EVALUATION OF BRONCHOPULMONARY DISPLASIA IN PREMATURE NEWBORNS: A RETROSPECTIVE CHART REVIEW STUDY IN A NEONATAL INTENSIVE CARE UNIT IN SOUTHERN MINAS GERAIS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511201804
Andreyna Luzia Gonçalves1
Nayara Pessoa Canelhas1
Alvaro Henrique Junqueira Tavares2
Bianca Reis Pereira2
RESUMO
Este estudo analisou os fatores associados ao desenvolvimento da displasia broncopulmonar (DBP) em recém-nascidos prematuros internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) do Hospital Regional do Sul de Minas, em Varginha – MG. Trata-se de um estudo observacional, retrospectivo, analítico e descritivo, realizado por meio da revisão de prontuários clínicos referentes a 24 meses de internações. Foram incluídos 12 recém-nascidos com idade gestacional inferior a 37 semanas e tempo mínimo de três dias consecutivos de internação. As variáveis analisadas compreenderam sexo, idade gestacional, peso, comorbidades, tipo e tempo de ventilação, concentração de oxigênio (FiO₂), tempo total de oxigenioterapia e desfecho clínico. Os resultados mostraram predomínio do sexo feminino (58,3%), idade gestacional média de 28,9 semanas e peso médio de 1.126 g. As comorbidades mais prevalentes foram síndrome do desconforto respiratório (100%), sepse (91,6%) e icterícia (58,3%). O tempo médio de oxigenioterapia foi de 38,4 dias, correspondendo a 52% do tempo total de internação. Observou-se uso universal de ventilação não invasiva e ventilação mecânica invasiva em 83,3% dos casos. Todos os pacientes receberam alta hospitalar, sem óbitos. Conclui-se que a DBP é uma condição multifatorial, associada à prematuridade extrema, baixo peso e exposição prolongada ao oxigênio. A adoção de estratégias de ventilação protetora e o controle rigoroso da oxigenioterapia são essenciais para a redução da morbidade respiratória em unidades neonatais.
Palavras-chave: Displasia broncopulmonar. Prematuridade. Ventilação mecânica. Oxigenoterapia. Neonatologia.
ABSTRACT
This study analyzed the factors associated with the development of bronchopulmonary dysplasia (BPD) in premature newborns admitted to the Neonatal Intensive Care Unit (NICU) of the Regional Hospital of Southern Minas, in Varginha, Brazil. It is an observational, retrospective, analytical, and descriptive study conducted through a review of medical records covering a 24-month hospitalization period. Twelve newborns with gestational age below 37 weeks and a minimum stay of three consecutive days were included. The analyzed variables comprised sex, gestational age, birth weight, comorbidities, type and duration of ventilation, oxygen concentration (FiO₂), total oxygen therapy time, and clinical outcome. The results showed a predominance of females (58.3%), a mean gestational age of 28.9 weeks, and an average birth weight of 1,126 g. The most frequent comorbidities were respiratory distress syndrome (100%), sepsis (91.6%), and jaundice (58.3%). The mean oxygen therapy time was 38.4 days, corresponding to 52% of the total hospitalization period. Non-invasive ventilation was used in all cases, and invasive mechanical ventilation in 83.3% of them. All patients were discharged, with no deaths reported. It was concluded that BPD is a multifactorial condition associated with extreme prematurity, low birth weight, and prolonged oxygen exposure. The adoption of protective ventilation strategies and strict control of oxygen therapy are essential to reduce respiratory morbidity in neonatal units.
Keywords: Bronchopulmonary dysplasia. Prematurity. Mechanical ventilation. Oxygen therapy. Neonatology.
1. INTRODUÇÃO
A displasia broncopulmonar (DBP) é uma doença pulmonar crônica que acomete, principalmente, recém-nascidos prematuros submetidos à ventilação mecânica e ao uso prolongado de oxigenoterapia. O termo foi descrito pela primeira vez por Northway, em 1967, e desde então tem sido amplamente estudado, sendo considerada uma das principais causas de morbimortalidade neonatal em unidades de terapia intensiva (COSTA; SILVA, 2020). A condição caracteriza-se por alterações estruturais e inflamatórias do parênquima pulmonar, resultantes da imaturidade pulmonar associada à exposição a agentes agressivos, como ventilação invasiva, oxigênio em altas concentrações e infecções respiratórias (PROCIAOY, 1998; DUARTE; COUTINHO, 2010).
