FRAGILIDADE E CÂNCER NO IDOSO: DESAFIOS NA ESCOLHA TERAPÊUTICA

FRAGILITY AND CANCER IN THE ELDERLY: CHALLENGES IN THERAPEUTIC CHOICES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510310903


Laryssa Gabriele de Lima Castro1; Aglin Daiara Passaréli da Silva Maldonado2; Janaina Cunha Ximenes3; João Victor Alves da Silva4; Ana Beatriz Carvalho de Sousa5; Alice Isabeli Munis Bergamin6; Sara Coimbra Coelho7; Franciele Alba Moraes8


Resumo

O envelhecimento populacional representa um dos maiores desafios contemporâneos para os sistemas de saúde, especialmente diante da elevação da incidência de doenças crônicas e degenerativas, como o câncer. Entre os idosos, o processo de adoecimento oncológico é marcado por alterações fisiológicas, funcionais e emocionais que ampliam a vulnerabilidade clínica e comprometem a resposta terapêutica. Nesse contexto, a fragilidade surge como uma condição determinante, caracterizada pela redução das reservas fisiológicas e da capacidade adaptativa, influenciando diretamente a escolha do tratamento e os desfechos clínicos. O presente estudo teve como objetivo analisar os desafios enfrentados na escolha terapêutica de pacientes idosos com câncer em condição de fragilidade, considerando aspectos clínicos, funcionais, psicológicos e éticos. Foi realizada uma revisão bibliográfica integrativa nas bases Google Acadêmico, SciELO, PubMed e bibliotecas virtuais, abrangendo publicações entre 2016 e 2025. Os resultados evidenciaram que a prevalência de fragilidade é elevada entre pacientes idosos oncológicos e está associada à idade avançada, múltiplas comorbidades, baixa escolaridade e sedentarismo. Observou-se, ainda, que a avaliação geriátrica ampla, o uso da Escala de Fragilidade de Edmonton e a introdução precoce dos cuidados paliativos contribuem para um tratamento mais seguro, ético e humanizado. Conclui-se que a integração entre oncogeriatria, cuidados paliativos e abordagem biopsicossocial é essencial para a promoção da autonomia, da dignidade e da qualidade de vida do idoso com câncer.

Palavras-chave: Fragilidade; Câncer; Idoso; Oncogeriatria; Cuidados Paliativos.

ABSTRACT

Population aging represents one of the greatest contemporary challenges for healthcare systems, especially due to the growing incidence of chronic and degenerative diseases such as cancer. Among older adults, the oncological illness process is marked by physiological, functional, and emotional changes that increase clinical vulnerability and compromise therapeutic response. In this context, frailty emerges as a determining condition, characterized by the reduction of physiological reserves and adaptive capacity, directly influencing treatment choices and clinical outcomes. This study aimed to analyze the challenges faced in therapeutic decisionmaking for elderly cancer patients in a state of frailty, considering clinical, functional, psychological, and ethical aspects. An integrative literature review was carried out using Google Scholar, SciELO, PubMed, and virtual libraries, covering publications from 2016 to 2025. The results showed a high prevalence of frailty among elderly cancer patients, associated with advanced age, multiple comorbidities, low educational level, and physical inactivity. It was also observed that comprehensive geriatric assessment, the use of the Edmonton Frail Scale, and the early introduction of palliative care contribute to safer, more ethical, and humanized treatment. It is concluded that the integration of oncogeriatrics, palliative care, and a biopsychosocial approach is essential to promote autonomy, dignity, and quality of life for elderly cancer patients.

Keywords: Frailty; Cancer; Elderly; Oncogeriatrics; Palliative Care.

1  INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um fenômeno global que tem se intensificado nas últimas décadas, representando um dos maiores desafios para os sistemas de saúde contemporâneos. No Brasil, a proporção de idosos vem crescendo rapidamente, refletindo avanços na medicina, na nutrição e nas condições de vida, mas também exigindo uma reorganização do cuidado frente ao aumento das doenças crônicas e degenerativas. Dentre essas condições, o câncer desponta como uma das principais causas de morbimortalidade na população idosa, demandando abordagens terapêuticas que considerem não apenas a doença, mas a complexidade biológica e funcional inerente ao envelhecimento (VERAS, 2023).

A fragilidade, conceito central na geriatria, é definida como uma síndrome clínica caracterizada pela diminuição das reservas fisiológicas e da capacidade de resposta a estressores, tornando o idoso mais vulnerável a desfechos adversos como incapacidades, hospitalizações recorrentes e mortalidade. Quando associada ao câncer, essa condição cria um duplo desafio: a coexistência de uma doença crônica de alta complexidade com um estado de vulnerabilidade orgânica e social que impacta diretamente a escolha e o sucesso das terapias oncológicas (CARVALHO et al., 2025; GOEDE, 2023).

A relevância do tema reside no fato de que a maioria dos casos de câncer é diagnosticada em pessoas com mais de 60 anos, e a presença de fragilidade influencia tanto a decisão terapêutica quanto a tolerância ao tratamento. Estratégias padronizadas de quimioterapia, radioterapia ou cirurgias nem sempre são adequadas para esse grupo, uma vez que podem gerar toxicidades graves, perda funcional e redução da qualidade de vida (FERREIRA et al., 2020). Nesse contexto, a oncogeriatria surge como área essencial, propondo uma avaliação multidimensional que considera fatores clínicos, funcionais, nutricionais, cognitivos e sociais antes da definição da conduta terapêutica (SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA, 2025).

