EDUCAÇÃO, NEOLIBERALISMO E MODOS DE VIDA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510131002


Neura Mora1
Patrícia Fernanda Morés Pastre2


Resumo

O presente artigo desenvolve uma análise de como o neoliberalismo traz impactos profundos, com efeitos diretos nos modos de vida dos indivíduos e da sociedade. O objetivo é descortinar aspectos relacionados ao neoliberalismo enquanto modo de vida e neste sentido, as reflexões aqui tecidas buscam pontuar algumas consequências do neoliberalismo e sua influência nos grupos sociais, principalmente quando se fala em competição e concorrência. Trata-se de um estudo qualitativo e bibliográfico, utilizando o método descritivo e analítico como forma de pesquisa, pautado nas obras: “A nova razão do mundo – ensaio sobre a sociedade neoliberal”, Pierre Dardot e Christian Laval (2016) e “A gramática do tempo – para uma nova cultura política”, de Boaventura de Sousa Santos (2021). O artigo está organizado da seguinte forma: na primeira parte são abordadas as implicações do neoliberalismo e reverberações deste padrão gerencial na vida das pessoas. Na sequência, busca analisar questões referentes à subjetividade dos sujeitos, com ênfase nos valores individuais. Por fim, apresenta as considerações finais, com indicações sobre as formas de materializar alternativas para contribuir com a emancipação humana pautada em relações de solidariedade e cooperação entre as pessoas.

Palavras-chave: Neoliberalismo; Modo de vida; Emancipação dos sujeitos.

Introdução

Os tempos atuais são de grande complexidade e de inúmeras incertezas e desafios sociais, sendo que muitos discursos são incorporados ingenuamente pelos indivíduos, sob influência do neoliberalismo. As mudanças ocasionadas são muitas e, enquanto profissionais da educação, precisamos refletir sobre os impactos e influências nos processos sociais, principalmente nas questões relativas aos modos de vida, onde as relações entre os sujeitos, nessa lógica do capitalismo e da acumulação individual, contribuem para o aumento das desigualdades sociais.

Princípios emancipatórios, tão importantes para a sociedade, acabam sendo sufocados pelo neoliberalismo como forma de poder e pela lógica concorrencial capitalista. Assim, o objetivo destas análises é descortinar aspectos relacionados ao neoliberalismo enquanto modo de vida, visto que está cada vez mais presente a influência do mesmo na formação de indivíduos competitivos e em uma cultura que modela as subjetividades capitalistas, onde se perde o sentido de valores como solidariedade, cultura e dignidade.

O foco da análise da pesquisa está no fato de que, os movimentos do neoliberalismo e da globalização influenciam os sujeitos, dentro de suas subjetividades, e consequentemente, minimizam espaços para discussões com criticidade, e tampouco autonomia.

Formar indivíduos competitivos e individualistas, em uma perspectiva de ideias e ideais capitalistas, em detrimento da apropriação de conhecimentos com a finalidade de elevar os sujeitos à sua condição de liberdade, formando indivíduos plenos e integrais, é um desafio que precisa ser abordado.

Nesta lógica capitalista de mercado, o conhecimento é trabalhado com um viés de manutenção das necessidades da estrutura capitalista, ou seja, formação de indivíduos que buscam conhecimento como trampolim para acesso a bens materiais. Não se concebe o trabalho educativo no sentido de conhecimento como cultura, com princípios de cidadania e bem comum, onde se possa vislumbrar sujeitos que pensam e que lutam por uma sociedade justa e igualitária, pautada no bem comum, de todos e para todos. 

Neste sentido, as reflexões aqui tecidas buscam pontuar algumas consequências do neoliberalismo e sua influência nos grupos sociais, principalmente quando se fala em competição e concorrência. Trata-se de um estudo qualitativo e bibliográfico, utilizando o método descritivo e analítico como forma de pesquisa, pautado nos autores: Dardot e Laval, e Boaventura de Sousa Santos. 

Diante desta lógica capitalista, pergunta-se: quais as implicações do neoliberalismo na formação e nos modos de vida dos indivíduos?

