ARTRITE POR DEPOSIÇÃO DE CRISTAIS DE PIROFOSFATO DE CÁLCIO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601151019


Giulia Machado Caldeira Ardisson1
Thifisson Ribeiro de Souza2


Resumo

A Artrite por Deposição de Cristais de Pirofosfato de Cálcio Di-hidratado (CPPD), historicamente denominada pseudogota devido à sua semelhança fenotípica com a artrite úrica, representa uma das artropatias microcristalinas mais prevalentes na população idosa. Diferente da gota, que deriva de um distúrbio no metabolismo das purinas, a CPPD é uma doença metabólica da cartilagem articular, caracterizada pela precipitação de cristais de pirofosfato de cálcio na matriz extracelular da cartilagem hialina e fibrocartilagem. A relevância do seu estudo na medicina interna e na reumatologia contemporânea justifica-se pelo aumento da expectativa de vida e pela frequente associação da doença com comorbidades metabólicas e degenerativas, exigindo do clínico um alto índice de suspeição para o diagnóstico diferencial de monoartrites agudas e poliartrites crônicas.

Palavras-chave: Condrocalcinose; Terapêutica; Reumatologia.

1 INTRODUÇÃO

A fisiopatologia da CPPD centraliza-se no metabolismo anômalo do pirofosfato inorgânico (PPi) nos condrócitos. O PPi é um subproduto essencial de diversas reações intracelulares, mas, em condições patológicas, ocorre um aumento da sua exportação para o espaço extracelular, mediado principalmente pela proteína de transporte transmembrana ANKH. Uma vez no ambiente extracelular, o PPi combina-se com íons de cálcio, sob a influência de enzimas como a fosfatase alcalina e a ectonucleotídeo pirofosfatase/fosfodiesterase 1 (ENPP1), resultando na formação de cristais de pirofosfato de cálcio di-hidratado. Este processo, conhecido como condrocalcinose quando visualizado em exames de imagem, inicia-se geralmente na camada média da cartilagem articular.

A inflamação aguda desencadeada por esses cristais ocorre através de um mecanismo molecular complexo que envolve a ativação do inflamassoma NLRP3. Quando os cristais de CPPD são fagocitados por macrófagos residentes e sinoviócitos, ocorre o recrutamento da caspase-1, que cliva a pró-interleucina em sua forma ativa. Esta citocina pró-inflamatória é a principal orquestradora da resposta quimiotática que atrai polimorfonucleares para a cavidade articular, resultando em sinovite exsudativa, dor intensa, calor e edema, mimetizando quadros de artrite séptica ou gota úrica. Além da forma idiopática relacionada ao envelhecimento, a CPPD apresenta associações clínicas fundamentais com distúrbios metabólicos, notadamente o hiperparatireoidismo primário, a hemocromatose hereditária e a hipomagnesemia, que devem ser sistematicamente investigados em pacientes jovens ou com quadros poliarticulares.

Portanto, tendo em vista a grande importância de abordar os aspectos deste tema, o estudo presente possui o objetivo principal de revisar a CPPD.

2 METODOLOGIA 

Trata-se de uma revisão narrativa de literatura que utilizou artigos publicados de forma integral e gratuita nas bases de dados U.S. National Library of Medicine (PUBMED) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Deu-se preferência para a bibliografia publicada nas línguas inglesa, portuguesa, espanhola e francesa, considerando o domínio de pelo menos um autor do estudo em cada idioma, garantindo uma tradução mais fidedigna do conteúdo revisado. O unitermo utilizado para a busca foi “Chondrocalcinosis”, presente nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). 

Objetivando uma abordagem mais atual acerca do objetivo almejado, um recorte temporal foi incorporado à filtragem, que incluiu pesquisas publicadas nos últimos 5 anos. No entanto, livros referência da medicina também foram consultados no intuito de melhor conceituar os termos aqui utilizados, trazendo maior assertividade e confiabilidade à pesquisa.

Durante o mês de janeiro de 2026, os autores deste estudo se dedicaram a uma busca minuciosa pelos estudos elegíveis dentre aqueles encontrados. A seleção incluiu a leitura dos títulos dos trabalhos, excluindo aqueles cujo tema não era convergente com o aqui abordado. Posteriormente, realizou-se a leitura integral dos estudos e apenas 53 dos 173 artigos encontrados foram utilizados aqui de alguma forma, conforme exemplificado pelas figuras a seguir (Figura 1 e 2):

Figura 1 – Artigos encontrados na PUBMED: metodologia utilizada

Fonte: De autoria própria, 2026.

Figura 2 – Artigos encontrados na SciELO: metodologia utilizada

Fonte: De autoria própria, 2026.

Além disso, vale também ressaltar que o presente estudo dispensou a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), tendo em vista que não aborda e nem realiza pesquisas clínicas em seres humanos e animais. Por conseguinte, asseguram-se categoricamente os preceitos dos aspectos de direitos autorais dos autores vigentes previstos na lei brasileira (BRASIL, 2013).

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A apresentação clínica da CPPD é notavelmente heterogênea, o que frequentemente leva a atrasos diagnósticos. O fenótipo de “artrite aguda por CPPD” (a pseudogota propriamente dita) manifesta-se tipicamente como uma monoartrite ou oligoartrite de início súbito, com predileção pelas articulações dos joelhos, punhos e sínfise púbica. Diferente da gota, que classicamente acomete a primeira articulação metatarsofalângica, a CPPD tende a envolver articulações maiores e pode ser desencadeada por estresse fisiológico, como traumas, cirurgias ortopédicas ou quadros infecciosos sistêmicos.

