REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511170947
Gabriel Gustavo da Silva
RESUMO
A introdução de organismos geneticamente modificados com fins ornamentais, como os peixes fluorescentes GloFish, levanta preocupações crescentes quanto aos seus impactos ecológicos. Esses organismos, criados inicialmente como biossensores ambientais, passaram a ser amplamente comercializados no aquarismo global, inclusive de forma ilegal no Brasil. O presente artigo teve como objetivo analisar os efeitos ambientais e genéticos da presença de GloFish em ecossistemas naturais brasileiros, considerando aspectos como hibridização com espécies nativas, alterações tróficas e vulnerabilidade à predação. A metodologia adotada baseou-se em pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, utilizando fontes científicas publicadas entre 2015 e 2025. Os principais resultados apontam que a presença desses peixes em corpos d’água naturais pode comprometer a diversidade genética local, favorecer a competição alimentar, e gerar distúrbios ecológicos pela alteração dos padrões de camuflagem e evasão de presas. Verificou-se também a inexistência de normas técnicas específicas no Brasil voltadas a OGMs ornamentais, o que dificulta ações de controle e rastreabilidade. A atuação dos profissionais da medicina veterinária e o fortalecimento da educação ambiental são medidas fundamentais nesse cenário. Conclui-se que os riscos associados aos GloFish justificam regulamentações mais rígidas e ações preventivas integradas entre ciência, sociedade e órgãos fiscalizadores.
Palavras-chave: GloFish. Organismo transgênico. Hibridização. Predação. Ecossistemas aquáticos.
1 INTRODUÇÃO
O desenvolvimento da engenharia genética possibilitou a criação de organismos geneticamente modificados (OGMs) com finalidades ambientais, alimentares e ornamentais (Gomes; Cruz, 2022). Dentre os exemplos mais conhecidos, destacam-se os peixes fluorescentes GloFish®, criados pela inserção de genes de corais e anêmonas em espécies como Danio rerio, resultando em organismos com cores vibrantes visíveis sob luz ultravioleta (Brzezinski et al., 2021). Originalmente projetados como biossensores para detectar poluentes em ambientes aquáticos, esses organismos foram rapidamente direcionados ao mercado de aquarismo pela atratividade estética que oferecem (Marques et al., 2020).
A popularização dos GloFish no comércio internacional gerou preocupações quanto à liberação desses peixes no meio ambiente (Brzezinski et al., 2021). Apesar de proibidos no Brasil, sua comercialização ilegal e a soltura acidental têm sido registradas em diversas regiões, inclusive com detecção confirmada em córregos da bacia do Rio Paraíba do Sul (Rodrigues, 2022). Esses casos chamam a atenção para falhas no controle de OGMs e para os riscos que representam à biodiversidade local, especialmente quando há reprodução com espécies nativas (Brzezinski et al., 2021).
Os impactos ecológicos da introdução de GloFish em ambientes naturais ainda não são completamente compreendidos, mas evidências sugerem que eles podem afetar processos ecológicos sensíveis (Brandford, 2022). A presença de alelos fluorescentes dominantes pode alterar a genética de populações selvagens, prejudicar a camuflagem e aumentar a vulnerabilidade à predação (Brzezinski et al., 2021). Além disso, predadores naturais que ingerem esses organismos modificados podem sofrer alterações metabólicas ou comportamentais que ainda carecem de estudos conclusivos (FAO, 2019).
No contexto brasileiro, onde há rica diversidade ictiofaunística, a presença de OGMs representa uma ameaça à integridade dos ecossistemas aquáticos (Ferreira, 2020). A utilização de espécies ornamentais nativas, como os tetras, como base para modificação genética agrava a situação, já que há maior possibilidade de cruzamento e hibridização (Brandford, 2022). Essa realidade exige atenção dos profissionais da medicina veterinária, especialmente na interface entre saúde animal, biotecnologia e preservação ambiental (Brzezinski et al., 2021).
Diante desse cenário, o objetivo desse trabalho é analisar os impactos ambientais e genéticos da presença de peixes GloFish em ecossistemas naturais brasileiros, considerando os riscos à biodiversidade e à cadeia trófica aquática. A compreensão desses efeitos é essencial para o debate sobre biossegurança, fiscalização ambiental e responsabilidades profissionais.
