DO OUVIR AO AGIR: O PAPEL FUNDAMENTAL DA ENTREVISTA PSICOLÓGICA NO PROCESSO TERAPÊUTICO

FROM LISTENING TO ACTING: THE FUNDAMENTAL ROLE OF PSYCHOLOGICAL INTERVIEWS IN THE THERAPEUTIC PROCESS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511201819


Thiago Coelho Simões
Orientador: Lucas de Oliveira Borges


Resumo

A presente análise explora a entrevista psicológica não apenas como um passo inicial, mas como um alicerce clínico que molda a jornada terapêutica.  Objetiva analisar a relevância da entrevista psicológica na construção do vínculo terapêutico e sua influência nos resultados do processo psicoterapêutico. A investigação seguiu um caminho qualitativo, com base em pesquisa bibliográfica e uma análise descritiva.  Demonstra-se que a entrevista reúne simultaneamente quatro funções interdependentes, coleta qualificada da queixa e da história de vida; compreensão subjetiva do sofrimento; apoio ao raciocínio diagnóstico e indicação de outros instrumentos; e início efetivo da intervenção por meio do estabelecimento de rapport, vínculo e aliança terapêutica. Evidencia-se que, durante a entrevista, a dor ganha nome, a necessidade de tratamento é reconhecida e o acordo terapêutico começa a ser construído, transformando-a no ponto de encontro entre a técnica e o relacionamento. O artigo também enfatiza que a entrevista se adapta a diferentes abordagens de tratamento (psicanalítica, cognitivo-comportamental, humanista, sistêmica e fenomenológica), preservando, no entanto, uma base comum de escuta clínica e objetivo terapêutico. Salienta-se o papel contemporâneo da entrevista como espaço de feedback e monitoramento contínuo de resultados, o que favorece adesão, previne abandonos e torna o tratamento mais colaborativo.

Palavras-chave: Entrevista psicológica; Processo terapêutico; Rapport; Aliança terapêutica; Avaliação clínica.

ABSTRACT

This analysis explores the psychological interview not only as an initial step, but as a clinical foundation that shapes the therapeutic journey. It aims to analyse the relevance of the psychological interview in building the therapeutic bond and its influence on the results of the psychotherapeutic process. The investigation followed a qualitative path, based on bibliographic research and descriptive analysis.  It is demonstrated that the interview simultaneously fulfils four interdependent functions: qualified collection of the complaint and life history; subjective understanding of suffering; support for diagnostic reasoning and indication of other instruments; and effective initiation of intervention through the establishment of rapport, bonding and therapeutic alliance. It is evident that, during the interview, the pain is named, the need for treatment is recognised, and the therapeutic agreement begins to be built, transforming it into the meeting point between technique and relationship. The article also emphasises that the interview adapts to different treatment approaches (psychoanalytic, cognitive-behavioural, humanistic, systemic, and phenomenological), while preserving a common basis of clinical listening and therapeutic objectives. The contemporary role of the interview as a space for feedback and continuous monitoring of results is highlighted, which promotes adherence, prevents dropouts, and makes treatment more collaborative.

Keywords: Psychological interview; Therapeutic process; Rapport; Therapeutic alliance; Clinical assessment.

1 INTRODUÇÃO

A entrevista psicológica, conduzida por um psicólogo, é um processo que envolve técnica e relacionamento que, por meio de uma escuta atenta e dentro de um contexto profissional, procura-se entender o indivíduo naquilo que o torna único, com o objetivo de dar suporte ao diagnóstico e à intervenção (Tavares, 2006; Bleger, 1967).

A relevância da entrevista psicológica se evidencia também quando examinada a partir de diferentes tradições teóricas, que embora partam de pressupostos distintos, convergem quanto à sua centralidade clínica. Na abordagem centrada na pessoa, Carl Rogers (1957) ressalta a importância da escuta empática, da congruência e da aceitação positiva incondicional como condições necessárias para que o paciente se sinta seguro para se expor emocionalmente.

Na tradição psicanalítica, Freud (1912/2017) concebe a entrevista clínica inicial como um momento privilegiado para a emergência da associação livre, de modo que o sujeito fale sem censura e permita que conteúdos inconscientes se manifestem, inaugurando a noção de que a entrevista não serve apenas para descrever sintomas, mas para revelar como o sujeito significa o próprio sofrimento. Bleger (1967) aprofunda esse entendimento ao defender que a entrevista psicológica ocupa lugar central tanto na psicanálise quanto no psicodiagnóstico, pois nela o clínico observa não apenas o que o paciente relata, mas como se relaciona, como se defende e como demanda cuidado, o que possibilita formular hipóteses sobre sua dinâmica emocional.

Em outro eixo, Bordin (1979) descreve a entrevista inicial como momento decisivo para o estabelecimento da aliança terapêutica, compreendida como acordo em torno de metas, tarefas e vínculo entre terapeuta e paciente. Já a perspectiva cognitivo-comportamental, Beck (1979), enfatiza que a entrevista clínica tem a função de identificar pensamentos automáticos, crenças centrais e padrões de comportamento que mantêm o sofrimento atual, servindo não apenas para compreender “o que o paciente sente”, mas também para definir, desde o primeiro contato, os alvos de intervenção terapêutica.

Nesse sentido, discutir a entrevista psicológica é, acima de tudo, abordar um encontro verdadeiro e autêntico entre pessoas, está longe de ser apenas um procedimento formal ou um questionário, representa um instante em que alguém busca auxílio e encontra, em contrapartida, um especialista pronto para ouvir, entender e dar espaço à sua narrativa. A entrevista liderada por um psicólogo qualificado e com base nos princípios da Psicologia, visa estabelecer um vínculo profissional de confiança e, a partir disso, reunir dados que auxiliem a entender quem é essa pessoa, o que lhe causa angústia e como ela pode receber apoio (Tavares, 2006). Portanto, é mais do que início da terapia é um ambiente clínico em si, um local seguro para a expressão, no qual se torna possível analisar sentimentos, condutas, interações e notar indícios de sofrimento mental, fatores de perigo e habilidades de resiliência (Tavares 2006).

É nesse cenário que Sullivan (1970) compreende a entrevista como um processo de comunicação em construção entre terapeuta e paciente, visando elucidar as fontes de dor e as questões relevantes, almejando um resultado positivo, ela configura, assim, como uma ferramenta de análise e, simultaneamente, um ato de cuidado. E, para que essa dimensão cuidadora se efetive na prática não basta ter as perguntas certas; é essencial demonstrar uma postura clínica atenta e receptiva, que envolve ouvir sem fazer julgamentos, respeitar o ritmo do paciente e acolher tanto suas palavras quanto seus silêncios, suas lágrimas ou até mesmo sua resistência. Nesses casos, a entrevista transcende a mera formalidade e se torna, por si só, um ato terapêutico, oferecendo amparo, organização e cuidado.

Portanto, encarar a entrevista psicológica significa compreendê-la como uma parte fundamental e pulsante da terapia, e não apenas como uma introdução, é nesse instante que o psicólogo começa a traçar um perfil do indivíduo, a entender como ele busca auxílio, quais são suas expectativas em relação à terapia e quais são seus limites. É também nesse espaço que se estabelecem, em conjunto, os objetivos do tratamento, as fronteiras do ambiente terapêutico e as áreas que serão exploradas.

