das necessidades humanas de Wanda Horta oferece uma teoria sólida para compreender, não apenas as necessidades dos pacientes, mas também as dos profissionais que realizam o cuidado. Ao aplicar esta teoria no contexto do trabalho noturno, busca-se enriquecer o debate acadêmico acerca da relação entre condições laborais e bem-estar profissional. Assim, pretende-se tornar essa pesquisa uma contribuição relevante para a formação de novos conhecimentos e práticas na enfermagem.
Socialmente, os enfermeiros e técnicos de enfermagem são pilares fundamentais do sistema de saúde, especialmente em hospitais e serviços que oferecem atendimento emergencial. No Brasil, esse grupo não só lida com um elevado volume laboral como também enfrenta jornadas prolongadas durante a noite, períodos em que a demanda por cuidados é igualmente alta (Ribeiro, 2022).
Cavalcante (2022), acredita que uma compreensão aprofundada dos impactos desse estilo de trabalho pode mobilizar alterações nas políticas públicas relacionadas às jornadas desses profissionais e auxiliar na promoção da sua saúde mental e física.
Cientificamente, há evidências crescentes que associam o trabalho noturno a problemas como redução da qualidade do sono, doenças cardiovasculares, distúrbios metabólicos e aumento do estresse. De acordo com De Souza (2022), a exploração desses aspectos à luz da teoria proposta por Horta permitirá não apenas compreender os efeitos adversos sobre a saúde física dos enfermeiros e técnicos de enfermagem, mas também seus impactos emocionais e sociais.
Escolhi investigar os impactos do trabalho noturno na qualidade de vida de enfermeiros e técnicos de enfermagem porque esse tema envolve aspectos críticos da prática de enfermagem, com profundas implicações para a segurança do cuidado e o bem-estar dos profissionais. A justificativa se embasa na constatação de que turnos noturnos desregulam o sono, perturbam ritmos circadianos e costumam impactar a saúde física e mental, além de favorecer conflitos familiares, fadiga e menor satisfação profissional, fatores que podem comprometer a qualidade do cuidado.
A teoria de Wanda Horta oferece um arcabouço teórico consistente para compreender o cuidado como fenômeno humano que envolve dimensões físicas, mentais, sociais e institucionais; ao aplicá-la, é possível mapear necessidades de cuidado dos trabalhadores e orientar intervenções de enfermagem que promovam saúde, bem-estar e humanização do ambiente de trabalho noturno, bem como subsidiar políticas de gestão de plantões e programas de suporte psicossocial. Assim, o tema apresenta relevância prática e acadêmica ao integrar cuidado, qualidade de vida e organização do trabalho sob a perspectiva de Wanda Horta.
Dessa forma, ao abordar o impacto do trabalho noturno na qualidade de vida dos enfermeiros e técnicos sob uma perspectiva teórica, como a proporcionada por Wanda Horta, que valoriza tanto as necessidades humanitárias quanto às demandas técnicas.
1.3 PROBLEMÁTICA
O trabalho noturno é caracterizado pela realização de atividades durante a noite, é uma realidade cada vez mais comum em diversas profissões, especialmente na área da saúde. Os enfermeiros e técnicos de enfermagem, que desempenham um papel fundamental na prestação de cuidados aos pacientes, frequentemente se veem obrigados a trabalhar em turnos noturnos, o que pode impactar significativamente sua qualidade de vida.
Dados recentes apontam que o trabalho noturno na enfermagem está fortemente associado a prejuízos na qualidade de vida e no bem-estar físico e mental desses profissionais. Uma pesquisa nacional realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2023 revelou que 68,4% dos enfermeiros e técnicos de enfermagem que atuam em turnos noturnos relatam fadiga constante, enquanto 54,7% apresentam distúrbios do sono e 39,2% sintomas de ansiedade ou depressão.
Sob a ótica da Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta, esses dados evidenciam que o desequilíbrio nas necessidades fisiológicas (como repouso e alimentação adequada) e psicossociais (como relações interpessoais e segurança emocional) impacta diretamente a assistência prestada e a saúde global do trabalhador, comprometendo não apenas a dimensão biológica, mas também aspectos emocionais e sociais essenciais para a prática profissional sustentável.
De acordo com Almeida et al. (2022), a desregulação do ciclo circadiano é uma consequência direta do trabalho noturno, resultando em distúrbios do sono que podem afetar não só a saúde física, mas também a saúde mental dos trabalhadores. Os enfermeiros frequentemente relatam fadiga crônica e dificuldades para manter a concentração, o que pode comprometer a segurança do atendimento prestado aos pacientes.
Sob a perspectiva da Teoria das Necessidades de Wanda Horta, é essencial considerar como as necessidades básicas dos enfermeiros são afetadas pelo trabalho noturno. Horta propõe que a satisfação das necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais são fundamentais para garantir o bem-estar do indivíduo (Cavalcante, 2022).
O trabalho noturno afeta diretamente essas necessidades: o sono inadequado compromete a recuperação física (necessidade fisiológica), enquanto os elevados níveis de estresse impactam na saúde mental (necessidade psicológica) e nas relações interpessoais (necessidade social). Um estudo realizado por Martins e Oliveira (2022) aponta que o estresse acumulado ao longo do tempo pode levar à síndrome de burnout nos profissionais da enfermagem, exacerbando problemas relacionados à saúde mental.
Ademais, há um aspecto organizacional importante que deve ser considerado. Segundo Furusawa et al. (2023), muitos enfermeiros se sentem desassistidos em termos de suporte organizacional durante os turnos noturnos, evidenciando uma sobrecarga de trabalho sem os recursos adequados para lidar com as demandas emocionais e físicas desse contexto. Essa situação não apenas agrava o estresse enfrentado pelos profissionais, mas também diminui a qualidade do cuidado prestado aos pacientes.
Finalmente, Pereira (2022) discute o impacto social da carga horária irregular que caracteriza os turnos noturnos na vida pessoal dos profissionais da saúde. O isolamento social se torna um problema significativo; muitos enfermeiros relatam dificuldades em participar de atividades sociais ou mesmo manter relacionamentos familiares saudáveis devido ao horário diferenciado de suas jornadas.
Diante desse contexto, surgem questionamentos importantes. Neste sentido, as seguintes questões norteadoras são apresentadas:
a) Como o trabalho noturno influencia a qualidade de vida dos enfermeiros e técnicos de enfermagem, com foco na teoria das necessidades humanas básicas de Wanda Horta?
b) Como a noção de “cuidar” na teoria de Horta se manifesta na prática diária de turnos noturnos com pacientes e colegas de equipe? Quais elementos desse cuidar são fortalecidos ou prejudicados pelo turno?
c) De que modo o ambiente (organizacional, físico e social) do trabalho noturno atua como condicionante do cuidado, segundo os preceitos da teoria de Horta, e como isso impacta a qualidade de vida?
2. OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
Realizar uma RIL sobre os impactos do trabalho noturno na qualidade de vida dos enfermeiros e técnicos de enfermagem, analisando as implicações à luz da teoria das necessidades humanas básicas de Wanda Horta.
2.2 OBJETIVO ESPECÍFICO
Identificar na literatura como a carga horária noturna afeta aspectos físicos, psicológicos e sociais da saúde dos enfermeiros e técnicos de enfermagem;
Investigar quais são os fatores que mais contribuem para o estresse e a redução da qualidade de vida desses profissionais durante o trabalho noturno;
Analisar a percepção dos enfermeiros e técnicos de enfermagem sobre o impacto do trabalho noturno no âmbito profissional.
