REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601221614
Cecilia Emanuele dos Santos Gomes1
Ana Layse Rios Sobral2
Ariel de Moura Torres3
Ariely Victoria Carvalho do Nascimento4
Arthur Amaral de Carvalho Sá5
Arthur Pereira da Silva Abreu6
Antonio Alberto Moraes de Menezes Filho7
Samuel Soares do Ó Carneiro8
Renato B. da Paz Neto9
Lílian Gabriella Castelo Branco Alves de Sousa10
Resumo
O presente estudo analisa as relações de gênero e infância entre o povo indígena Warao em situação de migração e abrigamento no município de Teresina-PI, a partir de uma perspectiva antropológica. Inseridas em um contexto de vulnerabilidade social, econômica, cultural e institucional, mulheres e crianças Warao enfrentam múltiplas formas de violência, invisibilização e negação de direitos. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo, realizada entre os meses de outubro e novembro de 2025, nos abrigos Miguel Rosa e Poty Velho. Foram realizadas entrevistas estruturadas com dez mulheres indígenas, considerando as limitações impostas pela barreira linguística, pela ausência de algumas mulheres no momento da coleta e pela disponibilidade das participantes. Os resultados evidenciam uma sobrecarga feminina marcada pelo acúmulo de responsabilidades domésticas, baixa participação nas decisões comunitárias e dificuldade de acesso a informações e políticas públicas. No que se refere à violência, os relatos indicam episódios de assédio, embora se observe que o reconhecimento dessas situações é atravessado por fatores como medo, insegurança, vergonha e desconhecimento conceitual sobre o que configura violência, o que pode ter influenciado as respostas negativas de parte das entrevistadas. Considera se ainda que a ampliação do número de participantes, especialmente se todas as mulheres dos seis abrigos existentes fossem entrevistadas, possivelmente revelaria um cenário ainda mais expressivo de violações A partir dos dados analisados, observa-se que ser mulher no contexto Warao implica enfrentar uma condição interseccional de desigualdade, intensificada pela migração forçada, pela condição indígena e pelas limitações impostas pelo contexto urbano, reforçando a urgência de políticas públicas culturalmente sensíveis e efetivas.
Palavras-chave: Relações de gênero. Infância indígena Warao. Migração indígena. Violência contra mulheres indígenas. Vulnerabilidade social.
Abstract
This study analyzes gender relations and childhood among the Warao Indigenous people living in situations of migration and sheltering in the municipality of Teresina, PI, from an anthropological perspective. Inserted in a context of social, economic, cultural, and institutional vulnerability, Warao women and children face multiple forms of violence, invisibility, and denial of rights. The research adopted a qualitative approach, grounded in bibliographic research and field research, conducted between October and November 2025 in the Miguel Rosa and Poty Velho shelters. Structured interviews were carried out with ten Indigenous women, considering limitations imposed by language barriers, the absence of some women at the time of data collection, and the availability of participants. The results reveal a female overload marked by the accumulation of domestic responsibilities, low participation in community decision making, and difficulties in accessing information and public policies. Regarding violence, the reports indicate episodes of harassment, although the recognition of such situations is shaped by factors such as fear, insecurity, shame, and limited conceptual understanding of what constitutes violence, which may have influenced the negative responses of some interviewees. It is also considered that expanding the number of participants, especially if all women from the six existing shelters were interviewed, would likely reveal an even more expressive scenario of rights violations. Based on the analyzed data, it is observed that being a woman in the Warao context implies facing an intersectional condition of inequality, intensified by forced migration, Indigenous status, and the limitations imposed by the urban context, reinforcing the urgency of culturally sensitive and effective public policies.
Keywords: Gender relations. Warao Indigenous childhood. Indigenous migration. Violence against Indigenous women. Social vulnerability.
