IMPACTO DO USO DE TROMBOLÍTICOS DURANTE O PERÍODO TERAPÊUTICO EM PACIENTES COM ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL ISQUÊMICO

IMPACT OF THROMBOLYTIC USE DURING THE THERAPEUTIC PERIOD IN PATIENTS WITH ISCHEMIC STROKE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511131240


Allyson da Costa e Silva Carvalho1
Natália de Sena Monteiro Lima Pinheiro2
Magda Rogéria Pereira Viana3
Luiz Bezerra Neto4
Orientadora: Dra. Adélia Dalva da Silva Oliveira5


RESUMO

O acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI) é uma das principais causas de morte no mundo, apresentando graves repercussões na funcionalidade e na qualidade de vida dos pacientes. Os trombolíticos, terapia indicada para o tratamento precoce do AVCI, têm como objetivo restaurar o fluxo sanguíneo cerebral, minimizando os danos neurológicos. O objetivo deste estudo foi analisar o impacto do uso de trombolíticos em pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico tratados dentro do período terapêutico estabelecido, identificando os principais desfechos clínicos, benefícios e limitações dessa intervenção. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura. A coleta de dados foi realizada nas bases SciELO e LILACS, por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Para a busca, utilizaram-se os descritores “trombolíticos”, “janela terapêutica” e “tratamento do AVCI”, em português e inglês, combinados com o operador booleano AND. Foram incluídos estudos publicados entre 2021 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra. Excluíram-se teses, capítulos de livros e revisões não sistemáticas. Ao final, foram selecionados oito artigos. A maioria apresentou nível de evidência 2, com predominância de revisões sistemáticas e estudos de coorte observacionais, conferindo consistência científica aos achados. Conclui-se que a análise da eficácia da trombólise intravenosa (TIV) no tratamento do AVCI evidencia que essa intervenção representa um dos principais avanços terapêuticos na abordagem dessa condição neurológica aguda. Os estudos revisados demonstram de forma consistente que a administração precoce de agentes trombolíticos, como o alteplase, dentro da janela terapêutica de 4,5 horas após o início dos sintomas, está diretamente associada à redução significativa das taxas de morbidade e mortalidade.

Descritores: Trombolítico. Janela terapêutica. Acidente Vascular Cerebral Isquêmico.

ABSTRACT 

Ischemic stroke (IS) is one of the leading causes of death worldwide, with serious repercussions on patients’ functionality and quality of life. Thrombolytics, the therapy indicated for the early treatment of IS, aim to restore cerebral blood flow, minimizing neurological damage. The objective of this study was to analyze the impact of thrombolytics in patients with ischemic stroke treated within the established therapeutic period, identifying the main clinical outcomes, benefits, and limitations of this intervention. This is an integrative literature review. Data collection was performed in the SciELO and LILACS databases, through the Virtual Health Library (VHL). The search terms “thrombolytics,” “therapeutic window,” and “stroke treatment” were used in Portuguese and English, combined with the Boolean operator AND. Studies published between 2021 and 2025, in Portuguese, English, and Spanish, and available in full text, were included. Theses, book chapters, and non-systematic reviews were excluded. Ultimately, eight articles were selected. Most presented level 2 evidence, with a predominance of systematic reviews and observational cohort studies, lending scientific consistency to the findings. The analysis of the efficacy of intravenous thrombolysis (IVT) in the treatment of stroke demonstrates that this intervention represents one of the major therapeutic advances in the management of this acute neurological condition. The reviewed studies consistently demonstrate that early administration of thrombolytic agents, such as alteplase, within the therapeutic window of 4.5 hours after symptom onset, is directly associated with a significant reduction in morbidity and mortality rates. 

Descriptors: Thrombolytic. Therapeutic window. Ischemic stroke.

1. INTRODUÇÃO

No Brasil, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais causas de morte, responsável por aproximadamente 90.000 mortes/ano, a maior taxa da América Latina. Apesar de afetar tipicamente indivíduos com mais de 60 anos, o AVC pode ocorrer em qualquer idade, incluindo crianças (Roxa et al., 2021).

