IMPACT OF NUTRITION ON POPULATION WITH CHRONIC DISEASES
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202509272256
Andreina Pinheiro Guedes1
Iadra Fabrícia Nascimento de Moura1
Michely Chaves de Almeida1
Francisca Marta Nascimento de Oliveira Freitas2
Rosimar Honorato Lobo3
RESUMO
A Doença de Crohn configura-se como uma enfermidade inflamatória intestinal crônica, de etiologia multifatorial, frequentemente associada à disbiose intestinal e à ocorrência de desnutrição, fatores que comprometem de maneira significativa a qualidade de vida dos indivíduos acometidos. O presente estudo teve como objetivo analisar a relevância da terapia nutricional no manejo da Doença de Crohn, enfatizando a adoção de estratégias alimentares individualizadas e seus desfechos clínicos. Para tanto, procedeu-se à revisão e análise das principais intervenções nutricionais aplicadas ao contexto da doença, abrangendo dietas de exclusão, suplementação específica e utilização de probióticos. Os achados indicam que tais estratégias contribuem para a redução dos processos inflamatórios, a correção de deficiências nutricionais e a restauração do equilíbrio da microbiota intestinal, além de desempenharem papel importante na prevenção de recaídas. Conclui-se que a terapia nutricional representa um componente essencial e complementar às abordagens farmacológicas e cirúrgicas, prevenindo complicações nutricionais e proporcionando melhora expressiva na qualidade de vida dos pacientes portadores da Doença de Crohn.
Palavras-chave: Doença de crohn, Nutrição, Inflamação intestinal
ABSTRACT
Crohn’s disease is a chronic inflammatory bowel disease of multifactorial etiology, often associated with intestinal dysbiosis and malnutrition, factors that significantly compromise the quality of life of affected individuals. This study aimed to analyze the relevance of nutritional therapy in the management of Crohn’s disease, emphasizing the adoption of individualized dietary strategies and their clinical outcomes. To this end, we reviewed and analyzed the main nutritional interventions applied to the disease context, including exclusion diets, specific supplementation, and the use of probiotics. The findings indicate that such strategies contribute to the reduction of inflammatory processes, the correction of nutritional deficiencies, and the restoration of intestinal microbiota balance, in addition to playing an important role in preventing relapses. We conclude that nutritional therapy represents an essential and complementary component to pharmacological and surgical approaches, preventing nutritional complications and providing significant improvements in the quality of life of patients with Crohn’s disease.
Keyword: Crohn’s disease, Nutrition, Intestinal inflammation
1. INTRODUÇÃO
A doença de Crohn (DC) é uma afecção inflamatória intestinal de origem crônica de etiologia ainda desconhecida, caracterizada pelo acometimento focal, assimétrico e transmural de qualquer porção do tubo digestivo, da boca ao ânus. caracteriza-se sob três formas inflamatória, fistulosa e fibroestenosante. Os segmentos de tubo digestivo mais comprometidos são íleo terminal, cólon (intestino grosso) e região perianal. Além das manifestações no sistema digestório, a doença de Crohn pode ter aparições extraintestinais, sendo as mais frequentes as oftalmológicas, as dermatológicas e as reumatológicas (Picon et al., 2014).
Os sintomas da Doença de Crohn trazem impacto na qualidade de vida dos pacientes, alteram seus hábitos alimentares, psicológico e aspectos sociais, como relacionamentos, escola, trabalho e lazer. A doença de Crohn apresenta importantes alterações nutricionais, que estão relacionadas com a atividade da doença. A disbiose intestinal, um desequilíbrio na comunidade microbiana, desempenha um papel essencial na patogênese da doença. A permeabilidade intestinal aumenta permite que bactérias e seus produtos tóxicos entrem em contato direto com o tecido intestinal, exacerbando a resposta imune (Lago; Guimarães; Azevedo, 2022).
As complicações da Doença de Crohn incluem obstrução intestinal ou formação de estruturas, doença perianal, desequilíbrios hidroeletrolíticos, desnutrição decorrente da má absorção e formação de fístulas e abscessos. O tipo mais comum de fístula do intestino delgado causada pela doença de Crohn é a fístula enterocutânea (uma abertura anormal entre o intestino delgado e a pele). Os abscessos podem ser o resultado de uma fístula interna, que resulta em acúmulo de líquidos e infecção. Pacientes com doença de Crohn também correm maior risco de câncer de cólon (Hanauer; Norton, 2011).
