REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202510272054
Wesley Domingos Alves de Oliveira1
RESUMO
Este trabalho almeja lançar um pouco de luz a questões relacionadas à docência no ensino superior durante o século XXI, sobretudo após o surgimento das tecnologias de comunicação e socialização, tentando compreender como os docentes e gestores podem corroborar para que cada vez mais haja a utilização de tais tecnologias e essas sejam vistas como aliadas e não inimigas, avaliando a pandemia do COVID-19 que assolou o planeta entre 2019 e 2021 para uma melhor compreensão de como a falta de conhecimento e formação continuada dos docentes dificultou o processo de ensino/aprendizagem durante o período, uma vez que, muitos dos professores apresentaram dificuldades em usar aplicativos de mensagens como WhatsApp para se comunicar com os alunos. Para a revisão bibliográfica lancei – me sobre obras de autores que já estudaram ou estudam sobre o assunto como BITTENCOURT, PALUDO, CASTELLS, PIMENTEL, pesquisas quantitativas e qualitativas sobre a educação dentre os anos de calamidade pública, dentre outros.
PALAVRAS-CHAVE: Educação, Docência, Ensino, Tecnologia da Informação, Pandemia.
INTRODUÇÃO
Desde a virada do século cada vez mais conseguimos observar que as novas tecnologias surgem de maneira mais acelerada, e temos que nos adequarmos com a nova dinâmica social em que estamos inseridos, e isso se expande em todas as áreas profissional, pessoal, social, educacional dentre tantas outras. O intuito desta pesquisa é estudar os efeitos das novas tecnologias no âmbito escolar e acadêmico, e procurar entender como se pode melhorar as práticas docentes que já existem e/ou criar novas práticas embasadas e suplantadas nas tecnologias digitais existentes assim como nas emergentes.
Atualmente as práticas docentes vigentes Brasil afora estão se mostrando cada vez mais defasadas e obsoletas por não se adequarem ao contexto digital que estamos inseridos, ao qual os alunos chegam em idade escolar ou acadêmica bem mais evoluídos intelectualmente e mais do que nunca atuantes com os meios digitais, ou seja eles são cada vez mais agentes sociais produtivos dentro da sociedade. É imprescindível que os professores e gestores entendam que, a base sobre a qual a educação brasileira foi construída a tempos atrás, hoje deve ser revisitada e reestruturada já que a sociedade mudou e muitos dos conceitos que foram usados hoje se mostram ultrapassados.
O maior problema disso tudo é a questão da formação dos novos educadores, esses que são ainda formados sobre os moldes antigos que ainda a pouco disse que já se mostraram obsoletos, então nos deparamos com profissionais que se mostram resistentes a mudanças e amarrados as diretivas de uma base educacional de vinte ou trinta anos atrás, se esquecendo que o mundo mudou, o contexto social hoje é outro, o aluno do ano passado era diferente do aluno deste ano.
Para muitos professores é impensável que se faça pesquisa em sites como Google scholar, Scielo ou que se possa fazer o uso dos aparelhos celulares de forma a auxilia-lo nas atividades acadêmicas aproximando os alunos do conteúdo abordado e facilitando a vida do aluno assim como a do professor. Em meados do ano de 2019 o mundo se deparou com uma calamidade sanitária de nível global, a qual nos colocou em cheque em diversas áreas e não apenas na área da saúde, a educação também foi uma delas, desafiando-nos e nos mostrando que não temos um sistema educacional forte e resistente e nem que os alunos e os professores da rede nacional de educação estavam prontos minimamente para o desafio que se instauraria dali por diante. O nosso maior foco aqui será na docência no ensino superior que ao contrário do que muitos possam pensar sofreu tremendamente com o ocorrido, as instituições que deveriam ser responsáveis por promover uma certa estabilidade tanto aos docentes quanto aos discentes se mostraram ficar perdidas e sem saber como proceder, não dispunham de estrutura organizacional mínima para oferecer às equipes e aos alunos uma saída para que não houvesse uma precarização do ensino durante o período, os professores também sabiam pouco ou quase nada acerca das tecnologias que deveriam ser adotadas a partir daí para se continuar lecionando durante a pandemia que se mostraria implacável e mais duradoura do que se pensava ser possível no início de tudo.