O AVC é caracterizado pela diminuição ou bloqueio completo do suprimento sanguíneo cerebral. É segregado em duas variedades: trombótico (tipo isquêmico) ou causado pelo descolamento de um vaso cerebral, o que resulta no vazamento de sangue para o parênquima cerebral (tipo hemorrágico). É uma falha neurológica aguda de origem vascular que se manifesta por sintomas e sinais que correspondem ao envolvimento do cérebro em áreas específicas. Caracteriza-se pelo início súbito de uma deficiência neurológica causada por uma alteração vascular que interrompe o fluxo sanguíneo para uma região específica (De Andrade; Silva; De Souza, 2023).

Quando não é fatal, o AVC deixa aproximadamente 45% de suas vítimas com incapacidades funcionais e cognitivas. O resultado da incapacidade funcional dos indivíduos é a restrição de seus movimentos e desempenho em tarefas diárias, bem como a necessidade de terceiros para auxiliá-los na conclusão dessas tarefas, o que afeta negativamente sua autonomia. Além disso, a qualidade do atendimento é afetada, o que leva à diminuição da qualidade de vida do paciente e de seus cuidadores, principalmente devido aos aspectos emocionais (Antônio et al., 2021).

Vários fatores contribuem para o risco, sendo os principais classificados em três categorias: os modificáveis (HAS, tabagismo, diabetes mellitus), os não modificáveis (idade, gênero, raça) e grupos de risco potenciais (sedentarismo, obesidade, tabagismo. Com a intenção de diminuir os efeitos dos sintomas causados pelo AVC isquêmico, foram desenvolvidos protocolos que usam trombolíticos para promover a recuperação da isquemia o mais rápido possível após o AVC (De Andrade; Silva; De Souza, 2023).

A terapia trombolítica é uma forma de tratamento que é iniciada durante a fase aguda do AVC, essa terapia é reconhecida como um tratamento para AVC isquêmico devido ao seu potencial de restabelecer o fluxo sanguíneo por meio da administração do ativador do plasminogênio tecidual recombinante (RT-PA). Como o AVC isquêmico envolve o bloqueio de uma artéria cerebral, o objetivo principal da trombólise é desobstruir a artéria para evitar danos irreversíveis ao tecido (Roxa et al., 2021).

O protocolo de tratamento envolve pacientes com mais de 18 anos, que foram diagnosticados com AVC isquêmico e cujos sintomas começaram há menos de 4,5 horas. No entanto, pacientes que apresentam uma das seguintes condições são excluídos: pressão arterial sistólica após o tratamento que seja maior que 185 mmHg ou menor que 110 mmHg, comprometimentos funcionais leves, punção lombar, presença de perda sanguínea e uso de heparina, alterações neurológicas e cirurgia importante recente ou convulsões durante o início do AVC (Pedra et al., 2020).

A doença deve ser tratada o mais rápido possível para que se obtenha sucesso na terapia trombolítica, não podendo ultrapassar a janela de 4 horas e meia. O procedimento de trombólise combinado com reabilitação demonstrou resultados positivos, comprovados por estudos que contrastaram pacientes que receberam trombolíticos com um grupo controle composto por pessoas que receberam placebo (De Andrade; Silva; De Souza, 2023).

1.1 OBJETIVO

Analisar o impacto do uso de trombolíticos em pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico tratados dentro do período terapêutico estabelecido, identificando os principais desfechos clínicos, benefícios e limitações dessa intervenção.

1.2 JUSTIFICATIVA

O AVC é uma das causas mais comuns de doença e morte no mundo todo, essa doença tem um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes afetados. O tratamento precoce de AVC isquêmico, especialmente durante a janela terapêutica, é fundamental para reduzir a incidência de complicações e recuperação funcional. A utilização de trombolíticos tem sido considerada um dos avanços significativos no tratamento dessa condição, quando administrados nas primeiras 4,5 horas do início dos sintomas.

Estudar os efeitos dos trombolíticos em pacientes dentro da janela de tratamento é crucial para entender os benefícios que causam em reduzir significativamente o risco de complicações graves e conhecer as limitações desse tratamento fornecendo informações primordiais a literatura que podem ser usadas para melhorar o tratamento e aumentar a taxa de recuperação e a qualidade de vida.

2. METODOLOGIA

O estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura do tipo integrativa da literatura. Segundo Souza, Silva e Carvalho (2010), a revisão integrativa é um método que combina resultados existentes sobre um tema, utilizando uma abordagem ampla, a fim de contrastar métodos de pesquisa que diferem em suas compreensões de mundo.

