CANDELARIA HOSPITAL: A PLACE OF HEALING AND DEATH IN THE FIELDS OF THE MADEIRA JUNGLE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510091312
Dirson Dresle Alves Soares1
Náfria Chianca da Silva Soares2
Marizete Silva Prates3
Resumo. A trajetória do Hospital da Candelária é um reflexo da luta pela saúde pública entre Porto Velho e Guajará-Mirim, tendo em destaque os desafios enfrentados por seus profissionais e pacientes ao longo da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Fundado em um contexto de surtos de doenças tropicais que acometiam os trabalhadores da ferrovia, o hospital tornou-se um centro essencial de assistência médica, apesar das condições precárias e da concorrência com curandeiros. Médicos como Dr. Belt e Dr. Wallcot se destacaram pela dedicação e humanismo em meio à escassez de recursos. Entretanto, a crise da borracha e a biopirataria asiática afetaram gravemente a economia local, resultando na deterioração das condições do hospital e na eventual transferência de seus serviços para o Hospital São José. A formalização da extinção do Hospital da Candelária em 1930 marcou o fim de uma era, deixando apenas ruínas e memórias.
Palavras-chaves: Literaturas; Hospital da Candelária; Enfermidades Tropicais; História de Rondônia.
Abstract. The trajectory of Hospital da Candelária is a reflection of the struggle for public health between Porto Velho and Guajará-Mirim, highlighting the challenges faced by its professionals and patients throughout the construction of the Madeira-Mamoré Railway. Founded in a context of outbreaks of tropical diseases that affected railway workers, the hospital became an essential center for medical assistance, despite precarious conditions and competition with healers. Doctors like Dr. Belt and Dr. Wallcot stood out for their dedication and humanism amid the scarcity of resources.
However, the rubber crisis and Asian biopiracy seriously affected the local economy, resulting in the deterioration of the hospital’s conditions and the eventual transfer of its services to Hospital São José. The formalization of the extinction of Hospital da Candelária in 1930 marked the end of an era, leaving only ruins and memories.
Keywords: Literatures; Candelária Hospital; Tropical Diseases; History of Rondônia.
Introdução
A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, iniciada no final do século XIX, na região da selva do rio madeira que visava conectar o Brasil à Bolívia, facilitando o escoamento de produtos e o transporte de mercadorias, tendo como produto principal a borracha (hévea brasiliensis), para a exportação. No entanto, essa obra de engenharia enfrentou enormes desafios, entre os quais as condições adversas geograficamente devido às inúmeras cachoeiras e corredeiras que formavam uma barreira natural, além disso pode-se comentar que a saúde dos trabalhadores da obra fora afetada pelas doenças tropicais.
Os operários, muitos deles imigrantes que em busca de melhores condições de vida, eram frequentemente acometidos por diversas doenças tropicais. A malária, a febre amarela e a dengue eram as mais prevalentes, resultado da intensa exposição aos mosquitos em um ambiente tão úmido e quente. A falta de infraestrutura adequada e de cuidados médicos agrava ainda mais a situação, tornando a sobrevivência dos trabalhadores um desafio diário.
Além das doenças infecciosas, as condições de trabalho precárias, incluindo longas jornadas, alimentação inadequada e escassez de saneamento, contribuíam para o aparecimento de outras enfermidades, como disenteria e beribéri. A mortalidade entre os trabalhadores era alarmante, levando à urgência na criação de unidades de saúde, como o Hospital de Candelária, que buscava atender às necessidades médicas emergentes dessa população laboral vulnerável.
Assim, a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) não só marcou um importante capítulo na história do transporte no Brasil, mas também expôs a dura realidade das condições de trabalho e saúde enfrentadas por seus operários, evidenciando a necessidade de uma infraestrutura médica que pudesse mitigar os efeitos devastadores das doenças tropicais.
O projeto do Hospital de Candelária era a representação da moderna medicina inserida nas terras da floresta tropical portovelhense e estava ao alcance dos trabalhadores da linha férrea. Demandou-se a compra de terrenos e de materiais de índole diversificada; o pagamento de honorários a um arquiteto e a peritos conceituados; bem como a organização e manutenção de um corpo de profissionais na área médica capaz de dar resposta às necessidades de uma obra de tão grande envergadura para a época.
A Escritura Pública da aquisição da área de Candelária lavrada em 27 de junho de 1921 em Londres, Inglaterra, pelo Tabelião Público Nicacio Robert Jarould e, em 05 de junho de 1922 foi registrada sob o número de ordem 11 no livro de número 3-A folhas 4 do Registro de Imóveis de Porto Velho.
Campos do Hospital da Candelária
Descreve-se abaixo a íntegra da Escritura pública registrada no 1.º Ofício de Registro de Imóveis em Porto Velho19, no qual consta, na página 191 da referida perícia:
Certifica, a requerimento verbal de parte interessada, que nos livros de Registro de imóveis deste Cartório deles o Livro 3-A, às fls. 04. Consta o que segue: número de ordem: 11. Data: 05 de junho de 1922: circunscrição: município de Porto Velho – Rondônia. Denominação ou rua do imóvel: Candelária. Características e confrontações do imóvel: um lote de terras denominado “Candelária”, com uma área total de 2.072.375,00 m2 (dois milhões, setenta e dois mil, trezentos e setenta e cinco metros quadrados), com um perímetro de 6.188 m (seis mil, cento e oitenta e oito metros lineares), e que se limita ao Norte com o Rio Madeira e terras de José Joaquim Barboza. Sul, com terras devolutas. O terreno tem de frente em linha reta, 1095 m (Hum mil e noventa e cinco metros). Tramitente: Suárez Hermana, comerciante, estabelecido em Cachuela Esperanza, Departamento Del Beni, República da Bolívia. Adquirente: A Madeira Mamoré Railway Company, Porto Velho, Estado do Amazonas. Título: Escritura Pública de Compra e Venda lavrada no dia 27 de junho de 1.921, na cidade de Londres (Inglaterra), pelo Tabelião Público Nicacio Robert Jaurolde. Valor: 20.000 (vinte mil contos de réis). Condições: pagamento à vista. Certifica ainda mais que o referido lote pertence atualmente a Circunscrição do Cartório do 1º Oficio de Registro de Imóveis desta Comarca. Averbações: Av-1/11. Data: 24.10.1973. Certifico e dou fé que em virtude do Mandado expedido pelo M.M. Juiz de Direito desta Comarca, Dr. Antônio Alberto Pacca, expedido nos Autos de Dívida nº 660/73 suscitada por este Ofício julgada por sentença de 11 corrente, verifica-se e faz se constar que passou a pertencer ao patrimônio da Rede Ferroviária Federal, sociedade anônima – RFFSA, o imóvel rural denominado “Candelária”, com 2.072.375 m2 de área e 6.188 de perímetro, conforme Ata da Sessão Pública de Constituição da Rede Ferroviária Federal S/A, determinada pelo Decreto nº 42381 de 31.09.1957. Av-2/11. Data: 10.12.1976. Certifico e dou fé que, de conformidade com o despacho M.M. Juiz de Direito desta Comarca, Dr. Francisco César Soares de Montenegro, no requerimento data de 10.12.1976, em que é Requerente o Governo deste Território, fica transferido para a União Federal, o imóvel objeto da presente transcrição. O referido é verdade, dá fé, dada e passada nesta cidade de Porto Velho RO.
