REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202601150747
Anne Karoline de Moura
Erika da Silva Santos
Kelly Cristina Sousa Alencar
Sarah Santos Alcântara
Orientador: Diego Sindeaux Figueira
RESUMO
Extração dentária é um procedimento cirúrgico odontológico amplamente realizado, inclusive em ambiente hospitalar, e é essencial para a manutenção da saúde bucal e sistêmica. Em pacientes hospitalizados, especialmente aqueles internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), a presença do cirurgião-dentista é fundamental para prevenir infecções bucais que podem agravar o quadro clínico. Contudo, muitos desses pacientes fazem uso de terapias anticoagulantes sistêmicas, empregadas na prevenção e no tratamento de eventos tromboembólicos, o que eleva o risco de sangramento durante procedimentos invasivos. Dessa forma, a realização de extrações dentárias em pacientes anticoagulados constitui um desafio clínico, pois requer equilíbrio entre o controle hemorrágico e a prevenção de eventos trombóticos. Esta revisão integrativa visa analisar os procedimentos odontológicos recomendados para a realização de extrações dentárias em pacientes hospitalizados em terapia anticoagulante, bem como identificar as principais complicações e etapas associadas. O objetivo é reunir e discutir as evidências disponíveis na literatura, contribuindo para a padronização de práticas seguras e eficazes no contexto da odontologia hospitalar.
Palavras-chave: Extração Dentária. Anticoagulantes. Odontologia Hospitalar. Odontologia Geral. Revisão.
ABSTRACT
Tooth extraction is a widely performed dental surgical procedure, even in a hospital setting, and is essential for maintaining oral and systemic health. In hospitalized patients, especially those admitted to Intensive Care Units (ICUs), the presence of a dentist is fundamental to prevent oral infections that can worsen their clinical condition. However, many of these patients use systemic anticoagulant therapies, employed in the prevention and treatment of thromboembolic events, which increases the risk of bleeding during invasive procedures. Therefore, performing tooth extractions in anticoagulated patients represents a clinical challenge, as it requires a balance between hemorrhagic control and the prevention of thrombotic events. This integrative review aims to analyze the recommended dental procedures for performing tooth extractions in hospitalized patients undergoing anticoagulant therapy, as well as to identify the main associated complications and stages. The goal is to gather and discuss the available evidence in the literature, contributing to the standardization of safe and effective practices in the context of hospital dentistry.
Keywords: Tooth extraction. Anticoagulants. Hospital Dental Service. Dental General Practice. Review
1. INTRODUÇÃO
A exodontia é um procedimento odontológico cirúrgico, que envolve a remoção de dentes que não podem ser restaurados e visa a saúde bucal e geral do paciente. Esse procedimento combina os princípios da física e da mecânica para remoção de um dente do processo alveolar. Embora a proporção de exodontias em relação aos procedimentos preventivos e curativos tenha diminuído ao longo dos anos, permanece sendo um procedimento comum na prática odontológica diária. Um estudo realizado na Universidade Federal de Pelotas, que analisou 19 anos de procedimentos odontológicos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), identificou uma taxa de cerca de 165 mil exodontias para cada 100 mil habitantes em todo território brasileiro durante o período avaliado (CHISINI, 2019; HUPP, 2009).
A cavidade bucal, frequentemente negligenciada em ambientes hospitalares, pode se tornar foco de infecções oportunistas, principalmente devido à sua estreita relação com as condições sistêmicas em que o paciente se encontra. Nesse contexto, a presença do cirurgião-dentista (CD) na equipe multiprofissional de saúde torna-se essencial, especialmente no contexto da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ambiente onde a vulnerabilidade sistêmica do paciente pode ser agravada pela exposição elevada a agentes infecciosos. A atuação do CD contribui diretamente para a prevenção de infecções bucais que, se não controladas, podem agravar o quadro sistêmico e comprometer o prognóstico de pacientes críticos (MENESES et al., 2022; NEVES, LIMA e MARANHÃO, 2025).