Para buscar subsídios, o artigo contém uma breve introdução ao assunto neoliberalismo e educação; na sequência aborda as implicações do neoliberalismo e suas reverberações para inibir a formação de indivíduos plenos e integrais (integralidade dos sujeitos), focando em quais possibilidades de resistência é possível vislumbrar para superar o neoliberalismo apenas como ideal político e econômico.

Por fim, apresenta as considerações finais, com algumas indicações sobre as formas de materializar alternativas para contribuir com a emancipação humana, pautada em relações de solidariedade entre os sujeitos, com possibilidades de permanecer e atuar nos espaços públicos e coletivos de decisão.

As implicações do neoliberalismo nos modos de vida dos sujeitos

O neoliberalismo provoca transformações políticas e individuais. Para Dardot e Laval (2021, p. 413) “[…] o neoliberalismo como forma de poder estende a lógica capitalista a toda a vida, e, em particular, à subjetividade, ao domínio íntimo, à representação de si”. Assim, comportamentos humanos são criados e modificados ao longo da história social conforme interesses de diferentes grupos e de uma lógica competitiva e individualista.

Nesta lógica concorrencial, coloca-se o indivíduo em situações de grande pressão, onde impera a competição e as relações entre os sujeitos acabam sendo contrárias a cooperação e aos valores coletivos: “[…] o indivíduo deve funcionar como um capitalista de si mesmo, ou seja, deve valorizar-se subjetivamente como se fosse um capital” (DARDOT; LAVAL, 2021, p. 413).

Quando o indivíduo é tratado como capital, perde-se a essência humana. Relações complexas e multifacetadas com viés competitivo inibem a atuação crítica do ser humano. Vem de Foucault o conceito de “empresário de si”, sendo que nesta subjetividade capitalista, trabalha-se no sujeito, objetivos de acúmulo de bens materiais, como reforça Dardot e Laval (2021, p.414): “[…] a acumulação individual indefinida e não mais aquela da conquista de uma personalidade autônoma, de acordo com os valores do humanismo clássico”. 

Ainda, Dardot e Laval (2016, p. 381), complementam:

A figura do ‘cidadão’ investido de uma responsabilidade coletiva desaparece pouco a pouco e dá lugar ao homem empreendedor. Este não é apenas o consumidor soberano da retórica neoliberal, mas o sujeito ao qual a sociedade não deve nada, aquele que ‘tem de se esforçar para conseguir o que quer’ e deve ‘trabalhar mais para ganhar mais’[…]. A referência da ação pública não é mais o sujeito de direitos, mas um ator autoempreendedor que faz os mais variados contratos privados com outros atores autoempreendedores. 

Assim, há uma busca incessante para conseguir sempre mais. Este modo de vida pautado no neoliberalismo perpassa pelo dinheiro e pela mercadoria, modificando a forma de viver dos sujeitos, sendo que tudo isso reforça as desigualdades sociais, dificultando o acesso ao emprego, saúde e educação. Ademais, perpetuam as lógicas sociais de exclusão que fabricam, de acordo com os autores, um número crescente de “subcidadãos” e “não cidadãos”.

Outro aspecto importante a ser ressaltado, é o que Dardot e Laval (2016, p. 383) destacam como a ideia de que a democracia se identifica com a soberania do povo, onde:

[…] o valor supremo, portanto, é a liberdade individual, compreendida como a faculdade dada aos indivíduos de criar para si mesmos um domínio protegido (a ‘propriedade’), e não a liberdade política, como participação direta dos homens na escolha de seus dirigentes. O essencial aqui é que a redução da democracia a um modo técnico de designação dos governantes permite que ela não seja mais vista como um regime político distinto dos outros e, nesse sentido, já abre caminhos para a relativização de diferenciação comumente admitidos na classificação de regimes políticos.

Desta forma, os autores ressaltam que, se a democracia repousa sobre a soberania, o neoliberalismo pode ser considerado um “antidemocratismo”, pois seu caráter de racionalidade e individualismo reforça políticas de regulação e concorrência entre os indivíduos, em um regime de acumulação do capital, que interferem nos modos de vida e causam, inclusive, ansiedade e depressão devido a busca incansável pelos ideais neoliberais. 