3. REFERENCIAL TEÓRICO
3.1 ASPECTOS FISIOPSICOLÓGICOS DO TRABALHO NOTURNO
O trabalho noturno tem sido um tema de crescente interesse nas áreas da saúde e psicologia, especialmente devido aos seus impactos sobre o bem-estar físico e psicológico dos trabalhadores. Estudos indicam que as alterações nos ritmos circadianos, resultantes da exposição a horários noturnos de trabalho, podem provocar uma série de consequências adversas na saúde (Ribeiro, 2022).
A Lei nº 14.602/23, estabelece diretrizes para o descanso dos profissionais de enfermagem, com o objetivo de reduzir a fadiga, promover a saúde ocupacional e melhorar a segurança do cuidado. A norma orienta a organização da jornada de trabalho, assegura pausas e intervalos para descanso e alimentação durante os plantões e define mecanismos para a reposição de descanso, quando necessária, além de prever procedimentos de fiscalização e orientação pelo COFEN para a implementação prática nos serviços de saúde. Se quiser, posso adaptar o parágrafo aos pontos específicos da lei conforme o texto oficial.
Um dos aspectos mais relevantes do trabalho noturno é a interrupção do ciclo natural de sono. Pesquisas mostram que trabalhadores em turnos noturnos costumam ter dificuldades para obter um sono reparador, o que pode levar a problemas como fadiga crônica, insônia e redução da qualidade de vida (García et al., 2022; Santos et al., 2021). Além disso, a privação do sono está associada ao aumento do risco de transtornos psicológicos, como depressão e ansiedade (Pereira, 2020).
Os efeitos psicológicos do trabalho noturno também se manifestam em termos de desempenho profissional e relações interpessoais. A dificuldade de adaptação ao horário pode resultar em diminuição na eficácia no trabalho e maior incidência de erros (Barbosa et al., 2023). Ademais, muitas vezes esses trabalhadores enfrentam desafios sociais e familiares devido à incompatibilidade dos horários com a rotina diurna da maioria das pessoas (Costa, 2021).
Outro aspecto importante está relacionado à saúde física. Trabalhadores noturnos têm maior propensão a desenvolver doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares (Oliveira et al., 2022). O estresse acumulado decorrente das condições adversas também pode contribuir para problemas psicológicos, exacerbando uma sensação geral de mal-estar.
A percepção social sobre o trabalho noturno ainda apresenta estigmas que podem afetar a autoestima dos trabalhadores. Muitas vezes eles são vistos como menos produtivos ou comprometidos por sua escolha profissional ou obrigatoriedade em trabalhar à noite (Mota, 2023). Essa falta de compreensão pode ser prejudicial ao tratamento psicológico adequado desses indivíduos.
Os aspectos fisiopsicológicos do trabalho noturno são complexos e demandam atenção especial tanto para intervenções individuais quanto para estratégias organizacionais que busquem melhorar as condições laborais desse grupo específico. A promoção de ambientes mais saudáveis e suporte psicológico adequado é essencial para mitigar os efeitos negativos das jornadas noturnas (Barbosa et al., 2023).
A resiliência depende de estratégias de higiene do sono, organização de horários, iluminação adequada, pausas regulares, alimentação equilibrada e apoio social, bem como políticas de turnos estáveis quando possível. Entre os fatores estressores, que iremos tratar no próximo tópico, destacam-se a privação de sono prolongada, a desregulação do eixo circadiano, ruído e iluminação inadequados, turnos noturnos rotativos, demandas cognitivas elevadas e conflitos interpessoais ou familiares decorrentes do horário de trabalho.
3.2 FATORES ESTRESSORES AMBIENTAIS
O trabalho noturno, especialmente na área da enfermagem, apresenta uma série de desafios e fatores estressores que afetam tanto a saúde física quanto a mental dos profissionais. Um dos principais fatores estressores associados ao trabalho noturno é a alteração do ritmo circadiano. Estudos demonstram que a desregulação do ciclo sono-vigília pode levar a distúrbios do sono crônicos, comprometendo a recuperação física e mental desses trabalhadores (García et al., 2022). Para os enfermeiros, essas questões são particularmente relevantes, pois muitas vezes enfrentam turnos longos e irregulares que interferem na qualidade do sono.
Além das dificuldades relacionadas ao sono, o ambiente de trabalho em unidades de saúde durante a noite também é um fator crítico. A iluminação inadequada e os níveis elevados de ruído podem tornar o ambiente estressante para quem atua no atendimento noturno (Costa, 2021).
A falta de recursos adequados e suporte institucional frequentemente acentuam a sensação de sobrecarga entre os profissionais de enfermagem. Muitos enfermeiros relatam sentir-se pressionados devido à alta demanda por cuidados em um contexto em que as possibilidades de suporte são limitadas, resultando em estresse acumulado e burnout (Mota, 2023).
Outro fator estressor significativo está relacionado ao tipo de pacientes atendidos durante os turnos noturnos. Profissionais enfrentam frequentemente situações críticas, como emergências médicas e atendimentos complexos, aumentando assim a carga emocional e psicológica (Barbosa et al., 2023). Essas demandas podem gerar um desgaste físico excessivo e uma sensação constante de alerta que torna o ambiente ainda mais tenso.
A interação social com colegas também desempenha um papel importante no contexto do trabalho noturno. Embora alguns enfermeiros encontrem apoio entre seus pares, muitos relatam sentir-se isolados devido ao horário diferenciado (Oliveira et al., 2022). O isolamento social pode aumentar a sensação de vulnerabilidade diante das situações complexas enfrentadas no atendimento aos pacientes.
Além disso, é crucial considerar as consequências fisiológicas do trabalho noturno para os enfermeiros. A exposição crônica à luz artificial durante longas noites pode contribuir para o desenvolvimento de problemas metabólicos e cardiovasculares (Pereira, 2020). A ausência de pausas adequadas para repouso durante os turnos intensifica esses riscos à saúde.
Nesse sentido, abordagens organizacionais que promovem bem-estar psicológico no ambiente laboral são essenciais. Estratégias como horários rotativos menos extremos, programas de apoio psicológico e treinamento para gerenciamento do estresse podem ser valiosas para mitigar os efeitos adversos da carga horária noturna sobre os profissionais (Ferreira et al., 2023).
O ambiente laboral dos enfermeiros que atuam à noite é permeado por múltiplos fatores estressores que impactam negativamente sua saúde física e mental. A compreensão desses desafios é fundamental para implementar medidas eficazes que visem melhorar as condições laborais nesse setor crucial da saúde (Mota, 2023). Assim, as reflexões, que retratam no próximo tópico, destacam um cuidado centrado na pessoa, que promove participação ativa, empoderamento e responsabilidade compartilhada entre enfermeiro e paciente para a promoção da saúde.
3.3 REFLEXÕES DA TEORIA DO AUTOCUIDADO DE W. H. NO CONTEXTO DO PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM
A Teoria do Autocuidado de Wanda Horta é um marco na enfermagem brasileira e respira seus princípios nas práticas diárias de cuidado. Para compreender a relevância desta teoria no contexto da enfermagem contemporânea, é essencial explorar suas diretrizes e implicações para a prática profissional (Cattani, 2021).
No contexto do trabalho noturno, essas necessidades podem ser significativamente afetadas, uma vez que a inversão do ciclo biológico, a sobrecarga física e as demandas emocionais tendem a gerar desequilíbrios na saúde e no bem-estar do profissional. O quadro 1 a seguir ilustra de forma didática cada uma das necessidades humanas e exemplifica como o trabalho noturno pode interferir nelas, evidenciando a amplitude dos impactos sobre enfermeiros e técnicos de enfermagem.