Introdução
A temática de gênero e infância entre o povo warao constitui um campo de estudo que requer atenção e sensibilidade, especialmente por se tratar de um grupo culturalmente distinto da sociedade brasileira. A convivência entre diferentes modos de vida frequentemente suscita olhares carregados de preconceito em relação a esse povo tradicional, que se viu forçado a migrar para o Brasil devido à crise na Venezuela e que, desde então, enfrenta cotidianamente múltiplas formas de vulnerabilidade social e econômica.
Na contemporaneidade, observa-se um cenário preocupante marcado por casos recorrentes de violência de gênero, feminicídio e abusos sexuais que atingem pessoas de diversas idades. Nesse contexto, o povo warao, em razão de sua condição social e da limitação de acesso a recursos tecnológicos e informacionais, mostra-se particularmente vulnerável a tais situações.
Segundo levantamento realizado pela Gênero e Número, com dados do DataSUS coletados em 19 de março de 2025, os registros de violência contra mulheres indígenas aumentaram 258% entre 2014 e 2023. No mesmo período, a média nacional de crescimento dos casos de violência contra mulheres de todas as raças foi de 207%. Essa diferença evidencia a maior vulnerabilidade vivenciada pelas mulheres indígenas. A ausência de uma compreensão mais ampla acerca das dinâmicas sociais que envolvem essas violências reflete uma mentalidade ainda fortemente enraizada em valores comunitários e tradicionais, o que torna a proteção das mulheres e das crianças um desafio ainda maior.
A escalada desses casos evidencia falhas estruturais: muitas políticas públicas ainda não contemplam as especificidades culturais dos povos indígenas. Como afirma a coordenadora do gênero e número Bruna de Lara (2025):
nossas leis e políticas públicas de enfrentamento à violência ainda não alcançam as mulheres originárias – nem em termos conceituais, por não levarem em conta as especificidades desses grupos, nem geográficos, já que os aparatos de denúncia e acolhimento, muitas vezes, são inacessíveis.
Segundo as reportagens do The Guardian (2024), foram apresentadas imagens duras dessa realidade em abrigos de Manaus: famílias dividindo pequenos espaços, longas filas por atendimento médico e episódios de fome que se repetem com frequência. Nessas condições, a fragilidade emocional e física das crianças é ainda mais evidente. Ambientes assim não apenas expõem os pequenos a doenças e carências materiais, mas também ampliam o risco de violência, exploração e negligência, riscos que muitas vezes passam despercebidos aos olhos da sociedade.
Em busca de sobrevivência, muitas famílias Warao recorrem ao trabalho informal nas ruas, prática observada em diversas cidades brasileiras, inclusive em Teresina/PI (ACNUR, 2024). Mães são frequentemente vistas em semáforos, acompanhadas de seus filhos, numa tentativa de garantir o mínimo necessário para a subsistência diária. Embora essa prática seja comumente alvo de julgamentos externos, ela representa, para essas mulheres, um ato de resistência e cuidado materno diante da exclusão social e da ausência de políticas públicas eficazes. Contudo, essa exposição no espaço urbano amplia significativamente os riscos enfrentados por mulheres e crianças.
Diante desse contexto, o presente estudo, intitulado “Gênero e Infância Warao: uma análise antropológica das relações sociais e culturais”, tem como objetivo geral analisar, sob uma perspectiva antropológica, as relações de gênero e as experiências da infância no contexto do povo indígena Warao em situação de migração e abrigamento no município de Teresina/PI, evidenciando as condições de vulnerabilidade social, cultural e institucional às quais mulheres, crianças e jovens estão submetidos.
De forma específica, busca-se: compreender como as mulheres Warao percebem e vivenciam as questões de gênero, cuidado e proteção no contexto dos abrigos urbanos; identificar situações de vulnerabilidade, violência e insegurança que afetam mulheres, crianças e jovens Warao; analisar os impactos da migração forçada e das condições de abrigamento sobre a infância, especialmente no que se refere ao acesso à alimentação, educação e proteção; investigar como as barreiras linguísticas e culturais interferem no acesso dessas mulheres aos seus direitos; e refletir criticamente sobre a adequação das políticas públicas frente às especificidades socioculturais do povo Warao.