Conforme a escritura acima referida, havia a necessidade de registrar o imóvel oficialmente para posterior construção do Complexo Hospitalar, que fomentaria a assistência médica para os trabalhadores na construção da Estrada de Ferro, quando acometidos das doenças tropicais que causou a ingerência da mão de obra ao longo da via férrea e suas adjacências.
As palavras do Padre João Nicoletti assim definiram o Hospital da Candelária:
O local denominado Candelária […] prestara grande cooperação à moralização do ambiente, à terapia amazônica; sobretudo chegou a ser o quartel general na luta contra o impaludismo e toda espécie de endemias […]. (VITOR HUGO, 1959, p. 61, vol. 02.).
Por outro lado, o Dr. Oswaldo Cruz assim descreve o local onde foi construído o Hospital de Candelária: “distante dois kilômetros de Porto Velho rio acima está o local denominado Candelária onde se acham os hospitais e residência do pessoal encarregado do serviço sanitário.”
A construção dos espaços hospitalares estava subordinada à fiscalização da empresa detentora da concessão para a construção da EFMM, na medida em que dependia dela para a obtenção dos mais diversos materiais para sua execução.
Conforme Roberto Machado, com a criação da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, em 1829, paulatinamente se inicia a implantação da medicina social no Brasil. Desde a sua fundação pode-se observar o surgimento de programas ligados à higiene, à medicina legal, à educação física das crianças, aos enterros em cemitérios e a procedimentos sanitários.
Paralelo a isso, a atribuição da classe médica era denunciar as formas populares de cura, estabelecer regulamentos em farmácias e hospitais e combater a promiscuidade inerente ao modo de vida de pessoas que viviam em casas insalubres. No ano de 1907, os proprietários da empresa May & Jekyll, havendo tomado a decisão estratégica de mudar o local do início das obras da EFMM, resolvem montar um hospital onde reuniriam os doentes da estrada de ferro, isolando-os dos trabalhadores sãos. Primeiramente foram construídos, sem planejamento algum, precários barracos para abrigar os funcionários da companhia que caiam doentes.
Essas construções se efetivaram entre os quilômetros 2 e 3 da ferrovia, no sentido Porto Velho (AM) Santo Antônio do Madeira (MT).
Com o passar dos dias e vendo-se a quantidade de empregados seus que adoeciam, deram-se início às obras de instalação definitiva dos vários prédios que, ao fim do ano de 1908, compunham o Hospital de Candelária.
Relata-nos o Dr. Oswaldo Cruz, à página 19 do seu relatório de 1910:
A actual empresa de construcção da E. F. Madeira–Mamoré encarou intelligentemente a questão sanitária e afastando-se das normas até agora seguidas pelos predecessores resolveu estabelecer sua fase de operações fora do terrível foco que é a Villa de Santo Antônio. Installou-se à jusante de Santo Antônio em duas zonas denominadas: Porto Velho e Candelária, distando respectivamente de Santo Antônio 7 e 5 kilometros. Essas locaes situados em uma enseada que o rio, logo abaixo de Santo Antônio.
Porto Velho de Santo Antônio (que é o verdadeiro nome do novo povoado) é o centro industrial. Candelária é o centro dos serviços sanitários.
O Hospital da Candelária começa a funcionar de forma precária, porquanto possuía uma estrutura inadequada não somente para os padrões europeus da época, mas considerando-se as referências trazidas pelo Dr. Osvaldo Cruz. Possuía um único médico, responsável pelo atendimento, o recém-chegado Dr. Shivers. A precariedade nos conduz a concluir que não havia condições mínimas de tratamento condizente com a própria situação do “estado da arte” da época. Poder-se-ia concluir que, ao chegar ali para tratamento, não se sairia com vida. Grassou no período que antecedeu a chegada do Doutor Shivers um sem número de charlatães e curandeiros, que disseminavam propaganda contra a instalação do Hospital de Candelária, e com ele mantiveram a concorrência por bom tempo.
Deixou o Doutor Lovelace a seguinte informação à página 33 do seu relatório:
Antes, a população desta região era obrigada a pagar preços exorbitantes por medicamentos privilegiados e sem valor sendo explorada sem piedade por médicos ambulantes. As viagens destes têm deixado de ser lucrativas e as curas charlatanescas de “Sezões” tem desaparecido.
Também o Doutor Carlos Chagas, em um dos seus relatórios a respeito da região, afirma que havendo percorrido um grande número de rios amazônicos, deparou- se com um médico turco e denunciou os “médicos regatões”, comercializando a profissão e desmoralizando os tratamentos.
Não suportando presenciar tanta miséria, tanta ignorância, tanta dificuldade e, impotente diante da situação, o Dr. Shivers demite-se e parte para outras terras. A Madeira-Mamoré Railway Company contrata nos Estados Unidos o Dr. H. P. Belt, médico de larga experiência em países tropicais, que, desprendido de bens materiais, com grande senso humanitário e demonstrando ser uma pessoa altamente dedicada à ciência, vem dirigir os trabalhos de saúde, no precário hospital.
