EFFECTS OF CHRONODISRUPTION ON GLYCEMIC METABOLISM IN NIGHT SHIFT WORKERS: A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch102025102600703
Renata Conti Narimatsu1
Bianca Desiree Souza Sabbag2
Mariana Lopes Benites3
RESUMO
INTRODUÇÃO: O aumento do trabalho noturno no Brasil tem sido acompanhado por impactos adversos na saúde metabólica, atribuídos à desregulação do ritmo circadiano e à supressão da melatonina — hormônio essencial para a homeostase energética e a regulação da secreção de insulina. Este estudo teve como objetivo analisar os efeitos da cronodisrupção — representada pela inversão do ciclo claro-escuro — sobre a resistência à insulina e o desenvolvimento do diabetes mellitus tipo 2 (DM2) em trabalhadores noturnos. METODOLOGIA: Realizou-se uma revisão integrativa da literatura científica nacional e internacional, com busca nas bases PubMed, Medline e LILACS. Dos 334 artigos inicialmente triados, dez estudos originais publicados entre 2019 e 2024 foram incluídos, abordando cronodisrupção, metabolismo glicêmico e o papel da melatonina. RESULTADOS: A literatura evidencia que a inversão do ciclo claro-escuro e a consequente supressão da melatonina aumentam a resistência à insulina e a prevalência de DM2 em trabalhadores noturnos. Observou-se, ainda, associação significativa entre o trabalho por turnos e disfunções metabólicas, como obesidade, dislipidemia e hipertensão arterial. Intervenções como suplementação de melatonina e ajustes no padrão alimentar mostraram potencial benefício, embora os resultados sobre a homeostase glicêmica permaneçam inconclusivos. CONCLUSÃO: A exposição crônica ao trabalho noturno constitui um fator de risco relevante para a saúde metabólica, reforçando a necessidade de estratégias preventivas e políticas públicas voltadas à mitigação dos efeitos da cronodisrupção. Estudos futuros devem explorar abordagens terapêuticas e preventivas que visem reduzir as complicações associadas à resistência à insulina e ao DM2 nessa população.
PALAVRAS-CHAVE: Resistência à insulina; Diabetes mellitus tipo 2; Melatonina; Ritmos circadianos; Trabalho em turnos; Glândula pineal.
ABSTRACT
INTRODUCTION: The increase in night shift work in Brazil has been accompanied by adverse effects on metabolic health, attributed to circadian rhythm disruption and melatonin suppression — a hormone essential for energy homeostasis and insulin secretion regulation. This study aimed to analyze the effects of chronodisruption — represented by the inversion of the light–dark cycle — on insulin resistance and the development of type 2 diabetes mellitus (T2DM) in night shift workers. METHODS: An integrative review of national and international scientific literature was conducted through searches in the PubMed, Medline, and LILACS databases. Of the 334 articles initially screened, ten original studies published between 2019 and 2024 were included, addressing chronodisruption, glycemic metabolism, and the role of melatonin. RESULTS: The literature indicates that inversion of the light– dark cycle and consequent melatonin suppression increase insulin resistance and the prevalence of T2DM among night shift workers. A significant association was also observed between shift work and metabolic dysfunctions, such as obesity, dyslipidemia, and arterial hypertension. Interventions such as melatonin supplementation and dietary pattern adjustments demonstrated potential benefits; however, their effects on glycemic homeostasis remain inconclusive. CONCLUSION: Chronic exposure to night shift work constitutes a relevant risk factor for metabolic health, reinforcing the need for preventive strategies and public policies aimed at mitigating the effects of chronodisruption. Future studies should explore therapeutic and preventive approaches to reduce complications related to insulin resistance and T2DM in this population.
KEYWORDS: Insulin resistance; Type 2 diabetes mellitus; Melatonin; Circadian rhythms; Shift work; Pineal gland.
1. INTRODUÇÃO:
Nos últimos anos, a procura por trabalhos noturnos no Brasil aumentou significativamente. De 2012 a 2019, esse aumento foi de 30% (IBGE, 2017) e, atualmente, os trabalhadores noturnos representam, aproximadamente, 20% da força operacional ativa do país (FUNDACENTRO, 2022).
Esses trabalhadores, geralmente, apresentam hábitos de vida menos saudáveis em comparação aos trabalhadores diurnos, como má alimentação, sedentarismo e tabagismo. Tais hábitos estão associados à inversão do ciclo claro escuro, causada pela exposição à iluminação artificial em período noturno, o que promove importantes alterações no ritmo circadiano, como a supressão na produção de melatonina (N-acetil-5-metoxitriptamina) pela glândula pineal (ULHÔA et al., 2015).
