EFEITOS DA CRONODISRUPÇÃO SOBRE O METABOLISMO  GLICÊMICO EM TRABALHADORES NOTURNOS: UMA REVISÃO  BIBLIOGRÁFICA 

EFFECTS OF CHRONODISRUPTION ON GLYCEMIC METABOLISM  IN NIGHT SHIFT WORKERS: A LITERATURE REVIEW 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch102025102600703


Renata Conti Narimatsu1
Bianca Desiree Souza Sabbag2
Mariana Lopes Benites3


RESUMO

INTRODUÇÃO: O aumento do trabalho noturno no Brasil tem sido  acompanhado por impactos adversos na saúde metabólica, atribuídos à desregulação  do ritmo circadiano e à supressão da melatonina — hormônio essencial para a  homeostase energética e a regulação da secreção de insulina. Este estudo teve como  objetivo analisar os efeitos da cronodisrupção — representada pela inversão do ciclo  claro-escuro — sobre a resistência à insulina e o desenvolvimento do diabetes mellitus  tipo 2 (DM2) em trabalhadores noturnos. METODOLOGIA: Realizou-se uma revisão  integrativa da literatura científica nacional e internacional, com busca nas bases  PubMed, Medline e LILACS. Dos 334 artigos inicialmente triados, dez estudos  originais publicados entre 2019 e 2024 foram incluídos, abordando cronodisrupção,  metabolismo glicêmico e o papel da melatonina. RESULTADOS: A literatura evidencia  que a inversão do ciclo claro-escuro e a consequente supressão da melatonina  aumentam a resistência à insulina e a prevalência de DM2 em trabalhadores noturnos.  Observou-se, ainda, associação significativa entre o trabalho por turnos e disfunções  metabólicas, como obesidade, dislipidemia e hipertensão arterial. Intervenções como  suplementação de melatonina e ajustes no padrão alimentar mostraram potencial  benefício, embora os resultados sobre a homeostase glicêmica permaneçam  inconclusivos. CONCLUSÃO: A exposição crônica ao trabalho noturno constitui um  fator de risco relevante para a saúde metabólica, reforçando a necessidade de  estratégias preventivas e políticas públicas voltadas à mitigação dos efeitos da  cronodisrupção. Estudos futuros devem explorar abordagens terapêuticas e  preventivas que visem reduzir as complicações associadas à resistência à insulina e  ao DM2 nessa população.

PALAVRAS-CHAVE: Resistência à insulina; Diabetes mellitus tipo 2; Melatonina;  Ritmos circadianos; Trabalho em turnos; Glândula pineal. 

ABSTRACT

INTRODUCTION: The increase in night shift work in Brazil has been  accompanied by adverse effects on metabolic health, attributed to circadian rhythm  disruption and melatonin suppression — a hormone essential for energy homeostasis  and insulin secretion regulation. This study aimed to analyze the effects of  chronodisruption — represented by the inversion of the light–dark cycle — on insulin  resistance and the development of type 2 diabetes mellitus (T2DM) in night shift  workers. METHODS: An integrative review of national and international scientific  literature was conducted through searches in the PubMed, Medline, and LILACS  databases. Of the 334 articles initially screened, ten original studies published between  2019 and 2024 were included, addressing chronodisruption, glycemic metabolism, and  the role of melatonin. RESULTS: The literature indicates that inversion of the light– dark cycle and consequent melatonin suppression increase insulin resistance and the  prevalence of T2DM among night shift workers. A significant association was also  observed between shift work and metabolic dysfunctions, such as obesity,  dyslipidemia, and arterial hypertension. Interventions such as melatonin  supplementation and dietary pattern adjustments demonstrated potential benefits;  however, their effects on glycemic homeostasis remain inconclusive. CONCLUSION:  Chronic exposure to night shift work constitutes a relevant risk factor for metabolic  health, reinforcing the need for preventive strategies and public policies aimed at  mitigating the effects of chronodisruption. Future studies should explore therapeutic  and preventive approaches to reduce complications related to insulin resistance and  T2DM in this population. 