A empresa, embora já houvesse traçado a meta de priorizar a saúde de seus empregados, ainda não se empenhava financeiramente em alcançar esse objetivo e o Dr. Belt obrigava-se a utilizar os seus próprios instrumentos cirúrgicos e drogas que, com os seus próprios recursos, adquiria.
Encontramos à página 205 da obra Ferrovia do Diabo, de Manuel Rodrigues Ferreira, a seguinte descrição feita em dezembro de 1907, extraída do diário do Dr. Belt:
Fiz uma requisição anual de drogas para um hospital de 300 camas. O rio cresce consideravelmente. A febre volta depois do 6º, 7º, ou 8º por dia. As estatísticas não são suficientes para justificar o diagnóstico ou a relativa insalubridade das diferentes estações do ano. Excessivamente má condição física, primária, de 95% dos trabalhadores chegados hoje. As mulheres, fisicamente, de fraqueza extrema. Recomendei ao Mr. Randolph que a todo trabalhador deveriam ser dadas, diariamente, 10 cg de quinino, do Pará até Porto Velho.
Observando dados disponíveis, concluímos que provavelmente, os relatórios oficiais de Candelária só começaram a ser emitidos a partir de 16 de novembro de 1907 e foram quinzenais até o fim daquele ano.
Já em 1908, esses relatórios passaram a ser mensais e destinados à Companhia, juntamente com a requisição de mão de obra, equipamentos e remédios, tão necessários ao funcionamento do único hospital numa área de centenas de quilômetros quadrados. O Hospital de Candelária era o mais moderno de toda a região da Amazônia, superando em muito algumas regiões desenvolvidas.
A equipe médica desse hospital era constituída pelo Dr. Belt, Dr. Wallcot, Dr. Whitake, Dr. Emerik, Dr. Walsh, Dr. Poncy, Dr. Rivero e Dr. Carl Lovelace, este último doutor tropicalista.
Os médicos do Hospital de Candelária eram respeitados pelas atitudes humanitárias que demonstravam; o Dr. Wallcot é citado com admiração, no relatório de Geraldo Rocha, engenheiro fiscal das obras da estrada de ferro:
Alguns destes distintos moços exercem sua profissão como verdadeiros apóstolos e, dentre estes, praticamos atos de justiça declinando o nome do Sr. Dr. Wallcot. Este humanitário facultativo leva o seu altruísmo ao ponto de privar-se algumas vezes do conforto que lhe compete em benefício dos infelizes doentes.
Em uma de nossas viagens de inspeção, chegamos ao acampamento nº 44, no quilometro 337, quando este apenas havia sido instalado, faltando ainda leito e outros utensílios de grande necessidade. Nesse dia, um trabalhador fraturou a perna e, à noite, ao penetrarmos na barraca do Dr. Wallcot, encontrá-lo deitado sobre o solo, porque havia cedido seu leito ao infeliz cliente.
A vida dos médicos dos acampamentos é cheia de trabalhos, perigos e privações: são obrigados a viajar diariamente cerca de 24 quilômetros, montados em burros, conduzindo medicamentos e a inspecionar nessa zona todas as barracas dos tarefeiros.
Durante o ano de 1911, três desses apóstolos pagaram com a vida o seu amor à profissão que abraçaram; outro foi morrer na América, sua terra natal, e outros, finalmente, têm contraído infecções com as quais por muito tempo terão de lutar. (Extraído das páginas 28 e 29 da obra de Júlio Nogueira. Estrada de Ferro Madeira-Mamoré).
Por volta de 1912, com a crise econômica mundial, em especial, a queda do preço da borracha levou o Hospital da Candelária a um deficit nas suas contas, alcançando uma cifra de Rs. 2.359:738$885, em agosto de 1930. Devido às condições degradantes que passava o Nosocômio, é objeto de comentário de um médico brasileiro: “a farmácia está sortida de um grande número de medicamentos de toda espécie, contudo uma terça parte talvez, após um rigoroso e criterioso exame, […] já esteja em desuso e mesmo bastante antigos”. (VITOR HUGO, 1959, p. 62 vol. 02.).
As críticas em relação à Candelária por parte do Dr. Antônio Magalhães (médico responsável pelas atividades do Hospital da Candelária), estavam relacionadas com a sua vontade de construir um novo hospital, não economizando declarações negativas quanto a aquele ambiente:
Do material cirúrgico, nenhum quase tem aplicação, não só pela sua antiguidade, como também pela sua conservação que é nenhuma. Toda via merece atenção a mesa cirúrgica que, apesar de ser antiga, é boa, uma ótima bancada de vidro, e mesas também de vidro com revestimento de metal. (VITOR HUGO, 1959, p. 62 vol. 02.)
Tomando as rédeas da “caridade em prol dos doentes”, começa uma batalha entre os representantes da Igreja Católica, o Dr. Antônio Magalhães e a própria Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Por meio do administrador apostólico de Porto Velho, a prelazia consegue através do Projeto de Lei n.º 1 de 26 de outubro de 1927, os terrenos doados pela administração local para construir um hospital e um colégio:
Artigo primeiro: fica o Poder Executivo autorizado a entrar em acordo com a Prelazia de Porto Velho no sentido de ser à mesma concedidos os terrenos apropriados à construção de dois prédios para Hospital e Colégio que pretendem fundar nesta Cidade, bem como a estabelecer um subvenção à mesma Prelazia, mediante favores, que deverão de antemão ficar esclarecidos sobre o número de indigentes que o hospital poderá receber gratuitamente, assim como o número de crianças pobres que o Colégio se obrigara a educar, anualmente, ficando aberto no orçamento o crédito necessário para ocorrer a essas despesas.
Artigo segundo: revogam-se as disposições em contrário. a) Manuel da Cunha Freitas, relator Horácio Lopes Bilhar Porto Velho, 26 de outubro de 1927 (VITOR HUGO, 1959, p. 310).
