REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510261246
Ana Laura Santos Padilha1; Pedro Henrique Vicente Parreira1; Antônio Florentino de Lima Júnior2; Italo Moreira da Silva Cardoso2; Lucas Roberto de Carvalho2; Luiz Fernando Ribeiro Junior2; Shelly Mendes dos Anjos2; Tálita Vicente Parreira2
RESUMO: A cultura da soja se destaca mundialmente, mas enfrenta sérios desafios fitossanitários que comprometem sua produtividade, como as doenças foliares de final de ciclo (DFC) e a mancha-alvo. O objetivo deste trabalho foi avaliar a eficiência de diferentes programas de aplicação de fungicidas no controle dessas doenças e seu impacto na produtividade da cultivar Neo 750. O experimento foi conduzido em São João da Paraúna (GO), na safra 2024/2025, em delineamento em blocos casualizados, com seis tratamentos e quatro repetições. Avaliaram-se severidade de DFC e mancha-alvo, índice de desfolha e produtividade. A análise de variância (ANOVA) indicou diferenças altamente significativas para severidade de DFC (F = 58,85; p < 0,001), mancha-alvo (F = 90,08; p < 0,001) e desfolha (F = 9,20; p < 0,001), mas não para a produtividade (F = 1,77; p = 0,171). Pelo teste de Tukey, os tratamentos com aplicações mais frequentes (T2, T3, T4 e T6) apresentaram severidade significativamente menor que a testemunha, refletindo também em menor desfolha. O tratamento T2 (aplicações contínuas) destacou-se com a melhor combinação de baixa severidade (9,69% DFC; 14,69% mancha-alvo), menor desfolha (56,25%) e alta produtividade (85,98 sc ha⁻¹). O tratamento T5, embora com severidade relativamente alta (17,50%), apresentou a maior produtividade (90,69 sc ha⁻¹), sem diferença estatística em relação aos demais. Conclui-se que o posicionamento estratégico das aplicações influencia mais a sanidade foliar do que ganhos imediatos de produtividade, confirmando que programas robustos, com cobertura dos estádios críticos e integração de multissítios, são essenciais para preservar o potencial produtivo da soja. Reforça-se a necessidade de ensaios multissafras e multilocais para consolidar recomendações regionais.
Palavras-chave: Controle químico. Severidade foliar. Rendimento da soja. Programas de aplicação. Manejo fitossanitário.
ABSTRACT: Soybean is a globally prominent crop but faces serious phytosanitary challenges that compromise its productivity, such as late-season foliar diseases (LLD) and target spot. This study aimed to evaluate the efficiency of different fungicide application programs in controlling these diseases and their impact on the yield of the Neo 750 cultivar. The experiment was conducted in São João da Paraúna (GO), during the 2024/2025 growing season, in a randomized block design with six treatments and four replications. Evaluations included severity of LLD and target spot, defoliation index, and grain yield. Analysis of variance (ANOVA) indicated highly significant differences for LLD severity (F = 58.85; p < 0.001), target spot severity (F = 90.08; p < 0.001), and defoliation (F = 9.20; p < 0.001), but not for yield (F = 1.77; p = 0.171). According to Tukey’s test, treatments with more frequent applications (T2, T3, T4, and T6) showed significantly lower severity compared to the control, also reflecting in reduced defoliation. Treatment T2 (continuous applications) stood out with the best combination of low severity (9.69% LLD; 14.69% target spot), low defoliation (56.25%), and high yield (85.98 bags ha⁻¹). Treatment T5, although presenting relatively higher LLD severity (17.50%), achieved the highest yield (90.69 bags ha⁻¹), without statistical difference from the other treatments. It is concluded that the strategic positioning of fungicide applications has a greater influence on foliar health than on immediate yield gains, confirming that robust programs, with coverage of critical stages and the integration of multisite fungicides, are essential to preserve the productive potential of soybean. Furthermore, the need for multi-season and multi-location trials is reinforced in order to consolidate regional recommendations.
Keywords: Chemical control. Foliar severity. Soybean yield. Application programs. Disease management.
1. INTRODUÇÃO
A soja ocupa posição de destaque no cenário mundial como uma das principais culturas agrícolas, sendo amplamente utilizada na alimentação humana e animal, além de servir como matéria-prima para a produção de biocombustíveis. Sua relevância deve ser um papel estratégico que influencie no agronegócio moderno (Basso; Bonaldo; Ruffato, 2015). Nesse contexto, o Brasil se consolida como um dos principais líderes mundiais do setor: “o Brasil figura, já há bastante tempo, no ranking mundial dos maiores nomes do agronegócio” (Agro Bayer, 2025).
Apesar de seu elevado potencial produtivo, a cultura da soja enfrenta sérios desafios fitossanitários que comprometem sua produtividade. Entre os principais fatores limitantes, destacam-se as doenças foliares, especialmente o complexo de doenças de final de ciclo (DFC) e outras manchas, que podem causar perdas significativas de rendimento e ameaçar a sustentabilidade da produção.
