O SALBUTAMOL É EFICAZ NO TRATAMENTO DA BRONQUIOLITE?

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202509271445


Fernanda dos Santos Vieira
Lívia Moreira Fortes Siqueira
Maria Eduarda Rabelo Costa
Orientador: Folmer Quintão Torres


Resumo: A bronquiolite aguda é a infecção mais comum das vias respiratórias inferiores em crianças com menos de dois anos, sendo frequentemente causada por vírus como o Vírus Sincicial Respiratório (VRS). A sua fisiopatologia envolve inflamação, edema, necrose de células epiteliais e aumento da secreção de muco, que obstruem as pequenas vias aéreas, causando tosse, pieira e dificuldade respiratória. O tratamento principal para a maioria dos casos é de suporte, incluindo oxigenoterapia, hidratação e nutrição adequadas.

Palavras chaves: Salbutamol. Bronquiolite. Vírus sincicial respiratório.

Abstract: Acute bronchiolitis is the most common lower respiratory tract infection in children under two years of age, often caused by viruses such as Respiratory Syncytial Virus (RSV). Its pathophysiology involves inflammation, edema, necrosis of epithelial cells, and increased mucus secretion, which obstruct small airways, leading to cough, wheezing, and respiratory difficulty. The main treatment for most cases is supportive, including oxygen therapy, hydration, and proper nutrition.

Kew words: Salbutamol. Bronchiolitis. Respiratory syncytial virus.

INTRODUÇÃO

A bronquiolite representa uma enfermidade das vias aéreas inferiores, acometendo predominantemente os bronquíolos, com maior incidência em lactentes e crianças menores de dois anos. O vírus sincicial respiratório humano (VSR) constitui-se como o principal agente etiológico, sendo responsável pela maioria dos episódios descritos na literatura. Além disso, a infecção pelo VSR não induz imunidade protetora duradoura, o que favorece a recorrência de episódios ao longo da vida. Todavia, outros patógenos virais, como parainfluenza, adenovírus, metapneumovírus humano, influenza e rinovírus, também estão implicados em menor frequência na gênese da doença. Globalmente, a bronquiolite representa uma das principais causas de hospitalização em pediatria, sendo responsável por significativa morbidade e elevada demanda de recursos em saúde pública. Do ponto de vista clínico, a bronquiolite inicia-se tipicamente com manifestações inespecíficas do trato respiratório superior, a exemplo de febre baixa, rinorreia e congestão nasal, evoluindo, em poucos dias, para sinais de maior gravidade, como tosse persistente, sibilância, taquipneia e intensificação do esforço respiratório.

No âmbito fisiopatológico, a doença é caracterizada por inflamação aguda nos bronquíolos, edema de mucosa e submucosa, necrose epitelial, hipersecreção mucosa e depuração mucociliar deficiente. Esses processos culminam em obstrução dos bronquíolos, o que dificulta a passagem do ar e prejudica as trocas gasosas nos pulmões. Até o momento, não há tratamento específico para a bronquiolite, sendo o suporte clínico a principal abordagem terapêutica, e o uso de broncodilatadores, como o salbutamol, permanece controverso. Diante disso, torna-se essencial reunir e analisar criticamente as evidências disponíveis para avaliar a eficácia do salbutamol no tratamento da bronquiolite, a fim de contribuir para a tomada de decisão clínica. 

OBJETIVO 

 Este artigo tem como objetivo, determinar os efeitos do uso do salbutamol no tratamento da bronquiolite. 

METODOLOGIA  

Este artigo trata-se de uma revisão de literatura, cujo objetivo foi reunir e analisar as evidências científicas mais atualizadas sobre a eficácia do salbutamol no tratamento da bronquiolite na população infantil. Para isso, foi realizada uma busca nas bases de dados: PubMed, SciELO, Cochrane Library e Google Scholar. 

Utilizou-se os seguintes descritores: ”salbutamol”, ”albuterol”, “bronquiolite”, “bronchiolitis”, “treatment”. Esses descritores foram combinados entre si por meio dos operadores booleanos “AND” e “OR”.

Foram incluídos na seleção ensaios clínicos, revisões sistemáticas e meta-análises, considerando publicações entre os anos 2010 e 2025, nos idiomas de português e inglês.

Foram excluídos estudos que abordavam pacientes com diagnóstico de asma ou outras doenças pulmonares crônicas, bem como relatos de casos, artigos de opinião e publicações sem acesso ao texto completo.

O processo de seleção ocorreu em duas etapas: inicialmente, foi realizada a exclusão a partir da leitura de títulos e resumos; em seguida, os artigos selecionados na primeira etapa foram avaliados na íntegra. Ao final do processo, foram incluídas três publicações científicas que atenderam aos critérios estabelecidos.