Paralelamente, muitos desses pacientes hospitalizados, em decorrência da imobilização prolongada e das próprias condições clínicas, encontram-se em uso de terapia anticoagulante sistêmica, usada tanto na prevenção quanto no tratamento de eventos tromboembólicos como infarto agudo do miocárdio (IAM), acidente vascular encefálico (AVE), doença tromboembólica venosa (TEV) e em indivíduos em tratamento dialítico (FRAZER et al., 2019; HEESTERMANS et al., 2022).
Os anticoagulantes mais comumente utilizados incluem as heparinas, os antagonistas da vitamina K (AVK) e os anticoagulantes orais diretos (DOACs). A Heparina não fracionada (HNF), atua por meio da inibição da trombina e de diversos fatores de coagulação ao se ligar à antitrombina. A heparina de baixo peso molecular (HBPM) possui mecanismo semelhante, porém com vantagens como menor incidência de efeitos adversos e menor necessidade de monitoramento laboratorial, sendo ambas administradas exclusivamente por via parenteral. Os AVK, como a Varfarina, atuam inibindo a síntese dos fatores de coagulação dependentes dessa vitamina. Os DOACs, passaram a ser utilizados por sua ação específica diretamente em fatores específicos da coagulação, como o fator Xa (inibidores do fator Xa, como rivaroxabana, apixabana e edoxabana) ou a trombina (inibidor direto da trombina, como dabigatrana) (NUTESCU et al., 2019).
Apesar de eficazes na prevenção de eventos trombóticos, esses medicamentos apresentam maior potencial de interação medicamentosa e podem alcançar concentrações plasmáticas elevadas em pacientes com disfunções renal ou hepática. No ambiente hospitalar, os anticoagulantes são considerados fármacos de alto risco, representando um desafio clínico importante, especialmente em procedimentos invasivos como a exodontia, devido ao risco aumentado de hemorragias (HEESTERMANS et al., 2022; JOHANSSON et al., 2023; NUTESCU et al., 2019; SJALANDER et al., 2009).
Dentre os procedimentos odontológicos realizados em ambiente hospitalar, a exodontia destaca-se como uma das intervenções mais frequentemente executadas e o risco de sangramento permanece como a principal preocupação na realização desses procedimentos em pacientes em uso de anticoagulantes. (5). Embora os DOACs causem menos sangramentos do que os anticoagulantes mais antigos, como os antagonistas da vitamina K, ainda não se sabe ao certo com que frequência e com que gravidade esse sangramento acontece, especialmente em cirurgias bucais (BAZARIN e OLIVEIRA, 2025; JOHANSSON et al., 2023).
Em pacientes anticoagulados observa-se divergências nas condutas clínicas adotadas. As recomendações variam desde a manutenção da medicação com aplicação de medidas locais hemostáticas, substituição da terapia por HBPM e até a suspensão temporária da terapia anticoagulante, o que pode expor o paciente a um risco maior de tromboembolismo (SEQUEIRA e GARCIA, 2022).
Diante das incertezas e da variabilidade nas condutas clínicas relacionadas à realização de exodontias nesses pacientes, torna-se indispensável um planejamento prévio cuidadoso e individualizado. Esse planejamento deve considerar fatores como o tipo e a meia-vida do anticoagulante em uso, o estado sistêmico do paciente, a complexidade do procedimento cirúrgico, bem como os dados obtidos durante a anamnese. A partir dessa análise criteriosa, é possível adotar a técnica mais adequada, minimizar riscos de complicações hemorrágicas e garantir um prognóstico mais seguro e favorável ao paciente (GRANDINI et al., 1993; JOHANSSON et al., 2023; SEQUEIRA e GARCIA, 2022).