O diagnóstico da DC é realizado pela combinação de critérios clínicos, bioquímicos, histológicos, endoscópios e de imagem, embora ainda não haja um padrão-ouro definido. As células inflamatórias desempenham um papel crucial na manutenção da atividade da doença, e muitas das abordagens terapêuticas visam inibir a cascata de citocinas inflamatórias e pró inflamatórias (Baêta et al., 2023).
O tratamento clínico é geralmente a primeira abordagem para a maioria dos pacientes sintomáticos, exceto em casos que a manifestação inicial demanda uma cirurgia de urgência. São utilizados medicamentos como antibióticos, aminosalicilatos, corticosteroides, imunomoduladores e agentes biológicos, administrados por via tópica, oral ou parenteral (Picon et al., 2014).
No entanto, muitos pacientes com Doença de Crohn não respondem de forma satisfatória ao tratamento clínico, apresentando falhas que podem ser classificadas como perda de resposta, resposta parcial, intolerância ao tratamento ou não adesão ao esquema terapêutico (Cornélio et al., 2009).
É essencial informar os pacientes sobre os possíveis efeitos adversos e colaterais associados aos medicamentos.Caso o tratamento escolhido não proporcione melhora clínica, deve-se considerar a substituição ou combinação de terapias (Marsh, 2023).
A intervenção cirúrgica passa a ser indicada quando há persistência dos sintomas, apesar do manejo clínico otimizado, ou em situações de urgência. A manutenção de terapias clínicas ineficazes pode agravar a evolução da doença e aumentar significativamente o risco de complicações cirúrgicas graves (Gomollón et al., 2017).
Normalmente, indivíduos diagnosticados com Doença de Crohn passam por episódios marcados por sintomas gastrointestinais severos, como diarreia, vômitos, náuseas, dores abdominais, alterações no paladar, constipação e falta de apetite, o que pode levar ao desenvolvimento de quadros de desnutrição. Nesse contexto, a intervenção nutricional adequada representa uma estratégia terapêutica essencial no ambiente hospitalar, com o objetivo de prevenir, tratar ou minimizar a desnutrição e suas possíveis complicações (Peixoto, 2015).
A desnutrição é uma condição complexa e multifatorial, resultante da ingestão inadequada ou da utilização prejudicada de energia, proteínas e demais nutrientes, comprometendo negativamente a evolução clínica do paciente hospitalizado e associando-se a um aumento significativo da morbidade e mortalidade (Bhupathiraju, 2023).
Imprescindível que cada paciente seja avaliado de forma individualizada, visando a definição da conduta dietoterápica mais apropriada à sua situação clínica atual. Em muitos casos, o paciente pode estar atravessando uma fase aguda da doença, o que torna indispensável o acompanhamento médico e nutricional contínuo e personalizado (Waltzberg, 2019).
O objetivo dessa pesquisa é analisar as consequências clínicas e nutricionais da Doença de Crohn, destacando a relação entre inflamação intestinal crônica, disbiose e desnutrição, bem como avaliar o papel da intervenção nutricional no manejo da doença, na melhora da qualidade de vida e na redução de complicações associadas.
2. METODOLOGIA
2.1 Tipo de estudo
Este estudo é de natureza qualitativa por meio de abordagem de revisão de literatura, para uma melhor compreensão do impacto da nutrição em portadores de doença de Crohn.
2.2 Coleta de dados
Os dados foram coletados nas seguintes bases: Google Acadêmico, Pubmed e Scielo, e sites oficiais e periódicos. Os artigos científicos foram selecionados nos idiomas português e inglês. Foram utilizados como palavras-chave: “Doenças inflamatórias intestinais”, “Doença de Crohn”, “Microbiota Intestinal”, “tratamento nutricional na Doença de Crohn” e “Dietas para Doença de Crohn”. Foram pesquisados artigos com anos de publicação de 2005 a 2025.
