ENTRE CICATRIZES E ESTIGMAS: A VIDA RECONFIGURADA DO PACIENTE OSTOMIZADO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch102025110810710


Edmilson Bezerra Cruz Júnior1; Jaqueline Alves Soares Varjão; Lucia Silva Ribeiro; Tamyres Cristina Silva; Matheus César Souza Crevelaro; Juliane do Nascimento Lopes


Resumo

A ostomia é uma intervenção cirúrgica que cria um estoma, permitindo a eliminação de excretas ou facilitando funções respiratórias e alimentares. Indicada em casos de câncer colorretal, traumas e doenças intestinais, pode ser temporária ou definitiva. Embora contribua para a melhoria da qualidade de vida, o paciente ostomizado enfrenta desafios físicos, emocionais e sociais, como alterações na imagem corporal, baixa autoestima e dificuldades de reintegração social. O cuidado com o estoma exige atenção à pele periestomal e uso adequado de bolsas coletoras, além de orientação contínua para prevenir complicações. A adaptação à nova condição pode gerar sentimentos de ansiedade, medo e rejeição, especialmente diante da ausência de apoio familiar e social.

Palavras-chave: Ostomia; Enfermagem; Educação em saúde

1. INTRODUÇÃO

A criação de um estoma por meio de intervenção cirúrgica, conhecida como ostomia, consiste em estabelecer uma abertura artificial na parede abdominal ou traqueal, com finalidade de redirecionar excretas, facilitar a respiração ou a nutrição. Essa técnica pode ser temporária ou definitiva, sendo indicada em situações clínicas como neoplasias malignas (especialmente colorretais), traumas abdominais, doenças inflamatórias intestinais, doença de Chagas e anomalias congênitas. Apesar de representar um avanço terapêutico que contribui para a sobrevida e bem-estar do paciente, a ostomia impõe barreiras psicossociais significativas. Entre os principais impactos estão a alteração da imagem corporal, comprometimento da autoestima, dificuldades na adaptação à rotina e prejuízos nas interações sociais e afetivas 1

A preservação da integridade tegumentar periestomal é imperativa, devendo-se evitar manifestações clínicas como eritema, ulcerações, prurido e algia. A protrusão estomal, fisiologicamente estimada em 1,5 cm, pode apresentar variações morfológicas e topográficas, inclusive múltiplas exteriorizações. A cromaticidade do estoma e da epiderme adjacente constitui parâmetro clínico relevante para aferição da vitalidade tecidual e efetividade terapêutica. A helioterapia moderada atua como coadjuvante na homeostase cutânea, mitigando riscos de dermatopatias e infecções locais 2.

Inexoravelmente, apesar dos avanços na tecnologia e na assistência sanitária, indivíduos ostomizados enfrentam obstáculos somáticos e psicossociais relevantes. A transição corporal pode induzir ansiedade e insegurança, agravada pela carência de suporte familiar e social, favorecendo o isolamento e dificultando a reintegração comunitária. A dismorfia percebida compromete a autoimagem, fragiliza a autoestima e limita a autonomia funcional, repercutindo na reinserção laboral. Tal cenário propicia quadros depressivos e intensificação de afetos negativos como negação, cólera e rejeição.

No silêncio que habita o corpo transformado, o estoma não é apenas técnica — é ruptura, é recomeço, é território de significados. Cada paciente ostomizado carrega em si não apenas uma intervenção cirúrgica, mas uma nova narrativa, marcada por desafios físicos, emocionais e sociais que se entrelaçam com o olhar do outro e com o próprio reconhecimento de si.

Esta pesquisa tem como objetivo geral contextualizar a vivência do estigma em pacientes ostomizados, à luz da perspectiva da enfermagem, compreendendo o cuidado não apenas como prática clínica, mas como gesto ético, político e humano. Tendo em vista a justificativa previamente delineada, busca-se evidenciar como o profissional de enfermagem pode atuar na desconstrução de preconceitos, na promoção da autonomia e na reconstrução da dignidade, por meio de ações que transcendam o curativo e alcancem o sujeito em sua totalidade.