Diante desse panorama, compreender os efeitos da terapia anticoagulante no contexto das exodontias torna-se fundamental, especialmente quando realizadas em ambiente hospitalar. A escassez de consenso e a variabilidade nas condutas adotadas evidenciam a necessidade de investigar de forma crítica as práticas clínicas, identificando riscos, benefícios e estratégias de manejo seguras. Assim, este estudo busca analisar os impactos da anticoagulação sistêmica nos desfechos hemorrágicos pós-exodontia e discutir as recomendações operatórias disponíveis na literatura, contribuindo para a construção de uma conduta mais padronizada e baseada em evidências.
1.1 OBJETIVOS
1.1.1 OBJETIVO GERAIS:
Avaliar os efeitos da anticoagulação no desfecho de exodontias, considerando a incidência de pacientes que realizam tratamento em que se faz necessário o uso de anticoagulantes.
1.1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
Identificar possíveis complicações de exodontias em pacientes que fazem uso de medicamentos anticoagulantes;
Analisar a adequação das condutas relacionadas ao procedimento de exodontia em pacientes anticoagulados e seus desfechos;
2. METODOLOGIA
Este artigo foi elaborado nos moldes de uma revisão de literatura do tipo integrativa, cujos objetivos abrangem reunir, analisar e discutir as contribuições acadêmicas mais expoentes de diferentes autores e especialistas que têm a contribuir a respeito das implicações quanto à segurança, protocolos, condutas recomendadas, e prognósticos de casos de pacientes que estão sob o uso de anticoagulantes no contexto hospitalar.
A revisão foi orientada pela seguinte questão norteadora: “Quais condutas odontológicas são recomendadas para a realização de exodontias em pacientes sob terapia anticoagulante?” formulada segundo a estratégia PICO, utilizada na elaboração de perguntas clínicas, sobretudo em revisões de literatura:
- P (Paciente/Problema): pacientes sob tratamento com anticoagulantes;
- I (Intervenção): exodontia/extração dentária;
- C (Comparação): condutas com ou sem a suspensão do anticoagulante;
- O (Outcome/Desfecho): risco de sangramento, complicações hemorrágicas, sucesso do procedimento.
Estratégias de busca e critérios de elegibilidade
A busca bibliográfica foi conduzida nas bases PubMed®, LILACS e Scopus, contemplando publicações em português, inglês e espanhol entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2025. Utilizaram‑se descritores padronizados dos vocabulários MeSH (Medical Subject Headings) e DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), combinados pelos operadores booleanos AND e OR.
Quanto aos critérios de inclusão, as estratégias de busca deveriam ter como alvo estudos primários, ensaios clínicos, estudos observacionais e qualitativos que investigassem exodontias simples ou múltiplas em adultos (≥ 18 anos) em uso contínuo de anticoagulantes. Foram considerados elegíveis artigos que apresentassem, no mínimo, dados quantitativos sobre sangramento pós-operatório ou outros desfechos clínicos relevantes. Foram excluídos estudos cujo foco principal fosse o diagnóstico de discrasias sanguíneas, intervenções cirúrgicas distintas (p. ex., implantes ou osteotomias), relatos de casos, trabalhos sem acesso ao texto completo ou com avaliação metodológica de alto risco de viés.
Os detalhes da estratégia de busca foram apresentados no Quadro 1.
Quadro 1 – Estratégia de busca por base de dados

3. RESULTADOS
Foram identificados 47 estudos, dos quais 7 foram removidos por serem duplicados. Após a leitura dos títulos e resumos, 6 foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão. 34 artigos foram selecionados para a leitura completa, dos quais 17 foram excluídos por conta dos critérios de exclusão. Foram selecionados 17 estudos a serem analisados nesta revisão. O fluxograma com a seleção dos estudos está apresentado na figura 1.
Figura 1: Fluxograma de avaliação e seleção dos artigos.

Os estudos incluídos neste trabalho são estudos observacionais (n = 5), ensaios clínicos (n = 2) e revisões de literatura (n = 6), publicados entre 2015 e 2025, que tratam do tema.