Diante disso, por meio de um estudo que se fundamenta em uma perspectiva qualitativa, de natureza bibliográfica e caráter descritivo-analítico, esta pesquisa se orienta pela seguinte pergunta: qual é o papel da entrevista psicológica na compreensão da história do paciente, na definição das metas terapêuticas e na adaptação do tratamento às necessidades singulares, e como esses elementos influenciam os resultados clínicos? Parte-se da defesa de que a entrevista não é apenas uma etapa inicial, mas um dispositivo clínico central, uma vezque é ela que sustenta a relação, orienta o cuidado e abre caminho para a mudança psíquica. Assim, tem-se como objetivo analisar a relevância da entrevista psicológica na construção do vínculo terapêutico e mostrar de que maneira sua condução influencia a adesão e os resultados do processo psicoterapêutico.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

Nesta seção, apresenta-se a entrevista psicológica como instrumento central da prática psicoterapêutica. Partem-se das contribuições de Tavares (2006), Sullivan (1970) e Ocampo e Arzeno (2001), que a compreendem como um encontro clínico destinado a esclarecer a demanda do paciente. Dialoga-se com Freud (1912-1913) e Bleger (1964), que ressaltam a entrevista como espaço de expressão do sofrimento, das defesas e dos modos de relação. Acrescentam-se, ainda, os aportes de Rogers (1951), Pichon-Rivière (1988) e Bordin (1979) sobre empatia, vínculo e aliança terapêutica, bem como as contribuições de Beck e de Lambert (2013-2015) acerca da definição de metas, do monitoramento clínico e do impacto desses fatores nos resultados do tratamento.

2.1 Definições e Fundamentos da Entrevista Psicológica

A entrevista psicológica surge como um encontro clínico meticulosamente planejado entre psicólogo e paciente, visando diagnóstico, tratamento e conexão. Longe de ser um bate-papo informal, é uma prática técnica e ética realizada por um profissional capacitado, com estrutura, duração e metas claras, destinada a entender a queixa do indivíduo, analisar seu estado emocional e iniciar a criação de um laço terapêutico (Tavares, 2006; Seger, 2006).

Sullivan (1970) descreve a entrevista psicológica como um cenário de diálogo interpessoal que se desenvolve gradualmente entre terapeuta e paciente, com o objetivo de explicitar aspectos marcantes da vida do entrevistado, principalmente aqueles sentidos como causa de angústia. e proporcionar algum proveito clínico a partir dessa explicação. Sob essa ótica, a entrevista transcende a simples coleta de dados, tornando-se um ambiente de entendimento mútuo da aflição e de conversão dessa aflição em termos clínicos.

Ademais de seu aspecto comunicativo, a entrevista psicológica possui base diagnóstica, para Ocampo e Arzeno (2001), a primeira entrevista desempenha um papel fundamental no psicodiagnóstico, pois possibilita identificar a razão da busca por ajuda, delinear a maneira como o paciente experimenta e relata seu sofrimento, detectar forças e fragilidades emocionais e, simultaneamente, dar início à relação terapêutica. Assim, a entrevista inicial não só retrata o problema, mas começa a formular suposições clínicas e esboçar alternativas de intervenção. Essa compreensão é expandida por Bleger (1964) quando afirma que a entrevista é, em si, um campo clínico e relacional. A maneira como o paciente se expressa (ou evita se expressar), organiza sua história, lida com a apreensão durante a entrevista e se coloca perante o psicólogo, já oferece sinais relevantes sobre seu grau de integração do ego, seus mecanismos de defesa e seus perigos de desestruturação psíquica. A entrevista, então, não examina apenas o conteúdo do discurso, mas também a forma e as condições emocionais em que esse discurso é produzido, e isso possui valor diagnóstico e prognóstico.

Essa ideia também é defendida por Tavares (2006), para quem a entrevista envolve um conjunto de métodos técnicos aplicados por um profissional qualificado, com tempo e finalidade definidos, e focados em construir uma relação profissional com o paciente. Nela se inicia a descrição e avaliação de características pessoais importantes para entender o sofrimento psicológico e para criar possíveis intervenções. Isso quer dizer que a entrevista não é apenas “escutar a história do paciente”, mas começar a transformar o sofrimento em uma necessidade clínica reconhecida.

Para Bleger (1964), a entrevista não é um processo neutro, no qual o paciente fala e o psicólogo só anota. Na verdade, é um espaço de interação, em que já aparecem as ansiedades, as defesas, a dependência e as formas de buscar (ou evitar) apoio. Para autor, a forma como a pessoa se comporta com o entrevistador, sendo submissa, agressiva, querendo seduzir, confusa, exigente, colaborando demais ou intelectualizando tudo, já diz muito sobre ela, porque mostra como ela costuma se relacionar e lidar com seus medos. Assim, a entrevista já é uma forma de intervenção, pois ela mexe com a pessoa e revela aspectos importantes de como ela funciona psicologicamente.

Voltando um pouco na história, até mesmo Freud (1913) já via a importância do primeiro contato no tratamento. A entrevista inicial, mesmo que não fosse chamada exatamente assim, servia para analisar se a pessoa conseguiria se envolver na análise: se estava disposta a falar livremente, quais eram suas resistências, como ela via o analista (transferência) e quais conflitos apareciam naturalmente na conversa.

Do ponto de vista ético-relacional, a entrevista psicológica também constitui o primeiro espaço de construção de confiança clínica. A forma como o psicólogo escuta, acolhe e legitima o sofrimento do paciente desde o primeiro contato influencia a possibilidade de continuidade do processo terapêutico. Nesse cenário, Rogers (1951) enfatiza que esse momento inicial precisa ocorrer em um clima de empatia, aceitação e autenticidade, permitindo que o paciente se sinta compreendido e seguro para falar de si. Esse clima afetivo inicial, frequentemente referido como rapport, não é um detalhe estético da prática, mas uma condição para que haja abertura emocional e colaboração.

Essa dimensão relacional inicial está diretamente ligada ao conceito de aliança terapêutica, entendida como o acordo construído entre terapeuta e paciente em torno de metas do tratamento, tarefas a serem realizadas e um vínculo de confiança mútua (Bordin, 1979). Segundo Lambert; Shimokawa (2011) e Lambert (2015), essa aliança, que começa a ser estabelecida já na entrevista inicial, é um dos principais preditores de adesão, redução de abandono precoce e melhores desfechos clínicos. Contexto em que se fundamenta a entrevista psicológica em quatro eixos interdependentes:

Eixo técnico-clínico: a entrevista é um procedimento profissional qualificado, com enquadre, finalidade e método definidos (Tavares, 2006; Seger, 2006).

Eixo comunicacional: ocorre como um espaço de esclarecimento do sofrimento e de construção compartilhada de sentido entre terapeuta e paciente (Sullivan, 1970).

Eixo diagnóstico: a entrevista inicial inaugura o processo psicodiagnóstico, formula hipóteses sobre funcionamento emocional e orienta as primeiras decisões clínicas (Ocampo; Arzeno, 2001; Bleger, 1964).

Eixo relacional: a entrevista dá início ao vínculo terapêutico, estabelece rapport, aliança e confiança, elementos que predizem adesão e resultados em psicoterapia (Rogers, 1951; Bordin, 1979; Lambert; Shimokawa, 2011).

Perspectiva em que a entrevista psicológica não é apenas um passo preliminar antes do tratamento de fato, mas um dispositivo clínico estruturante. É nela que o sofrimento do paciente se torna demanda clínica reconhecida, que o vínculo terapêutico começa a se estabelecer e que o tratamento passa a ganhar direção.

Desse modo, por seu papel fundante, a entrevista psicológica é uma das ferramentas fundamentais na prática clínica, frequentemente sendo a base para a compreensão inicial do paciente e o estabelecimento de um relacionamento terapêutico sólido. No entanto, é importante ressaltar que a entrevista psicológica não deve ser vista como um método isolado, mas sim como parte de uma abordagem mais ampla e integrada. Ainda, o psicólogo deve estar aberto a adaptar e complementar essa ferramenta com outras técnicas e abordagens, conforme necessário, para atender às necessidades específicas de cada indivíduo e situação terapêutica (Seger, 2006).