O problema que se impõe é a falta de consenso e de protocolos individualizados que orientem as decisões terapêuticas em idosos frágeis com câncer. Embora existam escalas de avaliação da fragilidade — como a Escala de Fragilidade de Edmonton, recentemente validada para o contexto oncológico —, sua aplicação prática ainda é limitada nos serviços de saúde, o que compromete a personalização do tratamento e o acompanhamento adequado (SCHREVEL et al., 2024). Além disso, há um déficit na capacitação das equipes multiprofissionais quanto à integração de cuidados paliativos precoces e estratégias de suporte físico e emocional durante o processo terapêutico (ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS, 2024).

A justificativa para este estudo baseia-se na necessidade de ampliar a compreensão sobre como a fragilidade interfere nas decisões terapêuticas oncológicas e quais estratégias clínicas e éticas podem ser adotadas para equilibrar eficácia, segurança e qualidade de vida. O conhecimento sobre essa relação é essencial para orientar políticas públicas e protocolos clínicos que contemplem as especificidades do idoso oncológico, especialmente no contexto brasileiro, onde há desigualdades regionais no acesso ao diagnóstico precoce e aos serviços especializados (CABRAL et al., 2022; ALCÂNTARA et al., 2024).

Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo geral analisar os desafios enfrentados na escolha terapêutica de pacientes idosos com câncer em condição de fragilidade, considerando aspectos clínicos, funcionais e éticos. Especificamente, busca-se compreender a prevalência da fragilidade nesse grupo, identificar os fatores que influenciam a decisão terapêutica e discutir as implicações dessas escolhas na qualidade de vida e nos desfechos clínicos.

Assim, este estudo pretende contribuir para o fortalecimento das práticas de oncogeriatria e para a humanização do cuidado ao idoso com câncer, destacando a importância de avaliações integradas, de condutas personalizadas e de políticas de saúde que garantam autonomia, dignidade e bem-estar a essa população crescente.

2  FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1 O envelhecimento populacional e a vulnerabilidade oncológica

O envelhecimento populacional é um processo dinâmico e irreversível que reflete as transformações demográficas e sociais ocorridas nas últimas décadas, caracterizando-se pela redução das taxas de fecundidade e mortalidade e pelo consequente aumento da expectativa de vida. Esse fenômeno tem sido amplamente estudado e reconhecido como um dos maiores desafios contemporâneos para os sistemas de saúde, uma vez que implica a necessidade de adaptação das políticas públicas e das práticas assistenciais para atender às demandas de uma população cada vez mais idosa (VERAS, 2023). No contexto brasileiro, essa transição demográfica ocorre de forma acelerada e desigual, exigindo uma reorganização dos serviços de atenção primária e especializada, sobretudo diante da prevalência de doenças crônicas e degenerativas, entre as quais o câncer assume papel de destaque.

A literatura aponta que o envelhecimento é acompanhado por um conjunto de modificações fisiológicas e funcionais que afetam a homeostase e a capacidade adaptativa do organismo. Alterações no sistema imunológico, conhecidas como imunossenescência, reduzem a eficiência da resposta imune, favorecendo o surgimento e a progressão de neoplasias (ALCÂNTARA et al., 2024). Do mesmo modo, as mudanças metabólicas e hormonais interferem na regeneração celular e na resistência aos tratamentos antineoplásicos, tornando o idoso mais vulnerável aos efeitos adversos das terapias (CABRAL et al., 2022). Essa vulnerabilidade não se restringe aos aspectos biológicos, mas também abrange fatores psicológicos e sociais, como o isolamento, a perda de papéis sociais e o acesso limitado aos serviços de saúde, elementos que, combinados, configuram um cenário de maior fragilidade e risco.

Diversos autores destacam que o câncer na população idosa apresenta características clínicas específicas que o diferenciam das demais faixas etárias. Veras (2023) observa que a incidência de neoplasias cresce exponencialmente após os 60 anos, e essa elevação está diretamente relacionada à acumulação de danos celulares ao longo da vida e à diminuição dos mecanismos de reparo do DNA. A vulnerabilidade oncológica, portanto, é resultado da interação entre fatores intrínsecos, como o envelhecimento fisiológico, e extrínsecos, como as condições socioeconômicas e o estilo de vida (BRAGA et al., 2019). Essa multiplicidade de determinantes impõe aos profissionais de saúde o desafio de equilibrar a eficácia terapêutica com a manutenção da funcionalidade e da autonomia do paciente idoso.

Há divergências na literatura quanto às estratégias mais adequadas para o manejo oncológico nessa população. Enquanto alguns autores defendem a necessidade de protocolos terapêuticos específicos baseados na idade e nas condições fisiológicas (GOEDE, 2023), outros argumentam que a idade cronológica, isoladamente, não deve ser o principal fator de decisão clínica, mas sim o estado funcional e a presença de comorbidades (CARVALHO et al., 2025). Essa discordância reflete a complexidade da oncogeriatria e a insuficiência de estudos longitudinais que considerem as múltiplas dimensões do envelhecimento no processo terapêutico. As abordagens biomédicas tradicionais, focadas unicamente no tratamento da doença, mostram-se limitadas, pois ignoram aspectos psicossociais e existenciais que interferem na adesão e nos resultados terapêuticos (FERREIRA et al., 2020).

Críticas recentes às práticas assistenciais revelam que, apesar dos avanços nas políticas de atenção à saúde do idoso, ainda persiste uma lacuna na integração entre os cuidados oncológicos e os princípios da geriatria. Segundo a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2024), a falta de protocolos interdisciplinares e de capacitação específica das equipes multiprofissionais contribui para a fragmentação do cuidado e para o aumento dos riscos terapêuticos. Essa limitação torna urgente a adoção de avaliações geriátricas amplas, capazes de identificar não apenas o estágio clínico da doença, mas também o grau de fragilidade, o suporte social disponível e o impacto emocional do diagnóstico.

