GESTAÇÃO DE ALTO RISCO: EFEITOS DO DIABETES MELLITUS GESTACIONAL NA SAÚDE MATERNA E NEONATAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511272358


Maria Eduarda Telles do Vale 1
Vitória Maria Celant Ferreira Fogaça 2
Thaís Duarte Bifano 3


Resumo

O Diabetes Mellitus Gestacional (DMG) é uma disfunção metabólica caracterizada pela intolerância à glicose diagnosticada pela primeira vez durante a gestação, sendo considerada uma das complicações mais frequentes do período gestacional. O estudo tem como objetivo analisar os aspectos fisiopatológicos, epidemiológicos e terapêuticos do DMG, bem como os impactos dessa condição sobre a saúde materna e fetal. Trata-se de uma revisão bibliográfica integrativa, baseada em artigos científicos, diretrizes publicados entre os anos de 2000 e 2025 com acesso gratuito ao texto completo e artigos disponíveis nos idiomas português, espanhol e inglês. Observou-se que o DMG decorre principalmente da resistência à insulina induzida por hormônios placentários, como o lactogênio placentário humano, progesterona e cortisol, associada a fatores predisponentes como obesidade, idade materna avançada e histórico familiar de diabetes. As complicações mais recorrentes incluem macrossomia fetal, hipoglicemia neonatal, parto prematuro e risco aumentado de evolução para Diabetes Mellitus tipo 2 no pós-parto. O manejo do DMG requer uma abordagem multidisciplinar e individualizada, envolvendo intervenções não farmacológicas, como controle nutricional e prática de atividade física, e, quando necessário, tratamento medicamentoso com antidiabéticos orais ou insulina. Conclui-se que o diagnóstico precoce, o controle glicêmico rigoroso e o acompanhamento multiprofissional são fundamentais para reduzir a morbimortalidade materno-fetal e promover uma gestação segura. A adoção de estratégias preventivas e educativas é essencial para o controle do DMG e para a prevenção de complicações futuras.

Palavras-chave: Diabetes Mellitus. Resistência à Insulina. Complicações Obstétricas. Tratamento. Prevenção.

1 INTRODUÇÃO

O Diabetes Mellitus (DM) constitui uma das doenças crônicas não transmissíveis de maior relevância em termos de morbimortalidade, representando um importante desafio para o Sistema de Saúde Pública no Brasil (SUS). Esta condição acarreta elevados custos assistenciais e repercute significativamente na economia do país. Entre suas variações, destaca-se, o Diabetes Mellitus Gestacional (DMG), considerado o distúrbio metabólico mais comum em mulheres durante a gestação. O DMG está frequentemente associado às alterações hormonais típicas do período gestacional, bem como os fatores de risco como histórico familiar de diabetes, obesidade pré-gestacional e idade materna avançada (GIARLLARIELL, 2023).

Durante o período gestacional, ocorrem diversas alterações fisiológicas no organismo materno, destinadas a suprir as demandas metabólicas e de crescimento do feto. Essas adaptações envolvem principalmente os sistemas cardiovascular, renal, hematológico, respiratório e metabólico, garantindo o adequado desenvolvimento embrionário e fetal. A sensibilidade à insulina é uma das adaptações metabólicas mais importantes no início da gravidez, proporcionando um aumento na captação de glicose nas reservas adiposas para atender a alta demanda energética necessária na gestação. Todavia, à medida que a gestação progride, há elevação significativa de hormônios como estrogênio, leptina, progesterona, cortisol e, hormônio lactogênico placentário (hPL), que promovem resistência periférica à insulina. Essa resistência fisiológica tem como finalidade preservar a glicose circulante para o feto, mas, em algumas mulheres, pode ultrapassar os mecanismos compensatórios pancreáticos, resultando em hiperglicemia materna (NOBRE et al., 2023). Importa destacar que o Diabetes Mellitus Gestacional (DMG) é caracterizado pela intolerância à glicose diagnosticada pela primeira vez durante a gestação, não devendo ser confundido com casos de Diabetes Mellitus tipo 1 ou tipo 2 preexistentes. Em geral, a resistência insulínica torna-se mais evidente a partir da metade da gestação, intensificando-se progressivamente até o terceiro trimestre, período em que o diagnóstico de DMG é mais frequente (VOUNZOULAKI, 2020; MOHAN & EGAN, 2024).

