SÍNDROME DA VASOCONSTRIÇÃO CEREBRAL SECUNDÁRIA AO USO DE CANNABIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601261406


Gabriela Rocha Miranda Junqueira1
Leonardo Madeira Braga Fernandes2
Matheus Peralva Bastos3
Lucas Motta Oliveira Silva4


RESUMO

A Síndrome da Vasoconstrição Cerebral Reversível (SVCR) é uma condição neurológica caracterizada por cefaleia súbita intensa, frequentemente descrita como cefaleia em trovoada, associada à vasoconstrição segmentar transitória das artérias cerebrais. Diversos fatores desencadeantes têm sido descritos, incluindo uso de drogas recreativas, medicamentos vasoativos, gestação e puerpério. O consumo de maconha vem sendo cada vez mais relacionado ao desenvolvimento da síndrome, especialmente em indivíduos jovens. Este trabalho tem como objetivo descrever um relato de caso de SVCR associada ao uso crônico de cannabis, que ocorreu no Hospital Municipal Dr. Munir Rafful (HMMR),  enfatizando os achados clínicos, diagnósticos e a evolução do paciente.

Palavras-chaves:  Síndrome da Vasoconstrição Cerebral Reversível; Cefaleia em Trovoada; Cannabis

ABSTRACT

Reversible Cerebral Vasoconstriction Syndrome (RCVS) is a neurological condition characterized by sudden severe headache, often described as thunderclap headache, associated with transient segmental vasoconstriction of the cerebral arteries. Several triggering factors have been described, including the use of recreational drugs, vasoactive medications, pregnancy, and the puerperium. Cannabis consumption has increasingly been associated with the development of the syndrome, particularly in young individuals. This study aims to describe a case report of RCVS associated with chronic cannabis use, emphasizing the clinical and diagnostic findings and the patient’s outcome.

Keywords: Reversible Cerebral Vasoconstriction Syndrome; Thunderclap Headache; Cannabis.

CONTEXTO

A Síndrome da Vasoconstrição Cerebral Reversível (SVCR) constitui um distúrbio cerebrovascular caracterizado por vasoconstrição multifocal e transitória das artérias intracranianas, com resolução completa geralmente em até 12 semanas (DUCROS, 2012; CALABRESE et al., 2007). A principal manifestação clínica é a cefaleia súbita intensa, recorrente, frequentemente acompanhada de náuseas, vômitos, fotofobia e, em alguns casos, déficits neurológicos focais ou crises epilépticas (SINGHAL et al., 2004).

Embora considerada uma condição benigna em muitos casos, a SVCR pode evoluir com complicações potencialmente graves, como acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, hemorragia intracerebral e hemorragia subaracnoide não aneurismática (MILLER; SHIVASHANKAR; MITCHELL, 2015).

Entre os fatores precipitantes descritos na literatura destacam-se o uso de drogas vasoativas, incluindo simpaticomiméticos, antidepressivos, triptanos, cocaína e maconha (SINGHAL; HEDGES, 2012). O aumento do consumo de cannabis tem tornado essa associação cada vez mais relevante na prática clínica.

APRESENTAÇÃO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 32 anos, previamente hígido, sem comorbidades conhecidas, deu entrada no pronto-socorro com queixa de cefaleia súbita de forte intensidade, associada a parestesia em membro superior esquerdo, com início há aproximadamente 10 horas. Negava febre, trauma craniano ou perda de consciência.

Relatava uso diário de maconha há cerca de oito anos, com aumento significativo da frequência e da potência da substância na noite anterior ao início do quadro.

Ao exame físico, encontrava-se consciente e orientado, com escore de Glasgow 15, pressão arterial de 120 × 90 mmHg, frequência cardíaca de 88 bpm e saturação periférica de oxigênio de 99% em ar ambiente. O exame neurológico evidenciava hipoestesia em membro superior esquerdo, com Escore NIHSS de 1, sem outras alterações neurológicas.

A tomografia computadorizada de crânio inicial não evidenciou acidente vascular encefálico (AVE). O paciente foi internado para investigação, com realização de exames laboratoriais, eletrocardiograma e angiotomografia de vasos supra-aórticos, todos sem alterações significativas.

Diante dos resultados iniciais, foi solicitado parecer da equipe de Neurologia do HMMR, que orientou investigação de causas reumatológicas e hematológicas, incluindo trombofilias associadas a AVC em pacientes jovens, além da realização de angiorressonância magnética, por se tratar de exame com maior sensibilidade para avaliação dos vasos cerebrais.

DADOS COMPLEMENTARES

Inicialmente, foram solicitados exames laboratoriais para investigação de etiologias reumatológicas e hematológicas associadas a eventos trombóticos em pacientes jovens, incluindo anticorpos anti-beta-2-glicoproteína I (IgG e IgM), anticardiolipina (IgG e IgM) e anticoagulante lúpico. Os resultados encontravam-se dentro dos valores de normalidade, com exceção dos anticorpos anti-beta-2-glicoproteína I (IgG/IgM), que apresentaram alteração discreta, possivelmente relacionada ao próprio evento isquêmico agudo.

