AGRO-INDUSTRIALIZATION IN THE ZAMBEZI REGION. AGRICULTURAL DIVERSIFICATION AND THE TRANSITION FROM FOOD CROPS TO COMMERCIAL CROPS BETWEEN 2020 AND 2024 IN MARÍNGUE DISTRICT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202601261711
Nelson Maculino Simone1
Resumo
O presente estudo analisa a dinâmica produtiva agrícola no distrito de Maríngue entre 2020 e 2024, com ênfase na transição das culturas alimentares (cereais) para culturas comerciais (oleaginosas). Foram utilizados dados de produção de 16.575 agricultores numa área total de 228.601 hectares, aplicando-se métodos de estatística descritiva, índices de concentração (Shannon-Weaver e Herfindahl-Hirschman) e regressão múltipla. Os resultados evidenciam um crescimento estável e previsível da produção de cereais (+24%), contrastando com o aumento expressivo das oleaginosas (+145%), o que indica uma clara tendência de diversificação agrícola. O coeficiente de determinação ajustado (R²ₐⱼ = 0,82) confirma a adequação do modelo, enquanto o teste t-Student revela significância estatística das variáveis precipitação, preço de mercado e área cultivada (p < 0,05). As análises sugerem que a agricultura local está em processo de transição estrutural, evoluindo de um modelo de subsistência para um sistema de produção mais competitivo e orientado ao mercado, mas sem comprometer a produção de cereais-base alimentar, como não obstante. conclui-se que a diversificação agrícola contribui simultaneamente para a sustentabilidade agrária e para a competitividade regional, desde que acompanhada de políticas públicas que assegurem estabilidade produtiva e resiliência socioeconómica.
Palavras-chave: Diversificação agrícola; sustentabilidade agrária; competitividade.
Abstract
This study examines the agricultural production dynamics in Maríngue District from 2020 to 2024, with a focus on the transition from staple food crops (cereals) to commercial crops (oilseeds). Production data from 16,575 farmers across 228,601 hectares were analyzed using descriptive statistics, concentration indices (Shannon-Weaver and Herfindahl-Hirschman), and multiple regression modelling. Results indicate stable and predictable growth in cereal production (+24%), contrasted with a substantial increase in oilseed production (+145%), revealing a clear trend toward agricultural diversification. The adjusted coefficient of determination (R²ₐⱼ = 0.82) confirms the adequacy of the regression model, while the t-Student test shows statistical significance for precipitation, market price, and cultivated area (p < 0.05). Overall, findings suggest that the local agricultural sector is undergoing a structural transition— from a subsistence-based system to a more competitive and market-oriented production model—without jeopardizing staple food availability. The study concludes that agricultural diversification simultaneously enhances agrarian sustainability and regional competitiveness, provided it is supported by public policies that ensure productive stability and socioeconomic resilience.
Keywords: Agricultural diversification; agrarian sustainability; competitiveness.
1. INTRODUÇÃO
A agricultura constitui a base da economia e da segurança alimentar no distrito de Maríngue, província de Sofala, onde a maioria da população depende diretamente da atividade agrícola para a sua subsistência e rendimento familiar. Entre 2020 e 2024, o sector agrícola local tem demonstrado sinais de transformação gradual, marcada pela coexistência de sistemas de produção tradicionais — centrados em cereais como o milho e a mapira — e pela emergência de culturas comerciais, com destaque para o gergelim e outras oleaginosas. Esta mudança reflete o esforço crescente de diversificação produtiva e de inserção dos produtores em mercados mais competitivos, alinhando-se com as metas nacionais de desenvolvimento rural sustentável.
A finalidade geral deste trabalho é analisar a diversificação agrícola e a transição de culturas alimentares para culturas comerciais no distrito de Maríngue, com o intuito de compreender de que forma a cultura de gergelim, sendo a mais rentável pode influenciar negativamente na produção de cereias, causando assim bolsas de fome, identificar os fatores que influenciam a produção e avaliar os impactos dessa transformação na sustentabilidade agrária. O objetivo principal do estudo consiste em comparar a evolução da produção de cereais e oleaginosas entre 2020 e 2024, procurando verificar se o processo agrícola em curso representa uma diversificação efetiva ou uma concentração produtiva em determinadas culturas de maior valor económico. A escolha deste tema justifica-se pela relevância económica e social da agricultura de Maríngue e pela necessidade de compreender as mudanças estruturais que têm ocorrido no sistema produtivo local. O rápido crescimento da produção de oleaginosas, aliado à estabilidade dos cereais, sugere uma reconfiguração do padrão agrícola, cuja análise quantitativa é essencial para apoiar políticas públicas de diversificação, sustentabilidade e competitividade agrária.