A melatonina é um hormônio sintetizado e secretado pela pineal em período noturno e em ambiente escuro, sendo sua supressão iniciada pela captação da presença de luz por fotorreceptores presentes na retina (ALÓE; AZEVEDO; HASAN, 2005; SERAPHIM et al., 2000). A informação da luminosidade é direcionada para o núcleo supraquiasmático (NSQ) no hipotálamo anterior e, posteriormente, à glândula pineal, onde a síntese de melatonina é inibida (TAN et al., 2003). A supressão recorrente da produção de melatonina pela pineal é potencialmente prejudicial à saúde, considerando que esse hormônio apresenta ações imunomodulatórias, anti inflamatórias, antitumorais, antioxidantes e cronobiológicas (SOUSA NETO; CASTRO, 2008; ULHÔA et al., 2015).
Uma das funções mais relevantes da melatonina é a regulação da síntese e secreção de outros hormônios, como a insulina (SOUSA NETO; CASTRO, 2008; ULHÔA et al., 2015). Em resposta ao aumento de glicose circulante, a insulina é sintetizada e secretada pelas células beta pancreáticas, devendo ligar-se aos seus receptores específicos de membrana, presentes, principalmente, em células hepáticas e musculoesqueléticas. A ligação da insulina com seus receptores, os quais apresentam atividade quinase e são constituídos por duas subunidades α e duas subunidades β, promove uma cascata de fosforilação que resulta na translocação do transportador de glicose tipo 4 (GLUT 4) do citoplasma para a membrana celular, e consequente captação da glicose da corrente sanguínea para o interior das células (CARVALHEIRA et al., 2003; HARDMAN; LIMBIRD, 2018).
O controle glicêmico promovido pela insulina reduz a gliconeogênese, glicogenólise, lipólise e degradação proteica, e aumenta a lipogênese e a síntese proteica (ULHÔA et al., 2015). Por outro lado, prejuízos na produção ou ação insulínica podem comprometer a captação de glicose, resultando em hiperglicemia, resistência à insulina e diabetes mellitus (DM).
A DM tipo 2 (DM2) é classificada como uma doença crônica não transmissível (DCNT), considerada um distúrbio metabólico por defeito na secreção ou ação da insulina. Ela é caracterizada por hiperglicemia persistente e sintomas como polifagia, polidipsia e poliúria, podendo evoluir com complicações como retinopatia, doença renal e neuropatia (PARANÁ, 2018).
Diversos estudos apontam a inversão do ciclo claro-escuro como importante fator ambiental no aumento do risco de desenvolvimento de DM2. Gale et al. (2011), demonstraram tal relação de causa e efeito em modelos animais submetidos às alterações no ritmo circadiano. Ulhôa et al. (2015), relataram que a supressão da melatonina causada pela inversão do ciclo claro-escuro afeta o metabolismo energético de trabalhadores noturnos, acarretando prejuízos à saúde. Ika et al. (2013), observaram aumento expressivo na incidência de DM2 em trabalhadores noturnos em comparação aos diurnos (GALE et al., 2011; IKA et al., 2013; ULHÔA et al., 2015).
Além de aumentar do risco de desenvolvimento de DM2, o trabalho noturno está associado a distúrbios metabólicos, obesidade, resistência à insulina (RI), dislipidemia e doenças cardiovasculares (BUXTON et al., 2012; ESQUIROL et al., 2009; ULHÔA et al., 2015; YOUNG et al., 2013), resultando em maior morbidade e aposentadoria precoce entre esses trabalhadores (FISCHER, 2004).
Diante do exposto, o objetivo do presente estudo foi reunir material científico confiável e atualizado sobre os efeitos da inversão do ciclo claro-escuro na manutenção da glicemia e na prevalência de RI e DM2 em trabalhadores noturnos, comparados a trabalhadores diurnos. Espera-se que este estudo contribua para a detecção precoce de RI e DM2 em trabalhadores noturnos, para a redução das complicações associadas e para o aprimoramento de estratégias de manejo clínico e de políticas de saúde pública.
2. METODOLOGIA:
Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura científica nacional e internacional, com foco na relação entre a inversão do ciclo claro escuro e a prevalência de resistência à insulina e diabetes mellitus tipo 2 (DM2) em trabalhadores noturnos, em comparação aos trabalhadores diurnos.
