DISCURSO DO DICIONÁRIO: ESTUDO DO VERBETE MULHER

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511081834


Odália Bispo de Souza1


RESUMO:

Este estudo propõe uma abordagem acerca da concepção de discurso em Foucault, considerando-se as relações entre o sujeito que enuncia e as condições históricas que fizeram emergir determinados enunciados, buscando-se compreender o que comumente permite que determinado enunciado compareça e não outro em seu lugar. Nessa perspectiva, a linguagem é deslocada para o domínio social e institucional, já que todo discurso remete a outro(s) discurso(s), constituindo uma rede discursiva e cria relações de saber e de poder. Tal perspectiva será ilustrada a partir do enunciado lexicográfico que conceitua a entrada mulher, em três dicionários distintos: Pequeno Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa (1964), Aurélio Século XXI (1999) e Houaiss (2001) por intermédio dos quais buscar-se-á reforçar a ideia de que a reatualização de significados que comparecem em cada reedição é inerente às formas de dizer de uma sociedade, em uma dada época e em um dado espaço.

PALAVRAS-CHAVE: Discurso; Sujeito; Sentido; Enunciado; História.

Considerações Iniciais

Ao se observar a língua na sua perspectiva enunciativa, deve-se considerar o fato de que os sujeitos envolvidos na cena enunciativa estão situados em determinados contextos histórico-sociais. A língua, nessa perspectiva, é tomada como um sistema sujeito a deslizamentos e, sobretudo, como uma instituição social, constituindo-se como condição de possibilidade do discurso, permitindo a heterogeneidade discursiva. Hjelmslev (1975, p. 1-2 apud Pietroforte, 2004, p. 117), contrariando a ideia de que há um mundo objetivo, cujos referentes e acontecimentos refletem-se na linguagem, propõe observar o modo como as línguas interpretam o mundo material, atribuindo-lhe sentido. Este, por sua vez, emana da linguagem e resulta da construção humana, não resultando do mero reflexo real do mundo físico.

O desenvolvimento da linguagem está tão inextricavelmente ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida, que é possível indagar-se se ela não passa de um simples reflexo ou se ela não é tudo isso: a própria fonte de desenvolvimento dessas coisas. (Hjelmslev, 1975, p. 1-2 apud Pietroforte, 2004, p. 117)

Visto desse modo, embora consciente de que as coisas existam enquanto coisas no mundo, a busca será sempre pela desvelamento daquilo que faz com que elas tenham os sentidos que têm e isso só é viabilizado quando as palavras são colocadas na condição de discurso. A linguagem, então, produz efeitos de sentidos e não se constitui como reflexo das coisas. intersubjetivamente pelos falantes da língua focalizada”. Nesse sentido, a língua é concebida como um fato social e não é possível desvinculá-la dos seus respectivos usuários, logo é como objeto da enunciação que ela adquire condições de significação. É, pois, na enunciação que deve ser constatada a emergência das marcas e as evidências de que o sujeito do enunciado relaciona-se diretamente com o que é dito.

Desse modo, neste estudo, tomaremos como base fundamental para as reflexões acerca da discursividade do enunciado as postulações de Foucault que, mesmo não tendo a intenção de construir uma teoria do discurso, suas temáticas centrais foram fecundas para as pesquisas linguísticas ocupadas com o discurso e são amplas, envolvendo as relações entre os saberes e os poderes na história da sociedade ocidental. Na sua análise da forma como a História se constitui, concebe o enunciado discursivo, produzido por indivíduos que com ela se envolvem, em sua função enunciativa, considerando o fato de que é sempre produzido por um sujeito, em um lugar institucional, determinado por regras sócio-históricas. “O enunciado não é, em si mesmo, uma unidade, mas sim uma função que cruza um domínio de estruturas e de unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço”. (Foucault, 2008, p. 99).

Discurso, Sujeito e Efeitos de Sentido

Considerando que o discurso não pode ser definido fora das relações que o constituem, essas relações ocorrem no interior das formações discursivas2. Então, o que enunciamos são possibilidades de combinações resultantes de relações pré-estabelecidas, que comparecem, no momento da enunciação àquele que enuncia. Foucault procura refletir acerca das razões subjacentes ao mecanismo de agrupamento de certos enunciados em unidades.