O fato é que, a pandemia de COVID-19 trouxe à tona um problema que se não fosse por isso pudesse ter passado desapercebido por mais tempo, “a falta de conhecimento em tecnologias digitais por parte dos professores”. Os professores de carreira que ainda atuam se mostram relutantes em aprender a utilizar as tecnologias a favor de uma prática docente mais evoluída e preparada para lidar com as novas gerações de alunos e suas complexas mentes moldadas num mundo inteiramente globalizado onde tudo é instantâneo e mais próximo do que em eras passadas, fatores como esses complicaram a interação aluno/professor e ensino/aprendizagem durante a crise por evidenciar que as práticas e metodologias de ensino devem acompanhar as mudanças sociais que vamos experimentando ao longo dos anos.
1. EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA PODEM ANDAR JUNTAS
Os estabelecimentos de ensino (e aqui coloco não só as universidades) precisam urgentemente entender que, precisamos nos adequarmos ao novo status quo, e que a educação nos tempos atuais se faz cada vez mais necessitada de uma abordagem plurilateral e diversificada, onde os professores devem seguir buscando entender como funciona a mente e o mundo dos alunos, aprendendo a usufruir de maneira certa e dinâmica das tecnologias que estão dispostas no cotidiano de seus discentes que pode os ajudar a forma o pensamento crítico.
“O avanço das tecnologias digitais tem gerado um impacto significativo na promoção do pensamento crítico entre os estudantes, ao mesmo tempo em que os desafia a discernir informações confiáveis em meio ao vasto volume de conteúdos disponíveis online” (FONTANA; CORDENONSI, 2015 apud SILVA, 2025, p. 28/29).
Para Fontana, Cordenonsi e Silva isso é cada vez mais bem evidenciado de que, as tecnologias vieram para ficar, e que o meio acadêmico é que deve aprender a usá-la de maneira proveitosa, BITTENCOURT afirma a mesma coisa: “vive-se a emergência de uma sociedade conectada. O dia-a-dia da sociedade, organizações e governos, depende cada vez mais das tecnologias de informação e comunicação (TIC) e sobretudo da internet” (BITTENCOURT, 2017, p. 2), até mesmo porque como afirma Freire “não há docência sem discência” (1996, p. 23), isso corrobora com Silva quando ele diz que os professores é que tem que aprender a usar as tecnologias digitais para lecionar para seus alunos, pois sem os alunos não existiria o professor.
“O nosso mundo está em processo de transformação estrutural desde a década de 1980 do século XX. Tal transformação é um processo multidimensional, mas está associado à emergência de um novo paradigma tecnológico, baseado nas tecnologias de comunicação e informação, que teve início nos anos 1960 e que se difundiram de forma desigual por todo o mundo” (BITTENCOURT, 2017, p. 3).
É essencial que os educadores consigam acompanhar tais mudanças e que os currículos escolares e acadêmicos estejam cada vez mais aptos a serem usados para lecionarem no mundo contemporâneo que é fluido e está constantemente em transformação, não se pode continuar ensinando baseado em currículos que se mostrem negligentes acercas do novo status quo.
A facilidade que hoje encontramos em acessar conteúdos na rede pode e deve ser aproveitado pelo professor, ele deve entender que, a rede oferece uma imensa quantidade de informação e diversas fontes. É fato que os professores “(…) em situações-problema (…) utilizem softwares didáticos ou aplicativos que auxiliem diariamente as mais diversas tarefas intelectuais” (PERROUD, 1999 apud BITTENCOURT, 2017, p. 3). Os professore hoje em sua grande maioria mal sabem usar seu próprio aparelho celular mostrando dificuldades em compartilhar arquivos com seus alunos, necessitando na maior parte das vezes o auxílio dos próprios alunos para conseguir realizar essa atividade simples e corriqueira, e essa falta de aproximação de tecnologias de informação prejudicou e muito durante as aulas remotas na pandemia.
