ATRASO NO DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOMOTOR EM CRIANÇAS COM TEA: REVISÃO DE LITERATURA

NEUROPSYCHOMOTOR DEVELOPMENTAL DELAY IN CHILDREN WITH ASD: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511080103


Alessandra Marinho de Lima¹
Júlio César da Silva Tomioka1
Rayssa Mendes dos Santos1
Dra. Thaiana Bezerra Duarte²


Resumo

Introdução: O desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM) é fundamental para a adaptação funcional da criança e está frequentemente comprometido em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Pesquisas indicam que atrasos motores figuram entre os sinais precoces mais comuns, reforçando a importância do rastreio e da intervenção antecipada. Objetivo: Investigar os principais atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor em crianças com TEA, identificando os domínios mais comprometidos e seus impactos na autonomia e na qualidade de vida. Materiais e métodos: Realizou-se uma revisão de literatura, com artigos publicados entre 2015 e 2025, obtidos nas bases PubMed, SciELO, Lilacs e Google Acadêmico. Foram incluídos estudos que abordaram o DNPM em crianças com TEA, e excluídos aqueles com comorbidades neurológicas. Resultados: Foram analisados 7 estudos que evidenciaram déficits significativos nos domínios motor grosso e fino, especialmente na coordenação, equilíbrio postural e força muscular. Também foram observadas dificuldades de comunicação e prejuízo funcional. Esses atrasos influenciam negativamente o comportamento, a autonomia e o desempenho em atividades diárias, reduzindo a qualidade de vida. Conclusão: Os achados ressaltam a importância da intervenção precoce, com destaque para o papel da fisioterapia no aprimoramento do controle postural, coordenação e força muscular. A atuação antecipada favorece o desenvolvimento global e contribui para maior independência funcional e melhor prognóstico em crianças com TEA.

Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista. Desenvolvimento neuropsicomotor. Atraso motor. Intervenção precoce. Fisioterapia.

Abstract

Background: Neuropsychomotor development (NPMD) is essential for a child’s functional adaptation and is often impaired in individuals with Autism Spectrum Disorder (ASD). Studies indicate that motor delays are among the earliest and most common signs, emphasizing the importance of early screening and intervention. Purpose: To investigate the main neuropsychomotor developmental delays in children with ASD, identifying the most affected domains and their impact on autonomy and quality of life. Methods: A literature review was conducted using articles published between 2015 and 2025 from PubMed, SciELO, Lilacs, and Google Scholar. Seven studies addressing NPMD in children with ASD were included, while those involving neurological comorbidities were excluded. Results: The reviewed seven studies revealed significant deficits in gross and fine motor skills, particularly in coordination, postural balance, and muscle strength. Communication difficulties and functional impairments were also reported. These deficits negatively influence behavior, autonomy, and daily performance, reducing overall quality of life. Conclusion: The findings highlight the importance of early intervention, especially physiotherapeutic strategies aimed at improving postural control, coordination, and strength. Early action promotes better global development, greater functional independence, and improved long-term outcomes for children with ASD.

Keywords: Autism Spectrum Disorder. Neuropsychomotor development. Motor delay. Early intervention. Physiotherapy.

1 INTRODUÇÃO

O Desenvolvimento Neuropsicomotor (DNPM) é um processo evolutivo que integra as habilidades motoras, cognitivas, sociais e afetivas, e é crucial para a adaptação funcional da criança ao seu ambiente (Teixeira et al., 2019). 

De acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o Transtorno do Espectro do Autismo (código 6A02) é caracterizado por déficits persistentes nas áreas de interação social recíproca e comunicação social, além de padrões de comportamento, interesses ou atividades restritos, repetitivos e inflexíveis.

Essa classificação atual unifica as antigas subdivisões do autismo, com especificadores que detalham a presença ou ausência de deficiência intelectual e o nível de comprometimento da linguagem funcional (Organização Mundial da Saúde, 2018).

Marcado por déficits persistentes na interação social e por padrões repetitivos e restritos de comportamento, o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento frequentemente acompanhado por alterações em áreas sensório-motoras, manifestadas desde os primeiros anos de vida (Maenner et al., 2023). A proporção de atrasos nos marcos motores em crianças com TEA reforça sua importância para o rastreio precoce e intervenções apropriadas.