Posteriormente, foi realizada angiorressonância magnética cerebral, que evidenciou área de isquemia subaguda tardia/crônica em zona de transição entre territórios vasculares (zona watershed interna) à direita, provavelmente relacionada a área de estreitamento severo no segmento M1 da artéria cerebral média direita. Foram também identificadas outras áreas de estreitamento luminal segmentar em diferentes vasos intracranianos, em paciente jovem. O laudo ressaltou que a possibilidade diagnóstica de síndrome de vasoconstrição cerebral reversível (SVCR), também conhecida como síndrome de Call-Fleming, deveria ser incluída na investigação etiológica.

Diante dos achados clínicos, radiológicos e laboratoriais, associados à ausência de fatores de risco cardiovasculares tradicionais e ao relato de uso abusivo de cannabis na noite anterior ao início do quadro, a principal hipótese diagnóstica considerada foi síndrome de vasoconstrição cerebral reversível secundária ao uso de cannabis.

O paciente foi mantido em tratamento clínico para acidente vascular cerebral isquêmico menor, com terapia antiplaquetária dupla (ácido acetilsalicílico e clopidogrel) e estatina, evoluindo de forma estável durante a internação, sem progressão de déficits neurológicos.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

O diagnóstico diferencial da SVCR é amplo e inclui condições neurológicas graves com cefaleia súbita e alterações vasculares, sendo sua distinção essencial para o manejo e o prognóstico.

A principal hipótese diagnóstica frente à cefaleia em trovoada é a hemorragia subaracnoide aneurismática. Ambas compartilham início abrupto, dor intensa e sintomas autonômicos. Contudo, na HSA observa-se tipicamente presença de sangue subaracnoide na tomografia.  (PERILLO, T. et al., 2022)

As trombofilias, incluindo a síndrome do anticorpo antifosfolípide, deficiências de proteínas C e S, antitrombina III e mutações genéticas pró-trombóticas, podem levar à formação de trombos arteriais ou venosos, resultando em eventos isquêmicos cerebrais. Clinicamente, esses eventos podem se manifestar de forma semelhante à Síndrome da Vasoconstrição Cerebral Reversível (SVCR), com déficits neurológicos focais agudos e cefaleia de início súbito, dificultando o diagnóstico diferencial inicial. (BENEMÉRITA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE BENEFICÊNCIA, 2025).

Do ponto de vista radiológico, ambas as condições podem cursar com áreas de isquemia cerebral, inclusive em zonas de fronteira (watershed), especialmente em casos de comprometimento hemodinâmico. Entretanto, enquanto as trombofilias estão associadas a fenômenos tromboembólicos persistentes, a SVCR caracteriza-se por vasoconstrição segmentar e multifocal das artérias cerebrais, potencialmente reversível, frequentemente desencadeada por agentes vasoativos, como drogas ilícitas, incluindo a cannabis. (SHORT, K., et al, 2021)

RESULTADO

O paciente apresentou evolução clínica estável durante a internação hospitalar, sem progressão de déficits neurológicos. Recebeu alta hospitalar em boas condições gerais, com encaminhamento para seguimento ambulatorial em neurologia. Foi programado controle por angiorressonância magnética cerebral após 8 a 12 semanas do evento. Manteve-se tratamento clínico para acidente vascular cerebral isquêmico menor, com terapia antiplaquetária dupla (ácido acetilsalicílico e clopidogrel), associada ao uso de estatina.

DISCUSSÃO

A fisiopatologia da Síndrome da Vasoconstrição Cerebral Reversível (SVCR) ainda não é totalmente compreendida, sendo considerada um processo multifatorial associado à disfunção transitória do controle do tônus vascular cerebral. Evidências sugerem que a desregulação da autorregulação cerebral, incluindo hiperatividade simpática e disfunção endotelial, exerce papel central no desenvolvimento da síndrome. Esses mecanismos alteram o equilíbrio neurovascular, levando a vasoconstrição segmentar e reversível das artérias cerebrais, o que explica as características clínicas de dor intensa de início súbito e as alterações angiográficas típicas da doença. (CHEN; WANG, 2022)

O tetrahidrocanabinol (THC), principal componente psicoativo da cannabis, apresenta efeitos complexos sobre o sistema cardiovascular e neurovascular. Estudos apontam que substâncias vasoativas, como o THC, podem induzir vasoconstrição e alterações na autorregulação cerebral, possivelmente por meio de estimulação adrenérgica ou aumento do estresse oxidativo, mecanismos já implicados em relatos e séries de casos associados à SVCR . (VERAS et al., 2022)