Com um prédio doado pela Beneficência Portuguesa, a representação Católica, tendo a pessoa do Padre Antônio Peixoto como representante, dera início à construção do Hospital São José, tendo como primeiro médico o Padre João Nicoletti.
Na contramão do discurso católico para se levantar as obras da Casa de Saúde, o médico brasileiro Magalhães apresentou seis itens contrários ao Hospital São José e, em favor da transformação do Hotel Brasil num lugar de cura dos doentes de Porto Velho. Abaixo seguem as recomendações negativas e, posteriormente as soluções encontradas pelo padre médico Nicoletti:
1.A localização do hospital São Jose dificulta o transporte de enfermos. Padre Nicoletti: […] foi quem colocou o primeiro automóvel (Ford de Bigode que foi a primeira ambulância) em Porto Velho; e
2.As distribuições internas não satisfazem as exigências de cubagem que a higiene hospitalar moderna requer. Nicoletti construiu alas no pavilhão.
3.A lotação é insuficiente. Padres estavam fazendo novos pavilhões.
4.Não há água corrente. Foi logo aproveitada uma fonte de agua potável pelos padres.
5.Não há energia elétrica. Nicoletti solicitou a prefeitura o fornecimento. (VITOR HUGO, 1959, p. 64 vol. 02).
Com um valor estimado em 110 contos de réis, não fora cogitada a compra do Hospital da Candelária, mas com o funcionamento do novo hospital no primeiro semestre de 1929, este assumiria a assistência médica dos empregados da ferrovia, de acordo com os critérios pré-estabelecidos entre a Prelazia e a EFMM no qual:
A companhia pagaria à Prelazia a importância de cem contos de réis para a construção de um pavilhão destinado a Casa de Saúde, anexo ao Hospital; todos os funcionários gozariam do desconto de 50% sobre a diária comum. (VITOR HUGO, 1959, p. 65, vol. 02.)
Gradativamente, os serviços prestados durante anos na Candelária já não suportavam a falta de investimentos pela companhia, sendo eles transferidos ao Hospital São José que ainda possui as suas estruturas na Av. Almirante Barroso, na esquina com Campos Sales, na cidade de Porto Velho.
Sendo um dos focos deste trabalho, do Hospital da Candelária sobraram apenas ruínas, tendo como testemunha o rio Madeira e as pessoas que lutam pela conservação do que restou. O seu fim foi decretado pela Circular de 12 de agosto de 1930, um documento do Estado que formalizou a extinção dos serviços.
Enfermidades Tropicais
A História do desenvolvimento mundial está ligada a fatos trágicos envolvendo acidentes e mortes de trabalhadores, tanto em obras de construção civil de grandes dimensões como nas fábricas londrinas da Revolução Industrial sempre foram registrados acidentes envolvendo trabalhadores. A construção do Canal do Panamá é um exemplo, na conclusão das obras, em 10 de outubro de 1913, o número oficial fechou em 5.609 mortos.
Para a construção do Canal de Suez, que liga o Egito ao Mar Vermelho, estima-se que 1,5 milhão de egípcios tenham sido utilizados e que 125.000 morreram principalmente da cólera. Em 17 de fevereiro de 1867, o primeiro navio atravessou o canal, mas a inauguração oficial só ocorreu em 17 de novembro de 1869.
No segundo ciclo da borracha, vieram milhares de homens recrutados ou induzidos para trabalhar nos seringais e cerca de 30 mil seringueiros morreram abandonados na Amazônia, depois de terem exaurido suas forças, extraindo o leite da seringueira. Morriam de malária, febre amarela, hepatite e atacados pela insalubridade da região.
A História da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré fora muito explorada no aspecto econômico e político no qual os acordos e tratados fazem parte dela. Porém, o que se busca na produção deste artigo é tentar alcançar o contexto do Complexo do Hospital de Candelária, que outrora se encontra pouco difundido no meio literário e acadêmico.
Os primórdios da medicina em Rondônia estão diretamente ligados ao evento ferroviário, sua construção e seus diversos grupos de estrangeiros e nacionais que fizeram parte do contexto amazônico e produziram reais situações de penúria e sofrimento nas selvas. Porém, grassou no período que antecedeu a chegada do Doutor Shivers, um sem número de charlatães e curandeiros, que disseminavam propaganda contra a instalação do Hospital de Candelária, e com ele mantiveram a concorrência por bom tempo.
As primeiras estruturas do Hospital de 1907 da EFMM segundo foto de Dana Merril (2-e) resumia-se a duas estruturas precárias feitas de palha e madeira próxima do rio Madeira, e sem as mínimas condições de higiene necessárias para oferecer um tratamento mais eficiente aos doentes.
O ponto de partida para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, dava-se na área de Santo Antônio, às margens do rio Madeira, onde não havia uma estrutura básica de saneamento e de condições sanitárias para que fosse habitada. As pessoas comungavam com as moléstias tropicais que eram os “anticorpos” da floresta amazônica.
Em uma das passagens da obra “As Botas do Diabo” de Kurt Falkenburg, há alguns relatos referente às condições sanitárias que Santo Antônio, ponto inicial para os serviços da empresa construtora P. T. Collins, assim escreve o autor:
Então aquilo era Santo Antônio! Meio tragado pela mata, com algumas choças de sapé e dois sobrados, uma rua, que mais parecia picada, subindo do rio e dividindo o lugarejo em duas metades, em sentido paralelo. Era este o Santo Antônio onde, 150 anos atrás, os padres jesuítas fundaram um posto missionário, que tiveram de abandonar por causa dos ataques de malária, beribéri e das formigas e onde nem o diabo aguentou ficar, pois perdeu as botas ao fugir de lá. (FALKENBURGER, 1971, p. 60.).