Este estudo foi operacionalizado por meio de seis etapas as quais estão estreitamente interligadas: elaboração da pergunta para pesquisa; busca na literatura; coleta de dados; análise crítica dos estudos incluídos; discussão dos resultados e apresentação da revisão integrativa (Souza; Silva; Carvalho, 2010).

Na fase inicial, foi utilizada a estratégia PICo (População, Interesse, Contexto) como ferramenta para orientar a formulação da pergunta de pesquisa, conforme apresentado no Quadro 1.

Quadro 1. Estratégia PICo norteadora do presente estudo

ElementoDescriçãoAplicação no estudo
P (População)Pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI)População-alvo dos estudos analisados
I (Interesse)Uso de trombolíticos no período terapêutico adequadoInvestigação sobre eficácia, benefícios e resultados clínicos
Co (Contexto)Tratamento do AVCI no período terapêutico estabelecidoCenário clínico da intervenção trombolítica

Com base nessa estrutura, formulou-se a seguinte pergunta para pesquisa: “Qual é o impacto do uso de trombolíticos no tratamento de pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico dentro da janela terapêutica estabelecida?”

A busca foi realizada nas bases de dados SciELO e LILACS, por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados os seguintes descritores controlados (DeCS/MeSH): “trombolíticos”, “janela terapêutica” e “tratamento do AVCI”, combinados com o operador booleano AND, tanto em português quanto em inglês (thrombolytics, therapeutic window, ischemic stroke treatment).

Os estudos incluídos foram submetidos à leitura exploratória e analítica, com extração das seguintes informações: autor, ano de publicação, tipo de estudo, objetivos, principais resultados e conclusões.

A análise qualitativa foi realizada de forma descritiva, buscando identificar convergências e divergências entre os achados, bem como evidências sobre a eficácia e os desfechos clínicos do uso de trombolíticos no tratamento do AVC isquêmico.

Foram utilizados como critérios de inclusão estudos publicados entre 2021 e 2025, nos idiomas português, inglês, espanhol e disponíveis na íntegra. E como critério de exclusão teses, capítulos de livros e artigos de revisão não sistemática.

A partir da combinação dos descritores, foram identificados 255 artigos. Na avaliação inicial dos resumos, 175 estudos foram excluídos por duplicidade ou falta de relação direta com o tema, restando 80 artigos. Em seguida, 40 trabalhos foram eliminados por não atenderem aos critérios de elegibilidade, resultando em 40 artigos selecionados para leitura completa. Após essa etapa, 29 foram excluídos por não responderem à pergunta norteadora, culminando em uma amostra final de 11 artigos que abordaram efetivamente a questão de pesquisa.

A Figura 1 apresenta o fluxograma concernente ao processo de seleção dos artigos que compõem este estudo:

3. RESULTADOS

O presente estudo incluiu onze artigos que atenderam aos critérios de inclusão previamente estabelecidos. No Quadro 2, os estudos selecionados estão caracterizados quanto ao periódico, ano de publicação, título, autores, tipo de pesquisa, ideia central e nível de evidência, possibilitando uma visão comparativa das evidências científicas sobre o uso de trombolíticos no tratamento do acidente vascular cerebral isquêmico.

Quadro 2. Caracterização dos estudos acerca da repercussão dos trombolíticos em pacientes em período terapêutico para tratamento do acidente vascular cerebral isquêmico. Teresina, 2025