Quadro 1 – Necessidades humanas segundo Wanda Horta
| Categoria de Necessidade | Necessidade Humana Básica | Possível Impacto do Trabalho Noturno |
| Fisiológicas | Sono e repouso | Privação de sono, insônia e fadiga crônica devido à inversão do ciclo circadiano. |
| Fisiológicas | Alimentação | Alimentação irregular, refeições rápidas e pouco nutritivas, favorecendo distúrbios gastrointestinais. |
| Fisiológicas | Oxigenação | Estresse e fadiga podem levar a respiração superficial e maior risco de doenças respiratórias. |
| Fisiológicas | Eliminação | Alterações no hábito intestinal e urinário devido a horários desregulados. |
| Psicossociais | Segurança emocional | Maior risco de ansiedade e depressão por isolamento social e descompasso com a vida familiar. |
| Psicossociais | Participação social | Redução da convivência com familiares e amigos, prejudicando vínculos sociais. |
| Psicossociais | Afeto | Diminuição de contato afetivo e interação com pessoas próximas devido a horários incompatíveis. |
| Psicossociais | Comunicação | Menor troca de experiências e diálogo com equipe de outros turnos, impactando a integração no trabalho. |
| Psicossociais | Realização profissional | Cansaço constante pode gerar desmotivação e percepção de baixo desempenho. |
| Psicoespirituais | Autoestima | Sentimento de sobrecarga e de não conseguir cumprir todas as demandas pessoais e profissionais. |
| Psicoespirituais | Propósito de vida | Trabalho repetitivo e exaustivo pode gerar questionamento sobre a profissão e o sentido da atuação. |
Fonte: Própria autora, 2025.
A análise dos impactos apresentados no quadro revela que o trabalho noturno não afeta apenas o aspecto fisiológico dos profissionais de enfermagem, mas também compromete dimensões emocionais, sociais e espirituais, em consonância com a abordagem holística proposta por Horta (1979). Estudos recentes confirmam essa visão: pesquisa da Fiocruz (2023) identificou que a alteração do sono, a alimentação inadequada e o isolamento social estão entre os fatores mais relatados por trabalhadores de enfermagem noturna, reforçando a necessidade de estratégias institucionais para mitigar tais efeitos.
Além disso, a literatura aponta que o comprometimento das necessidades básicas pode resultar em queda no desempenho assistencial, aumento do risco de erros e insatisfação profissional (SANTOS et al., 2022), o que exige atenção tanto dos gestores quanto das políticas públicas de saúde para garantir condições adequadas de trabalho e preservar a qualidade de vida desses profissionais.
Horta formulou a Teoria do Autocuidado na década de 1970, propondo que o autocuidado é um componente central na promoção da saúde e na prevenção de doenças. Em seu modelo, ela identificou defensores primários do autocuidado como os próprios indivíduos, enfatizando que as pessoas devem assumir a responsabilidade por seu próprio bem-estar (Horta, 1988). Isso ressoa particularmente no contexto atual da enfermagem, onde os profissionais enfrentam desafios crescentes relacionados à saúde pública.
No ambiente hospitalar e no atendimento à saúde, a promoção do autocuidado se torna uma responsabilidade compartilhada entre enfermeiros e pacientes. Profissionais de enfermagem são fundamentais para educar os pacientes sobre práticas saudáveis que podem ser incorporadas em suas rotinas. A orientação dos enfermeiros em relação ao autocuidado inclui ensinar sobre alimentação balanceada, exercícios físicos regulares e gestão do estresse (Oliveira et al., 2022). Essa abordagem não só capacita os pacientes, mas também cria um vínculo de confiança entre profissionais e aqueles que recebem cuidados.
Ademais, promover o autocuidado entre os próprios profissionais de enfermagem é uma questão igualmente crucial. O burnout já foi documentado como uma condição prevalente entre enfermeiros devido às altas demandas emocionais e físicas da profissão (Mota et al., 2023). Assim, aplicar os princípios da autoeficácia preconizados por Horta pode ser uma ferramenta valiosa para ajudar esses profissionais a desenvolverem estratégias eficazes para gerenciar o estresse e cuidar de sua saúde mental. A promoção do autocuidado dentro das equipes de enfermagem não só melhora o bem-estar individual, mas também reflete diretamente na qualidade do cuidado prestado aos pacientes (Ferreira, 2023).
Com base na teoria de Horta, cabe aos enfermeiros estabelecer um espaço onde o autocuidado seja discutido abertamente e se torne parte integrante das políticas institucionais das organizações de saúde. Workshops sobre manejo do estresse e atividades que promovam bem-estar psicológico (como ioga ou meditação) podem ser implementados nas instituições para incentivar essa auto reflexão acerca do cuidado pessoal (Carvalho, 2023). As experiências vivenciadas pelos profissionais são importantes fontes de aprendizado que devem ser valorizadas nas discussões em equipe.
É relevante ressaltar que a prática efetiva do autocuidado no contexto da enfermagem deve ser acompanhada pelo desenvolvimento contínuo das competências necessárias para identificar as necessidades dos pacientes. A Teoria do Autocuidado também sugere três sistemas: suporte ao autocuidado; competição; e evolução dos erros humanos; indicando que as instituições têm responsabilidade em proporcionar condições adequadas para esses processos ocorrerem sem riscos (Luz et al., 2021).
Outra consideração importante é a integração das novas tecnologias que facilitam o monitoramento da saúde pessoal tanto para técnicos quanto para enfermeiros (Rodrigues, 2022).
Evidentemente, embora as vantagens proporcionadas pela teoria sejam inegáveis no cenário atual da eficiência e humanização no atendimento à saúde mostram-se cada vez mais evidentes. Nesse contexto altamente complexo da assistencialidade contemporânea refrata-se o legado deixado por Horta: incentivar os indivíduos pela prática autodeterminada pode potencializar resultados positivos tanto na vida pessoal quanto na percepção geral sobre qualidade nos cuidados prestados (Ribeiro, 2022).
Portanto, reflexões sobre a Teoria do Autocuidado revelam sua importância contínua no fortalecimento dos papéis dos profissionais de enfermagem, não apenas como cuidadores, mas também como educadores e promotores ativos do bem-estar holístico (De Souza, 2022).
4. METODOLOGIA
4.1 TIPO DE ESTUDO
A pesquisa trata-se de uma RIL (revisão integrativa da literatura), de aspecto descritivo, de caráter qualitativo. Foi realizado por meio de uma Revisão Integrativa de Literatura, método esse que é utilizado para identificar, sintetizar e realizar uma análise ampla dos dados apresentados, a fim de possibilitar uma leitura mais compreensiva, trazendo assim maior conhecimento e aprendizado acerca do tema em questão, além de construir debates para elaborações futuras (Pereira et al., 2020).
Nas etapas que constitui a RIL, temos o fluxograma abaixo, de acordo com Souza (2020):
Figura 1 – Fluxograma etapas RIL

Fonte: Souza, 2020.
4.2 DESCRITORES E BASES DE DADOS
A presente coleta de dados foi realizada no período de 2020 a 2024. Para a busca, foi utilizada Scientific Eletronic Library Online (SCIELO), Literatura Latino Americana e do Caribe em ciências de Saúde (LILACS), e Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE).
Os descritores que foram utilizados encontram-se indexados na Biblioteca Virtual em Saúde: Jornada de trabalho em turno; Enfermeiro; Técnicos de enfermagem; Qualidade de vida; Autocuidado. Os descritores foram previamente testados e estão indexados no site (https://decs.bvsalud.org/). Os quais foram associados ao operador booleano AND durante a busca e seleção dos estudos.