Para alcançar tais objetivos, a pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentada em pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. A pesquisa bibliográfica baseou-se em livros, artigos científicos, relatórios institucionais e documentos oficiais, com ênfase em estudos sobre gênero, antropologia, migração indígena, violência e direitos humanos.
A pesquisa de campo foi realizada entre os meses de outubro e novembro de 2025, no município de Teresina/PI, e consistiu na aplicação de entrevistas estruturadas com mulheres indígenas Warao em situação de abrigamento. Foram entrevistadas dez (10) mulheres, com faixa etária aproximada entre 18 e 40 anos, residentes nos abrigos Miguel Rosa e Poty Velho.
Atualmente, Teresina conta com seis abrigos destinados à população indígena venezuelana Warao. Um deles, a Casa de Passagem, é coordenado por uma equipe contratada pelo Estado, enquanto os demais cinco são geridos pela Prefeitura Municipal, sendo eles: Miguel Rosa, Buenos Aires, São João, Tabuleta e Poty Velho, denominados conforme os bairros onde estão localizados. A escolha dos abrigos Miguel Rosa e Poty Velho ocorreu a partir da orientação da coordenação da Fazenda da Paz11, que indicou esses espaços como os mais adequados para a realização da pesquisa no período, em razão de problemas de insalubridade, ocorrência de doenças e situações de instabilidade no convívio cotidiano nos demais abrigos.
As entrevistas abordaram aspectos relacionados às condições de vida, segurança, proteção, relações de gênero e à situação das crianças e jovens. Devido à barreira linguística, em alguns momentos foi necessária a mediação de um intérprete indígena Warao. Além disso, houve dificuldade em localizar todas as mulheres nos abrigos no período da pesquisa, uma vez que muitas se encontravam fora, seja em atividades laborais, seja em outros compromissos cotidianos. Por essa razão, a pesquisa foi realizada com as mulheres que se encontravam presentes nos abrigos e que se mostraram disponíveis a participar do estudo. Os dados obtidos foram analisados qualitativamente, à luz do referencial teórico adotado, buscando compreender as experiências narradas pelas mulheres e suas múltiplas camadas de vulnerabilidade.
2. Situação Atual
A violência contra as mulheres indígenas tem aumentado a cada ano, sendo a violência sexual a que mais apresenta crescimento. A maioria das vítimas é composta por menores de idade. Segundo notícia publicada pela CNN em 2025
Outro dado que chama a atenção é o perfil das vítimas desse tipo de abuso: 50% delas são meninas menores de 14 anos. Nessa faixa etária, qualquer ato de natureza sexual configura estupro de vulnerável, já que a lei estabelece os 14 anos como a idade mínima de consentimento. No total, 79% das vítimas são menores de idade, versus 66% entre a população feminina em geral.
Dessa forma, evidencia-se a profunda vulnerabilidade vivenciada por essas mulheres. Ao recorrerem aos chamados “trabalhos de rua” como meio de subsistência, mães e crianças tornam-se ainda mais expostas a diversas formas de violência (Acnur, 2024). No caso do povo Warao — conhecido por sua simplicidade e por ter pouco conhecimento quanto ao uso das tecnologias —, há também o desconhecimento de muitos de seus direitos. Conforme a matéria publicada no site da Defensoria Pública do Estado do Ceará em 2024, que apresenta o posicionamento de Antonia Kanindé, orientadora da Secretaria Estadual dos Povos Indígenas (Sepince), esta diz:
Eu trago à tona a urgência de enfrentar essa realidade, que é tão dolorosa e tão clara a nós, mulheres indígenas, e que vivenciamos todo esse processo no nosso cotidiano. Nós, mulheres indígenas, somos os pilares essenciais das nossas comunidades; somos guardiões das tradições, da cultura e dos valores dos nossos povos.