Nesse sentido, um estudo populacional com 32.850 crianças autistas revelou que 71,5% apresentaram atrasos motores, e estas foram avaliadas para o diagnóstico em média 8 meses antes daquelas sem o atraso. Tais achados indicam que o monitoramento desses marcos favorece a avaliação diagnóstica mais precoce e, consequentemente, a antecipação das intervenções, um fator associado a melhores resultados no desenvolvimento e à otimização da qualidade de vida (Pokoski et al., 2025). 

Embora a literatura evidencie a presença de atrasos motores em crianças com TEA, persiste uma lacuna sobre quais domínios do desenvolvimento neuropsicomotor são mais comprometidos, visto que os achados variam entre estudos e populações (Mohd Nordin et al., 2021). Essa incerteza justifica o problema de pesquisa: Quais são os principais atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor em crianças com TEA? 

Diante desse cenário, este estudo tem como objetivo principal investigar os principais atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor em crianças com TEA, com o intuito de identificar as habilidades com maior comprometimento e o modo como esses déficits prejudicam a autonomia e a qualidade de vida. Adicionalmente, buscou-se compreender os impactos desses atrasos e analisar as áreas mais afetadas, a fim de contribuir com evidências que aprimorem as práticas de avaliação e intervenção precoce.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo configurou-se como uma revisão de literatura, com o objetivo de reunir e analisar textos publicados sobre as principais disfunções no atraso neuropsicomotor no desenvolvimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). A pesquisa foi desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente por artigos científicos.

As bases de dados eletrônicas utilizadas para a busca foram PubMed, SciELO, PEDro e Google Acadêmico. Foram incluídas publicações dos últimos dez anos, abrangendo o período de 2015 a 2025. A seleção dessas bases foi justificada pela relevância e reconhecimento acadêmico no campo da saúde. Para a estratégia de busca, utilizou-se o operador booleano AND para combinar os seguintes descritores: neuropsychomotor developmental delay e children with autistic spectrum disorder, nas línguas inglesa e portuguesa.

A seleção dos artigos foi realizada entre os meses de fevereiro e junho de 2025. Foram considerados os seguintes critérios de inclusão: artigos transversais; artigos que abordavam diagnósticos em crianças com TEA; artigos que tratavam de atrasos de desenvolvimento neuropsicomotor em crianças com TEA. Como critérios de exclusão, foram descartados os artigos que se relacionavam a comorbidades neurológicas que pudessem impactar o desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM), tais como paralisia cerebral e lesões cerebrais traumáticas.

Os dados extraídos incluíram autor, ano, país, objetivo, população estudada, instrumentos de avaliação utilizados e principais resultados, sendo organizados em tabela. 

A análise dos resultados foi conduzida de forma descritiva e interpretativa, com síntese crítica dos achados, permitindo identificar os marcos do desenvolvimento mais frequentemente comprometidos em crianças com TEA e compreender seus impactos.

FLUXOGRAMA

O fluxograma (Figura 1) a seguir apresenta o processo de identificação, seleção e inclusão dos estudos utilizados nesta revisão. Nele, estão descritas as etapas de busca nas bases de dados, exclusão de duplicados, aplicação dos critérios de elegibilidade e o número final de artigos incluídos para análise.

Figura 1 – Fluxograma de estudo.

3 RESULTADOS 

A Tabela 1 reúne informações e diversas pesquisas ligadas ao Desenvolvimento Neuropsicomotor em crianças com (TEA).

Estão apresentados o autor e ano de publicação, os objetivos e os instrumentos para coleta de dados e resultados de cada estudo.

Tabela 1 – Síntese dos estudos incluídos na revisão.