Essa racionalidade neoliberal está muito longe de preocupar-se com o bem comum da humanidade, já que se articula com a ideologia da lógica mercantil, onde ocorre: 

[…] a exaltação incessante do indivíduo calculador e responsável, na maior parte das vezes pela figura do pai de família trabalhador, econômico e previdente que acompanha o desmantelamento dos sistemas de aposentadoria, educação pública e saúde. Muito mais do que uma simples ‘zona de contato’, a articulação da empresa com a família é o ponto de convergência ou intersecção entre normatividade neoliberal e moralismo neoconservador. (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 388).

Neste contexto, Dardot e Laval (2016, p. 395) ressaltam que, a “[…] produção do sujeito neoliberal ou “neosujeito”, tem por trás da redução do neoliberalismo, uma regressão ao ‘capitalismo puro’ das origens, em benefício de um Estado empresarial, além da criação do sujeito produtivo.

Este “neosujeito” passa a assumir a responsabilidade de seu sucesso ou do seu fracasso, ou seja, tudo depende das decisões individuais (atingir metas, empreender e competir). Estas decisões são marcadas pelo acúmulo de capital, precarização no mercado de trabalho e nos modos de vida. Assim, há uma meritocracia individualista que se acentua gradativamente de forma utilitarista e que afeta a subjetividade do indivíduo, sendo um caminho para sair dessa ‘jaula de aço’ resistir, aqui e agora, à racionalidade dominante. “O único caminho praticável é promover desde já formas de subjetivação alternativas ao modelo da empresa de si” (DARDOT e LAVAL, 2016, p. 396).

A partir destas considerações, de como se encaminham as relações e quais os rumos da sociedade atual, é possível perceber os grandes desafios da educação neste contexto, pois nesta lógica de mercado, vislumbra-se indivíduos cada vez mais individualistas e competitivos, cujas relações levarão, cada vez mais, à desigualdade social e a deterioração da democracia.

Ainda Dardot e Laval (2021, p. 415), ressaltam que:

Com o neoliberalismo, vivemos um grande retrocesso em relação à ideia de escola comum, de escola para todos, de escola inclusiva. Os sistemas escolares, sob o efeito da lógica do mercado, estão se fragmentando. E a mobilidade social, mesmo se fosse baixa, é seriamente afetada.

Uma educação com vistas ao empreendedorismo pode estar contribuindo para transformar os indivíduos que pensam apenas nas questões econômicas, nos custos/benefícios, levando-os a distanciar-se do que de fato tem sentido e valor: os princípios da solidariedade, do bem comum, da dignidade dos sujeitos e de boas oportunidades para todos e não apenas para alguns.

Necessário tecer reflexões pertinentes quanto a questões pontuadas por estes importantes autores, onde “A escola se torna, então, não apenas um anexo do sistema econômico dominante, mas uma verdadeira matriz do capitalismo generalizado” (DARDOT; LAVAL, 2021, p. 416). 

Assim, pensar em uma educação democrática, para além dos pressupostos neoliberalistas, constitui-se tarefa complexa, que demanda estudos, formação e reflexão/ação nos processos educativos. A começar pelos conteúdos que serão trabalhados e como serão trabalhados, de forma a que não sejam individualistas, utilitários, contribuindo para a formação de um ser neoliberal, empresário de si mesmo, iludido pelo consumo e alienado da natureza. Indivíduo este que, por querer sempre mais, o tempo todo, transforma-se em um ser competitivo, o que amplia as relações individualistas e de concorrência.

Nesta busca insana, perde a sua subjetividade. É preciso acordar para esta realidade que se acentua nitidamente, e enquanto educadores, alertar os sujeitos para que observem a importância de uma construção crítica, construtiva e colaborativa dos conhecimentos e das relações sociais de que fazemos parte, construindo princípios de vivência em comunidade, com autonomia e liberdade.

Possibilidades de resistências para fortalecer relações de solidariedade entre os sujeitos

O indivíduo não pode viver um conformismo ou mesmo uma alienação, onde, nesta lógica de consumismo, mais dinheiro, mais capital, acaba destruindo a individualidade, as relações no mundo natural e social, sabotando a verdadeira liberdade e autonomia das pessoas. É preciso reinventar os espaços e o tempo para atender a coletividade e para isso, é preciso repensar atitudes mais inclusivas para a sociedade e para a natureza.