Mulheres com sobrepeso ou obesidade apresentam aproximadamente duas vezes mais risco de desenvolver DMG em comparação àquelas com um índice de massa corporal (IMC) dentro da faixa adequada. Esse dado reflete à tendência de aumento da incidência de DMG nas últimas décadas, em paralelo ao crescimento global das taxas de obesidade, um importante problema de saúde pública (WANG et al., 2017). Além disso, gestantes com excesso de peso apresentam maior vulnerabilidade a complicações metabólicas e cardiovasculares, incluindo o desenvolvimento subsequente de Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) e doenças cardiovasculares (TAO et al., 2023).

No contexto fetal, o DMG está associado a diversas complicações metabólicas e estruturais, tais como macrossomia fetal, hiperbilirrubemia, hipoglicemia neonatal, malformações congênitas, hipocalcemia, Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SRDA), distocia de ombro e, em casos graves, natimortalidade. A exposição intrauterina à hiperglicemia materna também está relacionada a alterações epigenéticas que aumentam a predisposição da criança ao sobrepeso, obesidade e distúrbios glicêmicos na adolescência e vida adulta (RIBEIRO, 2022). 

Entre as complicações neonatais, a macrossomia fetal é a mais frequentemente observada, sendo caracterizada pelo recém-nascido (RN) com peso superior a 4.000 g. Esse quadro resulta principalmente da hiperglicemia materna não controlada, que estimula a hiperinsulinemia fetal e, consequentemente, o excesso de deposição de gordura e crescimento corporal desproporcional. A ausência de um pré-natal precoce e adequadamente conduzido agrava esse cenário, refletindo-se no aumento do peso do recém-nascido ao nascimento (SILVA et al., 2009). 

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Fisiopatologia e mecanismos de resistência à insulina no Diabetes Mellitus gestacional

A gestação é considerada um estado fisiológico hiperinsulinêmico, resultado da ação de hormônios diabetogênicos e da própria complexidade metabólica desse período. Essa adaptação visa garantir um suprimento contínuo de glicose ao feto, essencial para o seu crescimento e desenvolvimento (MAGANHA, BERNARDINI & ZUGAIB, 2003). Conforme destacado por OLIVEIRA, et al., (2022), o Diabetes Mellitus Gestacional representa uma condição de disfunção metabólica caracterizada por resistência à insulina, decorrente do desequilíbrio entre a produção hormonal placentária e a capacidade compensatória do pâncreas materno. Esse quadro resulta em hiperglicemia transitória durante a gestação, podendo trazer repercussões tanto para a mãe quanto para o feto. 

As células β pancreáticas, localizadas nas ilhotas de Langerhans, são responsáveis pela síntese e secreção do hormônio insulina. Este hormônio anabólico tem sua liberação estimulada pelo aumento da glicemia pós-prandial, promovendo o armazenamento e a utilização eficiente da glicose pelos tecidos periféricos. A sinalização da insulina inicia-se com sua ligação ao receptor de insulina presente na membrana celular, o qual possui atividade tirosina quinase intrínseca. Essa interação desencadeia uma cascata de fosforilações em resíduos de tirosina, ativando proteínas intracelulares como a fosfatidilinositol 3-quinase (PI3K). A ativação dessa via, promove a translocação das vesículas contendo o transportador de glicose GLUT-4 para a membrana plasmática, facilitando a captação de glicose pelas células-alvo — especialmente músculo esquelético e tecido adiposo — e contribuindo para a manutenção da homeostase glicêmica (OLIVEIRA et al., 2020). 

A resistência à insulina pode resultar de múltiplos fatores, incluindo alterações funcionais nas células β pancreáticas, que comprometem a síntese e secreção adequadas de insulina, reduzindo sua ação sobre os tecidos periféricos (EVANGELISTA et al., 2023). Essa disfunção, associada à diminuição da sensibilidade dos receptores de insulina, contribui para a manutenção de níveis elevados de glicose no sangue. Durante a gestação, a resistência insulínica é potencializada pela ação de hormônios de origem placentária, como o hormônio lactogênio placentário humano (hPL), que exerce efeito anti-insulínico ao favorecer o uso de ácidos graxos pela mãe e preservar a glicose para o feto. Além do hPL, outros hormônios também participam desse processo, como o cortisol, que eleva a glicemia por estimular a gliconeogênese hepática; o estrogênio e a progesterona, que modulam a sensibilidade tecidual à insulina; além de outros hormônios diabetogênicos produzidos pela placenta (KATSU & BAKER, 2021; FARIA, 2013).