A inelegibilidade foi realizada com base nos seguintes critérios: títulos que divergiam do escopo inicialmente definido pelas palavras-chave utilizadas e artigos cujo resumo já indicava não serem relevantes para os objetivos deste trabalho.
2.3 Análise de dados
Observa-se na figura 1, os dados foram analisados conforme o fluxograma elaborado para demonstrar os registros obtidos, excluídos, incluídos e o quantitativo que mantivemos para utilizar no levantamento de dados qualitativos necessários para confecção do estudo.
Figura 1 – Fluxograma da metodologia da etapa de seleção dos estudos


Após a seleção do material bibliográfico pertinente, realizou-se uma leitura cuidadosa e uma análise minuciosa dos dados coletados, com o objetivo de elaborar um texto coeso, preciso e de fácil compreensão.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
As Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), especialmente a Doença de Crohn (DC) e a Retocolite Ulcerativa (RCU), são enfermidades autoimunes crônicas que acometem o trato gastrointestinal, caracterizadas por períodos de atividade intensa intercalados com fases de remissão (Santos et al., 2018).
A DC é geralmente diagnosticada em adolescentes e adultos jovens, embora possa surgir em qualquer faixa etária. Sua incidência tem aumentado de forma consistente nos últimos 30 anos, sendo mais frequente em indivíduos fumantes do que em não fumantes (Peppercorn, 2012).
Trata-se de uma doença inflamatória crônica e grave, que pode acometer qualquer segmento do trato digestório, com maior predileção pelo íleo terminal e pelo cólon (Torres et al., 2017).
A suscetibilidade à doença envolve múltiplos fatores, incluindo predisposição genética, alterações da microbiota intestinal e influências ambientais. Esses elementos interagem, desencadeando uma resposta imunológica exacerbada contra a mucosa intestinal e comprometendo a integridade da barreira epitelial (Cabeda et al., 2024).
Aproximadamente 12% dos pacientes apresentam histórico familiar positivo, reforçando o componente hereditário de sua patogênese (Torres et al., 2017).
As lesões da DC são transmucosas, afetando desde a mucosa até a serosa, porém de forma descontínua, com áreas inflamadas intercaladas por segmentos de tecido saudável (Machado, 2017; Oliveira et al., 2017; Abreu et al., 2021).
Essa inflamação ocasiona sintomas como diarreia frequentemente acompanhada de sangue e muco, além de dor abdominal recorrente. Em consequência, há prejuízos na digestão e absorção de nutrientes, o que pode levar a perda de peso e deficiências nutricionais (Abreu et al., 2021).
Complicações mais graves incluem fístulas intestinais ou perianais, abscessos intra abdominais, peritonite, estenoses e obstruções intestinais (Santolin, 2023). Assim, indivíduos com DC apresentam risco aumentado de déficits nutricionais tanto pela própria doença quanto pelo tratamento medicamentoso, tornando a intervenção nutricional essencial para restaurar e manter um estado nutricional adequado (Apolinário et al., 2019).
Os dados nacionais ainda são incipientes, mas a tendência de aumento da prevalência em países em desenvolvimento indica que a DC deixou de ser uma condição restrita a países industrializados. Esse padrão sugere que fatores como urbanização rápida, mudanças dietéticas e globalização do estilo de vida podem estar desempenhando papel mais relevante que a simples poluição urbana. Isso reforça a necessidade de pesquisas que analisem contextos regionais, especialmente no Brasil, onde a diversidade cultural e alimentar pode influenciar diretamente na manifestação clínica e evolução da doença (Kaplan et al., 2017; Abreu, 2024).
No estado do Amazonas, os dados oficiais sobre DII ainda são escassos, mas registros apontam crescimento na incidência, embora em níveis inferiores aos das regiões Sul e Sudeste. A distribuição desigual, com estados menos populosos apresentando taxas superiores a estados mais populosos, reforça que a densidade demográfica não é determinante para a ocorrência da doença (Ferreira, 2022; Abreu, 2024).
A DC apresenta formas mais graves em crianças e adolescentes, impactando diretamente a qualidade de vida e dificultando a adesão e a eficácia do tratamento (Protásio et al., 2018).