A entrevista psicológica é definida por Sullivan (1970, p. 4) como:

Uma situação de comunicação vocal entre duas pessoas (a two-group) mais ou menos voluntariamente integrados num padrão terapeuta-cliente que se desenvolve progressivamente com o propósito de elucidar formas características de vida das pessoas entrevistadas, e vividas por elas como particularmente penosas ou especialmente valiosas e, de cuja elucidação ela espera tirar algum benefício (p. 4).

Uma entrevista psicológica é um encontro estruturado entre um psicólogo e um indivíduo (ou grupo de indivíduos) com o objetivo de coletar informações relevantes para compreender questões emocionais, comportamentais, cognitivas e interpessoais. Essa técnica é uma das ferramentas mais fundamentais na prática clínica da psicologia e pode ocorrer em uma variedade de contextos, como clínicas, hospitais, escolas, empresas e ambientes de pesquisa.

Dentro dessa abordagem tradicional, na concepção do autor, a entrevista psicológica não é simplesmente uma etapa inicial, mas sim um componente fundamental da prática clínica. Na dinâmica assimétrica entre terapeuta e paciente, que se constrói gradualmente, o sofrimento é transformado em uma necessidade identificada, o laço terapêutico começa a se fortalecer e o rumo do tratamento se define. Ao trazer à luz maneiras típicas de viver, experimentadas como dolorosas ou valiosas, a entrevista mantém a esperança de melhoria para o entrevistado, o que lhe atribui um significado ético e um propósito prático no processo de cuidado (Sullivan, 1970, p. 4).

Simultaneamente, devido à sua natureza técnica e investigativa, a entrevista psicológica permanece relevante em diversos cenários, clínicos, educacionais, organizacionais e de pesquisa, sem comprometer a precisão metodológica. Nesses diferentes ambientes, o psicólogo adapta o enquadramento, o nível de estruturação e a gestão da comunicação (verbal, não verbal e por meio de tecnologias), integrando a entrevista a outras técnicas e procedimentos, para atender às necessidades específicas de cada indivíduo e situação (Seger, 2006).

A entrevista psicológica, agindo como uma ponte entre a teoria e a prática clínica, desempenha diversas funções interdependentes que dão forma a todo o percurso de cuidado: ela qualifica a coleta de informações, atentando para o que é dito e como é dito (Sullivan, 1970; Rogers, 1951); aprofunda a compreensão subjetiva ao desvelar os padrões de vida, as interpretações e as ferramentas internas do indivíduo (Sullivan, 1970; Bleger, 1980); oferece apoio ao raciocínio diagnóstico, estruturando suposições e guiando as resoluções sobre direcionamentos e análises adicionais (Seger, 2006; Kanfer; Saslow, 1969); e marca o início da intervenção, ao estabelecer os limites, combinar metas e fortalecer a ligação terapêutica logo nas primeiras sessões (Bordin, 1979; Wampold, 2015). A seguir, cada uma dessas atribuições será explorada em termos de seus propósitos, métodos e repercussões morais e práticas.

i) Coleta qualificada: a entrevista estrutura a coleta da história clínica e das queixas do paciente de forma sistemática, documentando tanto o conteúdo (relato, momentos cruciais, hábitos) quanto a maneira de expressá-lo (lógica da narrativa, emoções, linguagem corporal). Para Sullivan (1970), a entrevista é um percurso gradual que desvenda modos típicos de viver e orienta o tratamento. Bleger (1980) salienta que a entrevista é ao mesmo tempo análise e ação, a forma de contar, as pausas e a atitude do entrevistado revelam a coesão do ego e a necessidade de suporte técnico. Tecnicamente, Rogers (1951) enfatiza a escuta atenta (empatia, aceitação total, autenticidade) como elementos que aprimoram a coleta e reduzem as resistências. Em abordagens comportamentais, a coleta segue critérios de avaliação funcional, detalhando causas, reações e resultados (Kanfer; Saslow, 1969; Haynes; O’Brien, 2000).

ii) Compreensão subjetiva: a entrevista vai além da listagem de sintomas, buscando desvendar hábitos de vida, sentidos e princípios, conectando dor e forças. Sullivan (1970) ndemonstra a dualidade entre o doloroso e o precioso, enquanto Bleger (1980) reforça que a entrevista expõe a estrutura do ego e das relações. Nas correntes fenomenológicas, a entrevista visa a descrição detalhada da vivência, evitando explicações rápidas e incentivando a compreensão do fenômeno (Jaspers, 1963; Giorgi, 2009). Essa abordagem expande o foco da queixa–sintoma para o contexto de vida e o campo das relações, mantendo a individualidade do sujeito.

iii) Apoio ao raciocínio diagnóstico:  a conversa auxilia na criação de suposições (psicodinâmicas, fenomenológicas, comportamentais), na estimativa de perigo e em escolhas sobre direcionamentos, análises adicionais (testes, escalas) e acordo terapêutico. Na prática psicodinâmica, a história contada, as emoções e as proteções fortalecem suposições de entendimento (Bleger, 1980). Na abordagem comportamental, o estudo funcional guia suposições verificáveis e objetivos práticos (Kanfer; Saslow, 1969; Haynes; O’Brien, 2000). Para perigo, por exemplo, suicídio, a entrevista organiza sinais próximos e distantes e meios de controle (Joiner, 2005). Nesse contexto, segundo Seger (2006), a entrevista junta dados pessoais e impessoais, atuando como base de ligação do processo de avaliação e das decisões na clínica

iv) Início da intervenção:  a entrevista já intervém: controle da estrutura, educação inicial, aceitação do sofrimento e retorno inicial provocam efeitos terapêuticos, união, otimismo, direção. Bordin define a união de trabalho como acordo sobre alvos, atividades e ligação, se forma desde as primeiras conversas e prevê resultados (Bordin, 1979). Os estudos dos fatores comuns mostram que aspectos de relacionamento, como empatia, união, expectativa, são responsáveis por grande parte da mudança (Frank; Frank, 1991; Lambert, 1992; Wampold, 2015). Desse modo, a entrevista inicial, quando bem feita, harmoniza alvos, combina atividades e estabelece uma expectativa real de melhora, guiando o plano de tratamento.

Entende-se que entrevista psicológica sobressai por integrar, numa única ação, a escuta atenta, a análise aprofundada e o começo da ajuda, servindo como base para todos os outros passos.  Também proporciona o cenário real que dá significado aos dados concretos e, ao mesmo tempo, aponta restrições, carências e oportunidades de cada pessoa. Partindo dessa percepção da importância da entrevista, faz-se necessário diferenciar o que ela realiza e o que os outros recursos clínicos fazem, exames, formulários e histórico, evidenciando não só suas características técnicas, mas principalmente como cada um deles deve ser usado de maneira integrada para construir uma análise psicológica responsável, completa e lógica.

Assim, diferenciar a entrevista psicológica de outras ferramentas de avaliação, como testes, questionários e a história clínica, depende, principalmente, da essência da informação produzida e da maneira como cada método se relaciona com a pessoa. A entrevista, como explicada por Sullivan (1970) e aprofundada por Bleger (1980), é uma situação clínica de relacionamento, em que a informação não é simplesmente obtida, mas construída durante a interação. A forma como o paciente conta sua história, demonstra hesitação, contradiz-se ou expressa emoção é tão reveladora quanto o conteúdo do que ele diz, por isso Seger (2006) destaca que a entrevista não é apenas uma técnica de coleta, mas uma ferramenta de compreensão, pois permite entender o sintoma dentro de um contexto de vida e, ao mesmo tempo, iniciar o processo de ajuda.