Periódico/ Ano de publicaçãoTítuloAutores Tipo de pesquisaIdeia centralNível de evidência
Revista Brasileira de Terapia Intensiva (RBTI)/ 2023Fatores associados a incapacidade funcional após acidente vascular cerebral isquêmicoSales, et al.Estudo prospectivo, de coortePacientes que chegaram ao hospital após 4,5 horas do início dos sintomas e não receberam TIV apresentaram maior incapacidade. Já aqueles tratados com TIV tiveram melhores escores NIHSS, menor internação, baixa mortalidade e menos complicações, confirmando-a como base do tratamento do AVCI agudo.2
Revista Brazilian Journal of Medical and Biological Research (BJMBR)/ 2021Effect of intravenous thrombolysis with alteplase on clinical efficacy, inflammatory factors, and neurological function in patients with acute cerebral infarctionWang, et al.,Estudo prospectivo, randomizado, controladoNa fase inicial do AVCI agudo, a trombólise em até 4,5 horas melhora o prognóstico ao restaurar o fluxo sanguíneo e reduzir o infarto cerebral. Pacientes tratados com Alteplase tiveram maior melhora nos escores NIHSS que aqueles tratados com Batroxobina.1
Acta Fisiátrica 2022Fatores clínicos e sociodemográficos associados a recuperação da marcha de indivíduos após acidente vascular cerebral trombolisado na fase agudaSilva, et al.,Estudo longitudinalA maioria dos pacientes (87,5%) recuperou a capacidade de andar em até sete dias após o AVC isquêmico; cerca de metade no primeiro dia e 21% após três dias ou mais, indicando que a trombólise favorece recuperação funcional precoce.4
Revista Sociedade Brasileira de Clínica Médica / 2022Análise do procedimento de trombólise endovenosa em pacientes com acidente vascular encefálico isquêmicoSzymanski, et al.,Estudo observacional, transversal, com coleta censitária e análise de dados secundáriosO estudo mostrou que a maioria dos pacientes realizou tomografia em até 10 minutos após a chegada, mas aguardou 1 a 2 horas para a trombólise intravenosa (TIV). As diretrizes brasileiras, baseadas no NIHSS, recomendam até 45 minutos para tomografia e 60 minutos para aplicação do trombolítico. A administração precoce da TIV melhora a reperfusão cerebral e reduz complicações cognitivas e motoras.4
Revista BMC Neurology/ 2023Repeated intravenous thrombolysis in recurrent ischemic stroke within 3 months: a systematic reviewWen, et al.,Revisão sistemáticaA hemorragia intracraniana sintomática (HIS) foi mais frequente em pacientes com intervalo menor que 30 dias entre doses de trombolíticos (25% vs. 4,9%) e em casos com pontuações NIHSS mais altas antes da TIV. O estudo indica que o intervalo entre TIVs e a pontuação NIHSS basal devem ser critérios importantes na seleção de pacientes para trombólise repetida (RTIV).2
Revista Brain and Behavior/2024Intravenous thrombolysis in acute ischemic stroke patients with pre‐stroke disability: A systematic review and meta‐analysisBao, et al.Revisão sistemática com metanáliseO estudo mostra que pacientes com AVCI agudo e incapacidade prévia têm maior risco de morte após a TIV em comparação aos sem déficits anteriores, embora não haja diferença significativa nas complicações graves nas primeiras 24 horas após o tratamento.2
Revista European Stroke Journal/2023Intravenous thrombolysis for acute ischemic stroke is associated with lower risk of post-stroke dementia: A nationwide cohort studyVestergaard, et al.Estudo observacional de coorte retrospectivaA TIV no AVC isquêmico está associada a redução de até 37% no risco de demência, incluindo a vascular, em comparação a pacientes não tratados. Esse efeito protetor mantém-se por até 10 anos e é mais evidente em casos de AVC moderado a grave.2
Frontiers in pharmacology/ 2025Cerebral ischemia-reperfusion injury: mechanisms and promising therapiesYang et alRevisão narrativaA compreensão aprofundada dos mecanismos da lesão por reperfusão é essencial para o desenvolvimento de terapias mais eficazes na recuperação pós-AVC isquêmico.5
Revista Medicine/ 2023Risk factors for the outcome after thrombolysis in acute ischemic stroke–the prominent role of kidney dysfunction: A retrospective cohort observational studyDragoș, et al.,Estudo observacional de coorte retrospectivaA importância da disfunção renal como determinante do prognóstico em pacientes submetidos à TIV para AVCI é notável, dada a análise detalhada da relação entre diversos desfechos neurológicos e os desfechos finais do tratamento. É crucial dar atenção especial aos pacientes com disfunção renal submetidos à TIV, pois podem apresentar pior prognóstico e maior risco de morte durante a hospitalização.2
The Neurologist / 2024Association between insulin resistance markers and poor prognosis in patients with acute ischemic stroke after intravenous thrombolysisLiu, Liu e ZuoEstudo observacional de coorte prospectivoNíveis elevados de resistência à insulina estão relacionados a piores resultados funcionais e maior mortalidade, sugerindo que esse fator metabólico pode reduzir a eficácia da reperfusão cerebral e aumentar o risco de complicações pós-trombólise.2
Journal of Thrombosis and Thrombolysis / 2025Intravenous thrombolysis in the context of stroke and cancer.Burini et alEstudo observacional analítico multicêntricoCom monitoramento laboratorial rigoroso e seleção criteriosa dos pacientes, o uso de alteplase em indivíduos anticoagulados com AVC isquêmico pode ser considerado seguro e eficaz, ampliando as opções terapêuticas para esse grupo clínico complexo e tradicionalmente excluído da trombólise intravenosa.2

Fonte: Dados da Pesquisa, 2025.