Durante a internação em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), é comum que recém-nascidos prematuros dependam de oxigenoterapia para manter adequada oxigenação tecidual. No entanto, a exposição prolongada ao oxigênio, especialmente em concentrações elevadas, pode causar lesões oxidativas e desencadear processos inflamatórios que comprometem o desenvolvimento pulmonar (MONTE, 2006). Segundo Romana (2021), a DBP é uma doença multifatorial, cujo desenvolvimento está diretamente relacionado ao desequilíbrio entre a imaturidade estrutural do pulmão e a agressividade das intervenções terapêuticas necessárias à sobrevivência do recém-nascido.
A prematuridade extrema constitui o principal fator de risco para o surgimento da displasia broncopulmonar. Estima-se que a doença possa acometer até 50% dos recém-nascidos com idade gestacional inferior a 28 semanas, refletindo o impacto da imaturidade pulmonar e da necessidade de ventilação mecânica precoce (DUARTE; COUTINHO, 2010). Além disso, Cunha, Mezzacappa Filho e Ribeiro (2003) apontam que fatores maternos e neonatais, como infecções perinatais, sepse e uso de surfactante, também influenciam significativamente a ocorrência da DBP.
Do ponto de vista clínico, a DBP representa uma condição de grande relevância, não apenas pela elevada taxa de morbimortalidade neonatal, mas também pelos efeitos de longo prazo, que incluem prejuízo ao neurodesenvolvimento, comprometimento do crescimento e maior risco de doenças pulmonares crônicas na infância e vida adulta (COSTA; SILVA, 2020). Em estudo conduzido por Menezes et al. (2024) em unidades neonatais do norte de Minas Gerais, observou-se que recém-nascidos acometidos por DBP apresentaram tempo de internação significativamente maior, maior dependência de oxigênio e maior incidência de infecções respiratórias, demonstrando o impacto clínico e econômico da doença.
A identificação precoce dos fatores associados à DBP é essencial para subsidiar condutas preventivas e otimizar o manejo clínico dos prematuros em ventilação assistida. Bhering et al. (2007) desenvolveram um modelo preditivo capaz de identificar, ainda na primeira semana de vida, os recém-nascidos com maior risco de desenvolver a doença, reforçando a importância do monitoramento dos indicadores clínicos desde o início da internação. Nessa perspectiva, estratégias de intervenção precoce, tanto no período pré-natal quanto nos primeiros dias de vida, podem reduzir significativamente a ocorrência de complicações respiratórias e melhorar os desfechos clínicos (MONTE, 2006; SANT’ANNA; KLAFFENBACH; KOPPE, 2022).
O manejo adequado da oxigenioterapia é outro aspecto central na prevenção da displasia broncopulmonar. Estudos recentes, como o Projeto COALA (KOPPE; KLAFFENBACH; SANT’ANNA, 2023), demonstram que o controle rigoroso da saturação de oxigênio e a redução da ventilação invasiva diminuem o risco de lesões pulmonares e favorecem a reabilitação respiratória. Tais evidências sustentam a necessidade de protocolos assistenciais padronizados e da atuação integrada de equipes multiprofissionais nas UTINs, visando reduzir o impacto da doença e promover a qualidade da sobrevida neonatal.
Diante desse contexto, torna-se evidente a necessidade de estudos clínicos e epidemiológicos que permitam compreender o perfil dos recém-nascidos acometidos e os fatores que contribuem para o surgimento da DBP em diferentes regiões do país. Assim, este trabalho teve como objetivo primário analisar os fatores associados ao desenvolvimento de displasia broncopulmonar em recém-nascidos prematuros internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Hospital Regional do Sul de Minas. Como objetivos secundários, buscou-se: (1) analisar o tempo de ventilação mecânica, uso de oxigenoterapia e tempo de internação; (2) verificar a ocorrência de complicações respiratórias adicionais; (3) descrever o perfil clínico e epidemiológico dos pacientes; e (4) identificar fatores com potencial associação à incidência da DBP.