Os acontecimentos discursivos, por sua vez, estão vinculados às instituições nas quais se tornam eventos e, por isso, constituem-se como prática, isto é, prática política de um sujeito. Eles só podem ser concebidos como uma família de enunciados pertencentes a uma mesma formação discursiva. Para Foucault (2008, p. 135-136), discurso é

um conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formação discursiva; ele é constituído de um número limitado de enunciados, para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência; é de parte a parte, histórico – fragmento da história, unidade e descontinuidade na própria história, que coloca o problema de seus próprios limites, de seus cortes, de suas transformações, dos modos específicos de sua temporalidade.

Nesse sentido, o discurso se liga a localizações institucionais e é determinado por regras sócio-históricas que possibilitam que ele seja um enunciado. Logo, o sujeito discursivo está imerso na trama histórica e já lhe são prescritas as posições a serem ocupadas no momento da fala. Além disso, conforme se verifica na citação acima, o conceito foucaultiano de discurso pressupõe a ideia de que ele emerge no conjunto de enunciados e se integra a um jogo enunciativo. Tal concepção de discurso remete à ideia de prática discursiva, uma vez que se constitui como um conjunto de enunciados e os enunciados são performances verbais em função enunciativa. Dito de outra forma, discursos são práticas que formam os objetos de que falam e só podem ser definidos nos contextos das relações que os constituem.

Os discursos são concebidos em sua uma dispersão; não há nenhum princípio de unidade regendo os elementos que o constituem. Nesse sentido, os diversos tipos de enunciação, não remeteriam à função unificante de um sujeito, mas manifestariam sua dispersão. Conforme Fonseca (2003, p. 16), “seja dispersão nos diferentes status que recebe, seja nas diversas posições que ocupa quando exerce um discurso, seja ainda na descontinuidade dos planos de onde fala”. Ao descrever um enunciado, não se faz necessário analisar as relações entre o autor e o que foi proferido por ele, mas busca-se determinar qual é a posição que pode e deve ocupar qualquer indivíduo para ser o seu sujeito. Infere-se, com isso, que uma concepção unificante do sujeito deve ser rejeitada, uma vez que a função sujeito, nessa perspectiva, é vazia, constituindo- se como um espaço a ser preenchido por diferentes indivíduos que o ocuparão no momento mesmo da enunciação.

O sujeito que enuncia um dado discurso não pode ser reduzido a mecanismos gramaticais, já que ele é historicamente determinado e a História é construída por jogos enunciativos e verdadeiras batalhas discursivas. O discurso proferido, por sua vez, configura-se como o espaço de confrontos materializados em acontecimentos discursivos e a produção dos sentidos construídos nesse viés é resultante do embate discursivo que se estabelece na teia que mantêm imbricadas história e sociedade. A atribuição de verdade a um discurso qualquer é resultante do reconhecimento das relações significativas inerentes à relação entre os discursos e o indivíduo que os proferiu.

Todo discurso manifesto reside secretamente em uma espécie de já dito, isto é, o discurso se dá no jogo da instância própria a cada ato enunciativo. Aquilo que ele anuncia acha-se de certa forma articulado nesse silêncio que precede sua enunciação. Por isso a necessidade de excluir qualquer possibilidade de analisar, na ordem do discurso, a irrupção de um acontecimento verdadeiro e original. É preciso tratá-lo no jogo da instância própria a cada um. Dessa forma, Foucault questiona a ideia de um sujeito que seja tomado como meio organizador e unificador de um determinado grupo de enunciados, negando a possibilidade de um sujeito individual, de uma subjetividade transcendental. “O que se coloca em seu lugar são diferentes formas de subjetividade”, as quais compreendem “as práticas que, dentro da nossa cultura, fazem do homem um sujeito, ou seja, aquelas que constituem o indivíduo moderno, sendo ele um sujeito preso a uma identidade que lhe é atribuída como própria” (Fonseca, 2003, p. 17; 25).

Na fase denominada arqueológica, Foucault mostra-se interessado nas chamadas ciências do homem, ou seja, em todas as ciências que o tomam como objeto. Nesse caso, é um homem discursando que será inserido nessa reflexão. Eis um aspecto que instaura significativas indagações que permeiam o projeto foucaultiano de análise da História: o que torna possível tais e tais discursos tidos como verdadeiros em determinados momentos históricos? Seriam os sujeitos que fazem a história ou esta faz-se a si mesma por intermédio deles e neles?

