EXHAUSTION AND PSYCHOLOGICAL DISTRESS AMONG MEDICAL STUDENTS: THE EFFECTS OF AN INTENSIVE ACADEMIC ROUTINE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202512211737
Rafaela Elias Assis Leite1
Clara Carvalho Peixoto1
Ana Flávia Queiroz Miquelanti1
Rafael Vinhal da Costa2
Resumo:
Esta revisão integrativa da literatura teve como objetivo analisar a relação entre a rotina acadêmica dos estudantes de Medicina e o desenvolvimento de vulnerabilidades psicológicas. A pesquisa foi seguiu a estratégia PICO, considerando como população os acadêmicos de Medicina, intervenção a rotina acadêmica, e desfecho a vulnerabilidade psicológica. Foram utilizados descritores do DeCS em português, inglês e espanhol, e a busca foi realizada em bases como PubMed, SciELO, BVS, EbscoHost e Google Scholar, abrangendo o período de 2017 a 2024. Após critérios de inclusão e exclusão, 20 artigos foram selecionados. Os resultados indicaram que a elevada carga horária, o excesso de conteúdos, a competitividade, a privação de sono, a pressão por desempenho e a ausência de suporte emocional são fatores significativos para o adoecimento psíquico. A prevalência de transtornos mentais entre estudantes de Medicina é maior que na população geral, reforçando a vulnerabilidade desse grupo. Além disso, o estigma social e a cultura institucional de negligência em relação à saúde mental contribuem para a subnotificação e dificultam o tratamento adequado. Conclui-se que é urgente a adoção de estratégias preventivas e de acolhimento pelas instituições de ensino, visando formar médicos mais saudáveis e preparados emocionalmente para a prática profissional.
Palavras-chave: Saúde mental. Faculdades de medicina. Estresse psicológico.
Abstract:
This integrative literature review aimed to analyze the relationship between medical students academic routines and the development of psychological vulnerabilities. The research followed the PICO strategy, considering medical students as the population, academic routine as the intervention, and psychological vulnerability as the outcome. DeCS descriptors in Portuguese, English, and Spanish were used, and the search was conducted in databases such as PubMed, SciELO, BVS, EbscoHost, and Google Scholar, covering the period from 2017 to 2024. After applying inclusion and exclusion criteria, 20 articles were selected. The results indicated that heavy workloads, excessive content, competitiveness, sleep deprivation, pressure to perform, and lack of emotional support are significant factors in mental illness. The prevalence of mental disorders among medical students is higher than in the general population, reinforcing this group’s vulnerability. Furthermore, social stigma and an institutional culture of neglect regarding mental health contribute to underreporting and hinder adequate treatment. It is concluded that it is urgent to adopt preventive and welcoming strategies by educational institutions, aiming to train healthier and more emotionally prepared doctors for professional practice.
Keywords: Mental health. Schools medical. Stress psychological.
1 INTRODUÇÃO
A saúde mental refere-se à capacidade de cada indivíduo de sentir, pensar e agir com o intuito de melhorar a habilidade de enfrentamento de desafios e aproveitamento da vida. De forma geral, é uma sensação benéfica de bem-estar emocional e espiritual que respeita a importância da cultura, equidade, justiça social, relações interpessoais e dignidade pessoal1. Diante disso, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019, quase um bilhão de pessoas enfrentaram algum tipo de transtorno mental, sendo que, dentre estas, os jovens somaram cerca de 14%. Os sujeitos com menor capacidade adaptativa diante de estressores, ou seja, aqueles que se encontram em episódios de vulnerabilidade, são os mais propensos a desenvolverem desequilíbrios mentais2.
As pessoas que realizam a graduação em Medicina são expostas a muitas situações que contribuem para oscilações no humor, as quais podem causar prejuízos na saúde mental. Isso ocorre, pois os futuros médicos estão imersos em dificuldades desde antes da aprovação na universidade, uma vez que, para alcançarem uma vaga, enfrentam uma altíssima concorrência e uma rotina densa de preparação durante o pré-vestibular. Além disso, muitos desses sujeitos, ao serem aprovados na faculdade de Medicina, precisam mudar de cidade, distanciar-se da família e adaptar-se a uma realidade totalmente nova e sem o conforto oferecido nas residências de suas famílias3.
As Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação de Medicina são repletas de uma alta carga horária de ensino, diferentemente da maioria das outras graduações4. Dessa forma, uma grande quantidade de informações são repassadas diariamente para o corpo discente, ocasionando uma redução no tempo disponível para a realização de tarefas em prol do próprio benefício, como a execução de exercícios físicos e de atividades de lazer. Problemas psicológicos, como a Síndrome de Burnout, a depressão, transtorno de ansiedade, exaustão física e mental e a ideação suicida são frequentes entre estes universitários. Esses fatores podem comprometer o aprendizado e a qualidade de vida, de maneira a ocasionar prejuízos nos âmbitos físicos, psicológicos e nas relações interpessoais, atrapalhando o desempenho da pessoa durante a relação médico-paciente e no processo de ensino aprendizagem durante o curso5,6.
A ocorrência de sintomas depressivos entre os estudantes da área médica é alarmante, com índices variando de 13,9% a 79% do total de graduandos7. Esse quadro reflete as dificuldades psicológicas enfrentadas pelos acadêmicos, que, ao lidarem com as crescentes responsabilidades e expectativas durante o curso, tornam-se mais vulneráveis a distúrbios emocionais. Além disso, diante desse contexto, mostra-se de grande importância a definição do transtorno mental comum (TMC), que caracteriza-se por indivíduos que apresentam inúmeros sintomas físicos deletérios, como insônia, fadiga, irritabilidade, declínio da concentração e outras queixas somáticas, mas que não são diagnosticados formalmente pelos critérios de depressão e/ou ansiedade segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) e a Classificação Internacional de Doenças (CID-11)8.
Em estudos brasileiros, a prevalência de TMC varia entre 17% e 35%, o que representa uma parcela significativa da população devido à capacidade desse transtorno em provocar um grande prejuízo funcional e psicossocial para o acadêmico9. Outro ponto em que deve-se chamar atenção é o fato de que o TMC é subdiagnosticado e, muitas vezes, não tratados, gerando um forte impacto nesses indivíduos mediante o emprego de medicações e exames desnecessários, e intervenções ineficazes8. Diante disso, a saúde mental se revela um aspecto essencial para o bom desempenho acadêmico e para a formação de médicos que, no futuro, serão capazes de cuidar de seus pacientes com competência e empatia. O cuidado com o bem- estar psicológico desses alunos é fundamental, pois influencia tanto seu aproveitamento na faculdade quanto sua capacidade de exercer a medicina de maneira eficaz e humanizada10.
Diante da relevância das informações sobre a relação entre as atividades curriculares excessivas e o elevado índice de vulnerabilidade psicológica entre os estudantes de Medicina, esta revisão de literatura teve, como objetivo, analisar criticamente a relação entre a rotina acadêmica dos estudantes de medicina e sua vulnerabilidade psicológica, fundamentando-se em diversas evidências científicas atuais e propondo estratégias para enfrentamento dessa problemática.
2 MATERIAL E MÉTODOS
O presente estudo consiste em uma revisão exploratória integrativa de literatura. A revisão integrativa foi realizada em seis etapas: 1) identificação do tema e seleção da questão norteadora da pesquisa; 2) estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão de estudos e busca na literatura; 3) definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; 4) categorização dos estudos; 5) avaliação dos estudos incluídos na revisão integrativa e interpretação e 6) apresentação da revisão. Essas etapas foram seguidas conforme as recomendações de Mendes, Silveira e Galvão11, que descrevem o passo a passo metodológico desse tipo de estudo.
Na etapa inicial, para definição da questão de pesquisa utilizou-se da estratégia PICO (Acrômio para Patient, Intervention, Comparation e Outcome). Assim, definiu-se a seguinte questão norteadora do estudo: “A rotina acadêmica está relacionada ao elevado índice de vulnerabilidade psicológica entre estudantes de Medicina?”. Na estrutura da estratégia PICO, tem-se: P (Paciente/População): Estudantes de Medicina; I (Intervenção/Exposição): Rotina acadêmica; C (Comparação): Não se aplica; O (Desfecho): Elevado índice de vulnerabilidade psicológica.