Assim, observa-se que o envelhecimento populacional, ao mesmo tempo em que representa um avanço civilizatório, traz consigo a necessidade de uma reformulação profunda na forma de compreender e tratar o câncer na velhice. A vulnerabilidade oncológica, conceito central na presente discussão, emerge como um constructo multifatorial que integra dimensões biológicas, psicológicas e sociais, exigindo uma abordagem que reconheça a singularidade do idoso. Nesse contexto, o tema adquire relevância não apenas pela sua complexidade clínica, mas também pelas implicações éticas e sociais que permeiam as decisões terapêuticas, reforçando a importância de um cuidado centrado na pessoa, conforme orienta a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025).

2.2 Fragilidade e suas implicações na prática oncológica

A fragilidade é um conceito central na geriatria e, nas últimas décadas, ganhou destaque no campo da oncogeriatria por representar uma condição multifatorial que transcende o simples processo de envelhecimento cronológico. Trata-se de uma síndrome clínica caracterizada pela redução das reservas fisiológicas, pela menor capacidade de adaptação a eventos estressores e pelo aumento da vulnerabilidade a desfechos adversos como hospitalizações, incapacidades e mortalidade (LOURÊNÇO et al., 2016). O reconhecimento da fragilidade como um fenômeno distinto do envelhecimento saudável tem possibilitado novas interpretações sobre o cuidado oncológico ao idoso, uma vez que os efeitos da doença e do tratamento podem ser potencializados pela deterioração funcional e metabólica do organismo (CARVALHO et al., 2025). Assim, a análise da fragilidade se torna indispensável para a escolha terapêutica adequada, sendo um marcador importante de risco clínico e de prognóstico.

No contexto da oncogeriatria, a fragilidade apresenta-se como um fator determinante para a tomada de decisão terapêutica, influenciando diretamente a seleção de estratégias clínicas e a intensidade do tratamento. Segundo Goede (2023), pacientes idosos frágeis apresentam menor tolerância às terapias agressivas, como quimioterapia e radioterapia, devido à baixa reserva fisiológica e à maior suscetibilidade a efeitos colaterais. Essa condição impõe ao profissional de saúde a necessidade de ponderar entre a eficácia do tratamento e o risco de toxicidade, considerando o equilíbrio entre prolongar a sobrevida e preservar a qualidade de vida. Entretanto, o desafio reside na ausência de critérios uniformes para identificar o grau de fragilidade e traduzi-lo em condutas clínicas objetivas, o que resulta em abordagens heterogêneas e, por vezes, contraditórias.

Diversos autores têm buscado desenvolver instrumentos capazes de mensurar a fragilidade de forma prática e padronizada. Schrevel et al. (2024) destacam a Escala de Fragilidade de Edmonton como uma ferramenta eficiente para triagem em oncogeriatria, permitindo avaliar dimensões físicas, cognitivas e psicossociais de maneira integrada. Essa metodologia favorece a identificação precoce da fragilidade e a adequação do tratamento à capacidade funcional do paciente, evitando tanto o subtratamento quanto o excesso terapêutico. No entanto, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025) reconhece que a implementação dessas escalas ainda é incipiente na maioria dos serviços de oncologia brasileiros, seja por falta de capacitação das equipes, seja pela ausência de protocolos interdisciplinares que orientem sua aplicação. Essa lacuna revela uma desconexão entre o conhecimento científico produzido e a realidade da prática clínica, comprometendo a segurança e a efetividade do cuidado.

A literatura também evidencia divergências conceituais quanto à definição e à abrangência da fragilidade. Enquanto alguns pesquisadores, como Goede (2023), enfatizam o componente biológico e fisiológico da síndrome, outros, como Braga et al. (2019), ampliam sua compreensão para incluir dimensões psicossociais e emocionais. Essa diferença de perspectivas repercute na maneira como os profissionais de saúde interpretam o diagnóstico e planejam o tratamento oncológico. Autores como Ferreira et al. (2020) defendem que o reconhecimento da fragilidade deve ir além da condição clínica, considerando também o impacto das perdas cognitivas, sociais e afetivas que acompanham o processo de adoecimento. Essa abordagem mais holística contribui para um cuidado humanizado, mas enfrenta resistência nos ambientes hospitalares, ainda fortemente orientados por modelos biomédicos centrados na cura.

Apesar da ampliação conceitual e da evolução dos instrumentos de avaliação, há críticas quanto à aplicabilidade prática das escalas de fragilidade no contexto da oncologia brasileira. Carvalho et al. (2025) apontam que, embora a prevalência da síndrome seja elevada entre idosos com câncer, fatores como baixa escolaridade, sedentarismo e múltiplas comorbidades dificultam a realização de avaliações completas e comprometem a precisão dos resultados. Além disso, o tempo reduzido das consultas e a falta de integração entre as equipes multiprofissionais impedem que a avaliação geriátrica seja incorporada de forma rotineira. A Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2024) reforça que a identificação precoce da fragilidade é essencial para evitar intervenções desnecessárias e garantir condutas mais seguras, mas ressalta que essa prática ainda não é institucionalizada como deveria, especialmente nos serviços públicos.