Evidenciando, portanto, os riscos e as situações de vulnerabilidade enfrentados por essas mulheres, tanto em suas comunidades quanto no convívio social mais amplo. A proteção dessas mulheres, jovens e crianças mostra-se essencial para garantir sua dignidade, segurança e direitos fundamentais.
2.1 Impressões
Para compreender como as mulheres Warao percebem as questões de gênero e infância, foram realizadas entrevistas com os warao em situação de abrigamento, situados nos abrigos do bairro Poti Velho e Avenida Miguel Rosa, 10 mulheres foram entrevistadas com a faixa etária aproximada entre 18 e 40 anos. As perguntas foram relacionadas às suas condições de vida, à situação dos jovens, à segurança e à proteção.
Uma das maiores dificuldades encontradas durante a realização da entrevista foi a barreira linguística, sendo necessário em determinados momentos ter a presença de um intérprete, sendo este um homem warao, para nos comunicar com as mulheres. A maioria delas compreende pouco o português, reconhecendo apenas algumas palavras. Alguns demonstram um certo entendimento, mas no geral, comunicam-se principalmente em sua própria língua, o warao. Eles também falam o básico do espanhol, embora com limitações de compreensão.
As mulheres mostraram-se mais reservadas e pouco dispostas a interagir, o que dificultou o diálogo. Durante as tentativas de conversa, algumas se recolhiam aos quartos, enquanto outras não respondiam. Apesar dessas barreiras, com bastante esforço foi possível coletar as informações necessárias.
Imagem 01: Mulheres e crianças do ab. Miguel Rosa

Da esquerda para a direita, estão: Maribel; Ramon, filho da mulher ao lado que se chama Ana Bela, Janacely (criança), Jorbel (criança), Nilselys (mãe das duas crianças citadas anteriormente) e Alerza.
Fonte: Acervo dos autores (2025).
2.2 Resultados obtidos
Os dados acerca das condições das mulheres warao revela algo que vai muito além de números: ele mostra vidas marcadas por força, resistência e, ao mesmo tempo, por uma grande sobrecarga invisível. São elas que carregam quase sozinhas a responsabilidade pela casa, pelos filhos e pela estrutura diária da família. Muitas estão cansadas, mas seguem em silêncio, pois desde cedo aprenderam que esse é o seu papel — um papel que raramente é reconhecido.
O que mais chama atenção é a solidão que essas mulheres enfrentam. Elas quase não participam das decisões da comunidade e, quando precisam de ajuda, muitas vezes não têm a quem recorrer, isso se deve ao fato que se trata de uma comunidade tradicional, com definição de papéis. E a barreira linguística aprofunda ainda mais essa distância: muitas não compreendem o português e têm dificuldade em entender informações básicas sobre seus direitos, serviços médicos ou apoio social.
Essas mulheres não vivem apenas a migração física; vivem também a migração emocional para um mundo onde sua cultura é pouco compreendida e sua voz, muitas vezes, não encontra espaço. É visível mulheres que seguram sozinhas o cotidiano, mas que também carregam uma imensa força e vontade de proteger suas famílias.
2.2.1 Resultado obtido sobre os jovens e crianças
O número de entrevistados corresponde àqueles que se encontravam disponíveis no momento da coleta de dados, uma vez que os demais estavam na escola ou desempenhando atividades laborais nas ruas. Os dados sobre os jovens e as crianças warao nos convidam a olhar com cuidado para uma infância vivida em condições tão frágeis quanto resilientes. As mães, mesmo sobrecarregadas, fazem o possível para garantir uma refeição a seus filhos, apesar da entrega de alimentos semanais, as famílias informaram não ser suficiente. E mesmo a grande maioria sendo beneficiária de bolsa família, uma grande parcela desse valor tem um destinatário que são os familiares que ficaram na Venezuela.