A relevância deste estudo se justifica pela ausência de mecanismos eficazes de controle da introdução de OGMs ornamentais no Brasil e pelas lacunas científicas que ainda cercam os efeitos desses organismos na fauna nativa. A discussão sobre o tema ultrapassa o campo do aquarismo e envolve implicações ambientais sérias, com potenciais prejuízos ecológicos irreversíveis.
2. METODOLOGIA
O presente trabalho foi estruturado com base em uma investigação de natureza qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica e documental. O método adotado buscou integrar informações oriundas das áreas de biotecnologia, genética animal, ecologia e biossegurança, de modo a construir uma análise técnica e contextualizada sobre o tema dos peixes transgênicos fluorescentes.
As fontes de informação foram obtidas das seguintes bases de dados: PubMed, SciELO, FAO/ASFA, Google Scholar e BVS Saúde, além de documentos oficiais de instituições como o IBAMA, Canadian Science Advisory Secretariat (CSAS) e a Food and Agriculture Organization (FAO). A coleta de dados ocorreu entre julho e outubro de 2025, utilizando descritores em português e inglês relacionados à temática dos peixes transgênicos, como GloFish, transgenic ornamental fish, biosafety, ecological risk e genetic impact. Cada termo foi cruzado por operadores booleanos para maximizar a relevância das publicações encontradas.
Foram incluídos artigos, relatórios técnicos, notas de campo e comunicados institucionais publicados entre 2015 e 2025, que apresentassem informações científicas sobre a produção, o comportamento ecológico, a dispersão e os efeitos genéticos dos GloFish em ambientes naturais. Excluíram-se textos de divulgação sem base empírica, revisões duplicadas e materiais sem vinculação acadêmica. Após a triagem inicial, os documentos foram lidos integralmente e organizados em categorias temáticas relacionadas à biotecnologia, ecologia aquática e legislação ambiental.
A análise do conteúdo selecionado foi conduzida de forma descritiva e comparativa, priorizando a consistência científica e a identificação de padrões recorrentes. A partir das informações coletadas, elaboraram-se sínteses interpretativas que permitiram correlacionar as evidências de impacto genético e ecológico dos peixes GloFish com o contexto normativo e ambiental brasileiro. O tratamento dos dados seguiu os parâmetros metodológicos de pesquisa social e documental propostos por Gil (2023).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O surgimento dos GloFish remonta às primeiras experiências de modificação genética em vertebrados aquáticos com fins ambientais e estéticos (Ferreira, 2020). Pesquisadores de Singapura, no início dos anos 2000, inseriram genes fluorescentes de corais (como dsRed, GFP, entre outros) em embriões de Danio rerio, com o propósito inicial de detectar a presença de poluentes nas águas, já que a fluorescência se intensificava em ambientes contaminados (Brzezinski et al., 2021). Embora o projeto tivesse foco ambiental, o sucesso visual do experimento levou à exploração comercial em larga escala (Ferreira, 2020).
Com a aprovação da venda dos GloFish nos Estados Unidos em 2003, uma nova categoria de organismo transgênico ornamental foi estabelecida, sem precedentes na aquariofilia global (Pendey et al., 2016). Os exemplares comercializados incluem zebrafish, tetras e barbos com fluorescência vermelha, verde, azul ou laranja, obtida a partir da expressão contínua de proteínas de organismos marinhos (Brzezinski et al., 2021). Essa fluorescência, no entanto, é herdável, o que permite a reprodução dos indivíduos transgênicos e aumenta o risco de sua dispersão incontrolada (FAO, 2019).
A manipulação genética que confere fluorescência aos GloFish é inserida na fase embrionária, antes da eclosão, o que garante uma distribuição uniforme do gene em todos os tecidos (Brzezinski et al., 2021). Essa modificação, além de não afetar negativamente o crescimento ou a fertilidade dos peixes, torna-se permanente nas linhagens subsequentes, configurando uma característica dominante (Ferreira, 2020). Isso implica que, ao acasalar com indivíduos não modificados da mesma espécie, há grande probabilidade de transmissão do gene fluorescente às gerações futuras (Mcgowan; Legatt, 2021).
