REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601150729
Giulia Machado Caldeira Ardisson1
Thifisson Ribeiro de Souza2
Resumo
A Artrite Idiopática Juvenil (AIJ) compreende um grupo heterogêneo de artropatias inflamatórias crônicas de etiologia desconhecida, com início antes dos 16 anos. Esta revisão aborda a complexidade fisiopatológica da doença, diferenciando os mecanismos autoinflamatórios da forma sistêmica da autoimunidade presente nos subtipos oligo e poliarticulares. Discutem-se os critérios diagnósticos e de classificação estabelecidos pela ILAR, enfatizando a importância do diagnóstico clínico precoce e do suporte por métodos de imagem avançados, como a ultrassonografia com Doppler e a ressonância magnética. O manejo terapêutico atual fundamenta-se na estratégia Treat-to-Target, destacando o papel central do metotrexato e a revolução proporcionada pelos agentes imunobiológicos (anti-TNF, anti-IL-1 e anti-IL-6) na prevenção de danos estruturais. Por fim, ressaltam-se as complicações críticas, como a Síndrome de Ativação Macrofágica e a uveíte crônica, reforçando a necessidade de uma abordagem multidisciplinar para assegurar a remissão clínica e a integridade funcional do paciente na vida adulta.
Palavras-chave: Artrite Idiopática Juvenil; Imunobiológicos; Reumatologia.
1 INTRODUÇÃO
A Artrite Idiopática Juvenil (AIJ) não representa uma única patologia, mas um termo “guarda-chuva” que abrange um grupo heterogêneo de artropatias inflamatórias crônicas de etiologia desconhecida, com início antes dos 16 anos de idade e duração mínima de seis semanas. Na reumatologia pediátrica, a AIJ é a condição reumatológica crônica mais prevalente, apresentando um espectro clínico que varia desde o acometimento de uma única articulação até manifestações sistêmicas graves com risco de óbito.
A nomenclatura evoluiu significativamente. O que anteriormente era denominado Artrite Reumatoide Juvenil (ARJ) ou Artrite Crônica Juvenil (ACJ), hoje é classificado segundo os critérios do ILAR para garantir homogeneidade em pesquisas clínicas e facilitar o manejo terapêutico direcionado.
A AIJ é considerada uma doença complexa, resultante da interação entre predisposição genética e gatilhos ambientais (infecções virais, estresse biomecânico, disbiose intestinal).
Atualmente a AIJ sistêmica (AIJs) é vista mais como uma doença autoinflamatória do que autoimune propriamente dita. Há uma ativação aberrante do sistema imune inato, com destaque para o papel das interleucinas 1 e 6. A tempestade de citocinas é responsável pela febre héctica e pelo risco de Síndrome de Ativação Macrofágica (SAM).
Nos subtipos de AIJ Oligoarticular e Poliarticular predomina a imunidade adaptativa (caráter autoimune), com a presença de linfócitos T auxiliares (Th1 e Th17) infiltrando o tecido sinovial, levando à hiperplasia sinovial (pannus) e destruição cartilaginosa mediada pelo TNF α.
Portanto, tendo em vista a grande importância de abordar os aspectos deste tema, o estudo presente possui o objetivo principal de revisar a artrite idiopática juvenil, dando uma perspectiva ampliada de sua classificação, diagnóstico e manejo terapêutico.
2 METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão narrativa de literatura que utilizou artigos publicados de forma integral e gratuita nas bases de dados U.S. National Library of Medicine (PUBMED) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Deu-se preferência para a bibliografia publicada nas línguas inglesa, portuguesa, espanhola e francesa, considerando o domínio de pelo menos um autor do estudo em cada idioma, garantindo uma tradução mais fidedigna do conteúdo revisado. O unitermo utilizado para a busca foi “Arthritis, Juvenile”, presente nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS).
Objetivando uma abordagem mais atual acerca do objetivo almejado, um recorte temporal foi incorporado à filtragem, que incluiu pesquisas publicadas nos últimos 5 anos. No entanto, livros referência da medicina também foram consultados no intuito de melhor conceituar os termos aqui utilizados, trazendo maior assertividade e confiabilidade à pesquisa.
Durante o mês de janeiro de 2026, os autores deste estudo se dedicaram a uma busca minuciosa pelos estudos elegíveis dentre aqueles encontrados. A seleção incluiu a leitura dos títulos dos trabalhos, excluindo aqueles cujo tema não era convergente com o aqui abordado. Posteriormente, realizou-se a leitura integral dos estudos e apenas 65 dos 2253 artigos encontrados foram utilizados aqui de alguma forma, conforme exemplificado pelas figuras a seguir (Figura 1 e 2):
Figura 1 – Artigos encontrados na PUBMED: metodologia utilizada

Fonte: De autoria própria, 2026.
Figura 2 – Artigos encontrados na SciELO: metodologia utilizada

Fonte: De autoria própria, 2026.
Além disso, vale também ressaltar que o presente estudo dispensou a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), tendo em vista que não aborda e nem realiza pesquisas clínicas em seres humanos e animais. Por conseguinte, asseguram-se categoricamente os preceitos dos aspectos de direitos autorais dos autores vigentes previstos na lei brasileira (BRASIL, 2013).