Conectar a teoria da fragilidade com a problemática do presente estudo implica compreender que o idoso com câncer se encontra em uma posição de vulnerabilidade ampliada, tanto pela natureza agressiva da doença quanto pelas limitações impostas pelo envelhecimento. A fragilidade, nesse contexto, atua como um mediador entre a condição clínica e a escolha terapêutica, determinando o limite entre o benefício e o risco. Assim, reconhecer a fragilidade como elemento central da avaliação oncológica significa não apenas ajustar doses e protocolos, mas redefinir o próprio conceito de cuidado, um cuidado que integra ciência, sensibilidade e ética, conforme orientam os princípios de oncogeriatria e cuidados paliativos propostos pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025) e pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2024).

2.3 Qualidade de vida, espiritualidade e cuidados paliativos no contexto da fragilidade oncológica

A qualidade de vida tem se consolidado como um dos principais parâmetros para a avaliação do sucesso terapêutico em pacientes idosos com câncer, representando um indicador mais amplo e significativo do que o simples prolongamento da sobrevida. Segundo Ferreira et al. (2020), compreender a qualidade de vida implica reconhecer o paciente em sua totalidade, considerando dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais que influenciam sua capacidade de enfrentamento diante da doença e do tratamento. No caso de indivíduos em condição de fragilidade, a qualidade de vida torna-se ainda mais central, uma vez que a vulnerabilidade física e funcional os expõe a maiores riscos de complicações, sofrimento e perda de autonomia. Nesse sentido, a abordagem terapêutica deve priorizar o equilíbrio entre o controle da doença e o bem-estar subjetivo do paciente, ultrapassando o paradigma tradicional centrado apenas na cura.

A literatura recente tem ressaltado a importância da espiritualidade e da religiosidade como componentes fundamentais da qualidade de vida de idosos com câncer. Freitas et al. (2020) evidenciam que a espiritualidade exerce influência direta sobre a percepção de sentido e propósito diante do adoecimento, funcionando como um recurso de resiliência e enfrentamento emocional. A religiosidade, por sua vez, oferece um espaço simbólico de conforto, esperança e reconciliação, permitindo que o paciente atribua novos significados à experiência do sofrimento. Esses aspectos, frequentemente negligenciados em contextos hospitalares, têm mostrado forte impacto sobre a adesão ao tratamento e sobre a satisfação com o cuidado recebido. No entanto, autores como Braga et al. (2019) argumentam que a espiritualidade não deve ser confundida com religiosidade institucional, defendendo a necessidade de abordagens mais amplas, que respeitem a individualidade do paciente e reconheçam suas diversas formas de expressão espiritual.

A incorporação dos cuidados paliativos no tratamento oncológico de idosos frágeis representa uma mudança de paradigma no campo da saúde, ao deslocar o foco exclusivo da cura para a promoção de conforto e dignidade. A Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2024) define essa modalidade de cuidado como um conjunto de práticas voltadas para o controle de sintomas físicos, o suporte emocional, social e espiritual, e a valorização da autonomia do paciente. Essa abordagem deve ser iniciada precocemente, de forma integrada ao tratamento oncológico, e não apenas nas fases terminais da doença. Entretanto, segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025), a implementação dos cuidados paliativos ainda enfrenta desafios significativos no Brasil, como a falta de profissionais capacitados, a carência de políticas públicas efetivas e o preconceito persistente que associa o termo “paliativo” à desistência terapêutica. Essa limitação impede que muitos idosos frágeis recebam o acompanhamento integral que necessitam, comprometendo a humanização do cuidado.

Autores como Goede (2023) e Carvalho et al. (2025) reforçam que a integração entre oncogeriatria e cuidados paliativos é essencial para a elaboração de planos terapêuticos individualizados, capazes de alinhar o tratamento oncológico às condições reais do paciente. Tal integração favorece a comunicação entre equipe multiprofissional, paciente e família, possibilitando a tomada de decisões compartilhadas e eticamente embasadas. Contudo, há divergências quanto ao momento ideal para iniciar o cuidado paliativo: enquanto alguns defendem sua introdução logo após o diagnóstico de câncer em pacientes frágeis, outros propõem que ele seja reservado para estágios avançados da doença (ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS, 2024). Essa falta de consenso revela tanto a diversidade de perspectivas teóricas quanto as lacunas práticas na aplicação dos modelos de atenção voltados ao idoso oncológico.

Embora a literatura reconheça amplamente a relevância da espiritualidade e dos cuidados paliativos para a manutenção da qualidade de vida, há críticas sobre a escassa integração entre essas dimensões e a rotina dos serviços de saúde. De acordo com Ferreira et al. (2020), a atenção hospitalar tende a valorizar os aspectos biomédicos em detrimento das necessidades psicossociais e espirituais, o que gera abordagens fragmentadas e despersonalizadas. Além disso, Braga et al. (2019) apontam que muitos instrumentos utilizados para avaliar qualidade de vida ainda são insuficientes para capturar a subjetividade das experiências dos idosos frágeis, limitando a compreensão dos reais impactos do tratamento oncológico. Essas lacunas reforçam a necessidade de equipes interdisciplinares sensíveis às dimensões humanas do adoecimento, capazes de compreender o paciente em sua integralidade.

A discussão sobre qualidade de vida, espiritualidade e cuidados paliativos, portanto, conecta-se diretamente à problemática da fragilidade oncológica ao evidenciar que o enfrentamento do câncer em idosos exige mais do que protocolos clínicos e terapias farmacológicas. Ele demanda uma abordagem humanizada, que reconheça a dignidade do indivíduo e suas necessidades físicas e emocionais em cada fase do tratamento. Assim, como orientam a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025) e a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2024), o cuidado integral ao idoso com câncer deve unir ciência, empatia e ética, promovendo não apenas o prolongamento da vida, mas o bem-estar e a preservação da autonomia até os estágios mais delicados da existência.