A análise dos estudos permitiu identificar padrões de condutas clínicas, bem como variações nas recomendações quanto à manutenção ou suspensão da anticoagulação durante o procedimento. Esses achados foram organizados e sintetizados no Quadro 2, que resume as condutas adotadas, os pontos de convergência e divergência entre os estudos analisados, bem como os principais desfechos clínicos observados.
Quadro 2. Categorização das condutas adotadas e principais desfechos citados nos estudos selecionados.



4. DISCUSSÃO
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) estabeleceu a IV diretriz de avaliação cardiovascular perioperatória em 2024, onde algumas recomendações relacionadas ao atendimento odontológico em pacientes anticoagulados foram estabelecidas. Em geral, para procedimentos odontológicos de baixo risco, não há indicação de suspensão de anticoagulantes, como a varfarina e antiagregantes, não havendo literatura suficiente sobre os DOACs. São considerados de baixo risco extrações de até dois dentes e a terapia de ponte pode ser indicada para procedimentos maiores, em pacientes usando varfarina e dependendo do quadro geral do paciente, sendo a decisão conjunta com o cirurgião-dentista e o médico responsável. A diretriz também preconiza o valor seguro da Razão Normalizada Internacional (RNI) para até 3,4, diferente da III diretriz, que trazia o valor de 4,0, e segue recomendando o uso de até 4 tubetes de anestésico com vasoconstritor. (GUALANDRO et al. 2024)
Cancino, Fonseca e Parada (2023) afirmam que a HBPM apresenta menor risco de sangramento quando utilizada em dose profilática, destacando que muitos pacientes podem ser tratados sem a suspensão da medicação. Mendes et al. (2022) complementam ao especificar que, para ponte terapêutica com HBPM, a última dose deve ser administrada 24 horas antes do procedimento, sendo recomendada reintrodução entre 48 e 72 horas em cirurgias de maior risco hemorrágico. Para o ácido acetilsalicílico (AAS), Mendes et al. (2022) ressaltam que, devido aos benefícios cardiovasculares, o medicamento deve ser mantido inclusive no pré-operatório. Em relação à rivaroxabana, os autores recomendam a suspensão 24 horas antes e retomada após 24 horas, desde que haja hemostasia adequada.
A questão central da maioria dos estudos gira em torno da decisão de suspender ou manter a anticoagulação. Mendes et al. (2022) enfatizam que essa decisão deve ser compartilhada com o médico e que a maior parte dos procedimentos odontológicos, incluindo extrações simples, pode ser realizada sem suspensão da terapia. Cancino, Fonseca e Parada (2023) e Taladriz et al. (2022), não observaram aumento significativo de hemorragias pós-operatórias em pacientes anticoagulados, desde que o RNI estivesse dentro da faixa terapêutica. Essa mesma perspectiva é observada nos estudos de Caliskan et al. (2017) e Lu, Lin e Hsue (2018), que reforçam não ser necessário suspender ou alterar a terapia anticoagulante quando técnicas locais adequadas de hemostasia são aplicadas, evitando os riscos tromboembólicos associados à interrupção medicamentosa.
Apesar da recomendação geral de não suspender anticoagulantes e que a maior parte das evidências aponte equivalência entre manter ou suspender a anticoagulação, os estudos de Villanueva et al. (2018) indicaram diferença no sangramento pós-operatório entre pacientes que suspenderam e aqueles que mantiveram o fármaco; contudo, essa diferença não atingiu significância estatística. Quanto aos DOACs, alguns autores observaram diferenças entre os fármacos: Lee et al. (2025) registraram maior sangramento associado ao uso de rivaroxabana, enquanto Kyyak et al. (2023) não identificaram diferença significativa entre rivaroxabana, apixabana e dabigatrana. Apesar disso, Lee et al. (2025) também destacam que os DOACs apresentam uso crescente devido à maior estabilidade farmacocinética e menor interferência por fatores externos.