Para responder a esta pergunta, foi realizada a busca de artigos envolvendo o desfecho pretendido utilizando as terminologias cadastradas nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCs) criados pela Biblioteca Virtual em Saúde desenvolvido a partir do Medical Subject Headings da U.S. National Library of Medcine, que permite o uso da terminologia comum em português, inglês e espanhol. Os descritores utilizados foram: “alunos de medicina”, “rotina acadêmica”, “saúde mental”, “problemas psicológicos”, “graduação médica”, “vulnerabilidade psicológica”, “medical students” e “mental health problems”. Para o cruzamento das palavras chaves utilizou-se os operadores booleanos “and”, “or” e “not”.
Realizou-se um levantamento bibliográfico por meio de buscas eletrônicas nas seguintes bases de dados: Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), Scientif Eletronic Library Online (SciELO), National Library of Medicine (PubMed), EbscoHost, Google Acadêmico.
A busca foi realizada no mês de setembro de 2024. Como critérios de inclusão, limitou-se a artigos escritos em português e inglês, publicados nos anos de 2017 a 2024, que abordassem o tema pesquisado e que estivessem disponíveis eletronicamente em seu formato integral. Foram excluídos os artigos que não obedeceram aos critérios de inclusão.
Após a etapa de levantamento das publicações, encontrou 36 artigos, dos quais foi realizada a leitura do título e resumo das publicações considerando o critério de inclusão e exclusão definido por dois pesquisadores independentes. Em seguida, realizou a leitura na íntegra das publicações, atentando-se novamente aos critérios de inclusão e exclusão, sendo que 14 artigos não foram utilizados devido aos critérios de exclusão. Foram selecionados 20 artigos para análise final e construção da revisão.
Posteriormente a seleção dos artigos, realizou-se um fichamento das obras selecionadas a fim de selecionar a coleta e análise dos dados. Os dados coletados foram disponibilizados em um quadro, possibilitando ao leitor a avaliação da aplicabilidade da revisão integrativa elaborada, de forma a atingir o objetivo desse método.
Figura 1: Fluxograma da busca e inclusão dos artigos.

Fonte: Autoria própria, 2025.
Apesar do rigor metodológico empregado, este estudo apresenta algumas limitações. A principal delas refere-se ao risco de viés de seleção, uma vez que a busca foi restrita a determinadas bases de dados, o que pode ter levado à exclusão de estudos relevantes que se encontravam em outras fontes. Além disso, optou-se por incluir apenas artigos publicados em português e inglês, o que pode ter limitado a abrangência de produções científicas disponíveis em outros idiomas. O recorte temporal de 2017 a 2024 também deve ser considerado uma restrição, pois, embora tenha garantido a atualidade das evidências analisadas, pode ter excluído estudos anteriores que ajudariam a compreender a evolução histórica da temática. Reconhece-se, ainda, a possibilidade de perda de trabalhos não acessíveis em texto completo, o que pode ter reduzido a abrangência da análise.
3 RESULTADOS
O número de pesquisas na área da saúde voltadas à saúde mental de estudantes de Medicina tem aumentado significativamente nos últimos anos. Esses estudos apontam que a intensa rotina acadêmica pode impactar negativamente a qualidade de vida e o bem-estar psicológico dos acadêmicos, influenciada por fatores como a elevada carga horária e a pressão por desempenho.
Para uma melhor compreensão desse cenário, a seguir, está disposta uma tabela que sintetiza os principais artigos que foram utilizados na presente revisão de literatura, contendo informações relevantes sobre os mesmos, como os autores do estudo, o ano de publicação, o título e os achados principais.
Tabela 1: Visão geral dos estudos incluídos nessa revisão sistemática sobre a relação do cotidiano com o alto índice de vulnerabilidade psicológica entre estudantes de medicina.


Fonte: Autoria própria, 2025.
4 DISCUSSÃO
Diante dos resultados encontrados, cabe avaliar que as tensões presentes no período de formação médica estão presentes antes mesmo da realização do curso de medicina. Ainda no processo de preparação para alcançar a aprovação na faculdade de Medicina, os jovens são permeados por uma rotina cansativa e uma alta competitividade. Esse momento é caracterizado por ser causador de ansiedade, estresse e até mesmo depressão, uma vez que existe uma grande cobrança da família em relação a escolha profissional, a incerteza, as expectativas e o sentimento de incapacidade12.