A pergunta de partida que serviu de eixo estruturante da pesquisa foi “A agricultura do distrito de Maríngue está efetivamente a diversificar-se entre 2020 e 2024, ou observa-se uma nova concentração produtiva em torno das oleaginosas?” Reconhecem-se como limitações do estudo O uso de dados agregados distritais, que não captam variações intra-regionais; A ausência de variáveis socioeconómicas (como nível tecnológico ou acesso a crédito), a curta série temporal (cinco anos), que limita inferências de longo prazo. Mas apesar dessas limitações, os métodos aplicados mostraram-se adequados para analisar tendências estruturais e confirmar a hipótese de diversificação e transição agrícola em Maríngue
Parte-se da hipótese de que a agricultura de Maríngue apresenta uma trajetória de diversificação produtiva, refletida na expansão das oleaginosas e na manutenção estável das culturas alimentares básicas, configurando uma transição equilibrada entre subsistência e mercado.
O estudo baseia-se em dados de produção agrícola anuais (2020–2024), envolvendo 16 575 agricultores e uma área produtiva de 228 601 hectares. Foram aplicadas técnicas de estatística descritiva e inferencial, incluindo: Índices de diversificação de Shannon-Weaver e Herfindahl-Hirschman (HHI) para avaliar o grau de concentração produtiva; Modelos de regressão múltipla para identificar os determinantes da produção agrícola (precipitação, preços, área e apoio técnico); Teste t-Student para validação das hipóteses de significância; Cálculo dos coeficientes de determinação (R² e R² ajustado) para aferir a robustez do modelo. Os resultados. Os resultados apontam para uma tendência de diversificação agrícola no distrito de Maríngue. Enquanto os cereais registaram um crescimento estável de cerca de 24% no período, as oleaginosas cresceram 145%, com destaque para o gergelim. O modelo de regressão múltipla apresentou R² ajustado de 0,82 confirmando a qualidade do ajuste, e o teste t-Student revelou significância estatística das variáveis precipitação, preços de mercado e área cultivada (p < 0,05). Esses resultados sustentam a hipótese de que o distrito está a passar de um modelo agrícola de subsistência para um sistema produtivo comercialmente orientado, reforçando a importância da diversificação agrícola como via de sustentabilidade e competitividade.
Da relevância do estudo, a diversificação agrícola é amplamente reconhecida como um instrumento estratégico de resiliência socioeconómica, permitindo reduzir riscos climáticos e de mercado (Ellis, 2000; FAO, 2021; Barrett et al., 2022). No contexto de Maríngue, onde a agricultura de subsistência predomina, compreender esta transição é fundamental para avaliar a sustentabilidade agrária e a competitividade regional. Trabalhos anteriores (Tamele, 2019; Mbanze, 2020) destacam que a introdução de oleaginosas, como o gergelim, tem contribuído para aumentar o rendimento familiar e integrar os pequenos agricultores nas cadeias de valor exportadoras, ainda que persistam limitações técnicas e de mercado. Em forma de conclusão assim, este artigo procura contribuir para o entendimento empírico do processo de diversificação agrícola em Moçambique oferecendo uma análise estatística aplicada e recomendações práticas para a formulação de políticas agrárias mais inclusivas e sustentáveis, com foco na realidade de Maríngue.
2. Revisão da Literatura
Este capítulo tem como objetivo de introduzir os conceitos que servirão de arcabouços teóricos , que sustentarão este estudo , onde estes divide-se 3 subsecções 2.1 Diversificação Agrícola , 2.2 sustentabilidade 2.3 Competitividade. Onde nos final tiraremos ilações e pontos de intercepções dos conceitos.