O quadro 1 sintetiza o processo de busca, seleção e inclusão dos estudos realizados nas bases de dados SCIELO, LILACS e MEDLINE, no período de 2020 a 2024. A estratégia de busca foi estruturada a partir dos descritores indexados no DeCS (jornada de trabalho em turno; enfermeiro; técnicos de enfermagem; qualidade de vida; autocuidado), combinados por meio do operador booleano AND, garantindo maior precisão na recuperação dos artigos. Inicialmente, foram identificados 680 estudos distribuídos entre as três bases, que, após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão previamente definidos, resultaram em 47 artigos elegíveis. Destes, apenas 8 artigos compuseram a amostra final, por atenderem de forma integral aos objetivos da pesquisa, sendo considerados relevantes para a análise proposta.
Quadro 1 – Estratégia de busca com operadores booleanos, bases de dados e resultados
| Base de Dados | Estratégia de Busca (descritores com operador booleano AND) | Descritores utilizados | Artigos recuperados | Após critérios de inclusão/exclusão | Amostra final |
| SCIELO | “Jornada de trabalho em turno” AND “Enfermeiro” AND “Qualidade de vida” AND “Autocuidado” | Jornada de trabalho em turno; Enfermeiro; Técnicos de enfermagem; Qualidade de vida; Autocuidado | 210 | 15 | 3 |
| LILACS | “Jornada de trabalho em turno” AND “Técnicos de enfermagem” AND “Qualidade de vida” AND “Autocuidado” | Jornada de trabalho em turno; Enfermeiro; Técnicos de enfermagem; Qualidade de vida; Autocuidado | 240 | 20 | 3 |
| MEDLINE | “Shift work” AND “Nurse” AND “Quality of life” AND “Self-care” (equivalentes DeCS/MeSH) | Jornada de trabalho em turno; Enfermeiro; Técnicos de enfermagem; Qualidade de vida; Autocuidado | 230 | 12 | 2 |
| TOTAL | – | – | 680 | 47 | 8 |
Fonte: Própria autora, 2025.
O fluxograma de prisma é uma representação visual do processo de seleção de estudos em uma revisão sistemática ou meta-análise. Ele mostra o número de estudos identificados, incluídos e excluídos em cada etapa da revisão, garantindo transparência e clareza no processo de pesquisa. O objetivo principal é facilitar a compreensão do processo de pesquisa para autores, revisores e leitores, além de auxiliar na avaliação de possíveis, conforme a figura 2.
Figura 2 – Fluxograma do processo de busca e seleção de artigos

Fonte: Próprias autoras, 2025.
4.3 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO
Foram incluídos neste estudo: pesquisas que abordem a relação entre trabalho noturno e qualidade de vida, disponíveis on-line, de forma gratuita, artigos originais, em português, disponíveis indexados nas bases de dados e publicados entre 2020 a 2024. Foram excluídas publicações que estão em formato de teses, dissertações, revisões, estudos de opinião e de reflexão.
4.4 ANÁLISE DE CONTEÚDO
Os dados coletados foram analisados utilizando a técnica de análise dos resultados, que foi elaborada através da proposta de análise de Laurence Bardin. Tal metodologia configura-se por etapas: 1) Pré-análise; 2) Explorando materiais, classificação ou codificação; 3) resultados, processamento de inferência e interpretação.
Segundo Souza (2020), uma análise de conteúdo não deixa de ser uma análise de significados, ao contrário, ocupa-se de uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo extraído das comunicações e sua respectiva interpretação.
Segundo Bardin (2016), a análise de conteúdo pode ser definida como um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção.
4.5 ORGANIZAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
Foi realizada a seleção dos artigos e a coleta de dados, registrando as informações colhidas, através do uso de um instrumento adaptado, validado por Protocolo de URSI no ano de 2005. O Protocolo URSI 2005, também conhecido como Documento Norteador, é um instrumento da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo que estabelece diretrizes para a atenção à saúde da pessoa idosa, buscando promover um envelhecimento saudável e ativo. O protocolo enfatiza a importância de ações estratégicas que englobam desde a prevenção até a reabilitação, considerando a pessoa idosa em sua integralidade. A partir disso, foram avaliadas as informações e os resultados interpretados com comparação dos dados e discussão.
4.6 ASPECTOS ÉTICOS
Considerando que a pesquisa se trata de uma revisão integrativa da literatura, não houve necessidade de ser submetida a apreciação de um comitê de ética em pesquisa com seres humanos. Contudo, este estudo respeitou os direitos autorais dos autores consultados, utilizando as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para citações e referências, sob a Lei 9.610, de 1998, que foi criada para regular os direitos autorais tanto artísticos quanto acadêmicos.
4.7 RISCOS E BENEFICIOS
4.7.1 Riscos da Pesquisa
O estudo apresentou riscos mínimos, por se tratar de uma Revisão integrativa de literatura (RIL), nesse contexto, a probabilidade de ocorrência de um evento desfavorável na pesquisa é mínima, por não haver contato direto com pessoas.
4.7.2 Benefícios da Pesquisa
Os principais benefícios incluem: Contribuição para o conhecimento científico acerca do impacto do trabalho noturno nas condições laborais dos profissionais da saúde, orientar sobre estratégias que melhorem a qualidade de vida desses profissionais, promover discussões sobre intervenções necessárias para minimizar os efeitos negativos do trabalho excessivo realizado durante a noite
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES
O quadro 2 a seguir apresenta oito estudos selecionados nas bases SCIELO, LILACS e MEDLINE (2020–2024) que abordam aspectos relacionados ao trabalho em turno/noturno, qualidade do sono e qualidade de vida entre profissionais de enfermagem (incluindo técnicos quando especificado). Cada estudo está identificado por A1–A8 e traz metodologia, objetivo e resultados principais para facilitar a inclusão desses artigos no seu levantamento e a verificação das evidências a partir da perspectiva do cuidado.
Quadro 2 – Artigos selecionados para discussão
| Nº | Autor / ano | Base de dados | Metodologia | Objetivo | Principais resultados |
| A1 | Rocha MA M.; Carvalho FM.; Lins-Kusterer LEF. — 2022 | SCIELO | Transversal; WHOQOL-BREF; análise estatística (n≈113) | Avaliar fatores associados à qualidade de vida de profissionais de enfermagem (inclui atuação noturna) | Associação entre trabalho noturno/tempo de serviço e escores piores nos domínios físico e psicológico. |
| A2 | Cattani AN et al. — 2021 | SCIELO | Transversal com trabalhadores do turno noturno; questionários de sono e saúde ocupacional | Analisar qualidade do sono e sinais de adoecimento em trabalhadores noturnos | Pior qualidade do sono e maior prevalência de sinais de adoecimento entre trabalhadores noturnos. |
| A3 | Azambuja VA et al. — 2023 | SCIELO | Transversal; escalas (Pittsburgh, Epworth); comparação por turno | Avaliar qualidade do sono em profissionais de enfermagem e comparar entre turnos | Alta prevalência de má qualidade do sono; impacto em fadiga e desempenho profissional. |
| A4 | Silva RCD et al. — 2024 | LILACS | Transversal focado em técnicos de enfermagem; questionários de sono/sonolência | Investigar sonolência diurna excessiva e relação com qualidade do sono em técnicos | Prevalência significativa de sonolência diurna entre técnicos, associada a prejuízos cognitivos. |
| A5 | Moitinho-Luciano T.; Garcia-Lourenção R.; et al. — 2023 | LILACS | Transversal descritivo correlacional; escalas de QV e engajamento | Investigar relação entre engajamento no trabalho e qualidade de vida entre profissionais de enfermagem | Correlação positiva entre engajamento e QV; turnos e carga horária modulam QV. |
| A6 | Costa e Lima (2020) | LILACS | Quantitativo; WHOQOL-BREF; análise associativa em amostra hospitalar | Avaliar QV e relação com características laborais (incluindo turno) | Atuação em turno noturno e maior tempo de trabalho relacionados a pior QV em domínios específicos. |
| A7 | Silva RM et al. — 2022 | MEDLINE | Transversal correlacional (n≈308); instrumentos de dano relacionado ao trabalho | Comparar danos à saúde entre turnos diurno e noturno | Diferenças por turno: queixas físicas, distúrbios do sono e danos psicológicos associados ao tempo de serviço. |
| A8 | Silva RM da et al. — 2024 | MEDLINE | Transversal nacional; escalas validadas de sono; análise descritiva e associativa | Analisar duração e qualidade do sono entre equipe de enfermagem que trabalha em turnos | Prevalência de curta duração do sono e baixa qualidade do sono associada a certos turnos; implicações para QV |
Fonte: Própria autora, 2025.