2.2 Epidemiologia e fatores de risco do Diabetes Mellitus Gestacional

De acordo com o Hospital Israelita Albert Einstein (2022), a prevalência do DMG no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) é estimada em aproximadamente 18%. Contudo, observa-se um crescimento progressivo e preocupante desses índices em escala mundial, refletindo mudanças no estilo de vida, aumento das taxas de obesidade e adiamento da maternidade.

A International Diabetes Federation (IDEF, 2024), projeta que a prevalência de DM na América do Sul e Central aumentará em 46% até 2050, alcançando aproximadamente 52 milhões de adultos acometidos pela doença. Em relação à hiperglicemia na gestação, os dados atuais indicam que 1 em cada 6 nascidos vivos é afetado por algum grau de alteração glicêmica materna durante a gravidez. Especificamente, a prevalência de DMG entre mulheres de 20 a 49 anos atinge 12,5%, resultando em aproximadamente 967.187 nascidos vivos impactados pela hiperglicemia gestacional apenas no ano de 2024 (IDF, 2024).

Em um estudo realizado por Massucatti, Pereira & Maioli (2012), foram analisados 396 laudos laboratoriais de gestantes atendidas em Unidades Básica de Saúde (UBS) no município de Vitória-ES. Desses, 23 laudos (5,8%) apresentaram resultados compatíveis com DMG, com valores acima de glicemia de jejum superiores a 92 mg/dL, conforme os critérios diagnósticos estabelecidos. De forma semelhante, um levantamento conduzido pela Scimago Institutions Rankings (2023), avaliou 1.801 mulheres que haviam engravidado até dois anos antes do estudo e realizaram exames laboratoriais durante a gestação. Entre essas participantes, 106 (5,9%) relataram diagnóstico de DMG, reforçando a crescente prevalência da doença na população feminina em idade reprodutiva.

Além dos fatores hormonais e genéticos, o consumo de álcool também tem sido apontado como um elemento de risco relevante. Segundo Guimarães (2018), o álcool exerce efeito tóxico direto sobre o pâncreas, comprometendo a função das células β e interferindo na secreção e ação da insulina, favorecendo a resistência insulínica. Nesse estudo, foram avaliadas 334 gestantes, das quais 68,6% relataram já ter ingerido bebidas alcoólicas em algum momento da vida, e o consumo foi significativamente associado aos casos de Diabetes Gestacional e pré-gestacional. O Ministério da Saúde (Brasil, 2025) destaca como principais fatores de risco para o desenvolvimento do DMG a obesidade, o histórico familiar de diabetes e idade materna avançada. Em um estudo conduzido por Dode & Santos (2009), que acompanhou 4.243 gestantes ao longo de um ano, observou-se uma prevalência geral de DMG foi de 2,98% de DMG. No grupo de 572 mulheres com idade igual ou superior a 35 anos, a prevalência foi ainda maior, alcançando 4,37%, o que reforça a influência da idade como fator predisponente. A obesidade pré-gestacional e o ganho de peso excessivo durante a gravidez também são amplamente reconhecidos como fatores de risco significativos para o desenvolvimento do DMG (FEBRASGO, 2019). De acordo com Costa (2022), mulheres com obesidade apresentam um risco três a quatro vezes maior de desenvolver Diabetes Mellitus em comparação às gestantes com peso corporal dentro da faixa considerada normal. Esses achados reforçam a importância do controle do peso corporal antes e durante a gestação, bem como da implementação de estratégias preventivas voltadas à promoção de hábitos alimentares saudáveis e à prática regular de atividade física, com o objetivo de reduzir a incidência e as complicações associadas ao DMG.