Ao comparar monoterapia e terapia dupla em pacientes sob tratamento antitrombótico, Katz et al. (2024) observaram maior incidência de sangramento pós-operatório na terapia combinada. No estudo, o termo “terapia dupla” inclui tanto a combinação clássica de antiplaquetários (como AAS + clopidogrel) quanto associações entre antiplaquetários e anticoagulantes, como Anticoagulantes Indiretos e DOAC. Entre os pacientes em monoterapia, os usuários de DOACs apresentaram maior taxa de sangramento (6,5%) quando comparados aos usuários de antiplaquetários isolados (1,3%) e anticoagulantes indiretos (2,7%), destacando que, mesmo nesses casos, os episódios foram leves.
Outros estudos que comparam o risco de sangramento entre usuários de varfarina e DOACs também apresentam resultados convergentes. Yagyuu et al. (2017) e Kyyak et al. (2023) observam que, embora pacientes anticoagulados apresentem maior risco de sangramento pós-extração em relação a indivíduos saudáveis, não há diferença estatística entre usuários de varfarina e DOACs, já que ambos os grupos apresentam incidências semelhantes de hemorragia. Resultados semelhantes são encontrados por Johansson et al. (2025), que em estudo clínico prospectivo, avaliaram 210 pacientes anticoagulados submetidos a extrações simples e cirúrgicas, observando incidência de sangramento pós-operatório de 27% em usuários de DOACs e 37% em usuários de varfarina, sem diferença estatisticamente significativa após ajustes, e com a maior parte dos episódios podendo ser manejada pelo próprio paciente em casa.
Entretanto, embora os achados indiquem equivalência entre as terapias, alguns estudos sugerem uma maior estabilidade hemostática entre os usuários de DOACs. Cáceres, Areyuna e Figueroa (2021) destacaram que o percentual de sangramento pós-extração é menor em pacientes que continuam o uso dos DOACs (16,5%) do que em pacientes com uso dos AVK (37,2%), embora maior do que pacientes saudáveis. Além disso, no estudo de Johansson et al. (2025), apesar de considerar irrelevante estatisticamente a diferença de sangramento entre os DOACs e varfarina, os episódios de sangramento clinicamente relevantes, que necessitaram de nova avaliação profissional ou nova sutura, ocorreram em 3% dos usuários de DOACs e em 11% dos usuários de varfarina, sugerindo uma maior estabilidade hemostática entre os usuários de DOACs. Cáceres, Areyuna e Figueroa (2021), ainda destacam outras vantagens dos DOACs em relação a outros anticoagulantes, como início rápido, meia-vida curta, estabilidade farmacológica e menor número de interações. Entretanto, apesar dessas vantagens, o estudo deixa claro que não há consenso sobre protocolos para exodontias, havendo grande variabilidade nos tempos de suspensão, no uso de medidas hemostáticas e nos critérios clínicos adotados entre diferentes estudos.
A variabilidade terapêutica da varfarina e suas múltiplas interações medicamentosas constituem pontos de destaque na literatura. Cancino, Fonseca e Parada (2023) destacam que a varfarina está sujeita a múltiplas interações com antimicrobianos, anti-inflamatórios, fármacos cardiovasculares, imunomoduladores, drogas do sistema nervoso central, multivitamínicos, esteroides e até vacinas, podendo intensificar seu efeito e aumentar o risco de sangramento. Mendes et al. (2022) são mais específicos e listam os fármacos capazes de aumentar seu efeito anticoagulante, como AAS, Antiinflamatórios não esteroidais (AINEs), omeprazol, fluconazol, ciprofloxacino, metronidazol e outros que reduzem sua ação, como rifampicina e carbamazepina, com impacto direto sobre o RNI. Esses achados convergem com Daroit et al. (2017) que também apontam que AINEs, antibióticos e até fatores dietéticos modulam a farmacocinética dos anticoagulantes, aumentando ou diminuindo sua ação.