A busca bibliográfica foi conduzida entre julho e setembro de 2024, nas bases PubMed (Public Medicine), Medline (National Library of Medicine) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde). Foram utilizados os seguintes descritores, conforme os vocabulários controlados DeCS/MeSH: Resistência à insulina; Diabetes mellitus tipo 2; Melatonina; Ritmos circadianos; Trabalho em turnos, Glândula pineal.
Para inclusão, foram considerados estudos originais que apresentassem ao menos três dos descritores estabelecidos, publicados entre 2019 e 2024, redigidos em português, espanhol ou inglês, e disponíveis na íntegra. Foram excluídos artigos de revisão (integrativas ou sistemáticas), estudos experimentais em modelos animais, e trabalhos com Qualis inferior a B3 ou nível de confiabilidade estatística inferior a 95%.
Inicialmente, 334 artigos foram identificados nas bases de dados. Após a aplicação de todos os critérios de inclusão e exclusão, 10 estudos preencheram os requisitos e foram selecionados para análise. A seleção dos artigos foi conduzida conforme demonstrado no fluxograma da Figura 1, elaborado de acordo com o protocolo PRISMA (TRICCO et al., 2021).
Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos estudos segundo o protocolo PRISMA

Fonte: Elaborado pelas autoras (2024), adaptado de TRICCO et al. (2021).
3. RESULTADOS:
3.1. TRABALHO NOTURNO E SAÚDE METABÓLICA:
Os estudos incluídos na revisão demonstraram associação consistente entre o trabalho noturno e alterações metabólicas relevantes, conforme resumido na Tabela 1.
Tabela 1 – Estudos que correlacionam trabalho noturno e saúde metabólica
| AUTOR E ANO | METODOLOGIA | PARÂMETROS ANALISADOS | RESULTADOS E CONCLUSÕES |
| CHENG et al., 2021 | Estudo de coorte que investigou o risco de síndrome metabólica em 5.775 trabalhadores hospitalares saudáveis entre 2010 e 2018 (média de 2,9 anos de acompanhamento). | Avaliaram-se fatores demográficos, número de turnos, tempo de trabalho e parâmetros metabólicos (triglicerídeos, HDL, glicemia de jejum, circunferência abdominal e pressão arterial). | Constatou-se que o trabalho noturno aumenta o risco de hipertensão e ganho de circunferência abdominal, embora a incidência de síndrome metabólica não tenha diferido significativamente entre grupos diurnos e noturnos. |
| RIZZA et al., 2021 | Estudo transversal caso controle (2012 – 2015), com objetivo de identificar defeitos glicometabólicos em trabalhadores noturnos com distúrbios circadianos. | Foram analisados IMC, glicemia e insulina de jejum, HbA1c, HOMA-IR, HOMA-β, perfil lipídico e parâmetros inflamatórios (PCR e contagem de leucócitos), índice de qualidade do sono (PSQI) e expressão dos fatores circadianos Rev Erbα/BMAL1. | Concluiu-se que trabalhadores noturnos apresentaram níveis mais elevados de HbA1c, pressão arterial diastólica e razão Rev-Erbα/BMAL1, indicando expressão circadiana alterada e má qualidade do sono. |
| CARPIO ARIAS et al., 2021 | Estudo transversal com 300 profissionais de saúde (150 noturnos e 150 diurnos) avaliou a associação entre cronodisrupção (CD), qualidade do sono e síndrome metabólica (SM). | Mediram-se IMC, gordura corporal, ingestão calórica, glicemia de jejum, perfil lipídico e o índice de qualidade do sono (PSQI). | Concluiu-se que a CD aumentou a prevalência de SM e gordura visceral, sem mediação da qualidade do sono nos efeitos da CD. |
| LEDDA et al., 2019 | Estudo transversal, entre maio e novembro de 2018, com 272 profissionais de saúde (137 noturnos e 135 diurnos), com objetivo de avaliar a resistência à insulina. | Foram analisados glicemia e insulina de jejum e calculado o índice HOMA IR, considerando fatores como idade, sexo, IMC, e uso de álcool e tabaco. | Concluiu-se que o grupo de trabalhadores noturnos apresentou valores significativamente maiores, sugerindo maior resistência à insulina e risco para síndrome metabólica. |
| AHN et al., 2022 | Análise transversal de dados do KNHANES (2008–2011) avaliou a associação entre trabalho em turnos e obesidade com peso normal (NWO) em adultos coreanos. | Dados sociodemográficos, antropométricos (IMC, gordura corporal, circunferência da cintura) e bioquímicos (glicemia, insulina, perfil lipídico, 25- hidroxivitamina D e HOMA IR). | Concluiu-se que o trabalho noturno aumentou em 47% a probabilidade de NWO, estando associado a maiores riscos metabólicos, com risco mais elevado entre trabalhadores exclusivamente noturnos. |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2024).