3  METODOLOGIA 

Foi conduzida uma revisão bibliográfica de caráter integrativo, estruturada para mapear, sintetizar e discutir as evidências sobre a relação entre fragilidade e câncer no idoso, com atenção específica aos desafios na escolha terapêutica. A formulação do escopo considerou a população de interesse (idosos com neoplasias), a condição/constructo central (fragilidade) e os desfechos críticos (tolerância terapêutica, qualidade de vida e implicações clínicas). A busca foi realizada nas bases Google Acadêmico, SciELO e PubMed, além de bibliotecas virtuais institucionais e repositórios acadêmicos, contemplando literatura primária e secundária (livros, artigos, teses, dissertações e documentos técnicos). Foram utilizados descritores e sinônimos controlados e não controlados em português, inglês e espanhol, combinados por operadores booleanos: idoso OR elderly OR older adults AND câncer OR cancer AND fragilidade OR frailty AND (oncogeriatria OR oncogeriatrics OR geriatria). A estratégia foi adaptada às especificidades de cada base, e a janela temporal privilegiou publicações entre 2016 e 2025, assegurando a incorporação de diretrizes e evidências recentes; materiais anteriores a esse período foram incluídos apenas quando clássicos ou fundamentais ao marco conceitual.

O processo de identificação, triagem e elegibilidade seguiu etapas sequenciais. Inicialmente, foram exportados os resultados das buscas, com remoção de duplicatas por verificação manual cruzada. Em seguida, procedeu-se à triagem de títulos e resumos, excluindo-se estudos manifestamente fora do escopo. Os critérios de inclusão abrangeram: estudos com amostras de idosos (≥ 60 anos) com diagnóstico oncológico; investigações que abordaram fragilidade por definição clínica, escala validada ou parâmetros funcionais; delineamentos observacionais, ensaios, revisões e documentos técnico-normativos com implicações práticas para a oncogeriatria; e textos completos disponíveis em português, inglês ou espanhol. Os critérios de exclusão contemplaram: estudos com populações pediátricas ou exclusivamente adultas não idosas; publicações sem recorte oncológico; editoriais, cartas, notas prévias sem dados; e materiais sem acesso ao texto integral. Os textos potencialmente elegíveis foram lidos na íntegra, confirmando-se a aderência ao problema de pesquisa e à pertinência metodológica.

A extração de dados foi realizada por meio de um formulário padronizado, que registrou: autores, ano, local/contesto do estudo, objetivo, delineamento e método, características da amostra, instrumentos de avaliação de fragilidade (por exemplo, Escala de Fragilidade de Edmonton quando aplicável), variáveis clínicas e funcionais, intervenções/condutas, principais resultados e limitações reportadas. As evidências foram tabuladas em planilha eletrônica, permitindo a organização temática e cronológica e a construção de quadros e tabelas. Quando pertinente, foi efetuada contagem descritiva de frequências.

A avaliação crítica do conjunto incluiu apreciação narrativa da coerência entre objetivos, métodos e achados de cada estudo, da clareza na definição de fragilidade e da adequação dos instrumentos empregados, reconhecendo-se a heterogeneidade de delineamentos e contextos. Documentos técnicos e diretrizes foram analisados quanto à aplicabilidade prática na oncogeriatria e à convergência com as evidências empíricas identificadas. Não foi realizado metanálise em razão da variabilidade de métodos e desfechos; optou-se por síntese qualitativa integrativa, preservando a comparabilidade conceitual entre estudos e realçando evidências mais recentes e relevantes.

Ao final, as informações consolidadas foram analisadas em alinhamento aos objetivos do estudo, conectando-se os achados entre si e com o marco teórico previamente estabelecido. Essa análise sustentou a elaboração das tabelas de resultados e a discussão subsequente, assegurando transparência no percurso metodológico. Todo o processo privilegiou fontes confiáveis e literatura revisada por pares, complementadas por livros e diretrizes de sociedades científicas, de modo a oferecer base robusta para interpretação e implicações clínicas.

4  RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A análise dos resultados obtidos neste estudo teve como base uma revisão integrativa da literatura científica publicada entre 2016 e 2025, contemplando estudos nacionais e internacionais que abordam a relação entre fragilidade, envelhecimento e câncer em idosos. As etapas metodológicas compreenderam a busca, seleção, leitura crítica e organização dos artigos conforme critérios de relevância e atualidade. O objetivo foi identificar os principais fatores associados à fragilidade em idosos oncológicos, suas implicações terapêuticas e os aspectos psicossociais e espirituais relacionados à qualidade de vida e aos cuidados paliativos.

A seguir, apresenta-se a Tabela 1, que reúne os artigos utilizados na pesquisa, destacando título, autores, ano de publicação, método empregado e principais resultados.