Durante o período de pandemia houve por parte dos professores uma certa resistência em migrar para os ambientes virtuais de ensino/aprendizagem como o Google Classroom2, alguns justificavam essas atitudes com argumentos sólidos como a dificuldade de alguns alunos em acessar a internet ou a possível defasagem que o aluno sofreria em ter que migrar tão repentinamente para um ambiente virtual, porém outros se mostraram receosos por apenas não saberem utilizar as ferramentas digitais que estão espalhadas mundo afora, e que agora se fazia necessário o uso destas.
“No contexto apresentado neste trabalho, a TIC substitui o quadro negro, enquanto ferramenta. Já a Educomunicação coloca a sua ênfase no processo, ou seja, apesar de o conteúdo e o efeito fazerem parte de toda ação pedagógica o processo educomunicativo não estabelece um “teto de desenvolvimento do conhecimento”, o qual permite uma série de abordagens” (BITTENCOURT, 2017, p. 4).
Bittencourt deixa bem explicito que, as tecnologias de informação fazem mais do que apenas substituir as ferramentas pedagógicas normais, elas nos abrem um grande leque de novas possibilidades e caminhos novos que podem se entrelaçar e isso tudo de forma infinita, uma vez que essas ferramentas não nos engessam mais sim nos deixam livres para que o processo de ensino-aprendizagem seja continuo e se auto alimente, gerando um ciclo que irá se repetir e se auto aperfeiçoar.
Além de implementar o uso das tecnologias nas instituições de ensino por parte dos professores, os professores devem ficar atentos quanto a orientar os alunos ao uso de tais métodos. Orientando esses a não confiarem explicitamente em tudo que encontram na rede, e a não usarem de maneira errônea e esdrúxula os aplicativos que nos dão facilidade de organização e criação de materiais.
“Para mitigar esses riscos, é essencial que as instituições escolares e os educadores adotem abordagens responsáveis e conscientes no uso das tecnologias em sala de aula. Isso inclui a implementação de políticas de segurança digital, a orientação adequada sobre o uso responsável da internet e a promoção do pensamento crítico para que os estudantes possam discernir informações confiáveis e combater a desinformação” (BORBA; PENTEADO, 2010 apud SILVA, 2025, p. 32).
Tudo o que já foi criado pela humanidade ou já nos ajudou ou pode nos ajudar em nossas vidas, e nós como seres pensantes que somos devemos e podemos aprender a usar de tais facilidades, apenas devemos tomar cuidado e como usamos.
Os professores podem criar ou juntamente com os alunos a criarem podcasts, documentários, blogs de acesso da turma, para que todos possam ser agentes do processo e não apenas receptores, isso também ajudará os professores a entenderem como essas ferramentas funcionam, como é a interação dos alunos com tais ferramentas e como elas podem ser usadas para melhorar o processo de ensino aprendizagem.
1.1 AS FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS UTILIZADAS COMO FERRAMENTAS DIDÁTICO-PEDAGÓGICAS
Nos dias atuais vemos o surgimento e aprimoramento de ferramentas de inteligência artificial como o chat GPT, Gemini, OpenIA, ChatBot, MetaAi, Copilot dentre várias outras. Em uma pesquisa realizada em agosto de 2024 pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES) em conjunto com a Educa Insights revela que já há a propagação do uso das ias nas instituições de ensino superior, a pesquisa avalia que cerca de 74% das instituições onde foram realizadas o levantamento se dizem achar importantes o investimento nas ferramentas de ia, assim como cerca de 15% se mostram neutras e 11% não acham que esse tipo de investimento se faz necessário ou que valha a pena. “A justificativa para o estudo e implementação de recursos multimídia na educação é evidente diante das demandas da sociedade contemporânea” (SILVA, 2025, p. 37), como afirma Silva e a pesquisa da ABMES algumas instituições já observaram que o uso dessas ferramentas tornam-se necessárias hoje devido ao contexto social que vivenciamos, e ainda nesse contexto afirma Saviani: “considerando-se que a educação visa a promoção do homem, são as necessidades humanas que irão determinar os objetivos educacionais” (SAVIANI, 2007, apud BITTENCOURT, 2017, p. 6).