Patógenos como Septoria glycines, Cercospora kikuchii e Peronospora manshurica são responsáveis por antecipar o ciclo da cultura em até 25 dias e reduzir a produtividade em mais de 30% (Finoto et al., 2011). Ainda, a ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi) se destaca como uma das doenças mais graves, com perdas que podem variar de 10% a 90%, dependendo das condições ambientais e da região (Godoy et al., 2023). Essas perdas resultam em impactos econômicos diretos, afetando a rentabilidade do produtor e a competitividade da cadeia produtiva da soja.
Diante desse cenário, o uso de fungicidas tornou-se uma ferramenta essencial no manejo dessas doenças, principalmente em cultivares de alto potencial produtivo, como a Neo 750, que requer estratégias específicas de manejo para exercer plenamente sua capacidade produtiva.
Assim, a escolha correta dos produtos, seu posicionamento no calendário de aplicações e a definição das janelas ideais de uso são aspectos fundamentais para garantir a eficácia no controle fitossanitário, preservando o potencial da cultura e otimizando os recursos usados, como a mão de obra.
A justificativa para o uso de fungicidas é baseada na necessidade de garantir altos níveis de produção e qualidade da colheita, com previsibilidade econômica de retorno sobre o investimento em controle químico (Ribeiro; Erasmo; Rocha, 2016). Trata-se de uma das práticas mais adotadas no manejo da soja, considerando o amplo espectro de fungos com potencial fitopatogênico presente nas lavouras (Agro Bayer, 2025).
Nesse sentido, o presente trabalho teve como objetivo avaliar o impacto do intervalo entre aplicações de fungicidas no controle e na severidade de doenças foliares, bem como sobre a produtividade da cultivar de soja Neo 750. Todos os tratamentos seguiram o mesmo padrão técnico de manejo, variando-se apenas o número de aplicações realizadas ao longo do ciclo da cultura, por meio da retirada de algumas delas. Buscou-se, assim, avaliar a severidade da DFC e de outras manchas foliares, quantificar os efeitos dos tratamentos sobre a desfolha das plantas, classificar o impacto dos diferentes programas de aplicação na produtividade e analisar a transparência entre a severidade das doenças e a produtividade. Considerando que o controle fitossanitário representa um dos principais desafios da cultura da soja, a adoção de estratégias eficazes de manejo é essencial para garantir altos níveis de produtividade e sustentabilidade da lavoura.
O experimento foi conduzido em campo, utilizando diferentes esquemas de aplicação de fungicidas, com foco no manejo dos DFCs e na avaliação dos efeitos sobre a produção. A pesquisa visa gerar dados que contribuam para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes sustentáveis e seguras no controle de doenças da soja, promovendo, assim, maior produtividade e rentabilidade aos produtores.
2. DOENÇAS FOLIARES DA SOJA: agentes, ciclo e danos
As doenças foliares representam um dos principais entraves ao pleno desenvolvimento da cultura da soja, comprometendo não apenas a fisiologia das plantas, mas também a sua capacidade de conversão fotossintética, enchimento de grãos e, consequentemente, a produtividade final. Dentre as principais enfermidades, destaca-se a mancha-alvo, causada por Corynespora cassiicola, que tem se tornado cada vez mais relevante, especialmente nas regiões do Cerrado brasileiro. Essa doença é caracterizada por lesões concêntricas bem definidas nas folhas, com severidade progressiva e potencial degenerativo que pode causar intensa desfolha e perda de área foliar fotossintética, comprometendo a formação e o preenchimento de vagens (Ribeiro; Erasmo; Rocha, 2016).
Paralelamente, a ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, permanece como a principal ameaça fitossanitária à cultura da soja no Brasil e em diversos países produtores. Essa doença é altamente prejudicial, provocando desfolha precoce, redução do ciclo da cultura e prejuízo direto à formação da massa de grãos, podendo ocasionar perdas que variam de moderadas a severas, dependendo das condições ambientais e da estratégia de manejo adotada (Godoy et al., 2023).
A dinâmica dessas doenças está diretamente relacionada ao ciclo de vida dos patógenos, que envolvem fases de infecção, latência, esporulação e disseminação, frequentemente favorecidas por temperaturas amenas, alta umidade relativa e precipitações regulares. A compreensão desses ciclos é fundamental para a adoção de medidas preventivas e o uso eficaz de fungicidas.
2.1 ESTRATÉGIAS DE MANEJO: fungicidas, cultivares e vazio sanitário
O agronegócio brasileiro, líder em grande parte pela produção de soja, requer uma abordagem integrada para o manejo fitossanitário, especialmente diante da complexidade e da variabilidade das doenças foliares. Entre as ferramentas disponíveis, o uso de fungicidas desponta como prática consolidada e necessária, dada sua eficiência na contenção da severidade das doenças e na preservação da produtividade do trabalho.