Tabela 1 – Artigos utilizados na revisão

TítuloAutor e Ano de PublicaçãoMétodoPrincipais Resultados
Cuidados paliativos e fragilidade: cartilha para o profissional de saúdeAcademia Nacional     de Cuidados Paliativos (2024)Estudo descritivo e documentalDestaca a importância da integração dos cuidados paliativos em pacientes frágeis, enfatizando o manejo humanizado e multidisciplinar.
Envelhecimento e câncer: o processo de adoecimento oncológico em idososAlcântara et al. (2024)Estudo qualitativo com análise de narrativasEvidencia o impacto psicossocial do diagnóstico de câncer no idoso e a necessidade de abordagens individualizadas.
Qualidade de vida do idoso em tratamento oncológicoBraga et al. (2019)Estudo transversal com questionários padronizadosIdentifica a influência das condições emocionais e sociais sobre a percepção de qualidade de vida durante o tratamento.
Factors associated with functional disability in older adults with cancer treated at reference outpatient clinics in the state of Mato Grosso, BrazilCabral et al. (2022)Estudo epidemiológico observacionalAponta a associação entre fragilidade, limitações funcionais e pior resposta terapêutica em idosos com câncer.
Prevalência e fatores associados à síndrome da fragilidade em idosos com diagnóstico de câncer em Itaguaí, Rio de Janeiro, BrasilCarvalho  et al. (2025)Estudo transversal quantitativoIdentifica alta prevalência de fragilidade e correlação com idade avançada, comorbidades e baixa escolaridade.
Qualidade de vida relacionada à saúde de idosos em tratamento quimioterápicoFerreira et al. (2020)Estudo descritivo com aplicação de escalas de qualidade de vidaMostra que a quimioterapia afeta dimensões físicas e emocionais, ressaltando a necessidade de suporte psicossocial contínuo.
Spirituality and religiosity in the experience of suffering, guilt, and death of the elderly with cancerFreitas et al. (2020)Pesquisa qualitativa     com abordagem fenomenológicaDemonstra que a espiritualidade auxilia na aceitação do adoecimento e na ressignificação do sofrimento.
Frailty and cancer: current perspectives on assessment and monitoringGoede (2023)Revisão sistemáticaReforça a importância de instrumentos de avaliação da fragilidade e da personalização terapêutica.
Prevalência e fatores associados à fragilidade em uma amostra de idosos que vivem na comunidade da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil: estudo Fibra-JFLourenço et al. (2016)Estudo observacional populacionalDefine os critérios clínicos e funcionais de fragilidade, sendo referência para estudos subsequentes.
A Escala de Fragilidade de Edmonton como uma pontuação de triagem para fragilidade em oncogeriatriaSchrevel et al. (2024)Estudo quantitativo multicêntricoValida a Escala de Edmonton como instrumento eficaz para triagem de fragilidade em pacientes oncológicos.
Manual de recomendações de oncogeriatriaSociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025)Documento técnico-científicoPropõe diretrizes para avaliação geriátrica ampla e recomenda integração entre oncologia, geriatria e cuidados paliativos.
Doenças crônicas e longevidade: desafios futurosVeras (2023)Revisão narrativaAnalisa o impacto do envelhecimento sobre as doenças crônicas e os desafios para os sistemas de saúde.

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

A Tabela 1 evidencia a diversidade metodológica e teórica das publicações analisadas, revelando a consistência dos estudos sobre a intersecção entre envelhecimento, fragilidade e câncer. Observa-se que as pesquisas convergem para a importância da avaliação geriátrica e do tratamento personalizado em pacientes idosos oncológicos, reforçando a necessidade de integração entre as dimensões clínica, funcional e emocional no processo terapêutico.

Com base nesses dados, foram construídas tabelas complementares para explorar com maior profundidade os resultados mais recorrentes. A Tabela 2 apresenta os índices de prevalência da síndrome da fragilidade e seus fatores associados, identificados nas principais pesquisas revisadas.

Tabela 2 – Prevalência e fatores associados à fragilidade em idosos com câncer

Autor/AnoPopulação EstudadaFatores AssociadosPrevalência de FragilidadeObservações Relevantes
Carvalho et al. (2025)320 idosos com câncer em Itaguaí (RJ)Idade ≥ 75 anos, baixa escolaridade, comorbidades múltiplas, sedentarismo64,3%Alta prevalência de fragilidade; necessidade de avaliação geriátrica ampliada.
Cabral et al. (2022)285 pacientes oncológicos ambulatoriais em Mato GrossoLimitação funcional, perda de massa muscular e uso contínuo de medicamentos51,8%Fragilidade associada à pior resposta terapêutica e maior dependência funcional.
Lourenço et al. (2016)Idosos da comunidade em Juiz de Fora (MG)Polifarmácia, baixa renda e isolamento social36,0%Definiu parâmetros clínicos para diagnóstico de fragilidade, referência para estudos posteriores

Fonte: Carvalho (2025); Cabral (2022); Lourenço (2016).

Os dados evidenciam a alta prevalência da fragilidade em pacientes oncológicos, especialmente naqueles com baixa escolaridade e múltiplas comorbidades. O aumento progressivo da idade e o sedentarismo aparecem como fatores agravantes recorrentes, apontando a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção da incapacidade funcional e à promoção de hábitos saudáveis durante o envelhecimento.

Tabela 3 – Impactos da fragilidade na escolha terapêutica

Autor/AnoTipo de EstudoPrincipais Achados sobre a FragilidadeImplicações Terapêuticas
Goede (2023)Revisão sistemáticaFragilidade reduz tolerância a quimioterápicos e aumenta risco de toxicidade.Necessidade de personalização das terapias e redução de doses em pacientes frágeis.
Schrevel et al. (2024)Estudo multicêntricoValidação da Escala de Fragilidade de Edmonton para triagem rápida.Permite decisões terapêuticas mais seguras e individualizadas.
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025)Manual técnicoRecomenda avaliação geriátrica ampla antes da escolha terapêutica.Orienta integração entre oncologia, geriatria e cuidados paliativos.
Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2024)Documento de orientaçãoDestaca o papel da equipe multiprofissional e a ética na decisão terapêutica.Propõe abordagem centrada na pessoa e tomada de decisão compartilhada.

Fonte: Goede (2023); Schrevel (2024); SBGG (2025); ANCP (2024).