KEYWORDS: Insulin resistance; Type 2 diabetes mellitus; Melatonin; Circadian  rhythms; Shift work; Pineal gland. 

1. INTRODUÇÃO: 

Nos últimos anos, a procura por trabalhos noturnos no Brasil aumentou  significativamente. De 2012 a 2019, esse aumento foi de 30% (IBGE, 2017) e,  atualmente, os trabalhadores noturnos representam, aproximadamente, 20% da força  operacional ativa do país (FUNDACENTRO, 2022).  

Esses trabalhadores, geralmente, apresentam hábitos de vida menos  saudáveis em comparação aos trabalhadores diurnos, como má alimentação,  sedentarismo e tabagismo. Tais hábitos estão associados à inversão do ciclo claro escuro, causada pela exposição à iluminação artificial em período noturno, o que  promove importantes alterações no ritmo circadiano, como a supressão na produção  de melatonina (N-acetil-5-metoxitriptamina) pela glândula pineal (ULHÔA et al., 2015).

A melatonina é um hormônio sintetizado e secretado pela pineal em período  noturno e em ambiente escuro, sendo sua supressão iniciada pela captação da  presença de luz por fotorreceptores presentes na retina (ALÓE; AZEVEDO; HASAN,  2005; SERAPHIM et al., 2000). A informação da luminosidade é direcionada para o  núcleo supraquiasmático (NSQ) no hipotálamo anterior e, posteriormente, à glândula  pineal, onde a síntese de melatonina é inibida (TAN et al., 2003). A supressão  recorrente da produção de melatonina pela pineal é potencialmente prejudicial à  saúde, considerando que esse hormônio apresenta ações imunomodulatórias, anti inflamatórias, antitumorais, antioxidantes e cronobiológicas (SOUSA NETO;  CASTRO, 2008; ULHÔA et al., 2015). 

Uma das funções mais relevantes da melatonina é a regulação da síntese e  secreção de outros hormônios, como a insulina (SOUSA NETO; CASTRO, 2008;  ULHÔA et al., 2015). Em resposta ao aumento de glicose circulante, a insulina é  sintetizada e secretada pelas células beta pancreáticas, devendo ligar-se aos seus  receptores específicos de membrana, presentes, principalmente, em células  hepáticas e musculoesqueléticas. A ligação da insulina com seus receptores, os quais  apresentam atividade quinase e são constituídos por duas subunidades α e duas  subunidades β, promove uma cascata de fosforilação que resulta na translocação do  transportador de glicose tipo 4 (GLUT 4) do citoplasma para a membrana celular, e  consequente captação da glicose da corrente sanguínea para o interior das células  (CARVALHEIRA et al., 2003; HARDMAN; LIMBIRD, 2018). 

O controle glicêmico promovido pela insulina reduz a gliconeogênese,  glicogenólise, lipólise e degradação proteica, e aumenta a lipogênese e a síntese  proteica (ULHÔA et al., 2015). Por outro lado, prejuízos na produção ou ação  insulínica podem comprometer a captação de glicose, resultando em hiperglicemia,  resistência à insulina e diabetes mellitus (DM). 

A DM tipo 2 (DM2) é classificada como uma doença crônica não transmissível  (DCNT), considerada um distúrbio metabólico por defeito na secreção ou ação da  insulina. Ela é caracterizada por hiperglicemia persistente e sintomas como polifagia,  polidipsia e poliúria, podendo evoluir com complicações como retinopatia, doença  renal e neuropatia (PARANÁ, 2018).

Diversos estudos apontam a inversão do ciclo claro-escuro como importante  fator ambiental no aumento do risco de desenvolvimento de DM2. Gale et al. (2011),  demonstraram tal relação de causa e efeito em modelos animais submetidos às alterações no ritmo circadiano. Ulhôa et al. (2015), relataram que a supressão da  melatonina causada pela inversão do ciclo claro-escuro afeta o metabolismo  energético de trabalhadores noturnos, acarretando prejuízos à saúde. Ika et al. (2013),  observaram aumento expressivo na incidência de DM2 em trabalhadores noturnos em  comparação aos diurnos (GALE et al., 2011; IKA et al., 2013; ULHÔA et al., 2015). 