3.2. INTERVENÇÕES E MELATONINA:
A literatura também identificou estudos clínicos que exploraram a suplementação de melatonina ou outras intervenções fisiológicas, conforme apresentado na Tabela 2.
Tabela 2 – Estudos que correlacionam a melatonina como intervenção
| AUTOR E ANO | METODOLOGIA | PARÂMETROS ANALISADOS | RESULTADOS E CONCLUSÕES |
| HANNEMANN et al., 2024 | Ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, avaliou o efeito da suplementação de 2 mg de melatonina sobre a resistência à insulina em 24 trabalhadores (12 noturnos e 12 controles). | Glicemia e insulina de jejum, HbA1c, resistência à insulina (HOMA-IR e QUICKI), qualidade do sono (PSQI), perfis circadianos de melatonina e cortisol, e pressão arterial. | Concluiu-se que a suplementação melhorou significativamente a qualidade do sono, mas não influenciou na resistência à insulina, pressão arterial ou tolerância à glicose. |
| QIAN et al., 2022 | Estudo cruzado e randomizado examinou a secreção de melatonina diurna durante turnos simulados, em um ambiente controlado, a fim de investigar a relação da melatonina com o sono e o metabolismo da glicose. | Foram analisados a melatonina diurna e noturna, bem como a glicose e a insulina de 24 horas. | Os resultados demonstraram elevação diurna de melatonina, com picos antifásicos de melatonina diurna em 80% dos participantes, associados a níveis aumentados de glicose e insulina, sugerindo desregulação circadiana metabólica. |
| HANNEMANN et al., 2020 | Estudo randomizado controlado avaliou a prática de exercício físico antes de turnos noturnos em 24 trabalhadores saudáveis, a fim de avaliar se a prática poderia melhorar a tolerância à glicose, regular a pressão arterial e sincronizar ritmos circadianos de melatonina e cortisol. | Foram avaliados perfis de pressão arterial 24 horas, espiroergometria, níveis séricos de glicose, HbA1c, TOTG, insulina, lactato, ritmos de melatonina e cortisol, entre outros. | Os resultados indicaram que o exercício programado não alterou significativamente os ritmos circadianos, perfis pressóricos ou tolerância à glicose. |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2024).
3.3. OUTRAS INTERAÇÕES COM O RITMO CIRCADIANO:
Foram incluídos estudos que investigaram mecanismos genéticos, comportamentais e nutricionais associados à cronodisrupção, conforme a Tabela 3.
Tabela 3 – Estudos que analisaram outras interações com o ritmo circadiano
| AUTOR E ANO | METODOLOGIA | PARÂMETROS ANALISADOS | RESULTADOS E CONCLUSÕES |
| LI et al., 2023 | Estudo caso-controle que investigou a associação entre turnos rotativos, polimorfismos genéticos (genes CLOCK, MTNR1A, MTNR1B) e diabetes tipo 2 em 702 trabalhadores siderúrgicos na China. | Entrevistas, exames bioquímicos (glicemia e insulina de jejum) e genotipagem de SNPs específicos. | Os resultados mostraram que a exposição prolongada ao trabalho noturno e a presença de variantes genéticas específicas aumentaram o risco de DM2, reforçando a interação gene-ambiente na cronodisrupção. |
| AKBAR; SHI, 2024 | Estudo transversal com 10.486 adultos (NHANES 2005–2016) investigou a relação entre horários das refeições, omissão alimentar, trabalho em turnos e síndrome circadiana (SCI). | As covariáveis incluíram fatores demográficos (idade, sexo, etnia e status socioeconômico) e de estilo de vida (atividade física, tabagismo e consumo de álcool). O Índice de Alimentação Saudável 2015 (HEI-2015) também foi empregado para avaliar a qualidade da dieta. | Refeições em horários desfavoráveis, omissão de refeições e trabalho por turnos foram associadas a um maior risco de SCI. Conclui-se que sincronização alimentar com o ciclo circadiano pode reduzir riscos metabólicos. |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2024).