DISCUSSÃO 

Duas grandes meta-análises, uma publicada por Cai, Lin e Liang em 2020 e outra pela Colaboração Cochrane, intitulada “Bronchodilators for bronchiolitis” por Gadomski e Scribani em 2014, fornecem importantes esclarecimentos sobre o papel do salbutamol. A meta-análise de Cai et al. (2020), que avaliou 13 ensaios clínicos randomizados (RCTs) com um total de 977 participantes, concluiu que a terapia com salbutamol não teve efeito na bronquiolite em crianças com menos de 24 meses de idade. Especificamente, não houve melhoria estatisticamente significativa no escore de gravidade clínica, na duração da internação ou na saturação de oxigênio.  De forma semelhante, a revisão sistemática da Cochrane (Gadomski e Scribani, 2014), que incluiu 30 estudos com 1992 lactentes, reforça que broncodilatadores como o salbutamol não melhoram a saturação de oxigénio, não reduzem a taxa de internação hospitalar e também não encurtam a duração do internamento ou o tempo de resolução da doença em casa. Embora tenha sido observada uma ligeira redução no escore clínico médio em estudos ambulatoriais com broncodilatadores em geral este benefício foi considerado de questionável importância clínica.

A meta-análise de Cai et al. (2020) demonstrou um aumento estatisticamente significativo na frequência respiratória e na frequência cardíaca, apontando efeitos adversos significativos. A revisão Cochrane também identificou taquicardia, dessaturação de oxigênio, tremores, palidez, vômitos, hipertensão e infecções como efeitos adversos. Dada a ausência de eficácia clara e a presença de efeitos secundários, a meta-análise de Cai et al. (2020) conclui que o salbutamol não deve ser recomendado para o tratamento da bronquiolite em lactentes. As conclusões da revisão Cochrane (Gadomski e Scribani, 2014) são consistentes, indicando que os broncodilatadores não são eficazes na gestão rotineira de casos de bronquiolite, tanto em ambiente ambulatorial quanto em internamento. 

A ausência de benefícios do salbutamol na bronquiolite pode ser explicada pela fisiopatologia da doença. Ao contrário da asma, onde há broncoespasmo, a obstrução das vias aéreas na bronquiolite é causada principalmente por inflamação e acumulação de muco e debris. Além disso, os lactentes apresentam uma deficiência ou imaturidade dos receptores beta-2 agonistas nos músculos lisos bronquiolares, o que limita ainda mais a potencial eficácia dos beta-2 agonistas como o salbutamol. 

CONCLUSÃO 

De acordo com o exposto, conclui-se que o salbutamol não apresenta eficácia significativa no tratamento da bronquiolite em lactentes. Visto que não foram observados benefícios consistentes quanto à melhora clínica, redução do tempo de internação ou aumento da saturação de oxigênio. Pelo contrário, alguns estudos apontaram efeitos adversos, como taquicardia e aumento da frequência respiratória, que reforçam a falta de indicação do seu uso rotineiro. 

Além disso, perante a ausência de benefícios clínicos claros e a presença de efeitos adversos, as diretrizes atualizadas de sociedades pediátricas, como a Sociedade Canadiana de Pediatria, não recomendam a terapia com salbutamol para a bronquiolite. Embora a Direção Geral da Saúde (DGS) em Portugal ainda inclua o salbutamol nas suas recomendações para os Cuidados de Saúde Primários, esta prática diverge das evidências mais recentes que não suportam o seu uso.

Diante das informações discutidas, o manejo da bronquiolite deve permanecer centrado em medidas de suporte, como oxigenoterapia, hidratação e adequada oferta nutricional, que continuam sendo a base do cuidado. As evidências atuais orientam contra o uso do salbutamol nessa população, ressaltando a importância de seguir protocolos baseados em dados consistentes e de qualidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Corticosteróides e broncodilatadores na bronquiolite aguda. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, [S. l.], v. 27, n. 4, p. 407–8, 2011. DOI: 10.32385/rpmgf.v27i4.10881. Disponível em: https://rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/10881. Acesso em: 25 ago. 2025.

    2. Cai, Zhibo MMa,; Lin, Yan MMa; Liang, Jianfeng MPHb. Efficacy of salbutamol in the treatment of infants with bronchiolitis: A meta-analysis of 13 studies. Medicine 99(4):p e18657, January 2020. | DOI: 10.1097/MD.0000000000018657.

    3. GADOMSKI, A. M.; SCRIBANI, M. B. Bronchodilators for bronchiolitis (Review). Cochrane Database of Systematic Reviews, Issue 6, Art. No.: CD001266, 2014. DOI: 10.1002/14651858.CD001266.pub4.

    4. PEREIRA, Clara Pedrosa; et al. Bronquiolite viral: uma revisão narrativa. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 6, p. 1571-1586, 2024.

    5. LUISI, Fernanda. O papel da fisioterapia respiratória na bronquiolite viral aguda. Sci Med, v. 18, n. 1, p. 39-44, 2008.