Além de aumentar do risco de desenvolvimento de DM2, o trabalho noturno está associado a distúrbios metabólicos, obesidade, resistência à insulina (RI),  dislipidemia e doenças cardiovasculares (BUXTON et al., 2012; ESQUIROL et al.,  2009; ULHÔA et al., 2015; YOUNG et al., 2013), resultando em maior morbidade e  aposentadoria precoce entre esses trabalhadores (FISCHER, 2004). 

Diante do exposto, o objetivo do presente estudo foi reunir material científico  confiável e atualizado sobre os efeitos da inversão do ciclo claro-escuro na  manutenção da glicemia e na prevalência de RI e DM2 em trabalhadores noturnos, comparados a trabalhadores diurnos. Espera-se que este estudo contribua para a  detecção precoce de RI e DM2 em trabalhadores noturnos, para a redução das  complicações associadas e para o aprimoramento de estratégias de manejo clínico e  de políticas de saúde pública. 

2. METODOLOGIA: 

Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura  científica nacional e internacional, com foco na relação entre a inversão do ciclo claro escuro e a prevalência de resistência à insulina e diabetes mellitus tipo 2 (DM2) em  trabalhadores noturnos, em comparação aos trabalhadores diurnos.  

A busca bibliográfica foi conduzida entre julho e setembro de 2024, nas bases  PubMed (Public Medicine), Medline (National Library of Medicine) e LILACS (Literatura  Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde). Foram utilizados os seguintes  descritores, conforme os vocabulários controlados DeCS/MeSH: Resistência à insulina; Diabetes mellitus tipo 2; Melatonina; Ritmos circadianos; Trabalho em turnos,  Glândula pineal.  

Para inclusão, foram considerados estudos originais que apresentassem ao  menos três dos descritores estabelecidos, publicados entre 2019 e 2024, redigidos  em português, espanhol ou inglês, e disponíveis na íntegra. Foram excluídos artigos  de revisão (integrativas ou sistemáticas), estudos experimentais em modelos animais,  e trabalhos com Qualis inferior a B3 ou nível de confiabilidade estatística inferior a  95%. 

Inicialmente, 334 artigos foram identificados nas bases de dados. Após a  aplicação de todos os critérios de inclusão e exclusão, 10 estudos preencheram os  requisitos e foram selecionados para análise. A seleção dos artigos foi conduzida  conforme demonstrado no fluxograma da Figura 1, elaborado de acordo com o  protocolo PRISMA (TRICCO et al., 2021).

Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos estudos segundo o  protocolo PRISMA 

Fonte: Elaborado pelas autoras (2024), adaptado de TRICCO et al. (2021). 

3. RESULTADOS: 

3.1. TRABALHO NOTURNO E SAÚDE METABÓLICA:  

Os estudos incluídos na revisão demonstraram associação consistente entre  o trabalho noturno e alterações metabólicas relevantes, conforme resumido na Tabela  1.