Os achados desses estudos evidenciam que o DMG possui etiologia multifatorial, resultante da interação entre fatores metabólicos, hormonais e comportamentais. A ocorrência da doença está fortemente relacionada ao estado nutricional da gestante, à predisposição genética, ao estilo de vida e à exposição a agentes nocivos, como o álcool. A identificação precoce desses fatores de risco, associada ao monitoramento glicêmico adequado durante o pré-natal, é essencial para reduzir as complicações materno-fetais e promover uma gestação mais segura e saudável. Dessa forma, destaca-se a importância de estratégias preventivas e educativas no âmbito da atenção básica, voltadas ao rastreamento, diagnóstico precoce e acompanhamento multiprofissional das gestantes, especialmente aquelas com histórico de sobrepeso, obesidade ou hábitos que comprometam a função pancreática.

2.3 Complicações maternas, fetais e neonatais associadas ao Diabetes Mellitus Gestacional

O Diabetes Mellitus Gestacional pode gerar diversas complicações durante a gestação, afetando tanto a saúde materna quanto o desenvolvimento fetal e neonatal. Segundo ZHANG e colaboradores (2023), a ausência de controle glicêmico adequado interfere de forma significativa no crescimento e na maturação do feto, além, de comprometer as condições clínicas do recém-nascido. Entre as principais complicações neonatais, destaca-se a hipoglicemia ao nascimento, consequência da hiperglicemia materna durante a gestação, que estimula hiperinsulinemia fetal. Após o parto, a interrupção do suprimento de glicose materna, associada à elevada produção de insulina pelo neonato, resulta em queda acentuada da glicemia. Outra complicação frequentemente observada é a icterícia neonatal, decorrente do aumento na degradação de hemácias e da imaturidade hepática, podendo, em casos mais graves, exigir tratamento intensivo em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) (ZHANG, ZHOU & TIAN, 2023). 

A macrossomia fetal é caracterizada pelo nascimento de recém-nascidos (RN) com peso superior ao esperado para a idade gestacional, geralmente acima de 4.000 g. Essa condição está frequentemente associada a complicações obstétricas, como distocia de ombro e traumas durante o parto, decorrentes do excesso de peso fetal (SILVA et al., 2009). Segundo o estudo de Pedrini, et al. (2020), gestantes diagnosticadas com DMG apresentaram relação significativa entre sobrepeso materno e ocorrência de macrossomia, evidenciando que o estado nutricional da mãe é um determinante importante para o crescimento fetal excessivo. O estudo também identificou alta prevalência de hipoglicemia neonatal, resultado da hiperinsulinemia fetal induzida pelo excesso de glicose materna durante a gestação. Além dessas complicações, foram observados casos de icterícia neonatal, distúrbios respiratórios e partos prematuros, reforçando a necessidade de acompanhamento glicêmico rigoroso e intervenções nutricionais adequadas ao longo da gestação para minimizar os riscos materno-fetais. 

Em um estudo conduzido por Marano (2024), foram avaliadas 12.712 puérperas, comparando gestantes diagnosticadas com DMG às de risco habitual. Os resultados demonstraram que as mães com DMG apresentaram maior incidência de macrossomia fetal e parto prematuro, evidenciando a influência do excesso de glicose materna sobre o crescimento e a maturidade fetal. 

De forma semelhante, um levantamento realizado por Santos, Silva & Oliveira (2020) analisou 380 prontuários maternos, dos quais 5,6% correspondiam a gestantes portadoras de DMG. O estudo investigou as complicações neonatais nas primeiras 24 horas de vida e constatou um aumento significativo na ocorrência de hipoglicemia neonatal, resultado da hiperinsulinemia fetal secundária à hiperglicemia materna. Esses achados reforçam a importância do diagnóstico precoce e do controle glicêmico rigoroso durante a gestação, a fim de prevenir desfechos neonatais adversos.

2.4 Desfechos obstétricos e risco metabólico pós-parto em mulheres com Diabetes Mellitus Gestacional

Em mulheres diagnosticadas com DMG, o controle glicêmico materno e o peso fetal são fatores determinantes na escolha da via de parto. A manutenção inadequada dos níveis de glicose pode estar associada a gestações prolongadas entre 37 a 40 semanas, além de aumentar o risco de complicações obstétricas. Quando o peso fetal ultrapassa 4.000 g, há elevação significativa do risco de macrossomia e morte fetal intrauterina, o que frequentemente exige intervenção médica por meio de parto cesariano, com o objetivo de preservar a segurança materna e neonatal (FREITAS et al., 2024). A opção pela cesariana nesses casos é justificada pela prevenção de traumas obstétricos, como distocia de ombro, hipóxia perinatal e lesões de parto, condições que são mais prováveis em fetos macrossômicos. Dessa forma, o acompanhamento obstétrico rigoroso, aliado ao controle glicêmico e nutricional durante a gestação, é essencial para reduzir a necessidade de intervenções invasivas e minimizar os riscos perinatais.