Em sua missão telegráfica, Cândido Mariano da Silva Rondon esteve nas margens do rio Madeira e pôde presenciar as condições de saúde daquela localidade de fundamental importância para seus serviços naquele momento, sendo o ponto final da linha telegráfica e cidade que servia como base da construção da Ferrovia Madeira-Mamoré: Santo Antônio do Madeira. A seu respeito, ele afirmou:
Não tenho lembrança de jamais ter visto outro povoado de aspecto tão feio e tristonho. A população, constituída de aventureiros vindos de todas as partes do mundo, cheia de vícios, alcoólatra, parece ter querido erigir em padrão de glória o desprezo pela higiene e pelo asseio. O lixo amontoa-se no meio das ruas; ali mesmo abatem-se, esfolam-se e esquartejam-se as rezes destinadas à alimentação; de todos os lados levantam-se exalações pútridas. Os gêneros de primeira necessidade, quase sempre deteriorados e imprestáveis, custam preços exorbitantes, fabulosos. O principal ramo de comércio é o álcool. Em resumo, depois de se ter visto essa infeliz aldeia, despovoada de crianças, compreende-se que só por milagre não teria ela a assombrosa mortandade que a celebrizou e cuja fama injustamente generalizada traz desde muitos anos paralisado o movimento de conquista das margens do Madeira por uma população honesta e laboriosa, capaz de beneficiar as incalculáveis riquezas deste solo. (CLTEMA/1946. Publicação n.° 68, pp. 75-76. AMI.)
Relata também de forma negativa sobre a saúde do local, Lobato Filho (1957), que trabalhou na Seção Norte da Comissão em 1910, fazendo referência à Oswaldo Cruz em sua avaliação sobre Santo Antônio: “Oswaldo Cruz, quando de visita a Porto Velho, para estabelecer as bases do saneamento da Madeira-Mamoré, convidado para dar algumas regras sobre o saneamento de Santo Antônio, disse, após um exame, que a única solução era incendiar aquilo”.
Lobato Filho (1957) fez uma das descrições mais detalhadas sobre Santo Antônio ao compará-la com Porto Velho. Seguindo com a Comissão Rondon na primeira tentativa de estabelecimento da Seção Norte da Comissão, o longo trecho a seguir coloca em evidências suas impressões sobre o povoado em que atuou para a construção da linha telegráfica:
Depois do espetáculo agradável e surpreendente de Porto Velho, apresentava-se o espetáculo desolador de Santo Antônio do Madeira, muito agravado pelo confronto. Aquela, um modelo de cidade para a região e aparelhada para a luta contra o impaludismo. Esta, um centro de cultura do paludismo ao natural. Nenhuma medida de higiene: a água para beber é a do rio e dos igarapés; as defecções, feitas pelo sistema primitivo da roça, sendo que muitas casas dão os fundos para o rio e o sistema é assim, ainda mais primitivo e original; alimentação abaixo de qualquer crítica; às bebidas alcoólicas constituindo, ao que parecia, a base líquida da alimentação; jogatina desenfreada; cidade despoliciada. Foco de impaludismo sem dispor de um médico. Santo Antônio do Madeira era o ponto de passagem da volumosa produção da Bolívia e do extremo oeste de Mato Grosso e por isso a sua população era volante e de aventureiros, poucas famílias e natalidade tão limitada que tornava coisa muito difícil ver aí uma criança. Ela possuía todos os defeitos de cidade de fronteiras agravadas por aquelas circunstâncias […] Santo Antônio do Madeira quase sempre a winchester falava e decidia. Aí não havia chapéus vistosos, olhos ofuscantes e joias rebrilhantes: somente bolivianas e curibocas esfarrapadas e desordeiras. (LOBATO FILHO, 1957).
Por fim, temos outras impressões de Rondon sobre o povoado. Embora em nada seja diferente do colocado nos demais, o relato torna-se interessante pelo fato de, apesar de escrito por um sertanista que atravessou diversas localidades do Mato Grosso, deixar transparecer que ele, não obstante sua larga experiência tenha visto, anteriormente, nada parecido com o que observou nesse povoado.
Santo Antônio tem aspecto tristonho, feio; as suas ruas estão acumuladas sobre um outeiro, a cavaleiro do porto. São tão sujas, tão sem higiene que admira não haver maior mortandade nesse acúmulo de habitantes aventureiros e viciosos, sem regras de moral […].
Sem esgoto, sem água e sem higiene, o lixo se amontoa por toda a parte; a podridão exala em todas as direções. As poucas reses abatidas para alimentação dessa gente bastarda o são em qualquer parte da rua, onde são esfoladas, esquartejadas, sendo as fezes, a cabeça e o resto, deixados no mesmo lugar à sanha de cães e dos abutres.
A coisa mais notável dessa vila é não haver crianças no lugar. As poucas que para ali são levadas definham fatalmente, como planta exótica que fenece ao calor terrível da zona tropical. (TANAJURA apud RONDON, 1911).
As doenças e os diversos incidentes promoveram mais uma vez uma elevadíssima mortandade entre os trabalhadores. A insalubridade local era tão desgastante que em visita a Santo Antônio, em 1910, o sanitarista Oswaldo Cruz, registrou que o índice de mortalidade infantil era de 100% na cidade. Simplesmente nenhuma criança sobrevivia aos primeiros anos naquela localidade.
O Hospital da Candelária, apesar de toda sua infraestrutura, era ao mesmo tempo “santuário e túmulo, monumento do progresso científico e preâmbulo da escuridão” (HARDMAN, 1988, p. 145). O número de mortes causado pelas doenças e acidentes de trabalho marcou a história da ferrovia e o imaginário da população rondoniense.
Impressionado com a mortandade do “Inferno Verde”, Farquhar comentou:
Alguns se embreavam na selva sombria e jamais eram vistos de novo. A despeito de todos os esforços, o grande cemitério-modelo crescia. […] comparava a região da EFMM antes da abertura do hospital com a região equatorial da África ocidental – um cemitério de homens brancos. (GAULD, 2006, p. 182.).
A insalubridade da região, que era uma realidade na construção da linha férrea, contribui para a proliferação de doenças que seriam o “freio” da obra e, um dos fatores mais penosos da história dos trabalhadores da empresa em terras tropicais. Por ser uma região úmida e propensa a criadouros de anofelinos, estava formado o ambiente próprio para as mazelas que assolariam o corpo físico e psíquico dos estrangeiros, constituindo um entrave para os empreiteiros americanos.