Percebe-se que o mundo está em transformação, e de modo algum devemos temer essas mudanças e nem tentar evita-las, os alunos hoje me dias usam cada vez mais dos aparatos tecnológicos que estão em circulação, como as ferramentas de IA como o ChatGpt, Gemini, ChatBot, Copilot e etc, eles utilizam para que possam facilitar seus estudos, utilizam como meio de comunicação, interação social a distância dentre tantas outras formas distintas.
A ABMES fez questão de perguntar aos participantes quais os benefícios e malefícios do uso das Ias no ensino superior, e é impressionante ver que as respostas foram mistas, porém bem conscientes. Cerca de 53% disseram que o uso de tais ferramentas lhes possibilitavam aprender em qualquer lugar e em qualquer tempo, como esses algoritmos aprendem e evoluem rapidamente cerca de 50% disseram o uso das ias lhes davam acesso à conteúdos atualizados quase que em tempo real, assim como 40% diz ser ótimo na otimização de resolução de questões e problemas acerca do conteúdo e ainda tivemos cerca de 40% dizendo que isso poderia ajudar a reduzir o custo operacional no que tange a material didático impresso e estrutura já que essas ferramentas apenas precisam de acesso à internet para operar, mas é necessário expor que, o uso das ias e das tics deve ser feito de modo a agregar no processo, os alunos e esses devem ser agentes atuantes durante o início, meio e fim.
“Uma nova prática pedagógica deverá mostrar que a utilização das TIC’s na escola precisa ser feita de maneira interativa e não apenas expositiva, ou seja, o aluno deve atuar sobre as tecnologias, interagindo, refletindo, construindo e agregando conhecimentos. Ela inicia mas vai muito além do uso das mídias para simples exposição de conteúdo, como substitutos de cartazes ou da própria lousa (FREITAS, ALMEIDA, 2012 apud BITTENCOURT, 2017, p. 6).
Isso corrobora com o que Freire já dizias décadas antes “não podemos tratar os alunos como bancos, onde nós apenas depositaremos nosso conhecimento neles”, ou seja não é apenas acerca das tecnologias, mas também acerca de todo o processo de ensino aprendizagem, devemos imergir os alunos no processo de modo que eles sejam atuantes e não apenas ouvintes.
Em contrapartida foram apresentadas durante as entrevistas os contras de serem usadas as ferramentas. Cerca de 52% identificaram que os usos excessivos ou descontrolados dessas ferramentas podem causar distanciamento social e falta de uma personalidade própria, como se os indivíduos deixassem de agir como humanos e obtiverem um comportamento robotizado. A falta de interação social também é colocada como um problema, visto que isso diminui drasticamente a interação entre indivíduos.
Entretanto, não basta apenas começar a usar as tecnologias, o processo é bem mais complexo e demanda tempo, esforço e dedicação, para quê utiliza-las, e qual a melhoria que elas gerariam:
“É por isso que difundir a Internet ou colocar mais computadores nas escolas, por si só, não constituem necessariamente grandes mudanças sociais. Isso depende de onde, por quem, e para quê são usadas as tecnologias de comunicação e informação. O que nós sabemos é que esse paradigma tecnológico tem capacidades de performance superiores em relação aos anteriores sistemas tecnológicos. Mas para saber utiliza-los no melhor do seu potencial, e de acordo com os projetos e as decisões de cada sociedade, precisamos de conhecer a dinâmica, os constrangimentos e as possibilidades desta nova estrutura social que lhe está associada: a sociedade em rede” (CASTELLS, 2005, p. 19).
Ou seja, não é apenas introduzir as tecnologias, deve se pensar no contexto social da sociedade ao redor, dos alunos, da escola em questão, deve-se ter em mente sempre que esses processos devem ser gerenciados com muito esmero tendo em vista que não se deve esquecer nenhuma das variantes, pois se isso acontecer teremos um uso tecnológico pobre e sem significado, causando a longo prazo uma educação deficiente e ainda mais problemática.