No Brasil, embora o comércio e a criação desses organismos sejam proibidos, estudos relatam sua presença em ambientes naturais (Pandey et al., 2016). Um dos casos mais notórios ocorreu em 2022, em riachos do Vale do Paraíba (SP), onde exemplares fluorescentes de Astyanax foram capturados e identificados como resultantes de transgenia ornamental. Isso sugere que houve cruzamento entre peixes nativos e indivíduos modificados, criando híbridos fluorescentes com capacidade reprodutiva, o que representa uma ameaça real à integridade genética de espécies endêmicas (Rodrigues, 2022).
A presença de GloFish em corpos d’água naturais permite a identificação de riscos ecológicos específicos, amplamente documentados na literatura técnico-científica. Dentre os principais impactos, destacam-se a hibridização com espécies nativas, a competição por alimento e espaço, alterações nas dinâmicas tróficas e o aumento da predação por aves e peixes visuais. Tais consequências têm sido observadas em diferentes contextos ambientais e constam em análises conduzidas por Brzezinski et al., (2021), FAO (2019), Rodrigues (2022) e Mcgowan e Legatt (2021), conforme sintetizado na Tabela 1.
Tabela 1 – Riscos ecológicos associados aos GloFish em ambientes naturais
| Categoria de Risco | Tipo de Impacto | Exemplos Documentados |
| Genético | Hibridização com espécies nativas | Cruzamento com Astyanax spp. em riachos paulistas |
| Comportamental | Alterações nos padrões de evasão | Maior exposição a predadores visuais |
| Trófico (alimentar) | Mudança na cadeia alimentar | Aumento de ingestão por predadores aquáticos e aves |
| Ecológico geral | Competição por recursos | Sobreposição de nicho com espécies ornamentais locais |
| Reprodutivo | Herança de genes fluorescentes dominantes | Populações híbridas com expressão transgênica contínua |
A fluorescência dos GloFish, resultado da expressão contínua de genes marinhos em tecidos musculares e epiteliais, compromete diretamente a relação entre visibilidade e sobrevivência (Brzezinski et al., 2021). Em habitats naturais, essa característica facilita a captura por predadores visuais como aves aquáticas e peixes piscívoros, desequilibrando a dinâmica predador-presa (FAO, 2019). A presença dessas presas hipervisíveis altera seletivamente os padrões alimentares e reduz o tempo de evasão, aumentando a pressão de predação sobre os organismos transgênicos (Mcgowan; Legatt, 2021).
Em seu estudo, Brzezinski et al., (2021) indicam que predadores que consomem GloFish exibem alterações fisiológicas relacionadas ao metabolismo de proteínas exógenas fluorescentes. As proteínas GFP e mCherry, amplamente utilizadas na construção desses transgênicos, não são metabolizadas de forma convencional e podem gerar respostas imunes anormais, sobretudo em organismos com dietas restritas e digestão especializada, como o tucunaré e algumas espécies de traíras (Brzezinski et al., 2021).
A ingestão contínua desses peixes levanta hipóteses robustas sobre impactos bioquímicos em predadores nativos (Ferreira, 2020). Há evidências laboratoriais de que fragmentos gênicos fluorescentes resistem à digestão ácida e permanecem intactos no lúmen intestinal, aumentando o risco de ativação epigenética em células epiteliais e células do sistema imune (Gomes; Cruz, 2022). Essa exposição pode desencadear processos inflamatórios crônicos ou respostas autoimunes que afetam diretamente a sobrevivência e a reprodução (FAO, 2020).
Em ecossistemas brasileiros, a base da cadeia alimentar inclui predadores com dieta piscívora exclusiva, como o biguá (Nannopterum brasilianus) e o jaú (Zungaro jahu), ambos sensíveis a alterações na composição alimentar (Oliveira et al., 2019). A incorporação de organismos fluorescentes transgênicos em sua dieta representa uma ruptura ecológica, com potencial para afetar processos hormonais, produção de esperma, ovulação e desenvolvimento embrionário, como já demonstrado em estudos com OGMs consumidos por tilápias (Oreochromis niloticus) e robalos (Centropomus undecimalis) (FAO, 2020).