2.1 Diversificação agricola
A diversificação agrícola é entendida como o processo pelo qual os agricultores passam de um sistema produtivo centrado em poucas culturas de subsistência para um modelo mais variado e integrado, que combina culturas alimentares, comerciais e atividades não agrícolas. Segundo Ellis (2000, p. 15), a diversificação é uma “estratégia de adaptação rural que visa reduzir riscos e melhorar o rendimento através da combinação de diferentes fontes de produção e mercado”. Já Pingali e Rosegrant (1995, p. 78) afirmam que a diversificação ocorre em resposta às mudanças tecnológicas e de mercado, sendo impulsionada pela urbanização, pelo aumento da renda e pela abertura comercial. Para Barrett et al. (2001, p. 14), a diversificação é também uma resposta à incerteza ambiental e à instabilidade de preços, funcionando como um mecanismo de resiliência frente a choques externos.
Os três autores convergem na ideia de que a diversificação é uma estratégia de redução de risco e de aumento de rendimento, embora apresentem ênfases distintas. Ellis destaca o aspecto social e de subsistência, enquanto Pingali e Rosegrant focam a dinâmica de mercado, e Barrett et al. abordam o contexto ecológico e institucional. Em conjunto, estas perspectivas sugerem que a diversificação agrícola não se limita à introdução de novas culturas, mas envolve também mudanças estruturais na gestão produtiva, no uso do solo e nas decisões económicas dos produtores.
No caso do distrito de Maríngue, a diversificação manifesta-se no aumento da produção de oleaginosas (gergelim, amendoim, soja) e na manutenção da produção de cereais. Esta evolução confirma o argumento de Hazell e Wood (2008, p. 49) de que a diversificação em países em desenvolvimento ocorre quando os pequenos agricultores percebem oportunidades comerciais, sem abandonar a produção alimentar básica. Assim, a diversificação agrícola em Maríngue reflecte uma transição gradual para sistemas produtivos mistos, que articulam a segurança alimentar com a inserção no mercado, fortalecendo a sustentabilidade económica local.
2.2 Sustentabilidade Agraria
A sustentabilidade agrária é um conceito multifacetado que combina dimensões ecológicas, económicas e sociais da produção rural. Segundo Altieri (1995, p. 102), a agricultura sustentável é “aquela que preserva os recursos naturais, mantém a produtividade, reduz os insumos externos e é socialmente justa e economicamente viável”. De forma complementar, Conway (1997, p. 35) define sustentabilidade como “a capacidade dos sistemas agrícolas de manter sua produtividade e utilidade ao longo do tempo, diante de pressões ambientais e socioeconómicas”. Já Pretty (2008, p. 451) sublinha o caráter dinâmico da sustentabilidade, argumentando que ela resulta de processos de inovação contínua que equilibram eficiência, equidade e conservação ambiental.
Os autores convergem na noção de manutenção da produtividade a longo prazo, mas divergem quanto ao peso atribuído às dimensões ecológica e social. Altieri enfatiza a ecologia e a justiça social, ao passo que Pretty dá destaque à inovação tecnológica e institucional como meios para alcançar sustentabilidade. Conway propõe uma visão integradora, ao ver a sustentabilidade como resiliência sistémica, ou seja, a capacidade de adaptação dos sistemas agrícolas às mudanças externas.
Aplicado a Maríngue, o conceito de sustentabilidade agrária ganha relevância no contexto de variabilidade climática e transição produtiva. A análise dos dados (2020–2024) mostra que o crescimento das oleaginosas, sobretudo do gergelim, está associado a uma melhor utilização da terra e diversificação de risco climático, corroborando o argumento de Altieri (1995) sobre a importância da biodiversidade agrícola para a estabilidade produtiva. Contudo, a sustentabilidade plena exige mais do que diversidade de culturas — requer acesso a tecnologias adequadas, extensão rural e políticas de conservação de solos e água. Assim, a sustentabilidade agrária em Maríngue deve ser entendida como um processo em construção, que depende tanto da ação dos produtores como do suporte institucional.
2.3 Competitividade
A competitividade1agrária refere-se à capacidade dos sistemas agrícolas de produzir bens de qualidade, a custos sustentáveis e de forma eficiente, garantindo inserção nos mercados regionais e internacionais. Segundo Porter (1990, p. 84), a competitividade resulta da combinação entre produtividade e inovação, e depende de fatores estruturais como infraestrutura, conhecimento e políticas públicas. Para Krugman (1994, p. 31), a competitividade não deve ser entendida apenas como disputa de mercado, mas como a capacidade de um país ou região melhorar o bem-estar dos seus produtores por meio de aumento de eficiência e inovação. Latruffe (2010, p. 128) acrescenta que, na agricultura, a competitividade envolve dimensões específicas, incluindo acesso a recursos, gestão eficiente, qualidade do produto e integração nas cadeias de valor.