2. DOCÊNCIA NA PANDEMIA DE COVID – 19
Durante a pandemia tivemos que nos reinventar, percebemos que a dinâmica social iria mudar completamente e que a dificuldade de se ensinar seria bem mais alta do que podia-se pensar, seria desafiadora para se dizer o mínimo, o fenômeno da pandemia de COVID – 19 foi amplamente estudado por todos os tipos de acadêmicos “da mesma forma, o debate acadêmico sobre o covid – 19 não se restringiu ao campo da saúde. Pelo contrário, as mais diversas áreas vêm debatendo as implicações de tal fenômeno” (PALUDO, 2020, p. 2). Afinal se tratou de um acontecimento que mudou as nossas vidas drasticamente, causando transformações sociais que iram ser estudados com afinco por anos e anos.
Desde antes da pandemia já se fazia notar a precarização da rede de ensino ampliada por falta de conhecimento das tecnologias, o acesso de forma desigual que muitos alunos tinham, e com a pandemia isso se tornou mais evidente, como afirmam Oliveira e Paludo.
“Contudo, as condições de educação em tempos de pandemia apresentam um conjunto de fatores a serem considerados, como o desigual acesso entre as diferentes classes aos recursos pedagógicos online, bem como as desigualdades culturais ao considerar o computador e outras ferramentas de ensino à distância enquanto capital cultural objetivado” (OLIVEIRA, 2020 apud PALUDO, 2020, p. 2).
Fatores antes ignorados pela comunidade acadêmica agora se mostravam ser grandes obstáculos na docência em tempos de pandemia, como a falta de acesso à internet por parte dos alunos e até mesmo dos professores, a falta de aperfeiçoamento dos professores, a defasagem dos softwares nas instituições, isso quando se tinha esses softwares, todas essas variantes que outrora foram ignoradas agora eram determinantes. Até mesmo se tratado de formação continuada os docentes não conseguem faze-las por diversos fatores como, salários incompatíveis com a função, acumulo de carga laboral dentre outras coisas “a desvalorização do docente anda, lado a lado, com a precarização da formação dos mesmos, afinal, 29% dos docentes brasileiros exercem outra atividade econômica para complementar a renda” (TODOS PELA EDUCAÇÃOL, 2018 apud PALUDO, 2020, p. 4).
Durante o período de calamidade sanitária foi – se necessário muita adaptação da sociedade para que pudéssemos sobreviver e nos tornarmos mais fortes, assim como aprender com o ocorrido. Na educação também foi assim, foi necessário conceber que os dispositivos tecnológicos antes menosprezados e marginalizados pelos professores agora se tornavam uma ferramenta didático pedagógica, e que os educadores que ainda não sabiam usá-las deveriam aprender em tempo recorde, e deveria ser feito mudando a cultura nas instituições de ensino mesmo com as dificuldades apresentadas no modelo atual, como afirma Paludo:
“Muitas escolas, e utilizo como exemplo as instituições onde trabalhei, relacionam-se com os celulares de forma negativa. Não os permitem. Afinal, como uma lousa poderia competir com tal dispositivo? Evidente que as escolas não tomam essa atitude por serem rígidas ou intransigentes, mas o fazem por impossibilidade de – considerando as condições de acesso, formação docente, entre outras – revolucionar as formas de ensino” (PALUDO, 2020, p. 4).
Realmente ao tocante de mudar a cultura acadêmica não seria fácil, mas ficou evidenciado de que, os docentes que não tinham formação ou conhecimento das ferramentas tecnológicas sejam por falta de formação na área, seja por falta de conhecimento mínimo, foi um agravante da situação, onde tiveram que aprender na forma de tentativa e erro. Eu mesmo evidencie isso na minha graduação, onde foi claro para mim que os meus professores não tinham noção nenhuma de como prosseguir, e o que se seguiu em certas ocasiões foi cenários de incertezas.
As redes de ensino espalhadas pelo pais não tinham como disponibilizar estrutura para que os docentes tivessem condições mínimas para exercer suas atividades de forma que fossem meramente satisfatórias.