No abrigo, muitas crianças frequentam a escola e encontram na educação uma pequena janela para o mundo. Nos momentos livres, dedica-se a desenhar, estudar e brincar como pode. São crianças que carregam traços de migrantes, mas também de sonhadores; que vivem entre dois mundos, o da cultura warao e o da sociedade brasileira, tentando encontrar espaço para crescer.
Tem-se um esforço constante das famílias para construir um cotidiano minimamente seguro, ainda que os recursos sejam escassos. Ele revela que, mesmo rodeadas de dificuldades, essas crianças encontram caminhos para expressar sua criatividade e sua vontade de aprender.
2.2.2 Resultado do questionário sobre segurança e proteção
Sobre segurança e proteção, o cenário vivido pelas mulheres warao revela um retrato delicado, que exige sensibilidade para ser compreendido. Muitas delas não conseguem sequer nomear o medo que sentem, porque vivem em um ambiente onde a violência, sobretudo em sua forma institucional, não faz parte de suas referências culturais, e onde a língua portuguesa ainda é um obstáculo para reconhecer o perigo e seus próprios direitos. Esse silêncio diante da agressão remete ao que Veena Das (2007) afirma ao analisar o sofrimento feminino: muitas violências tornam-se quase indizíveis quando rompem o mundo familiar e negam às vítimas as palavras para narrá-las.
Em meio a essa vulnerabilidade, surgem relatos de assédio — homens que as tocaram sem permissão, situações que as deixam desconfortáveis e desamparadas. Sem saber a quem recorrer, seja por não compreenderem que possuem esse direito, seja pela vergonha de relatar às demais pessoas, essas mulheres acabam se retraindo ainda mais. Como observa Pierre Bourdieu (1998), a violência simbólica atua justamente quando as vítimas não dispõem das categorias para perceber e expressar a violência que sofrem, o que agrava ainda mais o desamparo institucional vivido por migrantes indígenas.
Não se trata apenas de medo: é desorientação, é o peso de viver longe de sua terra, de suas referências culturais e de seus sistemas tradicionais de apoio. Viveiros de Castro lembra que as cosmologias indígenas definem de maneira distinta concepções como perigo, corpo e agência (VIVEIROS DE CASTRO, 1996), o que ajuda a compreender a dificuldade dessas mulheres em reconhecer instâncias estatais como lugares de proteção.
Ao mesmo tempo, é importante considerar que alguns elementos tradicionais podem também reproduzir violências — como práticas de casamento infantil. Esse aspecto dialoga com análises de Caldwell, Caldwell e Quiggin (1989), que mostram que essa prática, embora culturalmente enraizada, está associada à manutenção de estruturas patriarcais que restringem a autonomia de meninas e jovens mulheres.
Somado a isso, as desigualdades estruturais que atravessam mulheres indígenas migrantes, como lembra Segato (2014), decorrem de formas históricas de colonialidade que ampliam sua exposição a violências específicas. Assim, o sofrimento das mulheres warao não pode ser entendido apenas como experiência individual, mas como resultado de camadas de vulnerabilidade social, linguística, institucional e cultural.
A segurança dessas mulheres e crianças depende urgentemente de políticas públicas que as enxerguem como sujeitos de direitos e que essas políticas sejam eficazes. Não como estrangeiras, nem como estatísticas, mas como pessoas com histórias, cultura, fragilidades e muita coragem. A situação da segurança nos lembra que a proteção não pode ser apenas institucional, ela precisa ser humana, acolhedora e construída com escuta.
3. Análise Crítica
Com base nos resultados obtidos, é possível destacar pontos relevantes sobre a realidade vivida pelas mulheres Warao. Em sua maioria, são elas as principais responsáveis pelo cuidado do lar, acumulando sozinhas as tarefas domésticas, o que a algumas as leva ao cansaço e outras por viver costumeiramente se sentem “normais” com essa condição. Participam raramente das reuniões e decisões da comunidade, e não recebem apoio quando necessitam.