Outro fenótipo relevante é a “CPPD crônica”, que mimetiza a artrite reumatoide. Nestes casos, o paciente apresenta dor e rigidez matinal persistente em múltiplas articulações, podendo haver envolvimento simétrico. A diferenciação torna-se complexa, exigindo análise laboratorial para fator reumatoide e anti-CCP, além da busca por condrocalcinose radiológica. Por fim, a associação entre CPPD e osteoartrite é onipresente; a deposição de cristais pode acelerar o processo degenerativo articular, resultando em uma osteoartrite mais inflamatória e destrutiva, frequentemente observada em articulações pouco comuns para a osteoartrite primária, como as articulações metacarpofalângicas e os punhos.

O padrão-ouro para o diagnóstico da CPPD permanece sendo a análise do líquido sinovial através da microscopia de luz polarizada. Os cristais de pirofosfato de cálcio caracterizam-se por possuírem formato romboide ou paralelepípedo e apresentarem birrefringência positiva fraca, o que os distingue dos cristais de urato monossódico (gota), que são agulhados e fortemente birrefringentes negativos. Além da identificação dos cristais, a análise citológica do líquido sinovial revela uma leucocitose neutrofílica significativa, geralmente entre 10.000 e 50.000 células por milímetro cúbico, corroborando o estado inflamatório agudo.

Complementarmente, os métodos de imagem desempenham um papel crucial, especialmente quando a artrocentese não é factível. A radiografia convencional pode revelar a condrocalcinose, manifestada como calcificações lineares ou pontilhadas na fibrocartilagem (como nos meniscos ou no ligamento triangular do carpo) ou na cartilagem hialina. Entretanto, a ausência de condrocalcinose radiológica não exclui o diagnóstico. Atualmente, a ultrassonografia de alta resolução tem ganhado destaque pela sua sensibilidade superior à radiografia, permitindo a visualização de depósitos hiperecogênicos finos no interior da cartilagem que não geram sombra acústica posterior. Em casos complexos, a Tomografia Computadorizada de Dupla Energia (DECT) pode ser utilizada para diferenciar depósitos de cálcio de depósitos de urato, embora seu uso principal ainda seja na gota.

O manejo da CPPD é estratificado entre o controle das crises agudas e a profilaxia de novos episódios. Na fase aguda, o objetivo primordial é a redução da resposta inflamatória mediada por neutrófilos e citocinas. A aspiração do líquido articular, por si só, promove alívio pressórico imediato e remoção de carga cristalina. O uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) em doses plenas é eficaz, porém deve ser prescrito com cautela na população idosa devido aos riscos de nefrotoxicidade e sangramento gastrointestinal. A colchicina, utilizada em doses baixas, é uma alternativa valiosa, agindo na inibição da polimerização da tubulina e, consequentemente, na quimiotaxia leucocitária.

Para pacientes com contraindicações aos AINEs e à colchicina, como aqueles com doença renal crônica avançada, a corticoterapia sistêmica ou intra-articular apresenta excelentes resultados. Nos casos de CPPD crônica recorrente ou poliarticular, medicamentos como o metotrexato ou a hidroxicloroquina podem ser considerados, embora a evidência científica para estas terapias na CPPD seja menos robusta do que na artrite reumatoide. Recentemente, o uso de inibidores da IL-1, como o anacinra, tem demonstrado eficácia dramática em casos refratários, reforçando o papel central do inflamassoma NLRP3 na gênese da doença. É imperativo, simultaneamente, tratar as condições metabólicas subjacentes, como a reposição de magnésio ou o tratamento do hiperparatireoidismo, embora isso nem sempre resulte na dissolução dos cristais já formados.

4 CONCLUSÃO

Em conclusão, a Artrite por Deposição de Cristais de Pirofosfato de Cálcio transcende a antiga definição de “pseudogota”, consolidando-se como uma patologia metabólica articular complexa com impacto significativo na funcionalidade e qualidade de vida da população senescente. A compreensão da biologia do condrócito e do papel da proteína ANKH na regulação do pirofosfato inorgânico abriu caminhos para entender que a deposição de cristais não é um evento meramente degenerativo, mas um processo ativo de desregulação bioquímica. A transição do diagnóstico baseado apenas na condrocalcinose radiográfica para a análise molecular e ultrassonográfica permitiu uma identificação mais precisa dos fenótipos clínicos, evitando diagnósticos errôneos de artrite reumatoide ou osteoartrite primária.

Apesar dos avanços no controle das crises agudas, a medicina contemporânea ainda enfrenta o desafio de desenvolver terapias “modificadoras da doença” capazes de dissolver os depósitos de cristais ou impedir sua formação inicial. A associação intrínseca com distúrbios endócrinos e metabólicos, como o hiperparatireoidismo e a hemocromatose, exige que o acadêmico e o profissional de medicina adotem uma visão holística, onde a monoartrite no joelho ou no punho atue como um sentinela para investigações sistêmicas mais profundas.

Portanto, o futuro da abordagem da CPPD reside na integração entre a clínica soberana e as novas ferramentas de imagem, aliadas a uma farmacoterapia que minimize o uso crônico de corticosteroides e AINEs em pacientes vulneráveis. Ao consolidar o conhecimento sobre a patogênese cristalina, o artigo científico aqui fundamentado espera contribuir para a disseminação de uma prática clínica baseada em evidências, que priorize a preservação da arquitetura articular e a autonomia funcional do paciente idoso.

REFERÊNCIAS

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1Médica pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Residência em Clínica Médica pelo Hospital Felício Rocho de Belo Horizonte. ardissongiulia@gmail.com.
2Acadêmico de Medicina pela Universidade de Rio Verde. thifissonribeiro@gmail.com.

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