4. DISCUSSÃO:
4.1. TRABALHO NOTURNO E SAÚDE METABÓLICA:
Os estudos revisados indicam que trabalhadores noturnos apresentam risco significativamente aumentado de anormalidades glicêmicas e resistência à insulina. Rizza et al. (2021) e Ledda et al. (2019) demonstraram níveis mais elevados de hemoglobina glicada (HbA1c) e resistência à insulina entre trabalhadores noturnos, refletindo predisposição a distúrbios metabólicos. De forma semelhante, Cheng et al. (2021) relataram maior risco de hipertensão e aumento da circunferência abdominal nessa população.
Carpio Arias et al. (2021) e Ahn et al. (2022) reforçam esses achados, associando o trabalho noturno ao aumento da prevalência de síndrome metabólica e maior percentual de gordura corporal. Na mesma direção, a revisão sistemática de Silviani e Fikawati (2024) identificou uma associação significativa entre o trabalho em
turnos e risco elevado de síndrome metabólica em cerca de 90% dos estudos analisados.
Complementarmente, a revisão de literatura de Burooj et al. (2024) evidencia que o trabalho por turnos impacta negativamente diversos sistemas fisiológicos (cardiovascular, metabólico, endócrino, imunológico, reprodutivo e neuropsicológico), aumentando o risco para diabetes, hipertensão, eventos cardiovasculares adversos e disritmias circadianas.
Esses achados reforçam o papel da cronodisrupção como determinante multifatorial da saúde metabólica, sugerindo que o desalinhamento entre o relógio biológico e os ritmos ambientais constitui um importante fator de risco para resistência à insulina e distúrbios metabólicos em trabalhadores noturnos.
4.2. INTERVENÇÕES E MELATONINA:
Os estudos de Hannemann et al. (2024) e Qian et al. (2022) avaliaram a melatonina como intervenção potencial para mitigar os efeitos da adversos da cronodisrupção gerada pelo trabalho noturno na homeostase glicêmica, enquanto Hannemann et al. (2020) investigaram o papel da atividade física cronometrada nesse mesmo sentido. Embora a melatonina tenha melhorado a qualidade do sono, não foram observadas alterações significativas na resistência à insulina ou no controle glicêmico. Resultados semelhantes foram encontrados para o exercício físico, que não modificou de modo expressivo os ritmos circadianos ou parâmetros pressóricos.
Em contrapartida, a elevação diurna de melatonina observada por Qian et al. (2022) foi associada ao aumento dos níveis de glicose e insulina, indicando que a secreção antifásica do hormônio pode comprometer a regulação metabólica.
De forma oposta, as revisões de Benetti et al. (2024) e Marchi e Marchi (2024) apontam que a melatonina exerce um papel benéfico sobre parâmetros metabólicos em pacientes diabéticos, reduzindo a glicemia e a resistência à insulina. Marchi e Marchi (2024) sugerem que a melatonina tem potencial promissor como terapia adjuvante para o diabetes mellitus tipo 2 (DM2), embora sejam necessárias pesquisas adicionais para determinar doses, vias de administração e cronofarmacologia ideais.
Martorina e Tavares (2023), por sua vez, identificaram, em seu ensaio clínico, aumento da variabilidade glicêmica em pacientes diabéticos após suplementação noturna de melatonina, com elevação particularmente da glicemia pré e pós-prandial do café da manhã e a glicemia pós-jantar em comparação com os níveis de jejum, o que ressalta a necessidade de cautela na aplicação clínica.
De modo geral, as evidências disponíveis apontam que, embora a melatonina apresente potencial terapêutico, a cronoterapia e a individualização de horários e doses ainda constituem desafios fundamentais para seu uso clínico em distúrbios metabólicos associados ao trabalho noturno.
4.3. OUTRAS INTERAÇÕES COM O RITMO CIRCADIANO:
A influência de fatores genéticos e comportamentais sobre a cronodisrupção também foi evidenciada. Li et al. (2023) e Rizza et al. (2020) demonstraram que polimorfismos em genes como MTNR1B e CLOCK aumentam a susceptibilidade ao DM2 em trabalhadores noturnos. A coorte de Vejrazkova et al. (2022) revelou que o alelo G do polimorfismo rs10830963 no gene MTNR1B associa-se à disfunção das células β e a maiores níveis de glicose pós-TOTG, mesmo em indivíduos saudáveis, de modo que portadores do alelo G podem ter maior risco de desenvolver intolerância à glicose. A pesquisa de Singh et al. (2025) corroborou com esses achados, relacionando variantes do receptor de melatonina a um risco aumentado de desenvolver DM2.