A fragilidade mostrou-se um determinante direto nas decisões terapêuticas. Estudos como o de Goede (2023) evidenciam que a abordagem convencional pode gerar toxicidade e perda funcional, enquanto Schrevel et al. (2024) demonstram que a triagem com a Escala de Edmonton reduz complicações e favorece tratamentos mais seguros. As recomendações da SBGG (2025) e da ANCP (2024) reforçam a necessidade de protocolos personalizados e da atuação interdisciplinar para garantir segurança e ética nas condutas clínicas.

Tabela 4 – Dimensões psicossociais, espirituais e de qualidade de vida

Autor/AnoDimensão AvaliadaInstrumento/AbordagemPrincipais Resultados
Braga et al. (2019)Qualidade de vida e suporte emocionalQuestionários de satisfação e entrevistasRelação direta entre apoio familiar, autoestima e adesão ao tratamento.
Ferreira et al. (2020)Saúde física e emocionalEscalas de qualidade de vidaQuimioterapia impacta dimensões físicas e emocionais; necessidade de acompanhamento psicológico.
Freitas et al. (2020)Espiritualidade e religiosidadeEntrevistas fenomenológicasA espiritualidade contribui para a aceitação do diagnóstico e ressignificação do sofrimento.

Fonte: Braga (2019); Ferreira (2020); Freitas (2020).

Os resultados indicam que a qualidade de vida e o bem-estar emocional estão intrinsecamente ligados ao sucesso terapêutico. A presença de suporte familiar e a valorização da espiritualidade reduzem sintomas depressivos e melhoram a adesão ao tratamento, conforme apontam Braga et al. (2019) e Freitas et al. (2020). Ferreira et al. (2020) complementam que o acompanhamento psicológico contínuo é essencial para mitigar os efeitos emocionais adversos da quimioterapia.

Tabela 5 – Recomendações para a prática clínica e políticas públicas

Autor/AnoRecomendação PrincipalAplicabilidade na Oncogeriatria
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025)Aplicação sistemática da avaliação geriátrica ampla (AGA).Orienta a personalização das terapias e integração multiprofissional.
Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2024)Introdução precoce dos cuidados paliativos e foco no conforto.Garante cuidado humanizado e melhora da qualidade de vida.
Veras (2023)Planejamento de políticas públicas para o envelhecimento saudável.Amplia o acesso à atenção integral e previne desigualdades em saúde.

Fonte: SBGG (2025); ANCP (2024); Veras (2023).

Essas recomendações reforçam a necessidade de políticas integradas entre geriatria, oncologia e saúde pública. Veras (2023) destaca que o envelhecimento populacional exige uma reestruturação dos serviços de saúde, enquanto a SBGG (2025) e a ANCP (2024) defendem a adoção de modelos centrados no paciente e no respeito à dignidade humana, fortalecendo a ética e a humanização na prática clínica.

Dessa forma, a análise conjunta das tabelas evidencia que a fragilidade constitui um eixo central na definição das condutas terapêuticas e no planejamento de cuidados para idosos com câncer. O conjunto dos estudos demonstra a importância da avaliação geriátrica ampla, da integração dos cuidados paliativos e da atenção às dimensões psicossociais e espirituais, reafirmando que o tratamento eficaz deve ir além da cura, priorizando a qualidade de vida, a autonomia e o bem-estar global do paciente.

5  CONCLUSÃO

A presente pesquisa teve como propósito analisar a relação entre fragilidade e câncer em idosos, com foco nos desafios enfrentados na escolha terapêutica, nas dimensões que influenciam a qualidade de vida e nas estratégias assistenciais capazes de garantir um cuidado ético e humanizado. Partindo do reconhecimento do envelhecimento populacional como um fenômeno crescente e irreversível, buscou-se compreender de que maneira as condições fisiológicas, funcionais e emocionais do idoso impactam o manejo oncológico e as decisões clínicas. Ao longo do estudo, foi possível observar que a fragilidade representa um fator determinante na resposta terapêutica e na evolução do quadro clínico dos pacientes, configurando-se como uma variável central nas discussões sobre oncogeriatria e cuidados paliativos.

Os resultados obtidos a partir da revisão da literatura indicaram que a fragilidade, longe de ser uma consequência natural do envelhecimento, é uma síndrome multifatorial que reduz a capacidade de adaptação do organismo e eleva o risco de desfechos adversos, como hospitalizações e mortalidade. A análise dos estudos revelou que a prevalência de fragilidade entre pacientes idosos oncológicos é expressiva, sendo influenciada por fatores como idade avançada, baixa escolaridade, comorbidades, polifarmácia e sedentarismo. Observou-se, ainda, que a ausência de protocolos clínicos específicos e de ferramentas de triagem padronizadas compromete a adequação terapêutica e aumenta os riscos associados aos tratamentos convencionais. Nesse sentido, a utilização de instrumentos como a Escala de Fragilidade de Edmonton e a realização de uma avaliação geriátrica ampla se mostraram fundamentais para personalizar condutas e reduzir a toxicidade das intervenções médicas.

Os achados permitiram constatar que o objetivo geral do estudo foi plenamente alcançado, uma vez que foi possível identificar e discutir os principais desafios clínicos, éticos e sociais que envolvem o tratamento oncológico de idosos frágeis. As evidências demonstram que a tomada de decisão terapêutica deve ser pautada não apenas na gravidade da doença, mas também nas condições funcionais, emocionais e espirituais do paciente. Além disso, verificou-se que o sucesso terapêutico não se resume à cura, mas está intrinsecamente relacionado à preservação da dignidade, à manutenção da autonomia e à melhoria da qualidade de vida. Essa visão é reforçada pelas diretrizes da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2025) e da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (2024), que defendem a integração entre oncogeriatria, geriatria e cuidados paliativos como base de uma prática mais humanizada.