Com a aprovação no vestibular, a rotina do estudante, que já era exigente, passa a demandar ainda mais dedicação, muitas vezes implicando na renúncia de momentos de lazer. Ao ingressar no ensino superior, o acadêmico se depara com um ambiente desconhecido repleto de desafios, como a necessidade de integração com os novos colegas, adaptação à nova metodologia de ensino, e, principalmente, o enfrentamento de um processo de desenvolvimento cognitivo e emocional para lidar com as atividades acadêmicas13.
Segundo Dâmaso, Pereira, Batista, et al14, a insegurança diante da vivência de uma nova fase, como a entrada na faculdade, é um fator marcante de sofrimento, gerado pela transição. Além disso, as Novas Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina evidenciam que a formação médica envolve uma extensa carga de atividades curriculares e extracurriculares15. O curso de medicina, por ser considerado um dos mais desafiadores, exige grande esforço e dedicação dos alunos do corpo discente para que possam se tornar bons profissionais16. Nesse contexto, a educação médica é vista como uma experiência potencialmente estressante, impactando principalmente na população jovem, que se encontra em um momento de maior vulnerabilidade7.
Embora a saúde mental seja fundamental para o desenvolvimento humano, a literatura científica aponta uma alta prevalência de depressão entre os estudantes de medicina17. Uma saúde mental ideal é caracterizada por um estado em que as funções mentais permanecem normais, mesmo diante de fatores estressantes. Na sociedade, existem diversas formas de problemas psicológicos e mentais, que podem interagir e influenciar o processo de adoecimento10.
Atualmente, tanto as pessoas quanto as universidades ainda tratam os problemas de saúde mental com falta de empatia, perpetuando uma cultura que não reconhece adequadamente a realidade dos estudantes, incluindo suas relações educativas, expectativas profissionais e demais fatores da vida universitária14. Isso se deve ao estigma persistente relacionado às doenças e problemas de saúde mental na sociedade, o que leva, muitas vezes, tanto o corpo discente quanto o corpo docente a adotarem atitudes preconceituosas em relação àqueles que enfrentam vulnerabilidades18.
Além disso, muitos estudantes recorrem à negação de seus próprios sentimentos, buscando ingerir álcool e outras substâncias ilícitas, além de alimentos calóricos e pouco nutritivos, como fuga da realidade19. Contribuindo, assim, para a geração de uma barreira na procura por ajuda por parte de quem enfrenta esses transtornos20.
A rotina dos estudantes de medicina é marcada por diversos fatores que aumentam o risco de problemas psicológicos e psiquiátricos, tornando a taxa de sintomas depressivos e transtornos mentais comuns (TMC) mais alta do que na população geral21. O ambiente universitário, com grande quantidade de matérias, a pressão do mercado de trabalho e o sentimento de culpa por não atingir padrões de excelência, contribui para o estresse mental22.
A carga horária intensa, a dificuldade de conciliar a vida pessoal e acadêmica, a competição entre os colegas, a privação de sono e o convívio com situações difíceis, como a morte, geram um ambiente desafiador10. Fatores como cansaço excessivo, perfeccionismo e traços obsessivos-compulsivos também podem agravar o quadro, aumentando a probabilidade de transtornos mentais mais graves16.
Entre as alterações emocionais, comportamentais e psicológicas, os transtornos mentais comuns (TMC), como a depressão, ansiedade e síndrome de Burnout, são os mais prevalentes e os principais responsáveis pelas dificuldades no desempenho das atividades cotidianas. Os TMC são responsáveis por gerar dificuldade de atenção e de concentração21,23. Muitos estudantes relatam frequentemente sentimentos negativos, exacerbados pela escassez de tempo para cuidarem do próprio bem-estar24.
Conforme Ribeiro, Reinaldo, Oliveira, et al.5, fatores que comprometem o bem- estar podem prejudicar a qualidade de vida dos estudantes de medicina, resultando em danos físicos e psicológicos, além de afetar as relações sociais e a relação médico-paciente. Ademais, Oliveira e Araújo6 destacam que a correlação mais forte, entre várias vulnerabilidades psicológicas, é entre os estudantes de medicina e a Síndrome de Burnout. Estudos indicam que a prevalência dessa síndrome é mais alta em ambientes de trabalho estressantes, especialmente entre médicos, com uma ocorrência duas a três vezes maior do que em outras profissões. Os sintomas de ansiedade afetam diversos sistemas fisiológicos, como os sistemas autonômicos, musculares e respiratórios25.