Pelegrini, Lajús e Cericato (2018) destacam que o intervalo entre as aplicações é um fator determinante para o sucesso do controle, sendo que intervalos mais curtos, como 14 dias, tendem a maximizar a eficácia dos fungicidas e garantir incrementos significativos de produtividade, independentemente da genética da cultivar utilizada. Essa assertiva reforça a necessidade de monitoramento criterioso das condições ambientais e da evolução das doenças ao longo do ciclo da cultura.
Conforme ressaltado por Godoy et al. (2023), o controle químico deve ser parte de um pacote mais amplo de boas práticas agrícolas, que inclui a aplicação do vazio sanitário, a utilização de cultivares com resistência parcial ou moderada, e, principalmente, a rotação de ingredientes ativos com diferentes modos de ação. A inclusão de fungicidas multissítios, como o mancozebe, tem sido mostrada essencial para ampliar o espectro de controle e retardar a seleção de isolados resistentes, tornando o manejo mais sustentável a longo prazo.
No caso da ferrugem-asiática, o manejo integrado exige ações coordenadas, como a adaptação do vazio sanitário, que visa eliminar plantas voluntárias hospedeiras no período de entressafra, semear dentro da janela recomendada, uso de fungicidas preventivos ou no início da manifestação dos sintomas, e a limitação do uso contínuo de carboxamidas (ISDH), devido ao alto risco de seleção de resistência (Godoy et al., 2023).
Para o manejo da mancha-alvo (C. cassiicola), conforme Ribeiro; Erasmo e Rocha (2016), a recomendação é a associação de fungicidas sítio-específicos com multissítios, o que contribui para o controle mais eficiente e duradouro da doença. Essa abordagem reduz o risco de resistência, amplia o espectro de ação e potencializa os ganhos produtivos.
2.2 EVIDÊNCIAS DE DESEMPENHO DOS PROGRAMAS
A eficácia dos programas de manejo com fungicidas tem sido amplamente documentada por diversos estudos de campo, que evidenciam ganhos substanciais em produtividade e redução da severidade das doenças quando as aplicações são bem-posicionadas ao longo do ciclo fenológico da soja.
Segundo Finoto et al. (2011), aplicações de benomyl no estádio reprodutivo R5 promovem reduções significativas na severidade da DFC, com incremento médio de produtividade de 22,9% em comparação à testemunha. Esse ganho foi ainda mais expressivo quando as aplicações ocorreram entre os estádios R5 e R5.5, ressaltando a importância do momento correto de intervenção.
Sem controle da antracnose (Colletotrichum truncatum), os autores Pesqueira; Bacchi e Gavassoni (2016) observaram que o uso de carbendazim, tanto isolado quanto em combinação com fungicidas das classes triazol e estrobilurina, resultou em redução significativa da desfolha precoce, além de proporcionar aumentos consistentes na produtividade.
Para a mancha-alvo, os resultados também são promissores. A associação entre fungicidas multissítios, como mancozebe, e moléculas com ação específica, aplicadas de forma estratégica, proporcionou controle parcial a compressão da doença, com redução da severidade foliar e da taxa de desfolha. Esse manejo refletiu diretamente nos componentes do rendimento, como o aumento da massa de mil grãos e da produtividade total da mão de obra (Ribeiro; Erasmo; Rocha, 2016).
Essas evidências reforçam a importância de programas de aplicação bem estruturados, considerando não apenas o produto em si, mas também o seu posicionamento, intervalo, rotação de ingredientes ativos e integração com outras práticas agronômicas. Desta forma, é possível alcançar um manejo mais eficiente, sustentável e alinhado com as exigências da produção moderna de soja.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
O experimento foi conduzido na Estação Experimental da OTIMIZA Pesquisa Agrícola, situada na zona rural do município de São João da Paraúna, Goiás, nas coordenadas 16º45’13″S e 50º20’56″W, a 611 m de altitude, durante a safra 2024/2025. A região inserida no bioma Cerrado possui solo de textura argilosa (Tabela 1) e clima tropical (Aw-segundo Köppen-Geiger), com verões chuvosos e invernos secos. A distribuição pluviométrica (mm) e térmica (°C) registrada mês a mês desde outubro de 2024 até março de 2025, estão apresentadas na Figura 2.
O local apresenta, como dito, condições edafoclimáticas favoráveis à ocorrência de DFC, em função da temperatura média elevada e da umidade relativa do ar, o que torna os ensaios nesta localidade altamente representativos para o contexto produtivo regional.
A semeadura foi realizada em 03 novembro de 2024, em solo previamente corrigido e adubado segundo recomendações técnicas. A colheita ocorreu de 6 a 15 de março de 2025, garantindo o ciclo completo da cultura sob condições resultantes de manejo.
Figura 1 – Plantio realizado em 03/11/2024, utilizando semeadora Neo 750, garantindo uniformidade de emergência.