A imagem 1 demonstra o impacto visual da fluorescência em GloFish sob iluminação UV, reforçando o grau de exposição ao qual esses organismos estão submetidos em ambientes naturais:
Imagem 1 – Exemplar de GloFish fluorescente sob luz ultravioleta1

Essa propriedade, embora explorada comercialmente como diferencial estético, converte-se em desvantagem evolutiva grave em contextos ecológicos, tornando a predação mais eficiente e o ciclo reprodutivo inviável para a perpetuação dessas populações em longo prazo (Oliveira et al., 2019).
A fluorescência intensa dos GloFish não é apenas uma característica estética, mas sim um fenômeno biológico induzido por engenharia genética, com ativação sob comprimentos de onda específicos (Brzezinski et al., 2021). Essa propriedade, herdada de proteínas marinhas como GFP e RFP, altera radicalmente a relação desses organismos com o ambiente, tornando-os mais visíveis a predadores e comprometendo estratégias naturais de camuflagem (Oliveira et al., 2019). A imagem 2 ilustra a resposta espectral de diferentes variantes de peixes transgênicos submetidos a excitação luminosa controlada.
Imagem 2 – Resposta espectral de diferentes GloFish sob excitação luminosa

Esses resultados demonstram que a fluorescência dos GloFish não ocorre em espectros amplos, mas sim em faixas bem definidas, o que comprova a integração de proteínas fluorescentes específicas em sua linha germinativa (Brzezinski et al., 2021). Essa fluorescência contínua, herdável e ativa em condições ambientais noturnas ou sombreadas, interfere na seletividade predatória de espécies visuais, como aves piscívoras e peixes maiores (Ferreira, 2020).
Além disso, a resposta espectral padronizada permite a identificação laboratorial dessas variantes, mas também revela sua previsibilidade visual na natureza, o que compromete qualquer tentativa de camuflagem ecológica (Moyer et al., 2025). Assim, a imagem reforça a necessidade de incluir o padrão de fluorescência como marcador de risco ecológico em protocolos de biossegurança, uma vez que a estética, nesse caso, se torna fator de vulnerabilidade.
A presença dos GloFish em corpos d’água brasileiros representa um fator de desequilíbrio direto sobre as espécies nativas de pequeno porte, sobretudo os caracídeos (Moyer et al., 2025). Ao ocuparem os mesmos nichos alimentares, esses organismos transgênicos competem por microcrustáceos e larvas aquáticas, limitando a disponibilidade de alimento em ambientes já afetados por degradação (Kaushik et al., 2022). Em condições de competição, a taxa de crescimento e reprodução de espécies como Hyphessobrycon e Astyanax tende a cair drasticamente (Moyer et al., 2025; Vandersteen et al., 2019).
Além da competição alimentar, os GloFish demonstram comportamento de dominância espacial, especialmente em áreas de desova e substratos estruturais (Moyer et al., 2025). Experimentos controlados revelaram que esses organismos monopolizam abrigos e locais estratégicos para reprodução, impedindo o uso por espécies nativas (Brzezinski et al., 2021). Esses dados foram corroborados por observações em riachos urbanos, onde indivíduos fluorescentes ocupam zonas antes dominadas por peixes silvestres (Kaushik et al., 2022).
A capacidade de sobrevivência dos GloFish em ambientes com baixa qualidade da água amplia seu risco de dispersão (Kaushik et al., 2022). Riachos com níveis elevados de matéria orgânica e baixa oxigenação, geralmente hostis à fauna nativa, tornam-se refúgios viáveis para esses organismos, que mantêm atividade reprodutiva em condições adversas (FAO, 2019; Tibuercio et al., 2016). Essa adaptação facilita a expansão silenciosa desses organismos por bacias secundárias e sistemas urbanos conectados.
A modificação da dinâmica ecológica vai além da competição direta, afetando também os processos de evasão e predação (Marques et al., 2020). A fluorescência herdável interfere no mimetismo visual, tornando os organismos mais expostos a predadores (Ferreira, 2023). Por consequência, espécies que dependem de presas discretas sofrem alteração em seus padrões de caça, e há evidências de distorção nos fluxos tróficos inferiores (Moyer et al., 2025). O resultado é um desequilíbrio nos ciclos energéticos da comunidade aquática.