2. ASPECTOS CLÍNICOS E FISIOPATOLÓGICOS DA DISPLASIA BRONCOPULMONAR
A displasia broncopulmonar é uma condição que reflete a complexa interação entre a imaturidade pulmonar e os fatores externos decorrentes da assistência respiratória neonatal. Ao longo das últimas décadas, avanços tecnológicos e terapêuticos contribuíram para o aumento da sobrevida de recém-nascidos prematuros, mas também ampliaram a incidência de doenças pulmonares crônicas relacionadas ao suporte ventilatório, como a DBP (COSTA; SILVA, 2020).
Segundo Procianoy (1998), a DBP surge como consequência do uso prolongado de oxigênio e da ventilação mecânica em pulmões imaturos, resultando em lesão do epitélio alveolar, inflamação e remodelamento tecidual. Essa condição está frequentemente associada à necessidade de oxigenioterapia após 28 dias de vida ou à dependência de oxigênio no momento da alta hospitalar, sendo um dos principais indicadores de comprometimento respiratório prolongado.
2.1 Fisiopatologia e mecanismos de lesão pulmonar
O desenvolvimento pulmonar normal é um processo contínuo e delicado, que pode ser interrompido por eventos de agressão mecânica, oxidativa ou inflamatória. A exposição ao oxigênio em altas concentrações induz a produção de radicais livres e citocinas inflamatórias, capazes de causar dano alveolar e inibir o crescimento pulmonar (DUARTE; COUTINHO, 2010).
De acordo com Monte (2006), a DBP representa uma resposta adaptativa do pulmão imaturo frente à agressão ambiental, em que há redução da superfície alveolar, hipertrofia da musculatura brônquica e fibrose intersticial. Essas alterações estruturais resultam em trocas gasosas ineficientes e aumento da resistência das vias aéreas, perpetuando a dependência ventilatória. Romana (2021) destaca que o processo inflamatório crônico é um dos principais fatores de progressão da doença, mesmo após a suspensão do suporte ventilatório.
2.2 Fatores de risco e condições associadas
A displasia broncopulmonar é considerada uma doença multifatorial, sendo influenciada por variáveis neonatais, maternas e terapêuticas. Dentre os fatores de risco mais relevantes destacam-se a idade gestacional inferior a 32 semanas, o baixo peso ao nascer, a síndrome do desconforto respiratório (SDR), a sepse neonatal, e o tempo prolongado de ventilação mecânica (CUNHA; MEZZACAPPA FILHO; RIBEIRO, 2003; MENEZES et al., 2024).
Estudos mostram que a inflamação sistêmica decorrente da sepse e da exposição prolongada ao oxigênio favorece o dano pulmonar progressivo (BHERING et al., 2007). Além disso, a presença de infecções neonatais e o uso de ventilação invasiva estão relacionados à disfunção endotelial e à inibição da produção de surfactante, agravando a hipóxia (COSTA; PADILHA, 2012). A icterícia, apneia, anemia e acidose metabólica também aparecem como comorbidades associadas à gravidade clínica e à necessidade de suporte ventilatório prolongado, como observado na amostra do presente estudo e descrito em pesquisas recentes (MENEZES et al., 2024).
2.3 Manejo ventilatório e uso de oxigenioterapia
O manejo da oxigenioterapia em recém-nascidos prematuros requer precisão e monitoramento contínuo. A ventilação mecânica invasiva, embora essencial em muitos casos, representa um dos principais fatores de risco para a DBP, devido ao trauma barométrico e volumétrico que causa ao tecido pulmonar (DUARTE; COUTINHO, 2010).