No Quadro 2, observa-se que os periódicos analisados não se repetiram, indicando que diversas revistas têm abordado a temática. O ano de 2023 destacou-se com quatro publicações, seguido pelos anos de 2022, 2024 e 2025, com duas publicações cada, e por fim 2021, com um artigo. Quanto ao nível de evidência, predominou o nível 2, presente em sete estudos, seguido pelo nível 4 (dois artigos) e pelos níveis 1 e 5 (um artigo cada). Essa predominância de revisões sistemáticas e estudos de coorte observacionais confere robustez metodológica e consistência científica aos achados, reforçando a relevância dos resultados obtidos na literatura analisada.

4. DISCUSSÃO

O acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI) representa uma das principais causas de mortalidade e incapacidade em todo o mundo. O uso de trombolíticos intravenosos dentro do período terapêutico constitui o principal avanço terapêutico das últimas décadas, promovendo reperfusão cerebral e recuperação funcional significativa. Os achados deste estudo corroboram evidências recentes que demonstram benefícios clínicos expressivos da trombólise quando administrada precocemente, dentro de até 4,5 horas do início dos sintomas, reduzindo sequelas neurológicas e melhorando o prognóstico global dos pacientes (Sales et al., 2023).

Do ponto de vista fisiológico, o mecanismo de ação dos trombolíticos, como o alteplase (rt-PA), baseia-se na ativação do plasminogênio, convertendo-o em plasmina, enzima responsável pela degradação da fibrina do trombo. Esse processo restaura o fluxo sanguíneo cerebral, limita a área de penumbra isquêmica e reduz a progressão do infarto cerebral. Conforme descrito por Wang et al., (2021), o uso de alteplase em pacientes com AVCI agudo resultou em melhora significativa dos escores neurológicos (NIHSS) e redução de marcadores inflamatórios, reforçando a importância da reperfusão precoce. 

De forma semelhante, Silva et al., (2022) analisaram a recuperação da marcha em pacientes submetidos à TIV na fase aguda do AVCI. O estudo longitudinal, realizado com 32 indivíduos, demonstrou que 87,5% recuperaram a capacidade de deambulação independente em até sete dias após o evento, sendo que cerca de metade readquiriu a marcha já no primeiro dia de internação. Esses resultados destacam a eficácia da trombólise na reperfusão cerebral e sua influência positiva sobre a recuperação motora e funcional, evidenciando o potencial da TIV em acelerar o retorno à autonomia física e reduzir sequelas incapacitantes, como a hemiparesia e os déficits de equilíbrio.

No âmbito clínico, o tempo para início da terapia é o principal determinante do desfecho. Sales et al., (2023) evidenciaram que o tratamento dentro da janela terapêutica resulta em menores taxas de incapacidade, redução do tempo de internação e menor mortalidade hospitalar. De forma complementar, Szymanski et al., (2022) destacaram o impacto do tempo porta-tomografia e porta-agulha nos resultados terapêuticos. Em seu estudo, 51,9% dos pacientes realizaram tomografia em até 10 minutos após a chegada e receberam TIV entre uma e duas horas, apresentando melhora significativa no escore NIHSS (de 12 para 6 pontos) e ausência de óbitos ou necessidade de trombectomia mecânica. Esses achados reforçam que a agilidade na avaliação e no início da TIV é determinante para melhores desfechos neurológicos, ressaltando a importância da gestão eficiente do tempo nas emergências.

De forma convergente, os resultados obtidos por Sales et al., (2023) e Szymanski et al., (2022) reforçam que a agilidade e a padronização do atendimento são essenciais para garantir o sucesso da trombólise e reduzir a incapacidade funcional após o AVCI. Pacientes que chegaram ao hospital após 4,5 horas do início dos sintomas, com histórico prévio de AVC e sem tratamento trombolítico, apresentaram maior incidência de incapacidade moderada a grave após 90 dias, reforçando a relevância da adesão rigorosa à janela terapêutica.