Criticando uma concepção positivista da História tradicional como continuidade, organizada com base em modelos de narrativas que priorizam a sequência linear de acontecimentos em uma suposta hierarquia de determinações, em que o sujeito é, de forma soberana, protegido, Foucault propõe analisá-la na sua descontinuidade e dispersão. Nessa perspectiva, o sujeito é descentrado e o lugar de certeza, bem como o valor documental dos textos históricos é colocado em xeque, haja vista que um mesmo fato histórico pode ser contado sob divergentes pontos de vista.

Então, o efeito de sentido provocado pelo relato histórico é, necessariamente, produto da intervenção do historiador que, ao escolher quais documentos devem ser vislumbrados com valor de testemunho, consciente ou inconscientemente, o faz conforme sua própria posição na sociedade de sua época. São, portanto, os procedimentos discursivos que constroem a ilusão de objetividade, legitimidade e efeito de verdade ao texto histórico. A isso, vincula- se o fato de que, ao lidar com os documentos e suas respectivas condições de produção, inevitavelmente o historiador fará uma interpretação da forma como a sociedade está representada.

Ainda numa perspectiva da descontinuidade da construção do discurso histórico, Foucault postula que tal noção se tornou um dos elementos fundamentais da análise histórica, uma vez que é no limiar do seu funcionamento que o historiador deixa escapar sua própria história, isto é, ele fala a partir dessa ruptura, constituindo, portanto, uma necessidade elementar de que sejam abandonadas as noções ligadas ao postulado de continuidade para a construção do discurso histórico. Foucault, em algumas das suas contundentes negativas, propõe:

a história não é estrutura, mas vir a ser; não é simultaneidade, mas sucessão; não é sistema, mas prática; não é forma, mas esforço incessante de uma consciência retomando a si mesma e tentando se ressarcir até o mais profundo de suas condições […] (2008. p. 86)

Daí emergem questionamentos como: por que há esse discurso e não outro em seu lugar? Que regras permitiram que esse discurso pudesse ser enunciado? Se uma análise histórica do discurso vislumbra a procura e a repetição de uma origem que não recupera a própria determinação da origem do dizer; se a interpretação ou escritura de qualquer acontecimento tomado como um já dito em alguma dispersão temporal constituir-se-ia ao mesmo tempo um não dito; então, é impossível recuperar a origem secreta dos acontecimentos.

A noção de discurso incorpora, por conseguinte, a noção de uma língua, constituindo-se como um sistema de enunciados possíveis. O discurso abarca um conjunto sempre finito de enunciados, limitado pelas sequências linguísticas por intermédio das quais foi formulado. Assumir que o discurso está situado num jogo de enunciados possíveis em dada rede é vê-lo na perspectiva de acontecimento discursivo. Desse fato, emerge a necessidade de determinar as condições de existência de um dado discurso, reconhecer seus limites e estabelecer correlações com outros enunciados aos quais ele eventualmente possa estar vinculado, evidenciando, portanto, que outras formas de enunciação ele exclui. O que é enunciado em uma dada manifestação discursiva representa conjuntos discursivos que apenas teriam permanecido implícitos, não sendo, entretanto, inteiramente novos, uma vez que há um número de relações que podem ser determinadas a partir de sua irrupção.

Na perspectiva foucaultiana, tomar o discurso como acontecimento enunciativo é reconhecer que ele não é independente, nem solitário, nem soberano. Nesse caso, o discurso pode se articular com acontecimentos que não são, necessariamente, de natureza discursiva, “mas que podem ser de ordem técnica, prática, econômica, social, política” (Foucault, 2008, p. 94). Há, portanto, um jogo de relações que emanam do campo dos acontecimentos discursivos.

O trabalho do analista desse discurso constitui-se, então, em descrever tais jogos de relações, considerando, evidentemente, um conjunto de condições nas quais está inserido o sujeito enunciador e que tornam possíveis e valorativos determinados acontecimentos discursivos em uma dada cultura. Isto é, as condições de produção e recepção de um dado discurso. Logo, o discurso constitui-se no espaço em que, necessariamente, saber e poder se articulam, já que quem fala, fala de um lugar específico, conforme os direitos que lhe são outorgados institucionalmente. Esse discurso, que adquire valor de verdade, que transporta para o receptor o saber é, também, gerador de poder.