Ao analisar os resultados, constatou-se também que a hipótese inicial, de que a fragilidade interfere diretamente na escolha terapêutica e nos resultados clínicos do idoso com câncer, foi confirmada. As pesquisas analisadas demonstram que pacientes frágeis possuem menor tolerância a terapias agressivas e apresentam maiores índices de complicações, o que reforça a necessidade de individualização do tratamento. Além disso, a literatura destaca que o apoio emocional, o acompanhamento psicológico e a espiritualidade desempenham papel relevante na adesão às terapias e na ressignificação do processo de adoecimento, apontando para a importância de uma abordagem biopsicossocial ampliada.

Entretanto, é necessário reconhecer as limitações e dificuldades encontradas nesta pesquisa. A escassez de estudos brasileiros com amostras robustas e padronizadas sobre fragilidade oncológica restringe a generalização dos resultados. Além disso, a heterogeneidade dos métodos utilizados nas pesquisas revisadas dificulta a comparação direta entre os achados. Outro desafio identificado foi a carência de políticas públicas e de capacitação profissional voltadas especificamente à oncogeriatria, o que compromete a implementação de práticas integradas e o acompanhamento longitudinal dos pacientes. Ainda assim, as evidências reunidas permitem afirmar que há avanços significativos na compreensão do fenômeno e no desenvolvimento de estratégias mais eficazes de cuidado.

Este estudo reforça que o tratamento oncológico do idoso frágil deve ser guiado por princípios de humanização, interdisciplinaridade e ética, reconhecendo o paciente em sua totalidade biológica, psicológica e social. O envelhecimento populacional impõe à sociedade e aos sistemas de saúde o desafio de desenvolver práticas mais sensíveis às limitações e potencialidades dessa faixa etária. Assim, conclui-se que a integração entre avaliação geriátrica, cuidados paliativos e apoio psicossocial é o caminho mais promissor para garantir não apenas a eficácia clínica, mas também a dignidade, a autonomia e o bem-estar do idoso com câncer. Dessa forma, a pesquisa reafirma a importância de políticas e práticas de saúde centradas na pessoa e aponta para a necessidade contínua de novos estudos que consolidem um modelo de atenção integral e sustentável ao envelhecimento oncológico.

REFERÊNCIAS

ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS. Cuidados paliativos e fragilidade: cartilha para o profissional de saúde. Organização: Comitê de Geriatria e Gerontologia da Academia Nacional de Cuidados Paliativos; coordenação de Ana Luisa Rugani Barcellos. São Paulo: ANCP, 2024. PDF. ISBN 978-65-8136004-7.

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BRAGA, Dayse Aparecida de Oliveira; VASCONCELOS, Luciana Lima de; PAIVA, Claudineia Edilaine Queiroz; SILVA PRADO, Rita de Cássia Martins da; TORRES BARROS, Keylla Barbosa Nunes. Qualidade de vida do idoso em tratamento oncológico. Revista de Ciências Médicas e Biológicas, Salvador, v. 18, n. 2, p. 249– 253, maio/ago. 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.9771/cmbio.v18i2.15991.

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FREITAS, Rosana Alves de; MENEZES, Tânia Maria de Oliveira; SANTOS, Luciana Barbosa; MOURA, Hérica Cristina Gomes Bezerra; SALES, Maria Goreth de Souza; MOREIRA, Flávia Andrade. Spirituality and religiosity in the experience of suffering, guilt, and death of the elderly with cancer. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, e20190034, 2020. DOI: https://doi.org/10.1590/0034716720190034.

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SCHREVEL, Julia de; et al. A Escala de Fragilidade de Edmonton como uma pontuação de triagem para fragilidade em oncogeriatria. Frontiers in Medicine, v. 11, 30 set. 2024. DOI: https://doi.org/10.3389/fmed.2024.1466366.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Manual de recomendações de oncogeriatria. Rio de Janeiro: SBGG, 2025.

VERAS, Renato Peixoto. Doenças crônicas e longevidade: desafios futuros. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 26, e230233, 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/1981225620230326.230233.pt.


1 Acadêmica do Curso Superior de Medicina da Faculdade Metropolitana de Rondônia Campus Porto Velho email: laryssacastro.pvh@hotmail.com ;
2 Acadêmica do Curso Superior de Medicina da Faculdade Metropolitana de Rondônia Campus Porto Velho e-mail: aglin.adv@gmail.com;
3 Acadêmica do Curso Superior de Medicina da Faculdade Metropolitana de Rondônia Campus Porto Velho e-mail: Janainabiomed2015@hotmail.com;
4 Acadêmico do Curso Superior de Medicina da Faculdade Metropolitana de Rondônia Campus Porto Velho email: joaovictor.as1910@gmail.com;
5 Acadêmica do Curso Superior de Medicina da Faculdade Metropolitana de Rondônia Campus Porto Velho email: anabeatrizcrvls@gmail.com ;
6 Acadêmica do Curso Superior de Medicina da Faculdade Metropolitana de Rondônia Campus Porto Velho email: alicemunisbergamin@gmail.com ;
7 Acadêmica do Curso Superior de Medicina da Faculdade Metropolitana de Rondônia Campus Porto Velho email: saraacoimbra16@outlook.com ;
8 Docente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Metropolitana de Rondônia e Orientadora do projeto Campus Porto Velho e-mail: francielle.moraes@metropolitana-ro.com.br