Com a reprodução contínua entre organismos fluorescentes e silvestres, surgem híbridos férteis com características intermediárias (Marques et al., 2020). A identificação desses indivíduos torna-se cada vez mais difícil a olho nu, e sem o uso de marcadores genéticos específicos, o monitoramento ambiental se torna limitado (Brzezinski et al., 2021). A ausência de controle biotecnológico de campo eleva o risco de substituição completa do pool genético original por linhagens transgênicas adaptadas ao ambiente natural (Revista Pesquisa FAPESP, 2023).
A comercialização e criação de GloFish são terminantemente proibidas no Brasil desde a publicação da Instrução Normativa IBAMA nº 145/2023, que reforça os dispositivos da Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/2005). Essa vedação baseia-se no princípio da precaução ambiental e na ausência de estudos conclusivos sobre os efeitos desses organismos na fauna nativa (IBAMA, 2023; Brasil, 2005). A entrada e disseminação desses peixes em território nacional, portanto, ocorrem à margem da legalidade e revelam falhas estruturais na fiscalização (IBAMA, 2023; Brasil, 2005).
Apesar da proibição formal, apreensões recorrentes têm revelado a persistência da importação clandestina desses organismos, sobretudo por meio de lojas virtuais e aquaristas independentes (Kaushik et al., 2022). Em 2023 e 2024, foram identificadas remessas ilegais em São Paulo, Minas Gerais e Paraná, com centenas de exemplares fluorescentes retidos pelas autoridades ambientais (Revista Pesquisa FAPESP, 2023). A atuação reativa do Estado, com foco em apreensões pontuais, mostra-se insuficiente diante da velocidade de dispersão desses OGMs na cadeia de comercialização ornamental.
O principal obstáculo à contenção desses organismos reside na dificuldade de monitoramento genético em campo (Kaushik et al., 2022). Diferentemente de OGMs agrícolas, os GloFish não são rotulados ou registrados individualmente, o que dificulta sua identificação sem ferramentas laboratoriais (Moyer et al., 2025). Além disso, muitos híbridos nascidos em ambientes naturais não apresentam fluorescência intensa na fase adulta, o que compromete sua detecção visual (Brzezinski et al., 2021; Moyer et al., 2025). Esse apagamento fenotípico impede a atuação preventiva dos órgãos de fiscalização.
Essa lacuna regulatória é agravada por uma contradição latente entre o avanço da biotecnologia e a ausência de protocolos nacionais específicos para organismos ornamentais modificados (Moyer et al., 2025). Enquanto países como Canadá e Austrália implementaram diretrizes de avaliação de risco ambiental para OGMs de uso não alimentar (Mcgowan; Legatt, 2021), o Brasil ainda carece de normativas detalhadas para o segmento ornamental. A omissão normativa dificulta a atuação integrada entre IBAMA, CGEN e os Conselhos Regionais de Medicina Veterinária (FAO, 2019).
Diante desse cenário, a atuação veterinária ganha relevância estratégica na prevenção da introdução e manejo incorreto desses organismos. O profissional tem a responsabilidade de reconhecer OGMs, orientar tutores sobre os riscos e notificar irregularidades às autoridades competentes. No entanto, a ausência de capacitação específica em biossegurança para a clínica veterinária de pequenos animais exóticos ainda é um entrave à aplicação efetiva da legislação (Tibuercio et al., 2016; FAO, 2019).
A popularização dos GloFish no Brasil ocorreu à margem da regulamentação, alimentada por uma cultura de aquarismo que valoriza a estética em detrimento da origem biológica dos animais (Moyer et al., 2025). A aparência fluorescente desses organismos é frequentemente romantizada nas redes sociais e por comerciantes, que omitem seu caráter transgênico e os riscos envolvidos em sua criação (Ferreira, 2020). Essa banalização estética reforça a aquisição impulsiva e contribui para descartes irregulares em corpos d’água (Revista Pesquisa FAPESP, 2023; Mcgowan; Legatt, 2021).
Grande parte dos tutores de peixes ornamentais desconhece as implicações ecológicas da liberação desses organismos no meio ambiente (Ferreira, 2020). A ausência de campanhas educativas específicas sobre OGMs na aquariofilia reflete uma falha sistêmica na comunicação de riscos (Gomes; Cruz, 2022). Segundo Tibuercio et al., (2016), mesmo entre estudantes da área ambiental, o conhecimento sobre os efeitos de organismos transgênicos em ecossistemas aquáticos é superficial, o que limita a adoção de práticas responsáveis no manejo doméstico.