Santos (2021, p. 598), ressalta que:

Vivemos em uma época em que a pertença mútua do medo e da esperança parece colapsar perante a crescente polarização entre o mundo do medo sem esperança e o mundo da esperança sem medo, ou seja, um mundo em que as incertezas, descendentes ou ascendentes, transformam-se cada vez mais em incertezas abissais, isto é, em destinos injustos para os empobrecidos e sem poder, e em missões de apropriação ilimitada do mundo para os enriquecidos e poderosos.

Essa polarização fere diretamente os princípios da democracia, da cidadania e do bem comum, princípios e valores tão caros para uma sociedade solidária e justa. Em tempos de grande turbulência, é importante refletir sobre 

Os valores da modernidade ocidental – a liberdade, a igualdade, a autonomia, a subjetividade, a justiça, a solidariedade – e as antinomias entre eles permanecem, mas estão sujeitos a uma crescente sobrecarga simbólica, ou seja, significam coisas cada vez mais díspares para pessoas ou grupos sociais diferentes, e de tal modo que o excesso de sentido se transforma em paralisia da eficácia e, portanto, em neutralização. (Santos, 2021, p. 426) 

Esta neutralidade em nível de estado também no cotidiano e nas relações sociais é vista pelo autor como problemática, pois contribui para que os sujeitos se habituem a questões como violência, conflitos, não promovendo no indivíduo o estranhamento, desfamiliarização, surpresa, perplexidade e invisibilização. Todo este processo é muito perigoso, já que contribui para que as pessoas sejam cada vez mais individualistas e também passivas. 

Essa aceitação acrítica também contribui para as enormes desigualdades e exclusão social, já que o acesso à cidadania é limitado, em uma sociedade que prioriza o lucro, a economia e os bens de consumo individuais. 

Este neoliberalismo, enquanto modo de vida, sempre presente na ideia de concorrência, competição e controle radical do tempo dos indivíduos, exige controle.

Tal controle exigiria, por um lado, a internacionalização do movimento operário e, por outro, a criação de autoridades políticas supranacionais com poderes para impor o cumprimento dos novos contratos sociais globais. Na ausência de uma e de outras, a concorrência internacional entre trabalhadores aumenta e, com ela, a lógica da exclusão que lhe é característica. Em muitos países, a maioria dos trabalhadores que entram de novo no mercado de trabalho fazem-no desprovidos de quaisquer direitos. São, pois, incluídos segundo uma lógica de exclusão, e a falta de expectativas de melhoria futura impedem que se considerem sequer candidatos à cidadania. (Santos, 2021, p. 435).

Essa lógica perversa de exclusão precisa ser vista, analisada e combatida. Como bem ressalta Santos, (2021, p. 604), “[…] todo ser humano (e, se calhar, todo ser vivo) aspira a ser tratado com dignidade, entendendo por tal o reconhecimento do seu valor intrínseco, independentemente do valor que outros lhe atribuam em função de fins instrumentais que lhe sejam estranhos”. Todos precisam ser respeitados em suas individualidades e, com dignidade, ter acesso, com apoio de um estado de direito e democrático, aos bens culturais, ao conhecimento, à saúde, à educação.

Santos (2021, p. 604), destaca:

Todos os estados e organizações internacionais proclamam a exigência dos direitos humanos e propõem defendê-los. […] deparamo-nos com inquietantes verificações: a grande maioria dos seres humanos não são sujeitos de direitos humanos, são antes objetos dos discursos estatais e não estatais de direitos humanos: há muito sofrimento humano injusto que não é considerado violação de direitos humanos […].

São estas as situações que precisam de sujeitos atuantes, fortalecidos e com esperanças de que esta luta terá êxito, de modo a permitir/possibilitar que, “os enriquecidos e poderosos passem a ter mais medo, e os empobrecidos e dominados passem a ter mais esperança”. (Santos, 2021, p. 605).