Conforme salientam Sant’Anna, Klaffenbach e Koppe (2022), a utilização de estratégias de ventilação não invasiva (VNI) e o controle rigoroso da saturação de oxigênio — entre 90 e 95% — reduzem a incidência da DBP em unidades neonatais. O Projeto COALA, desenvolvido no Ceará, mostrou que a adoção de protocolos de controle da FiO₂ diminuiu significativamente a exposição de prematuros ao oxigênio em excesso, reforçando a importância de protocolos multiprofissionais de vigilância ventilatória (KOPPE; KLAFFENBACH; SANT’ANNA, 2023).
Na amostra estudada, observou-se que todos os pacientes utilizaram VNI e a maioria necessitou de VMI, o que reflete a prática clínica em UTIs neonatais brasileiras, onde o uso combinado de ambos os modos é comum para garantir estabilidade respiratória. Dantas et al. (2024) reforçam que a aplicação gradual de oxigenioterapia e o desmame precoce são medidas eficazes para reduzir lesões pulmonares e o risco de DBP.
2.4 Relevância clínica e epidemiológica da displasia broncopulmonar
A DBP possui impacto expressivo na saúde pública, tanto pelo aumento do tempo de internação hospitalar quanto pelo custo do tratamento e pela necessidade de acompanhamento prolongado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2023), a prematuridade é a principal causa de morte neonatal no mundo, e suas complicações — entre elas a displasia broncopulmonar — representam importante desafio para os sistemas de saúde. Em estudo conduzido por Menezes et al. (2024), a incidência de DBP em Minas Gerais atingiu 28,4% entre os prematuros de muito baixo peso, sendo fortemente associada ao tempo de ventilação mecânica e ao uso de FiO₂ elevadas. Esses resultados se assemelham aos achados do presente estudo, no qual mais da metade dos pacientes permaneceram sob oxigenioterapia por mais de 30 dias.
A longo prazo, as crianças acometidas pela DBP podem apresentar limitação ventilatória, déficit de crescimento e maior suscetibilidade a infecções respiratórias, exigindo acompanhamento multiprofissional contínuo (MOREIRA et al., 2010). Nesse sentido, a prevenção da DBP por meio da redução do tempo de ventilação e do controle rigoroso do oxigênio é considerada uma das principais estratégias para melhorar os desfechos neonatais e otimizar a qualidade da assistência hospitalar (DUARTE; COUTINHO, 2010; SANT’ANNA; KLAFFENBACH; KOPPE, 2022).
3. MATERIAIS E MÉTODOS
Conforme apresentado na introdução, este estudo analisou os fatores associados ao desenvolvimento de displasia broncopulmonar (DBP) em recém-nascidos prematuros, a partir da revisão retrospectiva de prontuários clínicos em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) do sul de Minas Gerais.
Trata-se de uma pesquisa observacional, retrospectiva, analítica e descritiva, desenvolvida com base em dados secundários obtidos de registros clínicos já existentes. O estudo foi realizado na UTIN do Hospital Regional do Sul de Minas, situado no município de Varginha – MG, instituição pública de referência regional no atendimento neonatal de alta complexidade.
A população do estudo compreendeu os recém-nascidos prematuros internados na UTIN no período de 24 meses retroativos à data de coleta dos dados, sendo a amostra final composta por conveniência na qual 12 pacientes foram selecionados, de acordo com critérios específicos de inclusão e exclusão.
Foram incluídos no estudo os prontuários de recém-nascidos com idade gestacional inferior a 37 semanas, que permaneceram internados por no mínimo três dias consecutivos na unidade e apresentaram registros clínicos completos, com informações suficientes para análise das variáveis propostas. Foram excluídos os prontuários de recém-nascidos com malformações congênitas ou síndromes genéticas incompatíveis com a vida, óbitos ocorridos nas primeiras 24 horas de vida e registros clínicos incompletos ou inconsistentes.
As variáveis analisadas incluíram dados demográficos (sexo, idade gestacional e peso ao nascer), clínicos (comorbidades, tipo e tempo de ventilação, concentração média de oxigênio – FiO₂, tempo total de oxigenioterapia e tempo de internação) e de desfecho (alta hospitalar e óbito).