O sujeito, que se constitui no interior da história, não pode ser visto como núcleo ou fonte dos dizeres, mas como produto e efeito. Fonseca (2003, p. 80) ressalta que o interesse de Foucault está “em mostrar como as práticas sociais e as relações de poder formam domínios de saber que, por sua vez, fazem nascer novas formas de sujeitos”. Tomar o discurso como objeto de investigação é considerar que ele não pode ser analisado apenas e simplesmente sob seu aspecto linguístico, mas como inserido em um jogo estratégico em que estão envolvidas as suas condições de produção e seus efeitos de sentido.

Considera-se, na perspectiva foucaultiana, que o discurso está inserido em uma rede que envolve, por um lado, o quadro das instituições em que é produzido, as quais possuem o poder de delimitá-lo, bem como os embates históricos e sociais que se cristalizam na sua materialização e, por outro lado, o espaço que cada discurso configura para si mesmo no interior de uma rede discursiva. O efeito de sentido provocado por essa teia discursiva é resultante de um embate que se trava na trama da história de uma sociedade, como decorrência das posições sustentadas por aqueles que enunciam. De acordo com Cardoso (2003, p. 132),

palavras, expressões, proposições mudam de sentido segundo posições sustentadas por aqueles que as empregam, o que significa que elas tomam o seu sentido em referência a essas posições, isto é, em referência às formações ideológicas nas quais essas posições e inscrevem.

Os sujeitos que enunciam, por sua vez, não têm consciência das práticas discursivas que lhes são impostas e agem de acordo com as determinações de uma dada sociedade. Disso resulta, segundo Araújo (2008, p. 119), que “o sujeito não é dado definitivamente, nem é portador da verdade, mas alguém que se constitui no interior da história e é cada vez fundado por ela”.

Foucault concebe o enunciado discursivo em sua função enunciativa, considerando o fato de que é produzido por um sujeito (ou função-sujeito), em um lugar institucional, determinado por regras sócio-históricas. “O enunciado não é, em si mesmo, uma unidade, mas sim uma função que cruza um domínio de estruturas e de unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço”. (Foucault, 2008, p. 99).

O sujeito que enuncia, por sua vez, não pode ser considerado o dono do discurso, mas deve ser tomado como alguém que só pôde fazê-lo mediante condições específicas que emergem condicionadas ao regime regulador dos enunciados de uma dada época. Logo, na perspectiva foucaultiana, o lugar do sujeito dos enunciados discursivos é vazio e poderá ser ocupado por aquele que preencher os requisitos necessários para assumir determinadas posições e, portanto, estará apto para atuar como sujeito deste ou daquele enunciado. As práticas discursivas, por sua vez, decorrem de um encadeamento discursivo numa infinita rede de relações.

O discurso do dicionário

Este estudo, embasado numa abordagem discursiva, propõe ainda analisar, de um lado, a forma como o dicionário está materializado e, de outro lado, o discurso que se manifesta na sua materialidade. Considera-se que a análise discursiva das entradas lexicais de um dicionário deve pautar-se no reconhecimento de que são enunciados de enunciados, cujos significados estão sempre atrelados às práticas sociais e representam valores semânticos inerentes a um dado momento histórico. Nunes (2002) sugere que o saber linguístico veiculado pelo dicionário é necessariamente produto histórico e cultural situado num determinado tempo e num dado espaço. Logo, ao estudá- lo, é inevitável considerar as condições de produção que envolvem seu processo de criação:

quem produz o dicionário, como, onde, para quem, em que circunstâncias? Analisando o caso brasileiro, levantamos as seguintes condições de produção: a territorialidade, a administração do território, a urbanização, a institucionalização, a influência de teorias, os domínios conexos, as tecnologias. (NUNES, 2002, p. 107).

Assim, uma concepção de linguagem como código, como representação objetiva das ideias e do mundo real não dá sustentação ao que se pretende aqui. Assume-se, portanto, o posicionamento de que a língua possui uma opacidade que lhe é peculiar e que sua significação é sempre situada, na proporção que sua materialidade – o discurso – permite explicitar fatores sociais e históricos. Desse modo, compreende-se que as assertivas que compõem o dicionário caracterizam-se como um construto sociocultural, cujo valor perpassa a noção de texto para configurar-se como produção discursiva. Isto é, o valor de verdade adquirido pelo dicionário deve ser visto sob a ótica que o inclui, como qualquer discurso, em uma perspectiva social, histórica e cultural.