Os testes psicológicos, por outro lado, possuem um papel diferente, como afirmam Anastasi e Urbina (2000), o teste é uma ferramenta padronizada, criada com base em critérios psicométricos de validade e confiabilidade, com o objetivo de gerar resultados comparáveis entre indivíduos e com grupos de referência, o que concede aos testes uma precisão que a entrevista não possui,  a capacidade de quantificar características, funções cognitivas ou aspectos da personalidade com controle de viés e erro.

No entanto, essa mesma padronização limita a flexibilidade da situação, o indivíduo responde dentro de um formato predefinido, com pouca liberdade para expressar o como de sua experiência. É nesse ponto que a entrevista se torna complementar, dado que auxilia o psicólogo a atribuir significado clínico ao resultado numérico, questionando qual o impacto disso na vida dessa pessoa, neste momento.

Os questionários e escalas de autoavaliação seguem uma lógica distinta. Eles são úteis para seleção inicial, acompanhamento e identificação de sintomas, especialmente em contextos de serviço ou pesquisa, devido à sua rapidez, baixo custo e facilidade de aplicação. Contudo, como ressalta Rogers (1951), ferramentas com respostas fechadas tendem a captar muito bem o que está acontecendo, mas pouco sobre como isso é vivenciado, e é justamente esse como que é relevante para a clínica centrada na pessoa.

Perspectiva em que o questionário informa sobre a intensidade dos sintomas, enquanto a entrevista revela o significado que o indivíduo atribui ao seu próprio sofrimento, se ele se sente culpado, injustiçado, envergonhado ou ameaçado, ou seja, são diferentes níveis de informação.

A anamnese, por outro lado, frequentemente se confunde com a entrevista, embora seu propósito seja mais o registro documental e histórico. Organiza informações como dados demográficos, histórico familiar, desenvolvimento, doenças, escolaridade, e trajetória profissional, sendo, como define Bleger (1980), uma imagem do caminho percorrido. A coleta de dados é fundamental para situar o indivíduo no tempo e espaço, mas não substitui a entrevista, uma vez que, geralmente, foca mais nos fatos do que em sua significância. A entrevista psicológica, por sua vez, considera como o fato impacta o psiquismo.

Metodologicamente, pode-se afirmar que a entrevista é o ponto central integrador da avaliação, visto que ela sinaliza quando há necessidade de aplicar um teste, indica em que momentos a coleta de dados deve ser aprofundada e mostra quando um questionário pode auxiliar na quantificação de um dado que apareceu qualitativamente (como nível de ansiedade ou ideação suicida), é o que Seger (2006) descreve ao caracterizar a entrevista como a base articuladora do processo clínico.

Vale lembrar o que menciona Bleger (1980) e Ocampo e Arzeno (2001) quando afirmam que apenas a entrevista possibilita avaliar aspectos processuais, como resistência, transferência inicial, capacidade de simbolização, organização do ego, já os testes e questionários informam sobre o produto (resultado), mas pouco sobre o processo, a reação ao encontro, como o indivíduo enfrenta questões complexas, como organiza a narrativa. E, na prática clínica, frequentemente o processo guia o tipo de abordagem e intervenção que o psicólogo propõe. Dessa forma, não se trata de eleger a entrevista como superior a testes, questionários ou coleta de dados, mas de reconhecer suas funções distintas.

2.2 Tipos de Entrevista Psicológica

As áreas da metodologia e psicologia aplicada observam que não existe um único tipo de entrevista psicológica, destacam que existem diferentes abordagens que variam de acordo com o nível de direcionamento do entrevistador, o propósito da avaliação e a perspectiva teórica utilizada. Gil (2002) e Severino (2007) mencionam três tipos mais comuns, a entrevista estruturada, a semiestruturada e a livre (ou não diretiva). Essa classificação demonstra que a entrevista é mais do que apenas uma conversa, é um procedimento técnico que pode ser mais ou menos controlado, mantendo sempre a sua natureza relacional, que a distingue de outras ferramentas.

Na entrevista estruturada, o psicólogo utiliza um roteiro previamente preparado, com perguntas específicas e uma ordem estabelecida, formato que é particularmente útil quando se busca comparar dados, como em estudos com muitos participantes, processos de seleção ou avaliações que precisam seguir um protocolo institucional. A principal vantagem é a padronização, que diminui o viés do entrevistador e simplifica a análise posterior, no entanto, como observa Gil (2002), essa padronização tem como consequência a diminuição da espontaneidade do entrevistado, assim quanto mais restrito o instrumento, menor a oportunidade para o indivíduo apresentar o que é mais importante para ele, e é por essa razão que em contextos clínicos, seu uso geralmente é complementar, e não exclusivo.

A entrevista semiestruturada, conforme apontam Gil (2002) e Severino (2007), surge como o método mais equilibrado e, portanto, o mais utilizado na prática da psicologia. Parte-se de um guia com temas (queixa, histórico do problema, laços familiares, recursos pessoais), mas o entrevistador pode mudar a ordem, detalhar assuntos e fazer perguntas abertas de acordo com a fala do entrevistado. Modelo que mantém uma organização mínima, que assegura a coleta dos dados fundamentais, mas, ao mesmo tempo, preserva a maleabilidade clínica necessária para receber o inesperado, o emocional e o implícito. É o formato que melhor se alinha com a ideia de entrevista como um “encontro”, como descrito por Sullivan (1970) e retomado por José Bleger (1980), quando a informação é construída na interação, e não somente registrada.

Por outro lado, a entrevista livre, conhecida como não diretiva ou aberta, é a que concede maior independência ao entrevistado e dá mais ênfase ao processo da relação. Ela se aproxima das abordagens fenomenológicas e da psicologia focada na pessoa, nas quais o interesse principal não é preencher campos, mas sim entender como o indivíduo experimenta o que vive. Rogers (1951) mostra que, quando o entrevistador oferece empatia, aceitação e autenticidade, o paciente tende a organizar sua própria história e a revelar conteúdos que não surgiriam em formatos rígidos. O autor destaca que há também desvantagem nesse modelo, a exigência de mais experiência clínica para que o profissional, mesmo acolhendo o discurso livre, consiga levantar informações essenciais (histórico de saúde, perigo, contexto familiar).

Conforme Cunha (2000), a escolha do tipo de entrevista deve considerar o objetivo da avaliação e o contexto de aplicação, em avaliações de natureza pericial ou mais diretiva, a entrevista estruturada ou semiestruturada é a mais indicada. Esse entendimento é convergente com Seger (2006), ao afirmar que a entrevista se adapta ao setting, assim a escolha do tipo de entrevista não é imparcial, resulta do objetivo da avaliação (clínica, institucional, pericial, de pesquisa), do contexto de aplicação e da linha teórica do psicólogo. Abordagens mais estruturadas, como a terapia cognitivo-comportamental ou a avaliação psicológica pericial, costumam preferir entrevistas estruturadas ou semiestruturadas, pois necessitam de dados comparáveis, indicadores de risco e definição rápida de intervenções. Nas perspectivas psicodinâmicas, fenomenológicas ou humanistas tendem a trabalhar com entrevistas mais abertas, porque valorizam o processo, o vínculo e o surgimento da subjetividade. Em todos os casos, porém, vale o princípio apontado por Seger (2006), a entrevista é o ponto central da avaliação, pode ser mais rígida ou mais flexível, mas é sempre ela que determina se será necessário aplicar testes, usar questionários ou aprofundar a anamnese.