Tabela 1 – Estudos que correlacionam trabalho noturno e saúde metabólica 

AUTOR E  ANOMETODOLOGIA PARÂMETROS  ANALISADOSRESULTADOS E  CONCLUSÕES
CHENG et  al., 2021Estudo de coorte que  investigou o risco de  síndrome metabólica em  5.775 trabalhadores 
hospitalares saudáveis  entre 2010 e 2018 (média  de 2,9 anos de  
acompanhamento). 
Avaliaram-se fatores 
demográficos, número de  turnos, tempo de trabalho e  parâmetros metabólicos  (triglicerídeos, HDL,  glicemia de jejum,  circunferência abdominal e  pressão arterial).
Constatou-se que o  trabalho noturno aumenta o  risco de hipertensão e  ganho de circunferência  abdominal, embora a incidência de síndrome  metabólica não tenha  diferido significativamente  entre grupos diurnos e  noturnos.
RIZZA et  al., 2021Estudo transversal caso controle (2012 – 2015),  com objetivo de identificar  defeitos glicometabólicos  em trabalhadores  noturnos com distúrbios  circadianos.Foram analisados IMC,  glicemia e insulina de  jejum, HbA1c, HOMA-IR,  HOMA-β, perfil lipídico e  parâmetros inflamatórios  (PCR e contagem de  leucócitos), índice de  qualidade do sono (PSQI) e  expressão dos fatores  circadianos Rev Erbα/BMAL1. Concluiu-se que  trabalhadores noturnos  apresentaram níveis mais  elevados de HbA1c,  pressão arterial diastólica e  razão Rev-Erbα/BMAL1,  indicando expressão  circadiana alterada e má  qualidade do sono.
CARPIO  ARIAS et  al., 2021Estudo transversal com  300 profissionais de  saúde (150 noturnos e  150 diurnos) avaliou a  associação entre  cronodisrupção (CD),  qualidade do sono e  síndrome metabólica  (SM).Mediram-se IMC, gordura  corporal, ingestão calórica,  glicemia de jejum, perfil  lipídico e o índice de  qualidade do sono (PSQI).Concluiu-se que a CD aumentou a prevalência de  SM e gordura visceral, sem  mediação da qualidade do  sono nos efeitos da CD. 
LEDDA et  al., 2019Estudo transversal, entre  maio e novembro de  2018, com 272  
profissionais de saúde  (137 noturnos e 135  
diurnos), com objetivo de  avaliar a  resistência à insulina.
Foram analisados glicemia  e insulina de jejum e  calculado o índice HOMA IR, considerando fatores  como idade, sexo, IMC, e  uso de álcool e tabaco. Concluiu-se que o grupo de  trabalhadores noturnos  apresentou valores  significativamente maiores,  sugerindo maior resistência  à insulina e risco para  síndrome metabólica. 
AHN et  al., 2022Análise transversal de dados do KNHANES (2008–2011) avaliou a associação entre trabalho em turnos e obesidade com peso normal (NWO) em adultos coreanos.Dados sociodemográficos, antropométricos (IMC, gordura corporal, circunferência da cintura) e  bioquímicos (glicemia, insulina, perfil lipídico, 25- hidroxivitamina D e HOMA IR). Concluiu-se que o trabalho  noturno aumentou em 47%  a probabilidade de NWO, estando associado a maiores riscos metabólicos,  com risco mais elevado  entre trabalhadores exclusivamente noturnos.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2024).

3.2. INTERVENÇÕES E MELATONINA:  

A literatura também identificou estudos clínicos que exploraram a  suplementação de melatonina ou outras intervenções fisiológicas, conforme  apresentado na Tabela 2. 

Tabela 2 – Estudos que correlacionam a melatonina como intervenção 

AUTOR E  ANOMETODOLOGIA PARÂMETROS  ANALISADOSRESULTADOS E  CONCLUSÕES
HANNEMANN et al., 2024Ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por  placebo, avaliou o efeito da  suplementação de 2 mg de  melatonina sobre a resistência  à insulina em 24 trabalhadores (12 noturnos e 12 controles).Glicemia e insulina de  jejum, HbA1c,  resistência à insulina  (HOMA-IR e QUICKI),  qualidade do sono  (PSQI), perfis  circadianos de  melatonina e cortisol,  e pressão arterial.Concluiu-se que a  suplementação  melhorou  significativamente a  qualidade do sono, mas  não influenciou na  resistência à insulina,  pressão arterial ou  tolerância à glicose.
QIAN et al.,  2022Estudo cruzado e  randomizado examinou a  secreção de melatonina diurna  durante turnos simulados, em  um ambiente controlado, a fim  de investigar a relação da  melatonina com o sono e o  metabolismo da glicose.Foram analisados a  melatonina diurna e  noturna, bem como a  glicose e a insulina de  24 horas. Os resultados  demonstraram elevação  diurna de melatonina,  com picos antifásicos  de melatonina diurna  em 80% dos  participantes,  associados a níveis  aumentados de glicose  e insulina, sugerindo  desregulação circadiana  metabólica.
HANNEMANN et al., 2020Estudo randomizado 
controlado avaliou a prática de  exercício físico antes de  turnos noturnos em 24  trabalhadores saudáveis, a fim  de avaliar se a prática poderia  melhorar a tolerância à  glicose, regular a pressão  arterial e sincronizar ritmos  circadianos de melatonina e  cortisol. 
Foram avaliados perfis  de pressão arterial 24  horas,  
espiroergometria,  níveis séricos de  glicose, HbA1c,  TOTG, insulina,  
lactato, ritmos de  
melatonina e cortisol,  entre outros. 
Os resultados indicaram  que o exercício 
programado não  
alterou significativamente os  ritmos circadianos,  perfis pressóricos ou  tolerância à glicose. 