2. ESTADO DA ARTE

2.1  CONVIVENDO COM ESTOMIAS : DEFINIÇÕES

O estigma social associado à imagem do ostomizado pode impactar negativamente sua interação com familiares, amigos, ambiente laboral e espaços coletivos. A condição crônica de saúde, como a ostomia, impõe ao indivíduo uma ruptura com o convívio social e interpessoal, alterando significativamente suas relações.3

As ostomias podem ser realizadas em diferentes segmentos do intestino delgado ou grosso, sendo nomeadas conforme o local da intervenção. A colostomia, por exemplo, consiste na exteriorização do cólon pela parede abdominal, criando uma nova via para eliminação de fezes. Pode ser definitiva — mais comum entre idosos — ou temporária, utilizada em situações clínicas agudas. O efluente tende a ser líquido no pós-operatório, tornando-se sólido com o tempo. Outras ostomias incluem a ileostomia, cecostomia e jejunostomia, algumas das quais podem se fechar espontaneamente. A escolha do local depende da condição patológica apresentada pelo paciente.3

A ostomia não constitui impedimento à expressão da sexualidade, tampouco à prática de atividades físicas. As limitações observadas decorrem, em grande parte, de sequelas cirúrgicas ou efeitos adversos dos tratamentos, mas também de fatores emocionais que influenciam a adaptação psicossocial. Relações afetivas, vida conjugal e até gestações são possíveis após a estomização, desde que haja aceitação pessoal e diálogo transparente com o parceiro. O suporte clínico e o convívio com outros ostomizados são elementos que favorecem o bem-estar e a segurança na retomada da intimidade

A atuação do enfermeiro perante o paciente ostomizado deve transcender os limites estritamente técnicos e clínicos, assumindo um papel integrador que engloba as dimensões físico-biológica, emocional, social e simbólica da existência humana. O cuidado, neste cenário, extrapola a mera manutenção da funcionalidade do estoma, configurando-se como um gesto ético e terapêutico singular, capaz de acolher as fragilidades, reconstruir identidades e promover a dignidade humana.

Em consonância com o conceito ampliado de saúde, conforme a Organização Mundial da Saúde, a define como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de enfermidade, é imprescindível que o profissional de enfermagem reconheça, avalie e intervenha nas complexas dificuldades que emergem durante o processo adaptativo à estomia. Essa transição, marcada por rupturas corporais e simbólicas, exige uma abordagem sensível para captar nuances emocionais, esclarecer dúvidas e orientar práticas especializadas de autocuidado, incluindo o manejo adequado do estoma, a seleção criteriosa de dispositivos tecnológicos e a higienização periestomal rigorosa.4

A sexualidade, frequentemente marginalizada no cuidado clínico, deve ser abordada com delicadeza, embasamento técnico e assertividade. Informações sobre posições confortáveis, estratégias para aprimorar a imagem corporal e a promoção de atividades grupais facilitadoras de troca experiencial são indispensáveis para restabelecer vínculos afetivos e minimizar inseguranças . 5 A participação ativa do parceiro assume papel catalisador na aceitação e reconstrução emocional do indivíduo.

Nos casos em que o paciente manifesta resistência ou desconforto na abordagem de temas íntimos, torna-se ainda mais premente a criação de um ambiente terapêutico seguro, propício à escuta qualificada e ao respeito à vulnerabilidade. O enfermeiro, nesse contexto, atua como um elo vital entre o corpo fragilizado e a subjetividade em processo de reconstrução, promovendo práticas de cuidado humanizado e empático.6

A aplicação de escalas específicas de avaliação da qualidade de vida, aliada a estratégias educativas consistentes, contribui para o fortalecimento do autocuidado e para uma adaptação mais eficaz do paciente ostomizado. Quando há envolvimento da equipe multiprofissional e da rede de apoio social, o cuidado torna-se mais abrangente e sensível às singularidades de cada indivíduo. A assistência, portanto, deve ser contínua, personalizada e pautada na integralidade, reconhecendo que cada estoma carrega uma narrativa única — e que cada gesto de cuidado é também uma possibilidade de renascimento e ressignificação do viver.7

Dessa forma, a enfermagem reafirma sua missão humanista e transcendente, contribuindo decisivamente para a promoção da autonomia, da qualidade de vida e da reconstrução do significado existencial do paciente ostomizado

3. METODOLOGIA 

Este estudo caracterizou-se como uma pesquisa metodológica, com abordagem qualitativa, fundamentada na estratégia PICO (População, Intervenção, Contexto e Desfecho), utilizada para nortear a formulação da pergunta de pesquisa e a definição dos critérios de análise. A população-alvo compreendeu indivíduos ostomizados, com foco na atuação do profissional de enfermagem no processo de educação em saúde, promoção do autocuidado e enfrentamento do estigma social.