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A classificação da Artrite Idiopática Juvenil, conforme estabelecida pela International League of Associations for Rheumatology (ILAR), reflete a heterogeneidade clínica da doença, segmentando-a em fenótipos que orientam tanto o prognóstico quanto a escolha terapêutica. A forma sistêmica destaca-se por seu comportamento autoinflamatório, manifestando-se através de picos febris diários e exantema evanescente, frequentemente precedendo o envolvimento articular. Em contrapartida, a forma oligoarticular, subtipo mais prevalente na casuística pediátrica, apresenta um curso inicial mais insidioso, acometendo até quatro articulações e exigindo vigilância oftalmológica rigorosa devido à forte associação com a uveíte anterior crônica, especialmente em pacientes com soropositividade para o anticorpo antinuclear (FAN). Quando o acometimento ultrapassa o limite de quatro articulações após o primeiro semestre de evolução, a condição é reclassificada como oligoarticular estendida, o que geralmente implica um pior prognóstico funcional em comparação à forma persistente.
No espectro das poliaritrites, a diferenciação baseada no Fator Reumatoide (FR) é crucial. A AIJ poliarticular FR-positivo correlaciona-se estreitamente com a artrite reumatoide do adulto, apresentando um caráter erosivo e simétrico que demanda intervenção agressiva. Já a forma FR-negativo exibe maior variabilidade clínica. Adicionalmente, as categorias de Artrite Relacionada à Entesite (ERA) e Artrite Psoriásica introduzem componentes genéticos específicos, como a associação com o alelo HLA-B27 no caso da ERA, que frequentemente evolui com envolvimento axial e entesopatias em membros inferiores, mimetizando as espondiloartropatias do adulto.
O diagnóstico da AIJ permanece eminentemente clínico, fundamentado na exclusão criteriosa de outras patologias, como infecções osteoarticulares, neoplasias hematológicas e outras doenças difusas do tecido conjuntivo. Embora não existam biomarcadores patognomônicos, a utilidade dos marcadores de fase aguda, como a Proteína C Reativa (PCR) e a Velocidade de Hemossedimentação (VHS), é inquestionável no monitoramento da atividade inflamatória. No campo da imagem, a transição da radiologia convencional para a ultrassonografia com Doppler e a ressonância magnética representou um salto qualitativo na detecção de sinovites subclínicas e edema ósseo precoce. A ultrassonografia, em particular, permite a visualização direta da hiperplasia sinovial e do aumento da vascularização local, fornecendo subsídios para intervenções terapêuticas antes que o dano estrutural irreversível ocorra.
No que tange ao manejo terapêutico, a estratégia contemporânea é regida pelo conceito de Treat-to-Target, visando a remissão clínica completa e a prevenção de sequelas a longo prazo. O metotrexato consolida-se como o padrão-ouro entre as drogas modificadoras do curso da doença (DMARDs) sintéticas, sendo a base do tratamento para as formas poli e oligoarticulares. Todavia, a refratariedade a essas terapias impulsionou o uso de agentes biológicos. Os inibidores do fator de necrose tumoral, como o adalimumabe e o etanercepte, revolucionaram o controle da inflamação articular, enquanto os bloqueadores de interleucinas tornaram-se pilares no tratamento da forma sistêmica, modulando a tempestade de citocinas característica dessa via fisiopatológica.
As complicações da AIJ, contudo, permanecem como um desafio para o clínico. A Síndrome de Ativação Macrofágica (SAM) surge como uma emergência médica na AIJ sistêmica, caracterizada por uma resposta inflamatória citotóxica descontrolada que leva a citopenias e falência orgânica. Paralelamente, a uveíte anterior crônica representa o principal risco de morbidade visual, muitas vezes progredindo de forma assintomática até estágios avançados de catarata ou glaucoma se não houver rastreio periódico. Além das manifestações orgânicas, o impacto no crescimento linear e o atraso puberal, secundários tanto à inflamação sistêmica quanto à corticoterapia prolongada, exigem um manejo multidisciplinar que integre o suporte nutricional e o acompanhamento endocrinológico.
Em última análise, o prognóstico da AIJ foi drasticamente transformado nas últimas décadas. A transição de um modelo focado apenas no alívio sintomático para um modelo de precisão biológica permite que a maioria das crianças e adolescentes alcance a vida adulta com integridade articular e funcional. O futuro da investigação científica na área aponta para a busca de biomarcadores preditivos de resposta terapêutica e para o refinamento dos protocolos de desmame de medicação, garantindo que a remissão não seja apenas alcançada, mas mantida com a menor toxicidade possível.
4 CONCLUSÃO
Em suma, a Artrite Idiopática Juvenil consolidou-se como um espectro clínico complexo, cuja compreensão transcende a mera inflamação articular para atingir o campo da desregulação imunológica profunda, seja por vias autoinflamatórias ou autoimunes. A evolução dos critérios diagnósticos e a implementação de protocolos de imagem avançados, como a ressonância magnética, permitiram a identificação precoce da sinovite, viabilizando a intervenção dentro da chamada “janela de oportunidade”. A transição terapêutica do uso empírico de corticoides para a precisão dos agentes imunobiológicos e inibidores de citocinas específicas não apenas reduziu drasticamente a incidência de erosões ósseas e incapacidades funcionais, mas também mitigou complicações sistêmicas graves e sequelas oftalmológicas. No entanto, o desafio persistente reside na individualização do tratamento e na busca por biomarcadores que prevejam a resposta terapêutica, garantindo que o objetivo final — a remissão sustentada e a transição bem-sucedida para a vida adulta — seja alcançado com a mínima toxicidade medicamentosa possível.
REFERÊNCIAS
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1Médica pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Residência em Clínica Médica pelo Hospital Felício Rocho de Belo Horizonte. ardissongiulia@gmail.com.
2Acadêmico de Medicina pela Universidade de Rio Verde. thifissonribeiro@gmail.com.