“A pesquisa do GESTRADO (2020), aponta que mais de 53% dos docentes pesquisados (cerca de 15 mil professoras e professores de todas as regiões do país, de redes municipais, estaduais e federais), não tiveram nenhum tipo de formação para o uso de mídias digitais para a docência, bem como apenas 28,8% dos docentes afirmaram ter facilidade para o uso desses meios. É necessário atentar que 17% dos pesquisados não possuem os meios necessários” (GESTRADO, 2020 apud PALUDO, 2020, p. 5).
PALUDO e GESTRADO nos mostram que não foi apenas os alunos que não tinham acesso a meios digitais, mais também os professores que em grande maioria não tinham acesso os meios necessários para tal façanha, precarizando assim a educação durante a pandemia. Porém à docência na pandemia trouxe outros problemas também como afirma Paludo:
“Essa confusão e mescla entre espaços de vida privada e os espaços da vida profissional, é verdade, não são exclusividade dos tempos de pandemia, mas é evidente que agora se acentua com demasiada força. A correção de avaliações e preparação das aulas já ocupava tal espaço. Entretanto, o aprofundamento dessa demanda de trabalho extraclasse e invasão dos espaços pessoais, trazem um segundo fator para a vida docente, as sobrecargas psicológicas” (PALUDO, 2020, p. 6).
Durante a pandemia os problemas ocasionados por ela eram muitos, dentre eles estavam problemas psicológicos causados em suma maioria pelo fato de que as pessoas estavam de quarentena, ou seja, sem sair de casa, sem vida social. Com o acumulo de trabalho, estresse a junção de vida privada e vida profissional que agora não mais se distinguiam uma da outra, todos esses fatores foram de suma relevância para o aumento de problemas como ansiedade, depressão, causando nos alunos grande taxa de desistência, e nos professores alto grau de estresse e desgaste emocional.
Esse enigmático acontecimento nos proporcionou uma oportunidade única de melhorarmos nosso sistema educacional, pois nos mostrou que os educadores do nosso pais não possuem uma formação pedagógica voltada para o ensino EAD e as mídias digitais que surgiram no mundo contemporâneo, e isso nos pegou desprevenidos quando a pandemia obrigou – nos a lecionar de forma totalmente remota, mostrando que a defasagem na formação dos educadores brasileiros ainda é alta, principalmente se tratando dos aspectos das tecnologias que podem ser usadas como ferramentas pedagógicas.
O sistema ainda é arcaico e isso forma novos professores que em sua maioria não lidam bem com a ideia de conceber o aparelho celular como ferramenta pedagógica, eles ainda se firmam no modo antigo onde se usa apenas livros e a lousa.
3. NOVAS PERSPECTIVAS
Na nova conjectura no sistema educacional pós pandemia muitas perguntas ainda seguem sem respostas, e tantas outras surgem no horizonte, perguntas essas que serão pertinentes para que possamos entender como e o que devemos fazer para continuarmos evoluindo nosso sistema educacional e deixa-lo mais forte e preparado para os desafios vindouros.
As perspectivas para o futuro são boas, esses acontecimentos serviram para mostrar-nos as falhas, agora nos resta aprimorar e melhorar. No tocante a formação continuada dos professores a respeito das tecnologias da informação devemos seguir nos aprimorando, mesmo que o sistema ainda se mostre totalmente contra esse tipo de mudança, e espantosamente ainda há gestores que não compreendem que a educação acompanha o desenvolvimento do mundo, ou seja, não se pode ter uma educação de qualidade enquanto estivermos ancorados em práticas pedagógicas que hoje já não fazem mais efeito e estão ultrapassadas.
O processo educacional é cíclico como qualquer outro processo da nossa sociedade, então é natural que ele mude com o tempo. Nas décadas de 80 e 90 tínhamos ali o surgimento das tecnologias, porém a partir do início do século XXI muitas dessas tecnologias já haviam ganhado espaço, os alunos dos anos dois mil mal sabiam ligar um computador, mas hoje isso já é outra realidade, então é preterível que os processos de ensino/aprendizagem sejam reformulados.