2.3 Rapport e Aliança terapêutica

Uma consulta psicológica vai além do simples ato de questionar, dependendo bastante da vínculo estabelecida entre o psicólogo e o paciente, é quando surgem dois conceitos estruturantes: Rapport  e aliança terapêutica, que mesmo interligados, são distintos, porque a rapport se refere à atmosfera inicial de confiança e abertura que possibilita a consulta, a aliança terapêutica é uma ligação mais firme, focada no trabalho, que inclui concordância sobre metas e atividades durante o tratamento.

2.3.1 Conceito de rapport

Na área da psicologia clínica, o conceito de rapport se refere àquela conexão harmoniosa entre o profissional e a pessoa que busca ajuda, é um estado no qual o indivíduo se sente à vontade para expressar seus pensamentos, percebe que está sendo verdadeiramente compreendido e tem seus limites respeitados. Rogers (1951), ao abordar os elementos fundamentais para que a terapia funcione, menciona algo bem parecido com o rapport ao falar da capacidade de sentir empatia, de aceitar o outro sem julgamentos e da autenticidade do terapeuta. Quando o profissional age de forma sincera e receptiva, o paciente se sente mais inclinado a confiar e a se abrir. De maneira similar, estudiosos da avaliação psicológica destacam que o rapport é essencial antes da coleta de informações, pois diminui a resistência e o nervosismo do entrevistado (Cunha, 2000). Compreende-se, então, o rapport como a base do relacionamento que torna possível todo o processo terapêutico.

Vale destacar, como apontam Rogers (1951, 1957) e, posteriormente, Truax e Carkhuff (1967), que a construção do rapport não é um acontecimento espontâneo, mas o resultado do uso intencional de habilidades relacionais por parte do psicólogo. O autor descreve que a combinação de empatia, aceitação positiva incondicional e congruência cria o clima psicológico necessário para que o cliente se sinta seguro e, assim, possa se autorrevelar; nesse sentido, o profissional precisa demonstrar, na prática, que está compreendendo o sentimento e não apenas o conteúdo do relato.

Também Egan (2014) mostra que o rapport pode ser favorecido por comportamentos observáveis, como a escuta ativa, que é o contato visual, postura voltada para o entrevistado, paráfrases e perguntas abertas, que sinalizam interesse genuíno e reduzem a sensação de julgamento. Além disso, Truax e Carkhuff (1967) enfatizam que a coerência entre linguagem verbal e não verbal é fundamental, uma vez que incongruências de tom de voz, expressão facial ou distância física podem romper o clima de confiança mesmo quando o conteúdo da fala é acolhedor. Acrescenta Cunha (2000) que o estabelecimento de rapport na entrevista psicológica exige também respeito ao ritmo do paciente e um enquadre estável, sem pressão precoce para temas dolorosos, aspecto igualmente lembrado por Bleger (1980) ao afirmar que o setting funciona como continente da experiência emocional.

2.3.2 Aliança terapêutica

O rapport é considerado o início da boa relação e a aliança terapêutica é a relação em andamento, organizada em torno do tratamento. Bordin (1979) apresentou um dos modelos de aliança, composto por três dimensões:

i) Acordo sobre objetivos (o que queremos alcançar aqui?);

ii) Acordo sobre tarefas (o que cada um vai fazer para chegar lá?);

iii) Vínculo (o quanto terapeuta e paciente sentem que podem trabalhar juntos).

    Este modelo ganha relevância ao elucidar que a aliança terapêutica transcende a simples simpatia pelo terapeuta, englobando também uma concordância no objetivo do tratamento. Pesquisas subsequentes sobre os resultados da psicoterapia, a exemplo dos estudos de Lambert e Shimokawa (2011), revelam que a aliança terapêutica se destaca como um dos indicadores mais consistentes de sucesso clínico, independentemente da linha teórica adotada.

    Do ponto de vista didático, é válido afirmar, em consonância com Rogers (1951, 1957), Bordin (1979) e com as evidências apresentadas por Lambert e Shimokawa (2011) que o início de qualquer jornada clínica bem-sucedida se dá com a criação de um rapport, embora essa conexão nem sempre evolua para uma aliança terapêutica. Enquanto o rapport pode surgir logo no primeiro contato, a aliança geralmente se fortalece com o tempo, à medida que as funções de cada um, a estrutura do tratamento e os alvos a serem alcançados se tornam nítidos. A entrevista psicológica, especialmente no formato semiestruturado, oferece um ambiente ideal para converter esse rapport inicial em uma aliança terapêutica, já que o psicólogo não apenas oferece apoio, mas também oferece reflexões, elucida questões e define objetivos em conjunto.

    Em termos de metodologia, entender a relevância da rapport e da aliança implica reconhecer que a entrevista não é imparcial, a forma como o psicólogo questiona impacta as respostas do paciente. Uma entrevista distante, excessivamente orientada ou com jargões técnicos pode até coletar informações, mas raramente incentivará o surgimento de conteúdos subjetivos valiosos. Por outro lado, uma entrevista conduzida com atenção plena, compreensão e feedback claro tende a gerar informações mais autênticas, contextualizadas e clinicamente proveitosas. É por essa razão que Seger (2006) e Cunha (2000) argumentam que a entrevista é a peça-chave do processo de avaliação, ela não só coleta dados, mas também estabelece a relação que sustenta todo o tratamento.

    2.4 Vínculo Terapêutico

    O vínculo estabelecido na terapia é fundamental no trabalho psicológico, pois é nesse espaço que o paciente avalia se pode confiar, se será ouvido sem críticas e se vale a pena se dedicar ao tratamento. Rogers (1951, 1957), com sua abordagem centrada na pessoa, já dizia que as transformações significativas dependem mais da qualidade da relação entre terapeuta e cliente do que da técnica em si. O autor apontava três elementos fundamentais: a empatia, entender o universo do outro como se fosse o seu, sem perder essa distinção, a aceitação total e sem reservas, acolher a pessoa sem importar o que ela traz, e a congruência ou autenticidade (o terapeuta ser verdadeiro, sem encenar). Para Rogers (1951, 1957), com esses elementos presentes, o cliente se sente valorizado e visto, o que Rogers considera essencial para que ele se sinta à vontade para questionar suas crenças, expressar seus sentimentos e mudar seus padrões de relacionamento.

    Na América Latina, Pichon-Rivière (1975) aprofundou muito a ideia de vínculo. Para ele, não é apenas uma simpatia entre terapeuta e paciente, mas sim uma estrutura de relação que envolve o indivíduo, o objeto e a imaginação que os conecta, ou seja, toda relação traz consigo expectativas, receios, papéis e modelos internos de relação aprendidos na história familiar e social da pessoa. Na prática, isso significa que o paciente não chega vazio: ele revive no terapeuta vínculos antigos de dependência, desconfiança, submissão, ataque, e o profissional deve identificar e lidar com esse padrão, oferecendo um vínculo mais acolhedor e menos opressor. O autor também ressalta que o vínculo é sempre dinâmico, pode ajudar no processo terapêutico ou, se não for bem conduzido, pode interrompê-lo.

    A relevância clínica desse aspecto é imediata, um vínculo terapêutico forte eleva a adesão ao tratamento, simplifica o retorno do paciente às consultas, promove a segurança para abordar temas delicados, como violência, sexualidade, pensamentos suicidas, e aprimora a exatidão dos dados obtidos na entrevista. Pesquisas de processo e resultado em psicoterapia, como as de Lambert e Shimokawa (2011), mostram que a qualidade da relação terapeuta–paciente é um dos melhores preditores de sucesso, até mais do que a técnica específica utilizada. Assim, sem vínculo, mesmo intervenções tecnicamente corretas podem fracassar; com vínculo, o paciente tolera desconforto, aceita interpretações e se engaja em mudanças mais duradouras.