Além das interações entre medicamentos, fatores clínicos como idade avançada e propriedades farmacológicas intrínsecas das diferentes classes de anticoagulantes podem influenciar diretamente o risco de sangramento. Lee et al. (2025) e Kyyak et al. (2023) sugerem tendência de maior sangramento em idosos usuários de varfarina, embora tal padrão não tenha sido observado com DOACs. Em contraste com a variabilidade da varfarina, Inchingolo et al. (2024) enfatizam que a evolução farmacológica dos DOACs como, apixabana, dabigatrana e rivaroxabana, trouxe maior previsibilidade farmacológica, menor necessidade de monitorização e menos interações medicamentosas, modificando de forma significativa a conduta perioperatória em odontologia. Contudo, estudos como os de Mendes et al. (2022) e Cancino, Fonseca e Parada (2023) reforçam a necessidade de anamnese detalhada e que a revisão minuciosa da medicação permanece indispensável antes de exodontias, uma vez que alterações inesperadas podem modificar o risco hemorrágico e impactar diretamente a segurança de exodontias em pacientes anticoagulados.
Outro ponto crucial identificado na literatura refere-se ao papel do RNI no manejo de pacientes em uso de varfarina. Cancino, Fonseca e Parada (2023) afirmam que RNI acima de 4 aumenta substancialmente o risco de hemorragia, enquanto valores subterapêuticos reduzem a proteção tromboembólica. Taladriz et al. (2022) corroboram essa perspectiva ao afirmarem que, de acordo com diretrizes europeias e norte‐americanas, exodontias podem ser realizadas com segurança em pacientes com RNI ≤ 3 para procedimentos simples e ≤ 2,5 para procedimentos complexos. Ambos destacam que boa parte das intervenções dentárias é de baixo risco, desde que o RNI esteja dentro da faixa terapêutica. Mendes et al. (2022) reforçam que pacientes com RNI entre 2,0 e 3,0 não necessitam suspensão da varfarina para extrações simples, tampouco de ponte com heparina. Estudos como os de Lee et al. (2025) e Daroit et al. (2017) recomendam monitorar também o tempo de protrombina (TP) e o tempo dentro da faixa terapêutica (TPR), considerando-o preditor importante de complicações hemorrágicas. Assim, a maioria dos estudos incluídos nesta pesquisa enfatizam que o RNI é ferramenta central no planejamento da exodontia, embora Taladriz et al. (2022) tenham observado que ele não é o único fator determinante, uma vez que parâmetros sistêmicos adicionais, como pressão arterial, também devem ser considerados. Contudo, o próprio estudo demonstra que, quando mantida em níveis adequados (PAS < 140 mmHg; PAD < 90 mmHg), a pressão arterial não influenciou a hemorragia pós‐exodontia em pacientes com RNI ≤ 3.
No que tange a medida hemostáticas locais, a análise dos estudos incluídos evidenciou elevada convergência quanto à eficácia das medidas hemostáticas locais no controle do sangramento pós-exodontia em pacientes anticoagulados. Yagyuu et al. (2017), Cáceres, Areyuna e Figueroa (2021), Taladriz et al. (2022), Mendes et al. (2022) e Inchingolo et al. (2024) afirmam que estratégias simples, como compressão com gaze, sutura e o uso de esponjas hemostáticas de gelatina, fibrina ou celulose oxidada, foram suficientes para estabelecer a hemostasia local na maioria dos casos, mesmo sem interrupção da terapia anticoagulante. Dessa forma, os achados reforçam a tendência clínica atual de manter o anticoagulante e priorizar o controle local da hemorragia, reduzindo o risco de eventos trombóticos associado à sua suspensão.