De forma geral o período turbulento trouxe boas notícias, em junho de 2021 era promulgada a Lei nº 14.172, que trata sobre a assistência da União aos estados e ao distrito federal para garantir acesso à internet com fins educacionais, essa lei se trata de uma emenda constitucional, é certo afirmar que essa revisão na lei se deu em favor ao contexto que vivíamos, pois em 2021 ainda estávamos sob regime de quarentena e isso se evidencia no texto da própria lei:
“Art. 2º A União entregará aos Estados e ao Distrito Federal o valor de R$ 3.501.597.083,20 (três bilhões, quinhentos e um milhões, quinhentos e noventa e sete mil e oitenta e três reais e vinte centavos) para aplicação, pelos Poderes Executivos estaduais e do Distrito Federal, em ações para a garantia do acesso à internet, com fins educacionais, aos estabelecimentos de ensino, aos alunos e aos professores da rede pública de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, em virtude da calamidade pública decorrente da Covid-19” (Redação dada pela Lei nº 14.640, de 2023).
A lei deixa claro que haverá um fundo destinado a repasse aos governos estaduais e municipais que deverá ser utilizado para o desenvolvimento e financiamento das tecnologias na educação, isso foi de muita relevância naquele momento, pois ainda vivíamos em tempos tumultuosos e o futuro ainda era incerto, as aulas ainda se davam de maneira remota.
A lei aqui mencionada tratava ainda de como deveria ser usado os recursos que seriam dispostos dali por diante, no inciso terceiro do artigo dois dizia assim:
“§ 3º Os recursos a que se refere o caput deste artigo, transferidos pela União aos Estados e ao Distrito Federal, que não forem aplicados até 31 de dezembro de 2026, após atendidas as finalidades previstas no art. 3º desta Lei, ou que forem aplicados em desconformidade com o disposto nesta Lei, serão restituídos, na forma de regulamento, aos cofres da União até o dia 31 de março de 2027” (PRESIDENCIA DA REPUBLICA, LEI 14.172,2021).
Vemos que, esses recursos não eram ilimitados, e que os governos deveriam utiliza-lo em tempo determinado, tempo esse que quando não atendido haveria de ser restituído o valor a união. Muitos podem até pensar que isso não era uma coisa boa, porém isso foi ótimo, pois agora o Brasil tinha um precedente legal, uma lei que obrigava os governos a contratarem internet de qualidade, assim como fornecer aparelhos que pudessem oferecer aos alunos e professores um acesso mínimo aos meios digitais.
Com todo esse cenário, a criação de uma nova lei as coisas pareciam que iriam melhorar dali por diante, após a publicação da Lei nº 14.172 em 2021 o estado de Goiás criou o programa Conectividade Móvel. E o que se viu foi um aumento grande nos investimentos em acesso à internet e infraestrutura de acesso remoto, em goiás desde 2023 o que se viu foi um grande aumento em compras de chip de acesso à internet, de tablets e computadores que foram doados aos alunos da rede estadual, de acordo com o site da própria Seduc:
“(…) forneceremos dados móveis de conectividade através de 410.000 “chips” para acesso à internet móvel 4G, com 60GB a serem utilizados por 12 meses a partir da ativação, com licenças de uso, controle de acesso a conteúdo web, transmissão e proteção de dados. Desse público cerca 7% serão contemplados com os 28.000 Tablets” (SEDUC – GO, Programa Conectividade Móvel).
Vemos que os investimentos foram grandes e pontuais, foram comprados quase quinhentos mil chips de acesso à internet juntamente com doze mil tablets dentre vários Chrome Books que iriam dali por diante ser responsáveis por conectar os alunos do estado a rede sem fio. Em 2023 foram entregues 27.609 tablets juntamente com 147.862 chips de internet, isso se expandindo também as redes municipais, ainda que em menor escala, desse total de entregas foram 14.494, 62.607 tablets e chips respectivamente repassados aos municípios.