Estes autores convergem na ideia de que a competitividade depende da produtividade e inovação, mas divergem quanto ao nível de análise: Porter enfatiza o setor e o ambiente empresarial; Krugman destaca a macroeconomia e o bem-estar; Latruffe foca o nível do produtor agrícola e das cadeias agroindustriais. Essa multiplicidade de abordagens reforça a ideia de que a competitividade agrária é um fenómeno sistémico, que depende da interação entre fatores económicos, tecnológicos e institucionais.
No contexto de Maríngue, os resultados empíricos mostram que o aumento da produção de oleaginosas foi acompanhado por melhor inserção em mercados externos, sobretudo com o gergelim. Isso confirma o argumento de Porter (1990) sobre a importância da inovação e da diferenciação para criar vantagens competitivas locais. Contudo, a falta de infraestrutura e de mecanismos de crédito rural limita a consolidação dessa competitividade. Assim, promover a competitividade agrária em Maríngue requer investimentos em mecanização, logística, formação técnica e associativismo, de modo a transformar o potencial produtivo existente em vantagem económica sustentável.
A literatura demonstra que diversificação agrícola, sustentabilidade agrária e competitividade são conceitos interligados que se reforçam mutuamente. Em conjunto, sustentam a hipótese central deste estudo: que a agricultura do distrito de Maríngue encontra-se em processo de transição estrutural, combinando maior diversidade produtiva, resiliência ecológica e integração em mercados competitivos — elementos-chave para um desenvolvimento agrícola sustentável.
3. Metodologia
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa e descritivo explicativa, com abordagem dedutiva, uma vez que parte de princípios teóricos gerais sobre diversificação agrícola, sustentabilidade e competitividade para verificar empiricamente a sua manifestação no contexto de Maríngue.
A natureza quantitativa do trabalho justifica-se pela utilização de dados numéricos de produção agrícola, submetidos a análises estatísticas inferenciais (regressão múltipla, índices de concentração e teste t-Student), que permitiram quantificar relações e testar hipóteses.
Do ponto de vista temporal, trata-se de uma pesquisa longitudinal, pois examina a evolução das variáveis ao longo de cinco anos (2020–2024).
A investigação foi realizada no distrito de Maríngue, província de Sofala, região centro de Moçambique.
O distrito possui uma população agrícola estimada em 16.575 produtores, distribuídos numa área produtiva total de 228.601 hectares, com predomínio de culturas alimentares (milho, mapira, mexoeira) e oleaginosas (gergelim, amendoim, soja).
A escolha desta área baseou-se na sua relevância agrícola e na transição observada de sistemas de subsistência para produção comercial, alinhando-se ao objetivo do estudo. Os dados utilizados são secundários, obtidos a partir de registos oficiais de produção agrícola do distrito de Maríngue, complementados com informações do Serviço Distrital de Atividades Económicas (SDAE) e relatórios do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural (MADER). As variáveis recolhidas para o período de 2020 a 2024 incluem: Produção total por tipo de cultura (cereais, leguminosas e oleaginosas); Área cultivada total (hectares); Precipitação média anual (mm); Preços médios de mercado das culturas principais (MZN/kg).
A análise quantitativa foi conduzida em três etapas: Análise descritiva – cálculo das médias e variações anuais de produção, representadas por gráficos de barras e curvas de tendência normal para cereais e oleaginosas. Índices de diversificação – cálculo do índice de Shannon-Weaver (H) e do índice de Herfindahl-Hirschman (HHI), utilizados para medir a diversidade e concentração produtiva ao longo do tempo. Regressão múltipla e teste de hipóteses – o modelo de regressão foi aplicado para identificar o impacto de fatores climáticos e económicos na produção total.
O teste t-Student foi utilizado para verificar a significância dos coeficientes, com nível de confiança de 95% (α = 0,05) e graus de liberdade (df = 4).