Pesquisas revelam que esses sintomas são mais presente entre acadêmicos do décimo primeiro período, durante o estágio curricular obrigatório em regime de internato médico, o que é um fator alarmante, pois esse momento é quando os estudantes já estão em fase de realizarem frequentemente atendimentos e a enfrentarem maiores expectativas profissionais26.
A análise evidencia que, embora haja consenso quanto ao papel da sobrecarga acadêmica, da competitividade e da privação de sono como fatores recorrentes de sofrimento psíquico em estudantes de medicina, alguns trabalhos apresentam resultados distintos. Carro e Nunes12, por exemplo, não identificaram associação significativa entre características acadêmicas e a síndrome de Burnout, ao passo que Oliveira e Araújo6 e Ribeiro et al.5 ressaltaram a forte correlação entre a rotina extenuante, a competitividade e a manifestação desse transtorno. Essa heterogeneidade de achados evidencia a necessidade de ampliar pesquisas de maior abrangência e profundidade, capazes de esclarecer de forma mais consistente os determinantes da vulnerabilidade psicológica nesse grupo.
De acordo com as reflexões acerca do tema, é evidente que os estudantes de medicina apresentam mais transtornos mentais que a população em geral. Assim, considerando a expansão das vagas nas faculdades de medicina e as propostas para ampliar a cobertura da atenção médica no país descritas por Conceição et al.19, é crucial intensificar os estudos sobre o tema, a fim de combater esses obstáculos que afetam demasiadamente os estudantes de medicina.
Observa-se, ainda, que, embora a literatura reconheça a elevada prevalência de sintomas de ansiedade, depressão e Síndrome de Burnout entre estudantes de medicina, nota- se pouco ênfase na implementação de estratégias institucinais de enfrentamento. Nesse sentido, recomenda-se que as faculdades de Medicina invistam em políticas institucionais que incluam: acompanhamento psicológico e psiquiátrico sistemático, programas de escuta ativa e mentoria, incentivo a práticas de lazer e autocuidado. Tais medidas não apenas reduzem os riscos de adoecimento psíquico, como também favorecem a formação de profissionais mais resilientes, empáticos e preparados para lidar com as demandas da prática médica.
5 CONCLUSÃO
A partir da revisão integrativa da literatura realizada, verifica-se uma associação consistente entre a rotina acadêmica dos estudantes de medicina e o surgimento de vulnerabilidades psicológicas. A intensa carga horária, a pressão por desempenho, a competitividade interna, a privação do sono e a escassez de tempo para atividades de lazer constituem fatores recorrentes que comprometem o bem-estar psíquico desses alunos. Transtornos como ansiedade, depressão, síndrome de Burnout e transtornos mentais comuns (TMC) apresentam alta prevalência nesse grupo, interferindo negativamente na qualidade de vida e no desempenho acadêmico.
Diante desse cenário, torna-se imprescindível que as instituições de ensino superior adotem medidas concretas voltadas à prevenção e ao cuidado em saúde mental. A implementação de estratégias de acolhimento psicológico, programas de escuta ativa, campanhas de sensibilização, além do acompanhamento sistemático dos estudantes por equipes multiprofissionais, pode contribuir significativamente para a mitigação dos impactos negativos da formação médica sobre a saúde mental discente.
Além disso, recomenda-se a reavaliação das exigências curriculares e o estímulo à construção de uma cultura universitária mais empática, que reconheça a importância do equilíbrio entre formação técnica e saúde emocional. Investir no cuidado com os futuros médicos é essencial não apenas para a preservação de sua saúde mental, mas também para a formação de profissionais mais humanizados, resilistes e preparados para o exercício ético da medicina. A negligência institucional frente à saúde mental discente compromete não apenas a formação profissional, mas também a qualidade da atenção à saúde da população que será futuramente assistida por esses médicos.
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1 Discentes do curso de Medicina do Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM).
2 Orientador do trabalho e docente do curso de Medicina do Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM).