Fonte: Elaborado pelas autoras (2024). 

3.3. OUTRAS INTERAÇÕES COM O RITMO CIRCADIANO: 

Foram incluídos estudos que investigaram mecanismos genéticos,  comportamentais e nutricionais associados à cronodisrupção, conforme a Tabela 3.

Tabela 3 – Estudos que analisaram outras interações com o ritmo circadiano 

AUTOR E  ANOMETODOLOGIA PARÂMETROS  ANALISADOSRESULTADOS E  CONCLUSÕES
LI et al., 2023Estudo caso-controle que  investigou a associação  entre turnos rotativos,  polimorfismos genéticos  (genes CLOCK,  MTNR1A, MTNR1B) e  diabetes tipo 2 em 702  trabalhadores  
siderúrgicos na China. 
Entrevistas, exames  
bioquímicos (glicemia e  insulina de jejum) e  
genotipagem de SNPs  específicos.
Os resultados mostraram  que a exposição prolongada  ao trabalho noturno e a  presença de variantes  genéticas específicas  aumentaram o risco de  DM2, reforçando a interação  gene-ambiente na  cronodisrupção.
AKBAR;  SHI, 2024Estudo transversal com 10.486 adultos (NHANES 2005–2016) investigou a relação entre horários  das refeições, omissão alimentar, trabalho em turnos e síndrome circadiana (SCI).As covariáveis incluíram fatores demográficos 
(idade, sexo, etnia e status socioeconômico) e de 
estilo de vida (atividade física, tabagismo e consumo de álcool). O Índice de Alimentação Saudável 2015 (HEI-2015) também foi empregado para avaliar a qualidade da  dieta. 
Refeições em horários desfavoráveis, omissão de refeições e trabalho por turnos foram associadas a  um maior risco de SCI.  Conclui-se que sincronização alimentar com  o ciclo circadiano pode  reduzir riscos metabólicos.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2024). 

4. DISCUSSÃO: 

4.1. TRABALHO NOTURNO E SAÚDE METABÓLICA: 

Os estudos revisados indicam que trabalhadores noturnos apresentam risco  significativamente aumentado de anormalidades glicêmicas e resistência à insulina.  Rizza et al. (2021) e Ledda et al. (2019) demonstraram níveis mais elevados de  hemoglobina glicada (HbA1c) e resistência à insulina entre trabalhadores noturnos,  refletindo predisposição a distúrbios metabólicos. De forma semelhante, Cheng et al. (2021) relataram maior risco de hipertensão e aumento da circunferência abdominal  nessa população.  

Carpio Arias et al. (2021) e Ahn et al. (2022) reforçam esses achados,  associando o trabalho noturno ao aumento da prevalência de síndrome metabólica e  maior percentual de gordura corporal. Na mesma direção, a revisão sistemática de  Silviani e Fikawati (2024) identificou uma associação significativa entre o trabalho em 

turnos e risco elevado de síndrome metabólica em cerca de 90% dos estudos  analisados. 