Mulheres que vivenciam uma gestação diabetogênica, apresentam elevado risco de desenvolver o DM2 no período pós-parto. Entretanto, muitas não recebem o diagnóstico devido à ausência de acompanhamento clínico após o parto, o que gera lacunas significativas nos registros epidemiológicos (VOUNZOULAKI, et. al, 2020). Em um estudo conduzido por Lai, et al., (2020), observou-se que mulheres com histórico de DMG, apresentam probabilidade sete vezes maior de desenvolver DM2 e doenças cardiovasculares em comparação às gestantes sem o distúrbio. Entretanto, mais de 40% das participantes não realizaram o acompanhamento pós-natal recomendado, evidenciando falhas no seguimento clínico e na prevenção secundária. O Diabetes Mellitus tipo 2 é caracterizado por hiperglicemia persistente, mesmo na presença de níveis adequados de insulina, devido à resistência à sua ação nos tecidos periféricos. Essa condição compromete a homeostase glicêmica e está associada a complicações metabólicas graves, como a hipoglicemia e cetoacidose diabética, neuropatias e doenças cardiovasculares, afetando de forma significativa a qualidade de vida dos pacientes (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2009).

No período pós-parto, observa-se que muitas mulheres tendem a priorizar o cuidado familiar em detrimento do autocuidado, o que contribui para a negligência da própria saúde. Ademais, fatores como limitações de tempo, recursos financeiros, acesso à informação e suporte social dificultam a adoção de hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de atividade física. Nesse contexto, é comum que mulheres com histórico de DMG não implementem mudanças no estilo de vida capazes de reduzir o risco de progressão para DM2, reforçando a necessidade de intervenções educativas e acompanhamento multiprofissional contínuo (DENNISON et al., 2019).

2.5 Tratamento do Diabetes Mellitus Gestacional: estratégias não farmacológicas e farmacológicas

O tratamento do Diabetes Mellitus Gestacional (DMG) tem como principal objetivo manter o controle glicêmico materno, prevenindo complicações metabólicas, obstétricas e neonatais. A abordagem terapêutica deve ser individualizada, considerando as particularidades clínicas e o estado metabólico de cada gestante. Para isso, são adotadas estratégias não farmacológicas, como o autocuidado, a terapia nutricional e a prática de atividade física, que, quando insuficientes para atingir as metas glicêmicas, são complementadas por intervenções farmacológicas. O manejo adequado e o acompanhamento multiprofissional são fundamentais para garantir uma gestação segura e a redução dos riscos materno-fetais.

O DMG é uma disfunção metabólica potencialmente controlável, cuja complicações podem ser prevenidas por meio de intervenções adequadas e adesão ao tratamento. Para alcançar o controle glicêmico eficaz, é fundamental que a gestante participe ativamente do processo de cuidado, adotando práticas como o monitoramento diário da glicemia, a adesão a uma dieta individualizada prescrita por profissional habilitado, a realização regular de atividade física supervisionada e, quando necessário, o uso de insulinoterapia. Todas essas condutas de autocuidado são essenciais para a manutenção da homeostase glicêmica e prevenção de desfechos adversos, mas devem ser sempre avaliadas e acompanhadas por profissionais especializados, garantindo segurança e eficácia terapêutica (FERNANDES & BEZERRA, 2020).