Tabela 1 – Análise de solo inicial da área experimental. São João da Paraúna/GO, safra 2024/2025.

O delineamento experimental adotado foi em blocos casualizados (DBC), composto por seis tratamentos e quatro repetições, totalizando 24 unidades experimentais, com parcelas de 4 m x 6 m (24 m²). Cada parcela foi composta por fileiras de soja de comprimento uniforme, sendo conduzidas com práticas de manejo cultural padronizadas (adubação de base, controle de plantas específico e insetos).
Utilizou-se a cultivar de soja Neo 750, recomendada para a região. Os tratamentos consistiram em diferentes programas de aplicação de fungicidas ao longo do ciclo da soja, variando o número de aplicações (2 a 4) e os ingredientes ativos utilizados (Tabela 2), com foco na avaliação da eficiência de controle de DFC e mancha-alvo.
Figura 2 – Dados Pluviométricos de Precipitação acumulada, em São João da Paraúna/GO, safra 2024/2025.

Figura 3 – Esquema dos tratamentos T1 a T6 com diferentes programas de aplicação de fungicidas ao longo do ciclo fenológico da soja (Neo 750), incluindo estádios vegetativos, pré-fechamento e reprodutivo.

As aplicações foram realizadas com pulverizador costal pressurizado por CO2, com pontas XR110.015, pressão de 35 lb/pol², volume de calda de 150 L/ha, em condições climáticas ideais. A literatura indica que, para o controle de doenças de final de ciclo, são associações comuns entre fungicidas sítio-específicos (triazóis, estrobilurinas e carboxamidas) e multissítios protetores como o mancozebe, reconhecido como essencial para ampliar o espectro de controle e reduzir a pressão de seleção de resistência (Ribeiro; Erasmo; Rocha, 2016; GODOY et al., 2023).
Tabela 2 – Tratamentos, produtos e doses propostos para as avaliações de São João da Paraúna/GO, safra 2024/2025.