Epidemiologicamente, a SVCR parece ocorrer com maior frequência em adultos de meia-idade, com predomínio em mulheres, embora possa acometer ambos os sexos e diversas faixas etárias. É também reconhecida como causa de acidente vascular cerebral, especialmente quando desencadeada por gatilhos identificáveis tais como agentes vasoativos . O reconhecimento precoce da SVCR é fundamental, pois até um terço dos pacientes podem desenvolver complicações isquêmicas ou hemorrágicas durante a fase ativa da doença, incluindo AVC isquêmico, hemorragia subaracnoide convexa e outras lesões neurovasculares. (CALIL, 2024)

O tratamento da SVCR baseia-se, em grande parte, em estratégias observacionais e relatos de casos, devido à ausência de ensaios clínicos randomizados de grande porte. As medidas terapêuticas incluem a eliminação de fatores precipitantes, controle adequado da dor e a administração de bloqueadores dos canais de cálcio, como a nimodipina, que tem sido associada à redução dos sintomas e possível atenuação da vasoconstrição (CALIL, 2024)

CONCLUSÃO

Este relato de caso reforça a associação entre o uso de cannabis e o desenvolvimento da Síndrome da Vasoconstrição Cerebral Reversível, conforme descrito na literatura, destacando o papel de substâncias vasoativas na disfunção transitória do tônus vascular cerebral. A apresentação clínica típica, os achados sugestivos na angiorressonância e a exclusão de outras etiologias em paciente jovem sem fatores de risco cardiovasculares corroboram os mecanismos fisiopatológicos discutidos. O reconhecimento precoce da SVCR e a identificação do fator desencadeante foram fundamentais para o manejo clínico adequado, contribuindo para evolução favorável e redução do risco de complicações neurológicas.

REFERÊNCIAS

DUCROS, A. Reversible cerebral vasoconstriction syndrome. The Lancet Neurology, London, v. 11, n. 10, p. 906–917, 2012. DOI: 10.1016/S1474-4422(12)70135-7.

CALABRESE, L. H. et al. Reversible cerebral vasoconstriction syndrome: analysis of 139 cases. Archives of Neurology, Chicago, v. 64, n. 8, p. 1009–1016, 2007. DOI: 10.1001/archneur.64.8.1009. DOI: 10.1001/archneur.61.8.1117.

SINGHAL, A. B. et al. Reversible cerebral vasoconstriction syndromes. Archives of Neurology, Chicago, v. 61, n. 8, p. 1117–1120, 2004. DOI:10.1001/archneur.61.8.1117.

MILLER, T. R.; SHIVASHANKAR, R.; MITCHELL, P. Cerebral vasoconstriction syndromes: diagnosis and treatment. Neuroimaging Clinics of North America, Philadelphia, v. 25, n. 3, p. 425–443, 2015. DOI: 10.1016/j.nic.2015.03.005.

PERILLO, T.; PAOLELLA, C.; PERROTTA, G.; SERINO, A.; CARANCI, F.; MANTO, A. Reversible cerebral vasoconstriction syndrome: review of neuroimaging findings. Radiol Med, v. 127, n. 9, p. 981–990, 2022. DOI: 10.1007/s11547-022-01532-2. PMID: 35932443

BENEMÉRITA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE BENEFICÊNCIA. AVC em jovens: causas, sintomas e prevenção. BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, 17 mar. 2025. Disponível em: https://www.bp.org.br/artigo/avc-em-jovens-causas-sintomas-e-prevencao. Acesso em: 21/01/26

SHORT, K.; EMSLEY, H. C. A. Illicit drugs and reversible cerebral vasoconstriction syndrome. Neurohospitalist, v. 11, n. 1, p. 40–44, 2021. DOI: 10.1177/1941874420953051.

CHEN, S.-P.; WANG, S.-J. Pathophysiology of reversible cerebral vasoconstriction syndrome. Journal of Biomedical Science, v. 29, art. 72, 2022. DOI: 10.1186/s12929-022-00857-4

VERAS, A. O. et al. Reversible cerebral vasoconstriction syndrome associated with probable drug poisoning. Radiology Case Reports, v. 18, n. 3, p. 844–849, 20 dez. 2022. DOI: 10.1016/j.radcr.2022.11.044. PMID: 36589490. PMCID: PMC9800248. 

CALIL, Danielle. Conheça a síndrome de vasoconstrição cerebral reversível. Portal Afya, 28 out. 2024. Disponível em: https://portal.afya.com.br/neurologia/conheca-a-sindrome-de-vasoconstricao-cerebral-reversivel. Acesso em: 21 jan. 2026


1Médica Pelo Unifoa – Centro Universitário de Volta Redonda | Orcid 0000-0002-8255-9187
Coautores:
2Orcid: 0009-0009-7403-3546   | Médico Pela Faculdade de Medicina de Valença
3Orcid: 0000-0002-0116-9938| Médico Pelo Unifoa- Centro Universitário de Volta Redonda
4Orientador: | Orcid: 0009-0002-8762-3325 | Médico Pelo Unifoa- Centro Universitário de Volta Redonda

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