Tendo em vista que, o dicionário é vislumbrado na sua perspectiva discursiva, busca-se reconhecer nele um importante material para se verificar os modos de dizer de uma sociedade, funcionando como um instrumento de estabilização dos discursos. Partindo dessa noção, observaremos o discurso lexicográfico, a partir do verbete MULHER que compõe a microestrutura de três dicionários distintos: Pequeno Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa (1964), Aurélio Século XXI (1999) e Houaiss (2001). Ressaltamos, ainda, que o critério de escolha desses dicionários foi baseado no interesse por montar um corpus que representasse duas fases históricas distintas a fim de comparar como se dá o processo de estruturação da microestrutura do verbete em cada caso e de que forma a língua e os dizeres da sociedade aparecem representados em cada época. Com isso, a partir das divergências entre eles, torna-se evidente a subjetividade no fazer lexicográfico e, com base nas diferenças de sentidos veiculados decorrentes de transformações históricas, é possível reconhecer a discursividade inerente aos dicionários.

Comparando-se um mesmo verbete constante tanto no Aurélio Século XXI quanto no Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (1964), pode-se inferir que a inserção de termos em um dicionário e/ou a ampliação de seus respectivos significados é decorrente de mudanças materiais, sociais, históricas e culturais que acontecem na sociedade, evidenciando, portanto, que o efeito de sentido provocado pelo discurso do dicionário é inerente às suas condições de produção.

Figura 1. Verbete mulher.

Fonte: Pequeno Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa (1964)

Figura 2. Verbete mulher

Fonte: Dicionário Aurélio Século XXI

Figura 3. Verbete mulher

Fonte: Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa (2001)

Observando-se o artigo lexicográfico mulher, verifica-se, por exemplo, no PDBLP: pessoa do sexo feminino e esposa. Isto é, há uma redução do termo a uma função específica (esposa) e a mulher, no caso, não é considerada ser humano, tal como define o Aurélio Século XXI. Além disso, a maior parte dos elementos que compõem o enunciado lexicográfico, no primeiro caso, está voltada para o emprego popular do termo: da comédia, da má nota, do mundo, vadia. Tais sentidos, que parecem estar resguardados num valor moral e social pouco significativo que a mulher possuía à época, hoje, adquirem conotação altamente pejorativa e inconcebível. Para Sílvia Helena Barbi Cardoso (2003, p. 132), “palavras, expressões, proposições mudam de sentido segundo posições sustentadas por aqueles que as empregam, isto é, em referência às formações ideológicas nas quais essas posições se inscrevem”.

Destaca-se, também, que o registro da entrada mulher proposto pelo Aurélio Século XXI permite identificar uma mulher totalmente diferente daquela mencionada no PDBLP. Além de ser humano, tem-se: Mulher dotada das chamadas qualidades e sentimentos femininos (carinho, compreensão, dedicação ao lar e à família, intuição). Trata-se de uma referência à mulher como importante figura para a constituição da família. Verifica-se ainda: A mulher considerada como parceira sexual do homem; amante, companheira, concubina. Nesses casos, ainda que faça alusão ao papel sexual da figura da mulher, não se trata de uma vadia. Compreende-se que, tomado numa perspectiva discursiva, os significados que emergem do enunciado lexicográfico não são fixos, isto é, movem-se, sofrendo transformações de natureza social, histórica e política.

Ainda de acordo com o Aurélio Século XXI, encontra-se Mulher que apresenta os requisitos necessários para um determinado empreendimento, para um determinado encargo. Isso sugere uma reatualização dos significados inerente às próprias mudanças que aconteceram na sociedade e, nesse caso, quanto ao valor que a mulher adquiriu fora do âmbito familiar, alcançando função de destaque no mundo corporativo. Essa imagem de mulher imersa no universo empreendedor comparece, também, no exemplo criado pelo próprio autor: mulher de negócios e na locução Mulher da sociedade. Dessa forma, considera- se inócuo não reconhecer o fato de que o sujeito está imerso na história e produz discursos, conforme essa imersão. Esse pressuposto se configura já no nome que dá título à obra de Aurélio Ferreira: um dicionário que se propõe a ser a representação da língua no século XXI precisa assumir, nos sentidos que veicula, valores próprios a esse século. Pode-se dizer, então, conforme Araújo (2004, p. 220):

Os enunciados são de natureza histórica, têm na história suas condições de emergência, que a língua e o sentido não esgotam. São produzidos por um dizer ou uma escrita registrados de alguma forma, portanto, com a materialidade específica, de tal modo que, apesar de únicos, podem ser repetidos, transformados, reativados. O que permite ligações com acontecimentos de outra ordem, quais sejam, fatores técnicos, econômicos, sociais e políticos.