As avaliações foram: Severidade de doenças foliares (%): obtida por meio de escala diagramática, estimando a proporção de tecido foliar lesionado; Desfolha (%): quantificação da perda foliar em relação à área total da planta; Produtividade (kg ha⁻¹): determinada pela colheita e pesagem da área útil de cada parcela; Peso de mil grãos (PMG): avaliado após colheita e beneficiamento, como indicador de qualidade e enchimento de grãos.
Tabela 3 – Avaliações de São João da Paraúna/GO, safra 2024/2025.

Figura 4 – Vista dos blocos em delineamento casualizado, São João da Paraúna – GO.

Os dados foram submetidos à análise de variância (ANOVA) para avaliar o efeito dos tratamentos. As médias foram comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade (p<0,05). Também foi realizada análise de demonstração de Pearson entre severidade, desfolha e produtividade, de modo a verificar a relação entre intensidade de doenças e desempenho produtivo, conforme metodologias empregadas em ensaios similares e PMG avaliado após colheita e beneficiamento, como indicador de qualidade e enchimento de grãos.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise de variância (ANOVA) indicou efeito significativo dos tratamentos para severidade de doenças foliares e desfolha, mas não para a produtividade de grãos. Houve diferença altamente significativa para severidade de DFC (F = 58,85; p < 0,001), severidade de mancha-alvo (F = 90,08; p < 0,001) e índice de desfolha (F = 9,20; p < 0,001). Por outro lado, para a produtividade não houve diferença estatística (F = 1,77; p = 0,171), embora tenha sido observada tendência de ganhos nos programas mais robustos de aplicação.
Quadro 1 – Médias por tratamento no controle de doenças e produtividade da soja (Safra 24/25, São João da Paraúna – GO):

Pelo teste de médias de Tukey a 5% (Tabelas 4 a 7), verificou-se que os tratamentos com aplicações mais frequentes (T2, T3, T4 e T6) apresentaram severidades de DFC e mancha-alvo significativamente menores em relação à testemunha (T1), refletindo também em menores índices de desfolha. O tratamento T2 (aplicações contínuas ao longo do ciclo) destacou-se com as menores médias de severidade (9,69% DFC; 14,69% mancha-alvo) e baixa desfolha (56,25%).
Tabela 4 – Severidade de doenças foliares de final de ciclo (DFC) (%) em função dos tratamentos de aplicação de fungicidas.

Tabela 5 – Severidade de mancha-alvo (%) em função dos tratamentos de aplicação de fungicidas.

Tabela 6 – Índice de desfolha (%) em função dos tratamentos de aplicação de fungicidas.

Tabela 7 – Produtividade (sc ha⁻¹) em função dos tratamentos de aplicação de fungicidas.

É importante destacar que os grupos apresentados nas Tabelas 4 a 7 resultam do teste de comparação de médias de Tukey (5%), o que explica eventuais diferenças em relação ao Quadro 1. Enquanto o Quadro 1 apresenta apenas as médias observadas, as tabelas de Tukey indicam quais tratamentos diferem estatisticamente entre si, utilizando letras para formar os agrupamentos. Dessa forma, tratamentos com valores próximos podem estar no mesmo grupo quando não há diferença significativa, como ocorreu com T2, T3 e T6 para severidade de DFC, enquanto T1 se destacou negativamente em todas as variáveis. Essa abordagem confere maior robustez à análise, confirmando que o posicionamento estratégico das aplicações reduziu significativamente a severidade de doenças e a desfolha, embora não tenha resultado em diferenças estatísticas de produtividade.
O tratamento T3, que não recebeu aplicação no estádio vegetativo, apresentou severidades ligeiramente superiores às de T2 (DFC 10,63% e mancha-alvo 15,94%), além de desfolha de 58,75%. Apesar disso, manteve produtividade semelhante (86,74 sc ha⁻¹), indicando que a ausência da primeira aplicação não comprometeu de forma significativa os resultados naquele ano agrícola, possivelmente devido à pressão moderada de inóculo. O T4, por sua vez, sem aplicação no pré-fechamento, mostrou valores intermediários de severidade (DFC 13,75% e mancha-alvo 17,50%), desfolha de 63,75% e produtividade de 85,78 sc ha⁻¹, resultados próximos a T2 e T3. Isso sugere que a retirada de uma aplicação pode ser compensada pelas demais, mas com perda parcial de eficiência no controle.
O tratamento T5, que concentrou aplicações em fases mais tardias, foi o que apresentou a maior produtividade (90,69 sc ha⁻¹), superando inclusive T2. No entanto, exibiu severidade de DFC (17,50%) mais elevada do que os tratamentos T2, T3 e T4, além de 68,75% de desfolha. Esses resultados evidenciam que a simples ampliação do número de aplicações ou o foco em momentos mais avançados do ciclo não garante controle efetivo das doenças, embora em condições específicas possa favorecer o rendimento. A literatura destaca que esse tipo de resposta pode ocorrer em anos com menor pressão de inóculo inicial, quando aplicações concentradas em fases reprodutivas conseguem preservar a área foliar ativa durante o enchimento de grãos (Ribeiro; Erasmo e Rocha, 2016; Pesqueira; Bacchi e Gavassoni, 2016).
Figura 5 – Avaliação de estado no início do ciclo, mostrando uniformidade do desenvolvimento.