Esses resultados reforçam a hipótese de que a interação gene-ambiente, especialmente entre variantes dos receptores de melatonina associados a exposição crônica à luz noturna, exercem um papel determinante na vulnerabilidade metabólica.
Do ponto de vista comportamental, Akbar et al. (2024) demonstraram que a sincronização alimentar com o ciclo circadiano é um fator relevante para a manutenção da homeostase metabólica. Horários irregulares e omissão de refeições, particularmente o café da manhã, foram associados a maior risco de síndrome circadiana e disfunções glicêmicas.
Em consonância com as evidências apresentadas, Li e Sun (2022) concluíram em sua revisão que a irregularidade dos horários das refeições compromete o ritmo metabólico, por comprometerem o relógio circadiano central que regula as respostas
induzidas pela refeição. Somada a isso, a revisão de Lekhwani e Das Vaswani (2024) destacaram que estratégias como alimentação com restrição de tempo (time-restricted feeding, TRF) e jejum intermitente (intermittent fasting, IF) promovem melhora da sensibilidade à insulina, redução do estresse oxidativo e aumento da flexibilidade metabólica.
Isso sugere que a sincronização das refeições com os ritmos circadianos poderia ser uma estratégia eficaz para melhorar a saúde metabólica em trabalhadores noturnos, além disso, compreender os mecanismos neuroendócrinos da regulação metabólica mediada pelo relógio biológico pode fornecer informações sobre intervenções dietéticas para distúrbios metabólicos.
Por fim, a qualidade do sono foi consistentemente identificada como determinante fisiológico central. Carpio Arias et al. (2021), Rizza et al. (2021) e Hannemann et al. (2024) enfatizaram que a cronodisrupção, exacerbada por turnos noturnos, reduz a qualidade do sono e intensifica o risco metabólico. Hannemann et al. (2024) observou melhora significativa da qualidade do sono após suplementação com melatonina, enquanto Carpio Arias et al. (2021) demonstrou que a má qualidade do sono se associa ao aumento da gordura visceral e da prevalência de síndrome metabólica. Contudo, o estudo não identificou evidências de que o sono atue como mediador dos efeitos negativos da cronodisrupção, sugerindo que intervenções isoladas para melhorar a qualidade do sono podem ser insuficientes para mitigar os impactos metabólicos causados pelo desalinhamento circadiano em profissionais de saúde.
5. CONCLUSÃO:
Com base na literatura revisada, conclui-se que a inversão do ciclo claro escuro, característica do trabalho noturno, está fortemente associada ao aumento do risco de disfunções metabólicas, especialmente à resistência à insulina e à maior prevalência de diabetes mellitus tipo 2 (DM2). A cronodisrupção e a má qualidade do sono foram identificadas como fatores críticos que agravam tais distúrbios, comprometendo a homeostase glicêmica e a regulação hormonal.
Além disso, os estudos analisados evidenciam que o trabalho noturno se correlaciona com outras alterações metabólicas relevantes, como obesidade, dislipidemia e hipertensão arterial, compondo um quadro de risco ampliado para síndrome metabólica.
As interações entre fatores genéticos e o ritmo circadiano mostraram-se complexas, indicando a necessidade de investigações adicionais para o desenvolvimento de estratégias preventivas e terapêuticas eficazes. Intervenções como a suplementação de melatonina e a sincronização alimentar demonstraram potencial benefício, mas seus efeitos sobre o metabolismo glicêmico permanecem inconclusivos, exigindo estudos clínicos de maior robustez metodológica.
Diante disso, destaca-se a importância de que políticas públicas de saúde ocupacional considerem os impactos da cronodisrupção, promovendo condições laborais que favoreçam o alinhamento circadiano, horários de refeição regulares e medidas de promoção da qualidade do sono. Pesquisas futuras devem aprofundar abordagens cronoterapêuticas, integrando aspectos genéticos, hormonais e comportamentais, com o objetivo de reduzir a incidência e as complicações associadas à resistência à insulina e ao DM2 em trabalhadores noturnos.
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1Acadêmica de medicina da Unicesumar – Maringá – recnarimatsu@gmail.com
2Acadêmica de medicina da Unicesumar – Maringá – biancadss2019@gmail.com
3Orientadora – Doutora em ciências fisiológicas e docente da Unicesumar – Maringá – mariana_benites@hotmail.com