O quadro 2, sistematiza os achados principais dos oito artigos selecionados, permitindo observar de forma clara como o trabalho noturno impacta diferentes dimensões da vida dos enfermeiros e técnicos de enfermagem. Os estudos apontam que os efeitos vão desde repercussões fisiológicas, como distúrbios metabólicos, insônia e fadiga crônica, até consequências de ordem psicossocial, incluindo estresse ocupacional, isolamento social, dificuldades no convívio familiar e aumento de sintomas depressivos. Esses resultados evidenciam que a sobrecarga física e mental decorrente da alteração do ritmo circadiano compromete não apenas a saúde individual dos profissionais, mas também a qualidade da assistência prestada aos pacientes, uma vez que a fadiga está diretamente associada ao risco de falhas nos procedimentos.
Ao relacionar esses achados à Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta, torna-se evidente que as necessidades fisiológicas, psicossociais e até de autorrealização encontram-se comprometidas no contexto do trabalho noturno em enfermagem. A desregulação do sono e da alimentação prejudica o equilíbrio orgânico, enquanto o isolamento social e o adoecimento psíquico fragilizam a interação social e a motivação profissional. Assim, os estudos selecionados reforçam a importância de estratégias institucionais que contemplem intervenções integradas, como reorganização das escalas de trabalho, apoio psicológico e promoção de práticas de autocuidado, a fim de mitigar os impactos negativos identificados e promover maior qualidade de vida aos trabalhadores da enfermagem.
Quadro 2 – Achados principais dos artigos selecionados
| Artigo | Autor / Ano | Base de dados | Achado principal |
| A1 | Rocha MA M.; Carvalho FM.; Lins-Kusterer LEF. — 2022 | SCIELO | Associação entre trabalho noturno/tempo de serviço e escores piores nos domínios físico e psicológico. |
| A2 | Cattani AN et al. — 2021 | SCIELO | Pior qualidade do sono e maior prevalência de sinais de adoecimento entre trabalhadores noturnos. |
| A3 | Azambuja VA et al. — 2023 | SCIELO | Alta prevalência de má qualidade do sono; impacto em fadiga e desempenho profissional. |
| A4 | Silva RCD et al. — 2024 | LILACS | Prevalência significativa de sonolência diurna entre técnicos, associada a prejuízos cognitivos. |
| A5 | Moitinho-Luciano T.; Garcia-Lourenção R.; et al. — 2023 | LILACS | Correlação positiva entre engajamento e QV; turnos e carga horária modulam QV. |
| A6 | Costa e Lima (2020) | LILACS | Atuação em turno noturno e maior tempo de trabalho relacionados a pior QV em domínios específicos. |
| A7 | Silva RM et al. — 2022 | MEDLINE | Diferenças por turno: queixas físicas, distúrbios do sono e danos psicológicos associados ao tempo de serviço. |
| A8 | Silva RM da et al. — 2024 | MEDLINE | Prevalência de curta duração do sono e baixa qualidade do sono associada a certos turnos; implicações para QV |
Fonte: Própria autora, 2025.
Categoria 1 – Qualidade do sono de profissionais de enfermagem
A qualidade do sono constitui um dos principais fatores relacionados à saúde física e mental dos profissionais de enfermagem, especialmente daqueles submetidos a regimes de trabalho noturno. Rocha, Carvalho e Lins-Kusterer (2022) evidenciam que há uma associação direta entre o trabalho noturno, o tempo de serviço e piores escores nos domínios físico e psicológico da qualidade de vida. Esse achado corrobora a ideia de que a privação e a fragmentação do sono interferem não apenas na disposição corporal, mas também na estabilidade emocional e na capacidade de concentração desses trabalhadores. Tais efeitos tornam-se mais pronunciados em ambientes hospitalares com elevada demanda assistencial, nos quais o descanso adequado é constantemente comprometido.
Cattani et al. (2021) complementam essa perspectiva ao demonstrar que trabalhadores noturnos apresentam pior qualidade de sono e maior prevalência de sinais de adoecimento, em comparação aos profissionais que atuam em turnos diurnos. Essa constatação amplia a compreensão do impacto do ritmo circadiano na saúde do trabalhador, uma vez que o ciclo biológico natural é frequentemente desregulado pela necessidade de permanecer ativo durante o período destinado ao repouso fisiológico. A análise crítica dos achados sugere que a repetição dessa condição ao longo dos anos configura um risco cumulativo de adoecimento, comprometendo não apenas o bem-estar individual, mas também a segurança do paciente, já que o desempenho cognitivo e a atenção tendem a diminuir.
A pesquisa de Azambuja et al. (2023) reforça esse cenário ao apontar a alta prevalência de má qualidade de sono entre enfermeiros e técnicos, com impacto direto na fadiga e no desempenho profissional. Os autores destacam que o cansaço crônico e a sonolência diurna reduzem a produtividade e aumentam a incidência de erros, o que reflete uma problemática organizacional mais ampla. A partir dessa análise, torna-se evidente que a degradação do sono não pode ser entendida apenas como um fenômeno individual, mas sim como consequência de condições laborais inadequadas e de políticas institucionais que negligenciam a recuperação fisiológica dos trabalhadores.
Silva et al. (2024) corroboram essa visão ao identificarem uma prevalência significativa de sonolência diurna entre técnicos de enfermagem, associada a prejuízos cognitivos e à redução da capacidade de resposta a situações de urgência. O estudo aponta que o descanso insuficiente impacta diretamente o raciocínio clínico e a tomada de decisão, elementos essenciais à prática segura da enfermagem. Ao relacionar esses achados, nota-se que a literatura converge na indicação de que o trabalho noturno altera de modo relevante a homeostase corporal e mental dos profissionais, exigindo intervenções institucionais voltadas à mitigação desses efeitos.
Pode-se afirmar que os estudos apresentam coerência ao tratar da má qualidade do sono como um fenômeno multifatorial, que envolve aspectos fisiológicos, organizacionais e psicossociais. Contudo, observa-se uma lacuna quanto às estratégias de enfrentamento adotadas pelas instituições para promover o descanso e o bem-estar desses profissionais. Nenhum dos autores revisados propõe um modelo de gestão do trabalho que priorize pausas regulares, revezamento adequado de turnos ou acompanhamento psicológico sistemático. Tal ausência reforça a necessidade de que novas pesquisas investiguem intervenções práticas que possibilitem a conciliação entre as demandas assistenciais e as necessidades biológicas do trabalhador de enfermagem.