A coleta dos dados ocorreu em novembro de 2025, após autorização institucional e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa sob o CAAE: 92828925.0.0000.5111, em conformidade com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Os dados foram extraídos manualmente dos prontuários eletrônicos e organizados em planilha no Microsoft Excel®, garantindo o anonimato e a confidencialidade das informações.
Cada paciente foi considerado uma unidade de análise. Nos casos em que o mesmo recém-nascido apresentou mais de um tipo de ventilação (invasiva e não invasiva), os dados foram consolidados em um único registro, respeitando as diferenças entre os períodos de uso de cada modalidade. Foram calculados o tempo total de oxigenioterapia, o tempo específico em ventilação mecânica invasiva e não invasiva, a média da concentração de oxigênio administrada em cada modalidade, bem como a proporção do tempo de internação em que o paciente permaneceu em ventilação assistida.
A análise estatística foi exclusivamente descritiva, considerando-se as características da amostra e o objetivo exploratório do estudo. As variáveis contínuas foram descritas por meio de média, mediana, valores mínimos e máximos, conforme a distribuição dos dados. As variáveis categóricas foram apresentadas em frequência absoluta e percentual, e, quando aplicável, utilizou-se a moda para identificar a categoria mais frequente.
Todas as análises foram realizadas no software Microsoft Excel®, adotando um nível de significância de 5% (p < 0,05) apenas como referência para as medidas de tendência, sem aplicação de testes inferenciais.
4. RESULTADO E DISCUSSÃO
Os resultados obtidos permitiram caracterizar o perfil clínico e epidemiológico de 12 recém-nascidos prematuros internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) do Hospital Regional do Sul de Minas, bem como analisar os fatores associados ao desenvolvimento de displasia broncopulmonar (DBP).
Em relação às características demográficas, observou-se predomínio do sexo feminino (58,3%), com idade gestacional média de 28,9 semanas e peso médio de 1.126 g, valores compatíveis com a faixa de muito baixo peso ao nascer. Esses achados corroboram os de Cunha, Mezzacappa Filho e Ribeiro (2003), que apontaram a prematuridade e o baixo peso como fatores de risco independentes para o desenvolvimento da DBP em recém-nascidos internados em UTIN.
As comorbidades mais prevalentes foram síndrome do desconforto respiratório (SDR), presente em 100% dos casos, sepse neonatal (91,6%) e icterícia (58,3%). Outras condições, como apneia, pneumonia, anemia e acidose metabólica, ocorreram em menor frequência (8,3% cada). Esses resultados são consistentes com os encontrados por Bhering et al. (2007) e Monte (2006), que descrevem a SDR e a sepse como os principais fatores predisponentes para a DBP, devido à inflamação pulmonar e ao estresse oxidativo gerados pelo suporte ventilatório e pelo uso de oxigênio.
No que se refere à oxigenioterapia e ventilação, observou-se que 100% dos pacientes utilizaram ventilação não invasiva (VNI) e 83,3% necessitaram também de ventilação mecânica invasiva (VMI). O tempo médio de oxigenioterapia foi de 38,4 dias, correspondendo a 52% do tempo total de internação, que teve média de 72,8 dias.
A mediana de tempo em VMI foi de 16 dias, enquanto o tempo mediano em VNI foi de 16,5 dias, indicando alternância entre os modos ventilatórios. Esses dados sugerem exposição prolongada ao oxigênio, um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da DBP, conforme relatado por Costa e Silva (2020) e Duarte e Coutinho (2010).
A concentração média de oxigênio (FiO₂) utilizada foi de 61% para VMI e 34% para VNI, demonstrando redução progressiva da fração inspirada de oxigênio conforme melhora clínica. Essa variação é compatível com os parâmetros recomendados pelo Projeto COALA (Sant’Anna; Klaffenbach; Koppe, 2022), que enfatiza o controle rigoroso da saturação de oxigênio como medida de prevenção da DBP.