Nessa população, a doença pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento físico devido à baixa ingestão alimentar, má absorção de nutrientes e uso de fármacos imunomoduladores (Silva, 2015).
Além disso, adolescentes com DC frequentemente enfrentam distúrbios do sono, dificuldades emocionais e maior vulnerabilidade a quadros de ansiedade e depressão, devido ao impacto acumulativo da doença em sua rotina social e escolar (Menezes; Faro, 2018).
Diante desse cenário, a terapia nutricional deve ser adaptada para pacientes jovens, auxiliando-os durante os períodos de crise e remissão. A alimentação, além de suprir necessidades nutricionais, desempenha papel central na modulação da doença e no enfrentamento das crises (Hakansson, 2011).
A inflamação é um mecanismo natural de defesa do organismo contra germes nocivos, células danificadas ou agentes irritantes. Entretanto, nas doenças inflamatórias intestinais (DII), o sistema imunológico apresenta uma resposta exacerbada e inadequada, comprometendo o funcionamento adequado dos órgãos afetados (Hakansson, 2011).
Pesquisas apontam que alterações no microbioma intestinal na comunidade de microrganismos, como bactérias e vírus que habitam o trato digestivo podem desempenhar um papel relevante nesse processo (Hicklin, 2017).
O desequilíbrio dessa microbiota, conhecido como disbiose, está associado à inflamação intestinal e à redução da capacidade absortiva, favorecendo deficiências nutricionais e distúrbios metabólicos (Almeida et al., 2008).
A disbiose caracteriza-se pela diminuição da diversidade bacteriana, alteração na proporção entre filhos, redução de microrganismos benéficos e aumento de bactérias patogênicas e inflamatórias. Essas mudanças já foram associadas a várias doenças crônicas (Hattner; Anderes, 2009).
Além disso, certos grupos bacterianos, ao metabolizar nitrogênio para produzir aminoácidos e enzimas, podem contribuir para a progressão da Doença de Crohn (Hicklin, 2017).
Embora haja consenso de que a disbiose e a permeabilidade intestinal estejam envolvidas na patogênese da DC, ainda não está claro se essas alterações são causa primária ou consequência da inflamação crônica. Essa incerteza impacta diretamente nas estratégias terapêuticas: se a disbiose for determinante inicial, intervenções dietéticas e probióticas precoces poderiam alterar o curso da doença; se for secundária, seu papel seria mais limitado e adjuvante (Oliveira, 2019).
A composição da microbiota intestinal é única para cada indivíduo e sofre influência de fatores genéticos, ambientais, idade e, principalmente, hábitos alimentares. Dessa forma, a dieta desempenha papel central na manutenção da eubiose, podendo promover tanto efeitos benéficos quanto prejudiciais à saúde intestinal (Hattner; Anderes, 2009).
No contexto da Doença de Crohn, a alimentação equilibrada torna-se ainda mais essencial, visto que a inflamação aumenta a depleção de nutrientes (Ueno, 2025). Nesse cenário, diferentes estratégias dietéticas têm sido investigadas, incluindo a Dieta Específica de Carboidratos (DCE), a Dieta de Exclusão da Doença de Crohn (DEDC), frequentemente associada à Nutrição Enteral Parcial (NEP), a dieta com baixo teor de FODMAPs, a Dieta Mediterrânea e outras abordagens anti-inflamatórias (Oliveira, 2019). Apesar de promissora, a utilização da DCE na DC levanta questionamentos práticos quanto à adesão a longo prazo, já que envolve restrições rígidas e pouco compatíveis com a realidade alimentar da maioria dos pacientes. Assim, sua aplicação clínica pode ser mais viável em curto prazo ou em casos refratários, do que como estratégia contínua, reforçando a importância de personalizar a intervenção (Lamounier, 2021).
Já a DEDC consiste em uma dieta baseada em alimentos integrais, com a exclusão de componentes pró-inflamatórios que afetam negativamente a microbiota, a barreira intestinal e a resposta imune (Boneh et al., 2024). Quando combinada à NEP, essa abordagem apresenta melhores resultados no controle da inflamação (Lamounier, 2021).