Complementarmente, a revisão de literatura de Burooj et al. (2024) evidencia  que o trabalho por turnos impacta negativamente diversos sistemas fisiológicos  (cardiovascular, metabólico, endócrino, imunológico, reprodutivo e neuropsicológico),  aumentando o risco para diabetes, hipertensão, eventos cardiovasculares adversos e  disritmias circadianas. 

Esses achados reforçam o papel da cronodisrupção como determinante  multifatorial da saúde metabólica, sugerindo que o desalinhamento entre o relógio  biológico e os ritmos ambientais constitui um importante fator de risco para resistência  à insulina e distúrbios metabólicos em trabalhadores noturnos. 

4.2. INTERVENÇÕES E MELATONINA:  

Os estudos de Hannemann et al. (2024) e Qian et al. (2022) avaliaram a  melatonina como intervenção potencial para mitigar os efeitos da adversos da  cronodisrupção gerada pelo trabalho noturno na homeostase glicêmica, enquanto  Hannemann et al. (2020) investigaram o papel da atividade física cronometrada nesse  mesmo sentido. Embora a melatonina tenha melhorado a qualidade do sono, não  foram observadas alterações significativas na resistência à insulina ou no controle  glicêmico. Resultados semelhantes foram encontrados para o exercício físico, que não  modificou de modo expressivo os ritmos circadianos ou parâmetros pressóricos. 

Em contrapartida, a elevação diurna de melatonina observada por Qian et al. (2022) foi associada ao aumento dos níveis de glicose e insulina, indicando que a  secreção antifásica do hormônio pode comprometer a regulação metabólica. 

De forma oposta, as revisões de Benetti et al. (2024) e Marchi e Marchi (2024)  apontam que a melatonina exerce um papel benéfico sobre parâmetros metabólicos  em pacientes diabéticos, reduzindo a glicemia e a resistência à insulina. Marchi e Marchi (2024) sugerem que a melatonina tem potencial promissor como terapia  adjuvante para o diabetes mellitus tipo 2 (DM2), embora sejam necessárias pesquisas  adicionais para determinar doses, vias de administração e cronofarmacologia ideais.

Martorina e Tavares (2023), por sua vez, identificaram, em seu ensaio clínico, aumento da variabilidade glicêmica em pacientes diabéticos após suplementação  noturna de melatonina, com elevação particularmente da glicemia pré e pós-prandial  do café da manhã e a glicemia pós-jantar em comparação com os níveis de jejum, o  que ressalta a necessidade de cautela na aplicação clínica. 

De modo geral, as evidências disponíveis apontam que, embora a melatonina  apresente potencial terapêutico, a cronoterapia e a individualização de horários e  doses ainda constituem desafios fundamentais para seu uso clínico em distúrbios  metabólicos associados ao trabalho noturno. 

4.3. OUTRAS INTERAÇÕES COM O RITMO CIRCADIANO:  

A influência de fatores genéticos e comportamentais sobre a cronodisrupção  também foi evidenciada. Li et al. (2023) e Rizza et al. (2020) demonstraram que  polimorfismos em genes como MTNR1B e CLOCK aumentam a susceptibilidade ao  DM2 em trabalhadores noturnos. A coorte de Vejrazkova et al. (2022) revelou que o  alelo G do polimorfismo rs10830963 no gene MTNR1B associa-se à disfunção das  células β e a maiores níveis de glicose pós-TOTG, mesmo em indivíduos saudáveis,  de modo que portadores do alelo G podem ter maior risco de desenvolver intolerância  à glicose. A pesquisa de Singh et al. (2025) corroborou com esses achados, relacionando variantes do receptor de melatonina a um risco aumentado de  desenvolver DM2. 

Esses resultados reforçam a hipótese de que a interação gene-ambiente,  especialmente entre variantes dos receptores de melatonina associados a exposição  crônica à luz noturna, exercem um papel determinante na vulnerabilidade metabólica. 

Do ponto de vista comportamental, Akbar et al. (2024) demonstraram que a  sincronização alimentar com o ciclo circadiano é um fator relevante para a  manutenção da homeostase metabólica. Horários irregulares e omissão de refeições,  particularmente o café da manhã, foram associados a maior risco de síndrome  circadiana e disfunções glicêmicas. 