    Nessa perspectiva, na entrevista psicológica, não basta saber perguntar, é preciso saber vincular-se, o que implica combinar o que Rogers chamou de atitude facilitadora com o que Pichon-Rivière chamou de leitura do vínculo, e atualizar para o cenário contemporâneo.

    2.5 A entrevista psicológica nas diferentes abordagens terapêuticas

    A forma de conduzir a entrevista psicológica não é uniforme em todas as clínicas psicológicas, é modelada pelos pressupostos teóricos de cada abordagem e pelos objetivos que o terapeuta tem naquele primeiro contato. Por isso, entender “como” se entrevista em psicanálise, em TCC, em abordagem humanista ou em terapias sistêmicas/fenomenológicas ajuda a mostrar que a entrevista não é apenas uma técnica, mas um dispositivo clínico situado.

    Psicanálise, na tradição psicanalítica clássica, a entrevista inicial tem como função principal avaliar a condição do sujeito para o processo analítico, identificar o tipo de demanda e instaurar o enquadre. Em Freud, sobretudo nos textos clínicos (1909, 1913), aparece a ideia de que o analisando precisa ser convidado à regra fundamental, falar tudo o que vier à mente, o que depois será formalizado como associação livre. Nessa lógica, a entrevista não é só para coletar dados, mas para observar o funcionamento do sujeito em situação transferencial: como ele fala, o que evita, que lapsos produz, como responde ao silêncio. Autores de escola argentina como Ocampo e Arzeno (2001) reforçam esse ponto: a entrevista psicanalítica é um procedimento diagnóstico-dinâmico, porque permite inferir organização do eu, mecanismos de defesa e qualidade dos vínculos, ao mesmo tempo em que já inaugura a transferência. Assim, o foco não está apenas na história factual, mas na forma como essa história é narrada e investida afetivamente.

    Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), na TCC é a entrevista mais estruturada e focal porque a abordagem trabalha com problemas atuais, hipóteses sobre crenças centrais e planos de intervenção que precisam ser claros e compartilhados. Beck (2013) descreve que a entrevista inicial na TCC busca: (a) identificar o problema-alvo; (b) levantar pensamentos automáticos e crenças subjacentes; (c) mapear fatores de manutenção; e (d) explicar o modelo cognitivo ao paciente, por isso é comum que a TCC use entrevistas semiestruturadas, roteiros e até instrumentos padronizados, justamente para ter dados comparáveis e indicadores de risco. Diferentemente da psicanálise, aqui o silêncio longo e a associação livre não são recursos centrais, o que se busca é uma formulação de caso que será testada e atualizada ao longo do tratamento.

    Abordagem humanista–centrada na pessoa, nessa abordagem, Rogers (1951, 1957), a entrevista é antes de tudo um encontro e não uma triagem. O objetivo principal é criar um clima psicológico de empatia, aceitação positiva incondicional e congruência, de modo que o cliente possa se ouvir e se reorganizar na própria fala. A diretividade é mínima e o foco recai sobre como o cliente vive o que conta, mais do que sobre o conteúdo em si. Aqui, a entrevista é já momento de experiência corretiva de aceitação: o cliente é recebido sem rótulos, o que, para Rogers, é em si terapêutico. Diferente da TCC, que organiza a fala em problemas e metas, a abordagem humanista privilegia o fluxo da experiência e o aprofundamento do sentimento.

    Outras abordagens (sistêmica, fenomenológica), nas abordagens sistêmicas, a entrevista quase nunca é apenas com o indivíduo, ela considera o sistema de relações (família, casal, grupo) e busca o padrão interacional que está mantendo o sintoma. Assim, a terapeuta entrevista para mapear posições, alianças e fronteiras familiares (Minuchin, 1990), bem como as narrativas que organizam o sistema (White, 2007). A entrevista, aqui, é também uma intervenção, porque ao circular a palavra entre os membros o terapeuta já modifica o sistema.
    Nas abordagens fenomenológicas, inspiradas em Jaspers (1963) e Giorgi (2009), a entrevista é conduzida de forma aberta, descritiva, com suspensão de explicações prematuras, o objetivo é acolher a vivência tal como se apresenta, buscando a essência da experiência e não uma categorização imediata.

    2.6 Feedback e avaliação contínua

    As discussões mais recentes sobre processo terapêutico têm mostrado que avaliar e devolver informação ao paciente é, hoje, parte integrante da intervenção. Já não se entende a entrevista apenas como momento de colher dados para o terapeuta guardar e interpretar depois; ela passa a ser também um espaço de feedback clínico estruturado, no qual o profissional compartilha com o paciente o que está percebendo, checa se aquilo faz sentido e, se necessário, reformula o plano de atendimento. É esse o movimento que Lambert e Shimokawa (2011) chamam de monitoramento sistemático de resultados e que Boswell et al. (2013) mostram ser capaz de reduzir abandonos, antecipar crises e melhorar desfechos.

    A lógica é simples: quando o terapeuta acompanha o progresso sessão a sessão, seja por meio de instrumentos breves de acompanhamento, como o Outcome Rating Scale (ORS) e o Session Rating Scale (SRS), propostos por Miller e Duncan (2003), que permitem ao terapeuta monitorar, sessão a sessão, progresso e qualidade da aliança, seja com perguntas clínicas padronizadas – ele deixa de depender apenas da própria impressão e passa a trabalhar com indicadores de mudança. Se os dados mostram que o paciente não está melhorando dentro do tempo esperado, o terapeuta pode: (i) revisar o foco; (ii) mudar a técnica; (iii) envolver familiares; ou (iv) encaminhar para avaliação psiquiátrica. Esse ajuste precoce é o que faz o tratamento ser mais eficiente. Lambert (2013) destaca, inclusive, que os ganhos são maiores em casos de alto risco, baixa adesão ou comorbidade, justamente porque o feedback torna o processo mais claro e contratual.

    Nesse cenário, a entrevista psicológica ganha uma segunda camada de função. Além de ser o momento de levantar queixa, história e contexto, ela é também o momento de devolutiva contínua: o psicólogo retoma o que apareceu na última sessão. Esse tipo de conversa não é apenas acolhedora, ele aumenta a agência do paciente, porque o coloca como participante do plano, e não apenas como alguém que recebe interpretações.

    Outro ponto importante é que o feedback sistemático fortalece a aliança terapêutica. Quando o profissional pergunta “como foi para você essa sessão?”, “isso ajudou?”, “tem algo que eu poderia fazer diferente?”, ele está comunicando duas coisas ao paciente, primeiro, que ele está ouvindo de verdade; segundo, que o tratamento é negociável. Lambert e Shimokawa (2011) mostram que esse tipo de postura diminui a assimetria e cria um clima de colaboração, o que é coerente com o modelo de aliança de Bordin (1979) – acordo sobre objetivos, acordo sobre tarefas e vínculo. O feedback entra exatamente aí, serve para conferir se objetivo e tarefa continuam combinando com o que o paciente quer e consegue fazer naquele momento.

    Podemos, então, dizer que, nas terapias atuais, a entrevista opera em duas vias complementares: Via avaliativa – na qual se levantam informações, se testam hipóteses, se identificam crenças, sintomas e dinâmica relacional; Via reguladora – na qual se devolve ao paciente o que foi percebido, se pede confirmação, se acolhem discordâncias e se ajusta o plano terapêutico.

    Quando essas duas vias funcionam juntas, o processo fica mais transparente, o paciente tende a aderir mais (porque entende o que está sendo feito e por que) e o terapeuta consegue prevenir falhas de tratamento antes que ele seja interrompido. Em termos práticos, é a atualização contemporânea daquilo que Bordin (1979) já propunha, a terapia dá mais certo quando terapeuta e paciente estão de acordo sobre o que estão fazendo juntos, e o feedback, conduzido dentro da entrevista, é a ferramenta que mantém esse acordo vivo.