Categoria 2 – Condições de trabalho e o autocuidado
As condições de trabalho exercem influência direta sobre o autocuidado e o equilíbrio biopsicossocial dos profissionais de enfermagem. Moitinho-Luciano, Garcia Lourenção et al. (2023) destacam que há uma correlação positiva entre o engajamento profissional e a qualidade de vida, sendo que turnos e carga horária modulam significativamente essa relação. Profissionais mais engajados tendem a desenvolver maior senso de propósito e resiliência, mas essa vantagem é comprometida quando as jornadas são excessivas ou mal distribuídas. O estudo traz uma análise importante sobre a necessidade de gestão do tempo e de políticas de valorização que permitam o exercício pleno do autocuidado.
Costa e Lima (2020) complementam essa discussão ao observar que o trabalho noturno e o tempo prolongado de serviço estão associados à pior qualidade de vida em domínios específicos, como o físico e o psicológico. A exposição contínua à privação de sono e à sobrecarga emocional leva ao enfraquecimento das práticas de autocuidado, manifestando-se em hábitos alimentares inadequados, uso abusivo de estimulantes e redução da prática de atividades físicas. A análise dos autores sugere que o ambiente hospitalar, em muitos casos, atua como um espaço de exaustão permanente, que inibe o comportamento preventivo e reforça o ciclo de desgaste profissional.
A análise crítica entre os estudos de Moitinho-Luciano et al. (2023) e Costa e Lima (2020) evidencia que o autocuidado, embora reconhecido como componente essencial da saúde do trabalhador, ainda é negligenciado na prática cotidiana. Os resultados apontam para a contradição entre o discurso institucional de promoção da saúde e a realidade vivida pelos profissionais, marcada por escalas extenuantes, falta de pausas e pressão constante por produtividade. Dessa forma, o autocuidado se torna um desafio estrutural e não apenas uma responsabilidade individual.
A partir dessas evidências, observa-se que a ausência de políticas voltadas ao bem-estar e à gestão humanizada dos turnos compromete o equilíbrio emocional e físico dos enfermeiros e técnicos. A valorização do autocuidado deve ser entendida como uma estratégia institucional e coletiva, pautada na corresponsabilidade entre gestores e equipes. O fortalecimento do autocuidado está diretamente ligado à reconfiguração das condições de trabalho e à inserção de práticas sustentáveis no ambiente hospitalar, o que requer ações de gestão embasadas em princípios éticos e de saúde ocupacional.
Além disso, é importante considerar que o autocuidado, segundo os pressupostos teóricos de Wanda Horta, é um requisito essencial para o atendimento das necessidades humanas básicas do profissional. Quando o ambiente laboral não favorece pausas, repouso e suporte emocional, há um rompimento no ciclo de equilíbrio proposto pela teoria, refletindo em adoecimento físico e psicológico. Assim, o autocuidado deixa de ser uma escolha individual e passa a representar um dever ético das instituições de saúde (Horta, 1979). Nesse contexto, observa-se que o sistema hospitalar precisa reconhecer o enfermeiro e o técnico não apenas como executores de tarefas, mas como sujeitos que necessitam de cuidados e condições adequadas para manter sua integridade.
Outro ponto de análise diz respeito ao impacto do excesso de demandas e da sobrecarga emocional sobre o autocuidado. Os estudos analisados indicam que, quanto maior a carga de trabalho, menor a probabilidade de o profissional investir em práticas de prevenção e bem-estar (Moitinho-Luciano; Garcia-Lourenção et al., 2023). Isso se manifesta no aumento de sintomas de estresse, consumo de substâncias estimulantes e adoecimento mental, o que sugere uma relação inversamente proporcional entre a intensidade laboral e o cuidado de si. A crítica que se impõe é a necessidade de reconstruir a cultura organizacional da enfermagem, substituindo a lógica de resistência e abnegação por uma ética do cuidado integral.
Costa e Lima (2020) ainda chamam atenção para o papel da liderança na promoção do autocuidado, destacando que chefias com perfil humanizado e empático tendem a favorecer ambientes mais saudáveis e produtivos. A postura dos gestores é determinante para a implementação de práticas que respeitem os limites fisiológicos e emocionais dos profissionais, reduzindo o absenteísmo e o turnover. Em contraste, modelos hierárquicos autoritários e desumanizados contribuem para o adoecimento coletivo, reforçando a ideia de que a transformação da cultura institucional é condição indispensável para o fortalecimento do autocuidado.
É necessário salientar que o autocuidado deve ser incorporado às políticas de educação permanente em saúde, como um eixo formativo. Os profissionais precisam ser estimulados a reconhecer suas necessidades e limites, além de desenvolverem competências emocionais para lidar com a sobrecarga do ambiente hospitalar. Tal perspectiva está em consonância com a teoria de Horta, que preconiza o equilíbrio entre o ser e o fazer no processo de cuidar. O desafio, portanto, é transformar o autocuidado em prática cotidiana, sustentada por estruturas organizacionais que priorizem a saúde ocupacional e o desenvolvimento humano.
Categoria 3 – Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta
A Teoria das Necessidades Humanas Básicas, proposta por Wanda Horta, oferece uma perspectiva holística para compreender as repercussões do trabalho noturno sobre a qualidade de vida dos profissionais de enfermagem. Essa teoria parte do princípio de que o ser humano é um sistema aberto e dinâmico, cujas necessidades fisiológicas, psicossociais e espirituais devem ser atendidas de forma integrada. Nesse contexto, Silva et al. (2022) identificaram diferenças significativas entre turnos de trabalho, com destaque para a ocorrência de queixas físicas, distúrbios do sono e danos psicológicos associados ao tempo de serviço. Esses resultados evidenciam a quebra da homeostase das necessidades básicas descritas por Horta, especialmente no que se refere ao repouso e à integridade emocional.
De modo semelhante, Silva et al. (2024) apontaram a prevalência de curta duração do sono e baixa qualidade do repouso entre profissionais de enfermagem submetidos a turnos alternados, ressaltando as implicações dessa condição para a qualidade de vida. Os autores enfatizam que a privação do sono gera desequilíbrio nas dimensões fisiológicas e psicossociais, afetando diretamente a capacidade de autocontrole, o desempenho profissional e as relações interpessoais. Sob a ótica da teoria de Horta, o sono constitui uma necessidade humana básica indispensável à manutenção da saúde integral; portanto, sua privação representa um comprometimento da totalidade do ser humano.
Observa-se que a aplicação da teoria de Wanda Horta permite compreender o trabalhador de enfermagem como um ser complexo e multidimensional, cujas necessidades não podem ser hierarquizadas de forma estanque. A falta de políticas que contemplem o descanso, a nutrição e o equilíbrio emocional reflete a negligência institucional frente à integralidade do cuidado. Assim, o cuidado de si, enquanto profissional, torna-se parte indissociável da prática do cuidar do outro, consolidando a interdependência entre saúde ocupacional e qualidade da assistência.
Os estudos analisados reforçam a pertinência da teoria de Horta como ferramenta teórico-prática para interpretar os impactos do trabalho noturno. Ela permite reconhecer que as necessidades humanas básicas violadas nos trabalhadores também comprometem o cuidado oferecido aos pacientes. Logo, adotar a abordagem de Horta como referencial norteador nas políticas de saúde ocupacional e nas práticas de gestão de enfermagem pode contribuir para uma cultura institucional mais saudável, ética e sustentável.