A coleta de dados foi realizada por meio de uma revisão de literatura, selecionando publicações indexadas nas bases de dados SciELO, LILACS, PubMed e BDENF, além de diretrizes técnicas e documentos oficiais relacionados à temática. Os descritores utilizados incluíram: “ostomia”, “enfermagem”, “educação em saúde”. Foram incluidos artigos publicados entre os anos de 2010 e 2025, em português, inglês e espanhol, que abordassem diretamente a atuação da enfermagem junto a pacientes ostomizados.

A amostragem foi não probabilística, por conveniência, composta por estudos que atenderam aos critérios de inclusão previamente estabelecidos. Os dados foram organizados em quadros temáticos e analisados por meio de análise de conteúdo, conforme proposta de Bardin (2011), permitindo a categorização, discussão e analise dos achados

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A análise da literatura científica sobre a atuação da enfermagem na educação em saúde de pacientes ostomizados revelou aspectos fundamentais para a promoção do autocuidado, do suporte à sexualidade e da superação do preconceito. A orientação adequada, quando ofertada com empatia e precisão, transforma-se em ponte entre o medo e a autonomia, entre o desconhecido e o recomeço. Os achados demonstram que o cuidado educativo melhora significativamente a adaptação do paciente à nova condição de vida, reduzindo complicações e promovendo a independência. 7

O cotidiano do paciente ostomizado é permeado por desafios técnicos e emocionais. O manejo do estoma exige não apenas destreza, mas também coragem para enfrentar o espelho e reconhecer-se em nova forma. A capacitação para troca e manutenção da bolsa coletora, o zelo com a pele periestomal e a vigilância diante de complicações são práticas que, quando mediadas pela enfermagem, tornam-se rituais de cuidado e dignidade. A abordagem educativa fortalece a independência do paciente, promovendo habilidades que sustentam o autocuidado e a qualidade de vida 7

A sexualidade, muitas vezes silenciada pelo receio e pela vergonha, ressurge como dimensão vital na trajetória do paciente ostomizado. O toque, o desejo e o afeto não cessam com a cirurgia — apenas pedem novos caminhos. O enfermeiro, nesse cenário, atua como mediador entre o corpo e o afeto, oferecendo escuta, orientação e acolhimento.O diálogo franco entre paciente e parceiro, aliado à informação clara sobre a funcionalidade corporal, permite a ressignificação da sexualidade e a superação de barreiras emocionais 2

O estigma social, ainda presente como sombra sobre o corpo estomizado, foi amplamente evidenciado na literatura. O preconceito, alimentado pela ignorância, gera isolamento, fragiliza vínculos e compromete a saúde mental. A enfermagem, ao atuar na reabilitação, não apenas cuida do corpo — ela articula redes, promove grupos terapêuticos e semeia empoderamento. A inclusão social passa pela educação coletiva, pela visibilidade das narrativas e pela valorização da diversidade humana 5

A qualidade de vida dos pacientes estomizados está diretamente relacionada à capacidade de enfrentamento e ao suporte recebido. Sentimentos de constrangimento, alterações na autoimagem e dificuldades nas relações interpessoais são recorrentes. A enfermagem, ao reconhecer essas fragilidades, pode intervir com ações que promovam o empoderamento e a reconstrução da identidade do paciente 8 .

A utilização de escalas específicas para avaliação da qualidade de vida tem se mostrado eficaz na personalização do cuidado.6 demonstram que, ao compreender as queixas mais prevalentes — como odor, vazamentos e desconforto com o dispositivo — os profissionais conseguem traçar estratégias educativas mais assertivas. Essa abordagem fortalece o vínculo terapêutico e amplia a eficácia das intervenções.

Por fim, a escuta qualificada permanece como ferramenta essencial no cuidado ao paciente ostomizado. Mais do que técnicas, o que se espera do enfermeiro é presença, sensibilidade e compromisso com o outro. A enfermagem, quando exercida com ética e afeto, transforma o cuidado em poesia — e cada estoma, em símbolo de resistência e renascimento.