AUTOR/ANOTIPO DE ESTUDOOBJETIVOMETODOLOGIARESULTADOS
Ferreiro-Pérez et al. (2024)Estudo observacional e transversalAvaliar se crianças em idade pré-escolar com Transtorno do Espectro Autista (TEA) utilizam a informação sensorial de forma diferente para manter o controle postural (CP) enquanto estão em pé.Teste Clínico Modificado de Integração e Equilíbrio Sensorial (mCTSIB), software Kinovea para análise de vídeo e Escala de Equilíbrio Pediátrica (PBS).As crianças com TEA demonstraram desafios em manter o CP enquanto estavam em pé em diferentes condições sensoriais. Elas mostraram uma maior dependência de informações somatossensoriais, especialmente na ausência ou com a variabilidade de estímulos visuais.
Odeh et al. (2022)Estudo preliminarEstabelecer um perfil motor abrangente em crianças com TEA e comparar o desempenho de habilidades motoras com um grupo de pares neurotípicos.Bruininks-Oseretsky Test of Motor Proficiency (BOT-2), Movement Assessment Battery for Children (MABC-2) e Vineland Adaptive Behavior Scales, 3rd edition (Vineland-3).Crianças com TEA apresentaram diferenças significativas em habilidades motoras complexas, habilidades de equilíbrio e desempenho motor global quando comparadas aos seus pares neurotípicos. Demonstraram déficits em tarefas que exigiam força, velocidade, agilidade, coordenação e equilíbrio estático e dinâmico.
Dhondt et al. (2022)Investigação longitudinalDescrever os perfis comunicativos de crianças pequenas com atraso significativo no desenvolvimento cognitivo e motor.Esquema de codificação desenvolvido especificamente para o estudo. Análise estatística descritiva e de correlação, além de análise de componentes principais e inspeção visual dos resultados.As crianças se comunicaram principalmente nos níveis de comportamento pré-intencional e intencional. O foco da comunicação foi, em grande parte, para recusar, obter e, em menor grau, para fins sociais. Mostraram trajetórias de desenvolvimento únicas em relação ao funcionamento comunicativo.
Delehanty e Wetherby (2021)Estudo com codificação observacional detalhadaDocumentar os atos comunicativos realizados por crianças com TEA, Atraso de Desenvolvimento (AD) e Desenvolvimento Típico (DT) durante uma observação naturalística em casa, e examinar as associações entre a comunicação da criança e os resultados de desenvolvimento.Participantes do banco de dados do projeto longitudinal FIRST WORDS. Foram utilizados inventários de gestos únicos, taxas por minuto e proporções de tipos de atos comunicativos e vocalizações precoces.Foram codificados 40.738 atos comunicativos. Crianças com TEA, AD e DT usaram, em média, 8, 9 e 12 gestos únicos, respectivamente. Crianças com TEA usaram gestos deíticos e atos para regulação de comportamento em taxas significativamente menores. Inventários de gestos restritos e taxas de comunicação reduzidas são indicadores precoces importantes de TEA.
Nordin et al. (2021)Estudo retrospectivo e unicêntricoComparar o desenvolvimento motor de crianças com TEA com o de crianças com desenvolvimento típico (DT), e avaliar se o atraso motor se tornava mais evidente com o aumento da idade.Schedule of Growing Skills II (SGS II).Crianças com TEA apresentaram atrasos motores significativos, tanto nas habilidades motoras grossas (6,7%) quanto nas finas (38,5%), em comparação com menores com desenvolvimento típico. O atraso motor se tornou mais evidente em crianças mais velhas.
Teixeira et al. (2019)Estudo clínico longitudinal, com seguimento observacional e direcionamento prospectivoAvaliar o perfil motor de indivíduos infantis com TEA.Escala de Desenvolvimento Motor (EDM).As crianças com TEA demonstraram uma idade motora geral menor do que sua idade real. Identificou-se um desvio considerável entre a idade motora e a idade cronológica, resultando em uma categorização do desenvolvimento motor frequentemente abaixo da média.
Hedgecock et al. (2018)Análise retrospectiva e transversalDescrever o grau de atrasos no desenvolvimento motor grosseiro em crianças pequenas com TEA e as associações desses atrasos com problemas de comportamento diurno e qualidade de vida (QoL).Dados do banco de dados Autism Speaks Autism Treatment Network. Instrumentos: Vineland Adaptive Behavior Scales (VABS-GM), Child Behavior Checklist (CBCL) e Pediatric Quality of Life Inventory (PedsQL).O estudo encontrou um atraso motor grosseiro mensurável, com pontuação média do VABS-GM de 12.12 (SD=2.2), representando desempenho igual ou inferior ao 16º percentil. A gravidade dos atrasos motores aumentou com a idade e modificou significativamente a associação entre problemas de comportamento e qualidade de vida.

A análise dos 7 estudos selecionados revelou uma grande variação no número de participantes, totalizando 2.565 crianças avaliadas. O maior deles, realizado por Hedgecock et al. (2018), incluiu 2.091 participantes, contrastando com pesquisas menores, como a de

Ferreiro-Pérez et al. (2024), com 27 crianças, e a de ODEH et al. (2022), com 24. O estudo de Nordin et al. (2021) envolveu 178 participantes, e o trabalho de Delehanty e Wetherby (2021) avaliou 211 crianças. Por fim, Teixeira et al. (2019) trabalham com 20 participantes, enquanto a pesquisa de Dhondt et al. (2022) não especificou o número exato de crianças envolvidas.