A educação como direito humano universal pode contribuir com a promoção do desenvolvimento humano. A escola (Educação Básica) ou a universidade (Ensino Superior) são responsáveis pelo acesso aos conhecimentos historicamente construídos, por meio de um ambiente de aprendizagem significativa e contínua. Contudo, o neoliberalismo prevê redução de investimentos na educação, incorporando princípios de mercado. 

Dardot e Laval (2021, p. 416), destacam como necessárias:

Manter estreitamente ligadas quatro dimensões: a) a criação de situações educativas genuinamente iguais; b) a construção de uma cultura escolar comum, uma base sólida a ser construída antes de especializações posteriores; c) o desenvolvimento de uma pedagogia cooperativa desde a mais tenra idade; d) e uma organização democrática escolar em que todos, qualquer que seja seu lugar como educador, aluno ou pai, possa participar conjuntamente das atividades.

Isso significa políticas de garantia de espaços coletivos e de decisão, tão fundamentais para ampliar relações baseadas na democracia e participação, que são garantidores dos direitos, pois como ressalta Peroni (2018, p.216) “[…] as políticas são materialização de direitos e os direitos materializam a democracia”.

É de suma importância defender os valores humanos, pautados em uma sociologia crítica e em um espírito cooperativo. Lembrando que, “[…] a escola não pode tudo. É a sociedade que educa primeiro” (Dardot; Laval, 2021, p. 417). É na troca com outros indivíduos que internalizamos conhecimentos, papéis e funções sociais, o que nos permite a formação de conhecimentos além da própria consciência, mediada pela cultura e linguagem, e estes (conhecimentos), podem ser para perpetuar diferentes interesses ou para a tomada de consciência para superar os modos de vida competitivos.

Fazer do conhecimento um bem comum, compreender de forma sensível que a criação do conhecimento é uma questão coletiva e que a aprendizagem também tem uma dimensão coletiva, parece-nos essencial. A individualidade só pode se desenvolver em sua diferença e sua singularidade por meio de trocas e atividades cooperativas (DARDOT; LAVAL, 2021).

Pensar em processos educacionais emancipadores é reconhecer a realidade e lutar contra os princípios competitivos, dar significado aos componentes curriculares e ampliar as possibilidades de resolução de problemas reais.

Dardot e Laval (2016, p. 402) concluem que:

O fundamental é compreender que nada pode nos eximir da tarefa de promover outra racionalidade” (…) Cabe a nós permitir que um novo sentido do possível abra caminho. O governo dos homens pode alinhar-se a outros horizontes, além daqueles da maxização do desempenho, da produção ilimitada, do controle generalizado. Ela pode sustentar-se num governo de si mesmo que leva a outras relações com os outros, além daquelas da concorrência entre ‘atores autoempreendedores’. As práticas de comunicação do saber, de assistência mútua, de trabalho cooperativo podem indicar os traços de outra razão do mundo. Não saberíamos designar melhor essa razão alternativa senão pela razão do comum.  

Portanto, este novo indivíduo precisa tomar decisões e assumir o compromisso com todas as dimensões da vida para além do capital, com cuidado para não serem meramente utópicas. As relações sociais precisam estar baseadas no conhecimento que emancipa e isso passa pela formação humana, sendo assim, tarefa também da educação. Nos espaços de saber, que seja possível possibilitar aos sujeitos a superação de concepções simplistas de modo a possibilitar e potencializar indivíduos conscientes, que atentem para seu bem-estar psíquico e social e também nas relações com a natureza.

Considerações finais

Diante das considerações realizadas até aqui, percebe-se a complexidade e importância do tema, com contribuições pertinentes, a partir dos autores, que revelam as implicações do neoliberalismo nos modos de vida das pessoas. Estas, muitas vezes, agem de forma inconsciente ou até consciente na busca de uma falsa liberdade. Estas implicações refletem nos processos educativos também. Em “Diálogo com Educadores”, Dardot e Laval (2021, p. 416) ressaltam a importância de adotar atitudes construtivas, tendo um olhar mais crítico sobre as formas ideológicas que caracterizam certas correntes ou certos autores considerados como os fundamentos da pedagogia progressista. 

Destacam que educadores progressistas não podem recair em práticas individualistas e autoritárias, que precisam focar em um trabalho com espírito crítico e cooperativo com vistas na formação do sujeito democrático.