O estudo de Kataoka et al. (2016) reforça essa tendência ao demonstrar que, embora 8,1% dos pacientes em uso contínuo de varfarina tenham apresentado sangramento pós-operatório, todos os episódios foram controlados exclusivamente com medidas hemostáticas locais, sem necessidade de transfusão, terapias sistêmicas ou internação. Os autores também observaram que variáveis como INR dentro da faixa terapêutica, tipo de extração ou número de dentes removidos não se associaram de forma significativa ao risco hemorrágico. O principal fator identificado foi o uso concomitante de antiagregantes plaquetários, que aumentou aproximadamente três vezes a chance de sangramento. Além disso, o estudo evidenciou que o escore HAS-BLED não foi útil para predizer sangramentos pós-exodontia, indicando que a tomada de decisão clínica deve se apoiar mais na execução adequada das medidas locais do que em ajustes desnecessários da anticoagulação.
A utilização de agentes tópicos antifibrinolíticos também apresenta resultados positivos. Taladriz et al. (2022) detalham um protocolo clínico baseado em medidas hemostáticas locais, que inclui a aplicação de gaze embebida em ácido tranexâmico. O estudo de Kaddah, Alkhouri e Karkoutly (2024) também demonstrou que a aplicação tópica de ácido tranexâmico em esponja de gelatina absorvível (TXA-Gel) se mostrou eficaz na redução da dor em pacientes anticoagulados com varfarina, especialmente entre o terceiro e o sétimo dia após a extração, além de favorecer a formação de coágulo estável e reduzir a incidência de alveolite.
A análise do uso de biomateriais, como a fibrina rica em plaquetas (PRF), revelou pontos de discordância. Engelen et al. (2018) indicam PRF e a utilização de agentes antifibrinolíticos, tais como, ácido tranexâmico (ATX) e ácido épsilon-aminocapróico (EACA), como alternativas para controle do sangramento, destacado a maior potência clínica do ácido tranexâmico e indicando sua aplicação tópica como bochecho ou compressão com gaze embebida. Já Kyyak et al. (2023) relatam que, além do tempo pré-operatório adicional exigido para preparo do PRF, seu uso nem sempre justifica, visto que observaram a ausência de diferenças significativas entre o uso de PRF e a esponja de fibrina. Esses resultados divergentes sugerem que o uso rotineiro de biomateriais deve ser considerado caso a caso.
Por fim, Katz et al. (2024) demonstra que mesmo hemorragias que ocorrem em ambiente ambulatorial costumam ser resolvidas sem necessidade de internação, o que reforça a importância de orientações claras ao paciente sobre pressão local, repouso, evitar bochechos vigorosos, não cuspir e manter a cabeça elevada nas primeiras horas. Inchingolo et al. (2024) acrescentam que a eficácia dessas medidas reduz a necessidade de suspender anticoagulantes, evitando o aumento do risco tromboembólico.
6. CONCLUSÃO
Assim, as recomendações operatórias se consolidam em três pilares: manutenção da anticoagulação, uso de medidas hemostáticas locais eficazes e orientação rigorosa ao paciente sobre cuidados domiciliares no pós-operatório. Essa abordagem, apoiada por diferentes estudos, permite conduzir intervenções cirúrgicas odontológicas de forma segura e previsível, sem necessidade rotineira de internação preventiva.
As evidências disponíveis indicam que, para a maioria das exodontias simples, a manutenção da anticoagulação sistêmica (com AVK ou DOACs) é segura quando associada à monitorização adequada, especialmente do RNI no caso dos AVK, e a estratégias hemostáticas locais. Os DOACs apresentam vantagens farmacocinéticas por maior previsibilidade e menor necessidade de monitorização laboratorial, embora persistam lacunas na padronização de protocolos. Assim, a decisão clínica deve ser multiprofissional e individualizada, considerando RNI/TP/TPR, comorbidades, interações medicamentosas e uso concomitante de antiplaquetários.
De forma convergente, os estudos analisados reforçam a recomendação contemporânea de evitar a suspensão rotineira dos anticoagulantes em procedimentos odontológicos de pequeno porte. Priorizar o controle local do sangramento e avaliar cuidadosamente o risco tromboembólico resulta em manejo mais seguro e condizente com as evidências atuais, uma vez que o risco decorrente da interrupção terapêutica supera o potencial sangramento pós-operatório, geralmente controlável com medidas locais.
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