Em consonância com as evidências apresentadas, Li e Sun (2022) concluíram em sua revisão que a irregularidade dos horários das refeições compromete o ritmo  metabólico, por comprometerem o relógio circadiano central que regula as respostas 

induzidas pela refeição. Somada a isso, a revisão de Lekhwani e Das Vaswani (2024)  destacaram que estratégias como alimentação com restrição de tempo (time-restricted  feeding, TRF) e jejum intermitente (intermittent fasting, IF) promovem melhora da  sensibilidade à insulina, redução do estresse oxidativo e aumento da flexibilidade  metabólica. 

Isso sugere que a sincronização das refeições com os ritmos circadianos  poderia ser uma estratégia eficaz para melhorar a saúde metabólica em trabalhadores  noturnos, além disso, compreender os mecanismos neuroendócrinos da regulação  metabólica mediada pelo relógio biológico pode fornecer informações sobre  intervenções dietéticas para distúrbios metabólicos. 

Por fim, a qualidade do sono foi consistentemente identificada como  determinante fisiológico central. Carpio Arias et al. (2021), Rizza et al. (2021) e  Hannemann et al. (2024) enfatizaram que a cronodisrupção, exacerbada por turnos  noturnos, reduz a qualidade do sono e intensifica o risco metabólico. Hannemann et  al. (2024) observou melhora significativa da qualidade do sono após suplementação  com melatonina, enquanto Carpio Arias et al. (2021) demonstrou que a má qualidade  do sono se associa ao aumento da gordura visceral e da prevalência de síndrome  metabólica. Contudo, o estudo não identificou evidências de que o sono atue como  mediador dos efeitos negativos da cronodisrupção, sugerindo que intervenções  isoladas para melhorar a qualidade do sono podem ser insuficientes para mitigar os  impactos metabólicos causados pelo desalinhamento circadiano em profissionais de  saúde. 

5. CONCLUSÃO: 

Com base na literatura revisada, conclui-se que a inversão do ciclo claro escuro, característica do trabalho noturno, está fortemente associada ao aumento do  risco de disfunções metabólicas, especialmente à resistência à insulina e à maior  prevalência de diabetes mellitus tipo 2 (DM2). A cronodisrupção e a má qualidade do  sono foram identificadas como fatores críticos que agravam tais distúrbios,  comprometendo a homeostase glicêmica e a regulação hormonal.

Além disso, os estudos analisados evidenciam que o trabalho noturno se  correlaciona com outras alterações metabólicas relevantes, como obesidade,  dislipidemia e hipertensão arterial, compondo um quadro de risco ampliado para  síndrome metabólica. 

As interações entre fatores genéticos e o ritmo circadiano mostraram-se  complexas, indicando a necessidade de investigações adicionais para o  desenvolvimento de estratégias preventivas e terapêuticas eficazes. Intervenções  como a suplementação de melatonina e a sincronização alimentar demonstraram  potencial benefício, mas seus efeitos sobre o metabolismo glicêmico permanecem  inconclusivos, exigindo estudos clínicos de maior robustez metodológica. 

Diante disso, destaca-se a importância de que políticas públicas de saúde  ocupacional considerem os impactos da cronodisrupção, promovendo condições  laborais que favoreçam o alinhamento circadiano, horários de refeição regulares e  medidas de promoção da qualidade do sono. Pesquisas futuras devem aprofundar  abordagens cronoterapêuticas, integrando aspectos genéticos, hormonais e  comportamentais, com o objetivo de reduzir a incidência e as complicações  associadas à resistência à insulina e ao DM2 em trabalhadores noturnos. 

REFERÊNCIAS: 

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1Acadêmica de medicina da Unicesumar – Maringá – recnarimatsu@gmail.com
2Acadêmica de medicina da Unicesumar – Maringá – biancadss2019@gmail.com
3Orientadora – Doutora em ciências fisiológicas e docente  da Unicesumar – Maringá – mariana_benites@hotmail.com

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