    3 ABORDAGENS METODOLÓGICAS

    A metodologia adotada neste estudo ancora-se em uma perspectiva qualitativa, de natureza bibliográfica e caráter descritivo-analítico, por compreender que a entrevista psicológica é, ao mesmo tempo, técnica de investigação e acontecimento relacional, e que, por isso, precisa ser analisada no plano dos conceitos e não apenas no plano dos procedimentos.

    A escolha pelo percurso bibliográfico justifica-se porque o objeto não é mensurável em termos estatísticos simples, trata-se de compreender como a entrevista se torna dispositivo clínico estruturante, essa compreensão já está presente em Tavares (2006), quando define a entrevista como um encontro técnico, com tempo e finalidade delimitados, que visa descrever e avaliar características pessoais relevantes e, a partir delas, organizar intervenções benéficas ao paciente.

    Tomou-se, portanto, como fontes principais os autores clássicos que descrevem a entrevista como situação comunicativa e clínica, Sullivan (1970), ao caracterizá-la como interação progressiva entre terapeuta e paciente destinada a esclarecer aspectos de vida vividos como penosos; Rogers (1951, 1957), ao mostrar que a escuta empática, a aceitação positiva incondicional e a autenticidade do terapeuta criam o clima psicológico necessário para a autorrevelação; Bleger (1964/1980), ao afirmar que a entrevista “não é neutra”, mas campo onde já emergem defesas, ansiedades e modo de vincular-se; e Ocampo e Arzeno (2001), que situam a primeira entrevista no centro do psicodiagnóstico, pois nela se colhe o motivo da consulta e já se começa a relação terapêutica. Esses referenciais foram complementados por autores do campo da aliança terapêutica, sobretudo Bordin (1979), que concebe a entrevista inicial como o momento em que metas, tarefas e vínculo começam a ser negociados, e pelos estudos de Lambert e Shimokawa (2011), que atualizam o papel da entrevista como lugar de feedback e monitoramento de progresso.

    O procedimento metodológico ocorreu em três movimentos articulados: primeiro, fez-se um mapeamento conceitual das definições de entrevista psicológica presentes nas diferentes matrizes clínicas (psicanálise, humanista, cognitivo-comportamental, fenomenológica e sistêmica), identificando em cada uma quais funções são atribuídas à entrevista: coleta qualificada, compreensão subjetiva, apoio ao raciocínio diagnóstico e início da intervenção. Essa etapa baseou-se especialmente em Sullivan (1970), Rogers (1951), Bleger (1964), Ocampo e Arzeno (2001) e Seger (2006), que convergem na tese de que a entrevista não é pré-terapia, mas o próprio começo da terapia.

    Em um segundo momento, procedeu-se a uma análise comparativa entre a entrevista e outros instrumentos de avaliação psicológica (testes, questionários, anamnese), para mostrar com Anastasi e Urbina (2000) e com a discussão presente no próprio corpus, que tais instrumentos produzem dados padronizados, úteis e comparáveis, mas não substituem o componente relacional e processual que só a entrevista oferece. A partir de Seger (2006) e Cunha (2000), adotou-se a noção de que a entrevista é o ponto de articulação, uma vez que é ela que diz quando vale aplicar um teste, quando a história clínica precisa ser aprofundada e quando um questionário pode quantificar um dado que apareceu qualitativamente metodologicamente, isso significa tratar a entrevista como eixo integrador da avaliação clínica.

    Seguidamente, realizou-se uma síntese interpretativa que integra o plano técnico (o que se pergunta, em que ordem, com que nível de estruturação) ao plano relacional (rapport, vínculo, aliança, devolutiva). Aqui ganham centralidade Rogers (1951), Pichon-Rivière (1975/1988), Bordin (1979) e os estudos de resultado em psicoterapia de Lambert (2013), que demonstram que a qualidade da relação terapeuta–paciente é um dos melhores preditores de sucesso, independentemente da abordagem.

    A entrevista foi, então, tomada como lugar privilegiado de avaliação contínua, nela o terapeuta não só coleta dados, mas também devolve ao paciente o que foi percebido, checa se faz sentido, reformula hipóteses e ajusta o plano de tratamento, exatamente o que Lambert e Shimokawa (2011) descrevem nos modelos de feedback-informed treatment. Essa perspectiva confirma o que Seger (2006) chama de entrevista como base articuladora do processo clínico, e o que o próprio texto de referências já indica ao mostrar que a entrevista, o rapport, o vínculo e o feedback formam um circuito único que sustenta o atendimento.

    Assim, a metodologia adotada não se limita a descrever como se faz uma entrevista, mas busca demonstrar, por meio de uma revisão de literatura, com apoio em autores clássicos e contemporâneos, porque a entrevista ocupa posição estruturante na clínica psicológica.

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    A análise do corpus teórico indica, de forma convergente, que a entrevista psicológica ocupa uma posição central no processo clínico, independentemente da abordagem adotada. Essa centralidade aparece Sullivan (1970), quando o autor define a entrevista como uma situação de comunicação vocal que se desenvolve progressivamente com o propósito de elucidar modos de vida vividos como penosos ou valiosos, e que o entrevistado espera ver transformados. Então, desde a formulação inicial, a entrevista não é vista como ato burocrático ou apenas inquisitivo, mas como espaço clínico de transformação, no qual o sofrimento se organiza como demanda. Essa mesma percepção é retomada, por Ocampo e Arzeno (2001) ao situarem a entrevista diagnóstica como o momento em que se colhem dados e, ao mesmo tempo, instala-se a relação terapêutica.

    Um primeiro resultado é a constatação de que a entrevista psicológica tem uma dupla natureza, é técnica e é relação.  Rogers (1951, 1957) demonstra que, sem condições relacionais facilitadoras, empatia, aceitação positiva incondicional e autenticidade, o sujeito não se autorrevela, mesmo que o entrevistador domine o roteiro técnico. Do outro lado, Bleger (1980) insiste que a entrevista não é uma conversa livre, ocorre dentro de um setting que o terapeuta sustenta, e esse enquadre (tempo, lugar, postura, limites) é que permite que o material psíquico apareça com segurança. Quando unimos Rogers e Bleger, temos um resultado importante, a qualidade do dado clínico é indissociável da qualidade do vínculo. Logo, nem só técnica (roteiro, perguntas, classificação), nem só acolhimento (conversa espontânea), a entrevista boa é a que consegue aliar manejo técnico e continência afetiva.

    A partir dessa compreensão, torna-se possível enxergar que essa dupla natureza se desdobra no próprio fazer clínico, pois a leitura integrada dos autores mostra que a entrevista não cumpre apenas uma função, mas pelo menos quatro funções interdependentes:

    Coleta qualificada de informações – Sullivan (1970) e Tavares (2006) mostram que é na entrevista que se obtém história, queixa, contexto, mas também modo de narrar.

    Compreensão subjetiva – em Rogers (1951) e em Bleger (1980), entrevistar é compreender o sentido daquele sofrimento para aquela pessoa, e não apenas nomear sintomas.

    Apoio ao raciocínio diagnóstico – Ocampo e Arzeno (2001) e Jurema Alcides Cunha (2000) mostram que é a entrevista que diz se será necessário aplicar teste, aprofundar anamnese, investigar risco.

    Início da intervenção – aqui entra Bordin (1979) que afirma que, já na entrevista, negociam-se objetivos e tarefas e instala-se o vínculo de trabalho.

    Esse encadeamento confirma a afirmação de Seger (2006) de que a entrevista é a base articuladora da avaliação clínica, visto que é nela que as outras técnicas são convocadas, ordenadas e interpretadas.