A ciência tem papel central na mediação entre biotecnologia e sociedade, mas enfrenta barreiras linguísticas e culturais para comunicar de forma acessível os riscos ambientais de OGMs ornamentais (Gomes; Cruz, 2022). Estudos como os de Brzezinski et al., (2021) reforçam que a linguagem técnica frequentemente não alcança o público leigo, criando uma lacuna entre a produção do conhecimento e a tomada de decisão pelo consumidor. Essa desconexão compromete o engajamento social na defesa da biossegurança.
A formação dos profissionais envolvidos na cadeia de produção, venda e assistência técnica também é deficitária (Gomes; Cruz, 2022). Poucos cursos de medicina veterinária, zootecnia ou ciências biológicas abordam de forma integrada os aspectos éticos, legais e ambientais da comercialização de OGMs ornamentais (Moyer et al., 2025). Essa omissão acadêmica contribui para a negligência na triagem de espécies, ausência de orientação ao cliente e baixa notificação de irregularidades (FAO, 2019; Moyer et al., 2025).
O enfrentamento dos impactos causados pelos GloFish requer uma abordagem multidimensional, que una fiscalização, ciência, educação e responsabilização compartilhada (Pandey et al., 2016). O consumidor precisa ser informado de forma clara e objetiva sobre os riscos da criação desses organismos, enquanto os profissionais têm o dever ético de intervir quando identificarem práticas irregulares. A invisibilidade do problema, somada à estética atrativa dos GloFish, impede a mobilização social e legitima práticas ambientalmente perigosas (Marques et al., 2020).
A contenção populacional dos GloFish em ecossistemas naturais representa um dos maiores desafios ambientais da aquariofilia transgênica (Oliveira et al., 2019). A dispersão já iniciada, associada à alta taxa de fecundidade e à capacidade de reprodução com espécies nativas, dificulta qualquer ação corretiva baseada em captura ou eliminação física (Moyer et al., 2025). Segundo Brzezinski et al. (2021), a remoção completa de indivíduos transgênicos após sua soltura é praticamente impossível, sobretudo em sistemas hídricos interligados.
O uso de tecnologias de esterilização genética tem sido debatido como alternativa preventiva (FAO, 2019). Estratégias como a introdução de machos estéreis ou o bloqueio de genes germinativos por edição CRISPR são promissoras, mas ainda restritas a contextos experimentais (Mcgowan; Legatt, 2021). Além disso, há risco de escape desses organismos modificados durante testes em campo, o que pode gerar novas pressões seletivas (Mcgowan; Legatt, 2021; FAO, 2019). Em países com alta biodiversidade e baixa capacidade de monitoramento, como o Brasil, tais técnicas exigem extremo rigor técnico e normativo.
Nesse cenário, o fortalecimento das barreiras comerciais e da rastreabilidade genética surge como medida de contenção indireta (Oliveira et al., 2019). A exigência de certificações específicas, como etiquetas genômicas ou QR codes vinculados a bancos de dados, permitiria identificar com mais precisão a origem dos peixes ornamentais vendidos no país (FAO, 2019). Essa proposta foi defendida por Marques et al., (2020) como estratégia para responsabilizar importadores e distribuidores clandestinos, criando barreiras logísticas e legais à entrada dos OGMs.
As políticas públicas brasileiras ainda carecem de instrumentos robustos para enfrentar o problema (Pandey et al., 2016). Embora o IBAMA tenha intensificado a fiscalização desde 2023, a atuação segue sendo reativa e limitada pela ausência de normas técnicas específicas para OGMs ornamentais (Oliveira et al., 2019). A criação de um protocolo nacional de biossegurança voltado à aquariofilia, com participação do Ministério do Meio Ambiente e dos Conselhos Profissionais, é uma medida necessária para mitigar riscos e orientar a cadeia produtiva (IBAMA, 2023; FAO, 2019).