Trata-se de situações extremas que as pessoas experimentam as situações desconhecidas e, frequentemente, dolorosas. No caso deste trabalho, trata-se da situação de imigrantes dos trabalhadores da EFMM, a qual é marcada pela inserção dos mesmos na Amazônia como trabalhadores submetidos aos interesses das empreiteiras estrangeiras responsáveis pela execução das obras, tendo estes experimentados as tensões provocadas pela violência, doenças, dentre outros.
No final de 1907, dos 130 caboclos recrutados em Belém para abrir uma clareira de Porto Velho, onde ficaria o acampamento número 1 das obras, cerca de 40 haviam abandonado o navio em Manaus, devido a informações sobre a letalidade da região do Madeira-Mamoré, e 20 se desligaram em Porto Velho, tomando o mesmo navio de volta…” (GAULD, 2006, p. 179).
No século XX, com a construção da EFMM pela empreiteira May, Jakyll and Randolph, a serviço da Holding de Farqhuar, a situação dos Vale do Madeira e Mamoré, a partir de 1907, passou por enormes transformações. Calcula-se em aproximadamente 30.000 o número total de trabalhadores que foram deslocados para a região das obras, de diversas partes do mundo, entre 1907 e 1912.
A construção da Ferrovia Madeira-Mamoré provocou uma enorme incidência de protesto de autoridades de diversos países, quanto ao uso da mão de obra de seus cidadãos em regiões de tão extremas adversidades, sem a menor infraestrutura capaz de assegurar atendimento digno em casos de doença e acidentes. Por conta dessas pressões externas e internas, os trabalhadores se sublevavam, fugiam e produziam pouco.
Uma moderna infraestrutura hospitalar e sanitária foi implantada em função dos acidentes ocorridos nas primeiras tentativas de construção da ferrovia, e principalmente devido às doenças que atacavam engenheiros e operários, problema que impedia o andamento da obra. Tal medida buscou evitar a falência que acometeu as empresas anteriores. Foi criado o Hospital da Candelária para atender aos funcionários doentes, principalmente de malária, além de executar o saneamento da área.
Em função da elevada taxa de mortalidade na região e seu reflexo na opinião pública, foram contratados vários especialistas, dentre os quais médicos e sanitaristas, destacadamente H. F. Dose, Belt e Osvaldo Cruz, que produziram relatórios técnicos a partir dos quais se pode fazer o diagnóstico da região e apresentar medidas de prevenção. Osvaldo Cruz, em seu relatório, lista as principais doenças que afligiam a região: pneumonia, sarampo, ancilostomíase, beribéri, febre amarela e o impaludismo, ou seja, a malária.
Dentre os europeus que vieram para a região construir a EFMM, é possível citar: italianos, alemães, espanhóis, ingleses, gregos e portugueses. Mas vieram, também, asiáticos: hindus e chineses. Do próprio continente, além dos norte-americanos, foram introduzidos os nativos das colônias inglesas da América Central, dado que muitos destes trabalhadores teriam adquirido experiência na construção de ferrovias em sua região de origem, bem como no estabelecimento do canal do Panamá.
Charles Gauld, sobre a mão de obra adquirida para a construção da estrada de ferro, comenta:
Uma fonte afirmou que mais de seis mil trabalhadores chegaram a Porto Velho em 1910. Desses, 1.600 eram brasileiros ou portugueses e 1.450, espanhóis. Muitos europeus vinham de todos os cantos da América Latina, como Cuba e Argentina, atraídos pelo bom nível dos salários, da comida e do atendimento médico. (GAULD, 2006, p. 189).
Calcula-se que, na construção de São Petersburgo – principal cenário do despotismo esclarecido russo e conhecida com a “janela da Europa”, fundada em 1703 por Pedro, o Grande –, foi consumido, em poucos anos, um exército de 150 mil trabalhadores, sendo a maioria servos dilapidados pelo ritmo frenético das obras e pelas condições climáticas e topológicas adversas.
Em outra escala e momento, a Ferrovia Madeira-Mamoré “devorou” no mínimo cerca de vinte por cento da força de trabalho empregada para construí-la (de um total de 30 mil trabalhadores). “Este foi apenas um capítulo da verdadeira saga que representou o nascimento dos caminhos de ferro em regiões inóspitas do Planeta”. (FOOT HARDMAN, 1991.)
Segundo Charles Gauld, Farquhar usou a sua influência política junto à Presidência da República para receber mais benefício por quilômetro de ferrovia produzido, devido à insalubridade da região:
Ele não conseguiu que o conservador presidente Afonso Penna aumentasse a taxa a pagar por quilômetro construído. Por meio de Alexander Mackenzie, Farquhar conseguiu que o respeitado Paulo de Frontin, presidente do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, obtivesse a concordância de Penna para os pesados gastos com saúde e medidas sanitárias. (GAULD, 2006, p. 181.).
Quanto às doenças, o problema da malária e febre amarela não marcou apenas a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Sua ocorrência em áreas tropicais era registrada constantemente e era alvo de atenções no início do século XX. Assim como aconteceu no contexto da construção das ferrovias na Guatemala. no Rio de Janeiro, a febre amarela também provocou muitas mortes.
A pneumonia figurava entre as doenças que faziam parte do cotidiano da EFMM. De acordo com relatório Sanitarista de Cruz recolheram-se a enfermaria do Hospital de Candelária sessenta pneumônicos dos quais trinta e cinco faleceram, tendo falecido em suas residências quatro homens antes da remoção ao nosocômio, totalizando em percentual de 57% dos atacados.
O impaludismo foi doença causadora de grande mortandade. Devido a ela, Oswaldo Cruz chegou a afirmar que a população local “não sabia o que era estado saudável”, a condição de ser enfermo era a normalidade. Vale dizer que, ainda nos dias atuais, existem localidades em Rondônia em que, a cada ano, a quase totalidade da população é atacada pela moléstia, repetindo-se no ano seguinte, principalmente quando os rios começam a baixar.
Redução da força de trabalho em mais de cinquenta por cento foi ocasionada principalmente pelas doenças endêmicas, embora o Hospital da Candelária em 1908 tenha sido ampliado dotando-o com equipamentos modernos, medicamentos, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar necessário ao seu eficiente funcionamento.