As faixas etárias também foram bastante diversas, abrangendo desde a primeira infância até o início da adolescência. Com base nas pesquisas que forneceram uma média ou faixa etária específica, a idade média dos participantes foi calculada em aproximadamente 5,9 anos.

Os estudos analisados consistentemente demonstram que o desenvolvimento motor em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta déficits significativos. Observa-se que o desenvolvimento de habilidades motoras amplas, como sentar e andar, frequentemente ocorre em um período posterior ao esperado. Além disso, esse atraso motor tende a se agravar com o tempo, podendo estar associado a complicações comportamentais e à qualidade de vida. Tais crianças geralmente apresentam maior dificuldade em atividades que requerem coordenação motora, força, velocidade e agilidade.

No que tange ao equilíbrio, foi evidenciada uma dificuldade na manutenção da postura, especialmente na ausência de suporte visual. Essas crianças demonstram maior dependência de outras sensações corporais para alcançar a estabilidade (Hedgecock et al., 2018).

Apesar de os estudos não terem tido como foco principal o papel da fisioterapia, um deles mencionou a baixa adesão de crianças com TEA a essas sessões.

4 DISCUSSÃO

Em uma análise dos sete estudos incluídos na revisão, verificou-se a presença de déficits no desenvolvimento motor e na comunicação em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O desenvolvimento de habilidades motoras amplas, como sentar e andar, ocorreu de forma mais tardia do que o esperado. Nordin et al. (2021) e Teixeira et al. (2019) indicaram que a idade motora geral das crianças com TEA foi inferior à idade cronológica.

Teixeira et al. (2019) classificaram o nível de desenvolvimento motor como inferior e muito inferior. Nordin et al. (2021) confirmaram atrasos significativos, atingindo 6,7% nas habilidades grossas e 38,5% nas finas. Hedgecock et al. (2018) mensuraram um atraso motor grosseiro, cuja pontuação média representou um desempenho no ou abaixo do 16° percentil.

As dificuldades estenderam-se às habilidades motoras mais complexas. Odeh et al. (2022) identificaram diferenças significativas em habilidades motoras complexas e de equilíbrio, observando déficits que exigiam força, velocidade, agilidade, coordenação e equilíbrio estático e dinâmico.

Uma descoberta relevante foi a progressão do atraso motor, constatada por Nordin et al. (2021) e Hedgecock et al. (2018), que verificaram que o atraso se tornou mais evidente ou aumentou em gravidade com o avanço da idade.

Nordin et al. (2021) também relataram que, no grupo TEA, todas as crianças com atrasos motores grossos e finos apresentavam atraso cognitivo concomitante.

No que diz respeito ao equilíbrio, Ferreiro-Pérez et al. (2024) demonstraram que as crianças com TEA apresentaram desafios em manter o controle postural (CP) em diferentes condições sensoriais.

Essa dificuldade foi associada a uma maior dependência de informações somatossensoriais, especialmente na ausência ou com a variabilidade de estímulos visuais. Conforme sugerido por Ferreiro-Pérez et al. (2024), isso indica que a manutenção da postura está intrinsecamente ligada ao processamento sensorial atípico.

Na área da comunicação, a análise de Delehanty e Wetherby (2021) revelou que crianças com TEA utilizaram, em média, oito gestos únicos (em comparação com 12 no grupo de Desenvolvimento Típico).

Delehanty e Wetherby (2021) constataram que essas crianças empregaram gestos deíticos (como apontar) e atos para regulação de comportamento em taxas significativamente menores. O inventário reduzido de gestos funcionou como um importante indicador precoce de TEA.

De forma similar, Dhondt et al. (2022) observaram que o foco da comunicação era primariamente para recusar e obter.

Do ponto de vista funcional, a disfunção motora identificada possui consequências diretas para a participação e Qualidade de Vida (QoL). O estudo transversal de Hedgecock et al. (2018) indicou que a gravidade dos atrasos motores grossos modificou significativamente a associação entre problemas de comportamento diurno e a QoL.