O cuidado nutricional constitui um pilar fundamental no tratamento do DMG, sendo essencial para o controle glicêmico e a prevenção de complicações maternas e fetais. O plano alimentar deve ser elaborado por um nutricionista ou dietista individualizado de acordo com o estado nutricional, histórico clínico, hábitos alimentares e contexto sociocultural da gestante. A dieta deve ser nutricionalmente equilibrada, com distribuição adequada de carboidratos ao longo do dia, contemplando três refeições principais e de duas a três intermediárias, além de uma refeição noturna composta por carboidratos complexos. Essa estratégia visa evitar episódios de hipoglicemia noturna e prevenir a cetose matinal, contribuindo para a manutenção da estabilidade glicêmica durante todo o período gestacional (ALMEIDA et al., 2017)

Uma das principais estratégias não farmacológicas para reduzir a intolerância à glicose no Diabetes Mellitus Gestacional (DMG) é a prática regular de atividade física, que contribui significativamente para o melhor condicionamento cardiovascular e o controle metabólico. O exercício físico promove aumento da sensibilidade dos tecidos à insulina, intensificando a ligação e a afinidade da insulina aos seus receptores, além de reduzir a gordura intra-abdominal, aumentar a expressão dos transportadores de glicose sensíveis à insulina (GLUT-4) no músculo esquelético e diminuir os níveis plasmáticos de ácidos graxos livres (FERNANDES & BEZERRA, 2020).

Para a obtenção de benefícios metabólicos e segurança materno-fetal, recomenda-se a realização de atividades aeróbicas de baixo impacto, como caminhadas leves e natação de baixa intensidade, com duração média de 30 a 45 minutos por sessão, sempre sob orientação médica e acompanhamento profissional adequado (OLIVEIRA et al., 2021). Contudo, quando as metas glicêmicos não são alcançadas após o período de uma a duas semanas de intervenções não farmacológicas, torna-se necessária a introdução do tratamento medicamentoso, que pode incluir o uso de antidiabéticos orais (ADO), como metformina, glibenclamida e insulina, sendo esta a terapia mais empregada no manejo do Diabetes Mellitus Gestacional (DMG). Estudos recentes têm demonstrado que os ADO apresentam perfil de segurança e eficácia satisfatórios, podendo ser uma alternativa terapêutica segura em casos específicos (ALMEIDA et al., 2017).

Entre os antidiabéticos orais, a metformina, é considerada o fármaco de primeira escolha durante a gestação, devido à sua baixa toxicidade e eficácia clínica comprovada. Seu mecanismo de ação baseia-se na redução da glicemia plasmática, sobretudo pela inibição da gliconeogênese hepática, o que resulta em uma diminuição dos níveis séricos de insulina, além de estimular a captação de glicose pelo tecido muscular (NETO et al., 2015). 

A insulina, por sua vez, permanece como o tratamento padrão-ouro para o DMG. Trata-se de um hormônio peptídico sintetizado pelas células β pancreáticas, cuja secreção é estimulada pelo aumento da glicose sanguínea após as refeições. A insulina exerce papel essencial na homeostase metabólica, promovendo o aumento da captação de glicose pelos tecidos periféricos e estimulando a síntese de glicogênio, proteínas e ácidos graxos. Fatores extrínsecos, como hábitos alimentares inadequados e sedentarismo, podem comprometer sua ação fisiológica e contribuir para o agravamento da resistência insulínica (OLIVEIRA et al., 2020). 

Dessa forma, o tratamento do DMG exige uma abordagem integrada e interdisciplinar, que una educação em saúde, acompanhamento nutricional, prática de atividade física e intervenção farmacológica quando necessário. A adesão da gestante ao plano terapêutico é determinante para o sucesso do controle glicêmico e para a prevenção de complicações maternas e fetais. Além disso, o suporte multiprofissional contínuo envolvendo médicos, nutricionistas, enfermeiros, educadores físicos e biomédicos, contribui para o monitoramento seguro da gestação e para a promoção da qualidade de vida materno-infantil. O manejo adequado do DMG não apenas reduz riscos imediatos durante a gestação e o parto, mas também previne o desenvolvimento futuro de Diabetes Mellitus tipo 2, reforçando a importância da prevenção e do acompanhamento pós-parto como etapas essenciais do cuidado integral.

3 METODOLOGIA 

No presente trabalho, foi realizada uma revisão bibliográfica, que consiste em reunir, sintetizar e analisar artigos científicos relacionados ao Diabetes Mellitus Gestacional (DMG), com ênfase nos riscos à saúde materno-fetal.