Entre as comorbidades, notou-se que pacientes com anemia e acidose metabólica apresentaram maior tempo médio de oxigenioterapia (acima de 85 dias) e maiores concentrações de FiO₂ (até 100%), o que reforça o impacto dessas condições sobre a necessidade de suporte ventilatório prolongado. De modo semelhante, Menezes et al. (2024), em estudo realizado em UTIs neonatais de Minas Gerais, observaram que o tempo de ventilação e o uso de FiO₂ elevadas estão diretamente relacionados à maior incidência de DBP.
Todos os recém-nascidos da amostra tiveram alta hospitalar, sem ocorrência de óbitos. O motivo da ventilação foi o mesmo em todos os casos: esforço respiratório decorrente de imaturidade pulmonar. Esse achado reforça o padrão descrito por Romana (2021), que caracteriza a DBP como uma condição multifatorial associada à imaturidade pulmonar e à necessidade de suporte ventilatório precoce.
De modo geral, os resultados indicam que a população estudada apresenta perfil clínico compatível com o risco aumentado para DBP, especialmente em função da prematuridade extrema, baixa idade gestacional, múltiplas comorbidades respiratórias e infecciosas, e prolongado tempo de exposição ao oxigênio. Esses fatores são amplamente reconhecidos na literatura como determinantes para o desenvolvimento da doença (DUARTE; COUTINHO, 2010; COSTA; SILVA, 2020; MENEZES et al., 2024).
Os achados também reforçam a importância de protocolos assistenciais padronizados para o manejo da oxigenioterapia e da ventilação mecânica em recém-nascidos prematuros. Estudos recentes, como o de Koppe, Klaffenbach e Sant’Anna (2023), destacam que o monitoramento contínuo da saturação e o uso criterioso de ventilação não invasiva podem reduzir significativamente a morbidade respiratória e a ocorrência de DBP em unidades neonatais.
Por fim, a análise retrospectiva realizada permitiu identificar padrões clínicos que podem subsidiar ações preventivas e estratégias de cuidado voltadas à redução da displasia broncopulmonar. Embora o estudo tenha caráter descritivo e número reduzido de participantes, seus resultados contribuem para a compreensão do perfil epidemiológico da doença na região sul de Minas Gerais, servindo de base para futuras investigações multicêntricas.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os achados deste estudo evidenciaram que a displasia broncopulmonar apresenta caráter multifatorial, estando fortemente relacionada à prematuridade extrema, ao baixo peso ao nascer, à presença de comorbidades respiratórias e infecciosas e à exposição prolongada ao oxigênio suplementar. Todos os pacientes apresentaram síndrome do desconforto respiratório e grande parte evoluiu com sepse e icterícia, condições que aumentam a demanda por suporte ventilatório e contribuem para a inflamação pulmonar persistente.
Observou-se tempo médio de 38 dias em oxigenioterapia, correspondendo a cerca de 52% do período total de internação, com predomínio da ventilação não invasiva e uso significativo da ventilação mecânica invasiva. Essa elevada exposição ao oxigênio reflete o desafio clínico de equilibrar a necessidade de ventilação assistida com a prevenção de lesões pulmonares, reforçando a importância de estratégias de desmame ventilatório precoce e de controle rigoroso da FiO₂, conforme evidenciado em estudos recentes.
A ausência de óbitos e o desfecho favorável dos pacientes analisados indicam efetividade das condutas assistenciais adotadas na instituição, especialmente quanto ao manejo multiprofissional e à vigilância clínica contínua. Contudo, os resultados reafirmam a necessidade de protocolos institucionais padronizados, capacitação das equipes e monitoramento criterioso da oxigenioterapia, de modo a reduzir o risco de complicações pulmonares e otimizar os desfechos em recém-nascidos prematuros.
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1Discentes do curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Sul de Minas – UNIS/MG
andreyna.gonçalves@alunos.unis.edu.br / nayara.fontes@alunos.unis.edu.br.
2Docentes do Centro Universitário do Sul de Minas – UNIS/MG – Mestre em Ciências
alvaro.tavares@professor.unis.edu.br / biancafisio2103@gmail.com.