As condições sanitárias na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré foram determinantes para que se construísse um hospital em plena selva amazônica e, inúmeros fatores de saúde nas frentes de trabalho colaboraram para que a empresa provessem os médicos especialistas em outras regiões do planeta.
Segundo Gauld,
Farqhuar contratou o médico Lovelace, que adquirira experiências nos Andes e no Canal do Panamá, para construir e organizar o hospital da EFMM, que com 300 leitos, ficaria no quilômetro 2, numa elevação de ares saudáveis chamada Candelária […] Farqhuar discutiu em Nova York questões relativas a medidas sanitárias nos trópicos e problemas de construção com o engenheiro-chefe Francês da De Lessep, Philippe Bunau-Varilla […] (GAULD, 2006, p. 176.).
A solução para manter o ritmo da construção foi contratar trabalhadores de todas as partes do mundo por intermédio de aliciadores, aos quais pagavam de oito a dez libras esterlinas por cada um indivíduo recrutado. Mensalmente, novas levas de trabalhadores chegavam para substituir os inválidos e os mortos.
Souza (1980) descreve o cotidiano dos trabalhadores que construíram a Ferrovia Madeira-Mamoré na floresta tropical, compreendida entre as Províncias do Mato Grosso e Amazonas, detalhando um ambiente insalubre e perigoso para as suas personagens: engenheiros, enfermeiros, médicos, indígenas, pessoas de diferentes nacionalidades e origens étnicas.
Esse autor manauara conta a história da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (EFMM) de forma romanceada, criticando o capitalismo e as dificuldades enfrentadas para se construir aquela ferrovia. Sua narrativa informa sobre as atividades desenvolvidas, a carga horária de trabalho e o estado físico e psicológico dos indivíduos envolvidos na execução daquele projeto:
Os chineses trabalhavam no desmatamento, iam avançando pela floresta. Os alemães cuidavam do serviço de destocamento e da terraplanagem. Os barbadianos estavam no serviço de colocação do leito ferroviário. Os espanhóis, egressos do sistema repressivo colonial em Cuba, faziam as vezes de capatazes e compunham a guarda de segurança. Cada homem tinha o seu trabalho definido, e a jornada era de onze horas por dia, com direito a um intervalo para o almoço. Mas o aspecto de cada homem era igual, independentemente de sua nacionalidade. Todos estavam igualmente maltrapilhos, abatidos, esqueléticos, decrépitos como condenados de um campo de trabalhos forçados. (SOUZA, 2005, p. 20.).
Foram importados: em 1908, 2.450 homens, uma média de 204 por mês, destes morreram 65; em 1909, 4500 homens, uma média de 375 por mês, desse total morreram 501; em 1910, 6.090 homens, uma média de 508 por mês, morreram 428; em 1911, 5.664 homens, uma média de 472 por mês, morreram 419; em 1912, 2.733 homens, uma média de 390 por mês, morreram 209. Comento sobre a tabela de óbitos encontrados no livro “Evolução Histórica de Rondônia”, de Emanuel Pontes Pinto. (1993, pp. 92-93.).
O sanitarista Oswaldo Cruz, chamado com urgência pela empresa de Farquar, passou um mês na região e apresentou um relatório sobre as condições sanitárias da mesma. O relatório do médico sanitarista dizia: “a região está de tal modo infectada que sua população não tem noção do que seja o estado hígido e para ela a condição de ser enfermo constitui a normalidade” (HARDMAN, 2005, 176).
Em 16 de julho de 1910, Oswaldo Cruz e Belizário Penna embarcaram no Rio de Janeiro com destino a Porto Velho, município que na época não passava de uma clareira aberta na selva. Instalados no Hospital da Candelária, inspecionaram detidamente os acampamentos que margeavam o leito da ferrovia. Nesta ocasião, Oswaldo Cruz escrevia ao amigo Salles Guerra, numa carta de 26 de julho:
Meu caro, isto aqui é de impressionar. A cifra de impaludismo é colossal, mas isto não assusta: só cede a doses cavalares de quinina, mas cede […] o que impressiona é o beribéri, não pela quantidade que é relativamente muito pequena, mas pela qualidade. Há ataques quase primitivos de pneumogastrite, e em poucos dias manifestam-se outros sintomas de nevrite do pneumogástrico, trazendo a morte no meio da mais trágica agonia. É um espetáculo tétrico […]. Mas de todas as moléstias, a que zomba de tudo e de todos é a pneumonia lombar que grassa com intensidade, matando 60% dos atacados que, em regra, são rapazes vigorosos e fortes.
A principal moléstia era a malária, mas também havia casos de beribéri, sarampo, pneumonia, disenteria, leishmaniose visceral, ancilostomíase, hemoglobinúria, febre amarela, etc. Segundo os registros oficiais do Hospital da Candelária, na época a melhor referência no tratamento de doenças tropicais na região e no país.
É possível perceber, nesse trânsito sutil entre natureza e cultura, entre geografia e história, entre caos selvagem e ordem nacional, o fascínio que advém do espanto, os atrativos secretos da escuridão e do medo, a força primitiva dos lugares inomináveis, os sentimentos solitários ante a infinidade ‘natural’, a surpresa permanente com a nova rotina: reaparecem, pois, nessas visões da luta do homem contra a selva, aspectos da moderna apreensão do sublime. (HARDMAN, 2005, p. 119).
Em carta de 8 de agosto, apresentava Salles Guerra o seu diagnóstico definitivo sobre o quadro referente às moléstias da região:
O que torna inóspitas as regiões do Madeira é o impaludismo. As outras moléstias, se bem que gravíssimas, são em cifra relativamente diminuta, inclusive o beribéri, que só ataca 5% do pessoal e mata 1%. Mas o impaludismo é de gravidade extrema e ataca 80 a 90 % do pessoal.
Os problemas de saúde no início da República obrigaram ao Estado buscar políticas de combates às doenças de forma coordenada, para a obtenção de oferecer à população uma qualidade de vida melhor, através do saneamento rural e urbano no território nacional.
Era necessário combater, em âmbito nacional, as endemias consideradas mais importantes como a malária, a ancilostomose, a febre amarela e a doença de Chagas. Os serviços eram subordinados, a princípio, à Diretoria-Geral de Saúde Pública e, a partir de maio de 1919, vinculados ao Ministério da Justiça do Interior e Negócios.