As leituras se deram a partir da análise do resumo, resultados e conclusões, realizando assim uma avaliação para a verificação da inclusão e exclusão dos artigos. Foram estabelecidos critérios que incluem, publicações entre os anos de 2003 e 2025, artigos com acesso gratuito ao texto completo e disponíveis nos idiomas português, espanhol e inglês. A busca dos estudos foi conduzida a partir das palavras-chave: “Diabetes Mellitus Gestacional”, “Prevalência do Diabetes Mellitus Gestacional”, “Fatores de risco do DMG”, “Obesidade na gestação”, “Complicações do DMG”, “Malefícios do DMG em bebês” e “Diabetes Mellitus tipo 2”.

A análise dos artigos selecionados possibilitou o desenvolvimento de discussões organizadas em eixos temáticos, abrangendo: fisiopatologia, complicações materno-fetais, riscos associados, prevalência e tratamento. As bases de dados consultadas foram o Google Acadêmico, PubMed, SciELO e CAPES, por se tratarem de fontes reconhecidas e confiáveis de produção científica.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES 

Com base na análise de artigos científicos selecionados, constatou-se que o Diabetes Mellitus Gestacional (DMG), representa uma das principais alterações em mulheres durante a gravidez, tendo aumentado nas últimas décadas, acompanhando o aumento das taxas de idade materna avançada e obesidade. Estudos apontam prevalência que varia entre 5 e 18% das gestações dependendo dos critérios diagnósticos estabelecidos (HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN, 2022; IDF, 2024).

A fisiopatologia do DMG está relacionada à resistência insulínica induzida por hormônios placentários como progesterona, cortisol e lactogênio placentário humano, que reduzem a captação de glicose e como consequência, aumentam a glicemia materna (OLIVEIRA et al., 2020).

Quanto às complicações materno-fetais, destaca-se a hipoglicemia neonatal, síndrome do desconforto respiratório, parto prematuro e em destaque a macrossomia fetal (PEDRINI et al., 2020; ZHANG et al., 2023).

Alguns estudos indicam o risco de até 7 vezes maior em mulheres com DMG para o desenvolvimento do Diabetes Mellitus Tipo 2 após o parto, em comparação a mulheres que não tiveram a complicação (LAI et al., 2020; VOUNZOULAKI et al., 2020). Esses dados ressaltam a importância do acompanhamento médico após o nascimento do bebê.

De forma geral, os resultados desta revisão indicam que o diagnóstico precoce, a adesão ao tratamento e o acompanhamento pré-natal adequado são fatores importantes para a redução da morbimortalidade materno-fetal. Além disso, a educação em saúde e a orientação sobre estilo de vida saudável mostraram-se estratégias fundamentais para prevenir o desenvolvimento do DMG e suas complicações futuras.

5 CONCLUSÃO

O Diabetes Mellitus Gestacional (DMG) constitui uma das complicações metabólicas mais prevalentes no período gestacional e representa um importante desafio para a saúde pública. Sua ocorrência está fortemente associada a fatores genéticos, hormonais, metabólicos e comportamentais, sendo favorecida pelo aumento das taxas de obesidade, idade materna avançada e estilo de vida sedentário. A compreensão dos mecanismos fisiopatológicos envolvidos, como a resistência à insulina induzida por hormônios placentários, é essencial para o diagnóstico precoce e para o estabelecimento de estratégias terapêuticas eficazes que minimizem os riscos tanto para a mãe quanto para o feto.

O DMG está associado a diversas complicações obstétricas e neonatais, incluindo macrossomia, hipoglicemia, icterícia neonatal e parto prematuro, podendo ainda evoluir para diabetes tipo 2 no período pós-parto, caso não haja acompanhamento adequado. Nesse contexto, destaca-se a importância da atenção pré-natal qualificada, do rastreamento laboratorial e do monitoramento glicêmico contínuo, medidas que possibilitam a detecção precoce e o manejo adequado da doença.

O tratamento do DMG requer uma abordagem multidisciplinar, envolvendo intervenções não farmacológicas, como educação em saúde, controle nutricional e prática regular de atividade física, e, quando necessário, o uso de terapias farmacológicas seguras, como metformina ou insulina. O sucesso do tratamento depende da adesão da gestante e do acompanhamento multiprofissional, garantindo a manutenção da homeostase glicêmica e a prevenção de complicações materno-fetais.