Logo, são os elementos, as figuras, as temáticas dos quais se utiliza o lexicógrafo que produzirão efeitos de sentido elucidados no próprio discurso e que se configuram como sua respectiva visão de mundo. E, portanto, estabelecer sentido aos respectivos discursos, isto é, compreendê-los significa apreender as suas várias possibilidades, estabelecendo relações (que produzem efeitos de sentido) com os diferentes processos de significação. Então, o ato de compreender não consiste necessariamente em atribuir sentidos, mas explicitar o modo como determinada manifestação discursiva produz sentidos.

Visto dessa forma, pode-se inferir que não há discurso que não produza efeito e o próprio trabalho da articulação dos elementos discursivos a serem utilizados é resultante de uma ação do sujeito interagindo com a língua e fornecendo condições de produção e de interpretação. Logo, o procedimento de análise discursiva, tal como o que se propôs neste estudo, requer fazer emergir os aspectos concernentes à forma de existência social dos sujeitos, considerando-se fatores linguísticos e ideológicos que dão sustentabilidade ao percurso interacional nas formações discursivas e na formação e transformação desses indivíduos e do grupo social no qual se encontram inseridos. Nessa perspectiva, concordamos com José Horta Nunes para quem definir uma palavra é atribuir uma unidade imaginária a uma porção do real, unidade que falha, desvanecendo-se logo e criando o desejo de complementação, de reformulação, de reedição, numa repetição que se desdobra na medida em que a história lhe dá lugar. (Nunes, 2006, p. 22)

Quanto aos elementos utilizados para definir mulher, o Houaiss apresenta um artigo lexicográfico bastante diversificado, no qual se verifica tanto elementos que remetem a uma imagem negativa da figura da mulher (mulher-objeto; aquela que, tb., mediante pagamento, participa de encontro com fins sexuais…) quanto informações que a definem de forma positiva e moderna: mulher de negócios, mulher que agencia transações comerciais e de investimento, contratos, acordos entre pessoas, entre empresas…

Ao veicular os valores de uma sociedade, compreende-se, conforme já discutido, que o dicionário constitui-se como discurso, que é, necessariamente, social, estruturado e reproduzido. Ele materializa-se como produto de determinadas formações discursivas que são produtos de determinadas formações ideológicas, resultantes do fato de que o homem está totalmente ligado aos valores históricos e culturais encontrados em sua sociedade. Essas formações ideológicas são os modos como cada grupo ou indivíduo vê e entende os fatos que ocorrem ao seu redor, ou seja, sua “visão de mundo” que é reproduzida pela linguagem. Esta, por sua vez, é conduzida pelos fatores ideológicos diferenciados nas práticas socioculturais, portanto, definida e estabelecida por produzir uma visão de mundo que impõe ao homem certo modo de distinguir a realidade.


2 No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos) diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva. (FOUCAULT, 2008, p. 43).

REFERÊNCIAS

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FONSECA, Márcio Alves. Michel Foucault e a constituição do sujeito. São Paulo: EDUC, 2003.

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 7 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

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FOUCAULT, Michel.. Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas de Pensamento. Vol. II. Tradução de Dits et écrits: Manoel Barros de Motta. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

FOUCAULT, Michel. Problematização do Sujeito: psicologia e psiquiatria. Vol. I Tradução de Dits et écrits: Vera Lucia Avelar Ribeiro. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999.

HOUAISS, Instituto Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

PEQUENO DICIONÁRIO BRASILEIRO DE LÍNGUA PORTUGUESA. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S. A., 1964.

POSSENTI, Sírio. Os limites do discurso – ensaios sobre discurso e sujeito. Curitiba, PR: Criar Edições, 2004.

NUNES, J. H. Dicionários no Brasil – Análise e História da Século XVI ao XIX. São Paulo: Pontes, 2002.


1 Doutora em Letras-Linguística. Bacharel em Direito e pesquisadora em Teorias Críticas do Direito. Professora na Universidade Estadual de Goiás. Email: odalia.bispo@ueg.br