A dieta com restrição de FODMAPs é recomendada para pacientes com sintomas gastrointestinais persistentes, incluindo aqueles com DC. O protocolo geralmente dura entre 6 e 8 semanas, visando reduzir desconfortos digestivos relacionados à fermentação exacerbada de certos carboidratos (Borges, 2021).
A Dieta Mediterrânea, por sua vez, caracteriza-se pelo alto consumo de vegetais, frutas, cereais integrais, nozes, leguminosas e gorduras insaturadas, com ingestão moderada de peixes e laticínios, e baixa ingestão de carne vermelha, doces e gorduras saturadas (Wade et al., 2019).
Apesar de alguns desafios de adesão em pacientes com DII, sua adaptação individualizada pode favorecer a redução da inflamação intestinal e a manutenção de uma microbiota saudável (Guimarães et al., 2024).
Diante desse cenário, compreender a interação entre dieta e microbiota intestinal não apenas fortalece as intervenções nutricionais já utilizadas, mas também abre caminho para novas estratégias terapêuticas e preventivas na Doença de Crohn (Ross et al., 2024).
A prevenção das carências nutricionais em pacientes com Doença de Crohn (DC) é indispensável, visto que a desnutrição é uma complicação frequente das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII). Esse quadro decorre tanto dos sintomas da doença quanto da má absorção de nutrientes, sendo um fator de risco relevante para complicações clínicas. Estudos evidenciam que o acompanhamento nutricional associado ao tratamento medicamentoso contribui para reduzir deficiências, aliviar sintomas, melhorar a qualidade de vida e até favorecer a remissão da atividade inflamatória (Fernandes et al., 2014).
Silva et al., (2011), ao avaliarem 55 pacientes entre 16 e 62 anos com DII, observaram que tanto na fase ativa quanto na fase de remissão houve ingestão alimentar inferior às recomendações diárias. A desnutrição energético-proteica mostrou-se associada a maior mortalidade, complicações cirúrgicas, maior tempo de hospitalização e necessidade de suporte nutricional enteral ou parenteral. Em crianças e adolescentes, a terapia nutricional desempenha papel ainda mais relevante, prevenindo atraso de crescimento e corrigindo deficiências nutricionais.
A avaliação do estado nutricional deve ser rotina no acompanhamento desses pacientes, pois orienta a conduta dietoterápica (Oliveira; Silva; Dall’Alba, 2016). Entre os métodos utilizados estão: aferição de peso e estatura para cálculo do IMC, medidas de circunferência e pregas cutâneas, exames bioquímicos, recordatórios ou registros alimentares, e a Avaliação Subjetiva Global.
Na fase ativa da DC, a alimentação deve priorizar o alívio dos sintomas e a prevenção da desnutrição. Recomenda-se uma dieta hipercalórica (30–35 kcal/kg/dia), hiperproteica (1– 1,5 g/kg/dia, podendo chegar a 2 g/kg/dia em casos de desnutrição grave) e hipolipídica (>20% das calorias totais), uma vez que a alta ingestão de gordura pode agravar a diarreia (Diestel; Santos; Romi, 2012; Cuppari, 2005).
A exclusão de lactose também é indicada, já que a inflamação compromete a atividade da lactase. Além disso, recomenda-se o consumo de fibras solúveis, que auxiliam na consistência das fezes e favorecem o crescimento de bifidobactérias, mas a restrição de fibras insolúveis, que aceleram o trânsito intestinal (Cuppari, 2005). Deve-se ainda moderar o consumo de sódio, principalmente em pacientes em uso de corticoides (Lottenberg; Tomita; Buonacorso, 2010).
As deficiências de micronutrientes são altamente prevalentes. A anemia afeta até 80% dos pacientes na fase ativa da doença, e há maior risco de osteopenia devido à baixa ingestão de cálcio e vitamina D, associada ao uso prolongado de corticoides (Sobrado et al., 2015).
Também são comuns carências de vitamina B12, ácido fólico, ferro, potássio, magnésio e vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K), relacionadas à má absorção intestinal (Diestel; Santos; Romi, 2012; Oliveira; Silva; Dall’Alba, 2016).
Em casos de complicações, como fístulas, a conduta nutricional deve ser ajustada. Fístulas localizadas no reto ou cólon distal requerem dietas pobres em resíduos ou enteral elementar; já as de alto débito, sobretudo no íleo terminal, podem demandar suporte parenteral (Campos et al., 2007).