Desde a pandemia os investimentos em infraestrutura digital vêm aumentando significativamente, o programa conectividade móvel do governo estadual de goiás só se tornou possível após a criação do programa “Escolas Conectadas”, que tinha como objetivo os repasses que estavam designados na Lei 14.172 que trata da conectividade na rede nacional de ensino.
Com todo esse movimento jurídicos nos bastidores durante e após a pandemia trouxe um cenário positivo acerca da modernização da rede de ensino no Brasil, o que podemos esperar é que isso não pare nas melhorias de acesso e se estenda também a formação continuada dos professores, com a criação dos programas de formação continuada dos professores, e que esses programas sejam melhorados continuamente assim como a comunidade docente venha a aderi-los cada vez mais, ainda há muito no que melhorar, porém só do pais está se movendo rumo a digitalização das escolas e melhoria da rede como um todo já é uma vitória.
A mudança é algo lento e que demanda tempo e que necessita do abraço de toda a comunidade, pois se os indivíduos que fazem parte do processo se mostrarem interessados na mudança ela ocorrerá mais cedo ou mais tarde, com o passar do tempo espero que possamos alcançar as melhorias que hoje já almejamos e que o futuro do nosso sistema educacional seja magnifico.
4. CONCLUSÃO
Conclui-se que, a educação no Brasil ainda engatinha se comparada com outros países mundo afora, a educação como nós conhecemos só começou a ser construída na década de 1930, após a chegada de Getúlio Vargas ao poder, foi então que foi criado o Ministério da Educação e houve a promulgação de leis educacionais, enquanto em outros países a educação formal já era realidade.
Ainda teremos muita luta até conseguimos moldar o sistema educacional em um sistema que englobe as ferramentas digitais como ferramentas didático-pedagógicas de uso constante, os professores também ainda precisam passar por uma transformação mental para passar a ver esses adventos tecnológicos como aliados, e isso estende-se desde a formação acadêmica onde ainda formamos professores embasados em um sistema arcaico e ultrapassado.
Espera-se que com a criação das leis que estimulam os investimentos em tecnologias comece a emergir cada vez mais uma comunidade docente que entenda que as tics devem ser usadas, e que quando usadas de maneira correta elas alavancam o processo de ensino/aprendizagem, melhorando a interação dos alunos com o conteúdo, facilitando a metodologia utilizada pelos professores assim como podem facilitar a criação de planos de ensino e de atividades docentes do dia a dia.
Só podemos esperar que todo esse cenário possa melhorar com o tempo, que possamos quebrar os principais paradigmas que são responsáveis por colocar a educação brasileira em ostracismo, quando claramente o mundo mudou e se remodela, é necessária uma abordagem plurilateral, onde se entenda que assim como o mundo ao nosso redor a educação pode e deve ser fluida e dinâmica. E quando esse for o pensamento da comunidade tanto acadêmica quanto leiga talvez poderemos alcançar uma educação realmente transformada e transformadora.
2 “No contexto apresentado neste trabalho, a TIC substitui o quadro negro, enquanto ferramenta. Já a Educomunicação coloca a sua ênfase no processo, ou seja, apesar de o conteúdo e o efeito fazerem parte de toda ação pedagógica o processo educomunicativo não estabelece um “teto de desenvolvimento do conhecimento”, o qual permite uma série de abordagens” (BITTENCOURT, 2017, p. 4).
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BITTENCOURT, Priscilla Aparecida Santana. O uso das tecnologias digitais na educação do século XXI. Revista Ibéro Americana de estudos em educação, Araraquara, v.12, n.1, p. 205 – 214, 2017 Disponível em: < https://periodicos.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/9433/6260 >. Acessado:26/04/2025.
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PIMENTEL. Paulo Roberto Brito, O Uso das Tecnologias Digitais integrado à sala de aula: Dialogicidade à Práxis do Docente e ferramenta cidadã de construção de aprendizagem, Formiga, Minas Gerais, 2024.
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1Graduado em História pela Universidade Estadual de Goiás 2023 (UEG). Especialista em Docência no Ensino Superior pela Faculdade Iguaçu 2025.