Destacam ainda, Dardot e Laval (2021, p. 418), o quão importante é a relação que todos os estudantes e professores devem ter para com o conhecimento em uma sociedade democrática. Não como um capital pessoal que assegura uma posição de dominação, mas, como um produto e uma dimensão de inteligência coletiva. Os autores referem-se aos princípios do comum que podem servir para restituir a coerência às práticas pedagógicas e a redistribuição do poder nas escolas.

Sendo assim, é importante ressaltar que o conhecimento precisa ter caráter emancipatório, ou seja, os espaços educativos devem ser locais de trocas, de partilhas e de vivências com significação e contribuir para a transformação social. Quem sabe assim, poderemos vislumbrar uma sociedade melhor (de fato!) com princípios de justiça e solidariedade.

Quando se fala em desenvolver competências, é precisa que estas sejam, como destaca Nussbaum (2015, p. 8), ligadas às humanidades e às artes: a capacidade de pensar criticamente, a capacidade de transcender os compromissos locais e abordar as questões mundiais como um ‘cidadão do mundo’; e, por fim, a capacidade de imaginar com simpatia, a situação difícil em que o outro se encontra. 

Através de uma educação democrática e emancipatória, onde seja possível vislumbrar o indivíduo em formação/construção, um “cidadão do mundo”. Um cidadão que além de conhecimentos, seja empático, inclusivo, crítico e com capacidade para contribuir ativamente na construção de uma sociedade mais humana e com princípios éticos fundamentais. Uma educação emancipatória contraria os pressupostos do neoliberalismo, supera o individualismo e a lógica de mercado, consequentemente, enaltece a subjetividade do indivíduo.

Dewey (1979, p. 106) fala que a educação deve ser vista como “[…] a expansão das aptidões do indivíduo” para uma pluralidade de objetivos determinados onde o ideal democrático de educação deve assegurar facilidades escolares e diminuir as desigualdades. Dessa forma, a educação deve ser de qualidade e, cada profissional da educação compreender seu importante papel de promotor de meios para que os estudantes possam, através do conhecimento, ter sucesso em todas as dimensões e modos de vida, não só na Educação Básica ou no Ensino Superior, mas na vida. 

Nestas aptidões, que se construam indivíduos que pensam, que reivindiquem, que saibam e queiram lutar por ideais de democracia e igualdade social, atribuindo o verdadeiro sentido a estas lutas: o bem comum, a justiça social e o espaço democrático, com e para todos.

Fica claro que, para Santos (2016), Dardot e Laval (2021), o neoliberalismo enfraquece as relações humanas, promovendo a deterioração da democracia, impondo uma mentalidade egocentrista e de autointeresse.

Desta forma, é imprescindível uma educação emancipatória com ênfase na sociabilidade, na organização do tempo e do espaço, para que o indivíduo seja protagonista de sua história, sendo urgente superar a alienação no mercado de trabalho, no interior das instituições, na invenção de espaços e dos tempos. É também fundamental, (re)criar experiências intelectuais, em uma (re)construção de uma sociedade onde as relações entre os sujeitos sejam baseadas nos princípios da solidariedade e da democracia participativa, preservando o indivíduo na sua essência e individualidade. E a Educação, faz parte desta grandiosa tarefa.

Referências 

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo – ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 2016.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. Diálogo com educadores. Revista Espaço Pedagógico, v. 28, n. 1, Passo Fundo, p. 412-419, jan./abr. 2021.

DEWEY, John.  Democracia e educação. 4. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1979.

LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. Londrina: Planta, 2004.

NUSSBAUM, Martha C. Sem fins lucrativos: porque a democracia precisa das humanidades. Tradução Fernando Santos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015.

PERONI, Vera Maria Vidal. Múltiplas formas de materialização do privado na educação básica pública no Brasil: sujeitos e conteúdo da proposta. Currículo sem fronteiras. v. 18, n.1, p. 212-238, jan./abr. 2018. 

SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2010.


196518@upf.brhttps://orcid.org/0000-0002-0658-6933
2196519@upf.br – https://orcid.org/0000-0002-1789-0623