Esse assunto constituiu objeto de esclarecimento na justificativa realizada pelo Ministro da Justiça e Negócios Interiores, Dr. Urbano Santos da Costa Araújo, em 9/04/1919, acerca da assinatura do Decreto n.º 13.538: “pela reforma, o serviço de prophylaxia rural continúa, por enquanto, directamente subordinado ao ministério que superintendo. Assim decidi fazer, porque reputo prematuro procurar dar-lhe, desde já, a sua organização efetiva”:
Sobre isso, vejamos:
Querem organizar-o por intermédio de uma directoria especial, entendem outros preferível subordinado à Directoria Geral de Saúde Pública; é conhecido mesmo o projecto de alta autoridade profissional, reunindo todos os assumptos de saúde pública sob jurisdicção de um ministério particular. Julgo mais conveniente não adoptar, por enquanto, nenhuma destas soluções, deixando o problema neste ponto tal como ele acha. (Sic).
Ao longo dos anos, a União passou a arcar com as despesas de profilaxia e saneamento rural. Isso significava, efetivamente, que o custeio de obras de saneamento, de profilaxia, a oferta de políticas de saúde e saneamento nos estados realizavam-se cada vez mais, ainda que com a prévia autorização destes, de forma centralizada por uma agência federal. A quase totalidade dos Estados, impossibilitados técnica e financeiramente de dar respostas aos imensos problemas de saúde pública, negociou sua autonomia pelo ingresso de recursos financeiros e humanos sob controle e administração direta do governo federal.
Considerações Finais
A análise da trajetória do Hospital da Candelária revela a importância deste estabelecimento na história da saúde pública no trecho entre Porto Velho e Guajará-Mirim e os desafios enfrentados por seus profissionais e pacientes ao longo dos anos de construção da linha férrea.
Desde sua fundação, o hospital se tornou um centro vital de assistência médica, em um contexto de surtos de doenças tropicais que acometiam os trabalhadores da estrada de ferro. Apesar das dificuldades estruturais e da precariedade do atendimento, médicos como Dr. Belt e Dr. Wallcot destacaram-se por sua dedicação e humanismo, fazendo frente à concorrência de curandeiros e à falta de recursos.
Com a decadência de procura e uma maior oferta do produto estagnaram o comércio quase que por definitivo, sem o financiamento propício às necessidades da época e levaram à deterioração das condições do hospital e à eventual transferência de seus serviços para o Hospital São José. A extinção dos serviços do Hospital da Candelária, formalizada em 1930, simboliza o fim de uma era, deixando apenas ruínas e memórias.
A história do Hospital da Candelária é um testemunho da luta pela saúde em condições adversas e da importância da intervenção médica em contextos de vulnerabilidade. A preservação de sua memória é fundamental para reconhecer o legado de todos que ali trabalharam.
A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré não apenas simbolizou uma ambiciosa empreitada de progresso, mas também revelou as duras realidades enfrentadas por milhares de trabalhadores em um ambiente hostil e insalubre. As enfermidades tropicais, como malária e febre amarela, se tornaram verdadeiros inimigos, vitimando grande parte da mão de obra e evidenciando a negligência em relação às condições de saúde e segurança. O Hospital da Candelária, apesar de ser um marco na tentativa de mitigar as consequências das doenças, não conseguiu reverter a alta mortalidade que assombrava a região. Os relatos de sanitaristas e observadores da época ressaltam o estado deplorável de locais como Santo Antônio do Madeira, que, longe de proporcionar um ambiente de trabalho seguro, expunha seus habitantes a um ciclo de pobreza e doença. A multiplicidade de trabalhadores de diversas origens, atraídos por promessas de emprego, encontrou um cenário de exploração e sofrimento, refletindo as contradições do capitalismo em ambientes coloniais.
A construção da ferrovia expôs as duras realidades dos trabalhadores, vítimas de doenças como malária e febre amarela em um ambiente insalubre. Os relatos de sanitaristas da época enfatizam as condições deploráveis de locais como Santo Antônio do Madeira, onde a exploração e a negligência prevaleciam, refletindo as contradições do capitalismo em contextos coloniais. A história do Hospital da Candelária é, portanto, um testemunho da importância da intervenção médica em tempos de vulnerabilidade e da necessidade de preservar essa memória.
Referências
CRUZ, O. Madeira-mamoré railways company: considerações gerais sobre as condições sanitárias de rio madeira. Rio de Janeiro, 1913.
CRUZ, O. Considerações gerais sobre as condições sanitárias do rio madeira. Rio de Janeiro: Papelaria Americana, 1910.
CRUZ, O. Sobre o saneamento da amazônia. Manaus: Philipe Daou, 1972. CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 20 ed. rev. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.
EDIÇÕES DO SENADO FEDERAL: Missão Rondon: apontamentos sobre os trabalhos realizados pela Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas /sob a direção do Coronel de Engenharia Cândido Mariano da Silva Rondon, de 1907 a 1915. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. Vol. 8.
FALKENBURGER, K. As botas do diabo. São Paulo: IBRASA, 1971.
FERREIRA, M.R. A ferrovia do diabo. 7ed. SãoPaulo: Melhoramentos, 2005.
FONSECA, D. Revista veredas amazônicas. Porto Velho. N.º 01, Vol. I, Set.2011.
GAULD, C. Farquhar – o último titã. um empreendedor americano na américa latina. São Paulo. Editora Cultura, 2006.
HARDMAN, F. F. Trem-fantasma: A Ferrovia Madeira–Mamoré e a Modernidade na selva. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SOUZA, M. Mad Maria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
1 Licenciado em História (2002) e Mestre em Letras, pela Universidade Federal de Rondônia (2015). dirsonalves@gmail.com
2 Licenciada em Letras Espanhol (2012) e Mestra em Letras, pela Universidade Federal de Rondônia (2014) nafriachianca@hotmail.com
3 Licenciada em Letras Inglês (2002) e Mestra em Letras pela Universidade Federal de Rondônia (2014). spratesmari@gmail.com