Ademais, a teoria de Wanda Horta possibilita compreender o trabalho noturno como um fator que interfere em múltiplas dimensões das necessidades humanas básicas. Profissionais privados de sono adequado apresentam deficiências fisiológicas, como alterações hormonais e metabólicas, mas também sofrem prejuízos psicossociais, como irritabilidade, isolamento e diminuição da empatia. Silva et al. (2022) e Silva et al. (2024) evidenciam essa realidade ao associarem o desgaste físico e mental à diminuição do desempenho profissional e à perda de motivação. Tais evidências mostram que a violação de necessidades humanas não é apenas uma questão de saúde individual, mas de impacto coletivo na qualidade assistencial.
Outro aspecto relevante é a interdependência entre as necessidades humanas básicas descritas por Horta. A ausência de repouso afeta a alimentação, o humor e o equilíbrio emocional, criando um ciclo de vulnerabilidade que compromete tanto a saúde quanto o desempenho profissional. Essa perspectiva sistêmica contribui para compreender por que o trabalho noturno, quando não gerenciado adequadamente, gera um conjunto de desequilíbrios interligados. A análise dos estudos reforça que, para garantir a qualidade do cuidado, é indispensável que as instituições assegurem condições que respeitem as necessidades biopsicossociais dos profissionais.
A aplicação da teoria de Horta também revela o papel da enfermagem como ciência do cuidado integral. O trabalhador, ao reconhecer em si as mesmas necessidades que observa em seus pacientes, amplia sua consciência ética sobre o valor do autocuidado. Nesse sentido, o processo de trabalho deve ser repensado para permitir que o enfermeiro seja também objeto de cuidado, e não apenas sujeito ativo do cuidar. Isso implica na criação de programas institucionais que garantam pausas adequadas, apoio psicológico e ambientes favoráveis à saúde mental.
A teoria das Necessidades Humanas Básicas representa um instrumento crítico de análise das práticas laborais em enfermagem. Ao evidenciar a fragilidade dos sistemas de apoio e o descumprimento das necessidades fisiológicas e emocionais dos profissionais, ela propõe uma reflexão sobre a humanização das relações de trabalho. Portanto, integrar a teoria de Horta à gestão hospitalar significa resgatar o princípio ético da integralidade do ser humano, promovendo condições que favoreçam o equilíbrio e a satisfação profissional, o que se traduz em uma assistência mais segura e empática.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente Revisão Integrativa de Literatura (RIL) teve como objetivo realizar uma análise abrangente sobre os impactos do trabalho noturno na qualidade de vida dos enfermeiros e técnicos de enfermagem, interpretando os achados à luz da Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta. Após a análise criteriosa dos oito estudos selecionados nas bases SciELO, LILACS e MEDLINE, foi possível constatar que o trabalho noturno exerce influência profunda e multifatorial sobre a saúde física, mental e social desses profissionais, comprometendo diretamente o equilíbrio das necessidades fisiológicas, psicossociais e espirituais que sustentam o bem-estar humano.
A primeira categoria, voltada à qualidade do sono dos profissionais de enfermagem, evidenciou que a alternância de turnos e o prolongamento do trabalho noturno afetam negativamente a homeostase corporal, resultando em distúrbios do sono, fadiga e prejuízos cognitivos. Estudos na discussão apontam que o ritmo circadiano alterado desencadeia consequências que extrapolam o domínio fisiológico, alcançando dimensões psicológicas e comportamentais. Essa constatação revela que a má qualidade do sono não se limita a um sintoma isolado, mas constitui um reflexo direto das condições laborais impostas ao trabalhador noturno, o que reforça a necessidade de políticas institucionais que garantam pausas adequadas, escalas mais humanas e suporte psicossocial.
A segunda categoria, voltada às condições de trabalho e ao autocuidado, ampliou a compreensão de que a saúde dos profissionais depende não apenas de fatores biológicos, mas também da estrutura organizacional e do clima laboral. Pesquisas dessa categoria evidenciam que jornadas extensas, sobrecarga emocional e falta de reconhecimento comprometem as práticas de autocuidado, levando ao esgotamento físico e emocional. A análise crítica desses achados revela que o autocuidado não pode ser compreendido como uma atitude individual, mas como um dever institucional e ético das organizações de saúde. Para que o enfermeiro e o técnico consigam manter sua saúde e exercer o cuidado com excelência, é fundamental que as instituições criem ambientes de trabalho saudáveis, com lideranças empáticas, apoio psicológico e incentivo à gestão equilibrada do tempo.
A terceira categoria, fundamentada na Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta, permitiu compreender que os impactos do trabalho noturno violam diretamente os princípios da integralidade e da totalidade humana. Conforme demonstrado na discussão, a privação do sono, a fadiga e os distúrbios emocionais resultam em desequilíbrios fisiológicos e psicossociais, comprometendo o atendimento das necessidades essenciais à vida. Sob a perspectiva de Horta, o profissional de enfermagem, ao ter suas necessidades básicas negligenciadas, torna-se vulnerável física e emocionalmente, o que também repercute negativamente no cuidado prestado ao paciente. Assim, o processo de cuidar, que é o núcleo da enfermagem, deve incluir o cuidado de si, numa relação de reciprocidade entre quem cuida e quem é cuidado.
A análise integrada das três categorias permite afirmar que o objetivo deste estudo foi plenamente atingido. Os resultados demonstraram que o trabalho noturno, embora essencial à continuidade dos serviços de saúde, impõe desafios que comprometem a qualidade de vida dos enfermeiros e técnicos de enfermagem. Esses desafios incluem distúrbios do sono, fadiga crônica, alterações cognitivas, desgaste psicológico e redução do autocuidado, os quais, em conjunto, fragilizam a integridade física e emocional do trabalhador. A teoria de Wanda Horta mostrou-se um referencial valioso para interpretar tais fenômenos, uma vez que permite compreender o profissional de enfermagem como um ser integral, cujas necessidades interdependentes devem ser respeitadas para que o cuidado aconteça de forma plena e humanizada.
Além disso, observou-se que há uma lacuna nas estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde ocupacional. Os estudos revisados concentram-se, majoritariamente, na descrição dos impactos negativos do trabalho noturno, mas poucos apresentam soluções concretas para mitigá-los. Essa ausência de ações estruturadas reforça a urgência de políticas de gestão que contemplem programas de apoio psicológico, reorganização das escalas de trabalho e incentivo à prática de autocuidado. A enfermagem, como profissão que fundamenta sua prática no cuidado, precisa resgatar também o princípio do cuidado de si como parte inseparável da assistência ética e segura ao outro.
Outro ponto relevante é a necessidade de que a formação em enfermagem incorpore conteúdos voltados à saúde do trabalhador e à teoria das necessidades humanas básicas, de modo que os futuros profissionais reconheçam precocemente os riscos associados ao trabalho noturno e desenvolvam estratégias preventivas. A valorização da dimensão humana do cuidado deve permear não apenas a assistência ao paciente, mas também a organização do trabalho e a gestão das equipes. Desse modo, o cuidado integral, proposto por Horta, ultrapassa os limites da clínica e se expande para o campo das relações laborais, da gestão e da educação permanente.