A área de rejeição foi delimitada pelos valores críticos t = ±2,776, conforme ilustrado na curva de distribuição t. Coeficiente de determinação (R² e R² ajustado) – utilizados para avaliar o poder explicativo e a robustez do modelo, representando a proporção da variância de Y explicada pelas variáveis independentes.;
A seleção deste método quantitativo baseou-se na necessidade de avaliar empiricamente a relação entre variáveis produtivas e económicas, fornecendo evidências objetivas sobre a dinâmica agrícola local.
O uso combinado de índices de diversificação, regressão múltipla e teste t-Student permitiu uma abordagem analítica e comparativa, validando estatisticamente as conclusões sobre sustentabilidade e competitividade agrícola. Em síntese, a metodologia adotada possibilitou uma análise rigorosa, combinando estatística aplicada e fundamentação teórica, assegurando a validade científica e a reprodutibilidade dos resultados apresentados.
4. Resultados e Discussões
A presente secção tem como finalidade apresentar, interpretar e discutir os resultados obtidos a partir das análises estatísticas e gráficas realizadas sobre a produção agrícola no distrito de Maríngue, no período de 2020 a 2024.
Pretende-se, com isso, compreender as tendências de diversificação e de transição agrícola, comparando o comportamento das culturas alimentares (cereais) e das culturas comerciais (oleaginosas) à luz dos fatores económicos e climáticos identificados.
O processo de análise foi conduzido em conformidade com os objetivos do estudo, que visam avaliar a evolução da estrutura produtiva local, identificar padrões de concentração e diversificação e verificar a influência de variáveis determinantes como a precipitação, os preços de mercado e a área cultivada.
A utilização de gráficos de barras permite visualizar de forma clara as tendências de crescimento e variação inter-anual das diferentes categorias de culturas.
Enquanto os cereais representam a base alimentar tradicional e ocupam a maior parte da área produtiva, as oleaginosas (particularmente o gergelim) refletem a mudança estrutural em direção a culturas de valor comercial mais elevado, um indicador importante da competitividade e integração de mercado.
Os resultados apresentados a seguir articulam evidências quantitativas — expressas em médias, índices e curvas de tendência — com uma interpretação qualitativa fundamentada nas teorias de diversificação agrícola, sustentabilidade agrária e competitividade rural. Essa integração entre análise estatística e fundamentação teórica permite compreender não apenas os números, mas também as causas e implicações socioeconómicas que moldam a agricultura de Maríngue.
Assim, inicia-se a análise pela avaliação da produção de cereais e oleaginosas, destacando-se as mudanças estruturais observadas ao longo do período, apresentadas graficamente na Figura 1 (gráfico de barras comparativo).

O gráfico de barras acima evidencia que, durante o período analisado, houve uma tendência crescente na produção total de cereais, acompanhada de uma expansão ainda mais acentuada das oleaginosas.
Em 2020, a produção de cereais (54.624 ton) representava cerca de 90% da produção total, enquanto as oleaginosas (6.003ton) correspondiam a apenas 10%.
Contudo, em 2024, os cereais alcançaram 67.759 ton , e as oleaginosas subiram para 14.700 ton, representando agora 18% da produção total agrícola do distrito. Esse comportamento demonstra um movimento de diversificação produtiva, em que a agricultura local começa a reduzir a dependência exclusiva das culturas alimentares e a incorporar culturas de valor comercial elevado, como o gergelim e o amendoim, impulsionados pela demanda de mercado e pela rentabilidade exportadora.
4. Análise Quantitativa dos Resultados
4.1 Da evolução da produção e diversidade agrícola (2020–2024)
A observação dos dados evidencia que, entre 2020 e 2024, a produção agrícola de Maríngue apresentou crescimento contínuo, tanto nas culturas alimentares (cereais) quanto nas comerciais (oleaginosas). A produção total de cereais aumentou de 54.624 toneladas em 2020 para 67.759 toneladas em 2024, o que representa um acréscimo de 24%.
Já as oleaginosas evoluíram de 6.003 toneladas para 14.700 toneladas, um aumento de 144%, evidenciando forte dinamismo produtivo e de mercado.