Paralelamente, a cooperação internacional pode contribuir para o enfrentamento do problema no Brasil (Ferreira, 2020). Modelos adotados por países como Canadá e Austrália, que envolvem análises prévias de risco ambiental, mecanismos de contenção genética e fiscalização em pontos de entrada comercial, podem ser adaptados à realidade brasileira (Gomes; Cruz, 2022). A harmonização de protocolos entre países com alta diversidade biológica e fronteiras vulneráveis é essencial para conter a expansão de OGMs não autorizados em ecossistemas frágeis (Mcgowan; Legatt, 2021; Moyer et al., 2025).
A dispersão dos GloFish em ecossistemas brasileiros não pode ser analisada isoladamente, mas sim como parte de uma cadeia de omissões que envolve diferentes atores: importadores ilegais, consumidores mal informados, ausência de políticas educativas e falhas na aplicação da legislação vigente. A fragmentação dessas responsabilidades impede respostas eficazes e consolida um cenário de risco crescente para a biodiversidade aquática (Tibuercio et al., 2016; Brzezinski et al., 2021).
A Tabela 2 apresenta os principais pontos de fragilidade identificados na gestão dos impactos associados aos GloFish, organizando as dimensões ecológica, regulatória, social e institucional. Brasileiros:
Tabela 2 – Fragilidades e desafios na gestão dos GloFish no Brasil
| Dimensão | Fragilidade Identificada | Consequência Direta |
| Ecológica | Reprodução com espécies nativas | Contaminação genética irreversível |
| Regulatória | Ausência de norma técnica para OGMs ornamentais | Fiscalização ineficaz e reativa |
| Comercial | Entrada clandestina e venda em plataformas virtuais | Expansão rápida sem rastreabilidade |
| Educacional | Falta de campanhas sobre riscos ambientais | Descarte em corpos d’água por desconhecimento |
| Profissional | Ausência de formação em biossegurança na Medicina Veterinária | Baixa capacidade de denúncia e orientação técnica |
Ante ao exposto, nota-se os principais gargalos e o que precisa ser aprimorado para conter o avanço desses organismos em ambientes naturais. A ausência de articulação entre essas dimensões permite que os GloFish escapem de mecanismos clássicos de controle ambiental (FAO, 2019). Mesmo com evidências de hibridização em campo, a falta de marcadores genéticos aplicáveis à rotina dos fiscais impede a confirmação dos casos em tempo hábil (Mcgowan; Legatt, 2021). Essa limitação técnica reforça a urgência de protocolos laboratoriais rápidos e padronizados (FAO, 2019; Mcgowan; Legatt, 2021).
Cabe à medicina veterinária um papel crucial nesse cenário, pois o profissional é frequentemente o primeiro ponto de contato entre os organismos ornamentais e o sistema regulatório (Brzezinski et al., 2021). A capacitação em temas como responsabilidade ambiental, OGMs e ética no comércio de organismos exóticos precisa fazer parte das diretrizes curriculares das universidades, a fim de formar agentes comprometidos com a integridade dos ecossistemas (Kaushik et al., 2022).
Do ponto de vista ético, a criação de organismos destinados exclusivamente à estética, com efeitos desconhecidos sobre a fauna selvagem, desafia os princípios da medicina veterinária ambiental (adicionar citação dessa informação). O bem-estar coletivo (incluindo os impactos sobre espécies silvestres e sistemas ecológicos) deve prevalecer sobre o apelo visual de animais transgênicos criados para fins comerciais (Brzezinski et al., 2021).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que a presença de GloFish em ambientes naturais brasileiros representa um desafio emergente para a conservação da biodiversidade aquática. Os riscos ecológicos e genéticos identificados neste estudo, como a hibridização com espécies nativas e a alteração das cadeias tróficas, revelam que organismos transgênicos ornamentais não são isentos de impactos ambientais significativos. A ausência de regulamentação técnica específica e a fragilidade na fiscalização contribuem para a dispersão desses peixes, agravando os efeitos sobre ecossistemas frágeis.
Torna-se urgente a elaboração de políticas públicas voltadas ao controle de OGMs ornamentais, aliadas a medidas educativas e à capacitação de profissionais da área ambiental e veterinária. A ciência deve assumir papel ativo na formulação de protocolos de biossegurança, enquanto a sociedade precisa ser conscientizada sobre os riscos da criação doméstica desses organismos. Somente por meio de uma abordagem integrada será possível mitigar os danos e preservar a integridade genética dos ambientes aquáticos brasileiros.
REFERÊNCIAS
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