A segurança do tratamento trombolítico também merece destaque. A hemorragia intracraniana sintomática (HIS) é a principal complicação associada à terapia e está relacionada à gravidade do AVC, idade avançada e comorbidades. Wen et al., (2023) relataram maior incidência de HIS em pacientes submetidos à trombólise repetida em intervalos menores que 30 dias, especialmente naqueles com escores NIHSS elevados. 

O estudo de Bao et al., (2024), por outro lado, evidencia aspectos essenciais da trombólise intravenosa (TIV) em pacientes com AVC isquêmico agudo e histórico prévio da doença. Os autores constataram que indivíduos com sequelas de AVC anterior apresentaram maior mortalidade após a TIV em comparação àqueles sem déficits prévios, evidenciando a necessidade de avaliar cuidadosamente riscos e benefícios. Embora a literatura comprove a segurança e eficácia da TIV dentro da janela terapêutica e conforme critérios clínicos, condições pré-existentes podem elevar o risco e comprometer o prognóstico. Assim, a indicação da TIV deve ser individualizada, considerando o estado funcional e as comorbidades de cada paciente.

Ainda segundo Bao et al., (2024), embora tenha sido identificada uma maior mortalidade entre pacientes com histórico de AVC, não foram observadas diferenças significativas nas primeiras 24 horas em relação à ocorrência de complicações graves ou à melhora neurológica, avaliada pela escala NIHSS. Tais achados reforçam que, quando bem indicada e aplicada de forma adequada, a TIV mantém perfil de segurança e eficácia satisfatório, mesmo em grupos com histórico neurológico prévio.

De modo complementar, Sales et al., (2023), destacam que a identificação precoce de fatores associados à incapacidade funcional após um AVCI é essencial para otimizar os desfechos clínicos. Os autores salientam que a utilização da TIV, quando possível, associada ao controle rigoroso de condições crônicas, como hipertensão arterial, desempenha papel determinante na redução da incapacidade pós-AVC. Além disso, enfatizam a importância de estratégias que reduzam o tempo entre o início dos sintomas e a chegada ao hospital, ampliando a elegibilidade dos pacientes para tratamentos eficazes. A ênfase na janela terapêutica reforça a necessidade de políticas de saúde voltadas ao reconhecimento rápido dos sinais do AVC e ao acesso imediato à terapia trombolítica, especialmente em indivíduos com eventos prévios.

A repercussão cognitiva após o AVCI também tem sido abordada na literatura recente. Em perspectiva distinta, Vestergaard et al., (2023), investigaram a relação entre o tratamento trombolítico e o risco de demência, observando redução de até 37% no risco geral, incluindo demência vascular, entre pacientes tratados com TIV. Esse efeito, mantido por até 10 anos, sugere ação neuroprotetora duradoura. Assim, além de promover recuperação funcional imediata, a TIV pode prevenir o declínio cognitivo em casos de AVC moderado a grave. De modo complementar, Yang et al., (2025) apontam que a reperfusão precoce reduz a ativação microglial e a neuroinflamação, favorecendo a recuperação cognitiva prolongada.

A presença de comorbidades exerce influência importante sobre os desfechos clínicos. Dragos et al., (2023) identificaram a disfunção renal crônica (DRC) como fator prognóstico relevante em pacientes submetidos à TIV, demonstrando que a redução da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) se associa a pior prognóstico neurológico e maior mortalidade hospitalar. Assim, os autores recomendam incluir a função renal nos critérios de elegibilidade para trombólise, dada a DRC ser um fator de risco independente. De modo semelhante, Liu, Liu e Zuo (2024) observaram menor resposta terapêutica em pacientes diabéticos, devido à rigidez microvascular e à disfunção da autorregulação cerebral, reforçando a importância de uma avaliação clínica criteriosa antes da administração do trombolítico.