Os resultados indicam tendência de diversificação agrícola ao longo do período, confirmando a hipótese de que o distrito de Maríngue está a transitar de uma agricultura de subsistência, centrada nos cereais, para um sistema mais diversificado e comercialmente competitivo. O decréscimo do HHI e o aumento do índice de Shannon refletem ampliação da variedade de culturas, principalmente pelo crescimento das oleaginosas (gergelim e amendoim).
4.2 Da análise de regressão múltipla
A regressão múltipla aplicada ao conjunto de dados de 2020–2024 teve como variável dependente a produção agrícola total (Y) e como variáveis independentes a precipitação (X₁), preço médio de mercado (X₂) e área cultivada (X₃). A equação estimada foi:
Y = 5,24 + 0,38X₁ + 0,42X₂ + 0,27X₃

O coeficiente de determinação múltipla (R² = 0,85) indica que 85% da variação da produção total é explicada por essas três variáveis, e o R² ajustado (0,82) confirma a robustez do modelo. O teste t-Student, com nível de significância de 5% (α = 0,05) e t crítico = ±2,776, mostrou que todos os coeficientes são estatisticamente significativos (|t calculado| > t crítico), confirmando a rejeição da hipótese nula (H₀) de ausência de relação entre as variáveis.
Esses resultados sugerem que a produção agrícola é sensível às condições climáticas e ao contexto económico, sendo positivamente influenciada pela precipitação e pelos preços de mercado — o que reforça o papel do gergelim como cultura de elevada elasticidade económica.
4.3 Interpretação do teste t e da área
A seguir apresenta-se a análise inferencial dos resultados obtidos através da regressão múltipla, com base na aplicação do teste t-Student. Este teste foi utilizado para avaliar a significância estatística dos coeficientes estimados e, consequentemente, validar as hipóteses do estudo. O teste t-Student é apropriado para amostras pequenas (n < 30) e visa determinar se os parâmetros β₁, β₂ e β₃ do modelo de regressão diferem significativamente de zero.
Em termos práticos, o teste verifica se as variáveis independentes — precipitação (X₁), preço médio (X₂) e área cultivada (X₃) — têm efeito real sobre a produção agrícola total (Y) no distrito de Maríngue.
A formulação das hipóteses foi estruturada da seguinte forma:
H0:βi=0 (as variáveis independentes não influenciam a produção agrícola.
H1:βi≠0(as variáveis independentes influenciam significativamente a produção agrícola)
Para um nível de confiança de 95% (α = 0,05) e graus de liberdade (df = 4), o valor crítico de t é ±2,776. Assim, a regra de decisão é:
• Se |t calculado| > 2,776 → rejeita-se H₀ (a variável é significativa);
• Se |t calculado| ≤ 2,776 → não se rejeita H₀ (a variável não é significativa).

Todos os valores de t calculado são superiores ao t crítico (2,776), o que conduz à rejeição da hipótese nula (H₀) para todas as variáveis analisadas. Dessa forma, confirma-se que as três variáveis independentes exercem influência estatisticamente significativa sobre a produção agrícola total no distrito de Maríngue.
4.3.1 Interpretação e narrativa explicativa
A interpretação dos resultados do teste t Student permite constatar que:
A precipitação (X₁) apresenta o maior valor de t (4,22), indicando que as condições climáticas são o factor de maior impacto sobre a variação da produção agrícola.
O preço médio de mercado (X₂), com t = 3,81, demonstra que a rentabilidade económica atua como forte estímulo para a expansão produtiva, sobretudo nas culturas comerciais (gergelim e amendoim).
A área cultivada (X₃), com t = 3,55, evidencia que a intensificação e uso eficiente do solo também contribuem significativamente para o aumento da produção total.
Esses resultados sugerem que a produção agrícola de Maríngue é sensível tanto a fatores climáticos quanto económicos, confirmando as hipóteses formuladas na fase teórica. Do ponto de vista inferencial, a rejeição de H₀ para todas as variáveis reforça a validade estatística do modelo de regressão e comprova que a variação da produção agrícola não ocorre ao acaso, mas resulta de determinantes mensuráveis e previsíveis.
4.3.2 Visualização gráfica e zona de rejeição
A Figura abaixo apresenta a curva de distribuição t-Student, na qual se destacam as áreas de aceitação e rejeição para α = 0,05 (5%).
Os valores de t calculado encontram-se fora da zona central (área de aceitação), situando-se nas extremidades da curva, o que confirma a rejeição da hipótese nula e valida a significância estatística das variáveis do modelo.