Diante disso, reforça-se a necessidade de ações preventivas e educativas permanentes, voltadas à promoção de hábitos saudáveis e ao acompanhamento das mulheres em idade reprodutiva, antes, durante e após a gestação. A atuação integrada entre profissionais da saúde, incluindo biomédicos, médicos, nutricionistas e enfermeiros é fundamental para reduzir a morbimortalidade associada ao DMG e assegurar uma gestação segura, saudável e com melhor prognóstico materno-infantil.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, J. C. et al. Terapia nutricional no manejo do diabetes mellitus gestacional: uma revisão de literatura. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 39, n. 5, p. 243-250, 2017.

BRASIL. Ministério da Saúde. Diabetes. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/diabetes. Acesso em: 2025.

DENNISON, R. A. et al. The effectiveness of interventions for reducing the incidence of type 2 diabetes mellitus in women with prior gestational diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetes Research and Clinical Practice, v. 155, p. 107816, 2019.

DODE, M. A. S. O.; SANTOS, I. S. Fatores de risco para diabetes mellitus gestacional na coorte de nascimentos de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 2004. Cadernos de Saúde Pública, v. 25, n. 5, p. 1141–1152, 2009.

FEBRASGO. Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. Diabetes Gestacional: Diretrizes e recomendações. Brasília: FEBRASGO, 2019.

FERNANDES, L. S.; BEZERRA, K. C. Prática de atividade física e controle glicêmico no diabetes mellitus gestacional: revisão integrativa. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, v. 20, n. 3, p. 713-721, 2020.

FREITAS, F. C. et al. Diabetes mellitus gestacional: impactos na saúde materna e fetal. Research, Society and Development, v. 13, n. 12, e42131247571, 2024.

GUIMARÃES, A. P. Consumo de álcool e risco de diabetes mellitus gestacional: revisão da literatura. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 40, n. 4, p. 210–216, 2018.

HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Guia do Episódio de Cuidado: Diabetes Mellitus Gestacional (DMG). São Paulo: HIAE, 2022.

LAI, M. et al. Amino acid and lipid metabolism in post-gestational diabetes and progression to type 2 diabetes: a metabolic profiling study. PLoS Medicine, v. 17, n. 5, e1003112, 2020.

MARTINS-COSTA, S. et al. Influência da obesidade no risco de diabetes gestacional: revisão sistemática. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 44, n. 3, p. 213-220, 2022.

NETO, E. M. R. et al. Metformina: uma revisão da literatura. Saúde e Pesquisa, v. 8, n. 2, p. 355–362, 2015.

OLIVEIRA, P.; CARVALHO, S.; PAZ, S. M. R. S.; SANTOS, M. M. Reflexões sobre a relação entre resistência à insulina, diabetes mellitus e obesidade na adolescência à luz da literatura. Revista Eletrônica Acervo Saúde, n. 41, 2020.

PEDRINI, D. B.; CUNHA, M. L. C.; BREIGEIRON, M. K. Estado nutricional materno no diabetes mellitus e características neonatais ao nascimento. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, supl. 4, e20200010, 2020.

SANTOS, A. P.; SILVA, M. R.; OLIVEIRA, T. F. Perfil das mães de neonatos com controle glicêmico nas primeiras horas de vida. Revista de Enfermagem UFPE on line, v. 14, n. 1, p. 123-130, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/yDrjj8j4Gj8knF87F939K4h.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes: 2009. São Paulo: SBD, 2009.

VOUNZOULAKI, E. et al. Progression to type 2 diabetes in women with a known history of gestational diabetes: systematic review and meta-analysis. BMJ, v. 369, p. m1361, 2020.

ZHANG, X.; ZHOU, N.; TIAN, Y.; ZHANG, H. Gestational Diabetes Mellitus: Association with Maternal and Neonatal Complications. Journal of Diabetes Research, v. 2023, p. 1-9, 2023. DOI: https://doi.org/10.1155/2023/6647036.


1 Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário Univel. e-mail: metvale@univel.br
2 Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário Univel. e-mail: vitória.celant@univel.br
3 Docente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário Univel. Doutora em Bioquímica (IQ/USP). e-mail: thais.bifano@univel.br