    Os resultados também apontam para uma distinção nítida entre a entrevista e os demais instrumentos de avaliação. Anastasi e Urbina (2000) deixam claro que os testes psicológicos têm a função de produzir medidas padronizadas com validade e fidedignidade conhecidas, são excelentes para comparar sujeitos, estabelecer níveis de funcionamento e apoiar decisões periciais. Contudo, exatamente por serem padronizados, eles reduzem a espontaneidade e o contexto. Já a entrevista, conforme mostram Rogers (1951) e Bleger (1980), recolhe o como e não só o quanto: hesitações, contradições, afetos, silêncios, defesas e transferências iniciais, por isso, como bem observam Cunha (2000) e Seger (2006), o lugar metodológico da entrevista não é o de competir com testes, questionários e anamnese, mas o de decidir sobre o uso deles e de dar sentido clínico ao que eles produzem.

    Um ponto relevante da discussão é que, embora a entrevista seja comum a quase todas as práticas clínicas, o seu formato é modelado pela abordagem teórica. Na psicanálise, a entrevista inicial busca observar o funcionamento psíquico e instaurar a transferência; por isso admite mais silêncio, mais livre associação e mais atenção a lapsos (Freud (2012-2013); Ocampo; Arzeno (2001). Na terapia cognitivo-comportamental, conforme Beck (2013), a entrevista é mais semiestruturada e focal, porque precisa identificar o problema-alvo, levantar crenças centrais, definir objetivos e explicar o modelo cognitivo. Na abordagem humanista, com Rogers (1951), ela é prioritariamente relacional e não diretiva: não se quer apertar o paciente, mas oferecer clima para que ele próprio se escute.

    Em modelos sistêmicos e fenomenológicos, a entrevista se torna circular e contextual, olhando para o campo das relações (Pichon-Rivière, 1975) ou para a descrição da experiência (Jaspers, 1963; Giorgi, 2009). O resultado disso é que não existe uma entrevista única e fixa, mas um núcleo conceitual estável (escuta, vínculo, finalidade clínica) que cada abordagem ajusta ao seu modo de conceber o sujeito.

    Outro achado importante é que aquilo que a literatura de processo e resultado em psicoterapia chama de fatores comuns, empatia, aliança, expectativa de melhora, é instalado já na entrevista. Rogers (1951) mostra que a empatia e a aceitação não são clima de simpatia, mas condições técnicas para que o paciente se exponha. Pichon-Rivière (1975) amplia a noção de vínculo mostrando que toda relação traz consigo uma história vincular e que o terapeuta precisa conter e ressignificar isso. Bordin (1979), por sua vez, demonstra que a aliança não é só afeto, é acordo sobre objetivos, acordo sobre tarefas e vínculo. E, fechando esse raciocínio, Lambert e Shimokawa (2011) e Boswell et al. (2013) demonstram empiricamente que quando a relação é monitorada e retroalimentada, os resultados são melhores. Diante disso a entrevista não é apenas coleta, ela é o momento inaugural da aliança terapêutica.

    A literatura contemporânea sobre feedback-informed treatment, Lamert; Shimokawa, 2011; Boswell et al., 2013), acrescenta uma camada atual à discussão, quando afirmam que a entrevista não termina na primeira sessão, pois, em modelos de monitoramento de resultado, cada sessão tem um momento de entrevista breve para checar progresso, adesão e sentido do tratamento, o que faz com que a entrevista funcione em duas vias: Via avaliativa – própria da clínica tradicional, levantar dados, construir hipóteses, compreender a demanda; Via reguladora – própria da clínica contemporânea, devolver ao paciente o que foi percebido, checar se o rumo está adequado, renegociar objetivos.

    Esse achado é particularmente importante porque mostra a coerência entre autores clássicos e autores atuais, o que Rogers (1951) chamou de autenticidade e o que Bordin (1979) chamou de acordo sobre tarefas aparece, nos estudos de Lambert e Shimokawa (2011), como feedback contínuo.

    Do conjunto dos textos analisados, decorre uma implicação clara, se a entrevista é o eixo articulador da clínica, então formar psicólogos apenas para aplicar testes, escalas e anamnese é insuficiente, é preciso, como defende Bleger (1980), formar para o manejo do setting; como defende Rogers (1957), formar para a empatia comunicada; como aponta Seger (2006), formar para o uso clínico da entrevista; e, à luz de Lambert e Shimokawa (2011) e Boswell et al. (2013), formar para avaliar e ajustar o tratamento de modo colaborativo, o que implica ensinar o aluno a sustentar clima de confiança; escutar o dito e o não dito; escolher o grau de estruturação da entrevista conforme o setting, e usar a própria entrevista para regular o processo.

    Entende-se que todos os autores convergem em um ponto, a entrevista é o lugar em que técnica, relação e direção terapêutica se encontram. Ela traduz o sofrimento em linguagem clínica (Sullivan, 1970), dá condições para que o sujeito se exponha (Rogers, 1957), mostra ao terapeuta como o paciente se vincula e se defende (Bleger,1980); Pichon-Rivière, 1975), indica que instrumentos usar (Cunha; Seger 2006), instala a aliança (Bordin, 1979) e, nas práticas atuais, permite monitorar o tratamento (Lambert, 2013; Boswell et. al., 2013). É por isso que,  faz todo o sentido defender que a entrevista psicológica não é uma etapa preliminar, mas um dispositivo estruturante de todo o processo de cuidado.

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    As considerações finais deste estudo permitem reafirmar que o objetivo proposto neste estudo, analisar a relevância da entrevista psicológica na construção do vínculo terapêutico e sua influência nos resultados do processo psicoterapêutico, foi alcançado, uma vez que se evidenciou, com base nos autores referenciados, que a entrevista não apenas inaugura a relação clínica, mas também cria as condições para o estabelecimento de rapport, para a formação da aliança terapêutica e para o monitoramento contínuo do tratamento, elementos reconhecidos como preditores de melhores desfechos em psicoterapia.

    Diante disso conclui-se que a entrevista psicológica não pode ser tratada como etapa preliminar, neutra ou meramente burocrática do processo clínico, mas como o próprio dispositivo estruturante sobre o qual se apoia a prática psicoterapêutica. Ao longo da análise, evidenciou-se que, em diferentes tradições, da formulação interpessoal de Sullivan (1970), passando pela clínica centrada na pessoa de Rogers (1951, 1957), pelo enfoque psicodiagnóstico de Ocampo e Arzeno (2001), pela compreensão relacional de Bleger (1964/1980) e pelas contribuições sobre aliança terapêutica de Bordin (1979) e dos estudos de resultado de Lambert e Ken Shimokawa (2011), convergem a concepção de que  é na entrevista que o sofrimento é nomeado, que o vínculo começa, que o contrato terapêutico é esboçado e que se decide o rumo do cuidado.  Assim, conjectura-se, portanto, que a entrevista não apenas colhe dados, ela transforma experiência em narrativa clínica, converte queixa difusa em demanda compreensível e inaugura o campo de confiança sem o qual não há adesão, não há continuidade e não há mudança.

    Outro aspecto que se consolidou foi a compreensão de que a entrevista cumpre funções interdependentes, coleta qualificada, compreensão subjetiva, apoio ao raciocínio diagnóstico e início da intervenção, e que é justamente essa capacidade de fazer tudo isso ao mesmo tempo que a diferencia de outros instrumentos, como testes, escalas, questionários e anamnese, pois  nenhum deles capta o processo vivo da relação, as pausas, as resistências, o afeto que acompanha o relato, a organização do ego em situação de encontro, dimensões essas que só aparecem na entrevista.

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