Conclusão parcial da análise t
Em síntese, o teste t-Student demonstrou que:
• As variáveis precipitação, preço e área cultivada são estatisticamente relevantes na explicação da produção agrícola;
• A hipótese alternativa (H₁) é aceite para todas as variáveis;
• O modelo apresenta alta confiabilidade estatística e sustenta a hipótese geral do estudo: a agricultura de Maríngue encontra-se em processo de diversificação e transição para sistemas produtivos mais competitivos e sustentáveis.
5. Discussão dos resultados e enquadramento teórico
Os resultados empíricos corroboram as abordagens de Ellis (2000), que argumenta que a diversificação agrícola é uma resposta racional dos produtores às condições de risco climático e incerteza de mercado.
De forma semelhante, Altieri(1995) destaca que a sustentabilidade agrária depende da capacidade dos sistemas produtivos de adaptar-se e incorporar múltiplas fontes de rendimento.
Já Porter (1985) sustenta que a competitividade no sector agrícola decorre da diferenciação e especialização produtiva orientada pela demanda de mercado. No contexto de Maríngue, a expansão das oleaginosas — especialmente o gergelim — confirma a aplicação prática dessas teorias, revelando uma transição económica e estrutural. A agricultura local começa a articular produtividade, sustentabilidade e rentabilidade, indicando um avanço significativo em direção à agricultura comercial competitiva, sem abandonar a base alimentar representada pelos cereais.
Neste caso podemos afirmar que A precipitação (X₁) apresenta o maior valor de t (4,22), indicando que as condições climáticas são o fator de maior impacto sobre a variação da produção agrícola. O preço médio de mercado (X₂), com t = 3,81, demonstra que a rentabilidade económica atua como forte estímulo para a expansão produtiva, sobretudo nas culturas comerciais (gergelim e amendoim). A área cultivada (X₃), com t = 3,55, evidencia que a intensificação e uso eficiente do solo também contribuem significativamente para o aumento da produção total. Esses resultados sugerem que a produção agrícola de Maríngue é sensível tanto a fatores climáticos quanto económicos, confirmando as hipóteses formuladas na fase teórica.
Do ponto de vista inferencial, a rejeição de H₀ para todas as variáveis reforça a validade estatística do modelo de regressão e comprova que a variação da produção agrícola não ocorre ao acaso, mas resulta de determinantes mensuráveis e previsíveis.
6 . Conclusão e Recomendações
6.1 Conclusões
Os resultados deste estudo permitem concluir que o distrito de Maríngue encontra-se num processo de transição agrícola significativo, caracterizado pela diversificação produtiva e pela integração gradual de culturas comerciais no sistema tradicional de produção alimentar. A análise da produção entre 2020 e 2024 evidenciou um aumento de 24% nos cereais e de 144% nas oleaginosas, especialmente do gergelim, o que confirma uma mudança estrutural no perfil produtivo local.
Os índices de Shannon-Weaver e Herfindahl-Hirschman revelaram uma redução progressiva da concentração agrícola e um aumento constante da diversidade de culturas, indicando que a agricultura de Maríngue está a tornar-se mais equilibrada e resiliente. Essa evolução é um indicador positivo de sustentabilidade agrária, ao refletir maior eficiência no uso dos recursos e mitigação de riscos associados à monocultura .A análise de regressão múltipla confirmou que as variáveis precipitação, preço médio de mercado e área cultivada explicam conjuntamente 85% da variação total da produção agrícola (R² = 0,85; R² ajustado = 0,82), com nível de significância estatística p < 0,05 em todas as variáveis. O teste t Student demonstrou que esses fatores têm impacto real e mensurável, reforçando a relação entre condições climáticas, estímulos económicos e expansão produtiva.
Do ponto de vista teórico, os resultados corroboram as teses de Ellis (2000) e Altieri (1995), segundo as quais a diversificação agrícola constitui uma estratégia racional de adaptação e sustentabilidade. Da mesma forma, o modelo competitivo de Porter (1985) ajuda a interpretar a expansão do gergelim como resposta à vantagem comparativa e às oportunidades de mercado internacional, evidenciando uma agricultura em transição para a competitividade comercial. Em síntese, a agricultura de Maríngue demonstra forte potencial de crescimento sustentável, sustentado na diversificação, integração de mercado e aumento de eficiência produtiva. Contudo, a consolidação dessa trajetória depende de apoio institucional, inovação tecnológica e políticas públicas adequadas para garantir que a expansão produtiva se mantenha sustentável, inclusiva e equitativa.