Algumas mulheres trabalham nas escolas cuidando das crianças, porém esse “benefício” não é para todas, mais sim uma minoria. Mesmo em um ambiente violento, a cultura em si impede que as mulheres se divorciam de seus maridos. Considerando as perspectivas culturais, quais são as possibilidades? Acredita-se que tudo começa no âmbito da educação, com o fortalecimento das políticas públicas. E de acordo com Roque Barros de Laraia (2001), a cultura se transforma. Logo, as pessoas mudam!
No que se refere aos jovens e às crianças, percebe-se que o preparo das refeições fica sob responsabilidade das mães. Mesmo com a escassez de alimentos — muitas vezes insuficientes para toda a semana devido ao grande número de pessoas —, as famílias procuram garantir que todos se alimentem, a percepção durante as visitas e de que a mulher – que prepara a comida – consegue ter a percepção de que aquele alimento recebido é insuficiente para todos, não são todos que trabalham e tem renda para ajudar a comprar o básico, mesmo recebendo algum auxílio do governo. A maioria das crianças frequenta a escola e, em seus momentos livres, dedicam-se principalmente ao estudo e desenhos.
Quanto à questão da violência, como é possível sentir medo daquilo que não se entende a sua gravidade? Esse fato evidencia ainda mais que muitas mulheres warao só conseguem reconhecer a violência quando ela se manifesta de forma física, já que outras formas de agressão, como a institucional, simbólica ou psicológica, não fazem parte de seus referenciais culturais ou linguísticos de identificação. No entanto, relataram situações que se configuram em assédio, em que homens as tocaram inadequadamente.
A pergunta realizada às dez (10) mulheres que participaram das entrevistas, foi “algum homem já tocou no seu corpo?”, para garantir a resposta da pergunta, as entrevistadoras demonstraram com seu próprio corpo onde seriam esses toques. Diante disso, das dez (10) mulheres, sete (7) delas responderam que sim, as outras três (3) que responderam negativamente. Contudo, abre-se um questionamento quanto a resposta contrária das três entrevistadas ser de fato algo que reflete a realidade ou medo de contar sobre o ocorrido, visto que a maioria das mulheres demonstram ser mais retraídas. E quanto às demais que não entraram para a contagem das entrevistas? (ver o gráfico em apêndice A).
Ademais, surge uma preocupação ainda maior. Se nas entrevistas já identificamos um número elevado de episódios de assédio, é provável que, caso tivéssemos alcançado todas as mulheres e meninas que participam da atividade de rua, encontraríamos um quantitativo ainda mais expressivo de situações de violência. Isso também não exclui a possibilidade de violência doméstica ocorrendo dentro dos abrigos, aspecto que não pôde ser explorado devido à dificuldade de comunicação de algumas mulheres e ao fato de a mediação ter sido realizada por um homem.
Diante desses dados, torna-se evidente a vulnerabilidade do povo warao, que recorre aos trabalhos de rua como meio de sobrevivência diante da falta de apoio do poder público. É fundamental que se reconheça essa realidade e que políticas efetivas sejam implementadas, a fim de garantir proteção, dignidade e respeito a um povo historicamente marginalizado e exposto à exclusão e à violência.
4. Conclusão
A partir da análise realizada, foi possível compreender a complexa realidade vivida pelas mulheres e famílias warao nos abrigos visitados. As informações coletadas revelam um contexto marcado por vulnerabilidade social, dificuldades de comunicação, sobrecarga feminina e limitações no acesso a direitos básicos. As mulheres warao, em especial, sua realidade não é tão diferente das mulheres ocidentais, estas também enfrentam uma dupla jornada: são responsáveis pelo cuidado do lar e dos filhos, além de lidarem com a falta de apoio e reconhecimento dentro e fora da comunidade, são provedoras do sustento de sua família.