Mais do que curar feridas visíveis, o enfermeiro, em parceria com a equipe multiprofissional — psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais — torna-se guardião da esperança e da reconstrução subjetiva. Juntos, orientam caminhos terapêuticos que não apenas ensinam a cuidar do corpo, mas também a revalorizar a alma. A vida, mesmo atravessada por cicatrizes e estigmas, continua sendo um território fértil de beleza e potência. Não há bolsa coletora que impeça o riso, nem estoma que silencie o afeto. A aceitação não nasce da aprovação alheia, mas do reconhecimento íntimo de que existir é, por si só, um ato de coragem. E quando o cuidado é ofertado com ética, escuta e sensibilidade, cada paciente ostomizado descobre que sua história não foi interrompida — apenas redesenhada. Porque viver, apesar de tudo, ainda é o mais sublime dos verbos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise empreendida neste estudo evidenciou que a atuação do enfermeiro junto a pacientes ostomizados transcende o cuidado técnico, configurando-se como uma prática complexa que requer sensibilidade, escuta qualificada e compromisso ético com a reconstrução da dignidade humana. A educação em saúde emerge como ferramenta indispensável para promover o autocuidado, ressignificar a percepção corporal e enfrentar os estigmas associados à condição estomal. Nesse cenário, o enfermeiro assume papel central na articulação entre o conhecimento científico e a experiência subjetiva do paciente.

    Os resultados indicam que o suporte emocional, a orientação prática e a integração multiprofissional são elementos essenciais para assegurar uma assistência integral e humanizada. A adoção de estratégias educativas, instrumentos avaliativos e recursos tecnológicos contribui para a construção de cuidados personalizados e efetivos. Assim, a enfermagem reafirma sua vocação ético-política ao acolher o paciente em sua totalidade — corpo, mente e história.

    Por fim, este estudo ressalta a necessidade de ampliar o olhar para o paciente ostomizado como sujeito singular, cuja trajetória representa uma narrativa de superação e resiliência. Recomenda-se a continuidade de pesquisas que aprofundem as dimensões psicossociais do cuidado, bem como a elaboração de políticas e práticas que promovam a inclusão social e a qualidade de vida dessa população.

    REFERÊNCIAS

    1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO. Afinal, o que é ostomia? São Paulo: UNIFESP, 2023. Disponível :https://sp.unifesp.br/pediatria/pediatria/epe/epe/noticias/afinal-o-que-e-ostomia. Acesso em: 8 out. 2025
    1. MORAIS, Damaris. Mulher com ostomia: você é capaz de manter o encanto. 7. ed. Goiânia: Kelps, 2015.
    1. Martins Júnior, A. M.; Rocha, J. J. R. Tipos de estoma. In: Crema, E.; Silva, R. Estomas: uma abordagem interdisciplinar. Uberaba: Ed. Pinti, 1997. p. 43–44.,
    1. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Constituição da Organização Mundial da Saúde. Nova Iorque: OMS, 1946.
    1. BATISTA, M. Aspectos psicossociais da ostomia e sexualidade. 2011.
    1. PEZZI JUNIOR, S. A.; PAIVA, J. S.; QUEIROZ, T. A.; OLIVEIRA, A. C. S. R.; LIMA, A. M. A. O.; COSTA, E. C.; VIDAL, L. L. Associação do uso da escala de qualidade de vida com a melhoria do autocuidado de pacientes estomizados: revisão integrativa. Revista Enfermagem Atual, v. 97, n. 3, p. 1–12, 2023. Disponível em: https://revistaenfermagematual.com.br/index.php/revista/article/view/1693. Acesso em: 08 out. 2025.
    2. MENEZES, A. C.; PEREIRA, R. M. A atuação da enfermagem frente ao paciente ostomizado: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 75, n. 2, p. 1–8, 2022.
    3. OLIVEIRA, A. M.; SILVA, E. M. Qualidade de vida dos pacientes estomizados: contribuições para assistência de enfermagem. Barretos: Faculdade de Ciências da Saúde de Barretos Dr. Paulo Prata, 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Enfermagem em Oncologia).

     1Mestre em práticas de cuidado em saúde UFPR, Docente curso de enfermagem Centro Universitario Aparicio Carvalho FIMCA. edmilson.junior@fimca.com.br