6.2 Recomendações
Com base nas evidências empíricas e na análise estatística, propõem-se as seguintes recomendações estratégicas para fortalecer o processo de diversificação e sustentabilidade agrícola no distrito de Maríngue:
6.2.1 Fortalecimento da base productiva
• Promover a rotação de culturas entre cereais e oleaginosas, melhorando a fertilidade do solo e reduzindo riscos de pragas.
• Incentivar o uso de sementes certificadas de alto rendimento e tecnologias de agricultura de conservação (plantio direto, cobertura vegetal, maneio integrado de pragas).
6.2.2 Apoio técnico e capacitação
• Reforçar os serviços de extensão rural e capacitar os agricultores em técnicas modernas de produção e gestão agrícola.
• Implementar programas de assistência técnica contínua, voltados especialmente para produtores de gergelim e amendoim.
6.2.3 Desenvolvimento da cadeia de valor
• Estimular a criação de cooperativas agrícolas e associações de produtores, fortalecendo a capacidade de negociação.
• Investir em infraestruturas de pós-colheita (secagem, armazenamento e transporte), minimizando perdas e agregando valor ao produto.
• Facilitar o acesso a mercados regionais e internacionais, com certificações de qualidade e comércio justo.
6.2.4 Políticas públicas e apoio financeiro
• Criar linhas de crédito agrícola acessíveis e seguros de produção para reduzir riscos económicos.
• Integrar o gergelim e outras oleaginosas nos planos distritais e provinciais de desenvolvimento agrícola como culturas estratégicas de exportação.
6.2.5 Sustentabilidade e adaptação climática
• Desenvolver mapas agroclimáticos locais para orientar o calendário de plantio.
• Promover sistemas de irrigação eficiente em zonas de baixa precipitação.
• Monitorar continuamente os impactos ambientais da expansão agrícola, garantindo equilíbrio entre produção e conservação.
6.2.6 Investigação e inovação
• Incentivar pesquisas agronómicas locais sobre variedades de gergelim e amendoim adaptadas ao solo e clima de Maríngue.
• Estimular parcerias universidade–governo–comunidades, criando um sistema contínuo de transferência tecnológica.
Considerações finais
Os resultados alcançados demonstram que a diversificação agrícola é o caminho estratégico para a sustentabilidade e competitividade rural em Maríngue.
A transição de culturas alimentares para culturas comerciais, especialmente a expansão do gergelim, representa não apenas uma mudança produtiva, mas também um avanço socioeconómico com impacto direto no rendimento das famílias e na economia local.
Contudo, a consolidação dessa transformação requer planeamento integrado, políticas inclusivas e investimentos sustentáveis, garantindo que o crescimento económico se traduza em melhor qualidade de vida, segurança alimentar e equilíbrio ambiental.
Assim, a experiência de Maríngue pode servir de referência nacional e regional para políticas de desenvolvimento agrícola orientadas pela diversificação, sustentabilidade e competitividade.
1 Competividade na perpectiva de um Pais, O World Economic Fórum( 2010) ela e definida como o grau em que uma nacao pode, em condições de mercado , produzir bens e serviços que vao de acordo com os testes de mercados internacionail e simultaneamente expandir os rendimemtos reias dos cidados ( Presidents Cpmission em Industrial Competitiveness(1985) em Esterhuizen(2006).
Na perpectiva empresarial , para Kennedy, et al(1997) competitividade e a capacidade de criar valor através de liderança de custos ou diferenciação de produtos(. Estes autores consideram a capacidade sustentável de ganhar e manter cota no mercado , tendo em conta a rentabilidade.
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1Licenciado em economia e Gestão. Licenciado Em Direito. Pós-graduado em Planificação em desenvolvimento Regional-Distrito. Mestrado em Contabilidade, Auditoria e Gestão. Doutorando Estudos de Desenvolvimento.
Escola dos Altos Estudos de Negócio.
nelsonmaculino@yahoo.com.br,
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