Quando a via oral não supre as necessidades energéticas devido a sintomas como náuseas, vômitos, inapetência e diarreia, recomenda-se iniciar suporte enteral ou, se necessário, nutrição parenteral (Brasil, 2015).
Na fase de remissão, não existe uma dieta padronizada, mas orienta-se alimentação equilibrada e individualizada, evitando restrições desnecessárias e identificando alimentos que possam causar desconforto (Almeida et al., 2016; Queiroz et al., 2019). Os carboidratos simples devem ser reintroduzidos gradualmente, conforme tolerância, e as fibras insolúveis evoluídas progressivamente.
A nutrição enteral é preferida em relação à parenteral por preservar a mucosa intestinal, reduzir custos e minimizar complicações. A nutrição parenteral deve ser reservada a situações específicas, como obstruções, fístulas de alto débito ou no pré-operatório (Flora; Dichi, 2006; Cuppari, 2005; Fernandes et al., 2014).
Estudos indicam que a nutrição enteral pode induzir remissão em 53% a 80% dos casos, sem diferença significativa entre fórmulas poliméricas e elementares, embora estas últimas possam causar maior risco de diarreia osmótica (Silva et al., 2011; Diestel; Santos; Romi, 2012).
Quadro 1 – Alimentos que devem ser evitados de acordo com a atividade da Doença de Crohn

Na fase ativa da Doença de Crohn, a inflamação aumenta o gasto energético, compromete a absorção intestinal e eleva perdas de nutrientes por meio de diarreia, vômitos e sangramentos (Hashash et al., 2024).
Algumas consequências são dietas hipocalóricas/hipoproteicas e “autorrestrições” durante a crise favorecem perda ponderal e de massa magra. Sarcopenia na DC associa-se a mais hospitalizações e abscessos e a piores desfechos globais. Garantir ~1,2–1,5 g/kg/dia de proteína é recomendado nas crises (Gomollón et al., 2024).
Déficits de ferro, B12, folato, vitamina D, zinco e selênio são frequentes por má absorção ileal, perdas e dietas pobres; relacionam-se a anemia, fadiga, imunidade baixa e cicatrização lenta. A triagem e correção sistemáticas fazem parte do cuidado (Mcdonnell et al., 2023).
Padrões alimentares ocidentais, caracterizados pelo consumo de ultraprocessados e aditivos (ex., emulsificantes), favorecem a disbiose intestinal e estão associados ao aumento da atividade clínica e maior risco de recidiva na Doença de Crohn. Em contraste, padrões alimentares baseados em alimentos in natura ou minimamente processados apresentam efeito protetor (Sarbagili-Shabat et al., 2025).
Dietas desequilibradas com baixo aporte proteico-energético, restrições alimentares extensas sem supervisão e alto consumo de ultraprocessados e aditivos potencializam desnutrição, sarcopenia, disbiose intestinal e exacerbação da inflamação, prejudicando os desfechos clínicos (Hashash et al., 2024).
A Doença de Crohn compromete de forma significativa o estado nutricional dos pacientes, podendo resultar em carências de micronutrientes e desnutrição. O acompanhamento nutricional é, portanto, indispensável, já que a dietoterapia se configura como uma estratégia eficaz para restabelecer o equilíbrio de nutrientes e atender às demandas energéticas do organismo. Essa abordagem pode incluir dietas específicas, restrições seletivas e suplementações, sempre considerando as necessidades individuais (Oliveira, 2012).
Uma alimentação balanceada deve contemplar todos os grupos alimentares em proporções adequadas, conforme orienta o Guia Alimentar para a População Brasileira (Brasil, 2022). Mesmo em contextos de restrição alimentar, é fundamental priorizar variedade, prazer à mesa e personalização das escolhas.