A justificativa para essa correlação reside no fato de que os déficits em coordenação, equilíbrio, força e agilidade, conforme observado por Odeh et al. (2022), limitam a capacidade da criança em realizar atividades funcionais diárias.

Essa limitação, juntamente com os desafios de controle postural identificados por Ferreiro-Pérez et al. (2024), aumenta a frustração e a incidência de comportamentos desadaptativos, impactando negativamente a QoL.

Em conjunto, os resultados apresentaram um quadro claro da disfunção motora generalizada e progressiva no TEA. Enquanto Nordin et al. (2021) e Teixeira et al. (2019) estabeleceram a magnitude dos atrasos, Ferreiro-Pérez et al. (2024) ofereceram a justificativa fisiológica.

A ligação entre a dificuldade de equilíbrio e o processamento sensorial atípico foi demonstrada por Ferreiro-Pérez et al. (2024). De forma similar, Delehanty e Wetherby (2021) e Dhondt et al. (2022) convergiram na ideia de que a comunicação precoce era reduzida ou atípica em sua função.

A principal conclusão desta revisão foi a urgência de intervenção precoce, visto que Nordin et al. (2021) e Hedgecock et al. (2018) indicam que o atraso motor se agrava com o tempo, e Hedgecock et al. (2018) associaram isso a resultados desfavoráveis no comportamento e na qualidade de vida.

Essa constatação, aliada aos déficits motores identificados, sublinha a urgência de intervenções precoces. O diagnóstico e o início da terapia em idades mais jovens são fundamentais para maximizar os resultados e garantir um impacto positivo no desenvolvimento motor dessas crianças a longo prazo.

A atuação da fisioterapia, com foco nesses déficits, é justificada pela necessidade de aprimorar o controle postural, conforme indicado por Ferreiro-Pérez et al. (2024).

Odeh et al. (2022) indicam que é fundamental desenvolver a força muscular e a coordenação para a execução de tarefas funcionais complexas e, consequentemente, reduzir o impacto do atraso motor na participação social e na Qualidade de Vida.

Embora a baixa adesão de crianças com TEA às sessões de fisioterapia constitua um desafio conhecido, a totalidade dos déficits motores identificados por Nordin et al. (2021), Teixeira et al. (2019) e Odeh et al. (2022) reforça a importância de iniciar a terapia em idades mais jovens para otimizar os resultados a longo prazo.

A principal limitação identificada nesta revisão foi a carência de estudos focados no papel específico da fisioterapia, o que sugere uma área para futuras investigações. Isso é especialmente importante no desenvolvimento de ensaios clínicos sobre a eficácia de diferentes abordagens de intervenção. 

Para a prática clínica, os achados apontam para a necessidade de avaliação e intervenção precoce. A atenção prioritária deve ser dada aos principais déficits motores encontrados: equilíbrio, conforme demonstrado por Ferreiro-Pérez et al. (2024) e Odeh et al. (2022); coordenação motora, segundo Nordin et al. (2021) e Teixeira et al. (2019); e componentes como força, velocidade e agilidade, observados por Odeh et al. (2022). O monitoramento contínuo desses domínios é essencial, dado que o atraso motor se agrava com o avanço da idade, conforme apontado por Nordin et al. (2021) e Hedgecock et al. (2018).

5 CONCLUSÃO

Os resultados desta revisão de literatura confirmam atrasos significativos no desenvolvimento neuropsicomotor de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), cumprindo o objetivo principal de identificação. As habilidades com maior comprometimento são os domínios motor (grosso e fino) e a comunicação, sendo a coordenação, o equilíbrio postural e a força muscular as áreas mais afetadas.

Em relação ao modo como esses déficits prejudicam a autonomia e a qualidade de vida, a análise demonstrou que a disfunção motora é progressiva, limitando a capacidade funcional em atividades diárias. Isso, por sua vez, eleva a frustração e impacta negativamente o comportamento e a qualidade de vida. Portanto, a urgência de intervenção precoce é evidenciada, sendo a atuação fisioterapêutica crucial para atenuar o agravamento dos atrasos, especialmente no aprimoramento do controle postural e da coordenação, visando um melhor prognóstico funcional e maior independência a longo prazo.

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¹Discente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE.
²Doutorado em Reabilitação e Desempenho Funcional, Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas Itacoatiara. Endereço: Av. Joaquim Nabuco, 1365, Centro | Manaus | AM | CEP: 69020-030 | (92) 3212-5000.