O tratamento T6, sem aplicação no último estádio (+30 dias), apresentou severidade de DFC de 11,56% e mancha-alvo de 17,50%, valores intermediários, além de ter registrado a menor desfolha (55%). Contudo, sua produtividade (88,29 sc ha⁻¹) não se destacou em relação aos demais tratamentos, mostrando que o simples fato de reduzir a desfolha não necessariamente se traduz em ganhos adicionais de rendimento. Esse comportamento reforça que o posicionamento das aplicações ao longo do ciclo é tão importante quanto o número total de pulverizações.
Em contrapartida, o tratamento T1 (testemunha) apresentou os piores índices em todas as variáveis: severidade de DFC (35,31%) e de mancha-alvo (40,63%), desfolha (88,75%) e a menor produtividade (83,41 sc ha⁻¹). Essa diferença expressiva em relação aos demais tratamentos evidencia o papel determinante do manejo químico no controle das principais doenças foliares da soja.
A análise do percentual de controle reforça os resultados observados. O tratamento T2 apresentou 80% de controle de DFC e 72% de mancha-alvo, sendo o mais eficiente. Os demais tratamentos com esquemas parciais, como T3, T4 e T6, mostraram reduções intermediárias no controle (entre 63 e 78% para DFC e 55 a 71% para mancha-alvo), enquanto a testemunha permaneceu com os maiores níveis de severidade. Esse padrão confirma que programas completos, que incluem todas as fases críticas, tendem a oferecer maior estabilidade no manejo.
Figura 6 – Aplicação de fungicidas nos diferentes blocos experimentais.

A correlação entre severidade e produtividade foi negativa (r = –0,385; p = 0,063), evidenciando que o aumento da incidência de doenças resultou em tendência de queda no rendimento. Embora não tenha sido estatisticamente significativa, a relação é consistente com estudos de Finoto et al. (2011), que relataram perdas de até 22,9% associadas ao DFC em áreas sem controle químico. A relação entre desfolha e produtividade também mostrou tendência negativa (r = –0,223; p = 0,295), ainda que sem significância estatística, reforçando que a manutenção da área foliar é essencial para sustentar a fotossíntese durante o enchimento de grãos (Pesqueira; Bacchi e Gavassoni, 2016).
Figura 7 – Relação entre severidade (%) e produtividade (kg ha⁻¹).

No entanto, a produtividade não apresentou diferença estatística entre os tratamentos. O tratamento T5, mesmo apresentando severidade de DFC relativamente alta (17,50%), obteve a maior média de produtividade (90,69 sc ha⁻¹), agrupando-se estatisticamente com os demais tratamentos. Esse resultado indica que, embora o manejo intensivo de fungicidas proporcione maior controle de doenças, o impacto direto sobre a produtividade pode variar em função de condições ambientais e da resposta fisiológica da planta.
Figura 8 – Produtividade por tratamento.