Durante as fases de atividade da doença, determinados alimentos podem agravar os sintomas gastrointestinais e devem ser evitados, como hortaliças e frutas com alto teor de fibras insolúveis, sementes, nozes, carnes gordurosas ou processadas, frituras e ultraprocessados (Santos et al., 2013). Já alimentos mais suaves e de fácil digestão tendem a ser melhor tolerados, especialmente quando o trato gastrointestinal está inflamado (Almeida, 2025). Nesse contexto, os triglicerídeos de cadeia média, presentes em óleos como os de coco e palma, são recomendados por fornecerem energia de rápida absorção (Rodrigues et al., 2021). O tratamento nutricional também pode incluir fórmulas enriquecidas com ácidos graxos ômega-3, aminoácidos como a glutamina, antioxidantes, além de probióticos e prebióticos. Os ácidos graxos de cadeia curta desempenham papel importante na manutenção da mucosa intestinal, favorecendo o fluxo sanguíneo local e a absorção de água e sódio (Romano; Errante, 2016).
Os prebióticos, compostos por carboidratos não digeríveis, estimulam o crescimento de bactérias benéficas (Davani, 2019).
Embora estudos apontem benefícios dos probióticos na modulação imunológica, a heterogeneidade das cepas, doses e formas de administração ainda dificulta recomendações padronizadas. Isso evidencia que, apesar do potencial terapêutico, a prática clínica deve adotar postura cautelosa, evitando generalizações e considerando apenas evidências consistentes para determinados perfis de pacientes (Saad, 2006).
Os probióticos podem reduzir a proliferação de bactérias nocivas, modular citocinas inflamatórias e melhorar a permeabilidade intestinal (Rasban et al., 2022). Durante a fase ativa, a ingestão de fibras deve ser limitada para evitar sintomas como cólicas, distensão abdominal e diarreia. No entanto, em períodos de remissão, fibras solúveis podem auxiliar na manutenção da saúde intestinal, promovendo trânsito intestinal mais lento, maior maciez fecal e equilíbrio da microbiota. Já as fibras insolúveis devem ser introduzidas com cautela, devido ao risco de intensificação dos sintomas (Lottenberg; Tomita; Buonacorso, 2010).
Entre os compostos funcionais estudados, destaca-se o amido resistente, encontrado em alimentos como banana verde, batata crua e grãos integrais, que apresenta alta tolerância, favorece a produção de ácidos graxos de cadeia curta (como o butirato) e auxilia no controle da inflamação intestinal (Goyal et al., 2014; Wong et al., 2016; Pereira, 2007).
O manejo clínico da DC varia de acordo com a gravidade. No tratamento primário, busca-se controlar a fase aguda e manter a remissão com medicamentos como imunossupressores, corticosteroides e antibióticos, em associação à terapia nutricional individualizada. Já o tratamento secundário envolve o uso de terapias específicas para evitar a progressão da doença e, nos casos mais graves, a abordagem cirúrgica pode ser necessária para complicações como obstruções, fístulas, abscessos, hemorragias ou perfurações (Romano; Errante, 2016).
Os imunossupressores reduzem a atividade do sistema imunológico, contribuindo para o controle da inflamação crônica. Contudo, essa redução da resposta imune aumenta a suscetibilidade a infecções bacterianas, virais e fúngicas, que podem evoluir de forma mais grave nesses pacientes (Machado, 2018).
Na tabela 1, observa-se que os estudos reunidos evidenciam a Doença de Crohn sob múltiplos enfoques, destacando fatores genéticos, ambientais e imunológicos, bem como a relevância da nutrição e de dietas específicas no seu manejo. Além disso, ressaltam a importância de intervenções precoces e estratégias terapêuticas para o controle eficaz da doença e a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.
Tabela 1 – Abordagens nutricionais e científicas no manejo da Doença de Crohn

A análise da literatura evidencia avanços consistentes no entendimento da Doença de Crohn (DC) e das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), tanto em relação à sua fisiopatologia quanto ao manejo clínico. A revisão de Hernández et al., (2025) fornece uma síntese abrangente sobre a patogênese, destacando a interação entre fatores genéticos, ambientais, alterações da microbiota e respostas imunológicas. Esses elementos fundamentam a natureza multifatorial da doença, justificando a necessidade de intervenções terapêuticas integradas.