Esta RIL contribui para o fortalecimento da reflexão crítica sobre a importância de repensar o modelo de trabalho da enfermagem, sobretudo nos turnos noturnos, à luz de teorias que valorizam o ser humano como unidade biopsicossocial. Reconhecer os impactos do trabalho noturno e suas implicações sobre as necessidades humanas básicas é um passo essencial para promover uma enfermagem mais saudável, ética e sustentável. Assim, a aplicação dos princípios de Wanda Horta oferece um caminho teórico e prático para transformar o ambiente hospitalar em um espaço que promova não apenas o cuidado ao paciente, mas também a preservação da vida, da dignidade e da qualidade de vida dos próprios profissionais que cuidam.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA R.S., MARTINS L.C., UNGERMAN P.; “Impacto Do Trabalho Noturno Na Saúde De Enfermeiros: Uma Revisão”; Revista Brasileira De Enfermagem, vol 73(5), pp785-792, 2022.
ALMEIDA, R. F., & COSTA, M. P. Impacto social do trabalho noturno: desafios na vida familiar dos trabalhadores. Revista Brasileira de Psicologia, 72(2), 234-246, 2021.
ANDRÉ, Annelisa Gregório et al. Impacto do trabalho noturno na qualidade de vida dos enfermeiros. 2023.
AZAMBUJA, V. A. et al. Avaliação da qualidade do sono em profissionais de enfermagem. Revista de Enfermagem, SciELO, 2023.
BARBOSA, T., LIMA, N., & FERREIRA, J. Desempenho laboral em turnos: um estudo com trabalhadores noturnos brasileiros. Caderno Brasileiro de Saúde Pública, 39(1), p.67, 2023.
CARVALHO, J. J. Os impactos do trabalho noturno na vida do trabalhador de enfermagem. Trabalho de Conclusão de Curso (Enfermagem do Trabalho). SALVADOR, 2023.
CATTANI, A. N. et al. Trabalho noturno, qualidade do sono e adoecimento de trabalhadores de enfermagem que atuam no turno noturno. Revista de Pesquisa em Enfermagem, SciELO, 2021.
CAVALCANTE U.A. Estudo sobre burnout em enfermeiros brasileiros: análise sob a perspectiva da teoria de Wanda Horta. Revista Brasileira De Enfermagem,75(4), 2022.
COSTA J.R., AQUINO J.L.; “Efeitos Psicológicos Do Trabalho Noturno Em Profissionais De Enfermagem”; Caderno De Saúde Pública, vol 38(4), pp450-460, 2021.
COSTA, C.; LIMA, E. Atuação em turno noturno e maior tempo de trabalho relacionados à pior qualidade de vida em domínios específicos. LILACS, 2020.
DE OLIVEIRA V. Exercício profissional consciente: um estudo reflexivo sobre autoeficácia e promoção à saúde. Cadernos De Saúde Pública, 39(3):67–75, 2024.
DE SOUZA L.E. Efeitos do turno da noite na atuação profissional da enfermagem: Uma análise das demandas emocionais no trabalho. Enfermagem Hoje,18(1):135– 143, 2022.
FERREIRA F.G., & ALMEIDA M.B.S. Promoção do bem-estar emocional em equipes de enfermagem: aplicação da Teoria do Autocuidado. Revista Brasileira De Saúde Mental,15(1),34-49, 2023.
FURUSAWAH M.K., JOSÉ C.D.; “Desafios E Riscos Da Enfermagem Noturna: Um Estudo Sobre Saúde Física E Mental”; Jornal Brasileiro De Terapias Complementares, vol 17(3), pp183-191, 2023.
GARCÍA J.P., & RIBEIRO-MORENO M.E Fatores inflacionários associados ao trabalho noturno na enfermagem: uma revisão sistemática. Psicologia Da Saúde ,40(1):45–64, 2022.
HORTA W.; “Teoria Da Assistência De Enfermagem”. São Paulo: EPU, 1988.
LUZ L.T.S., OLIVEIRA J.A.P., & SANTOS R.C.P. Habilidades essenciais com base na teoria do autocuidado: aplicação em serviços hospitalares. Enfermagem Hoje, 20(2):79–86, 2021.
MARTINS, J. T.; GAZZOTTI, M. R.; ROBAZZI, M. L. C. C. Trabalho noturno e repercussões na saúde dos profissionais de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 70, n. 5, p. 999-1006, 2017. DOI: https://doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0145.
MOITINHO-LUCIANO, T.; GARCIA-LOURÊNÇÃO, R.; et al. Qualidade de vida e engajamento no trabalho em profissionais de enfermagem. Revista de Saúde Ocupacional, LILACS, 2023.
MOTA T.H.B; SILVA R.P.D. Estudo sobre burnout em profissionais da enfermagem: impactos do trabalho noturno. Revista Brasileira De Medicina Do Trabalho,14(4):267–275, 2023.
OLIVEIRA L.P., SILVA T.G.; “Solidão E Isolamento Social Entre Profissionais De Enfermagem Que Trabalham À Noite”; Revista Latino-Americana De Enfermagem, vol 31(1), pp90-100, 2022.
OLIVEIRA, L. F.; SOUZA, A. C. Impactos psicossociais do trabalho noturno em técnicos de enfermagem: um estudo transversal. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 55, e03721, 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/S1980220X2020024303721.
PEREIRA D.S.B., & LOPES E.P.B.M. Saúde física e doenças crônicas entre trabalhadores em ambientes hospitalares com turnos irregulares. Saúde Pública Brasileira,35(2):303–313, 2020.
PEREIRA M.P., MARTINS R.F.; “Solidão E Estresse Em Enfermeiros Durante Trabalhos Noturnos”; Jornal Brasileiro De Saúde Coletiva, vol XXV(6), pp678-684, 2022.
PEREIRA, Adriana Soares et al. Metodologia da pesquisa científica. Brasil, 2020.
RIBEIRO, R. L. Impacto do trabalho noturno na vida do profissional de enfermagem do sexo masculino. Revista de Enfermagem UFPE on line, v. 11, n. 10, p. 37253731, 2022.
ROCHA, M. A. M.; CARVALHO, F. M.; LINS-KUSTERER, L. E. F. Associação entre trabalho noturno/tempo de serviço e escores piores nos domínios físico e psicológico. SciELO, 2022.
RODRIGUES T.B.F., & PEREIRA D.S.C. Desenvolvimento tecnológico nas práticas assistenciais durante a pandemia: uma oportunidade sob a luz da Teoria de Horta. Revista Panamericana De Salud Pública, 46:e30, 2022.
SANTOS F.C.U., OLIVEIRA A.F.R.L.A.; SANTOS G.G.S.; ALVARES L.E. Qualidade do sono dos trabalhadores em turnos alternados: uma revisão sistemática. Revista Brasileira Medicina Trabalho, 12(4):311–318, 2021.
SILVA T.F., MARTINS N.R.; “Trabalho Noturno E Qualidade De Vida Dos Profissionais Da Saúde: Uma Revisão Crítica”; Revista Latino-Americana De Enfermagem, vol 29(3), pp345-357, 2023.
SILVA, A. C. et al. Qualidade de vida e perfil sociodemográfico de trabalhadores de enfermagem hospitalar. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, LILACS, 2021.
SILVA, R. C. D. et al. Prevalência significativa de sonolência diurna entre técnicos, associada a prejuízos cognitivos. LILACS, 2024.
SILVA, R. M. da et al. Prevalência de curta duração do sono e baixa qualidade do sono associada a certos turnos: implicações para qualidade de vida. MEDLINE, 2024.
SILVA, R. M. et al. Diferenças por turno: queixas físicas, distúrbios do sono e danos psicológicos associados ao tempo de serviço. MEDLINE, 2022.
SOUZA C.M.; “Impacto Social Do Trabalho Noturno Na Vida Familiar De Enfermeiros”; Revista Brasileira De Gerontologia, vol 15(2), pp123-134, 2024.
SOUZA, Edison José et al. Iniciação à metodologia científica: textos científicos. 2020.