No que diz respeito às crianças e jovens, observa-se que, apesar da escassez de recursos, há um esforço significativo das famílias para garantir alimentação e acesso à educação. Relatórios recente, da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em conjunto com a FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) de 2023 sobre o “Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil 20212023”, apontam aumento significativo de violências letais e sexuais entre crianças em situação de vulnerabilidade, evidenciando que a exposição nas ruas — muitas vezes decorrente da necessidade de obter renda ou alimentos — aumenta o risco de agressões e mortes.
As barreiras linguísticas e culturais, somadas à ausência de políticas públicas efetivas, reforçam a marginalização desse grupo já tão profundamente discriminado. Afinal, além de um povo nativo, dentro do Brasil eles são enquadrados como refugiados, muitos sem documentação adequada e, não obstante, as mulheres das comunidades warao ainda acumulam outro estigma, justamente o de ser mulher, o que gera uma somatória intensificadora das desigualdades dos grupos minoritários. Além disso, relatos de assédio e falta de proteção demonstram que ainda há uma grave lacuna na segurança e no amparo às mulheres, o que se intensifica nos grupos warao, deixando-as desprotegidas diante de situações de violência.
Diante desse cenário, este capítulo evidencia a urgência de ações integradas que considerem não apenas a proteção social e a garantia de direitos básicos, mas também o respeito à cultura e à identidade warao. É necessário investir em programas de educação bilíngue, capacitação profissional, assistência social e políticas públicas que promovam a inclusão e a valorização dessa comunidade, respeitando suas questões culturais ao adaptar o ensino para seu dia a dia, à sua identidade como povo nativo e de origem diferente da majoritária brasileira.
Reconhecer e apoiar a população warao é fundamental para reduzir desigualdades, prevenir situações de violência e garantir condições dignas de vida, permitindo que essas mulheres e suas famílias vivam com autonomia, segurança e dignidade dentro da sociedade que eles vieram se integrar. O que se nota é que as problemáticas da sociedade brasileira, como a discriminação de gênero, acabam se refletindo nas comunidades warao que vêm viver no Brasil, já fragilizadas pelas condições que enfrentam. Logo, torna-se necessário apoiar esse povo com esforços ainda maiores, tanto para auxiliá-los quanto para reconhecer, como em um espelho, os problemas que também existem em nossa sociedade.
Este estudo reforça a importância de olhar para essa realidade com sensibilidade e responsabilidade, de modo a transformar a vulnerabilidade em oportunidades de desenvolvimento humano e social, superando as barreiras culturais e linguísticas que um país tão desigual como o Brasil tem.
11A organização Fazenda da Paz, no momento da pesquisa e desenvolvimento deste artigo é a parceira da SEMCASPI – Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania de Teresina – nas atividades de acolhimento aos indígenas venezuelanos.
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VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. “Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio”. Mana, v. 2, n. 2, p. 115-144, 1996.
1Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
cecilia.gomes@somosicev.com
2Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail: ana.sobral@somosicev.com
3Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail: ariel.torres@somosicev.com
4Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
ariely.nascimento@somosicev.com
5Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
arthur_amaral.sa@somosicev.com
6Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail: arthur.abreu@somosicev.com
7Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
antonio_alberto.filho@somosicev.com
8Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
samuel.carneiro@somosicev.com
9Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. E-mail:
renato_barbosa.neto@somosicev.com
10Docente do Instituto do Ensino Superior – ICEV. Bacharel em Ciências Sociais pela UFPI (2016). Mestra em Antropologia pela UFPI (2019). Especializa em Gestão Escolar com Docência Superior pela FAEX (2019). Especializada em Direitos Humanos e Movimentos Sociais pela UESPI (2023). Especializanda em Práticas Docentes e Metodologias Ativas pela UMFG (2026). E-mail: lilian.sousa@grupocev.com