No âmbito nutricional, Lamounier (2021) e Santos et al., (2021) convergem ao apontar a relevância da terapia dietética como parte essencial do tratamento. Lamounier (2021) apresenta dietas específicas, como a Dieta de Exclusão da Doença de Crohn (DEDC), a Nutrição Enteral Parcial (NEP), a Dieta Mediterrânea e abordagens anti-inflamatórias, enquanto Santos et al., (2021) enfatizam o papel da terapia nutricional estruturada no controle da inflamação, prevenção da desnutrição e promoção da qualidade de vida. perspectivas reforçam que a alimentação pode atuar de forma adjuvante tanto na fase ativa quanto em períodos de remissão da doença, embora ainda haja desafios relacionados à adesão prolongada a dietas restritivas.
Complementando essa visão, Srinivasan (2024) introduz a aplicação da estratégia treat to-target (T2T) na DC, defendendo a definição de metas clínicas e endoscópicas mais rigorosas e o início precoce de intervenções com monitoramento contínuo. Essa abordagem pode ser potencialmente integrada ao manejo nutricional, tornando a nutrição parte fundamental da estratégia terapêutica dentro de um modelo de cuidado mais individualizado e orientado para resultados de longo prazo.
Por outro lado, Pisani (2020) contribui com uma perspectiva mecânica ao analisar alterações metabólicas e proteômicas associadas à fisiopatologia das DII. Esses achados aproximam-se das considerações de Hernández et al., (2025), reforçando a importância de compreender a relação entre vias metabólicas, microbiota intestinal e inflamação sistêmica. Focado em ampliar o entendimento das bases biológicas da doença, mas ainda carece de tradução para práticas clínicas aplicáveis.
Dessa forma, os trabalhos analisados se complementam: enquanto Hernández et al., (2025) e Pisani (2020) fornecem bases conceituais e moleculares, Lamounier (2021), Santos et al., (2021) e Srinivasan (2024) avançam em estratégias práticas de manejo clínico e nutricional. Contudo, persiste a necessidade de ensaios clínicos robustos e de longo prazo que validem a eficácia das dietas específicas, avaliem sua viabilidade e adesão e, sobretudo, estabeleçam protocolos que integrem nutrição, terapias farmacológicas e novas abordagens terapêuticas dentro de um modelo multifatorial e personalizado de cuidado.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Doença de Crohn é uma enfermidade crônica complexa, com impacto significativo na saúde física, emocional e social dos pacientes. A compreensão de sua etiologia multifatorial, que envolve fatores genéticos, imunológicos, ambientais e dietéticos, reforça a necessidade de abordagens multidisciplinares e individualizadas para seu manejo.
A nutrição desempenha papel central no tratamento da Doença de Crohn, não apenas no suporte ao estado nutricional, mas também na modulação da inflamação intestinal e manutenção da microbiota, contribuindo para a prevenção de novas crises e melhora da qualidade de vida. Estratégias dietéticas específicas, como dietas de exclusão, Dieta de Carboidratos Específicos, Dieta Mediterrânea e o uso de probióticos, prebióticos e fibras funcionais, mostram-se ferramentas eficazes quando adaptadas às necessidades de cada paciente.
A avaliação nutricional contínua, considerando a fase da doença, sintomas individuais e estágio de crescimento, é essencial para prevenir deficiências nutricionais, complicações clínicas e contribuir para a remissão da doença. Além disso, a integração entre tratamento clínico, nutricional e acompanhamento psicológico promove um cuidado mais completo e humanizado.
Por fim, este estudo evidencia que o planejamento nutricional individualizado deve ser parte integrante das práticas assistenciais, especialmente em contextos de recursos limitados, reforçando a importância de políticas públicas de saúde que valorizem a nutrição como elemento central no manejo da Doença de Crohn. A atenção nutricional adequada representa um avanço na qualidade do cuidado e na promoção do bem-estar dos pacientes.
REFERÊNCIAS
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1Graduandas do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: andreinaguedes084@gmail.com/Iadrafabricia84@gmail.com/Michelychaves506@gmail.com
2Orientadora do TCC, Doutora em Biotecnologia pela Universidade Federal do Amazonas. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: francisca.freitas@fametro.edu.br
3Co-orientador(a) do TCC, Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Estácio de Sá. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: Rosimar.lobo@fametro.edu.br