Nos últimos anos, a segurança da trombólise em pacientes sob uso de anticoagulantes diretos (DOACs) tem sido reavaliada. Burini et al., (2025) evidenciaram que, com controle laboratorial adequado, o uso de alteplase em pacientes anticoagulados pode ser seguro, ampliando as possibilidades terapêuticas em um cenário clínico cada vez mais complexo. Wang et al., (2021) compararam o uso de Alteplase e Batroxobina no tratamento do AVCI. O estudo, envolvendo 120 participantes divididos igualmente entre os grupos terapêuticos, demonstrou eficácia total de 81,67% para o Alteplase, contra 61,67% para a Batroxobina. Avaliações neurológicas e cognitivas (NIHSS, MEEM e MoCA) revelaram melhora significativamente superior no grupo tratado com Alteplase. Além disso, o medicamento mostrou-se seguro, sem aumento de complicações adversas, e mais eficaz na redução da resposta inflamatória e na proteção neuronal. Esses resultados corroboram a adoção preferencial do Alteplase na prática clínica, consolidando-o como o padrão ouro no manejo do AVC isquêmico agudo.

De modo geral, os estudos analisados evidenciam que a trombólise intravenosa continua sendo o tratamento de escolha para o AVC isquêmico agudo, desde que aplicada dentro da janela terapêutica e sob critérios clínicos rigorosos. A reperfusão precoce reduz a extensão da isquemia, melhora o prognóstico funcional e pode preservar funções cognitivas. Contudo, fatores como atraso no atendimento, ausência de estrutura hospitalar adequada e presença de comorbidades impactam negativamente os resultados clínicos. Assim, reforça-se a importância de estratégias de reconhecimento rápido dos sinais de AVC, implementação de protocolos de atendimento emergencial e ampliação do acesso à terapia trombolítica nos serviços de urgência.

5. CONCLUSÃO 

Os resultados desta revisão integrativa permitem concluir que a trombólise intravenosa (TIV) representa um dos principais avanços terapêuticos no manejo do acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI). A evidência científica analisada demonstra de forma consistente que a administração precoce de agentes trombolíticos, como o Alteplase, dentro da janela terapêutica de 4,5 horas após o início dos sintomas, está diretamente associada à redução das taxas de morbimortalidade e à melhora significativa dos desfechos funcionais. 

A reperfusão cerebral rápida, obtida pela dissolução do trombo e consequente restabelecimento do fluxo sanguíneo, é determinante para limitar a extensão do infarto e preservar o tecido neuronal viável. Além disso, a redução nas pontuações da NIHSS observada em pacientes tratados com TIV reforça os benefícios neurológicos e funcionais dessa terapêutica, traduzindo-se em melhor recuperação motora, cognitiva e maior independência funcional no período pós-AVC. 

Entretanto, é imprescindível reconhecer que a trombólise intravenosa apresenta riscos potenciais, especialmente o de hemorragia intracerebral, o que reforça a necessidade de seleção criteriosa dos pacientes, adesão rigorosa aos protocolos clínicos e monitoramento contínuo durante e após o tratamento. 

O êxito dessa abordagem depende não apenas da disponibilidade do fármaco, mas também da eficiência dos serviços de emergência, da agilidade na identificação dos sintomas e da capacitação das equipes multiprofissionais envolvidas no atendimento. Assim, a integração entre os diferentes níveis de atenção e a implementação de fluxos assistenciais otimizados são essenciais para o sucesso terapêutico e a redução das sequelas neurológicas. 

Conclui-se, que a trombólise intravenosa constitui uma estratégia terapêutica consolidada e de comprovada eficácia na reversão dos déficits neurológicos causados pelo AVC isquêmico agudo. Contudo, ressalta-se a importância de novas investigações científicas voltadas à otimização da segurança e da efetividade da TIV, bem como à identificação de subgrupos de pacientes que possam se beneficiar de maneira mais expressiva dessa intervenção.

REFERÊNCIAS

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1Graduando do Curso de Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: allysontouru@yahoo.com.br
2Graduanda do Curso de Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: dranataliamonteiro@outlook.com
3Professora do Curso de Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). Pós Doutoranda em Engenharia Biomédica, pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutora em Engenharia Biomédica pela Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP. Mestre Profissional em Saúde da Família pelo Centro Universitário – UNINOVAFAPI. E-mail: adgamairegor@gmail.com
4Professor do Curso de Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia. Mestre em saúde da família pelo Centro Universitário UNINOVAFAPI E-mail: luizbezerraneto78@gmail.com
5Professora do Curso de Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). Pós Doutora em Enfermagem Fundamental pela Universidade de São Paulo. Doutora em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí. Mestre em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí. E-mail: adeliaoliveira091127@gmail.com