Ainda, a literatura destaca que o PMG é altamente influenciado pela sanidade foliar, especialmente durante os estádios reprodutivos da soja. Pesqueira, Bacchi e Gavassoni (2016) e Finoto et al. (2011) ressaltam que a preservação da área fotossintética ativa até o final do ciclo é determinante para o enchimento de grãos, impactando diretamente o PMG. Dessa forma, os tratamentos com menor severidade e desfolha, como T2 e T6, possivelmente teriam maior potencial de manter valores superiores de PMG, refletindo em ganhos de qualidade e rendimento. Estudos futuros devem contemplar essa variável como indicador complementar da eficiência dos programas fungicidas, permitindo análises mais detalhadas sobre a relação entre controle de doenças e produtividade.
Figura 9 – Relação entre desfolha (%) e produtividade (kg ha⁻¹).

Assim, os resultados deste experimento reforçam a importância do uso de fungicidas em programas estratégicos, com destaque para a inclusão de multissítios e a rotação de mecanismos de ação para retardar a resistência, conforme recomendação de Godoy et al. (2023). A redução da severidade e desfolha nos melhores tratamentos confirma a eficácia da estratégia relatada por Ribeiro; Erasmo e Rocha (2016).
Contudo, a ausência de efeito significativo na produtividade em São João da Paraúna difere parcialmente de estudos em outras regiões (Finoto et al., 2011; Pesqueira; Bacchi; Gavassoni, 2016), possivelmente devido à pressão de inóculo moderada, número limitado de repetições (n = 4) e condições climáticas locais. Esse contraste reforça a necessidade de ensaios multissafras e multilocais para consolidar recomendações regionais.
Figura 10 – Colheita mecanizada das parcelas em 12/03/2025, com avaliação do rendimento de grãos.

Figura 11 – Determinação do PMG como indicador da qualidade do enchimento.

Figura 12 – Registros fotográficos durante pesquisa.

Em síntese, o experimento confirma que a redução da severidade e da desfolha é o principal mecanismo pelo qual fungicidas sustentam a produtividade da soja. Embora a produtividade não tenha apresentado diferenças estatísticas, a tendência de ganhos consistentes em tratamentos como T2, T3 e T5 evidencia a importância do posicionamento adequado das aplicações. Ressalta-se, portanto, a necessidade de ensaios multissafras e multilocais, capazes de contemplar diferentes pressões de inóculo e condições edafoclimáticas, a fim de consolidar recomendações mais robustas e sustentáveis para o manejo de doenças foliares na soja.
5. CONCLUSÃO
Os resultados demonstraram que a frequência e o posicionamento estratégico das aplicações de fungicidas exercem forte influência no controle das principais doenças foliares da soja. A ANOVA indicou diferenças altamente significativas para severidade de DFC, mancha-alvo e índice de desfolha, confirmadas pelo teste de Tukey, que mostrou superioridade dos programas mais robustos de aplicação em relação à testemunha.
O tratamento com aplicações contínuas (T2) destacou-se pelo melhor equilíbrio entre sanidade foliar e produtividade, enquanto o T5, mesmo apresentando maior severidade de DFC, obteve a maior média de rendimento. Esses resultados reforçam que o número de aplicações, por si só, não garante maior eficiência, sendo o posicionamento ao longo do ciclo um fator decisivo para preservar a área fotossintética ativa.
Apesar de a produtividade não ter apresentado diferenças estatísticas entre os tratamentos, observou-se tendência consistente de ganhos em programas mais completos, sobretudo em comparação à testemunha. Isso confirma que a manutenção da sanidade foliar é o principal mecanismo de sustentação do rendimento.
Conclui-se, portanto, que programas de aplicação bem estruturados, com cobertura dos estádios críticos e integração de fungicidas multissítios, são essenciais para preservar o potencial produtivo da soja. Ressalta-se ainda a necessidade de ensaios multissafras e multilocais, que permitam consolidar recomendações regionais mais robustas e sustentáveis para o manejo de doenças foliares.
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1Autores, discentes do 10° período do curso de Engenharia Agronômica do Centro Universitário UNIBRAS Montes Belos, São Luís de Montes Belos, Goiás. E-mails: analaurapadilha2003@gmail.com; ph5220604@gmail.com
2Colaboradores.
